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História Ponte de memórias - Capítulo 1


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Notas do Autor


Olá, essa é uma one shot para o segundo dia da #ShippWeek2020 no Twitter, com o tema de separação. Espero que gostem <3

Capítulo 1 - Capítulo único


Numa pequena cidade do interior de um país distante, havia uma ponte. Eu digo “havia” pois a história que estou prestes a contar aconteceu há muitos anos atrás e é incerto se tal ponte continua lá. 

Alguém que passe por ela diria que não há nada de especial nessa ponte. É uma simples passagem de tábuas de madeira para pedestres, cercada por uma pequena mata selvagem. Um curto riacho corre por debaixo dela, fazendo um agradável chiado. E as crianças e jovens da região passam por ela todo dia para ir e voltar da escola. 

“Odasaku”, Dazai chamou com um tom suave. Ele, Osamu Dazai, e Oda Sakunosuke estavam sentados lado a lado na pequena ponte, de pés descalços, sentindo a gelada corrente de água aliviar o calor daquelas férias de verão. Eles namoravam há anos. Ambos haviam nascido e crescido juntos, naquele pequeno e isolado pedaço de terra que, para eles, era o mundo todo. 

A família Sakunosuke era uma tradicional da região: cultivavam o seu não-muito-grande campo, alimentavam as suas galinhas, ordenhavam as suas vacas.Todo dia Oda acordava às cinco da manhã, tomava o seu café com o pão caseiro que a sua mão sempre fazia de bom grado, e ia cuidar da fazenda do seu pai. Colhia ovos, tirava leite, ajudava a limpar a casa. Depois tomava banho e ia para escola. Não podia ser considerada uma vida gloriosa, porém era uma vida honesta e boa. Oda era feliz ali e pretendia assumir a fazenda quando o seu pai achasse que ele estivesse pronto para tal.

Fazia parte da sua rotina, também, desviar-se do caminho da escola para passar na casa de Dazai. Este era um hábito que Oda adquiriu pois sentia-se obrigado a acordá-lo. Se ele não o fizesse, Dazai reprovaria de ano por falta, como quase aconteceu algumas vezes antes. Oda batia na porta e a mãe de Dazai a abria com um sorriso no rosto.

 “Bom dia, Oda! Acabei de passar o café, senta um bocadinho pra comer um pão.” 

“Bom dia, senhora.”  Oda respondia o mais aducado possível. “Hoje não posso, também estou um pouco atrasado. Só vim ver o seu filho.” 

“Ele tá dormindo ainda.” Oda então pedia licença e seguia para o quarto de Dazai. Eram raras as ocasiões em que ele já estava de pé e vestido quando Sakunosuke abrisse a porta. Oda balançava-o com cuidado e chamava o seu nome.

“Tá bom, tá bom, já tô indo.” Dazai acordava sonolento, porém se levantava e se vestia sem protestos.

“Quando você vai aprender a colocar um despertador?”  Oda ficava sentado na cama esperando o namorado ficar pronto. 

“Quando você deixar de me vir me acordar.” Dazai respondia. 

“Então acho melhor eu parar de vir.” Mas ele nunca parou.

 Dazai então pegava um pedaço de pão da mesa, dava tchau para a sua mãe e corriam os dois para a escola. Eles estudavam na mesma turma e passavam os intervalos sempre juntos. Na volta para casa, às vezes paravam para sentar na pequena ponte e apreciar a fresca água daquele riacho. Aquela rotina era tudo o que conheciam desde de sempre, por anos. E durou até Oda terminar a escola um ano antes que Dazai. 

“Hmm” Oda respondeu com um gemido preguiçoso, apenas para sinalizar que estava ouvindo.” Embora não fosse mais à escola, Oda e Dazai sempre marcavam de se encontrarem na ponte na hora do almoço e aproveitar a presença um do outro.

“Você lembra do dia que eu me declarei pra você?” Dazai perguntou.

“Foi há muito tempo atrás, a gente tinha uns 13 anos né?” Oda respondeu sem olhar para o homem do seu lado, observando o azul do céu. 

“Uhum” Dazai afirmou. 

“Nossa, foi há muito tempo. Cinco, seis anos…” Oda começou a sentir-se nostálgico. Ele lembrava bem de como Dazai sempre esteve do seu lado, mesmo antes de assumir os seus sentimentos. Eles faziam tudo juntos, desde de almoçar e estudar até a cuidar do bichos e brincar fora de casa. Na escola sentavam um do lado do outro, e quando havia trabalho em dupla sequer precisavam perguntar se iriam fazê-lo juntos.

No dia em que Dazai confessou os seus sentimentos Oda tinha 14 anos e Dazai 13. Eles estavam no quarto de Sakunosuke e Dazai não parecia prestar atenção no jogo de cartas que estavam jogando. Várias vezes Oda teve que trazer Dazai de volta para a realidade para que pudessem dar continuidade a brincadeira. Quando, de repente, Dazai se declarou. 

“Odasaku, eu gosto de você.” Dazai disse diretamente e em bom som, sem sequer gaguejar.

Oda não prestou atenção àquela simples declaração. “Sim, Dazai. Eu também gosto de você.” 

“Não, eu gosto mesmo de você” Ele disse com o olhar mais sério que Oda já tinha visto. “Eu gosto tanto de você que eu quero passar o dia todo com você, eu quero segurar a sua mão e te abraçar toda hora. Quando eu estou sozinho, eu não consigo parar de querer que você estivesse do meu lado. Quando eu penso que ninguém nesse mundo me ama de verdade, o seu rosto aparece na minha mente e eu sinto um calor aconchegante no meu peito. Quando você está comigo eu sinto meu coração bater tão rápido que eu tenho vontade de arrancar ele fora, e quando você não está, ele dói tanto que eu também queria pode enfiar a minha mão no meu peito e acabar com a agonia de uma vez.”  

Dazai disparou aquelas palavras e elas acertaram Oda como dardos, deixando-o sem reação.  “Dazai, eu…” 

Dazai se jogou para frente e apoiou o seu corpo com as mãos em cima das cartas, bagunçando todo o jogo. Eles agora estavam mais próximos, e Dazai podia olhar nos olhos no menino na sua frente. “Odasaku, eu te amo.”  

Após dizer isso, Dazai afastou o seu corpo novamente. Ele sentou com as costas curvadas. A confiança que ele tinha há segundos atrás pareceu esvair-se no ar. 

“Mas você não precisa gostar de mim de volta.” a sua voz estava consideravelmente mais baixa. “ Eu só falei tudo isso porque achei que eu ia morrer sufocado se guardasse pra mim por mais tempo. Eu não quero que você me ame de volta, ter você como amigo já é suficiente” 

O coração de Dazai batia de uma maneira que ele nunca tinha sentido antes, e a sua vontade era sair correndo e se esconder embaixo dos lençóis da sua própria cama. Mas algo o prendia ali, sentado no chão com as suas mãos tremendo e com dificuldade para respirar. Quem o visse diria que ele parecia um cãozinho assustado.

“Eu…” Oda começou a falar incerto. “ Eu acho que também gosto de você, Dazai.” 

“O quê?” Dazai arregalou os seus olhos. De todas as respostas que ele imaginou receber, aquela era a menos provável.

“Eu também gosto de você. Eu sinto a mesma coisa. Quando você tá longe eu sinto um desconforto enorme e só desejo que eu pudesse ficar do seu lado o dia todo, todo dia. Eu não sabia o que era esse sentimento, mas agora que você falou, tudo fez sentido. Eu gosto de você.” Ele disse a última frase com a excitação de uma criança que acabou de descobrir algo que os adultos consideram óbvio.

As lágrimas que Dazai segurava com toda a sua força de vontade atrás dos seus olhos encontraram o seu caminho para fora e deslizaram pelas suas bochechas. Um sorriso surgiu no seu rosto. Oda nunca vira Dazai tão feliz, e nunca mais veria novamente. 

“Odasaku” Dazai chamou novamente. Inconscientemente ele ainda falava o nome do namorado do mesmo jeito de quando eles eram apenas dois meninos. 

“Sim.” Ele finalmente virou-se para encarar Dazai. “O que foi?” 

“Você lembra o que eu disse naquele dia?” 

“Mais ou menos.” Sinceridade sempre fora uma das características que Dazai mais admirava em Oda.  “Por quê?” 

“Eu disse que te amava. E pra ser sincero, desde aquele dia o meu amor por você só cresceu. Hoje eu te amo mais do que eu te amei ontem, e amanhã eu vou te amar mais do que eu amo hoje.” 

Silêncio se instalou no local e o som da água era a única coisa que fazia barulho ali.

“Por que você tá falando isso agora?” Oda perguntou genuinamente confuso. Dazai raramente expressava os sentimentos dele daquela maneira, ele sabia que algo não estava certo.

“Hmmm…” Dazai pareceu ponderar sobre a pergunta. “Não sei, eu só tenho pensado muito nas coisas que mudaram e não mudaram desde aquela época. Sabe outra coisa que não mudou?” 

“O quê?”  Oda ouvia atentamente cada palavra proferida por Dazai.

“O fato que eu odeio esse lugar, e esse lugar também me odeia.” 

“Não fala assim, Dazai. Não é que te odeiem, é que...” 

“Odeiam, e você sabe que odeiam. As pessoas aqui me tratam como se eu sequer fosse humano. Meu pai me despreza e me humilha todo dia pelas razões mais idiotas. Ontem ele pediu um copo de água e quando eu fui entregar, ele recusou dizendo que não queria ser servido por um viado. Ele bateu na minha mão e jogou o copo no chão, enquanto a minha mãe se fez de surda e muda. As pessoas na cidade sabem que essas ataduras não são de enfeite, e não fazem nada. Antes, quando eu tentei pedir ajuda, a única pessoa que me ouviu foi você.”  Não havia raiva na voz dele, apenas uma apatia sufocante à quem o ouvia.

Oda ficou em silêncio. Ele sabia que as coisas listadas por Dazai eram todas verdade e conhecia-o o bastante para saber que tentar confortá-lo agora apenas o irritaria. 

“É por isso…” Dazai esticou a sua mão e a pôs em cima da de Oda. “ que eu vou sair daqui, e eu queria que você fosse comigo.” Ele disse com o tom mais doce possível. 

“O quê?” Oda assustou-se. “Você vai sair daqui?” 

“Eu fiz a prova de admissão e passei. Consegui uma bolsa numa faculdade na capital.” 

“Dazai, isso é incrível!” Ele estava verdadeiramente feliz e orgulhoso por Dazai. Ele o abraçou e o beijou. “Parabéns! Eu nunca duvidei que você pudesse conseguir.” 

“Obrigado.” Dazai sorriu, deliciado com os elogios. ‘’Mas então, você vem comigo?”

“Dazai, eu…” Oda desviou o olhar. “Eu não posso.” 

“Como assim “você não pode?”” Dazai parecia um pouco irritado com a resposta. 

“Eu não posso, eu tenho a fazenda para cuidar. Eu não posso sair daqui.” 

“Você não pode ou você não quer?” 

Oda ficou em silêncio. 

“Entendi. Você não quer.” Havia certa decepção na voz de Dazai. “Eu sei que esse lugar é tudo o que você conhece, e eu sei que você ama viver aqui. Mas você nunca pensou que existe um mundo todo além daquele pequeno campo e algumas galinhas?” 

“Dazai, aquele pequeno campo e aquelas galinhas são minha responsabilidade, a minha família depende de mim.” Oda tentou mostrar o seu ponto de vista.

“Não,” Dazai disse firmemente “é responsabilidade do seu pai! Ele é o titular da propriedade, é dele que você e a sua mãe dependem. Você não tem responsabilidade nenhuma. A gente pode ter uma vida boa lá, Odasaku! Uma vida nova, só eu e você. ” Dazai sorria com o simples pensamento de poder viver uma vida livre do lado do homem que ele amava.

“Não é assim tão simples, Dazai.” Oda já começava a ficar irritado. 

“O teu pai te trata como escravo, Odasaku! Você quase trabalha até a morte, sendo que ele tem condições de pagar alguém pra te ajudar, mas prefere ficar no barzinho da cidade bebendo até cair pra trás.” 

“E é por isso que eu não posso sair daqui, Dazai!” Oda aumentou o seu tom. “Se eu for embora, quem vai cuidar da fazenda? Quem vai cuidar da minha mãe?” 

“Você podia simplesmente trabalhar na capital e pagar alguém pra ficar com ela aqui. Eu também vou trabalhar, eu vou te ajudar! Você não ia carregar esse fardo sozinho!” 

“Você vai estudar, não vai ter tempo para trabalhar.” ele disse seco.

“Muitos estudantes trabalham e estudam ao mesmo tempo, não é nada novo. Tenho certeza que consigo. E você não precisa abandonar a fazenda, você pode sempre vir visitar, a capital fica só a 4 horas daqui.” 

“Você faz parecer tão fácil,” Oda riu incrédulo. “Sempre fantasiando e nunca fazendo nada na vida real.”

“O que você quis dizer com isso?” Agora Dazai parecia realmente afetado. 

“Eu quis dizer, que você sempre tem um plano pra tudo e sempre diz que consegue, mas quando chega a hora de pôr ele em prática, você joga tudo nas mãos de outra pessoa.”

“Isso não é verdade!” Dazai falou furioso. “Eu consegui a bolsa, não consegui? Eu estudei dia e noite pra conseguir isso. Eu não fugi de nada!” 

“Dazai, você só ia estudar quando alguém pedia a sua ajuda em alguma tarefa na fazenda. Você vivia usando isso de desculpa, pra não ter que trabalhar. ” 

“Se eu tinha que estudar de todo jeito, por quê não usar ao meu favor? Se chama ser esperto.”

“Se chama ser preguiçoso. Você nunca vai conseguir estudar e trabalhar ao mesmo tempo.” 

“E você nunca vai ser dono daquela fazenda! Ou você acha mesmo que aquele homem vai te dar alguma coisa? É mais provável que ele venda tudo pra comprar bebida e você e a sua mãe acabem na rua!”

“Você não sabe disso!” 

“Claro que sei. Qualquer um pode ver isso, só você que nega.”

Oda se levantou e pegou os seus sapatos que estavam do seu lado. “ Dazai, acho melhor a gente conversar sobre isso depois.”

“ODASAKU!” Dazai gritou se levantando. “Não tem depois! A gente vai resolver isso agora.” 

“Mas por que precisa ser agora?” 

“Porque eu vou embora amanhã…” 

“O QUÊ?” Oda não conseguia assimilar as palavras que acabara de ouvir. “Por que você não me disse isso antes?!” 

“Eu pensei que você iria comigo!” Dazai estava prestes a chorar, “Eu não achei que você nem ia hesitar em recusar!” 

“Eu sinto muito, Dazai, mas aqui é a minha casa. Esse lugar pode ter sido cruel com você, mas eu amo tudo isso aqui. Eu amo acordar cedo, eu amo cuidar dos animais, eu amo preparar a terra, eu amo preparar o jantar com a minha mãe ouvindo o rádio. " Tudo isso que Oda falava era o que ele sentia verdadeiramente. "Mesmo que nada disso nunca seja meu legalmente, meu passado e o meu futuro estão aqui. Eu não posso e nem quero ir embora daqui."

“Então você ama esse lugar mais do que você ama a mim?” Dazai tinha no rosto a expressão mais triste e dolorosa que Oda já tinha visto em qualquer pessoa. Ele pôde ver o momento em que a tristeza extrapolou os limites do corpo de Dazai e fugiu para o exterior em forma de lágrimas. 

“Dazai…” Oda se aproximou do homem na sua frente e tentou abraçá-lo, mas Dazai deu um passo para trás.

“Dazai, tente entender. Se ponha no meu lugar. Se fosse eu pedindo pra você deixar tudo que você ama para trás, sem mal ter tempo para se preparar, você iria?” O seu tom era carinhoso e gentil. 

Dazai olhou firme para Oda. A sua expressão agora, além de tristeza, possuía um relance de raiva. 

“SIM, EU IRIA! SE VOCÊ ME PEDISSE PRA DEIXAR TUDO PRA TRÁS, DO NADA, SEM UM PLANO OU MOTIVO, EU IRIA COM VOCÊ! E SABE POR QUÊ, ODASAKU? PORQUE EU TE AMO!” 

Oda ficou sem reação ao ouvir aquelas palavras. 

“Esse é o tanto que eu te amo!” Dazai dizia enquanto lágrima corriam pelo seu rosto. “Você é a pessoa mais importante do mundo pra mim. Eu iria pra onde você quisesse, quando você quisesse, se isso fosse te fazer feliz.” 

Oda continuava sem saber o que falar. Pela segunda vez na sua vida as palavras de Dazai acertaram-no deixarando sem reação. Mas diferente de quando ele tinha 14 anos, nada estava mais claro para ele. Pelo contrário, ele só via escuridão na sua frente e sentia uma dor imensa no peito esquerdo. 

“Eu sinto muito, Dazai. Eu realmente sinto.” Aquelas eram as únicas palavras que ele conseguiu falar. Ele não sabia se estava se desculpando por não ir para a capital com ele, por ter feito ele chorar ou por ser incapaz de retribuir os sentimentos dele na mesma proporção. “Me desculpa, eu sinto muito mesmo, eu…” 

“Eu também sinto.” Dazai disse se abaixando para pegar os seus sapatos e ir embora.

Oda ficou em pé, vendo as costas do seu companheiro se afastarem lentamente. Dazai, a pessoa que desde criança, nos momentos bons e ruins, esteve sempre com ele e quem ele pensou que sempre estaria no futuro também. Cenas de Dazai sorrindo passaram num flash pela sua mente, mas logo foram substituídas pelo seu rosto molhado por lágrimas e contorcido numa expressão de pura dor de momentos atrás. Ele sentou na ponte novamente, onde o som da água abafou o barulho do seu choro. 

Passaram-se cinco anos desde aquele dia, Oda nunca mais sequer ouviu o nome de Dazai. Depois de um ano, o pai dele morreu num coma alcoólico e ele herdou a fazenda. Logo conheceu uma bela moça, com quem casou-se e teve dois filhos. A vida corria bem para a família Sakunosuke quando a notícia de que a senhora Dazai havia falecido foi ouvida. Havia estado doente por muito tempo antes disso, e toda a gente da região foi prestar as suas condolências ao viúvo. Oda levou toda a sua família bem cedo no dia do fúneral, rezou pela alma da senhora que no passado havia o tratado melhor do que tratava o próprio filho, avisou a sua esposa que precisava ir embora e saiu daquela casa para nunca voltar. 

Na volta, ele decidiu passar pela antiga ponte, onde teve os momentos mais íntimos e pacíficos da sua vida e onde seu coração tinha se quebrado, deixando uma ferida que por tanto tempo ele achou que jamais se curaria. Quanto mais ele se aproximava do local, mais alto ficava o chiado da água corrente. Em pouco tempo ele estava de pé na ponta da ponte, vendo o perfil de um homem alto e esbelto com as mãos dentro dos bolsos do seu terno.

“Dazai?” Oda perguntou incrédulo. 

O homem levou um pequeno susto, como se tivesse sido acordado de um sonho. Ele virou-se e sorriu.

 “Olá, Odasaku.” 

O coração de Oda batia forte de choque e alegria. A pessoa que um dia foi a mais importante para ele, com quem ele havia falhado, quem ele achava que nunca mais iria ver, estava na sua frente o chamando de Odasaku novamente. Ele estava prestes a perguntar como Dazai estava quando uma criança saiu correndo do meio da mata e abraçou a perna do Oda.

“Papai, mamãe disse para eu vir atrás de você.” O menino de três anos explicou. 

“Só um minuto, meu bem, eu já vou.” Oda abaixou-se para falar com a criança.

“Seu filho, Odasaku?” A voz de Dazai ressoou, sem mostrar o menor sinal de qualquer emoção.

“Sim.” Ele virou-se novamente para o homem na sua frente. “ Dazai, esse é  o…” 

“Não precisa me apresentar a ele, Odasaku.” mais uma vez a voz de Dazai carencia de qualquer emoção. “Ele não precisa saber quem eu sou.” 

Oda não sabia como agir ou o que falar, ele queria chamar Dazai para comer algo na sua casa, pedir desculpas pelo o que tinha dito e feito no passado, dizer o quanto sentiu a sua falta nesses últimos anos, conversar por horas como antigamente. Mas Dazai não parecia sentir o mesmo. Na verdade, Dazai não parecia sentir nada, nem mesmo tristeza ou raiva, como no passado. 

“Eu só vim pra ver o corpo da minha mãe. Não pretendo passar muito tempo. Acho que amanhã de manhã você já não vai me ver por aqui.” Ele disse andando para frente e passando reto por Sakunosuke. 

“Adeus, Odasaku.” Dazai disse já atrás de Oda, sem parar de andar. Rapidamente a sua figura sumiu no meio da pequena floresta. 

“Adeus, Dazai.”  Depois de tantos anos, eles finalmente haviam dito adeus um para o outro. A voz de Oda não carregava metade do vazio que ele estava sentindo naquele momento.  Ele queria correr e agarrar Dazai pelo braço, fazer ele ficar, mas a criança nos seus pés o lembrava que ele não podia. Oda e Dazai não tinham mais nada para compartilhar, nenhum dos dois tinha o direito de fazer parte da vida do outro. Sakunosuke pegou o seu filho no colo e voltou para a sua casa e a sua família. Na manhã seguinte Dazai já não estava na cidade. Havia ido embora após o enterro sem ninguém ter visto e sem deixar nenhuma mensagem. Oda viveu uma vida confortável e feliz, sem nunca descobrir que destino Dazai teve.

 

No momento em que conto esta história, Oda Sakunosuke e Dazai Osamu não estão mais entre nós. As memórias dos dois juntos desapareceram do mundo com eles, e a velha e pequena ponte de tábuas foi esquecida para sempre.

 


Notas Finais


Obrigada de verdade por ler tudo. Espero mesmo que tenham gostado.


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