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História Primavera Fascista - Capítulo 3


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Notas do Autor


a fic agora tem uma tag para comentários no twitter! #MilitanteComunistinha! tenham uma boa leitura ♡

Capítulo 3 - Quem é kim taehyung?


KIM TAEHYUNG.

Eu acho que de todas as aulas, a que mais me irrita era Literatura.

Para mim, não faz o menor sentido ficar lendo e dissertando ao longo de dois períodos de 45 minutos sobre textos de pessoas que provavelmente já morreram. O que tinha de bom em livros afinal? Um monte de palavras que não chegavam a lugar nenhum. E ainda tinham os queridinhos do professor; cara, como esses militantes de merda me irritam. Tudo os ofende, tudo é motivo de baderna, tudo desagrada. Dá até vontade de enfiar um machado no ouvido e sair gritando.

E aí tinha o professor. Seokjin concordava com tudo que aquele grupinho pensava e sempre me fez perguntar porque que professor tem sempre essa necessidade de bater no peito para falar que leciona. O Kim mais velho também participava de manifestações e parecia se orgulhar daquilo; além do fato que a escola não fazia absolutamente nada.

E quando o sinal tocou, eu dei graças a Deus, não porque poderia ir à minha casa logo, mas porque eu tinha assuntos a resolver. Se aquele merda do Jung achava que o que ele fez ia passar batido, nunca esteve mais errado. Saí em disparada pelos corredores longos do segundo andar, podia ouvir Yoongi gritando meu nome, mas sinceramente aquilo não importava no momento.

Os sapatos faziam um barulho meio oco no piso que cobria todo o interior dos prédios conforme eu corria em direção aos jardins em busca de Hoseok. E só fui achá-lo uns minutos depois no lugar onde os estudantes deixavam as bicicletas, estava encostado na sua enquanto conversava animadamente com seus dois amigos gayzinhos. Ah, eu vou tirar esse sorriso de merda do rosto dele.

― Aí, Jung!

― Ih, lá vem. - Consegui ouví-lo dizer.

Agarrei o colarinho de sua blusa e vi os olhos dele revirarem.

― Aí, na boa, o que vocês têm com o meu colarinho? Ele é tão bonito assim?

― Cala a boca! Você achou que ia me dedurar ‘pro professor e ia ficar por isso mesmo, seu merda? Você é só mais um que vai preso qualquer dia desses e não vai conseguir nada na vida! Você acha que só porque passou a estudar aqui deixou de ser um pobre qualquer?

― Já acabou?

― O quê?

― Perguntei se já acabou.

Eu fiquei tão indignado com aquela merda que até achei que era deboche, mas quando olhei no fundo dos olhos dele, eu não vi nada. Nem mesmo o ódio que ele expressava quando discutíamos. Não tinha deboche, cinismo, nem o maxilar trincado. Soltei o mais velho devagar.

― Olha, Taehyung, você pode espumar à vontade sobre eu ser pobre. De verdade mesmo. Eu já deixei de me importar com isso há muito tempo. Sobre eu ser preso? Duvido muito, não devo nada a ninguém. Posso ser pobre, mas nunca deixei de pagar qualquer coisa, trabalho para ajudar minha mãe desde que me entendo por gente. Eu posso não ter a cama mais fofa do mundo, nem a maior casa, nem um bando de anéis caros enfeitando meus dedos, mas eu tenho algo muito mais importante que isso. Eu tenho respeito e amor. Algo que você nunca vai ter se continuar rebaixando todo mundo que te cerca. Você vai assumir o escritório do seu pai, não é? Acha que os empregados vão te respeitar assim? Não, eles vão odiar você. Então, sei lá, sei que a gente diverge em muita coisa, mas muda pelo menos isso.

Observei as costas dos outros três conforme eles saíam empurrando suas bicicletas. Ouvi alguns passos calmos atrás de mim e me deparei com Yoongi.

― Você sabe que ele tem razão.

― Não, não tem. E era só isso que me faltava, você defendendo esse cara.

― Tae, olha, já faz tempo que eu percebi isso, mas tudo que você fala é esse ódio que aprendeu com seu pai. Tudo que você faz é ser um babaca com todo mundo. Até com a senhora Kim que trabalha na sua casa e você a amava quando éramos crianças.

― Aquele dia foi diferente, ela precisava aprender o lugar dela enquanto empregada.

― Não, ela não precisava ter ouvido aquelas palavras que você despejou em cima dela e, no fundo, você sabe disso. Sabe, fazem anos que eu não te vejo sorrir de verdade. 

Ele fez uma pausa e eu o conhecia o bastante para saber que Yoongi procurava por uma reação minha.

― Tae, cadê aquele menininho do sorriso quadrado que amava pegar a câmera da mãe para tirar fotos de flores e insetos?

Aquela pergunta. Tanto aquela pergunta quanto o discurso de Hoseok despertaram em mim um sentimento que eu só podia identificar como ruim, pois não sabia o que era; mas me embrulhava o estômago de uma forma horrível.

― Menininhos do sorriso quadrado não são capazes de serem homens fortes, hyung.

Observei os olhos de meia-Lua de Yoongi ficarem com uma aparência triste, quase que desapontada. Ele apenas concordou com a cabeça e seguiu em direção à saída.

― Onde vai?

― Para a minha casa. Ah, e Taehyung?

― O quê?

― Algum dia você vai se foder muito por destratar as pessoas do jeito que faz, mas não espere que eu vá estar lá para te ajudar. 

Eu arregalei meus olhos diante daquilo. Ele não era louco de fazer aquilo, era?

― Mas, se por algum acaso, você resolver mudar, pode voltar. Eu vou esperar.

― Yoongi! Volta aqui! Você não pode fazer isso!

Nada ouvi além dos sapatos dele fazendo barulho conforme pisava nos cascalhos que adornavam aquela passagem.

― Adeus, Taehyung.

Eu não podia acreditar naquilo. Meu coração batia rápido demais para que eu pudesse acompanhar e, do fundo dele, eu esperava que fosse só uma brincadeira de mal gosto. Eu não queria deixar de ter a amizade de Yoongi. Não queria que ele fosse embora. Não quis nada daquilo. Mas também não conseguia fazer nada conforme observava ele desaparecer no meio de outras pessoas na avenida.

“Naquele dia, Taehyung não quis admitir que lágrimas rolavam pelas bochechas.”

Então, tudo o que fiz foi seguir meu caminho até minha casa.

Mas peguei um caminho antigo, que há anos não fazia. Era mais longo, mas ficava lindo sob a luz laranja do fim de tarde. Quando o ar começou a ficar mais fresco no meio daquela poluição toda e parecia que as árvores me chamavam, eu sabia que havia chegado. O estalo típico de quando se anda no cimento e o cantar das folhas em meio ao vento naquele caminho adornado por árvores grandes dos dois lados formavam uma sinfonia que eu gostava de apreciar quando mais novo. Quando foi que eu mudei tanto? Quando foi que a minha criança interior se perdeu?

E até mesmo agora tudo parecia automatizado. O barulho dos meus passos, a minha cabeça, o jeito que eu segurava minha mochila, meus pensamentos. Mas de alguma forma, eu cheguei em casa. Quando dei por mim, os portões grandes de ferro se erguiam imponentes e enferrujados à minha frente. Dei um suspiro, torcendo para que meu pai não tivesse chegado ainda e começasse a tagarelar sobre como ele colocou um funcionário em seu lugar ou como ele ganhou mais um caso milionário.

E ele realmente não tinha chegado. Mas encontrei minha mãe e a senhora Kim na sala.

― Filho! Demorou hoje, o que aconteceu?

― Ah, nada. Só fiquei resolvendo uns assuntos com o Yoongi. Coisas de escola.

― Jura? E como ele está? Achei até que tivessem parado de se falar, fazem meses que não o vejo mais aqui.

Quando foi que eu parei de chamar meu amigo para vir até a minha casa?

― Ah, ele vai bem. Estivemos tão ocupados com atividades de clube e essas coisa que nem me dei conta.

Eu não aguentava mais mentir. E o sorriso falso da minha mãe dizia tudo, ela não se importava, nunca se importou; acho que, na verdade, aquela era a primeira vez que a ouvia perguntando sobre coisas da escola.

― E como está indo na…

― Olha, mãe, não enche.

― Como é?

Vi quando se levantou lentamente, irritada pelo que disse e indignada com a falta de educação. Coisa que ela nunca me deu.

― Não enche! Para de fingir que se importa! Eu sei que a senhora não tá nem aí para o que eu faço ou deixo de fazer, desde que a imagem da família não esteja abalada! Só me deixa quieto!

Subi as longas escadas com o coração na garganta. Por mais que eu soubesse de tudo aquilo, fingia que não via, qualquer coisa era banal para mim. Quando passei a me importar com a falsidade da minha mãe? Com certeza ela ainda estava indignada olhando a escada e a senhora Kim permanecia impassível ao seu lado. Passiva diante de tudo. Porque aquele era o lugar dela, como uma empregada, tudo o que ela deveria fazer era permanecer em silêncio e servir. Fez a mesma coisa que fez anos atrás. Enquanto observava o pai transformar Taehyung em um monstro, nada pôde fazer, porque deveria conhecer o seu lugar.

Bati a porta do quarto, tranquei-a e respirei fundo. Quando a minha vida começou a desmoronar? Ou ela já estava em ruínas há tempos? Fui até a gaveta da minha cômoda e peguei as coisas que eu conhecia tão bem. Papel de seda e uma pequena porção de erva. Fumava quase todos os dias, mas naquele momento, não senti a mínima vontade de fumar. Só fiquei estático olhando para aquilo em minhas mãos. Então observei a porta fechada do banheiro e voltei meu olhar para a sacolinha preto que tinha em mãos. Caminhei em passos decididos até o outro cômodo, abri a porta e joguei tudo dentro do vaso sanitário, dando descarga logo depois. Dei um suspiro que fez até meus pulmões doerem.

Voltei ao meu quarto e fui em direção ao baú ao lado da cômoda. Dentro dele tinham alguns livros antigos, livros da escola e, principalmente, um fundo falso. Era nele que eu guardava objetos que eu sabia que, se meu pai os encontrasse, provavelmente me espancaria.

“Arte é coisa de viado!” Berraria bem alto e eu conseguia até ouvir sua voz. Dentro daquele fundo tinham papéis de desenho, pincéis, tintas dos mais variados tipos, canetas nanquim, uma máquina fotográfica antiga, rolos de filmes e um álbum cheio de fotos reveladas. Era o meu pequeno tesouro. Abri o álbum com capa de couro e comecei a folhear as páginas com várias fotos coladas e legendadas cuidadosamente. Fotos minhas quando criança, com Yoongi, plantas e insetos que eu achava interessantes; mas quando chegava em minha adolescência, não tinha quase nada. Yoongi ainda aparecia em algumas, mas eram basicamente nós em inúmeras festas, bebendo até cair.

Coloquei-o cuidadosamente de volta e me joguei sentado com o caderno de desenhos que eu tinha em mãos. Olhei pela ampla janela e vi o laranja desaparecendo do Céu e dando lugar a tons de vermelho e rosa. Quando criança, a senhora Kim e a minha avó diziam que, quando o Céu ficava rosa no fim de tarde, faria frio. Sorri com a lembrança. Naquele momento, não senti vontade de fumar, mas de pintar e desenhar. Peguei um lápis e, aleatoriamente, passava-o pelo papel. Não sabia bem o que estava desenhando, mas sabia que estava.

Mas, quando terminei e fui analisar o que tinha criado, fiquei surpreso ao ver que tinha desenhado um par de olhos. Ah, aqueles olhos eu conhecia muito bem.

Os olhos de Hoseok.

E, naquele momento, eu voltei a ficar puto.

 



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