1. Spirit Fanfics >
  2. Porto do Reencontro >
  3. México 70

História Porto do Reencontro - Capítulo 8


Escrita por:


Notas do Autor


O desafio de recuperar uma vida que parece perdida

Capítulo 8 - México 70


Fanfic / Fanfiction Porto do Reencontro - Capítulo 8 - México 70

A vida na favela (sim, favela; não adianta disfarçar com nomes “mais leves” como “periferia” ou “comunidade”) era tudo o que Wellington conhecera por um bom tempo. Por isso considerava-se uma pessoa feliz. A própria família lhe mostrara desde cedo que “pobreza” não tinha relação direta com “tristeza”. Sim, Wellington sentia falta de bens que outros meninos “mais privilegiados” tinham; mas amava sua família, seus amigos. Sempre ouvira casos de pessoas mais abastadas que enfrentavam dramas pessoais. Pessoas que tinham do bom e do melhor, mais não tinham pais atenciosos e carinhosos como os seus. Moravam bem, mas ficavam a maior parte do tempo trancadas em seus apartamentos, sem poder jogar bola, jogar taco, brincar de pega-pega, entre outras brincadeiras. Garotos e garotas de sua idade que estudavam nas melhores escolas, praticavam esportes; porém não tinham a liberdade a qual o garoto do México 70 desfrutava; eram excessivamente cobradas por bom desempenho nos estudos e nas atividades paralelas, forçadas pelos pais a esmerarem-se ao máximo para “criar uma boa imagem perante a sociedade”.

Certa vez, quando tinha por volta de 8 ou 9 anos, Wellington ouvir alguém dizer na televisão que “menor abandonado não é apenas menino e menina de rua; muitos meninos e meninas de famílias ricas também eram abandonados pelos pais, que passavam o dia na atrás de dinheiro para bancar mais conforto e luxo; deixando de prestar a devida atenção que os pais devem prestar aos filhos; portanto esses menores também eram abandonados”. Isso mexeu com o menino e o fez admirar e amar ainda mais aos pais.

Segundo de 5 filhos, Wellington sabia de importância da família. Sendo um dos mais velhos, lhe foi dada a missão de cuidar dos mais novos, já que o mais velho começara a trabalhar cedo. Wellington também sabia da importância dos estudos e do trabalho. Seus pais alertavam-lhe que “não adiantava apenas tirar boas notas, era preciso aprender”. Aluno aplicado, Wellington nunca foi destaque, MS também não estava entre os piores. Os pais lhe diziam sempre que “o importante não é a quantidade do que você sabe e sim a qualidade e como aplicar os conhecimentos na vida prática”.

Apesar dos pais terem separado-se quando Wellington tinha aproximadamente 7 anos e de sua mãe logo ter arrumado outro marido; Wellington jamais considerou-se “filho de um lar desfeito”. O pai sempre cumpria suas obrigações legais, apesar de passar longas temporadas distante por razões profissionais, o pai de Wellington, Seu Raimundo, sempre entrava em contato com os filhos. Sua mãe, Dona Josefa e seu novo esposo, Seu Marcos; também prestavam toda a atenção.

Wellington observava outras crianças de sua faixa etária na vizinhança: muitos envolviam-se cedo com o tráfico, acabavam na marginalidade, cometendo pequenos delitos, fugiam de casa e passavam a viver como “pivetes”, “trombadinhas”. Alguns acabavam perdendo a vida cedo.

Wellington prometeu a si mesmo jamais cair nessa  “vida”. Acompanhava o padrasto em seu trabalho como encanador, eletricista e servente de pedreiro. Aprendeu ainda novo tudo o que pode sobre pequenos reparos e em pouco tempo já ganhava alguns trocados com biscates nessas áreas. Tudo isso sem abandonar os estudos. Deveria das o exemplo a seus irmãos mais novos e as demais crianças da localidade.

Dona Josefa e Seu Marcos tiveram uma filha, quando Wellington tinha por volta de 10 anos de idade. Kátia, imediatamente tornou-se o xodó da família, a alegria da casa. E um motivo a mais para trabalhar mais duro.

O tempo passou, Wellington cresceu. Muitos de seus amigos de infância acabaram no tráfico de drogas, passavam a ostentar roupas de marca, carros, motos e faziam sucesso com as garotas. Entretanto, isso não impressionava Wellington. Muitos desses garotos acabariam tendo um fim triste, na cadeia ou no cemitério. De que adiantava ter uma vida “opulenta” e morrer cedo, ou passar anos e anos mofando em uma prisão. Mais vale uma vida humilde, com limitações materiais, porém honesta.

Wellington cresceu fazendo reparos com o padrasto e aos 18 anos, tirou carteira de motorista, comprou uma moto usada com ajuda do irmão mais velho e começou a trabalhar como motoboy. Passou a atender toda a Baixada Santista e , as vezes, era chamado para fazer algumas entregas na Capital. Colocava em prática todos os princípios morais que lhe foram passados pelos pais, pelo padrasto e pelo irmão mais velho, Washington.

Até que a leucemia atingiu a pequena Kátia. Tratamento caro e difícil, medicamentos caros. O desespero tomou conta de toda a família. O que fariam? A princípio toda a família tratou de trabalhar em dobro, em triplo; para angariar recursos. Wellington lembrava-se sempre da promessa que fazia a si mesmo de não cair na tentação do crime organizado, mesmo em uma situação como essa.

Até que um dia, não conseguiu resistir. Seria temporário, até aliviar as coisas. Começou fazendo entregas de pequenas quantidades de drogas em bairros de classe média alta em São Vicente e Santos. Havia próximo a sua residência uma pequena pizzaria, que na verdade era apenas uma fachada. A maioria das vezes, pequenas quantidades de droga eram escondidas entre as pizzas. E lá ia Wellington entregar; sempre em bairros nobres. Wellington não era ingênuo, sabia perfeitamente do que se tratava; entretanto  tinha que fazer vista grossa diante da situação. E os ganhos compensavam. Ajudavam muito no custeio do tratamento de Kátia.

Até que um dia, Wellington foi pego pela policia. Não havia muito o que fazer. Ele até tentou disfarçar, alegando não saber que estava sendo usado como “avião”. Porém, foi inútil. Aguardou julgamento em liberdade condicional por ser primário. Após o julgamento, foi condenado a regime fechado, mesmo levando-se em conta todas as atenuantes.

Total de dois anos na prisão. Dois anos que Wellington não gosta de lembrar; dois anos de constante perigo de vida e de ameaças. O único aspecto positivo foi a presença de um companheiro de cela, Jesuino. Cumprindo pena a mais de 10 anos por homicídio, Jesuino sempre fora uma pessoa integra e de grande sabedoria, que após todo esse período encarcerado; sabia, só de bater os olhos em um novato, se o mesmo era ou não um criminoso nato. Muitos conselhos Wellington recebeu de Jesuino. O de crer sempre na própria inocência e na própria índole, isso demonstraria a todos sua real inocência e sua real índole. O de confiar em Deus. O de pensar positivo. A amizade de Jesuino, seus bons conselhos e o contato com a sua família (que não o abandonara em um só momento) alimentavam o alento e a vontade de viver em Wellington.

Passaram-se dois anos, Wellington conseguiu liberdade condicional *. Sua advogada o encaminhou  para o “Profissão Empresário”. Wellington voltou a trabalhar com reparos e com entregas; sua moto ainda estava lá, bem cuidada pelos irmãos, e agora só atenderia a aplicativos, com garantia de atender a estabelecimentos idôneos.

Wellington sentia-se aliviado e alentado com a situação. Conquistara sua liberdade, ainda que com algumas restrições. Kátia apresentava melhora, quase que milagrosamente. O rapaz animara-se com o projeto “Profissão Empresário”. Visitava Jesuino semanalmente.

Wellington, a muito tempo, mesmo antes da prisão; tinha a ideia de ter um negócio próprio, só não sabia em que área. Reparos? Entregas? Aprenderia algo novo?

O dia a dia como entregador de aplicativo lhe dava algumas dicas. Entregadores não tinham uma base fixa, onde poderiam alimentar-se, descansar, cuidas das necessidades fisiológicas e carregar a bateria do celular; bateria descarregada é um problema para entregadores, impossibilita o recebimento e atendimento de pedidos.

Alguns entregadores até encontravam alguns estabelecimentos comerciais cujos proprietários e / ou empregados tinham boa vontade para deixar entregadores usarem como “base”. Entretanto não ofereciam infraestrutura adequada. As empresas que gerem os aplicativos de delivery até mantém algum espaço para atender aos entregadores; porém, estes funcionam em escritórios com acesso restrito, sendo necessária uma certa burocracia para acessa lós, além de não estarem abertos 24 horas por dia.

Após trocar ideias com outros entregadores, Wellington pensou no seguinte: e se fosse possível criar ele próprio este espaço? Um espaço para entregadores utilizarem como base, com instalações higiênicas e confortáveis; poltronas anatômicas, nas quais seria possível até “tirar um cochilo” e equipadas com uma tomada para recarregar o celular; armários para guardar pertences, sanitários decentes, vestiários, refeitório com geladeiras e fornos de micro-ondas; bicicletário, máquinas de vendas, bebedouros. Cada entregador pagaria uma mensalidade, mas também poderiam haver planos semanais, quinzenais, bimestrais, trimestrais, semestrais, anuais...

As empresas gestoras de aplicativos também poderiam colaborar, pagando uma quantia mensal. Estabelecimentos comerciais também.

Wellington viu aí a oportunidade. Poderia ser viável ou não, teria que estudar. Mas atenderia e bem a uma necessidade de toda uma classe.


Notas Finais


Não conheço quase nada sobre leis, portanto não entrei em detalhes sobre o período do personagem no cárcere; preferi focar em sua biografia e perspectivas após o cumprimento da pena.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...