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História Prince Charming (Malec AU) - Capítulo 37


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Notas do Autor


Em primeiro lugar, peço MIL PERDÕES pela demora em atualizar essa história. Mas antes tarde do que nunca, certo? Em segundo, quero dizer que esse é o primeiro capítulo EM MUITO TEMPO que me deixou totalmente satisfeita. Quis fazer uma coisa diferente, contando a maior parte dele sob o ponto de vista do Magnus, dois trechos sob o de outras duas personagens muito queridas e especiais (tanto para mim quanto para vocês) e mais um trechinho sob o ponto de vista do Alec.
Realmente amei a conclusão desse capítulo e espero que vocês também gostem. Caso não seja assim, sintam-se à vontade para falar, prometo que não vou ficar chateada. Sei que ele ficou super longo, mas espero que não seja cansativo e que gostem MESMO, porque eu ameeeeiiii, hahahaha! É isso, vamos à leitura!

P.S: Tive que repostar o capítulo porque esqueci de acrescentar uma parte. ;)

Capítulo 37 - A Perfect Example


 Magnus pensou que voltaria para Londres ainda no sábado, mas para sua surpresa a mãe de Alec fez questão que ele e Simon passassem a noite no palácio – e, a julgar pela expressão de choque no rosto do marido, sem avisa-lo antes.

 Uma pequena parte de Magnus continuou mantendo esperanças de que pudesse dormir no quarto de Alec, porém suas expectativas foram frustradas quando Robert pediu à uma das empregadas que preparasse dois dos quartos de hóspedes para que os visitantes pudessem dormir.

 Ele tenta ficar acordado pelo máximo de tempo possível, pensando que talvez Alexander dê um jeito de escapar do próprio quarto e vir passar a noite ao seu lado, mas quase uma hora se passa e nada dele aparecer. Magnus já está quase sendo vencido pelo sono quando de repente ouve um barulho na porta, então se vira e vê Alec já se aproximando da cama, com passos silenciosos.

 — Dei de cara com o Simon no corredor. – conta ele, subindo no colchão. – Nós dois levamos um susto, mas depois simplesmente seguimos nossos caminhos sem dizer nada. Eu devia ter imaginado que ele e Izzy também não iriam querer passar a noite separados.

 — Você demorou tanto que cheguei a pensar que não viria. – confessa Magnus, se aconchegando nele.

 Alexander puxa o corpo dele contra o seu, os braços firmes ao redor da sua cintura, e ele fecha os olhos, suspirando.

 — Desculpe, é que eu quis me certificar de que todo mundo estava mesmo dormindo e não seria pego no flagra.   

 Magnus apenas assente, ainda com os olhos fechados, aproveitando o calor do corpo de Alec. Ele mal consegue acreditar que está ali, na terra dele, conhecendo seu lar e seus familiares. Era estranho, porque mesmo tendo visto o palácio luxuoso onde a família real de Idris vivia, Magnus ainda não consegue assimilar que Alexander é realmente um príncipe de verdade, lidando com todas as responsabilidades e cobranças que a realeza trás.

 Quando os dois se conheceram, naquela fatídica sala de bate papo, ele nunca desconfiou que Alec pudesse ser nada além do que um garoto de vinte anos comum. Magnus até chegou a pensar que talvez ele pertencesse à uma família importante na sociedade, por causa de todos os seus compromissos misteriosos, mas nem em um milhão de anos imaginou que estava conversando com um membro da realeza. Alexander sempre pareceu tão simples e sincero, abrindo seu coração sem medo, contando como sentia que nada do que fazia era suficiente para o pai, como amava a mãe e a irmã, então Magnus não via motivos para desconfiar que escondesse algo.

 Por isso, quando Alec contou a verdade, ele ficou absolutamente em choque – inclusive, a princípio pensou que estivesse lhe pregando uma peça. E mesmo depois, percebendo pela seriedade no rosto e nas palavras dele que estava sendo sincero, Magnus ainda continuou chocado, se perguntando como aquele garoto vestindo uma calça de moletom desbotada e um blusão enorme de aparência igualmente desgastada, poderia ser um príncipe de verdade.

 Mesmo que na época já estivesse completamente apaixonado por Alexander e nem sequer cogitasse se afastar dele, ainda assim não conseguiu deixar de se preocupar com tudo que aquilo implicava, nas dificuldades que teria que enfrentar namorando com alguém que pertencia à realeza. E agora, depois de tudo que aconteceu naquela manhã, Magnus sente que foi um pouco egoísta ao pensar mais nele do que no próprio Alec, que com certeza sofria bem mais pressão do que ele.

 — Meu reino pelos seus pensamentos. – brinca Alexander, o despertando dos seus devaneios.

 — Cuidado, você realmente tem um reino para me oferecer em troca. – retruca Magnus.

 Alec ri, depois afasta uma mecha de cabelo da sua testa com delicadeza.

 — No que você estava pensando, com essa cara tão apreensiva?

 — No quanto as coisas são muito mais difíceis para você do que para mim. – confessa ele. – Quer dizer, eu tenho dezenas de repórteres e curiosos me perseguindo por todo canto, até no trabalho, querendo a todo custo uma foto, uma declaração, mas não tenho que lidar com um bando de malucos me dizendo coisas ofensivas, como aconteceu com você nessa manhã.

 Alexander se afasta um pouco para encara-lo.

 — Sim, realmente não foi fácil ter que encarar o que aconteceu no parque. – concorda. – Mas prefiro passar por isso com você do meu lado, sendo fiel a quem eu sou de verdade e ao que eu sinto, do que viver uma vida de aparências só para ser aceito e idolatrado por todos. O seu amor me libertou, Magnus. Foi o que nós sentimos um pelo outro que me deu coragem para me assumir para o mundo, para parar de tentar me esconder e finalmente ser quem eu devo ser.

 Magnus busca as mãos dele debaixo das cobertas.

 — Com esse coração nobre e toda essa inteligência, você vai ser o melhor Rei do mundo, Alexander. O povo de Idris não sabe a sorte que tem por te ter como futuro líder deles.

 Alec tenta conter um bocejo, mas acaba não conseguindo e só aí ele se dá conta do cansaço estampado no rosto dele.

 — Acho melhor a gente dormir, nós tivemos um dia bem estressante.

 Alexander assente.

 — E amanhã ainda temos que acordar cedo, para passear por Alicante com a Izzy e o Simon como combinamos de fazer.

 Os dois voltam a se aconchegar, em silêncio, e logo Alec pega no sono. Magnus permanece acordado por mais trinta ou quarenta minutos, o observando respirar suavemente, até que também acaba adormecendo.

 Cansado pela viagem até Idris, o estresse no parque e a preocupação com a sessão de fotos, ele só acorda na manhã seguinte, com o Sol já nascendo e totalmente encalorado. Depois de puxar as cobertas até a cintura, Magnus se vira para abraçar Alec pelas costas e então percebe que a fonte de todo aquele calor é o corpo dele.

 — Alexander, acorde. Acho que você está com febre.

 Alec resmunga algumas palavras incompreensíveis, sonolento, e dá para notar que sua voz está diferente, fanha e rouca ao mesmo tempo.

 — Está frio! – reclama, puxando as cobertas até o pescoço.

 — Não está, é por causa da febre. – diz Magnus, colocando a mão sobre a testa dele, preocupado. – Você sente mais alguma coisa, dor, tontura?

 — Só um pouco de dor de cabeça e de garganta. E parece que meu nariz está ficando entupido.

 Ele senta na cama, procurando os chinelos.

 — Vou avisar à sua família que você está doente.

 Magnus tenta se levantar, mas Alec segura seu braço para impedi-lo.

 — Não precisa, deve ser só um mal-estar passageiro. Eu só quero ficar aqui mais um pouco, não consegui dormir quase nada a noite inteira.

 — Você não conseguiu dormir porque está passando mal, com febre alta. – retruca ele. – Precisa ir ao médico e descobrir o que há de errado.

 Antes que Alec possa lhe impedir mais uma vez, Magnus se apressa em sair do quarto e para no meio do corredor, pensando no que fazer. O silêncio reina no palácio – o que o leva a supor que estejam todos dormindo – e não há nenhum empregado à vista, então por fim ele decide bater à porta do quarto da irmã de Alexander. 

 — Isabelle. – chama, com o rosto bem próximo à madeira. – Isabelle, eu preciso falar com você, é importante.

 Dá para ouvir alguns resmungos vindos de dentro do quarto e um minuto depois a porta é aberta.

 — Pelo amor de Deus, ainda não são nem sete horas da manhã. – reclama Izzy, com a voz sonolenta, enfiando a cabeça pela fresta. Ao vê-lo parado ali, ela assume uma expressão alarmada. – Desculpe, eu não sabia que era você, Magnus. Aconteceu alguma coisa?

 — Alexander acordou doente, com muita febre. – explica ele.

 Isabelle escancara a porta na mesma hora, a preocupação estampada no rosto, e Magnus tem um vislumbre do traseiro de Simon, que está se vestindo no canto do quarto. O rapaz percebe que foi flagrado dormindo no quarto da namorada e entra em pânico, mas ele trata de acalma-lo.

 — Não vou contar nada a ninguém. Até porque Alec e eu também passamos a noite juntos.

 — Eu vou avisar à mamãe que o Alec não está se sentindo bem. – diz Izzy, vestindo um robe cor de rosa por cima da camisola.

 Ela sai apressada pelo corredor e Magnus volta para o seu quarto, onde encontra Alec encolhido embaixo das cobertas, tremendo de frio.

 — Falei com a sua irmã e ela foi avisar à sua mãe que você acordou doente.

 Ele senta aos pés da cama e fica apenas esperando, aflito. Cerca de cinco minutos se passam até que Maryse entre no quarto, agitada. Apesar de estar com os cabelos soltos e vestindo um roupão felpudo, parece tão bonita quanto na manhã anterior, quando o recebeu na pista de pouso do palácio.

 — Como se sente, meu amor? – pergunta, colocando a mão sobre a testa do filho e arregalando os olhos. – Meu Deus, você está ardendo em febre, Alec! Vou chamar o doutor Herondale agora mesmo.

 Tudo é arranjado muito rápido – quando se tem dinheiro e influência, não é necessário ficar sentado na sala de espera de uma clínica qualquer por duas horas, preenchendo um daqueles formulários infinitos: em menos de meia hora, o médico já está examinando Alec, ali no quarto mesmo.

 Magnus permanece ao lado da cama o tempo todo, preocupado, assim como Maryse e Isabelle. Até Simon aparece para desejar melhoras, mas o pai de Alexander não dá as caras e ele sente uma pontada de tristeza, imaginando que isso deve deixar Alec chateado.

 — Parece que você pegou uma gripe, príncipe Alexander. – diz o doutor Herondale, por fim. – E, a julgar por essa febre de 38.5ºC, daquelas bem fortes.  

 — Devemos nos preocupar? – pergunta Maryse.

 — Fizemos um check up recentemente e os resultados dos exames foram ótimos, então creio que ele ficará bem. – tranquiliza o médico. – Talvez o estresse dos últimos dias tenha deixado seu sistema imunológico um pouquinho mais vulnerável e por isso o príncipe está com essa febre tão alta.

 É claro que o doutor Herondale, assim como o planeta inteiro, sabia de toda a história do vazamento das fotos íntimas deles, então Magnus entende na mesma hora a que estresse ele se refere.

 — Agora que você acordou doente, vamos ter que deixar o nosso passeio por Alicante para outra ocasião. – lamenta Izzy.   

 Alec balança a cabeça.

 — Nada disso, não quero que deixem de passear por minha causa. Vocês três podem muito bem ir sem mim.

 Agora quem balança a cabeça é Magnus.

 — Se sua irmã e Simon quiserem manter o passeio, tudo bem. Mas eu faço questão de ficar aqui com você.

 Isabelle morde o lábio, claramente hesitante, então Maryse pousa a mão sobre o braço dela.

 — Vá passear com o seu namorado, querida. Pode ficar tranquila, seu irmão vai receber toda a assistência e os cuidados necessários enquanto você estiver fora.

 — Tudo bem. – cede Izzy. – Vou avisar ao Simon, a gente ainda tem que se arrumar e tomar café da manhã antes de sair.

A mãe assente.

 — E eu vou pedir que preparem uma salada de frutas para o Alec.

 — Não tenho apetite nenhum. – diz ele.

 — Mas você tem que se alimentar! – dizem Maryse e Magnus, ao mesmo tempo.

 O doutor Herondale concorda com a cabeça.

 — Você realmente precisa se alimentar bem, príncipe Alexander. Vou receitar um antitérmico e um anti-inflamatório para aliviar sua dor de garganta, mas uma boa alimentação e bastante descanso são fundamentais para ajudá-lo a se recuperar mais rápido.

 O médico prepara a receita dos remédios, já administra as primeiras doses e depois sai do quarto, seguido por Maryse e Isabelle, então Magnus sobe na cama e se deita ao lado de Alec.

 — Não fique muito perto de mim, não quero que pegue gripe. – protesta ele, tentando se afastar.

 — Nós nos beijamos várias vezes ontem e passamos a noite toda entrelaçados um no outro, se eu tinha que me contaminar já aconteceu. – retruca Magnus, se aconchegando nele.

 — Não me conformo que a sua primeira visita a Idris esteja sendo um verdadeiro desastre. – lamenta Alec. – Primeiro aconteceu toda aquela confusão no parque e agora acordei doente e não pude te levar para conhecer Alicante conforme prometi.

 Magnus ergue a cabeça para encara-lo.

 — Não vejo as coisas dessa forma. Quando pensar nesse fim de semana no futuro, tenho certeza de que vou lembrar da forma carinhosa com que fui recebido, de finalmente ter conhecido sua mãe e sua irmã, da bela sessão de fotos que fizemos aqui no jardim, com aquele cachorrinho fofo, e de ter dormido abraçadinho com você a noite toda.

 — Falando na sessão de fotos, eu nem vi qual escolheram para ser divulgada. Não trouxe meu celular para cá, será que você podia me emprestar o seu?

 Magnus assente, já esticando o braço para apanhar o aparelho de cima da cômoda. Depois de desbloquear a tela, ele o entrega nas mãos de Alec, que abre o navegador e acessa o site do jornal oficial de Idris, e sorri.

 — Acho que fizeram uma excelente escolha. – diz, virando o celular para que Magnus possa ver a foto.

 Na imagem os dois estão sorrindo e se encarando, com Manchinha acomodado entre eles, a pequena língua rosada pendurada para fora da boca. 

 — Concordo totalmente. – responde ele, também sorrindo.

 De repente Maryse aparece, trazendo uma tigela com uma rica salada de frutas.

 — Acabo de descobrir de quem você pegou essa gripe. – anuncia ela. – Hodge contou que teve que levar Sophie ao médico na tarde de ontem porque ela acabou ficando doente durante a visita ao chalé.

 Maryse e Magnus convencem Alec a comer quase metade do seu café da manhã e logo em seguida ela volta para o andar de baixo. Se dando conta do quanto Alexander parece exausto, ele decide ficar em silêncio, para deixa-lo dormir e descansar. Aos poucos o calor embaixo das cobertas vai diminuindo e Magnus fica aliviado ao perceber que a febre dele está baixando.

 Calado e imóvel para não acordar Alec, ele acaba por cair no sono também, despertando algumas horas depois, com o Sol já bem alto e a mesma dor de cabeça incômoda que sempre sente quando dorme demais. Magnus se levanta, vai até o banheiro lavar o rosto e, ao voltar para o quarto, vê Maryse espiando pela fresta aberta da porta.

 — Desculpe, eu só vim checar se estava tudo bem. Estive aqui algumas outras vezes e vi que vocês dois estavam dormindo, então não quis acorda-los.

 Ela se aproxima da cama e pousa a mão sobre a testa do filho.

 — Parece que a febre cedeu. – diz, quase em um sussurro, com a voz cheia de alívio. – O almoço já está pronto, mas acho melhor deixar que ele descanse mais um pouco.

 Depois, para sua surpresa, Maryse simplesmente pede:

 — Venha almoçar comigo. Robert está trancado no escritório há horas e Isabelle ainda não voltou do passeio com Simon, então não tenho companhia.

 A matriarca da família real de Idris não fez nada além de tratar Magnus com todo o carinho, respeito e consideração desde sua chegada ali, então ele decide aceitar o convite. Os dois saem do quarto com passos silenciosos e descem para a sala de jantar, onde a mesa já está posta, com uma quantidade de comida bem inferior do que a que foi servida na noite anterior, durante o jantar.

 — Eu avisei que nem todos iriam almoçar em casa hoje e pedi que preparassem menos comida, para evitar o desperdício. – explica Maryse, como se estivesse lendo os seus pensamentos.

 Ela puxa uma cadeira para se sentar e Magnus se acomoda logo à frente dela.

 — Essa quantidade é mais do que suficiente para mim. Costumo perder o apetite quando fico nervoso e a preocupação com o Alexander me deixou sem fome.

 Maryse começa a se servir, então ele faz o mesmo.

 — Eu reparei ontem que você costuma chama-lo pelo nome inteiro. – comenta ela, sorrindo. – É bastante adequado, uma forma de mostrar intimidade, já que todos costumam chamar meu filho pelo apelido, até mesmo aqui em casa.

 Magnus apenas assente, sem saber ao certo o que dizer ou como se comportar. É a primeira vez que fica totalmente a sós com qualquer outro membro da família real, já que no dia anterior Alec esteve ao seu lado o tempo todo, e por isso se sente um pouco tímido.

 — Alec me contou que você faz trabalho voluntário em um abrigo de animais. – diz Maryse.

 Ele sorri – aí está um assunto sobre o qual se sente à vontade e seguro para falar.

 — Sim, há quase dois anos. Visito o abrigo três vezes por semana, depois do trabalho, para alimentar e brincar um pouco com os gatos e cachorros. De vez em quando também ajudo a organizar feiras de adoção.

 — Suponho que você goste de animais, então?

 — Amo. – responde Magnus. – Quando era mais novo cheguei a pensar em cursar veterinária, mas perdi minha mãe muito cedo e tive logo que me sustentar sozinho, por isso precisei arrumar um emprego e deixar a ideia de lado.

 Ela assente, com um sorriso compreensivo.

 — Bem, nunca é tarde para realizar os nossos sonhos. E você ainda é muito jovem, hoje em dia até pessoas da minha idade decidem retomar os estudos. – Maryse faz uma pausa e suspira. – É uma pena que antigamente isso era visto como algo ridículo, uma perda de tempo. Minha mãe, por exemplo, se casou muito jovem e por isso não fez faculdade. Ela era uma costureira extremamente talentosa e sempre sonhou em cursar moda, mas meu pai costumava debochar, dizendo que já estava velha demais para isso.

 Alexander comentou que havia descoberto recentemente que a avó materna viveu um casamento abusivo e que sua mãe tinha sofrido muito com isso, o que ficou muito claro pela dor nos olhos dela ao lhe contar aquilo.

 — Eu também faço trabalho voluntário. – continua Maryse, mudando de assunto. – No asilo de Alicante, organizando eventos para arrecadar fundos e fazendo companhia para os idosos por algumas horas aos fins de semana. Muitos deles não recém visitas há anos e por isso se sentem solitários, a ponto de afetar a sua saúde mental.

 — Nós fizemos uma parceria com um asilo londrino há alguns meses. – conta Magnus. – Recolhemos muitos animais idosos das ruas, a maioria deles abandonados pelos próprios donos, então eles procuraram o abrigo para propor que levássemos alguns dos gatos e cachorros mais velhinhos para fazer companhia aos residentes. Decidimos aceitar e a ideia deu certo, parece que aconteceu uma identificação imediata que fez bem tanto aos animais quanto aos idosos.

 Maryse assente mais uma vez, interessada e atenta ao que ele diz.

 — Já ouvi falar desse tipo de iniciativa. Já contratamos alguns psicólogos para atender aos idosos do nosso asilo, mas o problema da solidão permanece, então talvez seja uma boa ideia fazer uma pesquisa mais aprofundada sobre o assunto.

 A conversa flui tão bem que Magnus quase esquece que está diante de uma rainha. Maryse parece tão simples e gentil, sem nenhuma sombra de arrogância, e dá para perceber a quem Alec puxou.

 — Antes de toda essa confusão acontecer, nós estávamos pensando em promover alguns encontros entre as crianças do orfanato e os nossos idosos. – continua ela. – São os dois extremos mais ignorados na nossa sociedade: os mais velhos, considerados já inúteis, e os mais jovens e desamparados, e por isso achamos que poderia ser bom reuni-los. Antes de começar a trabalhar com o asilo cheguei a considerar ser voluntária no orfanato, mas Alec e Izzy demonstraram o mesmo interesse e acabei decidindo ajudar aos nossos idosos.

 — Admiro muito o trabalho que o Alexander e a Isabelle fazem com essas crianças. Sempre confiro o site e as redes sociais da campanha de adoção que os dois criaram e parece que a ideia deu muito certo.

 Maryse concorda com a cabeça, abrindo um sorriso orgulhoso.

 — Sim, meus filhos acertaram em cheio. A cada dia surgem mais casais interessados em adotar uma das nossas crianças e já recebemos diversas doações, tanto em dinheiro quanto em roupas, brinquedos e livros. Além disso, várias pessoas se ofereceram para serem voluntárias no orfanato.   

 Os dois seguem comendo em silêncio por alguns instantes, então ela o quebra primeiro.

 — É uma pena que Alec tenha ficado doente, ele estava muito ansioso para mostrar a você um pouco da nossa terra.

 — Eu também queria muito conhecer Alicante, mas ao lado dele. Por mais que Izzy seja maravilhosa e me trate com toda a gentileza, não seria a mesma coisa fazer esse passeio sem o Alec.

 — Entendo perfeitamente. E não se preocupe: tenho certeza de que surgiram muitas outras oportunidades em um futuro breve. – afirma Maryse. – Sei que sou suspeita para falar, mas aposto que você vai ficar encantado com o Lago Lyn, as Torres de Cristal, a Praça do Anjo. E é claro que Alec não pode deixar de leva-lo a fábrica de cristais.

 — Confesso que pesquisei um pouco sobre Idris antes de vir para cá e li a respeito dos seus famosos cristais, que são importados para praticamente o mundo todo.

 — Sim, a fábrica existe desde o tempo em que Idris ainda pertencia à França. A confecção desses cristais é um trabalho que passa de geração em geração. Durante a última visita que fizemos tive a oportunidade de conversar com uma funcionária cujas mãe, avó e bisavó trabalharam lá também. Essa moça me contou que tinha uma filha de três anos e que ela e a mãe faziam turnos diferentes, para que a vó pudesse tomar conta da neta enquanto ela trabalhava. Desde então venho pensando em ajudar não só a essa mãe, mas a todas as outras que trabalham lá, e abrir uma creche dentro da própria fábrica, onde possam deixar seus filhos em segurança.

 — Nossa, essa é uma ideia maravilhosa. – diz Magnus, encantado.

 — Agora só preciso convencer meu marido a coloca-la em prática. – retruca ela, suspirando.

 Eles voltam a se concentrar na comida e mais uma vez Maryse fala primeiro:

 — Eu li a nota que você enviou aos jornais.

 — Só fiz isso porque Alec me autorizou. – ele se apressa em explicar. – Espero não ter causado nenhum problema.  

 Maryse balança a cabeça.

 — Não se preocupe, é claro que você não só podia como devia se pronunciar e fazer a sua própria declaração a respeito do vazamento daquelas fotos. Afinal de contas, foi algo que não aconteceu só ao Alec, mas a você também. E eu adorei a sua nota, simples e sucinta, indo direto ao ponto, porém com toda a educação.

 — Fico feliz que tenha gostado. – diz Magnus, aliviado. – Kieran me ajudou a escrevê-la.

 — Estou em dívida com esse rapaz. Ele ajudou tanto a você e ao Alec em relação a toda essa confusão, garantiu que tivessem um lugar seguro onde se resguardar da mídia e até nos ajudou a descobrir os responsáveis por vazar as fotos.

 — Tenho certeza de que o Kieran não espera nada em troca da ajuda que nos ofereceu. – afirma ele.

 — Mesmo assim me sinto na obrigação de retribuir de algum modo. – insiste Maryse. – Isabelle sempre falou muito bem do Kieran, mas confesso que fiquei impressionada com a generosidade dele.

 Magnus termina de comer e se levanta.

 — Acho melhor subir e ver como o Alec está, porque daqui a pouco já é hora de tomar a segunda dose do remédio.

 — Obrigada por ter se juntado a mim durante o almoço, detesto fazer as refeições sozinha.

 — Imagina, foi ótimo conversar com a senhora.

 Ela balança a cabeça, franzindo o nariz.

 — Você pode me chamar apenas de Maryse. Já estou cansada de tantos tratamentos formais e sinto um arrepio subindo pela coluna a cada vez que alguém me chama de vossa alteza.

 Ele ri, já seguindo em direção as escadas.

 — Certo, Maryse.

 Magnus sobe até o quarto e encontra Alec já acordado, sentado na cama.

 — Onde você estava?

 — Almoçando com a sua mãe. – responde ele, se acomodando ao seu lado. – Ela é uma mulher incrível, agora eu entendo a quem você e a sua irmã puxaram.

 Se tocando do significado por trás das suas palavras, ele tenta se explicar:

 — Quer dizer, não que seu pai seja...

 — Meu pai é um homem difícil, para dizer o mínimo. – interrompe Alec. – E ultimamente tem se tornado cada vez mais. Quando eu era criança ele não costumava ser tão duro comigo e com a minha irmã, mas as coisas foram mudando conforme nós dois crescíamos e agora estão piores do que nunca.

 Ele para de falar, abanando o rosto.

 — Estou morrendo de calor.

 — É porque a febre passou. – diz Magnus, tocando a testa dele com uma mão e puxando as cobertas para baixo com a outra. – Quer que eu te ajude a tirar esse pijama de mangas compridas?

 — Não estou morrendo, posso muito bem me despir sozinho. – retruca Alexander, mas sua voz está cheia de humor.

 Ele o ignora e começa a abrir os botões da camisa do pijama.

 — Arrancar as suas roupas sempre será um prazer para mim, até nas atuais circunstâncias. – diz, no mesmo tom.

 Alec ri e afasta os braços do corpo, permitindo que Magnus deslize as mangas da peça para baixo, depois volta a se deitar.

 — Sei que dormi a manhã inteira, mas ainda me sinto cansado.

 — Isso é por causa da gripe, seu corpo deve estar gastando muita energia tentando combater ao vírus. Pode descansar à vontade, prometo que só vou sair daqui quando chegar a hora de voltar para Londres.

 — Se eu estiver dormindo, você me acorda? Não quero que vá embora sem se despedir antes.

 Ele assente, embora saiba muito bem que provavelmente não terá coragem de fazer isso. Alec fecha os olhos e Magnus começa a deslizar lentamente os dedos pelos cabelos dele.

 — Tem uma coisa que meu pai costumava fazer quando eu ou a Izzy ficávamos doentes. – começa Alexander, ainda de olhos fechados. – Ele sempre mandava prepararem uma torrada simples e um suco de laranja com mel, dizendo que meu avô fazia o mesmo quando ele era pequeno.

 Magnus continua a fazer carinho nos seus cabelos, sem dizer nada, e faz uma nota mental para futuramente seguir a tradição com os filhos deles.

 

 

*

 

 

 Maryse entra no escritório do marido sem bater na porta e para logo em frente à mesa dele.

 — Como está o Alec? – pergunta Robert, antes que ela possa dizer alguma coisa.

 — Ainda dormindo, mas pelo menos a febre já cedeu.

 Ele apenas assente e volta a se concentrar na tela do notebook.

 — Você devia ir vê-lo. – diz Maryse.

 — Faço isso mais tarde, agora estou ocupado, aguardando alguns e-mails importantes.

 — Você não o viu uma vez sequer hoje. – insiste ela. – E quase não deu atenção ao Magnus ou o Simon.

 Robert ergue os olhos para a esposa, os dedos ainda pairando sobre o teclado.

 — Você disse que Alec continua dormindo, portanto não vai adiantar em nada incomoda-lo agora. Além do mais, já disse que estou ocupado, esperando que o agente de relações públicas me atualize a respeito do impacto causado por aquela bendita nota, que foi emitida sem a nossa autorização.

 — Nosso filho autorizou. – lembra Maryse, falhando em tentar esconder a irritação que sente. – Alec e Magnus foram os principais afetados em toda essa história e ambos têm o direito de se pronunciar e se defender.

 Robert contrai a mandíbula, como sempre faz quando é contrariado, mas não diz mais nada. Frustrada, ela não consegue deixar de conter um suspiro aborrecido.

 — Você confia que sempre terá nossos filhos por perto, já que eles têm obrigações reais a cumprir e não podem simplesmente se afastar de nós. Mas já devia saber que a proximidade física não garante a proximidade emocional, Robert.

 Maryse segue até a porta, e pousa a mão sobre a maçaneta.

 — Afinal de contas, nós somos o perfeito exemplo disso. – completa, antes de sair para o corredor.

 

 

*

 

 

 Sophie está deitada na sua cama, ainda um pouco cansada, mesmo que agora a febre tenha passado, quando a diretora do orfanato entra, acompanhada de uma moça desconhecida.

 — Sophie, esta é a doutora Fairchild e ela gostaria de conversar um pouquinho com você.

 A menina não é boba e na hora entende que essa é a nova psicóloga que o tio Hod e o tio Mike avisaram que viria conversar com ela.

 — Sei que você está doente e deve querer descansar, mas prometo que nossa conversa será rápida. – diz a doutora, puxando uma cadeira do canto do quarto e sentando ao lado da sua cama. – Primeiro eu gostaria que me contasse como foi a visita que fez ao chalé do Hodge e do Mike nesse fim de semana.

 — Foi legal. Nós brincamos, tomamos banho no lago e almoçamos um peixe bem gostoso que o tio Hod fez.

 Então, lembrando do que aconteceu durante a conversa com a outra psicóloga, Sophie faz questão de frisar:

 — E eu que vesti meu maiô sozinha no banheiro, tá? Porque já sou uma menina grande e sei me vestir sem a ajuda de ninguém.

 A doutora Fairchild assente.

 — É claro que sim. Mas, mesmo sendo uma menina independente, ainda assim seria bom ter alguém que cuidasse um pouco de você, como o Michael e o Hodge, não acha?

 A menina concorda com a cabeça, sem conseguir conter um sorriso.

 — Seria, sim.

 — Você gosta dos dois?

 — Muito, o tio Hod e o tio Mike são super legais e divertidos. Eu pensei que eles fossem sérios, mas na verdade eles são muito engraçados e adoram rir.

 — Você ficou doente enquanto estava na casa deles, não foi?

 — Foi. A gente brincou um montão de manhã e eu não estava sentindo nada, mas depois do almoço fui tirar um cochilo e acordei com muito frio. O tio Mike trouxe o termômetro e viu que eu estava com febre, aí eles me levaram ao médico e até compraram os meus remédios antes de me trazer de volta para o orfanato.

 A doutora Fairchild anotou algumas coisas na prancheta que segurava e voltou a olhar para ela.

 — Tem mais alguma coisa que você gostaria de me contar? – pergunta a psicóloga – Algo que aconteceu durante essa visita ou qualquer uma das outras vezes que esteve com eles?

 A menina hesita e a doutora Fairchild percebe.

 — Você pode me contar qualquer coisa, Sophie.

 Então ela respira fundo e vai em frente

 — Bom, é que depois do almoço o tio Mike disse que eu só podia comer uma tigela de sorvete de sobremesa, mas o tio Hod me deu mais uma escondido. Depois, quando a gente estava no médico, eu até perguntei se podia ter ficado doente por causa disso, aí o médico riu e disse que não, que um bichinho bem pequenininho chamado vírus tinha entrado pelo meu nariz e me feito ficar com febre e tosse.

 A psicóloga ri, se inclina na direção dela e fala, bem baixinho:

 — Acho que todo mundo exagera no sorvete de vez em quando, não é? O meu sabor preferido é nozes, e o seu?

 — Flocos. E sabia que o sorvete que eu comi não era desses de pote, que a gente compra no supermercado? O tio Hod que fez, sozinho! Ele sabe fazer umas comidas muito gostosas, acho que eu vou ficar bem gordinha depois que for morar lá.

 A doutora ri mais uma vez.

 — Bem, não tem problema nenhum em ser um pouco gordinha, desde que você esteja saudável.

 — O tio Mike disse que eu posso comer sobremesa, desde que tenha comido todas as verduras do meu prato antes. – conta Sophie.

 — É um conselho muito bom, até mesmo para nós adultos.

 A menina boceja e a psicóloga se levanta.

 — Bem, acho melhor encerrar a nossa conversa por hoje e deixar que você descanse, para se recuperar bem rápido. Nós ainda vamos ter muitas outras oportunidades para conversar e mal posso esperar para ouvir um pouco mais das suas histórias, Sophie.

 A doutora Fairchild estende a mão para ela, que a aperta, e depois sai do quarto. Então, voltando a se deitar debaixo das cobertas, a menina diz para si mesma:

 — Dessa tia eu até que gostei.

 

 

*

 

 

 Alec tenta se manter acordado pelo máximo de tempo, aproveitando suas últimas horas ao lado de Magnus, mas acaba pegando no sono no meio da tarde e só acorda quando a noite já se instalou, sozinho na cama. Há um bilhete pousado sobre o seu travesseiro e essa é a primeira coisa que ele vê ao abrir os olhos.

 “Desculpe por não ter te acordado para me despedir, não quis interromper o seu descanso. Sua mãe e sua irmã vão me acompanhar até a pista de pouso, então não estarei sozinho. Espero que se recupere bem logo e que a gente possa estar juntos novamente em breve. Te amo muito, meu PrinceCharming. Do seu SparklingWarlock, Magnus.”

 Ele se vira para colocar o bilhete sobre a cômoda e só então vê a bandeja que está pousada ali, com uma torrada simples e um copo de suco de laranja dentro.

 



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