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História Por Trás das Grades - Capítulo 11


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Capítulo 11 - Atividades Diárias


 

Fui para as atividades esportivas e o meu colega de quarto, usufruiu mais uma vez do seu atestado médico — algo que eu cobiçava mais do que qualquer outra coisa.

Neste meio tempo — sem a voz de Arthur para me desconcentrar —, eu pensei sobre tudo o que havia acontecido durante o café da manhã. Se Doug realmente havia batido em Diego — o meu agressor — e se havia sido mesmo por minha causa.

— Por que ele faria algo assim por mim? — lembro-me de ter perguntado ao Arthur antes de deixarmos o refeitório. — O que alguém como Douglas ganharia com isso?

Ele sorriu — um sorriso bem sarcástico, diga-se de passagem —, antes de responder:

— Eu não sei, mas me diga você, Lucas. Por que um cara como ele faria algo assim?

E, de maneira muito hesitante, fui obrigado a contar tudo o que havia acontecido, sobrem todos os nossos encontros na Mãos de Ferro. Narrei sobre o momento em que adentrei a instituição e, acidentalmente — como em um clipe da Taylor Swift —, esbarrei-me nele, vestindo apenas s regata e o short preto. Contei também sobre a maneira carinhosa em que ele me tratou quando ainda estava na enfermaria. E, principalmente, contei sobre a maneira com que Douglas mexia comigo, algo que não surpreendeu nenhum pouco Arthur.

Por algum motivo, após contar aquelas coisas para ele, esperei por aprovação. Eu queria ser motivado, queria que ele me dissesse para investir e tentar extrair algo bom de tudo isso.

— Pelo menos, agora eu descobri o motivo de você ter roubado o meu horário de banho, de ter me deixado fedendo... estava praticando agachamento com ele!

— Eu não estava com o Douglas, tinha um oficial no banheiro...

— Isso não torna as coisas melhores, sua safada — Arthur me interrompeu, com uma expressão chocada. — Eu não estou te criando pra ficar dando pra polícia, viado burro.

Achei isso bem ofensivo, ele poderia ao menos fingir que não me achava extremamente atirado, mas, como de costume, eu resolvi ignorar, guardando as minhas explicações para mim mesmo. Encerramos o assunto, despedindo-nos e fiquei sem saber exatamente o que ele pensava sobre tudo.

Desta vez, o esporte que praticaríamos não seria o futebol — que eu conseguia odiar ainda mais do que antes —, mas basquete, ou melhor, outro jogo com bola do qual eu não sabia e não tinha a mínima vontade de jogar. Mas como eu não estava em uma posição para exigir coisas, eu me mantive em silêncio e pratiquei o maldito esporte. Pelo menos, desta vez não separaram a turma entre os com e sem camisas.

O meu time, como já era previsto, ganhou — não pela minha ajuda, claro. Como eu fui sorteado para escolher os membros do time, junto com outro garoto, tratei de pegar os mais altos e fortes, o que resultou em nossa vitória.

Não fiz mais nenhuma amizade, mas já conhecia alguns nomes na minha classe.

E entre eles, estava Renan, um garoto moreno de cabelo encaracolado, que era a pessoa mais habilidosa do meu time.

Também tinha Carlos, um garoto mais pálido do que eu, cujo cabelo escuro jogado para o lado dava um contraste impressionante em sua face. Mas completamente diferente de mim, ele aparentava ser bem durão, do tipo que você se sentia confortável por se dar bem e não correr o risco de levar uma surra.

E, por fim, o Henrique, um rapaz tímido e fraco. Neste caso, eu não o escolhi, ele simplesmente sobrou para o meu time. Depois de mim, ele era, sem dúvida alguma, o mais inútil do meu time.

De todos os jogadores, só fui capaz de guardar esses três nomes.

Durante a partida, enquanto os meus olhos desobedeceram-me e analisaram o físico dos outros garotos — que era maravilhoso —, lembrei-me de Gabriele. Costumávamos sempre assistir às partidas de vôlei e futebol na escola, adorávamos comentar sobre os jogadores, sobre os que achávamos "pegáveis" e aqueles que devíamos "fugir".

E, de repente, bateu-me uma imensa solidão, daquelas que eu não havia sentido desde que entrei para a instituição Mãos de Ferro. Eu sentia falta da minha melhor amiga e, principalmente, eu sentia falta da minha antiga vida — uma que, mesmo com todos os problemas, costumava ser boa. Talvez esse fosse o grande erro do ser humano, dar valor somente nas coisas que já haviam perdido.

O jogo de basquete já havia terminado, mas aquela sensação continuou comigo, aterrorizando-me, fazendo com que a minha mente questionasse se algum dia eu voltaria a me sentir daquela forma — de alguma maneira, completo —, se eu conseguiria recuperar aquela parte de mim, uma que se perdera no momento em que cometi aquele crime.

A verdade é que nem tempo de me enterrar em uma depressão profunda eu tive. Diferente da última vez, eu não havia sido agredido por Diego, o que também garantia a minha presença no restante das atividades diárias. E se eu soubesse do que estava me esperando, teria socado o meu próprio rosto.

Após as atividades esportivas — conhecida também como "uma partida de alguma coisa", o treinador George nos abandonou, dando lugar a Pastora Felícia, que era responsável por nos ensinar sobre religião, para que aprendêssemos o "caminho do bem".

Obviamente, essa atividade era uma das impostas pelo governo, que devia pensar que a única forma de salvar as almas de todos aqueles jovens era com religião — o que, provavelmente, para alguns, até podia ser verdade. Sentamos em um círculo no centro da quadra e a Pastora contou sobre o momento em que sentiu o senhor pela primeira vez.

Eu não era hipócrita ao ponto de dizer que não foi tocante ou simplesmente debochar do seu relato. Só não conseguia ser tão crédulo quanto ela. Diferente de mim, Felícia não estava cumprindo uma pena injustamente. Diferente de mim, Felícia não era julgada por, simplesmente, possuir um sentimento dentro do peito.

Por mais que eu não conseguisse me sentir tão próximo da força divina quanto ela, não debocharia disso, nem mesmo brincaria com a fé alheia. Tudo o que eu fiz, foi ficar sentado, ouvindo-a falar. Não ri como os outros garotos, mas também não fiz de nenhuma de suas palavras, uma verdade absoluta em minha vida.

Quando a sua aula chegou ao fim, a senhora de cabelos mesclados entre o marrom e o branco deixou a quadra. E, com isso, tivemos o inicio da próxima atividade, a última antes do almoço. Para o meu azar e o de todos os outros garotos, era outra atividade estabelecida pelo governo.

A nova atividade era, basicamente, limpar todas as quadras e refeitórios. Descobri que cada dia uma classe — também com cerca de aproximadamente trinta alunos — ficava responsável pela limpeza de duas partes da instituição. No dia seguinte, de acordo com o careca — o mesmo que me "revistou" no primeiro dia —, ficaríamos com os banheiros e cozinhas, o que conseguia ser ainda pior.

Por mais que fosse ruim para mim, não odiei totalmente a ideia, pois não achava justo ver aqueles criminosos comendo e dormindo melhor que, no mínimo, quarenta por cento dos trabalhadores brasileiros. A própria instituição Mãos de Ferro era um grande insulto a classe baixa trabalhadora — mesmo que todos os custos fossem patrocinados por entidades privadas.

Optamos por nos dividir, quinze alunos ficariam com os refeitórios e o restante com as quadras. Jogaram-me na equipe que cuidaria das quadras, o que, na verdade, era o trabalho mais fácil entre os dois. Fiquei encarregado de varrer o chão, removendo todos os papeis e outros tipos de lixo e, logo em seguida, passar pano por tudo. Como eu já estava familiarizado com esse tipo de serviço, não foi nada difícil e terminei tudo bem rápido, consegui até mesmo ajudar outros detentos em suas partes, o que me fez conhecer uma maior quantidade de pessoas.

Quando terminamos a limpeza nas quadras — existiam duas no total —, caminhamos em direção ao outro refeitório, que ficava no segundo prédio e os ajudamos a finalizar por lá também, o último ambiente a ser limpo pela nossa classe. A parte mais estranha em todo o serviço, foi comprovar o quanto toda a equipe se ajudava, cooperando um com o outro, visando o término do trabalho o mais rápido possível, o careca quase não acreditou que tudo estava correndo de forma tão boa.

Por alguns segundos, nem parecia que estávamos todos presos em uma espécie de prisão, que os meus colegas, as pessoas que trabalhavam comigo, de uma forma cooperativa, eram, na verdade, criminosos, provavelmente assassinos. Realmente, não era muito fácil acreditar em uma coisa assim, mas isso não a tornava menos verídica.



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