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História Por Trás das Câmeras - Capítulo 4


Escrita por: e cowboybebop


Notas do Autor


Boa noite, nação kenhina. Fiquei muito feliz com a quantidade de visualizações dessa história! Esse capítulo foi escrito com muito carinho, num collab suado com a @cowboybebop, e demorou um pouco mais pra sair. Foi uma honra vir trabalhando nesse roteiro com ela, e uma maior ainda ver a quantidade brutal de palavras que conseguimos ter a proeza de escrever.
Devorem o capítulo sem dó, e deixem quantos comentários vocês quiserem.
E pelo amor de deus, sejam tão fãs do Kuroo como nós. Ele é a verdadeira estrela dessa fanfic.

P.S: SIM. Tenho um bilhão de headcanons na minha cabeça, e todos vão virar capa.

Boa leitura

Capítulo 4 - O Gato e o Passarinho


Fanfic / Fanfiction Por Trás das Câmeras - Capítulo 4 - O Gato e o Passarinho

Sempre em frente.

 

 

Kenma Kozume não esperava que lhe viesse à mente tal frase, numa situação que não aparentava carregar tantos dramas assim. Afinal, só estava caminhando pelos quarteirões, focado demais nos faróis abertos das calçadas, preparando as emoções o máximo possível para qualquer coisa que pudesse chegar a sair do lugar. Como algum fotógrafo tropeçar próximo, um "fã" proferir palavras rudes ou repórteres gritarem seu nome antes de alcançar o interfone da residência de Tetsuro.

Mas, sabia que ela poderia se encaixar em diversos contextos. Pois se não desejasse andar para frente agora, não chegaria ao lugar que deveria. 

O sol quente suavizado pelo vento refrescante dava um alerta assobiado de que a tarde só estava começando. O estômago roncando e as olheiras cobertas pelo óculos denunciavam noites mal dormidas e alimentação a base de congelados. Costumes adolescentes regressando a fazer parte da rotina adotada pelo próprio bem de um adulto com responsabilidades. Kenma suspirou lamentando ao cruzar a faixa de pedestres. Vivia em tempos que comprar leaf tickets e gastar em novos eventos de pescaria de Animal Crossing pareciam vias mais fáceis do que procurar saber o que fazer com a própria vida. Horas como aquelas que faziam-no perguntar a si mesmo se estava seguro em continuar a percorrer o caminho de um artista, quando uma pseudo censura idiota daquelas prevalecia mais do que suas posições como alguém que convive com a indústria de perto e tinha motivos para observar sobre a qualidade da mesma. Seguir os protocolos não faziam parte de sua personalidade, todos sabiam.

Então, por que agora davam a entender que havia feito algo de tão errado?

— Kenma!? — Uma voz grave e confusa despertou-o. O chamado virou o pescoço já em posição de ataque, mas acabou desfazendo assim que percebeu ser alguém familiar. — O que está fazendo aqui logo cedo? Você detesta caminhadas.

— Kuroo. Então... — respondeu, andando até o portão, completamente sem jeito. — Bom—

— Sua consciência pesou finalmente? — O agente interrompeu provocativo. — Tem febre?

— Cale-se, idiota. Não é como se eu pudesse prever que essas coisas iam acontecer.

Tetsuro guiou uma das palmas da mão aos cabelos, apertando os fios negros em sinal de tensão. Cogitou prosseguir enchendo Kenma, todavia concluiu que seria em vão só de fitar sua expressão vazia e cansada, nada afim de brincadeiras.

— Está bem, está bem, meu caro fugitivo. Outra hora voltamos com isso. Entre, vou pedir algo pra você comer.

— Okay. Mas, espera — pausa dramática. — Como sabe que ainda não almocei?

Kuroo destrancou o portão, bufando desacreditado.

— Não é possível, Kenma — deu espaço para ele passar e fechou novamente. — Vou me recusar a responder isso, ou ficamos até amanhã debatendo sobre e você não vai querer me escutar por tanto tempo.

 

 

Foram necessários quarenta minutos para o pedido de refeição ser entregue, assim, utilizaram a pausa para colocar os pingos nos i's sobre a situação, de maneira que pelo menos metade dos problemas fossem resolvidos e Kenma pudesse se alimentar com algo para enganar o estômago. Mordiscando uma maçã, observou Kuroo recostar o corpo no sofá, o semblante sério e pensativo se formar radical no rosto. Sabia onde tudo iria parar, porém nada acrescentou. Era sua hora de ouvir, enfim.

— É bom que esteja aqui, sabe? Até fica mais fácil para mim ficar por dentro e te ajudar no que está precisando — Kuroo começou, as mãos entrelaçadas em um dos joelhos.

— Antes de tudo, foi pura e total responsabilidade minha, Kuroo.  Então...

— Claro que foi, e eu não retiro isso. Mas, você tem que lembrar que quem responde por você na maioria das vezes pra mídia sou eu.

— Sim. Sei bem.

— Eu faço suas intervenções por você. E você, como um ator, não trabalha, muito menos pode fazer as coisas sozinho. É como se estivesse fazendo seu ofício perder o sentido.

— Por isso teve direito de ficar chateado comigo.

— Exatamente. Viu como aprende rápido?

— E como sempre, o momento Kuroo "pseudo-psicólogo" chega a reta final, assim como ele aparece.

Tetsuro inevitavelmente pôs-se a rir.

— Rindo de que? Estou falando sério com você! — Kenma acompanhou, quase engasgando com a saliva.

— E eu também!

Alguns minutos de risos sucederam, até que finalmente parassem e pudessem retornar ao assunto principal. A luz já estava de volta no olhar de Kozume, mas não suficiente para que fosse capaz de dizer confiante de que estava bem.

— Kuro.

— Hum?

— Não foi minha intenção ferrar com tudo.

— Do que está falando? Teve razão no que disse lá.

— Não, isso sei bem — Kenma ergueu a sobrancelha e pousou a mão no peito. — Se tratando de Karasuno sempre tenho razão. O que quero dizer é sobre você mesmo. As coisas com as emissoras. Atrapalhou seu trabalho, te deixou sobrecarregado. Por isso sinto muito mesmo.

— Não se preocupe. Digamos que eu até me diverti um pouco.

— Como assim?

Kenma franziu o cenho. Tetsuro continuou sorrindo.

— Você ainda tem a audácia de perguntar — o toque do interfone soou. — Ficar em silêncio e deixar que a NHK falasse o que queria de você? Até parece! Não seria o meu normal. E digo mais: não estão doídos à toa. Mas conversamos melhor sobre isso depois. Seu almoço chegou.


 

Se tratando de alimentação, Kuro sabia ser generoso com Kenma quando podia. Esteticamente ao menos, até porque o rico da história era Kozume… 

Pegar os cartões dele escondido para fazer pedidos de delivery não era nenhuma novidade, e além do mais, Kuroo também não era doido de gastar do próprio bolso. 

Contudo, vamos fingir que nada aconteceu. Assim fica melhor.

 

 

A partir do momento que sentou a mesa e abriu os pacotes, Kenma não hesitou em comer com a mão. Mastigava como se fosse o fim do mundo. Afoito, não tinha cuidado com nada. Sujou o rosto e a roupa com molhos que Kuroo sequer imaginou que existia no pedido. Perdeu a conta das vezes que deixou um riso escapar, mas não era como se Kenma tivesse forças suficientes para revidar na hora, deixando assim estar, dando de ombros, concentrando-se no que importava mesmo.

— Quem visse isso, podia pensar que está em cativeiro.

Mais uma sessão de provocações recebidas com silêncio. Kenma fitou-o de boca cheia e retornou o dedo do meio, indiferente, bebericando logo após o refrigerante encomendado. Respirou fundo, alcançou um dos guardanapos de papel e indagou, do absoluto nada:

— Você — ergueu a mão para que Kuroo esperasse ele engolir o alimento. — Por um acaso  deu meu número para alguém nos últimos dias sem me falar?

— Como assim? Dar para alguém? Quem? — Kuroo franziu o cenho, dando a entender que não sabia onde Kenma queria chegar. — Para retornos de contato profissionais?

— Não exatamente. Por isso penso que você me diria se fosse o caso.

— Tá. Me explica.

— Então. Hoje, quando tentei ligar o wi-fi para um teste, vi muitas mensagens de número não salvos me procurando.

— Provavelmente eram pessoas conhecidas nossas, ou algo assim. Já que se você tem dez contatos na agenda é muito. Você detesta contato demais, Kenma.

—  Me pegou. É verdade. Mas, ainda assim pra mim foi estranho. Sério. Porque nosso código de área é o oitenta e um. Daí do nada um "vinte e um" me mandou mensagens.

— Não era daqui então? O que a pessoa disse?

— A pessoa disse que era… Que era o Shoyo.

A voz de Kenma diminuiu três tons ao pronunciar tal nome. Shoyo. Podia ser uma peça pregada, claro, mas Hinata não brincava com coisas assim. Não consigo. Ou brincava? Que situação horrível! Era tão estranho trazê-lo para a superfície de qualquer conversa que fosse, depois de tantos anos. Ainda mais agora, quando o peito parecia apertar a cada respiração, somente ao ponderar a possibilidade dele estar de volta de fato, com suas explosões declaradas, suas mãos gesticulando enquanto falava sobre qualquer coisa. Ia enlouquecer antes mesmo de comprovar a veracidade do que teorizava, e—

— Kenma — Kuroo gritou para si, dando um toque forte na mesa. — Acordou?

— Disse alguma coisa? Desculpe, eu—

— Entendo o que tá sentindo, cara. Mantenha a calma. Você quer mesmo falar sobre esse assunto agora? 

Kozume não respondeu de imediato. — E se ele estiver de volta mesmo?

— E ele está.

— Hã? Kuro?

— O que? É sério. 

— Como assim? Então foi você?

— Não! Eu teria avisado, esqueceu?

— Não confio em você, Kuro — e virou a cara, cruzando os braços. 

— Fala sério, Kenma. Olha, não fui eu quem mandou seu número pra ele não. Mas digamos que eu soube de alguns rumores sim.

— Kuro…

Kenma chamou-lhe atenção, o cenho franzido.

— Kenma...

— Kuro.

Kenma.

— Argh. Meu Deus. Você não fez o que estou pensando, não é?

— Não mandei pra ele, eu juro!

— Então quem foi?

— E eu lá vou saber?

— Diga você, sabe-tudo! — Kenma levantou da mesa, exasperado. Desistiu. Juntou as caixas de comida e levou-as até o lixo da cozinha, dando a volta sobre o balcão, certo a se encaminhar ao corredor que dava para os quartos. — Que se dane. Me recuso a isso agora. Vou dormir.

— Você vai o que? Hey, volta aqui, Kenma. Vai me deixar falando sozinho? A gente precisa conversar ainda sobre o que está acontecendo.

— Não quero saber de nada. Não tenho mais disponibilidade. Daqui a pouco, quem sabe. Se a gente continuar uma conversa nesse estado, vou falar coisas que não quero. Adeus.

Kuroo suspirou alto, derrotado, enxergando a silhueta de Kenma diminuindo corredor adentro. 

E ele saiu, sem mais nada a dizer. Não teria necessidade de também acrescentar. Era tão transparente quanto imaginava ser na opinião de Tetsuro, apesar de mais reservado para o exterior; mil vezes mais óbvio tratando de assuntos do coração. Vinte mil se tratando daquele que era difícil até de nomear sem se afetar.

O agente acompanhou a história desde o início. Os viu se aproximarem, crescerem no similar ciclo de amigos. A questão da conexão que Kenma não tivera com mais ninguém, nem mesmo consigo. Lógico que não era no sentido irmandade. Era muito mais do que palavras conseguiam definir cem por cento. Contudo, apesar de ter suas próprias torcidas e expectativas sobre ambos, sabia que a vida dava voltas mesmo, aspectos mudavam por ter de mudar e estava tudo bem. Shoyo seguiu um caminho diferente. Kenma se encontrou num ofício que o permitiu aprender a ser mais aberto e afiado, a reaver, requerer um espaço no mundo. Sendo por isso e outros motivos que apoiava o afinco dele em preservar-se e mostrar seu valor, pontos elementares que faziam do ator ser tão polêmico e — surpreendentemente ou não — respeitado.

 

 

Kuroo sentou no sofá, terminando de concluir seus pensamentos, decidindo deixar quieto, tratando de descansar mais um pouco. Quem sabe ler alguma coisa para espairecer podia ajudar.

Assim, o dia foi passando, dando espaço para o entardecer e nenhum sinal de Kenma fora do quarto de hóspedes ou usando o celular, pois estava na mesa de centro. Estranho. E então, era noite e Kuroo levantou do lugar. Enquanto terminava de trancar as janelas da sala tomou a liberdade de verificar seu próprio telefone ao mesmo tempo e percebeu que o ator não exagerou sobre não ter atualizado nenhuma rede social em dias. Suas mensagens recebidas e não visualizadas pelos aplicativos também. Um raio de pensamento pairou na cabeça, e disposto a largar o celular, guardou-o no bolso, longe da visão. Todavia, lá estava ele vibrando incansável. Frenético. 

E se suas suposições estavam certas, então só podia ser algo sobre Shoyo. 

Não deu outra.

 

Bokuto: atende o baixinho, por favor????? [emoji: olhos brilhando em emoção]

Bokuto: [Contato]

Bokuto: esse é o número novo kkkkk ele trocou de operadora hoje, sabe?

Bokuto: daí está tentando falar com todo mundo. não tira a mão do celular a não ser que vá pro banheiro

Bokuto: [Figurinha]

Bokuto: quebra essa pra mim

Bokuto: NÓS SOMOS BROS

 

Kuroo respondeu com um emoji e terminou por gargalhar alto. Estava na hora de jogar algumas coisas no ventilador então. Assim seria.

Kuroo: [Localização]


 

Não muito longe da sala e um tempinho depois, Kenma enfim despertava, acabado, para não dizer o pior. Sentia como se um caminhão o tivesse atropelado numa faixa de pedestres e a cabeça se livrado de quilos e quilos de pensamentos. Fitou o trecho da cortina e pulou sobre a cama no susto. O céu revelava as primeiras estrelas, a lua minguante jazia paralisada, e dali de cima podia ver galhos de árvores movimentando-se pela brisa forte. Perdera a noção de tempo e espaço, já não sabia se o dia continuava o mesmo e se aquilo era bom ou não. Como voltaria para casa? Naquela altura, Omotesando estava inabitável. Não queria depender de Kuroo também, não depois da conversa que tentaram ter mais cedo.

 

Em impasses atrás de impasses se via, pensou. Arrastou os pés até o banheiro, se esforçando para melhorar o rosto amassado e o hálito. Deu alguns passos no corredor com a escova na boca, notou algumas luzes apagadas e o ambiente vazio. Chamou o agente muitas vezes e nenhuma resposta. Mais dois metros para a sala e congelou quando escutou gritos abafados. 

Puxando a cortina da sala para identificar o barulho, Kozume flagrou-o. A escova despencou no chão, junto de sua dignidade.

O braço esquerdo dele alcançava sem muito esforço os ombros de Kuroo. Aquele baixinho — que por Deus, não era mais tão baixinho assim — como recordava de vê-lo na época do colégio, apareceu no portão: causando barulho. E ecoava não só fora, mas também por toda a extensão da residência de Tetsuro, tornando impossível de passar despercebido. Shoyo quem parecia caminhar ofegante, mas fora o coração de Kenma que falhou duas batidas e a respiração de uma hora para outra pareceu que seria impossível de retomar. Então, com desespero de que fosse pego espiando, regressou ao banheiro, realizando cinco bochechos com água e regressando à sala. As trocas de pernas rápidas em tentativas de fingir que não era com ele, que nada parecia estar perdido, que não se sentia chocado instantaneamente.

Chocado. Não estava chocado. Chocado? Bobagem! Como se encontrá-lo depois de todos esses anos, na casa de Kuroo, Shoyo pudesse fazê-lo ignorar sobre tudo o que estava acontecendo em sua carreira em menos de semanas… Pff. E afinal, o que ele fazia ali? Esfregou a mão na face, tirou o boné que sem sucesso tentava colocar para disfarçar o nervosismo estampado e comprimindo os olhos, contou até três.

— Céus.

E um estalo veio da porta frontal.

 

 

Antes um estalo do que uma palavra vinda da boca de Shoyo — qualquer que fosse ela — pois não tinha tanta certeza que poderia acompanhá-lo na decisão de pronunciar sentenças. Alguém poderia realmente culpá-lo? Fazia tempo que não o via, não com os cabelos tão curtinhos e o corpo embolado em um estilo deliberadamente quente, tão diferente dos dias frios aos quais estava acostumado. Foi bom ter tirado o boné no fim das contas, pois este pouco faria para desviar sua atenção para longe dos olhos escuros. 

Era inútil contar os segundos que ficou imóvel encarando o dono dos fios mais ruivos que já vira, mas o fez mesmo assim. Não que tivessem tempo para postergar cumprimentos, tendo em vista que se Kuroo o deixasse à sós com Shoyo naquele cômodo, suas reações já lentas iriam se transformar em congelamento. Mas o ponteiro do relógio parecia não  colaborar — estava mais vagaroso na contagem do tempo, na cabeça de Kenma. Sentia que sua memória trabalhava em retrocesso, atenta em decorar cada detalhe do rosto a sua frente, e se caso perguntassem o porquê de tamanho desespero, mentiria sem pensar duas vezes. 

Ele e seu arsenal de desculpas prontas para bater em retirada da guerra.

O problema era que Kuroo fosse indagado, a testemunha da cena do crime, seus olhos caídos saberiam descrever as piscadelas corvinais de Shoyo em sua direção, e dizer quantos tic-tacs do relógio se passaram de verdade, quantos círculos completaram-se a cada falta de ar de Kozume. Ele saberia narrar,  também, Hinata detectando aos poucos com quem havia se deparado — como se o corvinho houvesse se esquecido que estava ali para vê-lo. E Kuroo diria até que sapateou, impaciente, esperando um dos dois abrirem a boca em tentativas inúteis de emitir som. 

 

— Kenma. 

 

Tanto esforço para uma mísera palavrinha, e mesmo assim ela era mais doce que os olhos de mel. O par castanho era de uma obediência invejável. Fixaram-se em Kenma como cola-quente. Não piscavam, nem se moviam, ao contrário das pernas, que correram em disparate ao seu encontro, e Tetsuro viu os tênis esportivos saltando do chão para os braços do ator, como se fosse carnaval no Japão. 

A euforia de Hinata era uma língua diferente de qualquer outra que já vira, construída apenas de neologismos e interjeições estranhas. E poderia não saber seu alfabeto de cor, mas desconfiava que ao se tratar de Kenma o gesto ultrapassava a barreira das meras saudades. Sabia, caro leitor. Ficaria quieto e manteria isso em segredo, pois Kenma lhe avisou que não era o seu papel ser “pseudo-psicólogo” das pessoas. 

Ao menos não em voz alta, depois da discussão que tiveram. 

Não acontecia sempre, uma daquelas. Muito embora o escorpiano impiedoso ali fosse ele, esperava que nada do ocorrido ficasse no caminho de sua amizade. Queria ver o pequeno sol desatar os nós do rosto alheio, e lhe arrancar um sorriso mais cedo do que tarde. 

A leveza que Shoyo carregava no caminhar despreocupado era bem vinda agora, e até mesmo necessária. Dando de ombros para os barulhos de atrito dos seus tênis contra o chão. Ocupado demais evitando tropeçar nas próprias pernas. Compensando pela falta de palavras com contato físico. 

Dada à velocidade com que mirava no seu alvo loiro, Kuroo jamais entenderia o que diabos aconteceu para Hinata ainda estar de pé, e um tanto enroscado no pescoço de Kenma. Oh, bem. Tanto alarde para um abraço. 

Mas parecia um bom abraço.

 

— Kenma! Meu deus, você não sabe como foi difícil te achar, eu fui até a sua casa e foi tipo BLAM—

Muito perto. Kenma sentia suas bochechas mornas como as cores sortidas da camiseta de Shoyo, os pés indo contra a gravidade, e a cabeça aérea. Nada podia ser mais real que o contato físico; Platão era mesmo tolo. Era impossível viver de ideias abstratas, quando a prova viva que Kenma precisava estava ali, o abraçando. Os cinco sentidos sem bússola, e o sangue correndo esbaforido em suas veias. O nervosismo de ter que esboçar reação, pois já não sabia mais se encaixar em abraços há muito tempo. Especialmente naquele.

— Faz tanto tempo que eu não te vejo, não achei que fosse conseguir te achar rápido assim—

Eu também não, pensou. Deveria contar a ele que ter sua visita repentina ali era uma surpresa? Ele havia crescido um tanto bom de lá pra cá. Mesmo que Kenma continuasse o mais alto dos dois, perdeu a vantagem clara de centímetros que antes tinha sobre Shoyo. Havia realmente se tornado um pequeno gigante. E tinha a força de um também. Destroçou seus frágeis ossos num abraço apertado, sem nem perceber que era hábil o suficiente para sufocá-lo. Mas não estava reclamando.

— Não é como se você tivesse mais tempo também pra ficar em casa, eu vi! Tem tanto fotógrafo na sua rua que achei que fosse morrer—

Dizia, sob um sotaque sotaque novo. As vogais abrasileiradas desafinavam tentando regressar ao japonês, mas os ouvidos de Kenma não acharam o som inóspito. Nada sobre Shoyo era inóspito. E vê-lo limpando o nariz com uma mão livre plantou a semente da dúvida na sua cabeça. Ele… estava com vontade de chorar? Estava chorando?

Oh. Iria matar Kuroo por não lhe preparar psicologicamente para nada daquilo. Belo pseudo-psicólogo de merda ele era. 

— Eu trouxe um monte de coisas pra você, sabe, mas assim, a maioria é de gatos porque você parece um, daqueles bem ariscos, e… ah! É mesmo!

Pausou, em alerta.

— Talvez você não queira me abraçar tanto?

Mesmo que estivesse tentando o seu melhor para se adaptar a Hinata, estava sobrecarregado demais tentando acompanhar o frenesi que era aquele garoto.

O ruivo mal havia chegado através do interfone, e Kenma já achava que espaço não era uma ideia ruim. Não precisou responder, já que assim que Shoyo se recordou da sua sociopatia seletiva, os braços quentes o soltaram de imediato, agora empenhados na nova tarefa tímida de coçar a bochecha. 

Bem... Se (e somente se) tinha que agradecer Kuroo por algo, seria por livrá-lo dos fotógrafos. Não gostaria de ver seu sorriso bobo para Shoyo estampado num tabloide qualquer. 

— Shoyo. É bom te ver de novo.

 

Bom demais para ser verdade. Iria aproveitar sua presença, e postergar agradecimentos a Tetsuro para outra hora, visto que seu suposto melhor amigo lhe esfaqueou pelas costas. Maldito fosse, como teve coragem? Nem lhe avisou que Hinata, de todas as pessoas, estava a caminho de sua casa. O deixou dormir e planejou tudo como um psicopata cínico.

E por falar no advogado do diabo, agora entrava no meio da conversa para também roubar suas falas.

— Faz tempo que sumiu, Hinata!

Tetsuro ligava as chamas do fogão, como se tivesse comida em casa. Era ridículo. Segurava um bule em uma mão e folhas de chá verde na outra, e vestia uma cara de deboche insuportável na direção de Kenma. Ele certamente sabia que o loiro seria incapaz de evitar uma careta incrédula. Estava tentando lhe irritar ainda mais?

— Ah! Sim! M-Me desculpe por isso, de verdade. Eu perdi todos os contatos, e Bokuto-san disse que ia avisar que eu estava vindo, e...

— Bobagem, caríssimo colega. Não se preocupe com nada disso agora. Mi casa es su casa.

Hinata assentiu, sem graça. Isso era uma ótima notícia, pois estava realmente preocupado com quanto tempo a generosidade de Bokuto iria durar, caso seus planos não concretizassem depressa. Abriu a boca para respondê-lo, agradecer a hospitalidade, e dizer que esperava que aquilo não fosse uma brincadeira travestida de gentileza, contudo o diálogo ficou só nos seus planos. Abandonado em detrimento de Kenma, que finalmente parecia ter língua para falar.

— Tão educado, Kuro. Parece até que sabia que ele viria bem antes.

Hinata piscou, desentendido, ao passo que Kuroo colocou um prato na máquina de lavar-louças com mais força que o necessário.

— Há. Você acha mesmo que alguém como o Hinata fosse passar despercebido por mim, Kenma? Ele esteve no ramo do entretenimento por um tempo também.

Embora nada tenha feito para desligar o fogo, Kuroo rasgou as folhas de matcha, deixando o  bule apitar ensurdecedor e esfumaçante. A água ferveu, e Kenma ofereceu o sofá para que Shoyo sentasse, e ainda assim, toda a fachada amistosa que ambos tentavam manter servia somente para implodir o elefante na sala de estar. Como um vulcão entrando em erupção. E era Hinata quem afogava em lava.

 

— Hum. E-Eu já não faço nada disso há um tempo, mas bem, sim—

— Claro que não. Kuroo só tem falado bobagens hoje, ignore-o, Shoyo.

Ignorar? Não sabia se deveria realmente fazer que sim com a cabeça para uma instrução dessas. Ao invés, suou frio, praticando um sorriso mais forçado que a gargalhada de deboche de Kuroo. Se observasse por tempo o bastante, poderia ver a paciência de Kenma escorrendo pelo ralo. 

— Então, como foi sua viagem?

— Incrível! Uwah, Kenma, você tinha que ter ido me visitar. Tem tanta comida diferente das que temos aqui, e você não vai acreditar na quantidade de cachorros de rua que têm lá!

Kuroo se ocupava com o chá quente e uma bandeja de doces de pasta de feijão, servindo-os cuidadoso ao seu convidado enquanto sorria amigável. Não pôde deixar de notar que encheu sua xícara como um excelente anfitrião, e deixou a de Kenma completamente vazia. Os tênis coloridos de Shoyo eram mais discretos que a encarada desalmada que os dois (amigos?) trocaram.

— Eles não cuidam dos seus animais de estimação lá? 

— Não, não é isso — Riu, encontrando conforto no cenho franzido do ator. Costumava fazer isso sempre que algo o intrigava, e lhe aquecia o peito ver que esse hábito de Kenma não havia mudado — Muitos cachorros lá não tem lar, então acabam se reproduzindo nas ruas. Eles não tem raça definida, são “vira-latas caramelo”. A cor deles é realmente essa! E eles são tipo, todos iguais!

— Interessante — Kuroo disse, com tons de deboche — Não achei que iria ver o dia que o nosso querido Kenma fosse falar sobre cães.

O mais baixo cerrou os olhos com a provocação, se endireitando no sofá ao lado do ruivo. Era guerra então.

— Sabe que não odeio cachorros, Kuroo. Exceto se estivermos falando de você.

Hinata parecia o único a piscar, ou, para fins de documentação, o único a fazer qualquer movimento de surpresa. Tentar beber o chá rápido demais não estava fazendo os minutos passarem mais depressa. Seu amigo de longa data marcava o mais alto com adagas no olhar, e parecia ter se esquecido momentaneamente do assunto que estavam falando antes. Realmente havia chegado ali na pior hora possível, certo?

— Hum. Eu… Onde fica o banheiro, Kuroo-san?

— Tem um logo à direita do corredor.

Kenma aguardou o som da fechadura sendo trancada, e colocou a xícara na mesa, limpando a boca. Como se o gosto do conteúdo houvesse lhe ofendido pessoalmente.

 

 

— Que porra tem de errado com você hoje?

— Limpa essa boca pra falar comigo, Kuro.

— Sinceramente, eu limpar a boca? Fazer uma cena na frente do Hinata era a última coisa que eu esperava de você.

— Eu não estou com paciência pra te explicar o motivo óbvio de nada disso.

— Bem, eu não pedi pra me explicar nada, Kenma. Na verdade te fiz um favor, o qual você não sabe reconhecer, porque está ocupado demais me colocando de vilão.

— Favor? — Riu, um pouco mais alto do que deveria — Saber que ele estava vindo e não me dizer nada é um favor pra você?

Kuroo colocou a mão na testa, dramático, aumentando o volume da TV para ofuscar as vozes cada vez mais emotivas. Conseguia sentir uma dor de cabeça se instalar nas profundezas de sua alma.

— Me parece que você também pensou estar fazendo um favor quando falou todas aquelas coisas da KCU sem me contatar antes.

— Ah, então é sobre isso? Sua vingança egoísta interferindo na minha vida pessoal?

— Não, inferno! É sobre você ter se zangado sem sequer tentar conversar comigo, Kenma!

— Exceto que eu tentei! 

Kuroo emendou uma risada incrédula num suspiro, esfregando as mãos no rosto. Se estivesse vestindo um óculos, tiraria ele agora de tanta raiva. Foi o silêncio de Kenma que o fez levantar a cabeça, e enxergar a mágoa que tanto temia nos olhos de gato. Mas os seus não estavam muito diferentes.

—Fala sério. Se eu pudesse colocar o pé pra fora daqui, iria embora agora mesmo.

O ator murmurou, desligando a televisão. Estava irritado. E que se explodisse se alguém além dos dois ouvisse todo o drama. Queria esganar Kuroo até sua risadinha de deboche desaparecer.

— É mesmo? E iria deixar ele aqui, mesmo depois do garoto vir de tão longe pra te ver?

Oh, ele não sabia onde estava se metendo. Devia ter escolhido outro tópico para descascar cebola, porque esse levou Kenma impulsionar o corpo como uma metralhadora para cima de Kuroo, amassando a gola de sua camisa florida em seu punho. Um ato que lhe exigia mais energia do que havia gastado o dia todo.

— Eu não disse isso. E Shoyo não tem nada a ver com isso. Não ouse distorcer as coisas.

 

Não tiveram tempo para afundar mais ainda sua amizade, pois um som de clique na porta veio do corredor. Shoyo timidamente a fechou, e Kenma retornou ao seu lugar no sofá como se nada tivesse acontecido, chateado demais para disfarçar o cenho franzido. Kuroo levantou para lavar a própria xícara, resmungando incoerências. E Hinata fez o que fazia de melhor: fingir que tudo estava bem. Essa última parte, Kenma não sabia dizer se era realmente fingimento. Talvez ele fosse mesmo iluminado assim.

 

— Uou! Eu tinha esquecido que as propagandas aqui são assim. Kenma, sabia que no Brasil eles têm programas só de futebol?

Kenma negou com a cabeça, se sentindo um pouco mal de estar se sentindo pra baixo justo agora. O que estava pensando? Não era seu direito ficar emburrado quando tinha o privilégio de encontrar Shoyo após todos aqueles anos. Mesmo que estivesse coberto de razão. O baixinho pareceu perceber seu desânimo, pois é claro que perceberia. Não poderia se esquecer do quão observadores seus olhos castanhos eram.

— Posso sentar aqui com você?

Disse, colando seu corpo no de Kenma antes de receber uma resposta, e deixando pelo menos um metro de sofá vazios. O ator abafou um riso. O que mais poderia fazer numa situação dessas? Era Shoyo quem acabara de passar anos em um país desconhecido, mas era Kenma quem precisava de consolo.

— Você aprendeu a jogar, baixinho? Futebol, quero dizer.

Kuroo indagou, de costas para os dois. Parecia estar arrumando alguma coisa. Tanto faz. Kenma não estava nem aí. 

— Bem, eu tentei! Não sei fazer quase nada comparado aos brasileiros. Eles são realmente muito bons nisso.

A risadinha fina de Shoyo não era mais tão fina assim. Sua voz havia engrossado um tanto considerável, e estava fazendo coisas estranhas no estômago de Kenma. E havia comido mais cedo. Esperava que não vomitasse tudo agora.

— E os jornais de lá, cuidam tanto da vida alheia como os daqui?

Lá ia ele de novo. Kenma mordeu a língua para não soltar um xingo, cerrando os punhos de nervoso. Não iria — não iria pegar suas chaves, puxar Shoyo pelo braço e acidentalmente bater a porta. Mas não era o único ansioso. Bem, exceto que estava ansioso para soltar um  soco na cara de Kuroo. O corpo do ruivo ficou paralisado com a pergunta. Ele estava nervoso, se aquele seu hábito de lamber os lábios tivesse o mesmo significado que Kenma conhecia.

— Até mais, eu diria. E, pra falar a verdade, Kuroo-san, Kenma...

Pausa dramática. Estavam frequentes hoje.

— Eu vi o que aconteceu na coletiva de imprensa.

 

Os olhos de buraco-negro do ruivo sugaram cada reação do ator sob sua atenção. Suas mãos estavam suando. Parecia que seus velhos caminhos ansiosos não haviam mudado tanto quando se tratava de ter Shoyo observando-o tão de perto. E com uma mecha alocada detrás da orelha esquerda, e o silêncio ensurdecedor de Kuroo, estalou a mandíbula para conseguir entrar naquele assunto.

Hinata, contudo, continuava rápido como um trovão para lhe roubar a artimanha da fala.

 

— Eu estive pensando, Kenma. Você… bem… Como você está de verdade?

Fitando o chão, pensou em mentir. Não precisava preocupá-lo com respostas sinceras, quando acabara de chegar de viagem. Assim como não o incomodou ao longo de décadas com outros pensamentos.

— Por favor. Se vai contar a ele, conte para mim também, Kenma. Estive morrendo de vontade de saber.

Kuroo interveio, como se estivesse falando banalidades, e não começando outra briga. Dessa vez, Kenma não iria comprá-la. Nem que lhe custasse algumas veias rompidas de raiva.

— Estou lidando como posso, Shoyo. Você tem… amigos lá, não é? Na KCU, digo.

— Ah, não sei te dizer. Não falo com eles tanto mais como antigamente, mas costumávamos ser próximos. M-Mas…! Não quer dizer que estou do lado da KCU!

— Não te culparia. São seus amigos, afinal. E eu quem comecei tudo isso. Mesmo que tenha falado a verdade, continua sendo uma ofensa.

Demorou para perceber o silêncio que seu comentário havia instaurado na sala de Kuroo. Kenma levantou a cabeça, um tanto confuso, encarando os dois rapazes. Havia dito algo ruim?

 

— Você… mudou tanto, Kenma.

— Hã? Acha mesmo?

Shoyo o encarava com a expressão mais bizarra do mundo. Era esse o cerne de alguém que engolia as palavras não ditas? Kenma não sabia o que esse comentário queria dizer. Mudança nem sempre significava melhoria. E se Shoyo soubesse disso, poderia ter escolhido outra palavra. Mas não o fez.

— Sim, você está… como é que se diz? Está... confiante!

— Eu sempre fui confiante.

— Não! Digo, sim! Eu quis dizer… — Levou as mãos ao peito, para ênfase, daquele jeito que só ele sabia fazer — Você perdeu o medo, Kenma. De falar o que pensa para estranhos.

Ponderou, por alguns segundos, se a informação condizia com a realidade. Não estava de todo errado, embora ainda fosse alguém reservado e quieto. Foi obrigado a assentir, devagar, que sim. Tinha razão. E Shoyo não parecia ter terminado de concluir seu raciocínio.

— Então, me diga, o que tem de tão ruim nisso?

— Eu não disse que—

— Mas pensou.

Hinata sorriu, brilhante como o sol.

— Você fala o que sente, e não se esconde das consequências. É corajoso. Vai conquistar mais fãs ainda do que inimigos se continuar desse jeito.

 

Kuroo suspirou inaudível, carregando o peso de sempre estar certo. Sabia que Shoyo conseguiria levantar a moral do amigo, de formas que poderia tentar, tentar e jamais ser capaz. Não via mais motivos para estar ali, adicionando stress. Conversaria com Kenma, claro. Mas seu rancor podia esperar.

— Bem, bem, bem — Anunciou, vestindo um casaco — Eu vou à farmácia. Se importa de ficar com ele, Hinata?

— Não preciso de babá, Kuroo — Kenma adicionou, se voltando rapidamente ao amigo ruivo — Sem ofensas, claro, Shoyo.

— Não ligo. Melhor ter uma do que um monte de paparazzi na sua cola. Conto com você, baixinho.

 

E, sem nenhum pudor, ou receio do que estava fazendo com o último grão de sanidade de Kenma, Tetsuro fechou a porta. 

Estavam sozinhos, o gato e o passarinho.

 

As dobras brancas das mãos do ator por conta do aperto extremo que realizava alegavam tentativas mudas de não optar pela via mais urgente de desgoverno total. Fixando o olhar nos tênis que calçava, percebeu que precisava adquirir pares novos e que tentaria fazê-lo assim que a poeira baixasse. Nem sempre compras online poderiam ser propícias e não era como se se importasse com aquilo de verdade. Distrações, distrações...

Desfocar não era o caminho. Volte ao que importa ou ele irá deixá-lo de novo, idiota.

O silêncio não parecia combinar com a situação, e ainda continuou ocorrendo. As palavras como vinham, dissipavam do cérebro. Kozume não se sentia confortável com aquilo. Sabia que tinham muito a expôr. O problema era não saber como. Como dizer? Se resgatar o senso de direção e tomar partido de retribuir o olhar de Shoyo — que sabia que estava em si sem precisar tirar a prova física real — poderia parecer um ato desesperado. Existia a possibilidade de também ser julgado mal. 

 

— Eu… Imagino o que deve estar pensando, Kenma. Mas não vou te julgar, nem posso — Shoyo riu contido. Kenma arregalou os olhos, atônito. Droga. Era como se além de centímetros, tivesse aumentado a capacidade de saber lê-lo. Ainda mais. — Você não acha? Porque eu acho, entende? Você entende sim. Então… Está tudo bem em querer falar agora.

— Shoyo. Por favor.

— Mas só se você quiser também — Hinata deu de ombros, o esboço nos lábios que faziam os olhos dele sumirem. — Não quero que seja obrigado a nada.

— Shoyo — repetiu, mais forte, mais corajoso em se dar a chance de finalmente fitá-lo e testar a pronúncia das sílabas de novo, resgatar o sabor que elas tinham. — Shoyo. Eu quero. — Certo, soltou as mãos do próprio aperto. Podia estar na cama de hóspedes tendo um profundo sonho lúcido, mas, estava ali. A presença do ruivo era incontestável. Sorriu tímido com a conclusão. E sem mais delongar vicioso, elucidou:

— Kuro não me falou nada sobre você chegar. Fiquei um pouco mais zangado do que o normal com isso.

— Sim. 

— Não era parte dos planos fazer uma cena na sua frente. Acho assim que é uma obrigação explicar e te pedir desculpas por isso.

— Não, não, não mesmo! — Hinata gritou. — Kuroo-san me mandou o local, mas a culpa é minha, sabe? Não desconta nele, sério. Eu mandei muitas mensagens pra você nos últimos dias, mas não recebi retorno algum. E enfim… É isso. Eu tava meio apressado porque queria ver você o mais rápido possível, senão— Hinata se interrompeu, súbito. — Estou falando demais?

— Não? 

Ele queria me ver o mais rápido possível?

— Ainda bem! Tem vezes que posso passar dos limites, você sabe, né?

— Sim?

— Kenma.

— Eu?

— Está bem?

— C-claro? — O rosto aquecido e olhar felino surpreso mostravam o oposto. — Por que não estaria? Ha-ha!

— Kenma… — Hinata franziu o cenho, uma mão apoiada ao queixo. — Okay. Não precisa dizer mais nada sobre. Sabe me dizer se aqui no Kuroo tem porta nos fundos?

— Hã? Do nada?

— Ele tem ou não? — Shoyo reforçou, ignorando a tensão.

— Sim… Eu uso quando preciso dela. Mas, por que a pergunta?

— Vamos embora. Tive uma ideia — sentenciou, a confiança nas alturas, levantando como um raio do sofá e capturando a palma de Kenma, disposto a unir com a sua. — Hoje serei o GPS. O que acha?

 

Hinata ergueu as sobrancelhas desafiador. Porém, não aguardou resposta. Era certo que o silêncio daquele ator sabia ser auto explicativo. Ainda o conhecia tão bem…

Kozume tinha muito para processar. Como se o dia inteiro pudesse se assemelhar a um rolo de filme passando em velocidade trinta em uma sala. A diferença sendo que o público resumia a ele mesmo, incapaz de digerir as situações de uma única vez.

Não recordou de bonés, sequer do celular sobre a mesinha de Kuroo. Não necessitava de algo tão supérfluo, pois no fim das contas, a presença de Hinata Shoyo junto de si era suficiente para que qualquer dúvida pairando em nuvens sobre a cabeça fossem afugentadas para zonas longínquas. 

 

E assim, dando mais espaço para uma confirmação de que a noite só estava começando.







 


Notas Finais


Se o Hinata chegasse dez horas da noite na porta da casa de vocês, deixariam ele entrar?


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