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História Project K (New Beginnings) - Capítulo 18


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Capítulo 18 - O Programa de Segurança


Starla já começava a sentir a bunda ficando quadrada depois de tanto tempo sentada ouvindo a aulinha de segurança de Hobibot.

O agente eletrônico normalmente simpático, assumia ares bem mais circunspectos para falar sobre os perigos existentes em Keplerta. 

Não que uma novata solitária como ela precisasse de qualquer dramatização para levar a sério as informações que estava recebendo do robô.

O problema é que já estava há tempo demais trancada com ele naquela maldita cabine de vidro, olhando para imagens de insetos, plantas venenosa e bichos esquisitos na tela do T.I.E. 

Seu estômago roncou em determinado momento, mas o robô seguiu impertubável:

— Kraptors são, portanto, ameaças não só aos humanos, mas também a robôs já que sua mordida é capaz de causar grande avaria nas peças e latarias das máquinas. A melhor maneira de se proteger desses terríveis animais alienígenas é somente frequentar as áreas de mata onde eles vivem, usando roupa e equipamentos apropriados. Caso esteja desprotegido ao se encontrar na presença deles, o beneficiado deve permanecer imóvel e aguardar. Está cientificamente comprovado que, por serem extremamente agressivos, kraptors preferem presas que apresentam resistência. 

A imagem em 3D do bicho que ela via através dos óculos envoltórios era horripilante o suficiente para ela desejar jamais pisar em mata nenhuma daquele planeta maluco. 

— O que eles são exatamente? — a selvagem perguntou apreensiva enquanto deslizava o dedo no ar  para fazer a simulação do bicho se mover — Répteis? Felinos? Parecem uma mistura de lagarto com uma pantera negra… brilhando roxo… 

Uma voz grave que não era a do robô, respondeu de repente por ele:

— São só criaturas pequenas e solitárias. 

Starla arrancou instintivamente os óculos do rosto e levou um susto ao dar de cara com o professor TAE parado ao seu lado com um copo de kofka na mão. 

— Já voltou??? Há quanto tempo você estava aí???

— Tempo suficiente para saber que a senhorita estava prestando atenção na aula.

Depois de dispensar o agente Hobibot, o rapaz se sentou novamente em seu posto e voltou a trabalhar no T.I.E, sem os óculos, porém. 

O silêncio que tomou conta da sala fez com que os barulhos que o estômago de Starla estava fazendo de fome pudessem ser ouvidos. 

— Acabou minha aulinha? — a garota resolveu falar, mais para disfarçar os ruídos que a barriga vazia estava fazendo — Não vai me passar nenhum teste? Nenhuma tarefa?

— Não ficou com nenhuma dúvida? — TAE retrucou soprando a fumaça do líquido azul dentro do copo, concentrado no que quer que estivesse lendo na tela do T.I.E — Não quer me perguntar nada antes de começar o teste?

— Já viu algum desses monstros de perto?

— Kraptors? Não são monstros. 

— Aham. Mas você já viu um?

— Claro. 

— Claro? — ela se inclinou um pouco mais para a frente para tentar descobrir se o professor estava falando sério— Eles são comuns assim? 

Ao notar a apreensão na voz da novata, TAE deu um pequeno gole no kofka,  largou o copo sobre a mesa em seguida e a encarou finalmente: 

— Eu não sou comum. E você não deveria ser comum também se vai querer mesmo trabalhar comigo.

— Ah, qual é vai começar com isso de novo?! Eu não quero trabalhar com você! Quantas vezes vou ter que repetir isso? As máquinas me botaram aqui!  

Assim que ela voltou a aumentar a voz, ele se levantou rispidamente, parou em pé do lado dela e ordenou baixo e muito seco. 

— Bota os óculos de novo.

— E se eu não botar, professor? O que você vai fazer? Chamar o Agente Hobi para me botar de castigo?

— Não. Eu vou chamar um hermético. 

A garota bufou, mas acabou obedecendo. 

O professor acionou alguns comando no T.I.E que fez com que Starla fosse transportada para um espaço virtual.

E assim sem mais nem menos a selvagem se viu sentada sobre uma pedra coberta de limo azulado em meio a uma densa mata alienígena cheia de árvores de cores e formatos estranhos.

Pouco acostumada a frequentar espaços virtuais a garota ficou alguns segundos bastante apreensiva, mas um tanto quanto fascinada ao mesmo tempo.

Nuvens daqueles insetos fedidos que pareciam confetes furtacor podiam ser vista flutuando pelo ar enquanto bichinhos em formato de feijão se moviam pelos arbustos azulados como coelhos exóticos.

— Eu estou tonta. — ela mentiu — Vou tirar esses óculos. 

— Não. Vai ter que se acostumar.  Faz parte do seu trabalho. 

— Faz??? Não é proibido frequentar espaços virtuais aqui na colônia???

— É, mas como te falei, eu sou especial. — ele explicou enquanto esticava a mão para alcançar o outro par de oculos do outro lado do terminal —  Esse espaço virtual é ultra restrito. Está sendo construído ainda pelo CAIK. Você está sozinha nele. 

TAE então colocou os óculos também e sem avisar nada se materializou em pé ao lado da garota. 

— Sozinha comigo.

No susto a garota movimentou o braço tentar saber o quão perto de fato ele estava dela. 

Ele a segurou de qualquer maneira pelo pulso para que ela parasse de se mexer:

— Calma. Eu estou aqui. Quer se levantar? Eu te ajudo. 

— Não! Quero ficar aqui… nessa… pedra… macia… que eu sei que na verdade é a minha poltrona! 

— Ok.

— Por que a gente está aqui?!

— Porque aqui é o melhor lugar para eu testar os seus conhecimentos sobre os perigos naturais que você pode enfrentar nas matas. 

— Como você vai me testar? Eu vou ter que andar pela floresta?!

— Sim. 

— Eu não quero andar!!! Eu sou uma selvagem, eu fico tonta!!!

— Ok! Não precisa gritar. Eu vou só fazer umas perguntas dessa vez então. Preparada?

A garota fez um sinal de positivo com a mão. 

O professor então apontou para nuvem de insetos.

— O que é aquilo ali?

— Ah… são… krugs?

— Não.

— Klembus?

— Isso. E o que você precisa fazer para não ser incomodada por eles?

— Eu tenho que… usar um spray de pimenta alien…

— Não. Spray de Kasabi é para os krugs.

— Ah! Já sei! Eu tenho que ficar de boa, né?

— Ficar de boa?

— É! Eu não posso ter medo deles, sei lá… Eles são atraídos pelo medo, né?

— Correto. A natureza de Keplerta tem muito disso. O medo é uma energia reconhecida pelo núcleo. Quanto mais… de boa... você ficar melhor.

— Não é assim na Terra também?

— É? Não tenho a menor ideia. Infelizmente. 

— Infelizmente?

TAE300 se afastou sem responder nada e de repente sumiu atrás de uma árvore que parecia mais um enorme crisântemo cor de rosa. 

— Professor?!

— Você tem que parar de gritar, SN1000. — ele disse baixo ainda sem aparecer para ela — O agente não lhe informou que fazer pouco barulho é mandatório para quem se aventura pelas matas?

— Tá, ele falou! — ela respondeu um pouco mais baixo — Mas é que não estou te vendo mais…

Ele saiu de trás da àrvore trazendo nas mãos uma caixa grande. 

— Fui pegar os equipamentos de segurança. Vou retirá-los um por um dessa caixa e você vai me dizer para que eles servem, ok? 

A garota concordou.

Acabou respondendo tudo corretamente. 

O professor ainda conseguiu fazer com que ela se levantasse da pedra e vestisse o macacão de plástico amarelo. 

Quando ela estava totalmente vestida com a roupa de segurança e de posse de todos os apetrechos de segurança ele começou a bater palmas de forma propositalmente alta.

— Muito bem, SN1000! Você agora está praticamente apta para explorar qualquer mata keplertana!

— Ah, que ótimo. — ela disse sem nenhuma empolgação — Parabéns para mim. 

— Isso! — ele bateu mais palmas e gritou bem alto — Parabéns para a SN1000! Uhuuu!!!

— Por que você está comemorando como se eu tivesse ganho a Copa do Mundo sem nenhum robô no meu time? 

— Porque faltou uma última coisinha…

Foi então que Starla viu o bicho roxo surgir no meio das folhas rosadas da árvore que parecia um crisântemo. Era menor que um gato, mas quando abriu a boca enorme, mostrando os dentes horrivelmente longos e pontudos parecia dobrar de tamanho. A garota se movimentou bruscamente com o susto e o bicho imediatamente pulou e deslizou pelo chão na direção dela. 

— Ele é horrível!!!

— Shhh…

— Onde ele está?! Não estou conseguindo ver!!!

— Fica calma e se concentra. 

— Me ajuda, professor!!! 

— O medo só atrapalha… — ele disse entredentes — É a única dica que eu posso te dar…

Quando viu a folhagem se mexer bem próxima aos pés a selvagem gritou e arrancou apavorada os óculos do rosto.

— Ele vai me matar!

— É... — o rapaz resmungou tirando os óculos também —  Ele ia te matar mesmo...

— E você ia deixar?!

— Você tinha três granadas de kasabi no bolso, mulher! Eu não tinha nada. Tudo o que eu podia fazer era ficar o mais quietinho possível.

— Argh! Isso é péssimo! Eu não quero ver esse bicho de verdade de jeito nenhum! 

—  Se dependesse de mim você não veria nunca. 

Mesmo sem entender muito bem o que ele queria dizer com aquilo, Starla não gostou do tom seco e irônico com que ele estava querendo encerrar aquela conversa.  

Uma sirene tocando muito alta dentro da sala a impediu, porém, de retrucar. 

— Ótimo! Hora do almoço!  — o professor disse abrindo o vidro da cabine e tratando de procurar a saída da sala sem olhar para a subordinada —  É bom mesmo que a senhorita coma alguma coisa. Talvez seu humor melhore quando o estômago parar de roncar. 

— Meu humor?! — a garota o seguiu aborrecida — Tá brincando, né?! Meu humor é muito melhor que o seu, professor! 

— Precisa se escutar, SN1000. Passou a manhã toda sobressaltada como uma kokilanda selvagem.

— Está me chamando de galinha?!

— Não, estou te chamando de kokilanda selvagem. Um réptil voador que faz muito barulho quando vê gente porque não confia em nada que não seja idêntico a ele. 

— Está me chamando de galinha alienígena selvagem, sim, seu grosso!

O moreno deu um suspiro profundo e decidiu parar e se voltar para a novata antes de abrir a porta da sala. 

— Ok! Me desculpe! — ele disse cansado — Será que pode aceitar as minhas desculpas agora, ir para o seu almoço e voltar daqui a duas horas um pouco mais calma. Eu vou tentar fazer o mesmo…

— Duas horas?! — ela cortou surpresa — Eu vou ter duas almoço?!

— O dia tem 30 horas aqui no planeta. 

— Ah, é... Tinha esquecido...  — ela pensou um pouco e depois concordou bem mais satisfeita — Ok, então. Vamos para o almoço.

Ao sair da sala a movimentação no corredor pegou a garota meio de surpresa. 

Os estudantes e funcionários do Complexo pareciam perfeitamente integrados. 

Muitos cumprimentavam alegremente o professor.

Ele era definitivamente uma pessoa querida por lá.

Sentindo-se novamente um peixe fora d'agua, a selvagem decidiu falar com o chefe enquanto desciam a rampa.

— O que eu posso fazer durante essas duas horas? 

— Comer. A comida do refeitório custa três koinz para funcionários do complexo e é muito boa. 

— Você está indo para lá?

— Não. — ele parou e se virou para ela bem sério — Eu estou indo para um lugar que você não vai porque você não vai me seguir, ok? 

— Eu não quero te seguir! 

— Ótimo. Vai almoçar, esfria a cabeça, porque ainda tem que aprender um monte de coisas para completar todo o programa de segurança. O refeitório está ali. Se tiver alguma dúvida fale com os estudantes, com os funcionários, com os skinbots. Faça amigos, SN1000. Todo mundo é treinado para ser legal por aqui.

Todo mundo menos ele, Starla pensou vendo-o caminhar para fora do Complexo.

Que sujeito mais antipático. 

MAU tinha feito bem em terminar com ele. 

Sem saber exatamente o que fazer com as duas horas de almoço que tinha, Starla acabou aceitando o conselho do chefe chato e se se dirigiu até refeitório disposta a puxar assunto com algum local. 

Para sua surpresa, acabou cruzando com Zenyx no caminho. Ela estava acompanhada por um trio de estudantes de cabelos tingidos de violeta e rosa e casacos alienígenas brilhantes por cima do uniforme. 

— Ah, você está aí! 

A garotinha apenas rolou os olhos ao reconhecer a mais velha, mas as outras três crianças tiraram as mãos dos bolsos das jaquetas brilhantes e lhes mostraram a palma das duas mãos, numa espécie de cumprimento que Starla não fazia a menor ideia de como retribuir então apenas mostrou os dois polegares para cima, enquanto eles passavam por ela. 

— O que aconteceu, hein? — a selvagem foi atrás. Sabia que estava parecendo uma tiazona inconveniente, mas aquela altura do campeonato não tinha mesmo nada melhor para fazer do que embaraçar a pirralha na frente dos novos amiguinhos— Nasor disse que você estava sumida.

— Não aconteceu nada. Eu me senti mal e tive que ser levada ao posto médico. 

— Se sentiu mal com que?

— Banana-brasa. Sou alérgica. 

— É claro que você não é alérgica. O que mais fez naquela nave foi comer chips de banana brasa. 

— Fiquei alérgica quando cheguei aqui. Acontece. 

— Acontece mesmo. — o garotinho de cabelo violeta se meteu — Minha mãe adorava queijo terráqueo, mas desenvolveu intolerância quando chegou aqui. E aí eu nasci intolerante também. Só posso comer queijo de klupen. 

— Sei! — Starla disse sem levar nenhuma fé naquela história. E você não vai almoçar, Zenyx? O refeitório é para aquele lado, né?

— Nós vamos para o Kivazz King. — o moleque do cabelo violeta respondeu pela coleguinha — Promoção de kivazz brotinho a um koinz. Não quer vir com a gente?

— Shhh!!! — Zenyx cortou e cochicou tensa com os colegas — Não chama não! Ela odeia coisas keplertanas!

— Eu não odeio coisas keplertanas! — Starla protestou —  Eu comi o queijo azul deles e gostei, tá?!

O grupo de crianças se juntou e depois de confabularem por alguns instantes empurraram Zenyx na direção da mais velha e sairam andando. 

— Ok, você pode vir. — ela anunciou aborrecida — Mas é só porque estão dando sorvete keplertano de brinde para quem levar um novato para comer lá pela primeira vez! 

— Legal! — a mais velha tratou de seguir as crianças — Mas qual é a diferença entre um sorvete keplertano e um terráqueo? 

— É muito melhor! — Zenyx resmungou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo e prosseguiu entredentes — Cacete, SN! Cadê o seu namoradinho, hein? Não pode almoçar com ele não?

— Namoradinho?! Eu não tenho nenhum namoradinho nessa terra não, garota! 

— E nem vai arrumar se ficar andando com gente da minha idade!

A selvagem fez uma careta e deu de ombros. Depois de refletir por um segundo voltou a falar com a pirralha:

— Calma aí… — ela deixou escapar um pequeno sorriso — Quem exatamente você achou que era meu namorado? O albino alto? O cyberjunkie de tapa-olho? Ou o kativo muito gato, mas muito metido que dançou aquela dança esquisita…

Ela estendeu a mão na frente do rosto e se balançou imitando a dança da noite anterior.

— Argh! Para de falar comigo!  — a mais nova cortou bufando e apressando o passo — Pelo amor do núcleo! O que eu fiz pra merecer esses terráqueos fracassados na minha cola?

 


Notas Finais


Kasabi - pimenta alienígena muito poderosa. usada super diluída na culinária, mas seu principal uso é como repelente de insetos e animais como kraptors e krugs.

Kraptors - Animal alienígena de pequeno porte, mas muito feroz. Recebe esse nome porque tem por hábito roubar filhotes de outros animais para comer. A lenda diz que é capaz de roubar até mesmo keplertanos em fase de girino. Crianças humanas kativas também são amedrontadas pelos mais velhos com histórias de kraptors.

Kokilanda - espécie de réptil voador de porte médio. Pele brancas de bolinhas pretas. Foi domesticada por keplertanos principalmente para fornecer ovos. kokilandas selvagens podem ser encontradas nas florestas e são muito apavoradas e barulhentas o que as torna uma presa fácil para kraptors.

Kivazz - prato keplertano feito de discos de alga da espécie kiva cobertos por queijo de klupen e outros ingredientes alienígenas. Também conhecido por "pizza de gelatina"


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