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História Potterlock - O Príncipe Mestiço - Capítulo 10


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Capítulo 10 - Falsa amizade


John acordou cedo demais, e ainda tinha dormido muito tarde por causa do jantar do Clube do Slugue. Dava para ouvir o uivo do vento, e a paisagem lá fora estava apagada pela neblina. A aula de Herbologia seria a primeira do dia e era bom poder descontar a revolta lutando contra plantas violentas pra variar, pois o dia de ontem não havia sido nada satisfatório. Sherlock descarregara uma exagerada dose de fúria nele, e, à noite, ainda teve que passar quatro intermináveis horas ouvindo o professor de Poções falando de si mesmo e babando ovo por Irene Adler em razão da longa teia de influências que a mãe dela exercia.

Sentou-se na cama e suspirou.

Se tivesse se declarado pra Sherlock e levado um fora não teria sido tão ruim quanto a forma como ele vinha tratando-o desde o mistério da opala. Uma parte de si dizia que estavam quites, afinal ele não esquecera o que fora capaz de falar para o corvino da vez que haviam brigado feio, mas a outra… A outra lhe dizia que não havia motivo para Sherlock fazer o que fez. 

Normalmente John relevava os defeitos do amigo. A frieza e a falta de tato social dele o deixavam, no máximo, aborrecido, mas de certa forma gostava dessas peculiaridades. Especialmente porque isso estava intrinsecamente ligado à forma sobre humana como aquela mente brilhante funcionava. Mas não foi isso o que aconteceu dessa vez. Sherlock quis machucar e, diferente do que aconteceu em seu terceiro ano, que acabou falando o que não devia por ter ficado anormalmente abalado, dessa vez ele fez isso por simples vontade.

John se lavou, vestiu o uniforme e desceu a escada. Ao chegar ao salão comunal, a primeira coisa que viu foi uma figura estirada no sofá, num sono profundo. Um dos braços estava pendurado perto do chão e a outra mão estava em cima da barriga. A respiração pesada parecia um ronco muito baixo. Ele se aproximou cautelosamente da pessoa e, ao reconhecer a irmã, sentiu uma pontada infeliz. 

– Hey, Harry. – o rapaz a sacudiu de leve – Harry! 

A irmã grunhiu algo, e deu pra sentir um cheiro repulsivo de álcool velho vindo dela.

– Hei! Acorda!

Harry abriu os olhos inchados e amarrou a cara para o irmão.

– Vai encher o saco de outro, John… – soprou ela lerdamente, voltando a fechar os olhos – eu só tenho aula mais tarde.

– É mesmo? Que dia é hoje?

– Hm… quinta. Quinta, isso… Só tenho aula mais tarde.

Ela esfregou um dos olhos com a mão e deu um longo bocejo antes de voltar a encarar o rapaz:

– Não precisa fazer essa cara, John. Eu não fiz nada errado.

– Eu não disse que fez. Por que tá dormindo aqui?

– Eu ando evitando o dormitório pra não precisar ver a cara da Clara – ela deu uma resmungada fraca e monossilábica.

A resposta não o convenceu totalmente.

– Onde esteve ontem a noite? – perguntou ele da forma mais sutil que conseguiu.

Harry riu debilmente:

– Com a professora Trelawney. Sabe o xerez e as bebidas que eu encontrava na adega no ano passado? Eram dela. A morcega velha teve que trocar o tipo de esconderijo da Sala Precisa e eu peguei ela no flagra. Mas agora podemos trocar umas ideias, ela e eu.

– Você já esqueceu das consequências da sua bebedeira da vez passada?

– Eu não tô mais namorando e não tô bebendo escondido. Nem fui eu que trouxe o álcool. Vai me acusar de que? De ter ficado fora da torre no horário de dormir? Porque vai ser muita hipocrisia sua.

John balançou a cabeça:

– Não... Mas pelo menos termine de dormir no dormitório feminino.

– É… Esse sofá me deixou quebrada. É desconfortável dormir aqui, sabia?

Ela se levantou, preguiçosa e cambaleante, e rumou vagarosamente até a escada para o dormitório feminino.

John desceu para o refeitório, onde havia uns dez ou doze gatos pingados, sentou-se de costas para as outras mesas e degustou o seu café da manhã muito devagar. Sentia mal e anormalmente fraco. Um estranho pensamento insistia em martelar na sua cabeça, dizendo que Sherlock não teria ficado bravo se o grifinório fosse mais esperto ou menos fútil. Ou então, que era natural que alguém com a mente do corvino exigisse que seus acompanhantes tivessem mais utilidade. Mas ele cuidava de se livrar delas e insistir no que parecia mais lógico. “Eu não merecia aquilo. Eu realmente não merecia”. 

E se Sherlock realmente exigia uma constante utilidade de John para a amizade deles funcionar? Tinha consciência de que não poderia ser útil por todo o tempo, então, talvez, a dura verdade é que o relacionamento deles estava destinado ao fracasso.

Terminou a refeição e decidiu ir logo até a estufa 06. Quando passou pelas portas de carvalho, foi recebido por uma ventania gelada e uma névoa tão densa e esquisita que mal conseguia ver a paisagem à sua frente. Juntou a capa mais para perto do corpo e atravessou o campo com dificuldades. Foi quando ouviu passos corriqueiros atrás de si, chafurdando na grama molhada, e não demorou muito para o dono das passadas alcançá-lo. 

– Hei! John! – chamou a voz de Sherlock.

O grifinório parou de súbito e o encarou, surpreso. Mas logo sua expressão endureceu.

– Que foi? –perguntou John, rispidamente – Tá precisando de mim agora?

– Na verdade, não.

– Ótimo. – voltou a andar, dessa vez mais apressado.

– Espere! – Sherlock o seguiu – Eu exagerei, você não é inútil. É só que, naquele momento, você estava tendo zero utilidade.

John contou de um até dez, esperando a raiva se esvair porque seus punhos já estavam bem fechados.

– Ta, Sherlock, eu entendi. Agora me deixe em paz e vá perseguir o amor da sua vida. Eu tenho aula pra assistir.

Sherlock se adiantou e puxou o amigo pelo cotovelo, fazendo-o se virar, mas John se soltou bruscamente. Mesmo com a névoa, dava para ver que o grifinório estava bastante enraivecido.

– Olha… eu sinto muito. – confessou o corvino.

– Você sempre vai dizer que sente muito depois de falar comigo daquele jeito? Eu nem sei o que deu em você!

– Eu estava com muita raiva, você tava por perto e…

– Eu quis sair do seu lado e você não deixou! Você queria me tratar mal e queria ver até onde eu aguentava!

– Eu não queria isso! Eu só…

– Só não se importou! Não se importou em descontar tudo em mim!

Sherlock travou, como se tivesse sido pego desarmado. John balançou a cabeça, atordoado, e fez menção de voltar a andar.

– Você tem razão – o corvino disse antes que o amigo pudesse ir embora, e o grifinório voltou a mirá-lo. – Eu devia ter me importado mais.

Ele se aproximou, mas John recuou o mesmo número de passos, deixando bem claro que não o queria mais perto do que aquilo. A forma como os olhos verdes escuro do jovem Watson o encaravam era cheia de ressentimento.

– Eu conversei com Dumbledore ontem – prosseguiu Sherlock, sem dar mais um passo. 

– Sobre mim?!

– Não, não. Sobre Voldemort. Ele me mostrou mais coisas do passado dele. Mas isso me fez pensar sobre a gente. Na verdade, me fez pensar sobre mim e sobre o que eu fiz. Eu gosto de você e mesmo assim não me importei em lhe tratar daquele jeito porque eu estava com raiva. Agora eu não sei o que sou capaz de fazer.

John cruzou os braços e baixou a cabeça. Ainda roto, se limitou a olhar para a nesga de grama que ainda aparecia sob a névoa:

– Você não é uma pessoa ruim só porque cometeu um erro... mas é que estou sempre querendo ser útil pra você de alguma forma. – admitiu o grifinório em voz baixa, e um aperto muito doloroso contraiu seu peito, como se algo tivesse se partido dentro dele. Então finalmente ergueu a cabeça para fitar o amigo. – Agora eu só quero ficar sozinho. Se o problema é o livro, eu lhe entrego amanhã, depois do treino.

E se virou para continuar seu caminho. O corvino não insistiu, não prometeu mudar, nem continuou a se justificar. Apenas o deixou ir.

Sherlock voltou ao pátio do castelo ao invés de ir para a estufa 06 e sentou-se na balaustrada para esperar dar o horário da aula. Não havia nada que pudesse fazer. Foi ele que pisou na bola no fim das contas. Bom, era realmente verdade que, no caso da opala, John tivera zero utilidade. Também era verdade que não foi graças ao grifinório que ele ganhou o jogo. Também não mentira quando disse que o amigo atrapalhou, o que era bem normal, afinal John era uma pessoa comum e na maioria das vezes a mente dele não acompanhava a sua. Então qual era o problema afinal?

"O problema é que você me ofendeu de propósito e sabe disso, idiota!" ralhava a voz do Watson que existia somente na sua cabeça.

– Shhh. Quieto. Você não tá falando comigo, lembra?

Ele encostou-se no pilar e encolheu as pernas, trazendo os joelhos para junto do corpo e apoiando os braços neles. Parte de si o repreendia. Havia deixado John triste e não gostava de vê-lo daquele jeito. Mesmo assim fez questão de descarregar em cima do amigo. Na hora não pensou direito, e talvez a ficha nem tivesse caído se ele não tivesse achado pontos em comum entre ele e o Lorde das Trevas, ou se não tivesse falado com Dumbledore.

Será que lá no fundo não se importava com John? E se fosse realmente melhor para o grifinório não o ter mais por perto? Seria essa a dura realidade que teria que aceitar? "Pensando bem, nossa amizade não é algo espontâneo, não acha?" disse a voz do Watson em sua cabeça "Eu sou só um guia que você escolheu. Mesmo que eu queira, não vou conseguir me afastar porque meu destino já foi escrito. Estou preso a você." 

Era verdade. A amizade deles não era algo verdadeiro, servia apenas como um parâmetro para o corvino não se corromper. Mas por que John? Por que não Dumbledore? Ele tinha consciência de que o diretor da escola era a única pessoa com algum poder sobre ele, mesmo de uma forma muito sutil. John era só um garoto que não tinha nenhum dom de fazê-lo mudar qualquer característica que seja. Talvez tenha escolhido o guia errado e acabou condenando uma pessoa inocente. Agora, como desfazer isso?

Não saía da sua cabeça a ideia de que se o grifinório ficasse livre das amarras que o prendiam ao corvino, ele seria mais feliz. 

Depois de vinte minutos foi que os demais sextanistas começaram a descer as escadas de pedra para atravessar o jardim em meio à névoa que não havia baixado. Sherlock deixou uma boa leva de pessoas caminhar na frente para finalmente se dirigir à estufa 06. Dentro dela, todos estavam agasalhados e, em cima dos tabuleiros, havia tocos de arapucosos, uma planta perigosa que mais parecia um tronco oco e podre, mas que podia arrancar-lhes um braço.

Sherlock se aproximou do tabuleiro onde Lestrade e Molly estavam, pois Percy escolhera não se matricular naquela disciplina.

– Posso me juntar a vocês?

– Uau... – Molly pareceu surpresa – Isso é novidade.

– Você e seu namorado brigaram? – perguntou Lestrade, meio sério, meio risonho.

– Algo assim – respondeu o corvino sem emoção, encaixando um protetor de gengivas. – Como foi o jantar com Slughorn? – mudou propositalmente de assunto.

– Não foi ruim – respondeu o lufano, colocando os óculos protetores – Tá certo que ele fala muito de si mesmo e que John é a única pessoa que dá vontade de conversar naquele grupo, mas pelo menos ele nos apresentou a Guga Jones.

– Que é…?

– Capitã do Harpias de Holyhead. Time profissional de quadribol.

– Vamos logo tirar essa vagem? – pediu Molly, aproximando-se da planta – Antes que a professora Sprout nos tire pontos.

Os três aproximaram as mãos do toco e a planta imediatamente ganhou vida. Vários galhos longos, urticantes e espinhosos saíram de dentro dela e chicotearam o ar. Os três protegeram o rosto com os braços para amenizar os danos, e um dos galhos se enganchou nos cabelos de Molly. Lestrade o cortou com uma tesoura de poda, fazendo o filamento recuar como um macarrão sendo chupado para dentro da boca. Mais tentáculos emergiram, e os rapazes conseguiram, com astúcia, segurá-los com as duas mãos. Molly corajosamente enfiou o braço dentro do buraco oco e ele se fechou. Sherlock torceu os galhos que segurava, e o buraco reabriu. A lufana puxou o braço de volta, trazendo entre os dedos uma vagem enorme, e os rapazes soltaram os galhos urticantes, que tornaram a se recolher, fazendo o toco parecer um inocente pedaço de madeira seca. Todos os três tinham um ferimento no rosto.

– Você tá bem? – perguntou o lufano à amiga, que massageava o braço depois de jogar a vagem numa tigela.

– Ai… sim… Nunca vou querer essa planta no meu jardim – ela pegou uma faca e tentou cortar a casca dura.

– Ah, e Sherlock – Lestrade retomou a conversa interrompida como se não tivessem sido atacados pelo toco de madeira –, o professor Slughorn vai dar uma reunião de Natal e dessa você não vai ter jeito de escapar. Phelps deu a sua agenda completa e o professor disse que checaria os deveres passados pelos professores. Vai marcar a festa numa noite em que você possa ir. 

O corvino revirou os olhos.

– Você devia ter inventado uma desculpa – resmungou.

– E eu pareço o que? Seu elfo doméstico? Ah, e a gente pode levar um par. 

A faca de Molly passou pela casca dura da vagem e bateu na tigela.

– Par?! – Ela inquiriu, franzindo a testa – Isso é algum tipo de baile?

– Tá com cara de festinha pomposa, sim – respondeu o lufano, pegando a vagem da amiga e tentando espremê-la para tirar a seiva – Parece que algumas pessoas importantes vão aparecer.

Sherlock levantou os óculos de proteção e olhou para as costas de John, que brigava junto com Henry contra os tentáculos de um arapucoso que atacava Sally. Balançou a cabeça pra espantar a ideia que ameaçava vir. Mesmo que estivessem bem um com o outro, o grifinório com certeza iria preferir ir com uma garota interessante, isso se já não tivesse uma em mente. Foi assim no baile de inverno e até no seu aniversário. 

– E isso é obrigatório? – indagou o corvino, folheando o Árvores do Mundo que se Alimentam de Carne.

– Não, não. – respondeu Lestrade.

– Ótimo.

– Sherlock, acho que ir sozinho não é uma opção – alertou Molly. – Você é o aluno mais popular da escola.

– E...?

– Isso é uma pergunta séria? Ninguém vai lhe deixar em paz enquanto você não arranjar alguém.

– Ela tem razão – concordou Lestrade. – Por que não convida a Adler de novo?

– Não. – o corvino foi taxativo.

– Por que não? Ela intimida você?  

Incomodado, Sherlock franziu sutilmente o cenho enquanto um tom de rosa preenchia suas bochechas. Algumas coisas eram duras demais de admitir.

– É quase decepcionante – falou Molly, contrariada, para o lufano – que você esteja sugerindo pra ele justamente a garota que tentou lhe vender excremento de fada mordente dizendo que era elixir baruffio.

Lestrade também corou.

– Eu só achei que eles se davam bem! – defendeu-se, desconcertado.

– Nós nos damos – esclareceu o corvino, carrancudo, parando numa página em particular –, mas ela é difícil de ler e eu gosto de saber com o que estou lidando. Olhem só, aqui no livro diz que tem que perfurar a vagem. Deixem que eu faço isso. 

Lestrade passou o produto pra ele. Os lufanos tornaram a baixar os óculos sobre os olhos e mergulharam mais uma vez no toco, enquanto Sherlock usava uma estaca pra partir a vagem, fazendo a tigela se encher de tubérculos que se torciam como vermes verde-claros.

Os dias transcorreram e, em meados de novembro, Hogwarts já estava dividida entre dois estados de espírito extremamente diferentes. Um deles advinha do clima de pavor que crescia na medida que as notícias do Profeta Diário ficavam mais macabras. Fora que depois de saberem que Witty Winter esteve sob a maldição Imperius, os alunos começaram a repassar uns aos outros códigos para detectarem se alguém está sob efeito da dominação ou mesmo disfarçados com poção polissuco. Os assinantes do Profeta Diário, como Emily Harrison, todo dia ouviam perguntas dos demais colegas sobre quem havia desaparecido ou morrido, na esperança de não encontrarem alguém que conheciam.

O outro se resumia a fofocas sobre a vida íntima de Sherlock Holmes.

Como a notícia sobre o baile de Slughorn já tinha se espalhado por todo o castelo, as idas e vindas de Sherlock pareciam um cortejo de um bruxo só a ser admirado por grupinhos de garotas dando risadinhas e conversando entre si.  Isadora Klein, da Sonserina, chegou a insinuar três vezes que gostaria de ser convidada para o baile.

Para completar, seus admiradores do gênero masculino começaram a brotar da terra, e eram bem mais descarados e irritantes. Um quintanista da sua casa insistia em mostrar sua coleção de cartas raras de bruxas e magos famosos a sós; o novo batedor da Grifinória vivia se aproximando dele com a desculpa de estar procurando por John, como se a casa do Watson fosse a Corvinal; fora a vez que, no Clube de Duelos, o professor Flitwick pediu para ele mentorear um corpulento veterano da Lufa Lufa na prática das posições de defesa, e o desconhecido começou a acariciar-lhe o braço de uma forma desnecessária, que Sherlock não gostou nem um pouco. 

Por onde andava era alvo de risadinhas e olhares indiscretos das meninas ou então era abordado por um ou outro garoto mais corajoso. Privacidade se tornou algo quase impossível. Seu mal humor era tanto que não havia um só momento em que um comentário grosseiro não pulasse da sua língua para espetar alguém atrevido. 

Pra piorar, estava bastante determinado a deixar John em paz, mas a ausência do grifinório no seu cotidiano fez a voz dele em sua cabeça alcançar outro nível, e agora dialogava com a própria imaginação frequentemente. Tão frequentemente que quase não sentia falta do Watson verdadeiro. Espantosamente, Sebastian Wilkes deixou passar que as meninas do terceiro ano achavam essa mania dele de falar sozinho um... charme.

E ele é que era o esquisito.

Então veio a cereja do bolo, uma notícia dada por ninguém menos que Irene Adler quando o encontrou na biblioteca, num momento em que o rapaz olhava o Mapa do Maroto enquanto fingia estar estudando Runas Antigas. Ele puxou o mapa discretamente para baixo da mesa quando a percebeu se aproximando, porém continuou fingindo que estava concentrado no silabário. Esperou-a se sentar.

– Oi, Holmes. Se eu fosse você, tomava cuidado.

Sherlock a encarou, lentamente e aborrecido. No entanto, deu uma chance À Garota e perguntou:

– Como assim? 

– Acabei de ouvir no banheiro umas meninas discutindo meios de dar a você uma poção do amor. Todas têm esperança de fazer você levá-las à festa do Slughorn, e todas parecem ter comprado as poções. 

Ele revirou os olhos. Tudo que queria era uma desculpa para não ir à maldita festa.

– Saco. Nem posso escolher meu par?

– Você não tem par nenhum, então é normal elas fazerem o possível para que você as convide como, você sabe, um futuro namorado.

– Um namorado embriagado com Amortêntia? Que relacionamento feliz.

– O que você queria? Amor verdadeiro?

– Levar em conta a minha vontade é suficiente. Amor pode ser fonte de algum poder mágico, mas é tão subjetivo que perdi a paciência com isso.

Adler fez uma careta incrédula e escarnecedora, como se quisesse saber se o rapaz estava ou não falando sério.

– Quem disse que isso é mágico?! – perguntou ela.

– Dumbledore. 

– Ah… Bom, o professor Dumbledore pode ser um gênio e tal, mas ele é muito idealista, não? – ela deu de ombros, descrente. – O que as pessoas chamam de amor é só uma troca de favores. Alguns querem galeões, outros querem uns amassos, outros querem companhia e outros só querem sentir que valem alguma coisa. 

Eis outra resposta que não parecia fazer sentido, caso contrário, o que Lilian Evans ganhou em troca do seu sacrifício? Será que ela não gostava de viver? O sacrifício seria uma forma dela achar um valor próprio? Bem, era difícil teorizar sobre uma pessoa que nem chegou a conhecer direito. Qualquer lembrança que ele pudesse ter tido sobre Lilian Evans foi apagada pela sua mãe.

– De qualquer forma – a Garota continuou – muita gente acha que a poção desperta o interesse da pessoa. Pra depois ficar mais fácil conquistá-la.

Sherlock se segurou para não olhar pro teto. Pelo visto as decisões insensatas não terminavam em Merope Gaunt. Então se imaginou agindo feito um dos frequentadores da Casa de Chá da madame Puddfoot, fazendo carícias constrangedoras em público enquanto querubins dourados jogavam confetes de coração sobre a mesa. 

Preferia enfrentar Voldemort de novo.

– Esse negócio não deveria ser proibido na escola? – perguntou o rapaz.

– As lojas mandam as poções disfarçadas de embalagens de perfume. Isso pode passar despercebido por Filch, ainda mais se for a Amortêntia.

Ele ergueu uma das sobrancelhas:

– Você parece entender bastante do assunto.

Ela riu sem nenhum constrangimento:

– Eu sei mesmo, não é?

– A informação é de graça ou tenho que me preocupar?

– Considere isso um favor – riu a moça, arrastando a cadeira pra trás – por eu gostar de você.

Ela deu uma piscadela marota, se levantou e saiu para andar por entre as estantes. 

Sherlock fechou o silabário e tamborilou impacientemente os dedos na capa. Da última vez que ele checou os passos de Moriarty, ele estava nas masmorras da Sonserina e perto de Moran.

Só queria que ele desse a próxima pista logo.

 

~O~

 

A Lufa Lufa havia ganhado da Corvinal no jogo do penúltimo sábado do mês. Foi uma vitória apertada, decidida por Lestrade que, em sua estreia, conseguira pegar o pomo quando o placar já estava 40 a 100 em desfavor do time dos topázios amarelos. John e Sally vibraram na plateia pela vitória de virada e não viam a hora de enfrentar o amigo em campo.

Na hora dos treinos, no entanto, a realidade dava uma coronhada na cabeça. As garotas pararam de discutir com Joseph Harrison, mas trocaram a implicância pela apatia, alimentando uma insegurança que fazia o goleiro ter picos de oscilações entre o sucesso e o desastre. As vezes fazia defesas muito boas, como ficar pendurado na vassoura e chutar a goles com o pé, para longe do alcance das artilheiras, mas as vezes deixava escapar doze gols seguidos. John foi do discurso motivador até o autoritário, mas nenhum parecia fazer tanto efeito. No fim das contas, Harrison anunciou que depois da partida do dia seguinte, abandonaria o time.

– Você vai ter que pegar o pomo bem rápido – grunhiu Sally, já cansada, enquanto andava ao lado de Clara e John. Já era quase seis da noite, e o capitão decidiu encerrar os treinos para que o time pudesse descansar – ou estaremos fritos.

– Ele só precisa ficar com a mente tranquila – John falava no automático. – E vocês também. Descansem.

As duas deram batidinhas no ombro do rapaz e os três entraram no castelo. John engoliu a refeição forçadamente e precisou tomar um banho bem longo pra conseguir ficar relaxado na hora de se deitar. Já na cama, no escuro, ficou acordado por um longo tempo. Não queria perder a partida que se avizinhava; era a sua primeira como capitão e o jogo ainda seria contra a Sonserina. Contudo, as chances de vencer estavam bem baixas.

Imaginou se Sherlock iria torcer por ele. Bom, não sabia dizer se o rapaz realmente torcia por ele, afinal poderia assistir aos jogos apenas para passar o tempo, mas o fato é que Sherlock assistia mais jogos da Grifinória do que da Corvinal e nunca perdera um jogo seu. Infelizmente, talvez isso tenha mudado. Já fazia um mês que eles não se falavam direito. Talvez a frase mais longa que trocaram nos últimos dias foi "aqui está o livro".

John puxou de baixo do travesseiro um caderninho preto e apontou a varinha para o lacre, sussurrando baixinho: 

O teu dueto. 

O lacre se converteu numa pena negra e o caderno se abriu na última conversa que tiveram. Foi no começo de setembro, quando Sherlock lhe confessara que era, de fato, O Escolhido. É certo que antes as páginas seguintes haviam sido preenchidas por observações do corvino acerca da periculosidade das mantícoras, que John fez o favor de apagá-las com o deletrius depois de se perguntar o que impedia o rapaz de fazer as anotações em um caderno comum. De qualquer forma, agora abrira o dueto apenas lembrar-se das conversas e apreciar a caligrafia de Sherlock: Letras pequenas e juntinhas, inclinadas pra esquerda e com um bom espaço entre as palavras. Os a's e os o's eram perfeitinhos, mesmo numa escrita corrida, e os g's dele eram bem parecidos com os seus, com um laço estreito e gaiato. 

Olhou para o teto pensativamente. Para alguém insensível, o corvino até que tinha um jeito maduro de encarar as coisas. Maduro até demais. Ele não correu mais atrás de John ou qualquer outra coisa do tipo. Na verdade, ele não aproveitou nenhuma das ocasiões em que se falavam para se reaproximar, fazendo o clima entre os dois ficar cada vez mais estranho. Era só uma questão de tempo para que começassem a agir como dois completos desconhecidos, e John não pôde deixar de se sentir imensamente frustrado por isso. Poxa, não dava pra ele insistir só mais um pouco? Desobedecer o pedido de deixá-lo sozinho só de leve? Era normal ele ser inconveniente e teimoso, então por que resolveu bancar o bruxo sensato justamente agora?

A resposta veio como uma bomba. "Porque ele não se importa".

John fechou o caderno e o deixou em cima da linha do diafragma. Tinha que aceitar a realidade. Sherlock tinha coisas mais importantes pra se preocupar do que a amizade deles, a começar pelo fato de ser um bruxo com um alvo marcado na testa. Por isso tanto descaso.

Remoeu esse pensamento enquanto sentia o sono chegar. Seus olhos ficaram pesados e estavam prestes a se fechar. 

De repente o caderno em seus braços esquentou e o coração de John deu um soco em seu peito. Sentou-se e olhou assustado para os lados, como se fosse se deparar com o corvino saindo de baixo da capa da invisibilidade. Ok, Sherlock não invadiria o dormitório desse jeito, mas... foi coincidência demais.

Abriu o dueto para ler a nova frase que se formara. Sem dúvida era a letra do corvino.

“Boa sorte amanhã. Vai precisar disso.”

O sangue de John ferveu por alguns segundos. Sério que ele usou o dueto pra esfregar na sua cara que o time estava indo mal?! Fechou o caderno furioso e o jogou para a beira da cama como se fosse um frisbee. Parecia que Sherlock queria machuca-lo de novo, ou simplesmente provocar.  Não se lembrava dele ter dito "boa sorte" alguma vez na vida, então pra dizer isso agora era porque o time estava indo mal.

Agora começou a se perguntar se por acaso o corvino assistira ao último treino.

Bom, em todo o caso, o único que precisava mesmo de sorte era Joseph Harrison. Ele era um bom goleiro, mas precisava estar num bom dia para fazer a diferença. Com sorte, amanhã seu goleiro já estaria em forma.

Espera... Sorte!

E a resposta ocorreu a John em um súbito e glorioso acesso de inspiração. 

Na manhã seguinte, o café da manhã foi aquela excitação de sempre; os alunos da Sonserina assoviavam e vaiavam alto cada jogador da Grifinória que entrava no salão principal. John olhou para o teto e viu um céu claro e azulado do lado de fora: um bom sinal. A mesa da Grifinória era uma mancha compacta vermelha e dourada, e desejava sucesso pra cada jogador que viam.

– Chá? – ofereceu John para Joseph Harrison. – Café? Suco de abóbora? 

O goleiro olhou para ele como se estranhasse. Havia um tom levemente esverdeado de náusea no rosto do veterano.

– Por que está me servindo?

– Quero meu goleiro em forma, ora.

Henry cumprimentou Witty, Sally, Clara e Emily, que ainda tomavam café, e foi até o Watson e o Harrison.

– Bom dia! Prontos pro jogo? – perguntou o herdeiro Baskerville. 

– Prontíssimos! – respondeu John, que estava se concentrando em passar para o goleiro um copo de suco de abóbora. – Aqui, Joseph. Beba. 

Joseph tinha acabado de levar o copo à boca quando Henry falou com rispidez: 

– Não beba isso, Harrison! 

Os dois olharam para ele. Henry encarava o Watson como se não conseguisse acreditar no que via. 

– Você acabou de pôr alguma coisa nesse suco! – acusou o herdeiro Baskerville.

– Não sei do que você tá falando. – replicou John.

– Eu vi! Você acabou de virar alguma coisa no copo dele. O frasco ainda está em suas mãos! 

John guardou depressa o frasquinho no bolso. 

– O que ele teria colocado? – questionou Harrison, confuso.

– Eu acho que foi... – Henry olhava do apanhador para o goleiro, inclinou-se para eles e falou mais baixo – Ele ganhou uma… uma poção da sorte na aula de Poções. Eu acho que foi isso que ele colocou no seu suco!

– Pare de viajar, Henry. – ralhou o Watson – Não coloquei nada! Confie em mim, Joseph. Beba!

O goleiro ficou atarantado por um tempo. Todavia, olhou para John determinado e virou o suco numa golada. 

– Vamos jogar. – falou o Harrison decidido.

Na descida para o estádio, a grama congelada rangia sob seus pés. Era uma sorte o tempo estar bom, e pelo modo desconfiado como Harrison olhava para o céu azul, ele também pensava a mesma coisa. Isa e as garotas já tinham vestido os uniformes de quadribol e aguardavam no vestiário. 

– As condições parecem ideais – comentou Clara.

Eles entraram em campo sob gritos e vaias. Uma parte do estádio era totalmente vermelho e ouro; a outra, um mar verde e prata. Muitos alunos da Corvinal e da Lufa-Lufa também tinham tomado partido. John se dirigiu a Madame Hooch, a árbitra, que estava em posição para soltar as bolas do caixote. 

– Capitães, apertem as mãos. – mandou ela.

John Watson e o novo capitão da Sonserina, John Evans, quase transformaram um simples aperto de mão em uma queda de braços. O seu homônimo também era loiro, mas parecia ter o dobro de seu tamanho em todos os aspectos.

 – Montem suas vassouras – tornou a falar a juíza. – Quando eu apitar... três... dois... um... 

Soou o apito, John e os outros deram impulso do chão congelado e partiram pro céu. Ele sobrevoou o perímetro do campo usando a sua firebolt, leve como uma pluma, obedecendo o mais sutil de seus comandos. Sem dúvida era a melhor vassoura que poderia ter. Procurava o pomo e, ao mesmo tempo, mantinha-se de olho em Evans, que ziguezagueava muito abaixo dele.

A disputa pela goles estava acirrada, e a artilharia dos dois times se empenhava pra não deixar a bola chegar ao gol ao mesmo tempo em que tinham que se cuidar para os quatro batedores do campo não terem êxito em sua árdua tentativa de atingir alguém do time adversário. Infelizmente ninguém conseguiu parar Irene Adler, que, em sua primeira tentativa de marcar um gol, mergulhou em direção ao campo e disparou a goles. O estômago de John embrulhou, mas logo ouviu-se uma ovação vibrante da torcida vermelha e dourada, indicando que Harrison havia defendido.

Isso pareceu ter dado um novo gás pro time, e as três artilheiras passaram a jogar em uma notável sincronia, culminando em dois gols de Witty Winter. Decorrida meia hora de jogo, a Grifinória estava ganhando por sessenta pontos a trinta. Sally mirou o balaço direcionado a Clara para a direção de um artilheiro do time adversário depois dele se chocar propositalmente com Emily, evitando mais um gol e, depois de cinco minutos, a Grifinória marcou mais um ponto. 

– Você está se achando muito especial hoje, não é? – disse uma voz debochada a John, que quase foi derrubado da vassoura quando Evans se chocou violenta e intencionalmente com ele. – Seu sangue ruim! – gritou afastando-se. 

Com o ombro doendo, John olhou melhor pro adversário e percebeu que ele não disparara para o alto à toa, e sim, porque fora atrás do pomo, que estava voando em alta velocidade acima deles, brilhando intensamente contra o claro céu azul. Desesperado, o grifinório acelerou; o vento assoviava em seus ouvidos abafando o som da multidão, mas Evans continuava à frente, e a Grifinória tinha apenas sessenta pontos de vantagem.

– Oi, Evans! – berrou John – Do que você me chamou mesmo? 

Talvez a vontade do sonserino xingar estivesse acima da razão, pois ele acabou se atrapalhando com o pomo e deixou-o escorregar entre os dedos só para repetir a frase “sangue ruim” em plenos pulmões. A bolinha dourada mudou de direção e ziguezagueou por entre as arquibancadas, colocando John novamente no páreo. A torcida vibrava, os apanhadores estavam pareados, John um pouco mais à frente, e, no meio das piruetas e reviravoltas do pomo pelo campo, Evans acabou não percebendo o obstáculo a tempo e colidiu com o aro esquerdo do gol da Sonserina. John empinou a vassoura, passando por cima dele, e agarrando o pomo logo em seguida.

– PEGUEI! – gritou. 

O apito soou e a torcida da Grifinória vibrou enlouquecida.

John nem conseguiu chegar ao chão. A menos de um metro da grama, todos os seis jogadores pularam das vassouras e se amontoaram em cima dele, abraçando-o e rindo enquanto a torcida vermelha e dourada invadia a plateia. A equipe da Grifinória deixou o campo de braços dados, dando socos no ar e acenando para a torcida.

A atmosfera no vestiário era de intensa alegria, com exceção de Joseph Harrison, que parecia quieto demais enquanto trocava de roupa.

– Hei, anime-se! – John apertou seu ombro e o sacudiu – Você foi ótimo!

Mas o setimanista se limitou a balançar a cabeça.

– Eu sei que não fui eu, John. Foi a poção que você colocou no meu suco… 

O capitão ergueu as sobrancelhas, mas voltou a rir:

– Eu não coloquei nada no seu suco, cara.

– Olha só, você não precisa fingir. Eu só bebi porque achei que estava devendo isso pra você e pro time, mas agora eu tenho que sair do...

John riu mais uma vez:

– Não to mentindo, mas tudo bem. Eu cuidei de trazer a prova – meteu a mão no bolso do uniforme e tirou um frasquinho cheio de uma poção dourada, cuja rolha continuava lacrada com cera. – Essa foi a Félix Felicis que eu ganhei na aula de Poções. 

Joseph Harrison o olhou pasmo:

– Não tinha nada no meu suco?!

– Não. Foi tudo um plano e eu pedi pro Henry me ajudar. Pra você ficar mais confiante.

O goleiro ficou boquiaberto, e logo Isa Whitney apareceu gritando:

– Comemoração na sala comunal, gente!  

O time marchou euforicamente até o castelo, e antes de atravessarem o pátio, viram Emily Harrison se atirando nos braços de Percy Phelps. O restante dos jogadores passou por eles e avisaram que a esperariam no salão comunal. John, no entanto, ficou mais um pouco.

– Oi, Percy. É... Você tava sozinho?

– Não, eu tava com a Soo e o Sherlock, mas eles já foram. Ah, e vocês estavam ótimos!

– Obrigado... 

O capitão retomou seu caminho, mas antes que desse um passo, Percy se adiantou:

– Olha só, se você for por aquele corredor ali, você acha o Sherlock – informou com um riso suspeito nos lábios, que parecia compartilhado por Emily Harrison –, mas tem que ir rápido.

– A-ah, certo. – o grifinório agradeceu inseguro e apertou o passo na direção indicada. 

Alcançou o corredor desejado e não demorou quase nada pra ver Sherlock andando bem mais à frente. Percy foi realmente preciso. 

– Hei! Sherlock!

O corvino olhou por cima do ombro surpreso e se virou com os olhos bem abertos para o grifinório. 

– Eu não sei se foi realmente sua intenção – disse o jovem Watson alegre ao se aproximar dele –, mas se estava falando disso – ele tirou a Félix Felicis do bolso – então obrigado pela ideia. 

Sherlock olhou para o frasquinho cheio e lacrado um pouco confuso. Depois de um tempo, perguntou:

– Por que está me agradecendo?

O sorriso de John se converteu numa expressão de embaraço, e seu rosto corou. Como se tivesse acabado de descobrir que foi feita uma nova contagem de pontos e a Grifinória na verdade perdeu o jogo, engoliu em seco, perdido:

– Então... você não estava falando sobre a Félix Felicis quando disse que eu precisava de sorte? 

– Eu estava, mas você não usou a poção.

– C-claro que não! Isso seria ilegal! 

– Então por que está me agradecendo?

A ficha finalmente caiu e John olhou incrédulo para o rapaz:

– Peraí, você sugeriu que eu usasse mesmo a poção?

– Eu não sei o quanto quadribol é importante pra você, então deixei no ar. Que bom que Harrison não precisou dela.

John deixou escapar um riso curto e incrédulo:

– Não é tão importante a ponto de jogar sujo – esclareceu o grifinório –, mas sua ideia serviu de inspiração para a minha de fingir colocar a Félix Felicis no suco dele, então o agradecimento está valendo.

Sherlock repuxou um canto dos lábios num quase sorriso, que logo se desfez, como se fosse um trejeito. 

– No fim das contas você sabe o que faz – admitiu o corvino. – É um ótimo capitão.

– Diria isso mesmo se o time tivesse perdido por eu não ter entendido a sua mensagem?

– Diria – respondeu francamente. – Você é um assombro. Pode fazer coisas incríveis, sozinho ou com qualquer pessoa. 

John deu um sorriso modesto:

– É bom ouvir isso – confessou, encabulado. – Eu vou comemorar com o time agora, mas vai querer fazer alguma coisa amanhã além de me devolver o livro?

O que não esperava era que o amigo levaria um pouco mais de tempo para responder uma pergunta bem simples. E, no fim das contas, o que Sherlock soltou foi bem diferente de uma resposta:

– Você já parou pra pensar no tipo de relação que temos?

O pescoço e a face do grifinório arderam em chamas, e ele olhou para o corvino muito nervoso. Sherlock carregava uma expressão decidida na face. Será que ele descobrira?

– R-relação? – John quase não conseguiu falar. 

– É, você por acaso já sentiu que tem uma força invisível puxando você na minha direção, mesmo que você não queira? Como se estivesse preso? Você luta para fugir, mas não consegue? Talvez seus pensamentos não sejam seus, nem suas emoções, e mesmo que você queira outra coisa, tem um senso de responsabilidade batendo em seu peito que faz com que você não abandone o que você sente que é a sua missão.

Talvez seus neurônios estivessem cansados pela partida de quadribol, pois John não estava entendendo onde Sherlock queria chegar. Se aquilo era uma declaração de amor ou um fora, era difícil saber.

– Sherlock... do que você tá falando?

O corvino o encarou perplexo. Esperava que o amigo fosse ficar impressionado com uma provável descrição de seus sentimentos.

– Você não tem essa sensação? – o Holmes falou, introspectivo – Merlin... isso deve ser mais sutil do que parece.

– Isso o que?

– Não tem lógica você querer falar comigo! Eu pisei na bola, lembra? O sensato é você ficar longe, não perto! Então por que insiste em se aproximar?

Foi como se o corvino tivesse lhe dado um tapa muito forte e repentino. Agora John sentia-se um trouxa, no sentido mais pejorativo da palavra. Muito trouxa! Estava no seu sangue! Literalmente!

Vermelho e furioso, deu meia volta:

– Ok, pra mim já chega! – bradou o grifinório, tremendo de raiva – Tudo tem um limite! Você me quer longe? Então vou ficar bem longe!

– Você não entende! – o corvino falou de repente, e quanto o Watson se virou para observá-lo mais uma vez, percebeu uma espécie de aflição reprimida no rapaz – Não quero que fique perto contra a sua vontade! Quero que seja livre!

– Livre de que, criatura? – John já estava impaciente.

– Da... – Sherlock hesitou, pensou um pouco e falou – da responsabilidade! Eu sou... Você sabe! Talvez, inconscientemente, você se sinta na função de... de me proteger ou de simplesmente ficar por perto. Sua consciência! Sua consciência lhe obriga a se manter por perto. Como se você estivesse preso. Mas talvez... talvez não seja isso o que você quer.

Sherlock observou, apreensivo, o rapaz que o fitava com aquela cara cismada. Não queria falar da visão de Firenze para John para não assustá-lo, então esperava que o grifinório chegasse à conclusão de que havia algo errado entre eles.

No entanto, John disse:

– Você está sendo contraditório.

– Que?!

– Se eu estou mesmo preso e você quer me libertar, por que me mandou aquela mensagem pelo dueto? Você apostou com alguém na vitória do time por acaso? Com Moriarty?

– Não. Seria muito arriscado. Eu vi o treino de vocês.

– Então qual era o seu interesse? Aliais, por que ficou vendo os treinos? Você não é fã de quadribol, nem somos da mesma casa! Por acaso você só queria se exibir por ter uma solução pro meu problema? Ou ficou entediado?

– ...

John foi se aproximando dele:

– O problema do meu time nem era seu, e já estava sendo ruim suportar sua indiferença! Você se manteve distante e se aproximou como bem quis! Acha que as coisas são assim? Se queria mesmo me "libertar", a primeira coisa que você tinha que fazer era destruir o seu dueto ou destruir o meu! E é exatamente isso que vou fazer quando eu sair daqui, quer apostar?

Sherlock sentiu uma pontada ao imaginar a cena, e se viu sem argumentos. De fato, destruir o dueto era a melhor forma de garantir que sairia da vida do grifinório pra sempre.

– Não tente adivinhar o que estou sentindo, Sherlock... – disse John seriamente, a uma curtíssima distância do amigo. – Isso não cabe a você.

Houve um silêncio em meio a uma troca de olhares, e dava para notar uma grande carga de estresse vinda da mirada do grifinório. As pupilas dilatadas denunciavam isso, como sempre.  

John esperou uma resposta que demorou a vir. Quando veio, o tom do corvino mudou para uma nota mansa e suave, enquanto ele baixava o olhar:

– Eu não devia ter lhe ofendido... ainda mais daquele jeito.

– É. Não devia. Mas isso já passou.

– Senti sua falta.

O coração do grifinório aqueceu.

– Também senti a sua. – admitiu sem qualquer embaraço.

– Se o convite pra fazer alguma coisa amanhã ainda estiver de pé...

– Está sim.

– Então tenho muita coisa pra lhe contar.

John sorriu para ele e falou numa expressão mais descontraída:

– Certo. Até amanhã.

E, com o humor melhor, se afastou rumo à torre da Grifinória. 

O corvino retomou o seu caminho com uma estranha leveza. Viu-se planejando alguma coisa para fazer no dia seguinte com o amigo. Contar sobre Voldemort, sim, aquilo era importante. E levar alguma comida, já que isso agradava John. Se o tempo estivesse bom, poderiam ir pra baixo da faia perto do campo de quadribol, caso contrário, arranjariam uma sala. 

Foi em meio a esses pesamentos que um origami de pássaro passou voando apressadamente, até parar na frente dele. Desconfiado, Sherlock pegou o pergaminho e o abriu.

Ali estava a nova pista.

“Vítimas poderiam ser Comensais”

 

Continua


Notas Finais


Por algum motivo que eu não sei explicar, esse deu um pouco de trabalho. Precisou passar por muitas correções até eu sentir que estava com uma construção boa. Aí está o resultado.

Bem, estou numa semiquarentena. Felizmente o poder judiciário suspendeu os serviços e os funcionários terão que se reverzar pra atender os casos mais urgentes. Infelizmente isso não significa que a fic sairá mais rápido porque agora tenho que trabalhar em casa. Maaas, é isso. Escrever fanfic, postar no Youtube e ver Netflix pra passar o tempo. Se sua renda não depende de você ir pra rua, seja consciente e fique em casa também.

Abraços.


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