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História Por Acaso - Capítulo 2


Escrita por: amanur

Capítulo 2 - Capítulo 2


Por Acaso

Escrito por Amanur

Capítulo 2

...

 

Sabe aqueles ditados populares ordinários, que todo mundo repete? O meu favorito era aquele sobre conselhos. “Se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia!” Na faculdade, ainda aprendemos mais um monte sobre conselhos.

 

“Conselho de louco vale pouco.”

“Conselho de amigo vale um reino.”

“Conselho de amigo, aviso do céu.”

“Conselho de raposa, morte de galinha.”

“Conselho de vinho é falso caminho.”

 

E mais um monte de bobagens desse gênero. Por que é muito provável que a primeira coisa a ter sido dita a alguém, na história da humanidade, foi um conselho do tipo “Cuidado! Não vá por aí!” ou “Talvez fosse melhor cortar esse pedaço do tigre para comer”. A importância dos psicólogos na vida das pessoas era de nível vital. Não damos apenas conselhos; damos instruções de vida. Guiamos as pessoas a seguirem pelo melhor caminho! Percebes a importância que temos? Ainda mais nesta era da evolução tecnológica, com um monte de cacarecos para distrair pessoas desmioladas que estão mais preocupadas em ficarem bem na foto, para postar em alguma rede social, do que com as relações familiares.

 

Não que eu estivesse refletindo sobre isso por causa do Sasuke.

Na verdade, eu estava tentando persuadir a Karin a seguir meus conselhos.

 

— Estou te dizendo! Vai ser tiro-e-queda! Você só precisa se manter firme e forte no plano. — eu lhe dizia — Esqueça aquele papo de ir de vagar. Vá com tudo mesmo, coloque a boca no trombone! Mostre a ele quem manda, ou ele é quem vai colocar uma coleira no seu pescoço.

— Eu não sei, não... Você me garante mesmo que isso vai dar certo?

— Como eu disse, é preciso um pouco de paciência. Ele vai recusar, pode até querer se afastar de você, mas como eu disse, você deverá vencê-lo na base da persistência. No fundo, no fundo, homens gostam de ser controlados! É sério! Tem pesquisas que concluem isso! — lhe disse.

 

Bom, lá foi ela colocar em prática os meus conselhos.

No outro dia, ela retornou.

 

— Ele me odeia! — resmungou, frustrada.

— Eu disse que ele poderia até se afastar um pouco de você, não disse? Por enquanto, está tudo dentro do planejado. Agora, você vai começar a ligar para ele uma vez a cada hora do dia, e vai aparecer na casa dele sem avisar, também. Você vai ficar grudadinha no pescoço dele. Vai ser o chiclete na sola do sapato dele. A mosca que pousou na sopa dele!

— Não sei não...

— Eu sei, é complicado fazer isso quando o infeliz ainda mora com os pais... Mas você o escolheu, não foi?

— Tá, eu vou tentar...

 

Eu sabia que ainda iria pagar por isso. Também sabia que estava sendo mesquinha e má com a minha amiga. Mas isso era mais forte do que eu! Por que isso era algo que eu devia a minha eu de quatorze anos, entende? Eu devia isso a mim mesma, por todos aqueles anos na escola, aturando aquelas piadinhas e risadinhas em minhas costas. E, principalmente, eu fazia isso por todas as bolinhas de papel mascadas, cuspidas no meu cabelo!

 

Além disso, eu gostava de pensar nisso como um favor que estava fazendo a minha amiga, ao afastar aquele projeto mal sucedido de ser humano do lado dela.

 

Mas que a verdade seja dita, eu não conseguia deixar de sorrir ao imaginar a cara dele, sendo importunado pela namorada. Eu só lamentava por não poder filmar.

 

Então, uma semana depois, eu estava no meu consultório atendendo uma paciente — uma senhora de sessenta e tantos anos com leves sintomas de depressão —, quando um brutamontes invade a minha sala. E a minha secretária vinha atrás dele, apavorada, resmungando que não conseguiu segurá-lo.

 

— Faça-a parar com isso, agora! — ele apenas me disse. Assim, sem nem perguntar se eu estava ocupada ou não.

— Mas Sasuke, você não pode invadir o meu consultório desse jeito! Para falar comigo, você deve marcar um horário. Como pode ver, eu sou uma pessoa ocupada! — lhe digo, categoricamente.

— Vou repetir! Faça-a parar com isso, agora! — ele diz, sem se importar com o que eu acabara de dizer.

 

Suspirei, colocando os meus óculos de descanso sobre a minha mesa, e olhei para ele com toda a seriedade de um médico.

 

— Sasuke, você parece estressado. Ele não parece estressado, dona Tsunade?

— É sim, parece estressado mesmo. — minha paciente lhe disse, o olhando da cabeça aos pés.

 

Ele cruzou os braços, estreitando os olhos para mim.

 

— Se você quiser, posso reservar uma horinha para você, no final do dia. — ainda lhe disse.

— Ela é ótima! — e a dona Tsunade me apoiou.

 

Mas ele não ia dar o braço a torcer tão cedo. O que era óbvio, se tratando de machistas como ele.

 

— Você está fodendo com a minha cara; não pense que não sei o que você está fazendo! — ele resmungou, apontando seu dedo ameaçador para mim.

— Sasuke, por favor, olhe os modos. Bom, não me faça perder mais o tempo da minha paciente. Ela está pagando por essa consulta! Agora chispa daqui, sim?

 

Ele resistiu por alguns segundos, me fuzilando com aqueles olhos, mas recuou.

 

— Não esqueça que lhe avisei, Ku. — ainda disse, antes de bater a porta com força.

 

Morra.

 

Na verdade, eu estava andando e cagando para ele. Ser psicóloga tem lá suas vantagens. Por exemplo, graças aos meus conhecimentos sobre o comportamento humano, já não mais me estressava com certos tipos de pessoas. Por outro lado, me irrito profundamente com outros. Como aqueles que acham que sou uma conselheira ambulante, que vivem pedindo por opiniões sobre suas vidinhas sem graça.

 

— Sakura, você tem certeza de que sabe o que está fazendo? — a Karin me perguntou, noutro dia.

— Olha, você não tem ideia do quanto! — lhe disse, sorrindo.

— Não sei, não. Ele está me ameaçando de me deixar, porque não suporta esse grude todo. E ele sabe que isso é coisa sua.

— Aguente mais um pouco. Quando ele der esse ultimato novamente, você vira a mesa, e o coloca contra a parede. Aí, vai ser a vez de ele escolher se quer ficar sozinho com aquela mão ressecada e áspera que tem para consolar o Sasuke Junior sozinho; ou ficar com você, com todo o seu grude. Afinal, é isso o que você quer, não é mesmo? Você não quer um homem mais romântico? — ela fez que sim, com a cabeça — Então!? É você ou a mão dele! Ele vai ter que escolher. Mas se ele gosta mesmo de você, ele vai escolhê-la. Agora vá fazer a suas unhas, e me deixe em paz! Não quero mais saber desse cara.

 

Mas eu estava apenas me iludindo, porque é claro que aquele assunto não acabaria ali.

Dois dias depois, o maldito teve a cara de pau de aparecer na porta do meu apartamento.  Repito: DO MEU APARTAMENTO! Pois é. Assim que abri a porta, um mundaréu de cacarecos caiu sobre os meus pés, de dentro da caixa de papelão que ele carregava nas mãos.

 

Olhei para aquele monte de tralha. Cds, porta-lápis, bonés, uma camiseta de time de futebol, um bloco de anotações, dois livros, frascos de cremes para barbear, uma caixinha de incensos, duas barras de chocolate, isqueiros, cigarros, uma carteira, cinco chaveiros, um marcador de páginas, duas canetas, um alicate de unhas, três pacotes de meias e um de cuecas, e mais um gel para cabelos.

 

— E eu nem fumo! — ele disse.

— Que merda toda é essa? — perguntei.

— Bom, essa merda toda são presentes que a sua amiga comprou para mim em menos de um mês.

— Legal. Mas se é todo seu, leve-os de volta!

— Ahhh, não! São seus. — ele disse, e ainda sorriu — Pelo favor que está nos fazendo de nos separar.

— Bom, eu fico com os chocolates, obrigada, o resto pode levar. — me agachei para pegar as barras, e sorri também.

 

Mas quando voltei a encará-lo, ele mostrava os dentes não mais num sorriso, mas numa espécie de preparo para morder.

 

— Mantenha a distância, por favor, por que não estou vacinada contra raiva!

— Eu avisei, Sakura! Vou te devolver tudo em dobro! Não duvide da minha capacidade de azucrinação!

— Acredite, eu nunca duvidei. — resmunguei entre os dentes, me lembrando do passado.

— Que bom, sua Ku de merda! — ele ainda me xingou , me dando as costas.

 

Ah, e ainda deixou toda aquela tralha na minha porta. Mas até aí, tudo bem, eu achava que ele iria apenas ficar nessa picuinha de trazer as tralhas da Karin na porta do meu apartamento, e, talvez, me incomodando no meu consultório.

 

Só que eu deveria ter realmente levado a sério a sua ameaça.

Não sei como, ele conseguiu entrar no meu condomínio, passar pelo porteiro, e jogar tinta cor de rosa no meu carrinho branco. Era tinta guache, pelo menos, mas fiquei pensando no dinheiro que ele deve ter gastado para comprar tantos frascos de tinta guache só para me importunar.

 

Num outro dia, ao sair do meu condomínio, me deparei com uma faixa que ele pendurou entre dois postes de luz bem em frente ao meu prédio.

 

“KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU KU. ” — estava escrito, bem grande, em tinta cor de rosa.

 

Outro dia, ele jogou um sacolão de lixo na frente do meu consultório também. Sem falar nas constantes ligações que ele fazia para o meu celular, de diferentes números, só para me dizer.

 

— Como está sendo o seu dia, Ku? — ou — Bom dia, Ku, não esqueceu de lavar bem atrás da orelha hoje? Não se esquece de lavar o “Ku” também! — ou ainda — O que é, o que é, um ponto rosa com um núcleo escurinho, meio enrrugadinho? É o Ku!

— Você realmente gosta de um cu, não é? — respondi.

— Olha, você não tem ideia! Adoro botar a boca num “Ku”.

— Eu vou te denunciar para a polícia. Você já está passando dos limites. — falei.

— Não, você não vai fazer isso, porque não quer perder a amizade da sua amiga.

— Quem disse que vou perder a amizade dela?

— Há quanto tempo você não fala com ela?

 

Pensei. Realmente, fazia umas duas semanas, desde a última vez.

 

— E daí?

— E daí que ela já está bem incomodada com os seus preciosos conselhos. — havia tanto sarcasmo em seu tom de voz, que eu poderia morrer de pressão alta causada pelo estresse que aquilo me dava — Aposto que você não esperava que o feitiço virasse contra a feiticeira, não é mesmo? — e desligou.

 

Bom, o que mais posso dizer? Era de se esperar, mas a burrona aqui não se deu conta.

Acabou que tive que ir na casa dela com uma caixa de chocolates (de sua marca favorita — e diga-se de passagem que não era das mais baratas, e mais dois pares de brincos de ouro) para lhe pedir desculpas.

 

— Eu aceito os brincos, mas pode levar os chocolates! Não quero engordar antes de me casar! — me disse.

— Olha, Karin, eu juro que não fiz por mal... — resmunguei.

— O chocolate, ou os concelhos?

— Os concelhos. — revirei os olhos — Tenho certeza de que, como a garota inteligente que você é, já ouviu falar em psicologia reversa, não é mesmo? — ela fez que sim com a cabeça — Então?! Foi isso o que tentei fazer. Mas realmente, a coisa não funciona do mesmo modo para todo mundo. A psicologia é realmente uma ciência muito complexa e complicada. — concluí.

 

Na verdade, eu estava vomitando um monte de lorota em cima da minha amiga, porque aquilo não tinha nada a ver com psicologia reversa, mas ela não precisa saber disso.

 

— Na verdade, sabe o que eu acho? — ela comentou — Eu acho que vocês dois tem problemas a resolverem. Vocês deveriam sentar num mesa de bar, e chorarem todas as pitangas que guardam um do outro.

— E eu acho que você está bêbada.

— Tem certeza de que é uma psicóloga?

— Vai à merda.

— Vai você! Até quando pretende ficar nessa pirraça com o meu namorado? Quando é que eu vou poder sair com ele, levando minha melhor amiga junto? Eu gostaria muito de poder fazer isso, sabia?

— Bom, eu gostaria muito de poder morar em outro planeta, mas tenho que conviver com o fato de que não posso, e daí?

— Sakura...

 

Suspirei.

 

— Tá, tá...

 

Odeio quando ela tinha razão. Afinal, a psicóloga era eu. Quem entendia de relacionamentos era eu! Não era?

 

Pedi o número do celular dele, e liguei para o cara.

 

— Estou ligando para pedir uma trégua. Mas saiba que faço isso somente porque a Karin me exigiu. — lhe disse, assim que atendeu.

— Hum.

— Não pense que venceu a guerra, Sasuke, porque essa foi apenas a primeira batalha de muitas que ainda estarão por vir! — ainda remendei. E recebi um beliscão da Karin.

 

Ele soltou uma risadinha, do outro lado do telefone.

 

— Ok, veremos quem vai ganhar essa guerra! — ele disse, em tom de desafio.

— Não se preocupe, Sasuke. Eu vou ganhar! — eu disse, bastante convicta. Afinal, eu era mais inteligente do que ele, tinha pós-graduação em psicologia. Mexer com a cabeça dos outros era o meu forte!

 

Outra risadinha medonha.

 

Enfim, saímos para jantar, num outro dia. Digo, eu, a Karin, o Sasuke, e o Itachi também, porque a Karin achou que seria legal se saíssemos de quatro. Digo, em pares, né... 

 

Mas já adianto que, realmente, tive vontade de me abaixar sob a mesa e sair de fininho, me rastejando de quatro para bem longe dali. Por que, veja só, o Itachi era um cara lindo, bem apessoado, mas um retardado de primeira linha. Totalmente diferente daquela imagem que ele tinha me passado naquele churrasco em família. Ele era um debilóide, retardado mental, sem noção, tagarela para papagaio nenhum botar defeito!

 

E o pior é que ele não falava sobre coisas interessantes. Ele falava sobre o tempo. É, sobre o tempo mesmo, como as velhinhas do meu consultório faziam sempre que entravam na minha sala. O primeiro assunto com o qual elas gastam saliva é sobre o tempo. Só que no caso do Itachi, o negócio atingia outro nível. Um nível mais detalhado, mais profissional, MAIS CHATO, porque o diabo era geografo, especialista em climatologia e meteorologia, vejam só.

 

Na verdade, a coisa toda começou mal desde o início, quando eles foram nos buscar na casa da Karin, em suas motos velhas. Ah, sim, os dois tinham uma motinho velha, barulhenta, pequena, enferrujada, como se fossem irmãos gêmeos, ainda por cima. Ridículo! E, pelo amor de Deus! Nós estávamos indo a um restaurante de nível alto! Eu e a Karin nos vestíamos a altura, com vestidos caros, sapatos caros, maquiagem cara... E o Sasuke estava numa calça jeans preta, com sapato preto, todo gasto, e uma camisa de manga comprida flanelada, dobrada até os cotovelos.

 

— Você não poderia ter se vestido melhor? — eu perguntei. Ele não era pobre! Quero dizer, os pais dele não eram. Eles moravam num belo casarão. Eles poderiam comprar roupas melhor para o filho marmanjo, já que ele mesmo não conseguia pagar por um terninho.

— Você não poderia pintar o cabelo numa cor de gente, ao invés de alien do planeta Hello Kitty?

 

Revirei os olhos. Mas não disse mais nada. Pelo menos, o Itachi estava bem vestido, com um blazer. Apesar da moto, é claro.

 

Mas no caminho, eu fiquei me remoendo por não poder conversar com ele, porque, afinal, se tivéssemos dentro de um carro decente, nós poderíamos ir conversando. Mas naquela moto barulhenta, com capacetes cobrindo os nossos ouvidos, aquilo se tornava uma missão impossível.

 

Mas depois, quando já estávamos sentados em volta da mesa, pensando bem, eu dei aleluia por não ter obrigado o cara a abrir a boca durante o caminho. Assim, a tortura era menor.

 

—...dai esse conjunto de partículas, que é visível a olho nú, forma pedacinhos de gelo ou água em seu estado líquido ou ainda de ambos ao mesmo tempo, ou ainda ficam mistas, se encontram em suspensão na atmosfera, após terem se condensado ou liquefeito em virtude de fenômenos atmosféricos. E o mais interessante disso tudo... Quero dizer, não o mais interessantes, mas é uma das coisas mais interessantes, né — claro. Claro que não!— É que a nuvem pode também conter partículas de água líquida ou de gelo em maiores dimensões e partículas procedentes, por exemplo, de vapores industriais, de fumaças ou de poeiras. E a forma delas depende essencialmente da natureza, dimensões, número e distribuição espacial das partículas que as constituem e das correntes de ventos atmosféricos. Na verdade, a forma e a cor da nuvem dependem da intensidade e da cor da luz que a nuvem recebe, bem como das posições relativas ocupadas pelo observador e da fonte de luz, sabe, sol, lua, e raios também, em relação à nuvem. Enfim, as nuvens são constituídas por gotículas de água condensadas, oriundas da evaporação da água na superfície do planeta, ou cristais de gelo que se formam em torno de núcleos microscópicos, geralmente de poeira suspensa na atmosfera. E após formadas, as nuvens podem ser transportadas pelo vento, tanto no sentido ascendente quanto descendente. Quando a nuvem é forçada a se elevar ocorre um resfriamento e as gotículas de água podem ser total ou parcialmente congeladas. Quando os ventos forçam a nuvem para baixo ela pode se dissipar pela evaporação das gotículas de água. A constituição da nuvem depende, então, de sua temperatura e altitude, podendo ser constituídas por gotículas de água e cristais de gelo ou, exclusivamente, por cristais de gelo em suspensão no ar úmido. — e ele falava tudo aquilo, apenas para explicar o que era uma nuvem — É muito interessante, não acham?

 

Eu e a Karin balançamos a cabeça em afirmação.

Mas tudo o que ouvi foi: nuvens, cristais e gelo.

 

— Mas enfim, sobre essa massa de ar quente que vemos hoje, por exemplo... — e ele ainda iria continuar?

— Ah, com licença, preciso ir ao banheiro. — eu disse, me afastando da cadeira.

— Ah, eu vou com você! — a Karin disse — Sabe, mulheres não vão ao banheiro sozinha mesmo.

— Claro, claro... — o Itachi resmungou, abaixando a cabeça.

— Que desperdício de beleza. — ainda resmunguei, enquanto saíamos. E, sim, falei de propósito mesmo, porque, tenha santa paciência!

 

Acho que eles ouviram, mas não disseram nada.

Nos trancamos no banheiro.

 

— A ideia era me fazer juntar com aquele chato, era?

— Eu nunca tinha parado para conversar com ele. Eu só dava “oi”, “tchau”. — ela me disse, tirando seu estojo de maquiagem da bolsa, para se retocar.

— Eu quero ir pra casa. — resmunguei.

— Não começa, Sakura. Pelo menos, por hora, aguente o coitado. Quem sabe, no final, vocês não transam.

— Não estou tão desesperada assim, tá?!

— Quem sabe, ele é tão bom quanto o Sasuke...

— Ai. — choraminguei — Esse comentário me deu câncer. Ora, imagine, eu, euzinha, transando com a cópia daquele idiota! — até fiz sinal da cruz.

— Mas já pensou, se no meio da transa ele começa a divagar sobre nuvens.

— Com um chute nas bolas dele, eu o mandaria pras nuvens. Acho que ele ficaria feliz, né?

— Ele veria estrelinhas.

— Mas ele não é astrônomo.

— É melhor do que nada.

— Não, querida. Nada é melhor do que ele.

— Ah, viu só! Dê uma chance.

— Hein?

— Você disse que nada é melhor do que ele.

— Não! Eu disse que nada é melhor do que ele! Quero dizer, qualquer coisa neste mundo, até mesmo uma minhoquinha, é melhor do que ele! — saco.

— Ah.

 

Voltamos para a mesa. E a Karin ainda fez questão de pedir que trocássemos de lugar, para ela ficar do lado do Sasuke, e eu do Itachi... Não gostei da ideia, mas não protestei. Nossos pedidos já tinham sido entregues, o que já me deixava muito mais tranquila (é sempre bom comer em momentos de estresse!). Só que o Itachi olhava para seu prato, revirando a comida com a faca. Parecia um tanto cabisbaixo, murcho. Já o Sasuke, comia feito um porco, devorando tudo o que via pela frente, entre goles da sua cerveja.

 

— Está tão bom assim, amor? — a ruiva perguntou. E ela ainda pegou um pedaço da batata doce que tinha no prato dele, para provar, mas ele parou no meio do caminho, mastigando a comida, para encarar ela com aqueles olhos de búfalo irritado.

— O que foi? — ela indagou meio desconfiada, com o garfo a meio caminho de sua boca, no ar.

— Você vai comer isso? — ele perguntou, apontando para o garfo dela com o seu.

— É para isso que as pessoas usam o garfo, não é? — ela responde, categoricamente — Comer!

 — Aham... — resmungou, meio contrariado.

— Eu não posso?

— Sabe o que é? É que eu não gosto que peguem comida do meu prato...

— Ah, está bem... — e então, ela jogou a batata no prato dele, meio aos trancos e barrancos, contrariada. Acho que ficou até ofendida. Mas ele, por outro lado, ficou bem contente por ter reestabelecido a ordem da comida no seu prato.

 

E ela ainda me olhou, como quem diz “viu isso?”. E eu olhei de volta para ela “vi, sim!”.

Enfim, começamos a comer naquele silêncio constrangedor.

 

Enfim, enquanto comíamos, percebi que realmente o Sasuke parecia muito distante da minha amiga. Olhando em volta, os casais que se sentavam um do lado do outro, pareciam mais romântico. Aos cochichos, em cumplicidade, trocando gestos carinhosos. Então, chutei ela por baixo da mesa para chamar sua atenção.

 

Ela me olhou, sem entender. Então, passei a mão sobre a minha mão, pensando que ela pudesse entender a minha mimica. Mas a retardada passou a mão na minha.

 

Revirei os olhos. E apontei para ele.

 

— Ah... — resmungou baixinho.

 

Então, de repente, ela senta mais próximo a ele, e passa a mão no braço dele.

 

— Hum? — ele perguntou, de boca cheia, olhando para ela.

— Nada...  Só estou feliz por estarmos nós quatro aqui, juntos. Isso significa muito para mim.

 

Itachi forçou um sorriso, enquanto que o Sasuke sequer se prestou a sorrir.

 

Então, ela tentou mais uma vez, passando o braço por dentro do dele. Mas ele não dei nem três segundos, para tirá-la dali.

 

— O que foi, Sasuke? — Karin indagou, já perdendo a paciente.

— Eu não gosto que me toquem enquanto estou comendo. Preciso de espaço.

 

Bom, aí, eu não podia perder aquela oportunidade de ouro!

 

— Você era gordinho quando criança, não era? — perguntei, como quem não quer nada.

— Não! — respondeu, meio aborrecido.

— Na verdade, você foi gordinho, sim, até os sete, oito anos, Sasuke. — disse seu irmão.

— Pobrezinho. Sua mãe empurrava comida na sua boquinha gorduchinha para você comer? — isso poderia explicar o motivo de ele não gostar de ser tocado enquanto comia.

 

Sasuke rosnou tanto para mim, quanto para o seu irmão. Afinal, deve ser mesmo um porre ter que sair com amigos, levando alguém da família para dedurar todos os seus problemas.

Mas quando eu já estava no final do meu, percebi que o Sasuke me encarava. E encarava com um ar de deboche, muito irritante.

 

Com um gesto de cabeça, perguntei a ele “o que foi?”

E ele gesticulou a cabeça para o lado, meio que indicando o irmão, que sentava ao meu lado.

 

O Itachi comia sem vontade. Não tinha comido nem a metade do seu pedido.

Olhei para ele de novo, e fiz que não com a cabeça. Era melhor deixar o bichinho quieto. Eu já era obrigada a ouvir abobrinhas demais no meu consultório. Me deixem em paz, pelo menos, no meu horário de folga!

 

Mas o Sasuke estava decidido a me infernizar mesmo, e ainda fez um bico com a boca, formando a palavra “Ku”. Mas dei de ombros. Ele que vá se ferrar.

 

Então, o cretino pigarreou, para chamar atenção de todos.

 

— Ah, olha só que legal, me lembrei de uma historia para contar! Sabe, Itachi, na época da escola a Sakura tinha um apelido muito interessante...

— Itachi, querido — o interrompi —, me conte mais sobre o efeito estufa, por favor. Sabe, tenho uma queda por homens que entendem de nuvens.

— O efeito estufa está ligado à poluição.

— Poluição é tão sexy!

 

É claro que ele iria me olhar com aquela cara, de quem não estava entendendo nada. Ou pior, de que estava diante de uma maluca.

 

— Bom... Basicamente, o efeito estufa é um processo que ocorre quando uma parte da radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre é absorvida por determinados gases presentes na atmosfera. Como consequência disso, parte do calor é irradiado para a superfície, não sendo libertado para o espaço. O efeito estufa, dentro de uma determinada faixa, é importante, sim, porque sem ele a vida como a conhecemos não poderia existir. Ele serve para manter o planeta aquecido e, assim, garantir a manutenção da vida. Só que o que pode tornar a coisa catastrófica...

— Gente, olha só a hora! — o interrompi, olhando para o meu relógio — São oito e meia da noite!!!

— Nossa, tudo isso? — Sasuke resmungou, sarcástico.

— Me desculpem, mas eu preciso acordar cedo amanhã. Sabe, para trabalhar!

— Pena que amanhã é Domingo. — ele diz.

— Pena mesmo é que eu tenha que trabalhar no Domingo! — menti.

— Sei, sei...

— Sabe mesmo? — perguntei. Agora eu é quem estava sendo sarcástica.

 

Ele apenas fez careta para mim, contrariado.

Hehe.

 

Enfim, pedimos a conta a um garçom, pagamos, e fomos caminhando até o estacionamento.

Mas enquanto eu colocava a porcaria daquele capacete (me perguntando quantas cabeças suadas já se enfiaram ali, e que aquilo nunca foi devidamente lavado), o Itachi atende uma chamada em seu celular.

 

— Aham, sei... Uhum... Uhum... Sério? — e olhou para o próprio relógio de pulso — Mas que merda, vai começar em quinze minutos. Não sei se vou chegar a tempo! Aham, tá, vou tentar. — e encerrou a ligação, colocando o aparelho de volta no bolso da calça. Em seguida, olhou para mim — Era um colega da estação, que trabalha comigo. Ele estava me chamando para observar uma chuva de raios, que está para cair mais ao sul da cidade. Se eu correr, consigo chegar a tempo...

— Ah, tudo bem, pode ir. Eu me viro sozinha. — resmunguei, devolvendo a porcaria do capacete.

— Me desculpe por isso. Como posso lhe retribuir?

— Não se preocupe com isso.

— Quem sabe, amanhã a noite, posso te dar umas aulas sobre efeito estufa! — ele disse, meio aos sussurros, cheio de segundas intenções, se achando sexy por dizer a palavra “estufa”.

 

Eu mereço.

 

— É, quem sabe? — dei de ombros. Quem sabe, no dia de São Nunca.

 

Assim, bem feliz, ele se foi. E fiquei sozinha ali no estacionamento, sem carona para voltar para casa. O que, pensando bem, era até melhor. Imagina se ele inventasse de querer entrar em casa, para me contar mais sobre poluição, sussurrando no meu ouvindo “gás carbônico”, como se fosse me fazer gozar! Acho que explodiria de raiva.

 

— Quem sabe, eu vou com você! — a Karin me sugeriu — É perigoso pegar um taxi sozinha, à noite.

— Vamos, Karin. Ela já é bem grandinha. — Sasuke disse.

— Eu sei, mas... — ela tentou contestar, mas ele estava meio impaciente.

— Então decida logo, mulher. 

 

Além de ogro, é estúpido.

 

— Karin, de repente, vou até a pé. Não estamos tão longe assim de casa. — eu disse — Quando eu chegar, eu te ligo.

— Ok. — ela resmungou, meio contrariada.

 

Mas, finalmente, se foram.

E eu fui arrastando os pés pelas ruas, aproveitando o calorzinho da massa de ar quente que sobrevoava minha cabeça naquela noite, cobrindo as estrelas. Argh!

 

Caminhei por umas sete quadras. Faltavam mais umas cinco, quando uma motoca parou do meu lado, buzinando. Olhei meio assustada para o condutor, e fiquei mais assustada ainda quando vi que era o idiota do Sasuke, sem a Karin.

 

— Ela me fez vir aqui, te levar para casa. — resmungou — Sobe aí.

— Não, obrigada. Estou bem à pé.

— Então, o fato de você está com os sapatos nas mãos é por que você é uma dessas hippies fajutas que gostam de “entrar em contato com as energias do planeta”? — ele indaga, meio sarcástico.

 

Na verdade, era por que eu estava com bolhas nos pés, mas ele não precisava saber disso. Então, apenas dei de ombros. E ele estava mascando um chiclete, e fez uma bolha com ela, olhando para mim com aquela cara de bunda, e a estourou, me fazendo assustar com o estrondo que fez. Em seguida, sugou toda a goma de volta para dentro da boca.

 

— Anda, sobe logo! Não me faça perder tempo. — resmungou.

 

Bom, meus pés estavam me matando, os ladrilhos das calçadas me machucavam e eu estava com medo de pegar um “bicho de pé” ou encravar algum caco de vidro no calcanhar. Então, acabei dando o braço a torcer. Mas só daquela vez.

 

— Você gosta mesmo da Karin? — resmunguei, enquanto colocava o capacete.

— Por quê? Você é a mãe dela?

— Ela é minha amiga, seu idiota.

 

Aí, ele ligou o motor, e não deu mais para conversarmos. Acho que ele fez isso de propósito.

Então, subi na garupa. Eu não queria ter que me abraçar a ele, de modo que me segurei nuns ferros que tinha atrás de mim, para pequenas bagagens.

 

Ele não foi muito rápido, mas também não tão lento. Mas pude sentir o cheiro do seu xampu. Aquilo até que poderia ter sido uma estranha cena romântica, se não fosse o fato de os cabelos dele estarem batendo na minha cara, e fazendo cócegas no meu nariz. Era um bocado incomodo. Acabei espirrando e... Bom, sem querer, escapou uma meleca.

 

Mas aquele cretino era muito perspicaz. Pois ainda por cima, quando cheguei em casa e fui me aprontar para dormir, ao pentear o cabelo, minha escova pendeu no meio do caminho. Aquilo era uma brincadeirinha de mal gosto tão pré-histórica que não dava para acreditar. Mas não é que, não sei como, o filho da puta tinha mesmo grudado o seu chiclete no meu cabelo?!


Notas Finais


Algum comentário?
PS: Todas as informações sobre nuvens e efeito estufa, foram retiradas do wikipedia.


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