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História Proibido - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo único


Aquele era o horário em que os alunos que não tinham atividades extras guardavam todos os seus pertences e rumavam para casa. Há dois anos, pelo menos que ele permanecia na escola, e comia da marmita que levava para suas refeições, para que frequentasse o que há um ano e meio havia se tornado a maior delícia e a maior tortura de sua vida.

Na época, aproveitava ao máximo aquele horário para aprender a língua e a cultura local, mas com o passar do tempo, teoricamente já não era necessário permanecer naquelas aulas, pois o dia a dia já seria suficiente para dar conta de tudo o que precisasse: era fluente o suficiente para conseguir se virar nas aulas, e tinha os amigos que lhe davam todo o suporte que ele precisava, além, claro, de sempre ser um grande destaque nos estudos.

Só que se abrisse mão daquele horário, não poderia mais ver ele, e ele não saberia mais qual outra forma arranjaria de arrumar seus encontros furtivos com o namorado. E apesar da palavra namorado, aquilo era um segredo apenas entre os dois, afinal, agora ele já tinha um pouco mais de idade, mas quando tudo havia começado, segundo a lei, era proibido, ainda que consensual(1). E mesmo quando se tornar permitido, por idade, ainda não seria conveniente nos revelarmos, afinal, ele é seu professor, e poderia dar muito problema para ele, e não queria que ele tivesse problemas por sua causa. Não seria justo com ele, que estava iniciando uma carreira com tanto potencial.

— Camus? – estava terminando de guardar seus recipientes na mochila. Gostava de almoçar no pátio gramado, batia um vento refrescante por ali. Ao virar o rosto, viu justamente o homem que estava em seus pensamentos. Levantando-se e se limpando das folhinhas que grudavam em suas calças, foi em sua direção.

— Pois não, professor, Saga?

— Eu acredito que hoje será difícil de estendermos a nossa aula particular – disse com o tom sereno, sem esboçar muita reação. Aquilo vinha se tornando até frequente – teremos a oficina coletiva de interpretação de textos gregos e depois eu terei um compromisso inadiável. Teremos que deixar para um outro momento.

— Poxa – baixou os olhos, claramente chateado – já é a terceira semana que isso acontece. Tem certeza que está tudo bem?

— Claro que tenho, não precisa ficar chateado. Infelizmente meu mestrado está me tomando um tempo maior do que eu gostaria e preciso sacrificar algumas horas do meu dia. Já havíamos conversado sobre isso, não é? – o tom era claro de quem repreendia. Era evidente que o francês entendia. Era jovem, o professor tinha uma organização de vida bem diferente da dele, e o ritmo de estudo era algo que um adolescente não entenderia. Sequer no ensino médio estava, quem dirá entender o ritmo frenético de uma pós-graduação?

— Claro... – balançou a cabeça e forçou um sorriso, mesmo que um pouco chateado – é só que estou com saudades. Já faz quase um mês que não ficamos juntos... – enrubesceu ao assumir o que pensava. Ficou ainda mais vermelho quando o namorado levantou a mão e retirou uma folha que estava em seus cabelos, e de forma discreta aproveitou pra ajeitar uma mecha atrás de sua orelha, que desceu pelo seu maxilar repousando em seu queixo.

— Também estou com saudades do seu sotaque francês nos meus ouvidos – disse, fazendo o ruivo abaixar o rosto envergonhado – Vamos fazer assim, essa semana eu termino tudo o que tenho que fazer, e semana que vem eu te compenso. Combinado assim?  - perguntou, afastando suas mãos e colocando-as nos bolsos, mas de uma maneira que não aceitava ou dava espaço para uma negativa. Como até aquele momento Saga nunca havia descumprido uma promessa direta feita a ele, não tinha por que recusar. O namorado era bastante atarefado. Apenas sorriu em acordo, balançando a cabeça para reforçar, mas sem olhar diretamente para ele. – Ótimo, nos falamos então – saiu sem mais se ater, porém sem deixar de perceber que havia chamado a atenção de um dos amigos do garoto estrangeiro, mas deixou passar.

Camus ainda olhou o namorado se afastando, mas percebeu que ele havia desviado o olhar. Quando olhou na mesma direção, eis que vê Milo olhando meio chocado para tudo aquilo a alguns metros dele. Acena para o amigo como quem não devesse nada e segue seu caminho para as atividades da tarde, normalmente, deixando o jovem grego sem querer entender o que havia visto.

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Mais tarde naquele mesmo dia, como havia saído mais cedo pelo horário vago em sua agenda, o jovem francês se encontrava em uma sorveteria próxima a sua escola. Um lugar um pouco mais tranquilo onde ele gostava de ir, tomar um milk-shake e revisar algumas de suas atividades, para que não acumulasse e sempre as mantivesse em dia. Ali acabava sendo o point da galera toda, mas eles só se encontravam aos finais de semana por causa dos dias corridos e das atividades que cada um deles desempenhavam durante a semana, mas às vezes um ou outro acabava se esbarrando por ali. Como era o caso naquele instante.

— Camus? – era a segunda vez no mesmo dia que era chamado com tamanha propriedade, mas dessa vez a voz era jovem como a sua. Ao levantar os olhos, encontrou o jovem amigo loiro. Sem nem perguntar nada, apenas abriu um sorriso e pôs-se a juntar todo o seu material, abrindo espaço para o grego recém-chegado.

— Oi, Milô. Sente-se comigo. – o amigo sentava enquanto terminava de guardar as muitas coisas que estavam espalhadas – resolveu estender um pouco antes de ir para casa? Cadê o Aiolia?

— É, pensei nisso sim. – a garçonete veio tomar nota do pedido e logo se retirou – na verdade, vim atrás de você – aquela afirmação causou espanto no ruivo - Esperava te encontrar aqui.

— Então diga – e começou a bebericar sua bebida.

— Está tudo bem com você? – começou falando baixinho, se aproximando do francês para ser o mais discreto possível. Como recebeu apenas um arquear de sobrolho, continuou, se aproximando mais ainda – é que hoje depois do almoço eu vi você e o professor conversando. Estavam tão sérios que eu pensei que algo de errado estivesse acontecendo.

Camus se empertigou todo. Não queria mentir para o amigo, mas não queria colocar a carreira do namorado em risco.

— Não, não era nada. Era só ele desmarcando nossa aula.

— Você ainda tem aulas de grego? Mas já fala tão bem? – se assustou Milo.

— É que eu ainda sinto alguma dificuldade... – ficou nervoso

Um grande momento de silêncio se fez na mesa. A bebida de Milo também havia chegado, e ele bebericou, o barulho do canudo estrangulando o silêncio desagradável entre eles.

— Camus... – viu os ombros do amigo se enrijecerem – cara... O que tá rolando, de verdade? Eu vi algo ali, mas não quero acreditar que tenha visto alguma coisa. Sei lá, parecia estranho. Para mim pareceu que ele estava te chantageando.

— Não! – respondeu de imediato, não sendo uma reação aguardada pelo jovem loiro. Respirou fundo e continuou – ok, Milo, eu vou te contar, mas por favor, eu preciso que você guarde esse segredo com você a todo custo, eu imploro!

Milo ficou assustado com o desespero na voz do amigo estrangeiro não entendendo o que estava acontecendo, mas agradecendo a sua intuição por ter ido atrás dele e se intrometido naquilo. Concordou acenando com a cabeça e permaneceu em silêncio, dando total liberdade e espaço para Camus falar o que quisesse e quando quisesse.

Tomando, o ruivo disse baixo – nós estamos namorando.

—  O QUÊ? – apesar do susto, tentou falar o mais baixo que conseguiu, olhando para todos os lados, empertigado, para ter certeza de que não havia chamado atenção para sua mesa – como assim? Ficou maluco?

— Não... Quero dizer, não sei... Eu sei que é loucura, mas aconteceu, ué! – Milo continuou com a boca aberta, sem muita reação, e Camus continuou justificando – Quando eu dei por mim, já estávamos envolvidos, não sei dizer ao certo quando ou como aconteceu, só sei que rolou. Eu sei também que a nossa idade é bem diferente, e que isso pode dar muito problema para ele, por isso concordamos em por enquanto deixar em segredo.

— Vocês concordaram? Camus, você está se ouvindo?

— Milo, sei que soa estranho, nunca pensei na vida que eu me encontraria num dilema desses, mas ele tem toda uma carreira pela frente que eu posso acabar estragando. Combinamos que quando eu tiver idade e terminar a escola, nós assumiremos o relacionamento, mas até lá, não podemos ser vistos juntos.

— Igual hoje? – respondeu sarcástico, tentando esconder o qual chocado estava ao ouvir aquelas palavras

— Hoje foi um acidente, imaginei que cedo ou tarde aconteceria, mas veja só o tempo que levou para a primeira pessoa perceber algo?

— Espera... – sentiu medo da pergunta que iria fazer - Há quanto tempo vocês estão juntos?

— Pouco mais de um ano e meio

— CAMUS! Vocês começaram a se relacionar quando você só tinha doze anos? Você tem noção disso?

— Ué, começamos a namorar seis meses depois de você e Aiolia. Por que o susto?

— Eu e Aiolia temos a mesma idade, ele só é tipo dez anos mais velho que você!

— Eu já falei que não foi planejado, quando vimos tinha acontecido. Milo, eu só te falei porque você me perguntou, mas eu não queria contar para ninguém principalmente por causa disso.

— “Isso” como você diz, é um crime, Camus, e não é você o criminoso.

— Eu estou plenamente ciente do que está acontecendo e nossa relação é completamente consensual. Tudo o que eu gostaria, na verdade, era poder contar para um amigo, para poder contar tudo, pois como qualquer relacionamento há seus altos e baixos e tenho que passar por isso sozinho, mas parece que eu estava certo quando me privei de contar a qualquer um de vocês o que acontecia comigo. Se não quer me dar seu apoio, tudo bem, mas também não preciso do seu julgamento.

— Camus, espera... – viu o amigo pegando sua mochila, pagar sua conta e ir embora com os olhos marejados. Camus era um menino doce e bondoso, mas bobo e fácil de cair em historinhas bobas. Ele e Afrodite tinham sempre um bom trabalho tentando driblá-lo dos percalços do dia a dia, mas era bem difícil. E aquele ali era um senhor percalço.

— Mi? – levantou os olhos sendo retirado de seus pensamentos, quando viu que era o namorado

— Oi, Oli. Não tinha te visto. – continuou cabisbaixo.

— O que houve? – olhou do namorado para a mesa, que possuía dois copos. Pela posição, visivelmente ele estava acompanhado. Não gostou daquilo.

— Ah... – levantou a mão, apontando para o copo de milk-shake vazio do outro lado – eu encontrei o Camus aqui e a gente estava conversando. Descobri que ele está numa canoa furada, mas... Sabe o pior, Oli? Ele nem percebe. – olhou para o namorado, que estava fazendo uma cara estranha – O que foi?

— Camus?

— Ah, sério mesmo, Aiolia? Eu aqui dividindo com você uma parada séria, e você desdenhando do problema?

— Não estou desdenhando do problema, só acho interessante que você esteve aqui, sozinho, com o Camus.

Milo torceu os lábios e desistiu.

— Na boa... Me leva pra casa, tá?

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Amanhecera contente. Sabia que as pessoas julgariam sua relação com um homem bem mais velho que ele por inúmeras razões, mas elas não entendiam a natureza da relação deles, nem como tudo se processava. Também, não precisava que ninguém entendesse, tudo do que ele precisava era dele e do namorado se esforçando para que a relação deles desse certo. Como ontem de noite. Quando já havia passado da hora de jantar, eis que Saga bateu em sua porta com a justificativa de entregar um livro para seus estudos. Não falou com ele, mas com seu pai, que logo lhe deu o livro. Quando o abriu, dentro dele havia um simples bilhete de boa noite, e aquilo o deixara feliz.

“Foi por mim, pela gente, que ele passou lá em casa. Não poderemos nos ver mais essa semana, mas fez questão de ir lá me dar o bilhete”.

Tão drenado em seus pensamentos estava que não percebeu a aproximação de Milo, que não morava exatamente perto dele, mas em dado momento seus caminhos se cruzavam.

— Ei, ruivo, tá acordado?

— Bom dia, Milo. O que você quer?

— Queria te pedir desculpas por ontem.

— Está desculpado – sem nem olhar na direção do amigo, respondeu e continuou seu passo. Milo então correu mais a frente e parou-o.

— É sério, Camus, preciso que me ouça. – recebeu um olhar impaciente em resposta – olha, pensei muito no que você disse ontem para mim, e você está certo. O namoro não é meu, quem sabe se tá tudo bem ou não é você, mas se sou seu amigo – o único que sabe da verdade – talvez eu devesse te dar o suporte que qualquer amigo merecesse. E você merece um ombro amigo para rir ou chorar por causa desse namoro. Pois bem, se ainda quiser, eu estou disposto a ser esse ombro amigo.

Camus ficou olhando para o loiro, parado a sua frente com os braços abertos aguardando uma resposta sua. Sorriu. Não conseguia ficar chateado com ele por muito tempo, principalmente quando ele se fazia tão amigo, o amigo que ele precisava ter.

Já o grego sabia que aquela história não cheirava bem, até porque o francês visivelmente estava deslumbrado com as poucas migalhas de afeto que lhe eram ofertadas, e se ele precisasse em algum momento falar ou fazer algo, que estivesse perto e ciente do que estava acontecendo com seu amigo.


Notas Finais


(1) a idade do consentimento é a idade na qual legalmente a pessoa é considerada capaz de consentir a atos sexuais. É uma idade voltada para a heterossexualidade apenas porque em alguns países a homossexualidade não é legalizada e em outros tantos é ilegal, e esta lei acaba não servindo, variando de país para país. Excluí a variável da problemática homoafetiva da Grécia, pois para o efeito do texto é indiferente, ficando então apenas a idade do consentimento, que lá é de 15 anos.


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