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História Power Chord - Capítulo 3


Escrita por: e ALPoint


Capítulo 3 - Um dia com os Braun (pt. 1)


Sathiel estava quase ofegante com a situação, e ficara mais perplexo ainda ao notar as reações de Ravem. Ele nunca lidava muito bem com a raiva alheia, visto que ele próprio raramente sentia isso. Um sentimento de culpa começou a crescer dentro de si. Até segurava a bala que o albino ofereceu com certo receio, como se esta fosse uma granada sem pino.

Ao ver a resposta imediata de Phler — um "eu também amo você" — Ravem suspirou. A orelha queimando agora de vergonha, por ter sido tão impulsivo e infantil.

Sathiel respirou fundo pelo menos cinco vezes antes de tomar coragem de dizer algo, fazendo-o quando o outro digitava algo no celular.

— V-Você está bem, Ravem? — Olhava-o de soslaio enquanto caminhavam lado a lado, até chegarem à moto no estacionamento.

— Tô... — Respondeu mordendo o lábio, guardando o celular. — Tô, foi mal. Eu...  Eu não sei o que se passa na minha cabeça às vezes. — Ele olhou para o colega um tanto receoso. — Phler mandou um abraço.

Sathiel mordeu o interior da boca, ainda preocupado. Ele tirou o capacete reserva do banco e entregou ao amigo, tão logo colocando o seu e afivelando-o por baixo do queixo.

— Entendi. — Falou baixo, já se sentando na moto e tirando-a da vaga para que Ravem pudesse se sentar. — Depois diz que mandei outro a ela. — Ele sorriu, apesar de não ter certeza que o albino pudesse ver sua expressão quase toda oculta pelo capacete preto.

Assim que Ravem se acomodou, Sathiel deu partida.

O caminho até a casa afastada dos Braun foi ficando cada vez mais tranquilo conforme eles se aproximavam dos arredores de Thorseide. As casas ali na região eram quase todas estilo "fazenda", com grandes áreas verdes ao redor delas. A casa de Sathiel era bem grande, com dois andares, e cercada de pinheiros de vários metros de altura. 

Eles entraram na garagem que já estava aberta, e Sathiel parou ao lado da caminhonete vermelho-sangue do seu pai. A garagem não era uma das mais organizadas, e qualquer um que prestasse atenção um pouco veria que a culpa era dos equipamentos de música do rapaz, incluindo uma bateria desmontada que sequer era propriedade de Sathiel, mas de seu amigo Denner.

Assim que desceram da moto, Sathiel falou:

— Não repara, ok? Eu tô guardando umas coisas de um amigo que está fazendo mudança. Vamos deixar suas coisas no meu quarto, é mais seguro. — Riu, acanhado, guiando Ravem para uma porta que dava para a cozinha da casa.

Ravem tirou o capacete arrumando o cabelo logo em seguida. Permitiu-se respirar profundamente, aproveitando o ar da tarde e sentindo o cheiro úmido do verde. Ele sorriu para o amigo, que se incomodava com a garagem e os objetos que nela se encontrava, passando a mão delicadamente pela caminhonete que ali descansava e quase ignorando a preocupação do outro sobre as coisas de ele-não-sabia-quem.

— Legal. — Ele comentou. A face enrubescida devido a mudança de temperatura. 

Pedindo licença, o albino adentrou o ambiente captando cada detalhe com os olhos brilhantes. Tudo ali era envolto de uma familiaridade peculiar, acolhedora, da qual o rapaz desconhecia até então. Ravem não costumava visitar muitas casas também, sentindo-se em um plano quase irreal por estar ali.

Na cozinha, os dois encontraram os gêmeos em miniatura, Gabriel e Gadriel, sentados à mesa pintando folhas A4 com tinta guache.

— Oi, meninos! — Cumprimentou Sathiel calorosamente, fazendo-os sacudirem os pincéis no alto gritando um "oi" de volta. — Quero que conheçam meu amigo Ravem. — Os meninos desceram das cadeiras e se aproximaram correndo, tinham tinta de todas as cores por todo o corpo e roupas. — Ele é irmão gêmeo da P!

Ravem arregalou os olhos azuis quando avistou os gêmeos, a mandíbula cerrada porque também não estava acostumado com crianças. Recapitulando algumas comédias românticas que haviam aquelas pequenas criaturinhas, ele sentiu as mãos suarem esfregando os dedos freneticamente enquanto os dois corriam em sua direção.

Ele abaixou a cabeça para visualizá-los melhor. Sua altura monumental fazia com que os dois garotinhos parecessem ainda mais frágeis. 

Os pequenos abriram as bocas simultaneamente, admirando Ravem de baixo como se ele fosse um ser de outro mundo.

— Nossa, você é igualzinho a P! — Exclamou Gabriel, ficando na ponta dos pés para tentar olhá-lo mais de perto.

— E aê? — O albino sorriu encabulado quando ouviu a comparação à irmã. — Na verdade... A Phler é parecida comigo. — Ele riu com sinceridade agora. — É por isso que ela é tão bonita.

— Claro, eles são GÊMEOS! — Rebateu Gadriel em tom de deboche. — Até parece que você nunca viu gêmeos na vida.

Sathiel segurava o riso vendo os irmãos — tão idênticos na aparência, porém tão diferentes na personalidade — discutirem. Ravem encarou o amigo segurando a risada, os olhos brilhantes e ainda arregalados.

— Mano, nós dois somos MENINOS, a P é menina e tem um irmão menino, é muito mais legal eles serem iguais! — Gab excedia a voz.

— Vira uma menina, então! Aí vamos ser menino e menina também. — Gad riu maliciosamente.

Ravem mordeu o lábio tentando se segurar. Sabia que seria errado rir ali na frente daquela "DR" familiar e peculiar. Porém, antes que Gab expressasse sua raiva pelo comentário do irmão, Sathiel interveio segurando em seus ombros e afastando os dois um do outro.

— Chega, vocês são muito mal educados, meu Deus. Nem se apresentaram, querem me matar de vergonha? — Sathiel forçava uma expressão brava para os pequenos, que se recompuseram aos risos antes de se virarem para o albino de novo.

— Eu sou o Gabriel! — Exclamou em voz alta, muito animado, como sempre.

— Eu sou o Gadriel. — Disse o outro, agarrando a barra da blusa tímido, as bochechas corando.

O albino coçava a têmpora por debaixo da franja, sentindo-se encantadoramente em casa, por mais que jamais vivera em um ambiente daqueles.

— Oi, Gabriel. Oi, Gadriel. — Ravem achou viável se abaixar sobre os joelhos para falar com os garotos. — Fico feliz em conhecer vocês. — Ele levantou a palma da mão para que ambos a tocassem, torcendo para não ficar no vácuo ou iniciar uma nova briga entre os dois, coisa de irmãos. — Infelizmente eu não me chamo Phleripe, ou Phlerêncio, mas eu me chamo Ravem e agora estou chateado pela Phler não se chamar Ravena ou algo do tipo. Daríamos um ótimo quarteto. 

Enquanto brincava com os irmãos, os olhos divertidos de Ravem iam dos pequenos ao mais velho, buscando incentivo, que apenas sorria e observava.

Os gêmeos cumprimentaram Ravem com um high five, fitando cada detalhe do seu rosto, que agora estava tão acessível, sem se preocuparem em disfarçar suas curiosidades. 

— A P é a Ravena Branca! — Exclamou Gab, fazendo referência aos quadrinhos, e provocando risadas no seu gêmeo.

Sathiel olhava a cena contente por seus irmãos estarem se dando tão bem com Ravem. Gad, que costumava ser muito tímido, parecia à vontade. O rapaz não conseguiu evitar de fitar o amigo com os olhos cheios de encanto, e decidiu entrar na brincadeira. 

Espera aí... — Sathiel interrompeu a conversa, apoiando as mãos na cintura. — Que história é essa de quarteto? Já estão me excluindo? É isso mesmo? — Ele segurava o riso, tentando se manter sério.

Os gêmeos riram alto da cara do mais velho, e se juntaram à Ravem, cada um de lado do albino.

— Desculpe, só gêmeos. — Brincou Gad, abraçando o braço direito de Ravem enquanto Gab se agarrava ao esquerdo.

A cena era tão fofa que Sathiel se lamentou por não ter câmeras implantadas nos olhos.

— É! — Ravem mostrou a língua para Sathiel, divertindo-se. — Só gêmeos.

Sathiel forçou uma cara emburrada para os três, e mostrou a língua de volta para Ravem, que se permitiu gargalhar, achando graça da expressão do amigo, recompondo-se segundos depois ao se levantar e flexionar os joelhos em uma dancinha, para espantar o formigamento. Ele viu Gab e Gad correrem ao redor do irmão mais velho, apertando a fivela da case de sua guitarra com os dedos longos.

Acabando com a algazarra, o primogênito mandou que os meninos limpassem a cozinha de toda aquela tinta, dando uma pequena bronca por usarem o espaço inapropriadamente. Também ordenou que fossem tomar banho antes do almoço, fazendo os garotos correrem pela cozinha para limparem a sujeira apostando entre eles quem terminaria primeiro. Então, finalmente chamou Ravem até o seu quarto, subindo as escadas, apontando também para onde ficava o banheiro social, caso o albino quisesse usar. 

Já no quarto, jogou sua mochila no chão sem muito cuidado, e torceu para que Ravem não ficasse tonto com tantos pôsteres nas paredes.

— Pode ficar à vontade, deixe as suas coisas aí. — Apontou para a cama e para a mesa do canto, lotada de itens variados, como CDs, cadernos, livros, itens de decoração e seu ukulele. Ao ver esse instrumento, se lembrou imediatamente de Lars e do "diálogo" que este tivera com Ravem mais cedo. — Você ainda quer fumar? — Indagou, sendo esta a melhor maneira que encontrara para perguntar se ele estava bem.

O albino observou o quarto por completo, respondendo a pergunta de Sathiel um tanto distraído enquanto observava um pôster de perto.

— Olha... Até que não. — Ele piscou algumas vezes, como se estivesse em transe. — Perdi a vontade…

Sathiel sorriu mais tranquilo pelo amigo também estar. Ele iria ficar muito mal se Ravem ficasse o dia todo estressado e acabasse desistindo de ensaiar um pouco, enquanto esse último rumou em direção a um canto livre, depositando suas coisas ali com muito cuidado, incluindo a case com a guitarra dele. 

— Bom... — Prosseguiu o albino, tirando a jaqueta também, ficando apenas com uma regata preta de alça grossa. — Você precisa cuidar dos seus irmãos primeiro, certo? — Ele esfregou as mãos uma na outra, assumindo uma pose cheia de motivação. — Ravem ao seu dispor para ajudar.

— Hã? Não, não, não... Você é meu convidado. Eu só tenho que adiantar o almoço enquanto minha mãe não chega. Além disso, se ela chegar e te ver fazendo alguma coisa que não seja sentar e relaxar, ela me mata. E com razão. — Riu imaginando a cara da mulher se adentrasse a cozinha e desse de cara com um Ravem cortando batatas. — Você vai só me fazer companhia.

Ravem apenas suspirou de forma nasal, fingindo se sentir afetado com aquilo. As sobrancelhas erguidas divertidas enquanto se aproximava lentamente de Sathiel com as mãos na cintura.

— À suas ordens, alteza. — Segurou mais um riso.

O jovem Braun franziu o cenho sentindo um calor se espalhar por seu rosto.

— P-Para com isso. — Riu tímido, desviando o olhar. — Sou eu quem vai te servir hoje.

Com um gesto sutil de cabeça, ele chamou Ravem para voltarem à cozinha no andar de baixo, e no trajeto ele se perguntou quando seu pai perceberia que havia visita e sairia do quarto. Talvez ele tivesse caído em um dos seus cochilos enquanto lia seu livro.

De volta à cozinha, Sathiel praticamente obrigou Ravem a se sentar à mesa, enquanto ele foi até a geladeira para pegar os ingredientes que ia precisar.

— Você é alérgico a alguma coisa? — Indagou segurando a porta da geladeira.

Ãããn... não. — Ele batucava com os pés, cuidadoso e silencioso, frenético por debaixo da mesa. — Não precisa se preocupar com absolutamente nada dessas coisas. — Ele descansou os dois braços sobre a mesa, trazendo seu peso sobre eles enquanto observava Sathiel. — Isso é o de menos, tô te falando…

— Certo... — Sorriu, voltando a encher os braços com embalagens.

Sathiel não queria trabalhar no balcão, pois isso o obrigaria a ficar de costas para Ravem, então ele apenas lavou as verduras e levou tudo para a mesa, sentando-se de frente ao albino.

— Então, Ravem... — Iniciou enquanto começava a descascar a primeira batata. — O que você está achando de Thorseide? É muito diferente de onde você morava? — Sathiel se sentia um velho fazendo essas perguntas, porém tinha um certo anseio por conhecer melhor o amigo, além de seus traumas com seu pai.

O albino ponderou antes de lhe dar uma resposta, fazendo círculos silenciosos com o dedo indicador sobre a mesa.

— Com certeza, sim… — Sua voz era mansa, e agora ele olhava para um ponto na mesa, perto do amigo. — Aqui é bem calmo. Ou talvez, eu que vivia uma vida agitada com as péssimas influências. — Ele o fitou por um momento, desviando o olhar. — Mas foi bom tudo o que aconteceu… Se não fosse isso, eu não teria vindo para cá. Estou tentando recuperar o tempo que perdi com a Phler, porque eu sei que… Após o desaparecimento da nossa mãe ela perdeu todo o resto de coração que tinha. — Ele inspirou e suspirou calmamente. 

Ravem se calou um tanto confuso. Não sabia se era viável começar um monólogo daquele enquanto Sathiel fazia a comida. Se sentiu um Dementador. Sempre se achava péssimo em muitas conversas, pois a melancolia sempre encontrava uma brecha para atiçá-lo.

Sem tirar os olhos do albino, as mãos de Sathiel continuaram trabalhando na mesa. Ele ficou impressionado em como aquelas simples perguntas tinham levado a conversa à um rumo tão sombrio. Mas é claro que ele não culpava Ravem por isso. Se antes já sentia muita tristeza por Phler por causa do desaparecimento de sua mãe, agora ele sentia o dobro por Ravem, por ele também ter passado por isso e ainda possuir um pai opressor para acompanhar.

— Eu sinto muito por isso. — Suas mãos pararam, segurando uma batata em uma mão e a outra alisando a lâmina da faca com o polegar. Seu olhar era triste, e ele sentia uma forte vontade de abraçar Ravem e protegê-lo do mundo. — Mas eu sei que vocês vão ficar bem agora que estão juntos. Além do mais, vocês não estão sozinhos. — Sorriu tentando confortar o amigo.

Ravem sorriu de volta aceitando aquelas palavras, sentindo-se com sorte por Sathiel, um amigo que sua irmã parecia amar muito, ser amigo dele também. Ele nunca havia tido um amigo assim, e abaixou a cabeça no mesmo instante, a culpa invadindo o seu peito.

— Acho que eu te devo um muito obrigado. — Ele sabia que Sathiel o encarava com convicção agora, e sentiu as maçãs do rosto queimarem. — Agora consigo entender tudo o que a Phler me escrevia… — Um riso fraco saiu entre seus lábios. — Ela falava bastante de você e eu era um péssimo irmão por não dar a mínima na época. — Ele parou de fazer os gestos repetitivos sobre a mesa com seus dedos. — Pensei que era só mais um paquera quando na verdade tudo o que ela queria era um ombro amigo...

Seus olhos azuis tomaram coragem para sustentar os de Sathiel. A sobrancelha erguida como se o fizesse tomar a coragem para o que viria a seguir:

— Eram só amigos, certo?

Ravem mordia a boca por dentro, tentando manter a face inexpressiva.

Sathiel havia voltado a manusear a faca enquanto Ravem falava. Ele sentia um calor reconfortante por dentro pelo albino estar se abrindo com ele, confiando nele. Apesar da palavra "paquera" ter feito Sathiel esboçar um sorriso divertido, a pergunta que veio em seguida quase o fez pressionar a lâmina com força contra o próprio dedo.

— Éramos! — Disse prontamente com o rosto pegando fogo, sentindo como se Ravem quisesse entrar em sua mente com aquele olhar investigativo. — Q-Quero dizer, nós somos! — Ele riu nervoso, não conseguindo mais olhar para o albino. Mesmo que não tivesse nada a esconder, era amedrontador ter um irmão protetor o questionando sobre suas intenções com sua irmãzinha. — Phler e eu sempre nos vimos como irmãos, nunca teve nada... romântico... nem da minha parte e nem da dela.

A respiração havia se desregulado, e agora ele sentia seu coração disparado. Torcia para que Ravem acreditasse nele, caso contrário teria que revelar as tantas vezes em que Phler o ouviu desabafar sobre garotos e o aconselhou sobre seus romances.

Hmmm... — O albino percebeu a inquietação do outro, mudando a posição sobre a cadeira, como se fosse um xerife prestes a questionar um bandido. Apenas um de seus braços estavam apoiados sobre a mesa naquele momento, o direito, e a outra mão estava em sua cintura agora.

Ele estava se divertindo. E Sathiel parecia nada à vontade.

— Então por que está tão… encabulado? — Seu sorrisinho se ergueu apenas de um lado, como sempre era de lei. — Tá engraçado…

— O quê? Encabulado? Não, eu não... — Sathiel quase derrubou a faca, e quando a recuperou, quase derrubou também o recipiente em que guardava os legumes cortados. Se praguejava mentalmente por ser tão óbvio em seus sentimentos, sentindo-se encurralado por si mesmo. — É só que... — Ele fez uma pausa, ainda evitando os olhos do amigo. — Esse assunto leva a outro assunto, e eu não me sinto muito seguro pra falar sobre isso... ainda.

O rapaz se levantou e foi para o fogão, posicionando panelas, acendendo fogos, e mexendo nos armários como se procurasse algo, mas na verdade só queria esconder o rosto enquanto se xingava de burro repetidas vezes com um sutil e silencioso mover dos lábios.

Ravem riu baixinho, achando aquilo engraçado, e logo pigarreou tentando se recuperar.

— Ei… — Ele apoiou o queixo sobre a mão. — Eu tô brincando. — Ele ainda tinha o ar felino, este analisando o amigo de costas para ele, no fogão. — Se você diz, tá falado. — Logo emendou, roendo a unha do mindinho em nervosismo crescente. — E me desculpe, é plausível sua resposta. Hmm… Eu ainda sou um estranho pra você.

Sathiel desistiu de tentar achar o que quer que fosse, e se virou novamente para Ravem, com o olhar determinado.

— Não, não é um estranho. — Ele podia até ouvir o próprio coração batendo agora. — E é isso que dificulta as coisas.

O primogênito Braun sabia que podia estar sendo confuso e esquisito aos olhos de Ravem agora, mas estava sendo sincero. Se o albino fosse uma pessoa qualquer, Sathiel não se importaria em falar, assim como nunca se importou antes. Ele não se escondia de ninguém independente de como as pessoas reagiam a essa verdade; contudo, por algum motivo, crescia em seu interior um medo em perder aquela amizade, talvez sendo esta a primeira vez que Sathiel deixava seu orgulho de lado para manter proximidade com alguém.

— É?... — Ravem encarava o amigo, curioso, agora. Os olhos vidrados envoltos do silêncio repentino.

E quando viu os olhos de Sathiel rolaram para o além de suas próprias costas, Ravem se virou para ver quem adentrava o local, o semblante travesso dando lugar à suas expressões neutras e cotidianas.

Ele ouviu a voz do homenzarrão barbudo perto de si, tendo a certeza de que o mesmo era o pai do amigo.

Sathiel se sentiu aliviado pelo pai aparecer no cômodo e impedir a conversa de continuar, sentindo até vontade de correr para abraçar seu salvador.

— Bom dia, meninos. — Cumprimentou Hans, que esboçava seu sorriso pelas ruguinhas dos olhos, já que sua boca estava quase toda oculta pela barba e bigode.

— Bom dia, pai. Esse é o Ravem, ele é irmão da Phler.

Hans estendeu a mão para cumprimentar o albino.

— Oh, muito prazer! Eu sou o Hans. — O homem o fitou nos olhos com um ar investigativo. — Vocês são gêmeos?

— O-Oi. — Ele sentiu o aperto daquelas mãos, sentindo um riso nervoso lhe tomar os lábios também. — Ãn, sim… É tão evidente assim? — Ele sorriu ainda mais, um tanto envergonhado. 

Quem estava encabulado era ele agora, que encarou Sathiel de soslaio, como se pedisse por socorro. Ravem não estava familiarizado com as comparações à sua irmã na vida adulta. Por ter crescido longe de Phler pensara que aquilo havia ficado na infância e nada mais.

— Mas eu sou o mais velho. — Ele pontuou ao pai do amigo, considerando que sempre usaria daquele argumento dali em diante.

Não que houvesse algum problema naquilo… Só que Ravem começara a se perguntar, caso vestisse uma saia e uma peruca, se as pessoas iriam confundir os gêmeos. 

Ele espantou aquele delírio da cabeça, ficando ainda mais desconcertado.

Sathiel apenas observava, achando graça que Ravem agora tomava a posição de encabulado em vez dele.

Hans deu um riso rouco, voltando-se para o filho do outro lado da mesa.

— Gêmeos te perseguem, meu filho. — Ele riu ainda mais, fazendo Sathiel concordar com a cabeça aos risos antes de voltar sua atenção às panelas. Hans, ainda de pé, fitou o albino novamente. — Por que eu nunca te vi antes por aqui?

Ravem se sentiu mais aliviado com a distância, respondendo a pergunta calmamente:

— Eu morava com o meu pai desde os cinco anos. — Ele arrumou a postura na cadeira, encarando as duas figuras naquele canto da cozinha. — Faz umas duas, três semanas, que me mudei para cá para a casa da minha avó e de Phler. Precisava de ares novos…

— Ah, eu te entendo. Um rapaz tão jovem como você tem que sair para o mundo mesmo, conhecer pessoas, ter novas experiências, se encontrar. — Hans parecia imerso em lembranças da sua juventude, com os olhinhos brilhando para o alto. — E está estudando? Trabalhando?

— Pai, está fazendo entrevistaaaa~ — Interrompeu Sathiel cantando a última palavra para chamar a atenção do pai.

— Me desculpe, só estou curioso sobre seu amigo. Vocês são... amigos, certo? — Disse Hans, com certo cuidado nas palavras.

Sathiel se virou bruscamente em direção ao pai, apontando-lhe a colher que usava no fogão. Aquela pergunta o causou um déjà vu.

— C-Claro! O que mais seríamos? — Seu olhar para o pai era fuzilador, e Hans logo entendeu a mensagem que seu filho queria lhe passar, soltando um riso baixinho.

Àquela altura, o jovem Braun percebia que não teria como fugir do assunto com Ravem por muito tempo, pois uma hora ou outra alguém iria comentar algo. Ele só não esperava que fosse sua própria família na primeira visita do albino em sua casa.

Ao ouvir a resposta calorosa do pai do amigo, Ravem retomou as respostas, um tanto intrigado, com a última fala do mesmo, e respondeu:

A-haha… — Ele não sabia o que tirar daquilo. — Acho que estamos aprendendo a lidar com… as peculiaridades um do outro. — Seus olhos estavam sobre a mesa, sentindo um calor repentino.

Era verdade que as coisas estavam caminhando muito bem para um segundo dia. Ravem jamais havia se sentido tão à vontade com um colega ou amigo. Talvez — ponderou — isso se devia ao fato da ligação que os dois tinham com Phler. Era algo especial… Diferente. Então observou Sathiel manusear as panelas, como se visse tudo em câmera lenta.

Sathiel ainda lançava olhares para o pai, que ria da preocupação de seu primogênito.

O albino sorriu com a interação dos dois. Nunca, nem em outros universos paralelos, se imaginou sendo igual com o sr. Daombre. Ele sempre o achava superficial demais e quando o via demonstrar o pingo de carinho que parecia lhe restar no corpo desviava o olhar sempre, ou saía do recinto. Sabia que jamais seria amado como o seu irmãozinho mais novo, fruto do pai com a madrasta, então por que esperaria algo?

— Eu estou estudando sim, aliás. — Ravem sorriu, interessado no pai simpático do amigo. — Na mesma sala de Sathiel, inclusive. E esse é um dos motivos por eu estar aqui... — Ele gesticulou com as mãos para o alto, como se tocasse uma guitarra invisível. — Espero que não se importe.

— Olha só, que legal! — Exclamou Hans. — Acho que essa casa nunca será chata enquanto Sathiel morar aqui, não é, filhão? — Ele se aproximou do primogênito que sorria, olhando ligeiramente o fogão por cima de seu ombro, e voltando a se virar para o albino depois. — Você não precisa se preocupar aqui não, já estamos todos acostumados. Pode ficar à vontade para ensaiar aqui sempre que precisar. Além do mais, a garagem tem isolamento acústico.

Hans deu outra bisbilhotada no fogão enquanto Sathiel mexia com uma colher com a mão esquerda.

— Como está seu pulso? — Perguntou o pai, fazendo Sathiel largar a colher para olhar o pulso de perto.

— Já sarou, pai, há muito tempo.

— Parece um pouco inchado ainda. — Hans alisava o pulso do filho com o olhar preocupado.

— Não, está normal. — Respondeu Sathiel, girando a mão para provar ao pai que estava tudo certo.

Ignorando a palavra do filho, Hans continuou insistindo que o mesmo cuidasse do pulso, o qual ele havia machucado no acidente de moto duas semanas atrás. E sem que Sathiel percebesse, sua mãe entrou na cozinha pela entrada da sala.

Ravem manteve sua expressão de alegria enquanto observava os dois, quietinho em seu canto, se divertindo com o momento. Tentou decifrar o que seria a conversa do pulso, mas teve a atenção voltada para a mulher que adentrou a cozinha muito rapidamente.

— Oláááá, meus homens! Oh! — Sigfrieda parou bruscamente ao ver Ravem à mesa. — Oi! Você é o irmão da P, não é? Harvey? — Ela estendeu a mão pequena para cumprimentá-lo.

O albino estendeu a sua de volta no mesmo instante, cumprimentando-a enquanto ria timidamente.

— É... — Ele conteve a risada alta. —  Ravem. — Corrigiu achando graça. — Tudo bem? É um prazer conhecer todos vocês. — Ele se levantou automaticamente. Já não se sentia à vontade sentado com tantas pessoas em pé no mesmo ambiente.

— Isso! Ravem! Me perdoe, meu bem. — Ela o abraçou assim que o albino se levantou, e na ponta dos pés lhe deu um beijo na bochecha. — Eu sou Sigfrieda, muito prazer.

Ela se afastou radiante para cumprimentar o marido com um beijo nos lábios e o filho com um abraço e mais beijos no rosto. Seu sorriso se esvaiu dando lugar a uma expressão séria quando notou uma vasilha na mesa com restos de cascas e uma faca, bem de frente de onde Ravem estava sentado antes.

— Sathiel te pediu pra fazer isso? — Ela apontou para as coisas na mesa, fitando o amigo do filho.

— Não, mãe. Fui eu. — O primogênito respondeu rápido, porém Sigfrieda o ignorou e continuou esperando uma resposta diretamente da boca do albino.

— Ow... — Ele lançou uma olhadela para Sathiel rapidamente, segurando o riso mais uma vez. Tinha quase certeza que sairia dali com os músculos faciais doloridos, mas não achava ruim. — Eu estaria me sentindo menos inútil se tivesse sido eu. — Ele apoiou os antebraços sobre a madeira da cadeira. — Sathiel me obrigou a ficar sentado.

Ele piscou para o amigo, divertindo-se.

Sathiel sorriu agradecido de volta, relaxando os ombros antes tensos por medo da mãe.

— Hmmm... Ótimo! — Respondeu Sigfrieda, com os olhos castanhos semicerrados em desconfiança. — Você é visita, meu bem, e visita nessa casa não trabalha. — Ela deu tapinhas carinhosos no ombro do filho, como se ele fosse um cachorro que havia se comportado bem. — Tudo bem, deixe que eu continuo aqui, querido. Muito obrigada. — Ela tomou a frente no fogão, fazendo um aceno de mão que indicasse que o rapaz se afastasse. — Estão liberados, podem ir brincar. — Ela riu, fazendo Sathiel responder com uma careta. — Já já chamo vocês.

Ele deu um beijo na mãe antes de se afastar e chamar Ravem para voltarem para seu quarto. E enquanto se afastavam, ele ainda pôde ouvir a mãe bronquear seu pai por tentar ajudá-la com a louça, falando algo sobre seu joelho machucado.

Sathiel estava aliviado por poder ficar sozinho com o amigo, sem riscos de perguntas ou comentários reveladores, mas ao mesmo tempo um nervosismo o consumia enquanto subiam as escadas para o seu quarto.



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