1. Spirit Fanfics >
  2. Por Acaso >
  3. Capítulo 3

História Por Acaso - Capítulo 3


Escrita por: amanur

Capítulo 3 - Capítulo 3


Por Acaso

Escrito por Amanur

Capítulo 3

...

 

Outro dia, a Karin bateu na porta do meu consultório.

 

— O que aconteceu com o seu cabelo? — foi sua primeira pergunta.

— Tive que cortá-lo por questões técnicas. — eu não ia mais me dar ao trabalho de reclamar do namorado dela para ela. Além disso, a mudança no comprimento foi legal.

— Estou com um problema. — me disse.

— Todos nós temos, pelo menos, um!

— Tem um cara novo no meu escritório que é muito gostoso. Sabe, grandalhão, mais alto que o Sasuke, fortão. Ele tem todo aquele jeitão de quem curte um sado, que gosta de dominar! Ele exala testosterona pelos poros, por Deus!

— Ai. Onde foi que eu já ouvi isso mesmo? — resmunguei.

— E ontem eu peguei ele me comendo com os olhos.

— Santo Deus. — murmurei, revirando os olhos — Mas qual é o problema nisso?

— Eu não sei o que fazer!

— Não que me interesse, mas como é o Sasuke na cama? — não que me interesse!

— Ah, ele é bom. Ele é ótimo, na verdade. Tem a pegada boa, firme. É dominador também, mas acho que não curte um sado como eu.

— Uhum... — achei melhor nem querer saber como é o sado que ela gostava...

— E esse outro cara se veste muito bem, Sakura. E, convenhamos, o Sasuke é meio... né? — diz ela, fazendo uma careta — Meio sem graça...

— Né! — nisso, eu concordava e assinava em baixo.

— Além disso, estou começando a desconfiar de uma coisa.

— Que coisa?

— O Sasuke não para de falar de você!

— Hein? Como assim?

— Ele está sempre me perguntando se falei com você, pergunta o que você me disse, pergunta quando vou sair com você de novo, ou quando foi a última vez que você me ligou. Tá enchendo o saco! Não aguento mais você.

— Ah, tá, desculpa por ter nascido.

 

Ele deve estar pensando em sua próxima chance para me azucrinar, isso, sim.

 

— E o xeque-mate? — perguntei.

— Ontem, ele me ameaçou de novo. Acho que vou colocá-lo na parede esta noite. Mas estou nervosa.

— Pelo menos, agora você tem esse outro cara aí.

— Estou começando a sentir que esse pode ser “O” cara.

— Mas antes de você sair chutando o balde, você deveria se certificar de que o Sasuke não é mesmo o seu “The one”! Você deveria fazer mais uma última tentativa, sabe? Dar mais um gostinho do seu amor por ele, mas de uma forma bem venenosa, só para testá-lo! Por exemplo... — pensei com meus botões por uns instantinhos — Ah, já sei! Vá para a cama com ele, usando a melhor lingerie que tiver, bem sensual. Excite ele, e quando estiver pronto, você o mata com esse xeque-mate. Te olhando desse jeito, toda sexy, e naquela situação, ele não vai ter como dizer não para você!

— Boa!

 

Na verdade... Bem, isso deveria deixá-lo muito puto por quebrar o clima.

E me deixar bem feliz.

 

Na manhã seguinte mesmo, quando saí de casa, me deparei com três sacolas de lixo na frente da minha porta. Sem falar que a porta estava toda suja de ovos e tomates. No estacionamento, também tive que me deparar com o meu carro todo colorido, e com os pneus murchos. Além da faixa entre os postes, que de novo estava lá.

 

Acho que, para fazer tudo isso em tão pouco tempo, só podia significar que o deixei bem putinho mesmo.

 

Em consequência disso tudo, me atrasei por duas horas para ir trabalhar, porque tive que arrumar alguém para limpar toda aquela sujeira (do apartamento ao carro). Mas nada podia estragar a satisfação que eu sentia, é claro. É lógico! Sorri como nunca, na minha vida! Até tirei um “selfie” e postei na minha conta do instagram, com a seguinte legenda:

 

“Nunca desista das coisas que te faz sorrir!” — se irritar o outro é o que te deixa feliz, então, seja feliz! Afinal, cada um alcança a felicidade como pode, né?

 

No entanto, ao chegar no consultório, minha secretária não estava. No lugar dela, estava o Sasuke, sentado na minha poltrona, atrás da minha mesa, girando de um lado para o outro, muito bem acomodado.

 

— Você não trabalha mesmo, né? — perguntei.

— Na verdade, dou aulas de matemática numa faculdade. E sou coordenador do curso. Talvez eu até ganhe mais dinheiro do que você, sua imbecil.

— Mentira!

— Tenho pós-doutorado.

— Não pode ser verdade que alguém se vista tão mal assim por opção!

 

Ele estreitou os olhos.

 

— Você deve estar se achando muito esperta, não é mesmo?

— Olha, na verdade... — fiz uma pausa para o suspense, e sorri — Estou! Por que, veja só que interessante. Agora eu posso te denunciar para a polícia sem me preocupar com a minha relação com a minha amiga. Afinal, vocês já terminaram o que, convenhamos, não deveria nem ter começado! — ele sorriu, mas eu o ignorei e continuei a tagarelar, porque sabia que ele estava sorrindo só para me irritar e provocar — Vocês dois não tem nada, absolutamente NADA em comum, né, Sasuke. Pois, veja só, a Karin, apesar de meio desmiolada, é uma corretora de imóveis muito bem sucedida, que gosta de coisas caras, coisas com qualidade e, acima de tudo, coisas de bom gosto! E você, bem, você é um pé-rapado fingindo que dá aulinhas de continhas, numa motoca caindo aos pedaços, mal educado, mal vestido e sem noção. Sem falar que, faça-me o favor, ainda mora com o papai e a mamãe! Quando é que você vai crescer? Você é a única coisa de mal gosto que ela tem!

 

Ele continuava sorrindo, mas desta vez, seu sorriso era menos sarcástico. Estava mais... Como posso descrever? Desanimado, talvez.

 

O que me fez sorrir mais ainda.

 

— Enfim, Sasuke, lhe dou parabéns pelo esforço que você gastou em preparar toda aquela sujeira, e ainda lhe digo obrigada por perder tanto do seu tempo pensando em mim, mas acho que está na hora de dar tchau, sim?

— Você pretende desistir da guerra agora? Justo agora quando ela estava começando a esquentar?

— Não, Sasuke, a guerra acabou! Você não entendeu?! Quer que eu desenhe, para você ter certeza de que não entendeu? Você perdeu, Romeu!

— Tsc. Justo quando eu estava começando a me empolgar?!Bom, tudo bem, eu já desconfiava que você fosse dar com o pé para trás, assim que jogasse a primeira bombinha, achando que tinha causado uma grande explosão. Mas isso não fez nem cócegas, minha cara cabeçuda rosada. Mas tudo bem. Eu sei que vocês mulheres são umas frangotes mesmo. — ele diz, se levantando da minha cadeira — Sem falar que não quero mesmo saber mulher atrás de mim, choramingando desculpas. Heheh.

— Há! Até parece. — resmunguei, cruzando os braços.

— É, né? Até parece! Até parece! — ele resmunga, debochado — Tudo bem, Ku, você venceu. — e ele ainda passou a mão sobre a minha cabeça, como se eu fosse uma criancinha — É muito fácil mesmo atirar a primeira pedra e sair correndo, sem dar a chance do inimigo rebater! Mas tudo bem, se isso te faz se sentir melhor, fique assim, chuchu. Ou deveria dizer: Kuku?!

 

Ai, que ódio!

 

— Tá, Sasuke! E o que é que você faria? Me enforcar? Aqui e agora? Por que é só o que lhe resta fazer!

— Tsc. Por favor, não me compare com vocês, mulheres! Homens são muito mais inteligentes do que vocês pensam. Nós não pensamos apenas com a cabeça de baixo, não. Os grandes líderes políticos que o diga! Mas e vocês, fizeram o quê, mesmo? Ah, é, nada! Ficam só lixando unhas e perdendo tempo com futilidades! Parabéns.

 

Agora ele estava afetando o meu nervinho central, aquele que exigia que eu defendesse a honra feminina.

 

— Não vou discutir feminismo com um zé ruela que nem você, que só sabe contar um mais um, mas tudo bem, faça  o que quiser, estarei aguardando, seu cretino!

— Ok. — e ele ainda mandou um beijo no ar para mim, enquanto fechava a porta, se achando o triunfante. E só então vi que ele tinha enchido a minha porta com goma de mascar.

 

Ai, que ódio!

Mas eu estava com mais ódio de mim mesma, do que dele, por ter justamente caído nesse joguinho de psicologia reversa que ele fez comigo! Que raiva! Que ódio!

 

No entanto, ele ficou quase um mês sem dar as caras. Eu saia de casa, toda cheia de cuidados, olhando para todos os lados, esperando por alguma gracinha dele, mas nada. Nem sinal de vida do infeliz.

 

A Karin, por outro lado, vivia no meu consultório.

 

— Isso é tão estranho. — ela comentou, depois que lhe contei sobre o episódio da porta que, à propósito, ficou cheia de marquinhas de chiclete grudado, porque nem eu nem minha secretária conseguimos tirar tudo direitinho — Eu tenho pra mim que o Sasuke, na verdade, gostava de você, quando eram pequenos.

— Como é que é? — quase me engasguei com o chá, que a secretária tinha recém preparado para nós.

— Bom, você deve saber melhor do que eu! Crianças, quando querem chamar atenção de alguém, elas implicam com as outras, por que é a maneira que elas encontram para se expressar, não é mesmo?

— Não! — respondi, categoricamente — Isso é tudo bobagem! Criança incomoda por que é mal educada mesmo. Até podem fazer isso por quererem atenção, mas não tem nada a ver com o sentimento de gostar do outro!

— Hummmm... Então tá. Se você está dizendo.

— Estou mesmo!

— Bom, só sei que aquele homem é uma delícia, e está me enlouquecendo.

— O outro rapaz?

— Sim.

— Ele é tão bom assim de cama?

— Cama? Não, não, ainda não fomos para cama! Mas ele cozinha tãaaao bem. Acho que só de olhar para a comida dele, já engordo três quilos!

— Karin, você precisa de tratamento.

— É por isso que estou aqui! O quê que eu faço? Se o Sasuke é um touro na cama, esse é uma mosquinha morta. Ele diz que quer deixar a tensão crescer mais, para quando então chegarmos nos “finalmentes”, a coisa ser uma explosão só! Só que acho que eu vou acabar explodindo antes de chegarmos na explosão!

— Não entendo muito sobre jogos sexuais.

— Falando em seca, o Itachi me perguntou sobre você, ainda ontem mesmo.

— Vocês ainda se falam?

— Sim, ué... E por que não falaríamos?

— Bom, você sabe, ele é irmão do seu mais novo ex...

— Ex? Eu e o Sasuke não terminamos.

— Como é que é?

— É!

— E como é que você não me contou isso, criatura?

— Você não me perguntou sobre isso, ora bolas!

 

Eu nunca precisei perguntar nada para ela me contar algo.

Enfim, agora, o sorriso do cretino fazia mais sentido.

 

— E você está saindo com outro, ao mesmo tempo, Karin?

— Ah, Sakura, não me venha com esse papinho de pudores e lições de moral! Eu sou muito nova para me prender a um só. Sem falar, que já sou bem crescidinha, e sei o que estou fazendo. Além do mais, tenho quase certeza de que o Sasuke tá comendo outra também.

— Por que você acha isso?

— Quase sempre que vou me deitar com ele, ele apenas me abraça e dorme. Não temos mais transado com tanta frequência.

— Hummm. Talvez ele esteja querendo que você aja. Homens cansam de correr sempre atrás da mulher. Principalmente do que diz respeito ao sexo.

— Não sei, não sei...

 

Muito menos eu, que estava há tanto tempo sem homem.

E por falar nisso, foi pensando nisso que a Karin teve uma ideia. Eu não gostava das minhas ideias, mas gostava menos ainda das ideias dela. Pois veja só, a ideia dela foi fazer um mini acampamento à quatro. Digo... Eu, ela, o Sasuke e o Itachi.

 

— Você anda muito abatida, muito desanimada. Sinto que anda meio amargurada com a vida também. — ela me disse, outro dia.

— Estou muito bem, obrigada. — até parece que ela era psicóloga! Tsc.

— Um sexo casual vai lhe fazer bem! Seja feliz, amiga, você merece. — e então, ela tira de dentro do bolso uma caixinha, e a entrega a mim — Oh, toma. Comprei pra você. É um presente.

 

Curiosa, abri a caixinha.

Eram dois tampões de ouvido, desses, para piscinas.

Olhei para ela, desconfiada.

 

— Pra quê isso, Karin?

— Pra você não precisar ficar ouvindo sobre nuvens enquanto trepa no Itachi, ué.

— Você é a melhor amiga do mundo! — resmunguei entre os dentes. Eu não sabia se ria ou se chorava.

— Eu sei.

 

Sei lá, acho que qualquer dia do ano é dia perfeito para o Itachi falar sobre o tempo, mas achei que naquele dia, um dia infernal de verão, era o pior de todos. E eles ainda resolveram em ir os quatro dentro do meu carro, porque, né... Não tinha como irmos naquelas motos enferrujadas para uma montanha. Afinal, não bastava ter que dividir barraca com todos eles, tínhamos que nos enfiar no meio do mato também.

 

Pelo menos, a viagem em si foi mais tranquila, no que diz respeito ao Itachi, pelo menos, pois tivemos que ficar ouvindo a infindável discussão da Karin com o Sasuke sobre o local do acampamento. Para mim, qualquer lugar bastava, mas para a Karin tinha que ser um local de céu aberto, para que ela pudesse recarregar o celular com seu pequeno carregador a luz solar. O problema é que o Sasuke insistia que tínhamos que ficar em local fechado, porque a barraca tinha alguns furinhos que, se chovesse, poderiam nos causar problemas.

 

— Então porque você não tapou os buracos com uma fita adesiva, criatura? — Karin protestou — Você sabe que eu não posso ficar sem o meu celular!

— Você não queria mais contato com a natureza, cheirar capim e fumar repolho? Então deixa essa porcaria de lado, e curta a porra da sua natureza, cacete! — ele retrucou, irritado.

— Eu só queria aproveitar um tempo de folga com qualidade, com as pessoas que eu gosto, ora essa!

— Além disso, Sasuke, se chover, a melhor coisa que temos a fazer é ficar longe das árvores mesmo. — Itachi disse — Você não quer que eu palestre aqui sobre estática, probabilidades ou incidências de raios em áreas verdes, né?

 

Achei que isso seria o suficiente para encerrar a discussão (afinal, ninguém queria ouvi-lo palestrar sobre nada), mas, por algum motivo, Sasuke estava disposto a contrariá-la a todo custo.

 

— Não! Aí, depois entra uma gota na barraca, e você vai ficar me enchendo o saco porque vai estragar a sua chapinha!

— Mas que ultraje! Meu cabelo é liso naturalmente! — ela argumentou — Desde a última chapinha permanente que fiz...

— Não importa, tenho certeza de que você vai arrumar alguma coisa pra me incomodar.

— Na verdade, eu vou incomodar se não ficarmos numa área aberta, seu idiota!

— É você quem vai armar a barraca? Não! Então fique quieta, e deixa que eu arrume as coisas. Não preciso dos seus palpites idiotas...

 

É claro que, no final das contas, a Karin quis bancar a durona, e deixou sobrar para nós duas armarmos a porcaria da barraca. E enquanto isso, é claro, o espertalhão do Sasuke descascava uma laranja e a comia tranquilamente sob a sombra de uma árvore, mais adiante. O Itachi bem que tentou nos ajudar, mas o Sasuke não deixou.

 

— Nem ouse tocar nisso, Itachi! — ele disse — Que as mulas se entendam.

— Deixe de bobagem, Sasuke! Não está vendo que elas não sabem armar a barraca?

— Vão aprender na marra! Ninguém mandou ficarem me incomodando. Ela poderia ter ficado com a minha barraca aqui de baixo que era muito mais fácil de armar, mas, não! Ela preferiu encher o saco por cauda daquela!

 

Como disse, além de ogro, estúpido!

E o pior é que armar uma barraca (me refiro à de lona) é como desvendar uma equação matemática que, para mim, era impossível até mesmo de nível baixaria! E pior ainda era ter que aguentar a porcaria do sol quente que derretia os cabelos, tentando descobrir onde ia cada barra de ferro, e onde prender o quê.

 

— Karin, se você parasse de se preocupar com as suas unhas, talvez conseguíssemos erguer essa bosta antes de amanhã! — ralhei com a idiota, porque, era absurdo que ela estivesse com medo de quebrar as unhas àquela altura do campeonato!

— Ai, desculpa, mas eu tenho uma reunião importante, quando voltarmos. — tentou se justificar.

 

Só sei que perdemos praticamente o dia inteiro tentando armar aquela porcaria. E tudo por pirraça dos dois. À noite, que foi o que nos sobrou daquele dia miserável, eles montaram uma fogueira do lado de fora para esquentar alguns enlatados que trouxemos, além de nos servir de iluminação, pois nossas lanternas e lampiões não eram o suficiente.

 

Não era o suficiente para mim, pelo menos, que estava morrendo de medo de algum animal selvagem, já que estávamos no alto de um morro, num lugar que poderia facilmente ser descrito como o fim do mundo. Não havia absolutamente nada a nossa volta num raio de, no mínimo, cento e cinquenta quilômetros de distância. O lugar era muito bonito, realmente, e tínhamos uma bela visão dali. Árvores e mato para todos os lados. Nada de buzinas, nada de gente tagarelando, nada de telefones tocando. Era uma maravilha mesmo.

 

Nada de ar condicionado, nada de internet, nada de televisão, nada de geladeira, nada de banheiro. Uma maravilha assim. Só que não!

 

Mas antes esse fosse o nosso único problema. Quando nos deitamos para dormir, além de ter que compartilhar a barraca com os roncos dos dois machos (a barraca era deles, e cabiam seis pessoas ali, pelo menos. Mas não era tão espaçosa quanto achei que fosse, porque cabiam APENAS seis pessoas. Seis pessoas coladas uma na outra!), também dividíamos espaço com formigas que nos beliscavam o tempo todo, além dos mosquitos mutantes (eles tinham quase um palmo de tamanho!). E nem ventilador não tínhamos para aliviar aquele calor infernal que estávamos sentindo.

 

— Que ótimo, não vou dormir! — resmunguei, depois de me revirar vinte vezes naquele colchão de ar que fazia barulho sempre que eu me mexia. Parecia que eu estava soltando pum o tempo todo!

— Tenho remédio para dormir, se quiser. — a Karin me sussurrou no ouvindo, por estar deitada ao meu lado — Mas afinal, por que você não está do lado do Itachi, e eu do Sasuke?

— Você não espera que eu vá transar com alguém aqui dentro, né? Que bonito seria receber uma palmadinha numa banda e uma picada de mosquito na outra banda da bunda.

— É, o negócio está brabo mesmo.

— Você acha? — perguntei, sarcástica.

— Shiiiiii! — Sasuke resmungou — Tem gente querendo dormir!

 

Nos calamos. Mas além dos mosquitos, além das formigas e além do calor, aquele silêncio de cemitério também estava me incomodando. Como a Karin já estava bocejando, o Itachi roncando, e o Sasuke já deveria estar se aproximando dos portões do sono, resolvi pular fora. Quero dizer, a vontade de pegar meu carro e deixá-los ali era enorme, mas apenas me levantei e me fui para fora da barraca. A fogueira já estava quase se apagando, mas, pelo menos, o ar estava mais fresco ali fora. Sentei-me sobre o tronco de árvore que eles tinham conseguido, e, com um graveto, fiquei fuçando no pequeno fogo que lutava para se manter vivo.

 

De repente, ouvi um barulho estranho, vindo de trás de mim, e quase soltei um berro ao ver um vulto passar. Mas era o Itachi.

 

— Desculpa, não quis assustá-la. Estava apertado.

— Ah, tudo bem...

 

Ele sentou ao meu lado. E como ficou um tempo sem dizer nada, achei que estivesse apenas querendo me fazer companhia. Mas, então, começou a falar sobre o calor.

 

— Tenho dificuldades para dormir com todo esse calor também. E a previsão é de que o calor perdure por toda a semana. Há uma massa de ar quente sobre nós que está com dificuldades para se dissipar, e o ar atmosférico não está circulando direito por causa dessa massa...

 

Olhei para a barraca, tentando me lembrar em que bolso havia guardado os tampões para ouvidos, achando que ele fosse ficar falando sobre o clima, mas não. Ele parou aí, e ficou apenas olhando para as fagulhas do fogo que agora restavam. E notei que ele parecia um tanto desanimado.

 

— Aconteceu alguma coisa? — me atrevi a perguntar.

 

Ele suspirou, e lançou um longo e demorado olhar para mim. Eu ainda o enxergava graças aos dois lampiões que havíamos deixado acesos do lado de fora da barraca.

 

— Bom, você é psicóloga, não é?

— Uhum.

— Tudo bem eu falar com você sobre problemas familiares fora do seu consultório?

— Não pense em mim como uma psicóloga, mas como uma amiga. — sugeri.

 

Ele concordou, balançando a cabeça, meio pensativo.

 

— É só que a nossos pais estão se divorciando agora, depois de tantos anos juntos! Mas é estranho, por que já estão velhos. Vai ser difícil para eles encontrarem alguém com quem compartilhar o que lhes sobram de tempo de vida, entende? Mas eles viviam mesmo brigando. Talvez, isso seja para o melhor... Só que o problema é que mamãe está muito doente. O médico lhe deu pouco tempo de vida...

— O que ela tem?

— Câncer de pulmão, porque fumou a vida toda. E veja só, ela ainda fuma! E não quer saber de largar o cigarro! Isso, na verdade, é um dos motivos pelos quais eles brigam tanto...

— Entendo. É complicado, realmente. Ela tem depressão?

— Não, acho que não. Ela teve uma boa vida, aproveitou bem a juventude, e acho que está lidando bem com essa situação.

— Às vezes, as pessoas que mais sorriem, são as mais tristes...

— Não. Acho que não é o caso dela. Se ela estivesse afetada por isso, nós perceberíamos, sim.

— Bom, então eis a sua resposta. Não há motivos para se preocupar com ela, se ela está bem, não é mesmo?

— Na verdade, me preocupo mais com o Sasuke. Ele sempre foi mais apegado a ela. Tanto é que resolveu largar a casa em que morava para voltar a morar com ela, por medo de perdê-la antes do tempo. Sem falar que ele morava com uma namorada, que o deixou por conta disso. Ela não aceitava o fato de ele ser tão apegado à mamãe.

— Hummm...

 

Então, essa era a situação.

 

— O papai voltou para casa também, mas continuam a brigar. E o pior é que o estresse que eles causam está contagiando o Sasuke. Agora ele deu pra brigar com todo mundo também. Eu já tentei falar com ele, mas não adianta. Ele não me ouve.

— Humm.

— Na verdade, ele anda meio brigado com o papai também. Aconteceu alguma coisa entre eles, alguns anos atrás, e desde então não se falam direito. Já perguntei aos dois o que houve, mas nenhum deles abre a boca para falar sobre isso.

— Estranho.

— Pois é. Será que você poderia falar com ele?

— Hummmmmm. Não. Nem morta.

— Por favor?

— Só se ele pagar!

— Eu tenho que pagar também?

— Não, querido, você não!

 

No dia seguinte, demos de cara com um problema, que acabou se tornando um desafio.

 

— Eu preciso lavar o meu cabelo! — a Karin resmungou. E eu tinha que concordar com ela, que não dava para ficarmos sem lavar a cabeça, com todo aquele calor infeliz.

— Eu também. — resmunguei — Meu cabelo está tão oleoso, que se tivéssemos um ovo, daria para fritá-lo embaixo desse sol, tranquilamente.

— E quem iria comer ovo frito, com pitadinhas de caspa? E ainda, com corante cor de rosa?! — o idiota tinha que palpitar.

 

Era quase meio dia, e nós quatro estávamos deitados sobre um lençol, embaixo da árvore mais próxima da barraca (e que ficava a uns cento de vinte metros de distância).

 

— Está tão quente, que meu suor não chega nem a escorrer, porque evapora antes. — eu disse.

 

E o mais triste é que não havia nenhum ventinho para contar história.

 

— É essa maldita massa de ar quente. — Itachi disse, apontando para o céu, que estava meio esbranquiçado, realmente.

— O que podemos fazer para espantar essa merda daqui? — Sasuke perguntou.

— Garanto a vocês que vai chover amanhã. Somente o vento poderá removê-la daí. Mas por estar tão pesada, ela está bloqueando a passagem do ar. Então, ela está acumulando toda a umidade da terra, para depois descarregar tudo de novo, e dar continuidade ao ciclo. Mas tendo descarregado a chuva, ela ficará mais leve.

— Eu não sei vocês, mas não acho que vou sobreviver até amanhã! Vamos todos assoprar, para criar um vento, então. — Karin sugeriu.

 

Aí, por que não tínhamos mais nada para fazer mesmo, todos nós assopramos pro alto, como quatro idiotas que éramos. É claro que nosso sopro não moveu nenhuma folhinha daquela árvore.

De repente, me levantei.

 

— E eu não sei vocês, mas eu odeio ficar parada. Vou dar uma volta por aí. — resmunguei.

— Ai, credo. É pior se mexer, nesse calor! — Karin disse.

— Prefiro me mover, do que ficar parada....

— Cuidado. Não é muito seguro andar sozinha por ai... — ela comentou — Por que você não vai com ela, Itachi?

— Por que não vai o Sasuke? — ele disse.

— Hein? — todos nós dissemos, em coro.

— Acho que torci o pé ontem à noite, quando me levantei para urinar. — o cabeludo disse, me olhando como quem diz “entendeu?”.

 

Eu não queria ter entendido, mas entendi que ele queria que eu conversasse com o irmão. Então, me obriguei a dizer:

 

— Éeeeee, Sasuke, vem comiiiiiiiigoooooo. — assim, em tom arrastado e monótono mesmo, sem a menor empolgação.

— Eu não! Vá sozinha, então! — resmungou o grosso.

— Ok. — sorri.

 

E me fui, antes que mudassem de ideia.

Fui atrás de um rio, ou lago, porque eu sabia que havia algum por ali, por ter procurado antes da viagem num mapa (e por isso escolhemos aquela região do morro).

 

Embrenhei-me entre árvores e matagal. Devo ter caminhado por trinta minutos, até começar a ouvir o som de água. Precisei apenas dar mais alguns passos, para ver um pequeno rio, embaixo do barranco em que eu estava. Eu poderia ter chamados eles, para aliviarem seus calores ali também, mas, bem, o que posso dizer? Eu era uma psicóloga do mal!

 

Descendo entre as pedras e gramas, depois de alguns esfolados nas mãos e joelhos, consegui chegar até a água. Fresca, morna, maravilhosa como água no deserto. Tirei a blusa e o short que eu vestia, arremessei meu tênis para longe, e me fui para a água.

 

Isso poderia ter rendido uma daquelas belas cenas de filme, com a bela mocinha sorridente entrando na água como se tudo estivesse bem, se não fosse a realidade para estragar tudo. Afinal, as porcarias das pedras machucavam meus pés e alguma coisa, acho que peixes, passavam entre as pernas. Era nojento, e alguma coisa ainda me pinicava o tempo todo.

 

— Mas que merda! — praguejei, indo mais para a beirada.

 

A correnteza era meio forte, mas só porque a água batia na cintura. Mas, de qualquer forma, fui mais para a beirada, onde a água batesse nas canelas, e me sentei sobre uma pedra, que perfurava toda a minha bunda. Juntando as mãos, molhei meu rosto. E, então, resolvi me deitar de costas, para molhar o cabelo. De repente, ali, parecia ser o lugar mais perfeito do planeta. Calorzinho, água fresca, som dos pássaros misturado ao som da água, e rodeada de verde por todos os lados... Nada de estresse, nada de gente reclamando da vida nos meus ouvidos. Eu poderia viver ali, sem problema algum. 

 

Mas, então, de repente, alguma coisa fez sombra sobre a minha cabeça.

Abri os olhos. E dei de cara com um Sasuke sorridente. E não era um sorriso qualquer. Era um sorriso malicioso.

 

— O que foi? Nunca viu mulher de calcinha e sutiã?

 

Ele não disse nada, só me mostrou as minhas roupas em suas mãos.

 

— Nem pense nisso!

— Já pensei. — diz ele, se virando para correr.

— FILHO DA MÃE, VOLTE AQUI!

 

Levantei-me rapidamente, mas acabei escorregando, e machuquei pra valer o joelho esquerdo na pedra em que estava sentada. E pela quantidade de sangue, que de repente saiu nadando pela água, achei que fosse morrer por hemorragia.


Notas Finais


Algum comentário?


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...