História Prime Dimension - Capítulo 23


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Notas do Autor


opa, bom dia/tarde/noite!
Chegando com mais um capítulo de TPD e gente, a partir deste capítulo, a história retorna com um clima totalmente diferente do anterior. Estamos no aproximando cada vez mais do clímax e do encerramento dessa trajetória. Queria agradecer a todos pelo apoio de sempre e espero que gostem do rumo que a história vai tomar a partir daqui.
Sem mais delongas, ao capítulo!

Capítulo 23 - O reino do Caos


Fanfic / Fanfiction Prime Dimension - Capítulo 23 - O reino do Caos

Meu nome é Nerida Vielmond. E este é o tricentésimo dia da dominação dos cavaleiros do apocalipse. É incrível como, em um passe de mágica, tudo pudesse se transformar de bom para um completo pesadelo. Um dia, eu estava na minha escola, com as minhas amigas, nos dilemas da adolescência, e no outro, tudo acaba ruindo diante de mim. Eu deveria agradecer, sabem, por estar viva, mas como estou, quase um ano depois, me faz pensar em como a morte seria uma alternativa melhor. 

Este é o tricentésimo dia do reinado de terror dos cavaleiros do Apocalipse. E eu não sei se terei chance de sobreviver nem um a mais. 

Depois de todo esse tempo, vivendo como uma sombra na sociedade, resolvi dividir um pouco as minhas experiências como uma fugitiva e sobrevivente do chamado massacre da magia. Quando Magix foi destruída, não apenas o centro da dimensão fora lesionado, mas também toda a fonte de magia, fadas, bruxos e magos, acabaram exterminados. Sem a capital e o conselho de Magix para manter a estabilidade dos outros reinos, foi uma questão de tempo até entrarem em completo colapso. Com o poder dos cavaleiros, toda a nação mágica foi apagada, não deixando qualquer ser usuário de feitiços ou encantamentos vivos. 

O que fez a dominação de todos os reinos se tornar uma brincadeira de criança para Valtor e seus lacaios. 

Chimera Radius assumiu o controle em Solária, transformando o reino do sol no da escuridão eterna. Todos os dez reinos estavam fadados a viver uma longa e interminável noite. Os reis antigos foram depostos, e outros novos, de sua confiança, foram colocados em seus lugares. 

De todos os locais da Dimensão Mágica, apenas Dominó teve força para se manter de pé. Os demais… ruíram não muito tempo depois de Magix encontrar seu terrível fim. Pergunto-me se meus amigos ainda vivem, ou se eu sou a única das “novas Winx” a ainda respirar. No final das contas, não há muito a se fazer. Cortei o cabelo, mudei de nome, assumi uma outra vida no grande interior de Andros, e tento ao máximo não sentir medo e pavor ao ver os cartais de procurada com minha foto e a dos outros que sobreviveram. Valtor ainda nos busca. E a cada dia, cresce mais a incerteza de que seria capaz de viver outro dia. 

Nerida Vielmond. Saudades dessa garota que fui um dia. Hoje, sou Nyve Fietzbert, camponesa do litoral sudeste de Andros. E se Nerida, a sereia, é meu passaporte para a morte, Nyve foi aquela que me devolveu uma vida. 

Nerida fechou o velho diário quando ouviu as crianças no andar de baixo. A menina agora não tinha os olhos azuis mais tão brilhantes ou o longo cabelo loiro. Seus fios quase acobreados terminavam na altura do ombro, e agora, eram tingidos de um vazio negro. Era o melhor a se fazer, por hora, ou por ano. 

Quer dizer, era uma vida. Mesmo agora morando em um quarto não muito maior que uma dispensa, com uma janela bloqueada por uma estante e uma cama que mais rangia do que servia de apoio. Não era muito, mas pelo menos, tinha água, comida, e um teto sobre sua cabeça.

Já era mais do que muitos possuíam. 

Os gritos se repetiram e ela então guardou o diário abaixo de seu colchão como fazia. Nerida estava se escondendo para proteger a si e os que amava, mas jurou não esquecer de quem era, e aquele diário a lembraria disso. 

— Um segundo! - Ela gritou para o lado de fora, terminando de colocar o seu avental e correr para auxiliar a criança por quem era responsável. 

A sereia de Andros cruzou o jardim que separava seu quartinho da casa principal, arrumando seus cabelos pintados de negro em um coque e entrando na cozinha pela porta dos fundos.

— Perdão, madame, acabei me atrasando, prometo que não vai ocorrer novamente. 

A mulher gorda sentada a mesa, devorando uma fatia de bolo feita pela moça na noite anterior soltou um arroto, enquanto a menina mais novinha ao seu lado parecia emburrada. 

— Se trabalhasse tanto quanto dormisse, talvez fosse uma serviçal melhor. - disse a dona da casa e patroa de ”Nyve”, uma famosa produtora de tecidos de Andros. — Ande, prepare o suco e o sanduíche de minha pequena Bobbina. 

A filha era praticamente idêntica a mãe, talvez apenas em uma forma menor. Era igualmente gordinha e rechonchuda, mas em sua cabeça, um laço enorme rosa a distinguia de sua mãe, já que madame Trechant usava um espalhafatoso vestido rosa que parecia quase explodir colocado em seu corpo. 

Nerida deu um suspiro e tentou afastar os cabelos pintados da testa, agora que usava uma franja que a incomodava. A garota abriu a geladeira para buscar ingredientes e percebeu a nítida falta de algumas coisas essenciais na cozinha. 

— Madame Trechant… receio que não tenho ingredientes o suficiente… 

— Oh, pelas fadas criadoras! - A mulher inflou as bochechas coradas e seus seios quase se remexeram dentro do vestido sufocante. — Nem para fazer compras você me serve, Nyve! 

Nerida baixou a cabeça. Havia pedido dinheiro para reabastecer a geladeira já fazia três dias, mas ela sabia de que nada adiantaria se defender, já que mulheres como Trechant só ouviam a si mesma. 

— Sinto muito, madame. - Ela disse, contrariada, afinal, de nada tinha culpa. 

A madame então suspirou e jogou contra a mais nova um tufo de dinheiro, enrolado a uma liga. Em outros tempos, aquilo seria uma fortuna, mas com o atual domínio de Valtor, e a inflação em seu ápice, aquilo em Andros não passava de meros trocados. 

— Aí está, compre o necessário. 

— Mas senhora… - A idosa corpulenta ergueu a sobrancelha grisalha. — Sim senhora. 

Nerida então guardou o dinheiro dentro de seu sutiã, já que não tinha nem mesmo uma bolsa decente para guardar seus pertences e então saiu pelos fundos, descendo a colina da grande casa que levaria ao vilarejo, que já parecia bem movimentado naquele horário. Usando sua blusa de lã e uma calça mais reforçada para a ventania que corria aquele dia, a sereia de Andros demorou apenas alguns instantes para chegar ao vilarejo. 

Desde criança, nunca foi segredo para Nerida que Andros não era um reino com muitas riquezas. Diferente de Dominó ou Solária, o território do arquipélago que formava todo aquele reino não era composto de matérias primas, belos pontos turísticos (fora as praias paradisíacas)  e muito menos magias muito poderosas. É claro, o passado de Andros e a guerra contra as sereias em meados do século passado não reforçavam sua segurança. Elas ainda viviam nos mares profundos. Por mais que os habitantes de Andros não a temessem e não mais as repudiasse nos níveis que uma vez repudiaram no passado, ainda sim, os demais reinos da dimensão mágica não possuíam a mesma segurança. Talvez por isso, Andros não fosse um território muito rico ou escolhido para as grandes propriedades e negócios , mas ainda sim, como estava agora, também era demais aos olhos da menina que aprendeu a chamar aquele local de lar. 

A menina Vielmond abraçava o próprio corpo, e sentia um calafrio cruzar sua espinha ao ver os terríveis monstros do exército de Valtor cruzarem as ruas do local, parando em frente aos pequenos comércios e exigindo tributos absurdos. Em frente à orla, uma bandeira com o símbolo de Valtor, também conhecido como sua marca, estava incrustado ao solo. Aquilo era um sinal de que aquele território agora pertencia ao temível bruxo do Caos e seus lacaios. Ao passar pelas criaturas, Nerida abaixava o olhar, e tentava ao máximo ignorar as criaturas arrastando pessoas pelas ruas, aquelas que os deviam, e ceifando suas vidas como forma de quitar a dívida, e ainda assim, esta ainda, posteriormente, seria herdada pelos descendentes. No passado, algo assim jamais aconteceria, já que era função das fadas, especialistas e conjuradores impedir aquele tipo de vigência da escuridão, criando a harmonia com suas habilidades. Sem Magix como um polo centralizador e as escolas para formar os futuros usuários de magia, todos os reinos estavam vulneráveis ao governo cruel e ditador de Valtor. 

Pelas paredes velhas e mal cuidadas pelas quais Nerida passava, ainda era possível ver o seu rosto e ao dos amigos, em cartazes de procurados, juntamente de algumas outras faces desconhecidas. As recompensas para quem revelasse o paradeiro dos que ainda eram capazes de usar magia eram exorbitantes. As más línguas diziam que sua própria patroa, madame Trechant, havia conseguido uma considerável quantia ao entregar um mago fugitivo do templo de mentalistas de Callisto. O garoto teve sua garganta cortada em um segundo. Nerida tinha nojo só de imaginar, mas, para sobreviver, deveria aceitar as oportunidades que lhe eram dadas. Pelo menos, até agora, Madame Trechant nunca demonstrou saber de algo sobre seu passado. 

Com passos rápidos e sem olhar para os lados com medo de se distrair e demonstrar medo, Nerida chegou até a pequena mercearia que costumava comprar coisas em um preço mais considerável. Ela aproximou-se devagar, percebendo uma multidão de curiosos se aglomerar na entrada. A menina de Andros olhou por cima dos ombros dos mais altos, conseguindo ver um rosto que a fez empalidecer. 

Era Violet Spiegel. 

Assim que suas orbes azuis conseguiram ver aquele rosto que tanto ocupou seus pesadelos, Nerida se afastou o mais rápido e discretamente que pode, empurrando as pessoas da direção oposta para saírem de sua frente. Ela virou rapidamente para um beco fedorento e estreito que havia entre dois estabelecimentos, deixando apenas a cabeça para fora e assim pudesse ver o que acontecia ali.

— Não, por favor, não leve meu menino! É meu único filho! - O senhor responsável pela mercearia, puxando uma perna e parecendo resistir a muita dor, implorava para a mulher, que agora, tinha olhos bem mais frios e uma aura bem mais assustadora que antes. A Violet de antes parecia uma goblin ridícula perto da força desta que estava a poucos metros de si. 

Um dos monstros horrendos do exército das trevas saiu arrastando um garoto, menino este que não deveria ter mais do que quinze ou dezesseis anos. A idade que Nerida fugira de sua casa na capital do reino, para viver seu sonho de ser uma fada. O menino era nitidamente um camponês. Seus olhos castanhos demonstravam medo e pânico, seus braços tentavam de toda forma se desvencilhar daquele bicho que o agarrava, mas tudo era em vão. 

— Estou decepcionada, meu bom senhor. Lord Valtor não vai gostar nada de saber que um de seus louváveis cidadãos do vilarejo de Alicante foi capaz de esconder um… mago. - Violet cheirou o pescoço do jovem, que fechou os olhos em pavor. Mal sabia ele que aquilo apenas aumentava a energia da bruxa da discórdia. 

— Por favor, nos perdoe! Meu menino não é ameaça ao lorde, de forma alguma, por favor, não o leve. Ele é a única coisa que me sobrou! Eu fali meu negócio para pagar os impostos e perdi minha esposa para a morte, eu imploro, deixe meu menino! - Nerida sentiu seu coração se partir com a imagem do pai desesperado. — Se for assim, me leve no lugar dele!

— Não! Eu não vou deixar. - finalmente, o jovem se manifestou. — Levem a mim, mas não ousem tocar no meu pai. 

Naquele súbito ato de coragem, Violet se sentiu desafiada. 

— Então o vermezinho acha que tem alguma moral para exigir algo de mim? - Seu sorriso era diabólico, para se dizer o mínimo. — Seres das trevas, ponham tudo a baixo. 

— Não! Minha mercearia! 

As criaturas entraram com certa rapidez, levantando guirlandas e tendas, jogando tudo no chão e pisoteando, destruindo e arrasando todo o estabelecimento. O pobre senhor e seu filho olhavam para tudo desesperados, e Nerida apenas fechou os olhos, deixando pequenas lágrimas caírem. Não fazer nada, vendo o rosto daquele senhor era nitidamente doloroso. 

— Isso é para não me desafiarem, e agora… - A mão de Violet exalava uma forte energia negra. — O mago… - Ela abriu outro sorriso cruel. — Seu cheiro é único. Pena que não vai poder viver para descobrir seu poder! - Violet semicerrou os dedos e se preparou para arrancar o coração do menino do peito, mas por algum motivo, um chicote de água se amarrou em sua cintura e a jogou para longe, a fazendo ser jogada em cima de uma tenda cheia de tomates. — MAS O QUE FOI ISSO? 

Sem nem mesmo perceber, Nerida movia as mãos, como um maestro guiando sua orquestra. Escondida ainda em seu beco, com apenas seus olhos para guiar seus movimentos, a menina Vielmond, depois de dois anos inteiros sem ousar pronunciar nem seu próprio nome, foi capaz de executar um movimento de ataque hidrocinético simplesmente exemplar. 

— Essa energia! Há outro ser mágico aqui! MATEM TODOS. - Violet gritou a ordem para seu exército, que se espalhou para matar todos ao redor. 

Os aldeões do vilarejo então passaram a correr desesperados, gritando em pleno pânico. Violet irradiava fúria por ter sido golpeada e agora queria que todo aquele lugar pútrido pagasse com a vida de seus moradores. Ela não seria feita de idiota. O jovem garoto e seu pai continuavam no mesmo local, e possivelmente, como não conseguia correr, aquele senhor…

Nerida então teve de pensar rápido, se misturando a calamidade sem muitas dificuldades, aproveitando o poço que havia ali perto para coleta de água e discretamente controlando as gotas de água, as solidificando em agulhas, mirando no tendão dos monstros, os fazendo cair no exato momento que iam usar o golpe final. A menina sorriu consigo mesma, até que ela não era um completo desastre, no fim das contas. 

Com a maioria das tendas destruídas, Nerida agarrou um pedaço de madeira e golpeou o monstro que segurava o menino na cabeça com toda a força, o fazendo soltar o menino, que correu para perto do pai quando houve aquela abertura. A sereia de Andros então controlou as poças e fez a água subir e tomar o enorme monstro em uma esfera de água. 

— ENTÃO O VERME SE REVELOU… - Violet berrou se levantando com sua bela roupa de vilã de desenho animado suja de tomate e sem um cheiro nada agradável. — Espera… conheço você… - Um sorriso sujo de extrato de tomate se abriu no rosto da bruxa. — É uma das fadinhas de Alfea, não é? Gostei do cabelo, talvez use esse corte no seu velório, vadiazinha. 

— Não sei o que fede mais. Sua roupa  ou seu caráter. - Nerida rebateu. Seu disfarçe estava arruinado. 

Desculpem pessoal. Nerida pensou. No final das contas, não vou conseguir me manter viva. Mas eu cansei de me esconder. Posso morrer hoje, mas levo essa bruxa comigo. 

— Por favor, fuja. Leve seu pai e saia daqui! - Nerida gritou para o jovem, que apenas assentiu, bastante assustado e ajudou o seu pai a fugir. 

— Você se revelou pra salvar aquele moleque? Como é patética. Não aprendeu a primeira lição de sobrevivência, fedelha? Viva por si mesma e não pelos outros. Pague com esse erro pela vida! 

A mesma aura vermelha se espalhou pelo corpo da bruxa, que fez os cadáveres mortos pelos monstros se levantarem, com pupilas totalmente rubras.

— Sétima arte proibida… fantoches da discórdia. - Violet então apontou para Nerida e os cadáveres, como se fossem controlados, mais de trinta deles, avançaram sobre a garota. 

A integrante das novas Winx então deu um grito de pura adrenalina, sentindo toda a água que havia ao seu redor, controlando o máximo que podia com a maior velocidade que conseguia. Nerida criou uma enorme pista de gelo os fazendo escorregar e bolhas de água como a anterior, que afastavam os zumbis. 

— Por que não ataca? Não me diga que é medo de machucar estes corpos fracos? - Violet estava desacreditada com aquilo. — Mas você é mesmo patética. Sexta arte proibida… prisão psicológica. 

Violet apontou seu indicador para Nerida, que de repente, se sentiu extremamente fraca. Tudo a sua frente se tornou um borrão, até mesmo seus movimentos com a água. Dentro de seu subconsciente, só conseguiu ouvir sua própria voz. 

Por que está lutando? Você sabe que é inútil. Não tem poder pra derrotar uma bruxa do nível de Violet. Vai no máximo se humilhar. 

Nerida balançou a cabeça, voltando a focar em se defender. Aquilo era o poder dela. Não poderia deixar que as manipulações dela a afetassem.

Então agora quer bancar a heroína? Lembro muito bem de quando saiu correndo feito um bebê chorão quando destruiu a minha vida. Eu perdi todo o meu futuro por sua causa. Agora era a voz de Alexis, dura, rude, nada simpática. Você não é a salvadora de ninguém, é uma covarde. 

— Não! Faça parar! - Nerida colocou as duas mãos na cabeça, em pânico. Violet passou a língua nos lábios, fazendo um de seus fantoches cortar a barriga da garota que caiu ao chão.

Você tem medo. Ivy sussurrou. 

Medo de ser um peso morto. Maeve continuou, sua mente rodando com tanto peso. 

Mentiu pra nós.  Electra alegou. 

Vocé é uma farsa, não merece nossa amizade. Louise disse, com a voz nada simpática como Nerida se lembrava. 

— É dura, não é? A verdade. O peso dela sobre você. - Violet sabia que a dor dos golpes que Nerida recebia não eram nada comparados a manipulação psicológica que a garota passava.— Parece que você guarda mais podres do que esperava. Ainda tenho mais cinco feitiços… e já sinto que posso terminar com você… Nerida Vielmond. 

A garota chorava e se debatia no chão, sofrendo diversos golpes enquanto a voz de seus amigos ecoava em sua mente como um mantra, lembrando a ela dos seus segredos, da sua culpa, do pesar de suas escolhas. 

Por que nos abandonou? Você não é mais nossa filha! Seu pai exasperou. 

Eu esperava mais de você. Sua mãe dizia com uma voz chorosa. 

Eu falei que você não era capaz. Seu irmão Dio a lembrou, e Nerida só quis que aquilo parasse. 

A tortura mental não deixava Nerida sentir as dores dos golpes e o quanto estava ferida, caso se prendesse mais um minuto em sua mente, poderia sofrer um golpe fatal ao ponto de perder a consciência. 

Nerida. Você é diferente. Diferente de todas que já conheci. A última voz era de Vicenzo, mas diferente das demais, era extremamente gentil. Você cativa aos outros. Não há nada que você não consiga fazer. 

Ela então se lembrou do sorriso dele, de quando o encontrou nos corredores de Alfea, de seu carinho, de seu companheirismo. E de sua promessa. Nerida prometeu aos seus amigos que iria sobreviver. 

— Eu… não vou… PERDER. 

A garota levantou os braços e fez uma enorme onda a partir dos recipientes de água e poças próximas. A força da correnteza artificial levou a maioria de seus oponentes, e a umidade em seu corpo estava prestes a fazer sua cauda surgir. 

— Mas agora faz sentido… - Violet parecia ter feito uma descoberta única. — Você não é uma fada… só assim para escapar do meu controle…

Nerida apenas sentia seu poder emergir de seu corpo como radiação. Seus lábios se abriram e uma melodia tão bela, e ao mesmo tempo hipnótica ecoou de sua garganta. A canção da sereia. De repente, Violet não tinha mais controle. Os cadáveres controlados por sua discórdia agora pareciam totalmente levados pela canto. A bruxa tentou desesperadamente retomar o controle, mas a voz de Nerida parecia drenar suas forças. 

— Vadia… - Violet sussurrou, não tendo mais o domínio de seus lacaios. Nem mesmo o exército das trevas se movia. 

Por todo o vilarejo, a voz de Nerida conseguiu se espalhar. Pessoas, animais… a própria maré. Tudo estava hipnotizado. A força dos decibéis fez a bandeira da orla sair voando, e os cidadãos encantados marchavam como seu exército particular em direção ao seu alvo. Em direção à Violet. 

— Cale a boca sua cretina. - A bruxa tentou correr e dar um soco em Nerida, mas suas pernas pareceram falhar. Violet caiu de joelhos, como se estivesse ela mesma sobre um transe. 

Era como se ela não tivesse controle de si mesma. Os cidadãos controlados pegaram armas por onde passava. Fossem tábuas, facões ou arados, e, se aproveitando dos monstros encantados, o matavam. Aos poucos, o vilarejo se defendia. Violet assistia a tudo aquilo completamente em choque, como se fosse a verdadeira visão de um pesadelo. 

— Merda! 

A bruxa então disparou um raio avermelhado vindo de seus olhos, e então mirou no céu. No instante seguinte, ela havia sumido, junto do exército das trevas, com sua voz ecoando pelo ar:

— Isso não vai ficar assim, maldita! - Foi o que sua voz jurou, até sumir com o vento. 

Nerida então parou a canção, ofegante e exausta. Dominou a água e a afastou de seu corpo antes que sua cauda surgisse. Ela olhou ao redor e viu todos ali, alguns mortos, poucos feridos, mas a maioria bem. 

— Isso foi surreal. 

Era uma voz familiar. Nerida então seguiu aquele som e viu, em cima do teto de uma das casas, uma figura coberta por um capuz. Com medo de ser outra ameaça, Nerida, mesmo ferida, já se colocava em posição de ataque. 

— Deixe essas pessoas em paz. - Sua energia estava quase zerada, mas Nerida enfrentaria outro adversário, se assim precisasse. A garota então disparou um jato de água contra a figura, mas em um piscar de olhos, ela não estava mais lá. 

— Uau, você está mesmo raivosa. - Ela se assustou e se virou, vendo a mesma figura já atrás dela. 

— Como… você? 

A pessoa que escondia sua identidade com aquele capuz estendeu o braço para a esquerda e fez um vórtice se abrir ali, diante dos olhos de Nerida. 

— Mas… - Ela tentava raciocinar, mesmo com a dor de seus ferimentos. — Isso é um portal. A única pessoa que conheço capaz de fazer isso é…

Nerida não tinha certeza, mas jurou ter visto um sorriso por baixo daquele capuz. 

— Faz tempo, não é, Neri? 

Ela então viu a figura remover seu capuz, e aquilo a fez se chocar como nunca antes. Os cabelos loiros estavam mais curtos. Os olhos já não tinham o mesmo brilho, o corpo parecia dotado de ainda mais curvas e o sorriso era um pouco mais malicioso. Sem mencionar uma cicatriz que descia de seu olho até a parte inferior da bochecha. 

— Alita… - Aos poucos, Nerida conseguiu dar um sorriso de puro alívio. — Alita! 

Mesmo fraca, Nerida usou a força que lhe restou para abraçar a amiga. 

Era um rosto conhecido, mas aquilo fez que um misto de sentimentos que fazia tempo que a garota não sentia. 

Entre eles, estava a esperança. 

***

Alita sabia com toda certeza como Nerida era forte. 

Depois de ter seu reencontro com a antiga colega e amiga, Alita nem conseguiu impedir que a menina desmaiasse. Claro, depois de ter uma batalha tão difícil como a que travara contra Violet, nada mais esperado. Nesse momento, Nerida descansava na cama da loira, que a observava dormir, ainda aflita. Eram tempos difíceis. 

Há dois anos atrás, eles não poderiam contar no que vivenciariam. Ela olhou para a tatuagem de luz em seu pulso e suspirou. Todas as lutas que travou, as tropas as quais destruiu e as coisas que teve que sacrificar para se manter vivas durante aquele período eram incontáveis. Alita teve que amadurecer cedo demais. E a cicatriz em seu rosto era a prova disso. 

— Nunca vai me contar o que fez isso no seu rosto? - A voz que falou na escuridão quase a assustou, mas não a surpreendeu o suficiente. — Se você me dizer quem foi o filho da puta, eu acabo com a raça dele. 

— Não preciso que você me proteja. Na verdade, prefiro ser morta pisoteada por um goblin. - disse Alita, tentando ignorar aqueles olhos escarlates sobre si. — E então? Conseguiu encontrar o paradeiro dos demais? 

Lance estava de braços cruzados, encostado a parede. Seu cabelo estava cortado em um estilo militar e seu corpo se encontrava ainda mais musculoso. Abaixo de sua camisa, agora havia uma tatuagem gigantesca de dragão, que começava próximo ao ombro e cobria todo seu antebraço. Naquele momento, ele usava apenas uma regata preta, deixando a maior parte do dragão visível. 

— Suas amigas são boas em esconde esconde. Talvez consigamos encontrar Ivy no bosque das gramíneas em Lymphea, mas as demais? Nem mesmo a sombra de um rastro. - Lance continuou, dando um suspiro cansado. — Estou cansado de ficar aqui dentro, loirinha. 

— E você acha que eu não estou? Eu só quero matar Valtor com minhas próprias mãos, por ter tirado tudo de mim. Olhe o estado de Nerida. - Alita apontou para o corpo da amiga. Pelo estado da jovem, Nerida talvez dormisse por semanas. Isso se não se induzisse a um coma. 

— O cheiro dela é diferente. - Lance comentou. — Uma garota normal teria morrido. Essa menina tem algo de diferente, mas não se preocupe, quando o assunto é quem dorme mais, Éden é campeão mundial. 

Alita não queria, mas acabou soltando um sorriso. As idiotices de Lance ainda eram capazes de arrancar alguns sorrisos dela, raramente, mas ainda eram. Os dois, antes quase desconhecidos, príncipe e súdita, especialista e fada. Agora eram parceiros. Há dois anos, se alguém dissesse para Alita que ela estaria sendo parceira de Lance Dragscale, possivelmente lhe arrancaria boas gargalhadas, mas por incrível que pareça, ele era uma ótima dupla. 

Lance não a importunava para saber o que ela tinha vivido, muito menos ela queria saber o porquê dele não estar com seu traseiro bem sentado no trono de Dominó, comendo do bom e do melhor ao invés de pernoitar naquele bunker desconfortável, mas ainda sim, era melhor do que estar sozinha. 

— Ei, nenhum deles está morto. Eles são fortes. Quer dizer, o Alexis não, mas pragas não morrem fácil assim. - Era difícil ela escutar o nome de Alexis, mas ainda sim, tudo parecia tão distante. — Nós vamos conseguir matar Valtor. Vamos vingar Magix e nossas escolas. Lembra do nosso combinado na nave? 

Alita estava silenciosa. Se fosse em uma situação, já estaria aos prantos. É uma pena que todas as suas lágrimas haviam se secado tempos atrás. 

— Vamos nos separar, mas um dia… - Lance segurou a mão da loira. 

— Vamos nos encontrar… - Alita repetiu. 

— E vencer. - Lance sorriu de canto, fazendo covinhas aparecerem, ou Alita estava divagando. — Essa é minha parte favorita. 

Os dois estavam perto, e , por mais que odiasse admitir, Alita não resistia aquele toque. Os dois tinham tido aquele tipo de relação algumas vezes, e ela havia prometido a si mesma que não aconteceria novamente, mas sempre acabava cedendo. 

Sem nem perceberem, Lance e Alita já se beijavam com fervor. Os lábios urgentes um pelo outro, violentos e agressivos. Ela mordeu o lábio inferior do mais alto e enrolou as mãos sobre sua nuca, enquanto ele pousou em sua cintura. O ar não demorou a lhes faltar, e Lance já direcionou suas carícias para o pescoço da fada dos portais. Alita mordeu o lábio para não gemer e empurrou Lance para fora do quarto de Nerida, fechando a porta e o imprensando contra a parede do corredor. 

Alita tocou seu peito com a mão e o fez esperar enquanto tirava seu próprio top, mostrando o sutiã branco. Depois de se despir de uma peça, resolveu empatar o jogo e remover a regata que Lance usava, revelando a tatuagem de dragão e as marcas de arranhões nas costas do rapaz, anteriormente feitas por ela. 

— Merda, você é muito… gostosa. - Lance sussurrou com seu sorriso malicioso, colocando Alita em cima de um dos móveis, sedento por aquela relação carnal ali mesmo, e entre gemidos, a garota o ajudou a remover sua própria roupa de baixo e seguir o ato. 

E os dois mais uma vez sanaram aquele tesão desesperado se unindo em outro ato carnal bastante luxurioso, enquanto do lado de fora, em algum lugar, haviam outros sobreviventes de Magix. 

Ou pelo menos, esperavam que sim. 

***

Nos oceanos quentes de Melody, a pesca sempre fora uma atividade rentável. Para quem tinha que urgentemente procurar algo para se manter, era um local bom para se ir. Um pouco mais alto, com a pele mais bronzeada e os cabelos loiros escuros um pouco mais compridos, na altura dos ombros e uma barba por fazer, o rapaz terminava de descarregar seu barco lotado com as aquisições do dia. Havia vendido boa parte para um frigorífico no litoral, e agora podia contar o dinheiro para ver se, naquela semana, poderia comer as três refeições durante todos os dias. 

— Benson. Bom trabalho hoje. - disse um outro pescador, apertando a mão do companheiro. 

O que ele jamais poderia imaginar, é que esse tal de Benson uma vez já fora um aluno de Fonte Rubra. Uma vez já fora escudeiro do príncipe de Dominó. Uma vez já fora transformado em tritão. Uma vez já se chamou Alexis Garcia. 

O rapaz estava com feições mais de homem do que as de menino que costumava ter, a barba agora era bem maior e seu tom de pele mais bronzeado impedia que fosse reconhecido. Mesmo bem escondido, Alexis nunca ficava muito tempo em um lugar. Era basicamente um nômade, mudando de local sempre que tinha conhecimento sobre algum dos lacaios de Valtor se aproximando. Ele não tinha ideia se seus amigos estavam vivos ou não, mas ele sobrevivia, como podia. 

Ele caminhou com os dedos sentindo a areia fofa nos pés, contando os trocados que tinha ganho. Todos os pescadores se questionavam como Alexis conseguia tantos pescados bons, em tão pouco tempo. Seria ele um prodígio com menos de vinte anos de idade? Bom, quando se tinha uma cauda e poderia viver abaixo d’água por dias sem respirar, a carreira de pescador se tornava altamente vantajosa. Havia juntado um pouco mais de mil pratas. Daria para abastecer-se com alguns mantimentos e sumir do radar de Valtor por uns anos. Isso é bom. Quem sabe poderia encontrar os amigos. Encontrar Alita. 

Alexis consegue sentir o mar se tornando mais violento e resolve ir para seu esconderijo. Se afastando dos humanos e se escondendo entre os rochedos, o jovem Alexis pula na água em um belo salto, quase que profissional, fazendo sua cauda, agora maior e com mais escamas rapidamente surgir. Este nada o mais rápido possível por debaixo da água, passando por vários cardumes, corais e algas. Um pouco mais adiante, havia uma caverna subaquática. Alexis cruza aquela entrada, chegando em uma espécie de piscina natural, localizada dentro de uma superfície rochosa antes vazia, mas agora ocupada com seus pertences. 

O rapaz se senta na borda, e usa de sua magia para evaporar a água de seu corpo. De volta com seu amado par de pernas, Alexis guarda o dinheiro que tinha posto no bolso da calça junto de outros objetos, se ajeitando em seu saco de dormir e olhando para o teto. Naquela mesma semana, havia visto Harry Smalls passar por Melody e devastar uma cidade inteira, simplesmente porque uma criança havia pisado em seu pé. Aquilo era um pesadelo, e se sentia inútil por não ser capaz de impedir. 

Com tantos pensamentos pessimistas e possibilidades de futuros desastrosos, Alexis Garcia fechou os olhos, se lembrando do seus tempos em Fonte Rubra, e de como poderia ter aproveitado bem mais. Seus amigos, sua escola, seu pai… Alita. Alexis nunca quis ter se separado dela. 

— Dói, não é? 

Uma voz fez o rapaz se assustar, levantando de supetão e observando alguém sentado sobre um rochedo. Era…

— Diretor Saladin? O senhor… 

O velho e sábio diretor de Fonte Rubra fez sinal para que Alexis se calasse. Ele deu um sorriso amigável para o rapaz e disse:

— Meu nobre Alexis. Seu coração é um dos mais honrados que já conheci. Você é um ser repleto de bondade. Talvez seja por isso que me recusei a contar a verdade. Perdoe-me, jovem Alexis. 

O antigo escudeiro do príncipe de Dominó balançou a cabeça, como se não estivesse entendendo. Saladin não estava morto? Do que ele estava falando? 

— Diretor… eu… não sou ninguém. Era só um escudeiro, filho adotado de um ferreiro. Não consegui salvar o senhor, nem ninguém. Não mereço isso. Nada disso. - Alexis tentava não sentir tanta culpa, mas era quase impossível. 

— Não, Alexis. Você não é. Eu tive medo de lhe contar, mas… usando dos meus poderes, quando você se revelou a mim, pude sentir sua aura… Meu caro menino, mesmo antes, sua aura ainda era a mesma que senti no dia que foi a minha sala…

— Espera… o que o senhor está tentando dizer? Como pode estar falando comigo? Diretor! - Alexis estava magoado, triste, e, acima de tudo, confuso. 

— Você não foi transformado em tritão, Alexis. Você sempre foi um. 

Aquelas palavras o atingiram como facadas. Ele estava brincando, não estava? Nerida o tinha transformado, ele tinha certeza disso! Ela tinha o encantado, e, por algum motivo… 

— Você é o filho biológico de Salácia e Ponteus. Os reis dos sereianos. Na época, os tritões estavam sendo caçados. Foram depostos, seu pai biológico, morto. Sua mãe por estar para dar a luz a um novo tritão ia ser pega, mas conseguiu dar a luz a criança e nadou para longe até Dominó. Ela o abandonou nas pedras, e usou um antigo feitiço do mar para mascarar os seus poderes. A sereia que você encontrou não o transformou, ela somente quebrou o feitiço do mar e mostrou seu verdadeiro eu. Alexis Garcia, você é o usuário de uma das quatro magia sagradas da Dimensão Mágica. 

Alexis acordou suando frio. Suas mãos estavam trêmulas, assim como seu coração se encontrava disparado. Aquele sonho fora tão real, que chegava a dar calafrios. Alexis olhou para o próprio corpo, um pouco assustado, e ainda um pouco atordoado, observou seu reflexo na água. Ele estendeu a palma ali e sentiu como se o próprio mar tivesse passado a recarregar suas energias. Então ele desejou ver. Como ele queria ver a verdade, e, de algum modo maluco, ali, naquela piscina natural, Alexis viu um rosto feminino, em prantos, segurando uma criança no colo. 

— Meu filho… eu te amo. Mais do que tudo. Seus pais acreditam que seu papel é especial. As sereias não vão pensar em procurá-lo em Dominó, pois eles odeiam seres como nós. Meu menino, meu pequeno… sempre vou estar com você. 

O bebê chorou em meio a tempestade, enquanto era colocado em meio às rochas do litoral perigoso de Dominó. A sereia chorando mergulhou novamente e se afastou o mais rápido que pode, deixando a criança ali para ser encontrada por outra mulher. A primeira mãe adotiva de Alexis, que o batizou e o tratava como lixo. 

O jovem tritão viu tudo aquilo embasbacado. Não poderia ser verdade. Era tudo tão confuso. Não. Alexis não poderia mais se esconder. Ele então rapidamente se vestiu e foi arrumar suas coisas. 

Precisava encontrar seus amigos, e com o rosto desesperado de sua mãe estampado em sua mente, Alexis partiu ao nascer do sol. 

***

A prisão do rochedo de Valdarian era uma das localidades mais nojentas, imundas e cruéis de todo o mundo mágico. Localizado nas montanhas frias e congelantes do reino de Eraklyon, os piores criminosos ali se encontravam. Recebendo uma comida que mais parecia um par de fezes, Clarissa Magalos viu o guarda de Valtor jogar aquele prato ao chão como se desse comida aos cachorros. 

Seu estômago se embrulhou de imediato. Mesmo com uns bons cinco dias sem se alimentar, tinha certeza que vomitaria assim que pusesse aquela comida grotesca em sua boca. Quer dizer, se é que aquilo fosse realmente comida. 

Nia estava acorrentada, totalmente presa para não despertar a verdadeira natureza de sua magia. Queriam deixá-la a própria sorte, tentando que a bruxa dos venenos perecesse por falta de comida e água. Assim, em sua própria inconsciência, Nia Belmont assumiu um estado conhecido como hibernação. Talvez, quem sabe, aquilo pelo menos adiasse sua morte. 

Marcando aquele como o dia de número quinhentos, Clary se arrastou até a parede, pois já não tinha forças para andar. Ela e Nia haviam sobrevivido ao massacre de Torre Nebulosa, mas não tiveram energias para lutar contra Valtor e seus lacaios. 

— Preciso sair daqui… - disse Clary, se apoiando nos objetos que via pela cela, tentando a todo modo se colocar de pé. — Se não, nem eu, nem a Nia, vamos conseguir… viver… 

Ela acabou pisando no livro que estava lendo, um chamado A Profecia dos Fundadores, era interessante, mas tinha um personagem com o mesmo nome do príncipe de Dominó, o ranço se instaurou com sucesso, mas, por mais que tivesse amado a história, porém Clary tinha uma certa dúvida:  se chegaria a terminar. 

Ela olhou para o teto, feito absolutamente de metal. Jamais pensou que ficaria engaiolada como um rato, mas finalmente havia chegado o dia de sua fuga. Infelizmente, não teria forças para levar Nia, mas prometeu a si mesma que iria voltar quando pudesse. Não iria abandonar a jovem ali. 

Clary então se lembrou de quando era uma garotinha, na época em que seus pais finalmente haviam encontrado o tão sonhado livro do destino. Um objeto milenar com diversos feitiços proibidos, até então inexecutados pelos homens. Como nenhum dos dois tinham poder o suficiente para fazê-los, obrigavam a própria filha que os usasse. A dor era absurda, as consequências eram inúmeras, mas, em compensação, o poder era imensurável. Naquela noite, o primeiro equinócio se iniciaria. Era uma chance em mil, mas também a última oportunidade que ela teria. 

Clary então pegou uma parte enferrujada do talher que lhe foi entregue e cortou a palma da sua mão, torcendo para não morrer de tétano antes de completar o encanto. O sangue pingou no pentagrama feito com a comida indescritível entregue pelos carcereiros. A bruxa ergueu o pescoço e passou a entoar o feitiço, junto de uma melodia calma por meio de seus lábios. Seus olhos então se tornaram totalmente negros, de forma que certos espasmos tomaram o corpo da bruxa. 

— Décima arte proibida. Besta das Sombras Oculta… - Os lábios da garota se ressecavam e seus ossos se quebravam inteiramente, enquanto entoava o encanto. A dor era totalmente insana. — Cérbero. 

Clarissa então urrou, assumindo uma posição quadrúpede. Pelos começaram a surgir de seu corpo que se tornou muito mais forte e peludo do que era. Mais duas cabeças cresceram no lugar de uma, e seu tamanho foi duplicado. Totalmente transformada em uma besta de forma lupina e com três cabeças, Clarissa rugiu e só aquilo foi capaz de arrancar a porta de sua cela. Os soldados de Valtor vieram em vastas tropas conter seu avanço, mas o massacre fora estupendo. Da última vez que assumira a forma do monstro das sombras, Clarissa tinha matado os pais. Dessa vez, esperava matar todos os capangas daquele bruxo insuportável. 

Suas três bocas se abriram, carregando imensos raios de energia negros, que foram capazes de derrubar uma das torres. Clarissa não tinha mais controle sobre si, e deixava um caminho de corpos destroçados por onde passava, fazendo a prisão alarmar e reforços serem mandados para sua zona dentro do castelo. Reforços esses que nada mudaram o destino daqueles guardas monstros. 

Quando o último deles foi derrotado, a transformação perdeu seu efeito, e Clarissa voltou a sua forma humana. Nua, coberta de arranhões, coberta de sangue. 

Aquela guerra criada por Valtor havia despertado seu pior. 

E era hora de Valtor provar de seu próprio veneno.


Notas Finais




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