História Projeto Monika: Agonia - Capítulo 5


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Creepypasta, Ddlc, Doki, Fantasmas, Ficção, Libitina, Mistéro, Misticismo, Monika, Murkov, Romance, Sayori, Terror, Tragedia, Universoalternativo, Yuri
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Palavras 5.144
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Adolescente, Literatura Feminina, Mistério, Misticismo, Poesias, Romance e Novela, Survival, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Spoilers, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


"Olhe para si mesma, apenas um maldito monstro, não é mais a pessoa que amei".

Capítulo 5 - Amor vira desprezo


A visão era inacreditável, nem a minha capacidade de escrever várias e várias histórias ajudou para que eu descrevesse aquela cena bizarra: Uma luz vermelha em formato circular partia do chão em direção às nuvens, senti que tudo aquilo tinha a ver comigo, era uma espécie de impressão fantasma que possuía no fundo da minha cabeça. Estava dentro de um verdadeiro inferno, após ter matado aquela criatura na sala e ter visto o andar de cima, acreditava que seria a pior coisa que tinha visto, mas era apenas um pequeno começo.

Algo aconteceu em mim ao presenciar aquela realidade, algumas lembranças voavam em minha mente, de maneira tão rápida que parecia aqueles filmes antigos de fita cassete rebobinando. Uma destas memórias se afixaram na minha mente, sendo a que eu mais dei atenção: Eu tinha amado alguém antes de tudo aquilo, há dois anos atrás, mesmo que naquela época eu tivesse dezesseis anos, já era um namoro sério, ainda não conseguia ver o rosto da pessoa, mas sabia de seu nome: Se chamava Ken, escrevíamos poemas juntos e mandávamos cartas de amor entre nós, além de tudo isso, sua presença me dava uma ótima sensação.

Quase consigo dizer que a luz que eu via no lugar do personagem principal daquele jogo era ele. Era o que eu mais queria acreditar, por isso entrei em pânico quando o vi caindo nos braços das outras garotas; o medo e angústia que senti há algumas horas foi o que me fizera desmaiar: Vi que minha impressão estava errada, me senti suja por ter traído tão severamente a pessoa que amei, na busca daquela ilusão, infinitas versões de mim se apaixonavam por pessoas aleatórias.

Já no meio fio da rua, mesmo em um cenário infernal, vi algo que me chamou atenção, jogado no chão: Um diário azul, destrancado, tinha o nome em sua capa, e isso era completamente desnecessário, a partir do momento que comecei identifiquei a caligrafia dele, não sabia se era apenas outra ilusão, por isso mesmo li a única página que continha no diário, pois todas as outras pareciam ter sido brutalmente arrancadas:

“Futeki – 27/09/2017 – Ken Ikeda

Hoje fazem cinco dias que Naomi desapareceu, sem deixar quaisquer rastros, tenho certeza que a sequestraram, mas a polícia não parece se importar muito com isso, nem ao menos estão investigando, eu me pergunto se eles fazem isso para a maioria dos casos ou apenas com esse...

Cada dia está sendo um sacrilégio, uma dor sem fim, toda a luz da minha vida se foi de uma vez só. Ela sempre me apoiava em minhas escolhas, era a minha guia, minha amiga, minha namorada e meu par.

Eu não sei se irei suportar muito tempo assim, tudo estava preparado para seu aniversário de dezesseis anos, eu mesmo tinha preparado tudo, principalmente para a homenagem ao mestre músico da cidade, que instruía Naomi desde o ano passado, ele até a chamava de “talento puro e divino".

Agora tudo se foi.

Mas, minhas esperanças ainda não terminarem, pois, Q09OVFJPTEUgQ09OU09MSURBTkRPLCBNQVMgQUlOREEgUFJFQ0lTTyBURVNUQVIgSVNTTyBBUVVJIE1BSVMgVkVaRVMsIFBMQU5PIEZFSVRPLCBDT1JBw4fDg08gQkFURU5ETywgVsOBIFBBUkEgTyBURUFUUk8sIFbDgSBQQVJBIE8gVEVBVFJPLCBWw4EgUEFSQSBPIFRFQVRSTw== “.

Aquelas letras confusas no final estavam codificadas, assim como a maioria do código do jogo em que eu estava inserida, era como se fosse uma provocação do destino ou de quem quer que fosse que controlava aquele cenário perturbador.

Eu estava bebendo do meu próprio veneno, gota a gota.

Embora estivesse familiarizada com aquele código enquanto estava na outra realidade, meio que a minha capacidade de ler algo em Base64 era atrelada a “estar lá”, em outras palavras, eu não era capaz de ler aquelas coisas, estava além das minhas capacidades humanas, mesmo que meus pensamentos ainda não tivessem sido totalmente mudados perante àquela época, minha habilidade de xadrez, de ler códigos e até de programar era completamente inexistente naquele ponto.

Deixei aquele diário de volta ao chão e comecei a refletir sobre ele, ao passo que olhava para os lados, procurando algo naquela rua em que todos pareciam ter desaparecido em um passe de mágica... Mas, falando do texto, aquele era o texto da pessoa que eu amava, era uma caligrafia impossível de não notar, senti culpa, senti remorso de ter deixado alguém que me amava neste mundo, tinha vontade de dizer o quanto o amava, coisa que eu fazia inocentemente frente à tela de uma interface gráfica de um jogo bidimensional.

Olhando de novo para a rua, aquele cenário era incrivelmente assustador e opressivo, as luzes vermelhas se faziam presentes em todas as lâmpadas perto dos postes, enquanto ondas de vento vinham periodicamente do nordeste da cidade, apenas de olhar para aquela torrente de energia, sem sombra de dúvidas, embrulhava meu estômago, a sensação de que algo estava lá, controlando tudo, sanguinária, terrível, podia sentir verdadeiros tentáculos de energia negra pairando sobre a cidade, na altura das nuvens.

Pensei em seguir aquela luz, após tomar aquela direção, senti um mal-estar inexplicável, uma dor nos olhos tão gritante que me desiquilibrou um pouco, era como se fosse um bloqueio impossível de chegar, como se ainda não fosse a hora de passar por ali. O problema então era que eu estava sem um destino claro, tinha acabado de chegar na realidade, de um dia lindo, para uma estadia infernal naquela casa, revendo todos os meus erros e depois, no lado de fora, tudo tinha se transformado em um cenário de horror.

Fiz o que me pareceu mais óbvio e sensato: fui para o sul, a fim de sair da cidade... Caminhei tomando o máximo de cuidado possível, algo estava me observando enquanto eu andava e ficar de costas para aquela luz vermelha me dava calafrios.

Quando cheguei perto da saída da cidade, ao lado da placa de boas-vindas de Futeki, vi que a estrada simplesmente acabava ali, começando de novo vários metros à frente, era uma fissura na própria elevação que firmava a cidade, o próprio planalto estava “errado”, não podia  ser realidade, mas se fosse ou não, constatei que estava presa, de novo presa, mas daquela vez na minha própria cidade natal...

Minha epifania infinita me atacava, acompanhada do barulho do vento forte e da sensação de calor infernal vinda daquela fonte. Mesmo que talvez as outras entradas estivessem ainda preservadas, algo me dizia dentro da minha mente que fugir não era uma opção, e que eu deveria adentrar naquele lugar. Imediatamente, me lembrei de uma memória enfincada em meu corpo, estava com Ken em um lugar grande, com várias cadeiras, víamos um espetáculo, não tinha muito do que estávamos falando, mas tinha demais da conta sobre a sensação de estar ali me trazia. Seria loucura demais pensar que eu o poderia encontrar se fosse para todos os pontos turísticos da cidade? Sim, era uma idiotice completa, não precisava de ninguém me dizendo isso para que eu soubesse, todavia, se havia alguma mínima esperança eu precisava encontrá-lo...

Decidi que iria ao lugar da minha memória: O Teatro Masaharu Taniguchi, famoso em todo o interior do Japão, e que muitas vezes recebe os maiores grupos do drama de toda a Ásia, íamos lá sempre depois da escola, éramos esse tipo de casal mesmo, tal como havia dito antes. Eu daria tudo para sentir a sensação de estar ao lado daquela pessoa, eu precisava alcançar aquele lugar, talvez estivesse esperando por mim, já que a realidade parecia mesmo ser apenas mais um sonho, queria colocar um final feliz neste.

Ao olhar para trás, notei que havia uma lanterna jogada no chão, ao lado de um corpo, que eu jurava por tudo que não estava ali antes, no canto da estrada, jogado, aparentemente há pouco tempo. Senti um calafrio na espinha enquanto me aproximava, a pessoa estava com uma faca agarrada na altura do coração, e por sua mão cheia de sangue, ainda vermelho claro (não tinha certeza se era isso ou a luz vermelha no céu que me davam esta impressão).

O pior de tudo era que aquele corpo era exatamente igual ao meu, e em sua mão sangrenta, tinha um mapa, quase todo que borrado de seu sangue, da área externa da cidade, além de uma lanterna de bolso:

Em quase todas as saídas da cidade havia a marcação de “X” no mesmo, feita com sangue, ele também apontava para os principais prédios da cidadezinha, tais como o hospital psiquiátrico ao oeste, o posto de saúde ao noroeste, o teatro ao leste, o parque no centro, como um grande corredor que levava ao teatro e finalmente, a escola de jovens de Futeki.

Prestei mais atenção à escola, justamente por haver uma marcação com várias cruzes e uma pequena frase:

“AS LUZES VÊM DAQUI”.

Virei a face do mapa, para procurar algo a mais ali e encontrei um pequeno texto, também escrito em sangue, que dizia muito do que aquela pessoa estava pensando antes de morrer:

 

“Eu andei por toda essa cidade procurando aquela pessoa, mas falhei... Descobri muita coisa no caminho, passei por todos os lugares e se tem alguma sanidade preservada em seu ser, NUNCA ENTRE NA ESCOLA, falo por experiência própria, agora tudo que eu quero é fugir, mas fugir para onde?”

Então, a escola de jovens era a fonte primária daquela luz, e não cometeria o mesmo erro daquela garota, precisava entender sobre o que estava ocorrendo antes de simplesmente buscar por aquela luz. Naquela mesma hora, a luz vermelha parou de ser emitida, deixando a cidade em um breu imensurável. Acendi a lanterna na hora e comecei a caminhar em direção ao teatro.

Não havia mais som algum, mais luz, ou qualquer movimentação, meus passos até mesmo estrondavam no chão por assim dizer, passei por algumas avenidas e encontrei o parque central. A fachada era simplesmente aterradora com o pouco que a luz atingia, já dentro da floresta, nada ainda acontecia, sentia que algo estava me esperando no fim daquele caminho.

Logo depois de passar da imensa floresta, cheguei de frente ao teatro, era um prédio monumental comparado com o resto de construções da cidade, era em formato oval-completo, daqueles futuristas mesmo, me matinha de longe, atentando a qualquer detalhe esquisito que pudesse aparecer, o tempo que nada acontecia para valer me fizera ficar ansiosa, não era possível que aquele inferno inteiro estivesse literalmente “descansando”.

Tinha apenas um mapa guardado para me dar as direções dos lugares e a faca de Yuri para me defender de qualquer coisa que aparecesse, estava apertando aquele instrumento de defesa tão forte, que quase me machucava com isso, porém eu preferia não olhar para ela diretamente, de certa forma, me fazia pensar em coisas que eu não deveria pensar e pensamentos que não eram meus.

Na minha direção direita, perto de uma porta de acesso do teatro, notei que tinha aparecido uma pessoa de costas para mim, há uns setenta metros de distância, ela estava desenhando algo no chão, me aproximei lentamente, apertando a faca com mais força do que nunca, de repente, ela começou a dizer, percebendo minha presença:

— Você chegou mais rápido do que eu esperava, mesmo assim, já está tudo pronto para ti...

— Quem? Quem é você? — Claramente era uma mulher ruiva, baixinha, parecida comigo também... Deveria ser apenas alguma ilusão.

— Só existe uma pessoa aqui nessa cidade, apenas Monika existe aqui...

— Não pronuncie esse nome maldito... Por que todos vocês são obcecados com essa merda?

— Obcecada? Que pretensioso... — A mulher se virou.

Aquela era a figura de Sayumi, a única diferença daquela moça que conheci no ônibus era a marca quase de fora a fora em seu pescoço, como se tivesse sido costurado recentemente, e naquele brilho da lanterna ficava ainda mais terrificante:

— Agora que voltou a ser uma humana, perdeu bastante de sua inteligência não é mesmo? — Ela deu uma risada maliciosa de canto de boca.

—  Como... Eu vi... Eu vi seu corpo! Isso só pode ser um pesadelo.

— Tecnicamente é.

— Diga-me então como eu acordo disso, ou... — Apontei minha faca para ela, com minha mão tremendo forte. — Acabo com você...

— Que fofo, não consegue ser como Yuri, mas não deixa de ser um monstro que mata pessoas inocentes sem nenhum motivo, apenas para prosseguir em uma jornada que nem ao menos sabe o que está procurando.

—...

Fiquei sem palavras porque tudo aquilo que Sayumi, o espírito dela ou qualquer coisa que estivesse se apresentando na minha frente, dissera era bem verdade, aquele mundo queria me convencer de que eu era um monstro, ou seja, eu fosse a verdadeira ameaça naquele lugar e simplesmente não tinha resposta certa para aquela argumentação, onde estava minha infinita inteligência?

— Eu... Eu não sou assim. Eu não quero briga, se me deixar passar prometo não fazer nada.

— Parabéns Monika, não esperava que dissesse isso, pode passar.

Sayumi desapareceu no ar sem nenhum aviso, como se tivesse me deixado passar, talvez a resposta não fossem facadas ou sangue, infelizmente adquiri esse impulso assassino desde que entrei naquele maldito jogo, tenho a maior certeza do mundo que pensava diferente antes de ser submetida há tudo aquilo.

Andei em frente até o círculo que aquela imagem de Sayumi estava criando, era um símbolo vermelho, como um círculo perfeito de fogo, com alguns chamuscados em volta, e no centro um quadrado cinza. Olhar aquilo me deu uma dor de cabeça impossível de descrever, um barulho estranho, de pessoas entoando um ritual demoníaco, um choro de criança, sussurros dos mortos, tudo ao mesmo tempo.

Ouvi uma voz clara dentro da minha cabeça enquanto estava em cima do círculo:

— Seu olho despertou, apenas não sabe disso, liberta para a realidade, liberta, irá matar todos, entregue-se, entregue-se a mim. Seus olhos ficarão vermelhos, mate, mate, mate. Juntos poderemos ser apenas um, e conseguirem invadir a realidade... Seremos DEUS!!!!

Sentia algo demoníaco enquanto estava naquele círculo, pois dei passos para trás com o susto daquela voz. Estava me lembrando, milhões e milhões de vezes, todas nós, presas em para sofrer para a eternidade, tão reais quanto eu, todas sabiam do que estava acontecendo. E tudo por causa do “Projeto Monika”, quatro corpos de garotas jovens sendo usados para atualizações do experimento enquanto nossas almas vagavam dentro de um mundo criado para nos distanciar e nos manter em custódia, toda a dor, todo o sofrimento.

Não era sobre amor, não era sobre vontades de jovens, era algo a mais, existia algo a mais acontecendo, e as trevas estavam possuindo o mundo real, comecei a ter visões misturadas com memórias: Vi o mundo sendo totalmente engolido por sombras, demônios, criaturas horrendas, pessoas mortas, todas se levantando e dominando todo o planeta.

E no topo de um planalto eu via uma mulher, vestido de vermelho, com o terceiro olho sobre sua testa, ainda coberta em sombras exatamente na altura de seu rosto. Aquele seria o fim de todas as realidades, eu precisava encontrar algum jeito de parar aquilo, e a única forma seria chegar até a escola, passando por todos os lugares descritos no mapa antes, eram instruções, a própria história poderia ser mudada a qualquer momento, precisava impedir a mulher de vermelho ascender...

Em um clique aquela música infernal parou, a noite deu lugar ao dia, foi uma mudança completamente repentina e ilógica, era como se várias horas tivessem passados na velocidade de uma respiração ofegante e desesperada.

Respirei fundo, entrei no teatro. No salão principal, vi que haviam duas portas que levavam ao auditório, sem pensar que pudesse fazer diferença entrei na da direita, era a mais bonita afinal, pois esta era branca em volta de uma parede arrumada e a outra parecia toda quebrada e suja.

Me perguntei se havia algum significado naquele design, já que estava acostumada a ver tudo exatamente preparado para mim durante toda aquela eternidade.

O auditório se apresentava à minha frente, o ar praticamente não se movia lá dentro, nem mesmo o tempo parecia passar lá, andei pelo corredor central, notei que havia um espelho que dividia o espaço em dois, então realmente fazia diferença qual porta entrar, talvez eu tenha feito a escolha certa, pois o espelho não refletia nada ao meu redor, mesmo que todas as luzes estivessem acesas, na verdade, ali estava uma versão completamente podre do mundo.

Como duas metades da realidade, meu reflexo me seguia olhando atentamente, por um momento senti aquela imagem não conseguindo me acompanhar por completo, meu maior medo era que parasse de se mexer a qualquer momento, o que não aconteceu realmente.

Pelo menos eu acredito que não tenha acontecido.

Sentei-me em uma cadeira que tinha meu antigo nome escrito, me senti indicada a fazer aquilo, estava entrando em uma espécie de apresentação e coisa boa não iria ser. De repente, uma voz saiu do megafone na parede, no canto superior esquerdo do auditório, perpendicular às cortinas:

— Conseguiu chegar? Parabéns. Mal pude acreditar que passou em meu teste moral tão facilmente, todavia, ainda não é chegada a hora da apresentação, eu a fiz estritamente para ti, afinal, não seria divertido ter alguém completamente ignorante em frente a tudo que está acontecendo não é mesmo? Assista essa peça que preparei... Como uma recompensa.

Enquanto isso, a luz do dia já estava dominante em Futeki, que já até se assemelhava a uma cidade normal, tirando o silêncio sepulcral que fazia em cada canto, da entrada ao centro. Depois de meia hora, Ken estava de frente ao teatro, ainda se recuperando da intensa batalha contra aquela criatura simplesmente inexplicável, por sorte não tinha se ferido, apenas sofreu o trauma emocional de ver e enfrentar algo daquele porte, até para uma pessoa que vivia mais lá do que aqui, estava chocado com tudo aquilo.

Sim, eu vi que tudo estava calmo e tranquilo novamente, perto da entrada do teatro, senti uma densa energia circulando e convergindo lá para dentro, eu também era parte desta energia, apenas pensava em estrangular a pessoa que tinha matado a minha irmã; nada mais importava para mim além disso, minha arma estava descarregada então iria ter de usar as minhas próprias mãos.

Andei em frente e encarei a porta de entrada ao saguão principal, na minha direita, há alguns poucos metros de distância havia um círculo impresso no chão, aquilo era particularmente interessante, chamado de “O círculo de brasa” aparenta ser uma representação da recorrência de eventos e renascimentos infinita que sucede sobre o mundo chamada de ciclo Samsara no budismo, todavia, o que enche aquela figura de um significado sombrio é o quadrado cinza em seu centro, em que o círculo maior converge.

Tornando-o em outra coisa muito mais profunda.

Existia uma lenda antiga de origens europeias, depois da difusão do Budismo no mundo, que estudiosos da religião e de outras coisas mais secretas teriam descoberto como chegar perto à onipotência dos Devas, ou seja, de seres que já tinham chegado ao topo do Samsara. O plano consistia em retirar a alma de uma pessoa e jogá-la de volta ao corpo repetidas vezes, a ideia era simples: Todas as pessoas têm dúvidas sobre o que acontecia depois da morte, e mostrar a ida e volta do caminho espiritual para uma alma humana seria uma maneira de acelerar sua iluminação e eventualmente cortar caminho para aquela pessoa se tornar um verdadeiro Deva.

O problema é que um verdadeiro culto emergiu na altura dos anos 70 seguindo essa crença estúpida de “corta-caminho” da iluminação... E que a intenção central deles foi mudando conforme o passar das décadas, por influência de outras religiões, sistemas mágicos e coisas do tipo, hoje, pelo o que eu conhecia de sociedades secretas, o foco era em transformar uma pessoa em alguém tão “iluminada” que serviria de receptáculo de um suposto Deva que queria ajudar a humanidade. E esse receptáculo iria possuir um olho na testa, sendo a priori, especificamente uma mulher branca, de olhos verdes e vestido vermelho; seu coração bate o triplo de vezes mais rápido que uma pessoa normal, e tendo uma sede de sangue quase que incontrolável aos “injustos” e “descrentes”.

Ver aquele símbolo me fizera conectar os pontos rapidamente, como era recente, alguém estava tentando invocar esse Deva na própria cidade, talvez por isso, a realidade tinha mudado tão drasticamente naquelas poucas horas, mas o fato de a cidade ter voltado a algo próximo do normal indicava que algo ainda não estava pronto para o ritual ser completado... Como um estudioso desses assuntos, me senti no dever de procurar a fonte daqueles acontecimentos, depois de encontrar a assassina de minha irmã, da qual eu sentia que tinha alguma conexão com o receptáculo...

Então, entrei no teatro, dando de cara com o saguão do mesmo, a porta esquerda estava completamente destroçada, assim como a parede ao redor, de outro lado, a porta direita não tinha nenhum sinal de corrupção, arrombamento ou algo do tipo. Decidi entrar pela porta da esquerda.

O auditório que se revelou era tenebroso sendo muito gentil com as palavras: As cadeiras estavam todas em um processo profundo de oxidação, e as luzes do palco eram todas de cor vermelha e piscavam regularmente, como sinal de iriam queimar a qualquer momento. Quando cheguei no corredor central, percebi que tinha um espelho para o outro lado do auditório, onde tudo era limpo e puro.

“Isso aqui tem algum significado, preciso observar melhor para entender...” Pensei, sentando na cadeira na segunda fileira, levando em consideração a distância para o palco. Sabia que algo estava para acontecer a qualquer momento, e senti uma impressão que deveria esperar um pouco.

Em seguida, as luzes do auditório se apagaram, com exceção do palco, uma figura humana apareceu ali, e uma voz surgiu de um megafone estourado, como se quisesse narrar uma história:

— Há dois anos, uma garota ordinária e comum foi escolhida para se juntar ao nosso plano, roubada dos olhos do mundo, foi sedada e transportada para outro mundo...

Separados pelo espelho, Ken e Naomi assistiam àquela encenação, as coisas aconteciam ao passo que a narradora ditava, uma garota de cabelos ruivos fora levada por cinco homens, saindo do alcance dos olhos destes, logo depois eles voltam com ela em uma maca, completamente amarrada, ao lado de cinco cientistas, analisando dados em fichas escritas.

As luzes piscam, o cenário do palco muda para algo mais colorido e completamente irreal:

— Neste mundo novo, a garota percebe que foi trancafiada para fora da sua própria realidade, em algo que as pessoas do mundo chamam de jogo. Enquanto seu corpo era testado e forçado a despertar do terceiro olho para trazer o Deva do caminho da dor à nossa realidade...

A moça estava frente a frente a outras três garotas, de alguma maneira esta se sentia confortável com elas, as cenas posteriores mostravam todas brincando e se divertindo. Porém, a moça de cabelos verdes chorava enquanto estava em uma sala isolada de todo o resto, em que havia apenas uma cadeira e as janelas mostravam o infinito vazio daquele universo.

Em seguida, uma luz branca apareceu sob os olhos das quaro garotas, sendo que a moça especial ficou essencialmente encantada com aquilo:

— Para testar a força do experimento, conseguimos traduzir aquele mundo criado através de poder mental do receptáculo, para algo programável em uma linguagem de computador, assim estava criado o jogo. O jogador manipularia as garotas para serem suas namoradas, escolhendo uma “rota” para cada uma, menos para a moça onisciente, a fim de estimular seu ódio, dor, angústias e remorsos, aumentando seu poder à novos níveis.

Naomi começou a chorar copiosamente ao assistir aquilo, tristeza se misturava ao ódio extremo, fazendo o próprio teatro tremer, sabia que aquela era sua história; de outro lado, Ken assistia silenciosamente, já conhecendo aquela história, e tentando conectar tudo que estava vendo.

Os olhos daquela garota no palco ficaram vermelhos, e ela começou a envolver cordas vermelhas nos pescoços das outras três garotas, mudando as formas que elas agiam, eventualmente levando-as ao suicídio, enquanto a moça especial ria sem parar de seus feitos, quase como uma verdadeira psicopata:

— Buscando mudar sua realidade, a moça especial se entregou ao poder de seu terceiro olho, sangue surgiu em sua visão, assim ela se aproveitou dos problemas inseridos naquelas personagens para leva-las a loucura, assim poderia estar sozinha com aquela luz que ficava através de um quinto personagem, porém seu triunfo terminou rápido...

A garota estava em sua sala, sentada frente a frente ao quinto personagem, estavam trancados por toda a eternidade naquele quarto, todavia, o jogador deletou seu arquivo, representado por uma sombra atrás do quinto personagem, este que estava esticando uma corda vermelha em volta do pescoço da garota especial, quebrando-o de uma vez só, fazendo um estalo horrível, dando um ar mais-que-macabro para aquele ato.

— Então, essa garota, que recebera um codinome de “Monika” tinha sido destroçada pelo jogador, em infinitas versões da realidade, provando que o experimento fora um sucesso. Passaram-se dois anos desse eterno sofrimento até que a Monika original, chamada anteriormente de Naomi no mundo dos humanos, conseguiu se libertar, fugindo do caminhão que estava sendo transportada.

Naquele momento, Ken olhou para a cena acontecendo na sua frente e percebeu que aquela garota que tinha encontrado na estrada era realmente Naomi, não fora uma mera impressão causada pelo desejo de reencontrar a pessoa que mais amou em sua vida, tudo começava a fazer um pouco de sentido.

“Era ela... Eu sabia, que tinha algo estranho sobre aquela menina, e ela, ela é Monika! Isso explica tudo, a semelhança...”. — Ken pensava ainda atordoado com a peça que ainda não havia acabado.

A cena foi trocada para Naomi encontrando Akemi e as outras na república de estudantes, indo para o exato momento onde ela vira a imagem de Monika na tela de um computador:

— Mas essa conquista acelerou ainda mais os nossos planos, pois ao Naomi ver a imagem do que fora dentro do jogo, ocorreu um paradoxo impossível de se resolver, e o pior: Ela descobriu que aquela luz era um jogador comum, não era a pessoa que ela A esperaria que fosse, possessa desse ódio, ela assassinou todas as pessoas ao seu redor! E uma dessas pessoas era... A irmã de Ken!

Naomi fervia seus olhos em raiva, mal podia acreditar que estava sendo manipulada até mesmo quando estava livre, não conseguindo evitar a natureza de matar pessoas inocentes com motivos completamente fúteis e as vezes, sem razão alguma, apenas para descontar a fúria... Ela percebeu que não era nada além de um monstro de laboratório, capaz de matar a irmã de seu namorado, naquele momento essas lembranças vinham a sua mente, Akemi naturalmente não a tinha reconhecido por causa de todo o tempo que se passou, mas Naomi não tinha notado aquilo por sua perca de memória.

Ken se levantou da cadeira, fazendo a apresentação acabar imediatamente, a verdade tinha o atingido tal como uma bomba nuclear diretamente no seu pé. Sua namorada era a personagem de um jogo, fugiu, e tinha assassinado Akemi à sangue frio... No fim, ele sentiu seu mundo ruindo a seus pés, ao olhar para sua direita, viu que do outro lado do espelho, Naomi também estava de pé, vendo isso, foi correndo para aquela barreira, batendo sua mão em fúria no mesmo; chamando atenção da moça, que foi de encontro a ele, de cabeça baixa:

— Você... Naomi... Não é possível.

Ela ouvia perfeitamente a voz de seu amor através do espelho, mas nunca tinha ouvido aquele tom vindo dele, mal tinha coragem de olhar em seus olhos, mas quando o fez apenas piorou a situação:

— Naomi... Olha isso, você se tornou apenas um monstro, de jeito nenhum a pessoa que eu amei faria algo assim, matar pessoas inocentes para se dar bem. Eu até entendia aquilo com as moças do jogo, mas você matou pessoas de verdade, e esses olhos vermelhos, dá para ver que és apenas um monstro horrendo...

— Não... Eu não sou isso. Por favor, me perdoa, não é eu que estou no controle... Por favor!

— Esqueça, “Apenas Monika” né? De onde tirou esse bordão ridículo? É a namorada devota de metade da comunidade de jogadores do mundo, está feliz com isso? E ainda... Mata a minha irmã sendo que ela não fez nada contra você, se eu estivesse lá com ela, não teria sido assim!

— Eu... Não sabia, não sabia que era a pequena Akemi...

— Se não fosse, nem se importaria não é mesmo? Eu estava certo, a Naomi que eu amei estava morta, tudo que você é uma casca, pois não é a minha namorada nem Monika, você não é nada!!!! OUVIU?! NADA! EU VOU VINGAR AKEMI!

Ken saiu em passos apressados, mesmo que tivesse todo o entendimento necessário para reverter as coisas daquele mundo, isso não o interessava mais, tudo que ele tinha na vida realmente fora destruído e suas esperanças, foram esmagadas, e ele iria entrar no outro lado do auditório para enfrentar sua Namorada.

Naomi ficou de joelhos para o espelho, sem conseguir fazer nada, desculpas seriam insuficientes, chorar também seria inútil... Não havia defesas, então ela começou a gritar, em um ato de completo desespero, liberando toda a sua dor que aguentou calada durante aqueles injustos dois anos, onde para ela, fora forçada, por um momento foi tão alto que agitou o ar dentro do teatro, estourando o espelho.

Pena que já era tarde demais.

A terra então tremeu por toda a cidade, o plano tinha chegado no seu pico mais alto, o teto do auditório voou e foi levado junto com todo o resto pela imensa corrente de ar que vinha de todo o ódio e dor que Naomi sentia, fissuras ainda maiores se abriram no chão, casas foram destruídas de uma vez só, Ken foi lançado longe, sem chance de encontrar de encontrar, sua, ex-namorada... Batendo a cabeça, desmaiando em seguida.

E por fim, Naomi apagou também, trazendo o inferno consigo. A partir daquele momento, uma mudança drástica acontecera nos dois, eram inimigos a partir daquele dia, Ken iria buscar assassinar Naomi, pois este havia entendido enquanto ela gritava que ela era a fonte de toda a desgraça que estava acontecendo na cidade, e acabar com sua vida era uma forma de matar para sempre o passado; Naomi estava imersa em pleno desespero, mas deveria entender ao menos um pouco do que estava acontecendo se quisesse salvar sua própria vida e impedir tornar-se o receptáculo do Deva da dor, sem nem ao menos saber isso.

Nas sombras, a pessoa do telefone, ria descontroladamente em sua sala no interior da escola dos jovens, e mais de longe ainda Salvato observava tudo e esperaria o momento certo para entrar em cena, todos estavam prontos para prosseguir o plano, era chegada a hora.

O ódio dentro de Naomi crescia cada vez mais,

No momento certo, a união acontecerá novamente,

Os choros são ouvidos à distância,

Para a hora em que Um Deus nasça no mundo dos humanos,

Mudando tudo para sempre.

 


Notas Finais


Conversor de base 64: https://www.base64decode.org/


PS : Segundo o budismo tradicional, Devas não são seres iluminados, ou seja, a palavra "Deus" nessa história não tem um significado tão grandioso como na visão de religiões ocidentais...


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