História Presságios - Capítulo 4


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Apocalipse, Betareaders, Demonios, Distopia, Fantasia, Ficção, Governo, Jovemadulto, Leitoresbeta, Posapocaliptico, Sistema, Youngadult
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Palavras 2.631
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Álcool, Homossexualidade, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 4 - Nos Moldes da Sociedade


    Eric se manteve firme, pois não queria saber o que aconteceria caso voltasse ao seu apartamento. Aquela sensação estranha e assustadora que lhe ocorreu quando sonhou com sua casa. Ele estava louco ou havia morrido?

    Seus pés pareciam estar formigando, e foi preciso concentração para afastar esses pensamentos, pois Suzy havia dito a verdade. O mundo havia mudado e ele tinha que acreditar naquilo. Pensar que ele estava imaginando todas aquelas coisas, o deixava ainda mais preocupado e esses pensamentos eram capazes de qualquer coisa. Até mesmo acabar com os efeitos do remédio e obrigá-lo a acordar.

    Maldita mente que não parava quieta.

A luz do quarto estava baixa, em um tom frio, e não apagada como ele pensou. O ar continuava ligado e seu painel indicava a marca dos 19 graus. Seus pés responderam bem no momento em que ele se mexeu e pela primeira vez em dias ele conseguiu sentar sozinho. Teve dificuldade é claro, mas valeu a pena insistir.

Ele reparou que os pontos onde havia sentido dor, estavam tampados com pequenas bandagens e grudadas com esparadrapo. Sua pele parecia cinza por causa da luz e ele se questionou sobre sua saúde lembrando outra vez da história de Suzy. Passar tanto tempo naquele estado vegetativo não deveria ser uma boa coisa.

Algo nos remédios que havia tomado agiu de duas formas diferentes. Ele estava melhor, sem sentir dores, sem os espasmos ou coisas do tipo. O medicamento de regeneração agiu bem e de forma ligeira também afetando a parte funcional do corpo que começou a responder como ele queria. Seus braços pareciam fracos, então ele precisou de todo a força para se virar na cama e se sentar olhando em direção a porta. Mudar de posição era algo confortante.

E ele ficou sentado ali pelo que pareceu horas. Com muita dificuldade, tentava mover os braços e as pernas, mas dificilmente conseguia um resultado sequer com os dedos. Organizar seus pensamentos tirava parte da sua atenção, e ao menos era uma distração no meio do fracasso de tentar se mover.

Ele estava bem. — Ele pensou enquanto fechava os olhos e soltava o ar calmamente. — Era isso que importava, não era?

Fora tudo isso, ele percebeu ao olhar seu redor mais uma vez, que mesmo naquela luz fraca, tudo parecia ser mais real. Mais palpável. Mais colorido. O borrão da sua vida antiga, nesse ponto, era apenas uma vaga lembrança.

Quase que no mesmo momento em que decidiu se deitar de novo, observou a maçaneta mexer e por instinto pensou em se jogar sobre o lençol e fingir que ainda estava dormindo, mas já havia feito um grande progresso e não aguentava mais se sentir preso e submerso em tantas dúvidas e lençóis.

    — Toc Toc… — Uma voz disse ainda do outro lado.

    Ele não sentiu a necessidade de responder nada, apenas ficou parado encarando a visita que trajava um jaleco branco e que além da prancheta de plástico trazia um pequeno conjunto de roupas dobradas em tons acinzentados.

    Era o médico que havia pedido que Suzy se retirasse na noite anterior. Pelo menos ele havia sido educado dessa vez. — Eric pensou o encarando de forma analitica.

Seus dentes tinham um branco que chegava a incomodar e uma pele sem nenhuma mancha de acne ou sarda. Tudo ao se tratar de sua aparência parecia extremamente no ponto mesmo naquela luz.

    — E aí dorminhoco… — Ele sorriu ao colocar as roupas em cima da cama. — Trouxe pra você finalmente conseguir tirar esses trapos que eles usam em todos os outros que estão “apagados”. — Sua última palavra pareceu ter um sentido que Eric levaria tempo para entender. — Sabe se lá há quanto tempo você tá usando isso… — A última palavra saiu em um tom que beirava o nojo.

    — O que… vocês… vão fazer comigo? — Foi difícil dizer cada palavra e escutar uma voz incrivelmente diferente daquela na qual ele se lembrava. Segundo Suzy, os que estavam dormindo podiam criar mundos perfeitos em seus sonhos. Será que essa característica também havia sido inventada por ele? Será que ele agora era um completo desconhecido para ele mesmo? Se ele foi capaz de mudar sua voz, o que mais seria diferente? Por que ele faria isso?

    Mais dúvidas.

    — Iremos apresentar as instalações e descobrir para qual entre todas funções você foi designado. O sistema na verdade o trouxe de volta por um motivo, só temos que descobrir qual...— Ele acabou demorando tempo demais para concluir o que estava tentando dizer.

    Aquilo também era assustador. Saber que havia sido despertado por um sistema apenas para cumprir ordens e seguir um destino pré determinado.

    Nada animador — Ele pensou amargurado.

    — E se eu não... me encaixar em nada… — A dificuldade para se comunicar era algo irritante e não ver progresso algum o deixava frustrado. — Vou acabar servindo de alimento, também? — Ele mesmo se assustou com  a coragem que teve ao dizer tal coisa daquela forma interrompendo o médico.

    O doutor o encarou boquiaberto. Foram longos segundos em silêncios antes dele abrir um sorriso que não pareceu muito sincero.

    — Eric, eric… — Ele falou enquanto fazia anotações em sua prancheta. — Nunca acredite no que uma arquivista conta. Elas são quase como párias da nossa sociedade. Acham que sabem demais e reclamam de tudo. — Ele sorriu outra vez ao fim da frase mas logo recomeçou. — E duvide mais ainda de tudo que Suzy disser, aquela lá é louca! Tempo demais com pessoas apagadas fez com que ela perdesse o tato com os vivos. — Ele fez círculos com o indicador ao lado da cabeça, sorrindo de forma mais teatral ainda.

    Eric assentiu confuso.

    Não sabia muito sobre aquele mundo, mas de certa forma seus instintos trabalhavam incessantemente a fim de preveni-lo de qualquer perigo. Seu corpo inteiro parecia gritar e ele certamente daria ouvidos. Não confie nesse médico.



    Quando ele cruzou as portas de metal percebeu que havia uma quantidade incontável de dispositivos tecnológicos, cheios de botões e entradas de cartões em praticamente todas as portas. Seu quarto tinha o número 3 em uma pintura já descascada. A cor branca estavam por todos os lugares e aquilo tornava todo o ambiente formal demais.

    O médico o colocou em uma cadeira de rodas mesmo depois da longa discussão sobre ele conseguir ou não andar. Seus passos lentos e o corpo envergado não cooperaram para convencê-lo.  Embora se achasse ridículo por estar sentado, sendo empurrado por um desconhecido, preferiu ceder ao invés de alimentar ainda mais o desafeto já criado pelo doutor.

    — Tenho autorização expressa da presidente para tirá-lo da ala médica. — O médico se debruçou em um balcão e começou a digitar coisas em um aparelho que parecia um celular. Eric se distraiu quando percebeu que todos ali pareciam fazer alguma coisa. Ninguém estava parado. Nem mesmos os seguranças ficavam apenas de braços cruzados esperando algo de ruim para agir. Eles tinham os olhos atentos e as mãos ligeiras em tablets metalizados.

    — Vou ter que fazer algumas ligações doutor Gusmão...

    A secretária disse revelando algo que Eric ainda não sabia. O nome do desconhecido que aparentemente estava cuidando dele. Não que isso mudasse algo, mas pareceu algo relevante.

    — Vamos? — O doutor disse voltando a empurrar a cadeira depois da autorização que pareceu levar longos minutos.


   

Nem se ele quisesse, conseguiria memorizar todos os corredores e portas por onde entraram. Haviam tantas, espalhadas por todos os caminhos, cheios de pessoas e tudo era absolutamente rico em detalhes.

As pessoas que cruzaram o caminho deles mantinham os rostos afundados em pranchetas, papéis, dispositivos ou em conversas cheias de termos técnicos. Quando os cartazes e placas com avisos médicos sumiram ele percebeu que até a cor das paredes haviam mudado. Um verde metálico que revestia portas e paredes assumiu o lugar onde havia apenas o branco da ala médica. Usar de diferentes tons para delimitar espaços, áreas e alas parecia uma ideia brilhante.

    — Chegamos. — A voz do médico anunciou momentos antes de cruzar a porta. O seu aviso simples e direto foi incapaz de controlar a excitação instantânea que se formou no peito de Eric ao entrar naquele cômodo.

    O teto deveria estar a uns quinze, talvez vinte metros acima deles. Era todo revestido com placas da mesma cor esmeralda. A diferença porém, é que havia um grupo de pessoas paradas bem no meio, cercadas por praticamente um exército uniformizado, pessoas com roupas normais que disputavam cadeiras de madeira e encaravam uma mulher de terno vermelho em cima de um palanque. Aqueles inúmeros olhos se viraram para eles de imediato no momento em que eles entraram no campo de visão da plateia.

    — Ora, ora Gusmão, achei que havia fugido com o nosso novo morador. — Ela tinha cabelos curtos e enrolados que pareciam formar uma espécie de capacete num tom acobreado. Ainda analisando a mulher que todos ali fitavam, ele pode perceber rugas espalhadas pelo seu rosto, aos montes, rodeando principalmente os olhos e as bocas. Os dois dentes da frente que eram de tons amarelados diferentes e seu olhar que parecia de alguém confuso.No blazer vermelho, um pequeno microfone quase que imperceptivel. Eric imaginou que estaria desligado.

    — Enfrentei muita burocracia com nossas “enfermeiras” — O jeito que ele pronunciava as últimas palavras quando queria ridicularizar alguém era algo muito incômodo. Eric virou a cabeça para encará-lo, mas ele só tinha olhos para a senhora gorducha que destoava de todos os outros sendo a única a usar uma roupa fina e nova no meio daquela multidão. Com um sinal de joinha ela avisou para alguém em uma cabine acima dela que iria começar.

    Eric varreu os olhos pela multidão e percebeu que haviam inúmeros soldados. Todos de pé em volta da multidão e armados de metralhadoras enormes.

    — Bem, aqui estamos nós outra vez. — Ela começou falando no exato momento em que uma luz vermelha se acendeu no púlpito em que suas mãos estavam apoiadas. Sua voz agora tomava conta de todo o espaço sendo transmitida por diversas caixas de som espalhadas pelo amplo cômodo. — Sejam todos bem vindos...

    Assim que Eric foi deixado em um ponto próximo a ela, percebeu que completava um meio círculo onde outras seis pessoas estavam, trajando exatamente as mesmas roupas de tons acinzentados. Havia um homem de cabelo loiro bem curto estilo militar. Ele deveria ter pouco mais de dois metros além de músculos que quase não cabiam na roupa. Um outro um pouco menor, negro e com uma expressão de assustado. Ambos de pé e parados com os dois braços para trás, como se imitassem soldados que os cercavam.

    — Não precisa se levantar se não estiver se sentindo bem. — A garota que estava bem ao seu lado tinha uma pele branca quase translúcida, olhos puxados e longos cabelos pretos que caiam pelos ombros até a cintura. Ela também estava sentada em uma cadeira de rodas igual a que ele estava. Parecia cansada e o tubo transparente em seu nariz indicava que ela estava pior do que ele.

    Ele sorriu como retribuição da gentileza da garota.

    Do lado dela havia uma outra jovem. Essa porém era loira e parecia inquieta. Seus cabelos estavam mal cortados como se ela mesmo tivesse feito. Suas mãos enfaixadas e com pequenAs manchas vermelhas como sangue e que indicavam que ela havia se cortado. — O pensamento parecia cruel e compreensível, então ele o afastou de imediato.

Ele se demorou mantendo os olhos nela. Ela parecia estar surtando e aquilo captou sua atenção. Infelizmente ele só se percebeu que ainda a encarava de forma invasiva, quando ela se virou e o encarou de volta. Nada gentil da sua parte. — Ele percebeu o erro.

    Havia também um garoto que parecia ser bem mais novo do que o resto do grupo e que estava encolhido na sua cadeira. Ele parecia confuso assustado e seu cabelo castanho extremamente bagunçado. Entre ele e o rapaz negro que ainda estava de pé, havia um outro que parecia ter descendência indiana. Esse último travava uma luta tentando se manter de pé igual os outros dois, mas estava perdendo a batalha. Suas pernas não pareciam responder também.

    — Ontem no dia 03 de abril do ano de 2070 sete novos jovens acordaram. — Ela disse sorrindo. — Sabendo que é nosso dever moral trabalhar para manter nossos entes queridos que ainda estão dormindo, em paz e segurança, qualquer indivíduo que acorda precisa ser encaminhado para uma determinada área. O trabalho é nossa moeda de troca. Sem ele nós morremos e todos aqueles que dependem de nós também.

    Eric demorou, mas nesse ponto já havia percebido que eles eram o motivo daquela reunião. Provavelmente seriam apresentados e encaminhados para suas novas vidas bem ali, na frente daquelas pessoas. Como um espetáculo  para aqueles desconhecidos. Nada animador — Ele pensou..

Embora tudo parecesse certo, ele sentia falta do borrão que era sua vida nos últimos dias. Se destacar no meio de tantas pessoas nunca esteve em seus planos. Estar em frente a elas, num palco, era ainda pior.

    — Estamos juntos para celebrar o nascimento dos nossos recém nascidos. — Eric estava certo sobre a reunião ser sobre eles, então. — E juntos introduzi-los nos moldes da nossa sociedade. No nosso mundo. — Seu tom era extremamente político.

    A garota de cabelos loiros revirou os olhos como se não gostasse das palavras moldes e sociedade. Uma rebelde — Eric pensou.

    — Temos um sistema que mantém os seres humanos, sobreviventes do antigo mundo em sono induzido…

    Ou coma induzido. — Sua cabeça já estava trabalhando como a de uma pessoa normal. Sarcasmo, ironia, opiniões pré concebidas. Como deveria ser — Ele pensou.

    — Dessa forma mantemos eles livres do terror e do pânico que é viver do lado de cá, garantimos ques nossa espécie esteja viva enquanto procuramos um jeito de limpar o mundo desses demônios. — Até mesmo os dois grandões que estavam em pé pareciam ter ficado com  medo dessa palavra. — Nosso sistema é inteligente e através dos chips que cada um de nós tem, ele percebe a necessidade de novas pessoas para determinadas funções nas mais diferentes áreas. Assim que um morre, outro tem que acordar para assumir aquele cargo.

    O ar pareceu ter sido retirado da sala por completo. Por breves segundos que pareceram uma eternidade, todos mantiveram seus olhos fixos nela e ela permaneceu calada pensando na forma com que daria a notícia a seguir. Eric não conseguia entender ainda o que estava acontecendo, mas percebeu que as coisas não pareciam nada bem. A palavra morde e assumir não deveriam ser usadas daquela forma. — Algo em sua mente o alertou sobre.

— E é com muito pesar que venho notificá-los, amigos, colegas, parentes presentes e a quem mais possa interessar que… — A tensão que ela havia criado era capaz de enlouquecer qualquer um. — A nave princesa Sofia que pertencia a nossa sexta equipe de presságios foi abatida e nossos amados foram mortos.

E ela cuspiu palavra por palavra sem se preocupar em respirar, guardando um sorriso forçado para o fim.

Por um momento Eric pensou que as pessoas que ali estavam não haviam ouvido muito bem. Ele achou que o microfone da senhora havia sido desligado ou que as caixas de som falharam.

Mas levou menos de cinco segundos para a multidão enfurecida avançar contra eles.



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