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História Polly - Capítulo 1


Escrita por: Nikkmoon

Notas do Autor


História originalmente escrita por mim em 2013, e após ser revisada e aprovada pelo @ Eluviah, trago-a de volta a plataforma.
A Música Polly, que serviu de inspiração, dá titulo e compõe o texto é de autoria do Nirvana, todos os direitos reservados a banda.

Para os que desejarem ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=YHnnWYqq0yw

Boa leitura.

Capítulo 1 - Dirty wings


Dirty wings

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Polly quer um biscoito
Acho que devo sair de cima dela primeiro

 

Aos oito anos não tinha noção – ou pelo menos fingia não ter –, não sabia estar lhe fazendo mal. Minha intenção nunca foi machucá-la, pelo menos não conscientemente. Queria cuidar-lhe, à minha maneira, ao menos no começo.


Acho que ela quer água
Para apagar o maçarico

 

Ganhei Polly no meu oitavo aniversário, um presente carinhoso de minha avó. “Vocês se parecem”, foi o que disse, comparando a cor amarelada das penas do pássaro com o tom dos meus cabelos. Depois descobri não ser nossa única característica em comum.


Não sou eu?
Pegue uma semente

 

Para minha mãe o pássaro não passava de um grande estorvo. “Vai sujar a casa toda!” Repetiu constantemente, tentando fazer-me desistir do presente inúmeras vezes. Eu neguei todas as vezes, com mais determinação do que seria possível a mim. Entenda, não era uma criança de muitos amigos, ou muito menos persistente... Como poderia me livrar de algo parecido comigo?

Minhas birras foram eficientes e Polly ficou, por um preço: “Você vai cuidar, alimentar, limpar a sujeira. Entendido? Mas antes, precisamos cortar suas asas”. Aquilo me aterrorizou. Cortar suas asas? Polly era um pássaro, os pássaros têm asas para poderem voar. Então meu pai me explicou: “Temos que cortar para que, caso escape da gaiola, não voe para longe”.


Deixe-me cortar
Suas asas sujas
Deixe-me dar uma volta

 

Vi as penas claras das pontas de suas asas serem cortadas. Polly não emitiu um único som durante o processo, parecia conformada. Não houve sangue, como temia, no entanto, foi como se ela sangrasse naquele instante até a morte.


Corte-se
Quer ajuda?
Agrade-me

 

Depois da ‘poda’ enfiaram-lhe dentro de uma pequena gaiola de metal. “Ela precisa de uma casa” disseram. Aquilo não parecia uma casa, parecia-se mais com uma prisão. E como em uma prisão, Polly foi isolada. Queria ficar com ela em meu quarto, meu presente  deveria ficar junto de mim, mas a levaram para o sótão. A gaiola de metal foi amarrada ao teto perto da pequena janela, para que Polly pudesse ter seus banhos de sol em sua cela.


Tenho um pouco de corda
Você foi avisada

 

Lembro-me que quando peguei Polly pela primeira vez das mãos de minha avó, tive medo. Medo de derrubá-la, de machucá-la com minhas mãos de criança, medo que ela me machucasse. Porém, ela nada me fez, apenas bateu as asas, e antes de poder voar de minhas mãos, foi pega. “Polly não lhe fará mal, será sua amiga, por isso cuide sempre dela” disse minha avó com seu sorriso vago.


Eu te prometi
Era verdade
Deixe-me dar uma volta

 

Antes de partir – para não mais voltar – minha avó ainda repetiu o mesmo do começo: “Vocês têm muito em comum, verá. Polly é um pássaro inteligente, vai aprender a falar e lhe contará historias”. Polly nunca disse uma palavra em sua curta existência.


Se corte
Quer ajuda?
Agrade-me

 

O caso foi que: fiquei obcecado pelo pássaro. Ela era minha amiga, MINHA AMIGA. Todos os dias, depois da escola, ia visitá-la. Largava minha mochila e muitas vezes não terminava o almoço, saia correndo para o sótão. Aquele lugar horrível, cheio de coisas velhas, possuía uma única lâmpada que não funcionava bem, por conseguinte, os filetes de sol que adentravam pela janela de Polly acabavam por iluminar-lhe e a mim.

A falta de luz não me impedia de sentar no chão e admirá-la por horas. Observava, aguardando as histórias que minha avó prometera que seriam contadas, mas nunca foram. Talvez não estivesse fazendo a coisa certa... Óbvio, nunca lhe ensinei nenhuma palavra, como poderia esperar uma história? Foi quando decidi fazer-lhe um agrado, levei um biscoito. Ela negou. Enfiei o biscoito entre as grades da gaiola sempre fechada. Polly olhou, abriu seu pequeno bico amarelado e me deu as costas. No outro dia insisti, ela negou. “Polly, diz biscoito” falei, tentando incentivá-la a pegar a guloseima e decorar a palavra para repetir. Não funcionou. 

No dia seguinte levei mais um biscoito e enfiei entre as grandes, repetindo a palavra. Ela beliscou um pedaço da massa e nada disse. Continuei a levar os biscoitos, e Polly apenas beliscava-os, virando-me as costas em seguida. Uma pilha de biscoitos formou-se em um canto do sótão, a frustração tomava conta de mim. Dias depois, furioso, peguei mais um biscoito e o pus perto da grade, Polly se aproximou, abriu o bico para arrancar-lhe uma migalha, mas antes de fazê-lo, empurrei o biscoito com força em sua direção e gritei: “Polly, diz biscoito!”.


Polly quer um biscoito
Talvez ela queira comer mais

 

A gaiola se desprendeu da corda e Polly caiu ao encontro do chão repleto de formigas, por causa dos biscoitos, emitindo pela primeira vez um som, um gralhar de dor. Aquele foi meu primeiro momento de desespero com Polly, e não seria o último. A queda apareceu ter lhe machucado, não se mexia. Corri para a garagem, uma descida atrapalhada em que meus pés pareciam ser ambos esquerdos. Apanhei as chaves e voltei aos tropeços ao sótão. Polly continuava quieta no chão. Abri a gaiola com as mãos trêmulas, tomando-a cuidadosamente entre os dedos. Ao sentir meu toque Polly reagiu e contorceu-se. Tirei-a da gaiola e a pus no chão. Ela não me olhou, apenas levantou e afastou-se da gaiola caída. Tentei tocá-la, ela esquivou, não parecia querer voltar. Foi então que, mais uma vez, me deu as costas e começou a bater as asas.


Ela pediu para que a solte
Uma caçada seria legal para alguns

 

“Se não cortar as asas ela voa e foge”. Desesperei-me ao ver sua tentativa de voo torto. Pulei em cima dela e a coloquei com violência de volta na gaiola, trancando-a. Polly não fugiria de mim! Era parecido comigo, não era? Então continuaria comigo.


Não sou eu?
Pegue uma semente

 

Após o incidente parei de levar a guloseima, nem tentei ensinar-lhe nenhuma palavra. Continuava a ir vê-la diariamente, passando a tarde a observá-la, podendo tê-la mais perto. Depois da queda não consegui prender a gaiola na corda, empurrei uma caixa para junto da janela, usando-a de apoio para seu cárcere dourado. E se antes levava biscoitos para Polly, passei a carregar uma tesoura e deixar a chave de sua casa em meu bolso.


Deixe-me cortar
Suas asas sujas
Deixe-me dar uma volta

 

Com a tesoura sempre em mãos, continuava a cuidar do pássaro. Trazia suas sementes e água, limpava a gaiola, sem jamais tocá-la. Se antes passava apenas as tarde em sua companhia, as noites também foram ocupadas por ela. “Polly é um pássaro inteligente” e se fosse mesmo, poderia abrir a gaiola e fugir, não permitiria que isso acontecesse.


Corte-se
Quer ajuda?
Agrade-me

 

Apesar do meu zelo, Polly não parecia feliz, pelo contrário. Fugia do sol, ficava sempre no canto menos iluminado da gaiola, sempre de costas para mim. Um dia, parou de comer as sementes. Foi quando entendi, ela me odiava. O que eu poderia ter feito de errado, além de querê-la bem?

Dentro de dois meses comecei a faltar às aulas, não sabia o que Polly fazia quando não estava presente, precisava observá-la. “Bryan, porque você faltou à aula? Bryan, você não sai mais de casa, o que está acontecendo?” Nunca respondi a nenhuma das perguntas de minha mãe, meu único interesse resumia-se em ver Polly. Sim, minha obsessão, embora a  pouca idade, chegou a um nível assombroso. E por quê? Éramos parecidos.


Tenho um pouco de corda
Você foi avisada
Eu te prometi
Era verdade
Deixe-me dar uma volta

 

Mesmo antes de ter Polly, passava boa parte do meu tempo em casa. O menino solitário. Sem irmãos, sem amigos, sem companhia. E saber que existia algo semelhante a mim, deixava-me completamente abismado. No entanto, os dias ao seu lado apenas me mostraram quão grande era sua tristeza.

Quando se é criança espera-se que um bichinho de estimação traga-lhe alegria, isso nunca aconteceu entre nós. Éramos infelizes.


Se corte
Quer ajuda?
Agrade-me

 

Meu aprisionamento ao sótão úmido deixara-me doente. Mesmo fatigado e enfermo não deixei de ir ao seu encontro. Dentro de sua casa de metal, Polly também parecia doente. Se antes passara a rejeitar as sementes, nem a água bebia e deixei de limpar sua gaiola. Estava fraca, magra, mas as penas de suas asas pareciam ter crescido novamente.

Em um dos meus piores dias, quando a febre me atacara e eu fugira da cama para sentar mais uma vez no chão frio e sujo – com a tesoura sempre posta ao meu lado – para observá-la, tive a impressão de ouvi-la falar. Pela primeira vez em dias, vi Polly se mexer na gaiola, um sutil movimento de suas finas pernas alaranjadas a virar o corpo. Suas penas ergueram-se, e um pedido mudo foi expelido por seu pequeno e quebrado bico.


Polly disse …
Diz que suas costas doem
Ela está tão aborrecida quanto eu

 

Eu não havia notado a falha em seu bico, provavelmente causada pela queda de outrora. E fora por aquela rachadura que a ouvira? Talvez minhas memórias estejam distorcidas, ou a febre da doença tenha me feito delirar, mas não pude ignorar. Levantei e tirei a chave da gaiola do bolso. Abri a portinha com cuidado, Polly remexeu lá dentro, e pela primeira vez em 3 meses, olhou-me. Desengonçada e fraca caminhou para fora de sua cela, parando à beira do precipício que era o caixa que lhe servia de apoio. Parecia muito menor e frágil.

Mais uma vez ouvi o barulho, não parecia um canto de pássaro ou um gralhar, muito menos um gemido, parecia um pedido. Talvez Polly soubesse falar e eu não conseguisse compreender. O pedido emudeceu e os pequenos olhos negros de Polly fitaram a janela aberta, pela qual uma pequena fatia de lua podia ser vista, tornando-se a única luz no recinto. Inconscientemente estendi a mão em sua direção, queria acariciar as penas eriçadas do topo de sua cabeça, queria confortá-la. Mas Polly nunca aceitou minhas carícias e se esquivou assustada, abrindo suas asas de penas novas. Foi quando o desespero – ou o delírio da febre – me tomou por completo. Polly bateu as asas e planou no parapeito da janela. 

“Se não cortarmos as asas, ela voa e foge.” 

Apanhei a tesoura no chão, desesperado, quase me furei. Quando me ergui novamente, Polly estava a bater as asas, pronta para voar e deixar-me. Pela primeira vez não tive medo de machucá-la, agarrei-a com força, apertando o ossudo corpo entre minhas mãos. “VOCÊ NÃO VAI FUGIR DE MIM” gritei, uma mão a esganava e a outra, desajeitada, manejava a enorme tesoura. Uma pena, duas, três, quatro... Sangue... Polly não voaria para longe de mim, não voaria para lugar nenhum. Polly estava sem suas asas.


Ela me pegou desprevenido
Isso me surpreende, a vontade do instinto

 

Ainda hoje, 20 anos depois, sou capaz de sentir aquele cheiro. O sangue de Polly e sua morte impregnados em mim. Eu a matei, matei a única companhia que tive durante toda minha vida, e isso me matou durante todos esses anos. Subir nesse sótão novamente e ver que a mancha feita no chão por seu corpo mutilado ainda existe, matou o resto que acreditava que não existia mais.


Não sou eu?
Pegue uma semente

 

Foram necessários 20 anos para entender o que minha avó, naquele aniversário, quis dizer com sermos parecidos... Se Polly viveu triste, eu também vivi. Após seu assassinato minha vida passou em um borrão. Entre psicólogos e estudos, vivi sozinho. O sótão se tornou um lugar proibido e minha nova prisão tornou-se o colégio. Um colégio interno, para que no futuro uma vaga em uma cadeira de faculdade de direito me fosse reservada. Apanhei, errei, fui expulso. Se a prisão de Polly foi sua gaiola, a vida tornou-se a minha. Fui enclausurado por desejos que não me pertenciam.


Deixe-me cortar
Suas asas sujas
Deixe-me dar uma volta

 

Passei anos tomando remédios que deveriam me ‘ajudar’, e de nada adiantaram. Nunca fui capaz de corresponder às expectativas de meus pais, entretanto, eles conseguiram me jogar dentro da faculdade. Aprendi o que não sei, tendo tudo enfiado goela a baixo. Passei boa parte do meu tempo sem falar com ninguém, minha língua fora arrancada com “tudo que você diz está errado”.


Corte-se
Quer ajuda?
Agrade-me

 

Agora, tenho um emprego medíocre e herdei a casa de meus pais. Não me casei, nunca amei ninguém, talvez meu único amor tenha sido Polly. A Polly que me odiou. A Polly que matei desde o momento que ganhei. E foi Polly quem me assombrou por tanto tempo. “Vocês são parecidos”. Nos tornamos idênticos. Polly teve suas asas tiradas de si, seu canto e sua felicidade, deixou de ser verdadeiramente um pássaro para que eu ganhasse um presente. Eu nunca tive nada a não ser ela, e eu mesmo a tirei de mim; e o que eu poderia um dia ter, me foi arrancado antes que eu pudesse um dia sonhar. Mas, dessa vez, faria algo por vontade própria. 

Encontrava-me de pé, em cima da caixa em que um dia Polly esteve.


Tenho um pouco de corda
Você foi avisada
Eu te prometi
Era verdade
Deixe-me dar uma volta

 

A corda que um dia prendeu sua gaiola ainda estava presa ao teto. Grande o suficiente, me serviria bem. Fiz um nó firme e mais outro, deixando um laço grande o bastante para passar minha cabeça por ele. Eu estava a um passo de fazer algo que realmente desejava, e ninguém me impediria.

A noite tomava o céu, a janela aberta como sempre, meu fim seria como o de minha única amiga. Poderia me lançar pela janela, como ela tentou fazer, mas não me considerava digno de tal ato. Ali dentro, em silêncio, era o meu lugar. Nunca fui livre.

Passei a cabeça pelo laço, que pendeu perfeitamente sobre meu pescoço. Olhei em volta, ninguém sentiria minha falta e provavelmente levariam dias para me encontrarem. O fracasso de uma vida não vivida, não causaria pesares a ninguém.

Suspirei pela última vez. Meus pés empurraram a caixa vazia para trás, não encontrando o  chão, suspensos. Voei como Polly nunca pode fazer.


Se corte
Quer ajuda?
Agrade-me

 


Notas Finais


Espero que tenham gostado.
Comentários são sempre bem vindos.
Nos vemos na próxima.


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