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História Por Trás das Grades - Capítulo 15


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Capítulo 15 - Realidade (Parte 2)


 

Algumas horas depois, eu continuava sentado na arquibancada da quadra de futebol. Entretanto, a minha melhor amiga já não estava mais ao meu lado. Eu havia sido enviado para a realidade de volta, tornara a sentir o quanto ela era dura e cruel.

Quando o tempo da visita estava chegando ao fim, ela precisou ir embora, pegou a mochila vermelha — nada do que os visitantes trouxessem poderia ficar —, abraçou-me com força e partiu.

Ambos caminhamos em direção à saída, mas ela foi a única a deixar a instituição.

— Eu sabia que te encontraria aqui — disse a voz familiar, ao se aproximar.

Voltei o meu olhar para Doug — o meu "namorado" —, que não esperou por um convite para sentar-se ao meu lado. Enquanto ele me encarava, eu estava fitando os seus olhos, perguntando-me qual das duas cores era a mais bonita, qual combinava mais com ele. Não encontrei muitas respostas, tudo o que descobri foi que amava ambas, igualmente.

— Nas primeiras vezes, é devastador — continuou ele, fazendo com que eu segurasse ainda mais a vontade de chorar. Não queria ficar em prantos em sua frente. — Essa sensação não vai ir embora, mas ela não será tão forte da próxima vez.

Eu não estava com vontade de conversar com outra pessoa, principalmente sobre o fato de eu estar preso, longe das pessoas que amava.

— O que você quer de mim? — eu precisava saber, mais do que qualquer outra coisa.

— No começo, ele costumava vir também — disse Doug, ignorando a minha pergunta. — Mas quando o horário de visitas chegou ao fim, sua expressão mudou e eu soube que era mais difícil para ele ir embora sem me levar, do que para mim, tendo que ficar aqui. — Douglas forçou um sorriso, um extremamente triste. — Na segunda vez e hoje, a terceira, só a minha mãe apareceu para me ver. O meu pai, a pessoa mais próxima de mim, não quis voltar a se machucar.

Depois de alguns segundos em silêncio, ele prosseguiu: — o que estou tentando dizer, é que não foi fácil pra ela ir embora sem você. A dor é igual e, em alguns casos, até pior.

Eu poderia comentar com ele sobre o que estava sentindo ou, simplesmente, agradecê-lo por tentar me ajudar. Mas, tudo o que eu pude fazer, foi perguntar: — por que te chamam de Neto?

— Douglas Lancaster Fernandes Neto.

— Você realmente incendiou uma escola? — continuei com o meu interrogatório.

Pensei que ele não fosse me responder. Na verdade, fiz a pergunta esperando que ele desconversasse e se afastasse de mim, para não ter que tocar nesse assunto de novo. Eu não gostava de ter pessoas ao meu lado — não quando estava triste.

— Coloquei e machuquei vários alunos — respondeu ele, com os olhos fixos nos meus. — Peguei um ano e três meses... uma pena pequena por todo o estrago que causei. — Ele aproximou-se do meu corpo, juntando-nos um pouco mais. Sua mão caiu em cima da minha coxa. — E você... quanto tempo?

Encarei a mão de Douglas, sem saber se devia tirá-la ou não.

— Dois anos — respondi, roubando a sua atenção no mesmo segundo.

Finalmente deixei de encarar o seu membro em cima da minha coxa. Meus olhos focaram na expressão indecifrável de Doug.

— Você não estava brincando... — comentou ele, deixando-me confuso. Mas a confusão durou apenas alguns segundos, o tempo que ele levou para completar: — você realmente matou um cara... só dão penas acima de um ano e seis meses para homicídio doloso.

Voltei o meu olhar pra baixo, esperando que ele se afastasse de mim — um assassino. Desde que Arthur comentou sobre Douglas comigo, pensei que ele fosse alguém perigoso, que realmente havia tirado a vida de alguém. Entretanto, o único assassino naquela arquibancada, era eu.

Notei que a sua mão continuava sobre o meu corpo, ele não estava com receio de mim.

— Você não precisa contar se não quiser... Só precisa se apressar. Depois das visitas, existe uma verificação, onde impedem que os alunos voltem para os dormitórios com algum tipo de objeto não autorizado. — Ele se levantou, sem deixar tirar os olhos de mim, como se não quisesse me perder de vista, em um sentido bem literal. Depois de estender a mão pra mim, Doug finalizou: — vamos, loirinho?

Não peguei sua mão.

— Eu preciso de um tempo sozinho — comentei, com o olhar baixo. Diferente de quando ele se aproximou, eu já não queria que ele se magoasse comigo. — Daqui a pouco te encontro lá dentro, O.K?

Ele balançou a cabeça, sorrindo, presenteando-me com as suas covinhas. Cheguei a pensar que ele fosse se afastar, acatando o meu pedido, mas Douglas aproximou ainda mais os nossos corpos. E, de uma maneira rápida, ele me beijou. Não foi um simples beijo, ele me devorou. Sua língua ágil me invadiu, explorando-me completamente. O toque de seus lábios já foi capaz de me excitar, provando o quanto eu estava atraído por ele.

Mesmo após as nossas faces se distanciarem, os meus olhos continuaram fechados. Demorei algum tempo para digerir tudo o que havia acontecido.

— Beleza, mas se demorar muito... eu volto aqui pra te buscar — depois de dizer, como se eu realmente estivesse pedindo a sua autorização para ficar, Douglas deixou a quadra.

Eu ainda o sentia, em meus lábios.

Não pude deixar de rir daquela situação. Definitivamente, não éramos namorados ou simples "ficantes", mas, por algum motivo, ele continuava tentando me manter perto, sempre que tinha oportunidade. E, aparentemente, o meu corpo e mente estavam respondendo muito bem a tudo isso.

Antes que eu pudesse apreciar um pouco mais o que havia acabado de acontecer, uma risada familiar me interrompeu, fazendo com que o sorriso inocente deixasse o meu rosto.

Só de ouvir a sua voz, eu já fiquei irritado.

Voltei o meu olhar em direção ao jovem que se aproximava a passos lentos.

Eu poderia mesmo me referir a ele como jovem?

O oficial com quem tive o desprazer de cruzar no banheiro parou bem a minha frente.

— Quando estávamos naquele banheiro e você me dispensou, eu pensei "esse garoto é inteligente, não vou conseguir pegar"... — Antes mesmo de terminar a frase, ele tornou a rir, fazendo com que eu procurasse o motivo de tanta graça. — Mas, então, eu fui obrigado a te ver beijando ele, contrariando exatamente a inteligência que tinha atribuído a você...

— Eu não quero sa...

— Mas deveria — interrompeu-me ele, de uma forma séria. Seus olhos amarelados encaravam-me de uma maneira intensa. — Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência, optaria por se afastar.

Cruzei os meus braços, em silêncio, esperando pelo que ele estava prestes a me contar. Provavelmente, comentaria sobre o fato de Douglas ter incendiado uma escola.

Como a resposta demorou a chegar, eu respondi: — eu sei sobre o incêndio e você, como um oficial, deveria se envergonhar por ficar fazendo fofoca.

— Ele te contou o que causou o incêndio? — questionou-me ele, divertindo-se com a minha confusão. — É claro que ele não contou... eu também não contaria.

Como se estivesse mesmo disposto a me irritar, o oficial continuou em silêncio, esperando eu implorar por suas palavras.

Era "oficial" — tanto quanto ele —, eu já o detestava.

— Se começou... agora termine!

— Quando você pedir com jeitinho, talvez eu te conte a verdade — retrucou ele.

Pensei por alguns segundos se realmente queria saber. O resultado foi:

É claro que eu quero saber, droga.

— Você poderia, por favor, me contar? — perguntei de uma maneira calma, segurando-me para não ofendê-lo.

Ele balançou a cabeça, aprovando o meu pedido. Mas, por algum motivo, tornou a desconversar.

— Não vai me oferecer nem um boquete?

Eu me levantei, pois ele não me contaria nada, estava apenas curtindo com a minha cara.

No entanto, o oficial puxou o meu braço, impedindo-me de deixar a arquibancada.

E, de maneira hesitante, ele finalmente abriu o jogo.

— É como se existisse duas pessoas dentro da mente dele, tão diferentes quanto as cores dos seus olhos. — Ele sorriu, divertindo-se com o meu espanto. — O diagnosticaram com bipolaridade, ele é um dos poucos jovens autorizados a fazer tratamento com esse tipo de medicação aqui.

Bipolaridade? Por algum motivo, eu não conseguia acreditar em nada do que ele estava me contando. Provavelmente, era porque eu não queria enxergar nenhuma verdade.

— E se eu não quiser acreditar?

— Aí o problema é seu... eu já fiz a minha boa ação te alertando. — Ele passou a mão por seus cabelos escuros e tornou a me fitar. — Provavelmente, as pessoas que se queimaram naquela escola também não deviam acreditar nisso.

 



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