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História Quando a noite cai - Capítulo 11


Escrita por: deicoffee

Notas do Autor


Boaaaa noiteeeee, lindosssss e lindassss, aproveitem o capítulo

Capítulo 11 - Capítulo 11


Fanfic / Fanfiction Quando a noite cai - Capítulo 11 - Capítulo 11

11

POV’S CAMILA

Eu estava desatenta. Passara grande parte do dia pensando no que Lauren havia dito e me perguntando o que ela quisera dizer com “buscar a morte”. As possibilidades me deixaram inquieta. Ela não estava falando sério, certo? Ela tinha se enrolado na tradução e pretendia dizer outra coisa, totalmente diferente, não é?

Ok, ela perdera a esposa, e eu sabia bem demais quanto a ausência devasta a alma. Mamãe ainda estava de luto, mesmo depois de todos esses anos. Mas eu não conseguia imaginar Lauren desistindo de qualquer coisa que fosse, muito menos da vida. Até porque ela disse que buscava a morte. Se fosse uma suicida, não teria que comprar uma fazenda e escavá-la para conseguir o que queria. Então, o que ela quis dizer, afinal?

— Morra, morra, morra, bastardo! — a voz de Dinah me chegou aos ouvidos.

Eu me levantei de um dos sofás incrivelmente grandes da sala principal da casa de Lauren e segui os gritos da italiana.

A última reunião de Lauren naquele dia acontecera em um grande depósito na área industrial da cidade. O dono de uma rede de supermercados queria fazer algumas modificações em um dos projetos que a Brígida assumira. Eu a acompanhara, tomando notas como sempre, e já estávamos voltando para o escritório quando ela recebera uma ligação que o deixou bastante irritado. Pedira para Oswaldo dar a volta imediatamente, pois tinha que examinar um documento que deixara em casa. Estava trancada em seu escritório particular desde então, e ali estava eu, esperando que ela saísse e desse o expediente por encerrado.

No corredor que levava ao escritório de Lauren, avistei um pouco mais à frente uma porta entreaberta. Espiando, vi Dinah, uma lata de cerveja sobre a mesa de centro no que parecia ser uma sala de TV, fazendo caretas enquanto esmagava os botões do videogame.

— Tem lugar pra mais uma? — perguntei.

Ela se virou rapidamente e abriu um sorriso largo, se amontoando no canto do estofado para me ceder espaço.

— Bambina! Onde está o Lauren?

— No escritório. — Fui entrando e deixei meu corpo exausto cair no sofá macio de um tecido marrom. — Acho que ela vai demorar.

— Sempre demora. — Ela enrugou o nariz. — Para desespero do Lauren. Ela detesta falar no telefone. Na verdade, ela detesta falar, de qualquer forma que seja.

Então não era só a mim que ela tratava com reticência.

— O que você tá jogando? — eu quis saber.

— Rise of the Argonauts. É medieval, muito sangue, gente partida ao meio, decapitação...

Diversão completa. — Ela me entregou um controle branco. — Tente não morrer logo na primeira sala.

— Tente não ficar no meu caminho, se quiser continuar jogando.

Ela reiniciou o jogo, seu avatar se movendo sorrateiramente pelo castelo enquanto o meu se deparava com um guarda e desembainhava a espada. Tentei me defender, mas meus pensamentos começaram a divagar outra vez, ainda tentando decifrar o que Lauren havia dito. Eu levaria séculos para descobrir alguma coisa.

A menos que...

Relanceei Dinah. Minha chefe parecia confiar cegamente nela. O rapaz devia conhecer cada segredo dela, já que havia sido nomeado diretor de AED. Ou se autonomeara, que seja.

— Então... — Tentei soar o mais desinteressada possível. — Você conhece o sra.Jauregui há muito tempo?

— Uns dez anos, mais ou menos.

— Ah. Ela não estava de luto na época. Como ela era antes, Dinah? Menos fechada?

— Eu não saberia dizer. — Seus dedos voavam sobre o controle do videogame. — A mulher dela já tinha morrido quando nós nos conhecemos.

Fiz as contas mentalmente. Lauren aparentava estar entre os vinte e cinco e os trinta anos. Eu chutaria uns vinte e sete. Vinte e oito, no máximo. Franzi a testa.

— Uau. Ela deve ter casado muito nova. Tipo, dez anos atrás ela tinha dezoito e já era viúva? Dinah pausou o jogo, colocou o controle sobre a mesinha de madeira escura e se virou, um dos braços apoiados no encosto entre nós.

— Camila, posso te contar como eu conheci aLauren? Sim, por favor!

— Se quiser... — Ergui os ombros.

— Eu tinha dezessete anos — ela começou. — A minha irmã Francesca, pouco mais de vinte e dois. Nós morávamos em Roma e eu tinha me perdido na heroína. Devia uma grana alta para alguns traficantes. E elas me pegaram. Cada uma delas — indicou as seis linhas que maculavam seu belo rosto — representa um dia que eu permaneci em poder delas.

Passei os braços ao redor do corpo para deter um tremor.

— Meu Deus, Dinah. Eu sinto muito.

— Não fique tão impressionada. Elas deixaram o rosto pro final. — Arregaçando a manga, deixou visível uma coleção de cicatrizes incontáveis no antebraço direito.

Ofeguei, o coração se condoendo por ela, o estômago revirado. Já não tinha certeza se queria ouvir o restante da história.

— Nunca se meta com heroína, bambina. Jamais! — frisou, sério como eu jamais o vira. — Na noite em que pretendiam dar o meu caso por encerrado, eu gritei um bocado. Acho que Deus me perdoou por toda a minha estupidez naquele momento, porque o Lauren estava passando ali perto e me ouviu. Ela tinha um cachorro na época. Um cão amarelo e peludo que parecia sorrir toda vez que olhava pra alguém. A Lauren sempre gostou de correr, e o cachorro também, então os dois saíam para uma corrida todas as noites. Naquela dia, elas me encontraram, amarrado de cabeça pra baixo, preso em um gancho de açougue.

Engoli em seco e não consegui pensar em nada para dizer.

— A Lauren conseguiu me tirar dali viva. — Ela fez uma pausa, correndo o indicador sobre uma das marcas em sua pele. — Me levou pra casa dela, chamou um médico... Depois me deixou sob os cuidados de um empregado e uma hora mais tarde a Francesca estava do lado da minha cama, me xingando ao mesmo tempo em que rezava. Ela pensou que eu tivesse morrido no dia em que desapareci, então você pode imaginar como ficou grata ao Lauren por me encontrar, ainda que numa situação daquelas. — Estalou a língua. — Depois a Lauren me ofereceu um emprego e eu ganhei uma nova chance de não ferrar com tudo. A minha dívida com ela é infinita, bambina.

Eu podia imaginar. E a irmã também devia sentir o mesmo, me dei conta. Pensar que algo poderia acontecer a Sofia me deixava nauseada. Qualquer um que aparecesse na vida dela e lhe estendesse a mão ganharia meu amor e devoção para sempre.

— O que eu estou querendo dizer ao te contar essa história — bateu de leve em meu braço para atrair minha atenção — é que o Lauren tem os segredos dela e os mantém muito bem guardados. Há alguns aspectos da vida dela que ninguém conhece. Eu nunca o pressionei para que me contasse o que aconteceu com a esposa. Ela não fala dela. Eu só sei que ela morreu porque uma vez o flagrei bebendo feito um motor V8, coisa que ela raramente faz, e ela acabou deixando escapar que ainda sentia muita falta dela. Nunca mais tocou no assunto. Nem eu. Se ela um dia quiser me contar, sabe que vou estar aqui pra ouvir.

Sorri de leve para ela.

— Espero que o Lauren saiba a sorte que tem por ter você como amiga.

E eu tinha entendido o recado. Dinah não ia me dizer nada. E, com sutileza, me alertava para não cutucar a ferida. Era um bom conselho. Depois de quase ter perdido o emprego naquela manhã ao atacar minha chefe com uma régua e deixá-lo pelado, eu devia lhe dar ouvidos.

A italiana cutucou minhas costelas com o cotovelo.

— E então, ainda quer continuar jogando depois da sessão de horrores? — Ergueu as sobrancelhas repetidamente, me fazendo rir.

— Por que não? Um pouco mais de sangue não vai fazer diferença — brinquei.

Ela pareceu aliviada em reiniciar o jogo. Como não queria aborrecê-la, tentei me concentrar no que estava acontecendo na tela. Nela, um cara meio esverdeado invadia o castelo onde aparentemente o rei se casava. O cara verde ia matando os soldados do palácio enquanto o rei e sua amada despejavam coisas numa bacia com água, em um tipo de ritual de união. Então o cara verde viu o casal e apontou a flecha...

Michelle leva a mão ao peito...

Pisquei, sacudindo a cabeça para me livrar da imagem assustadora em minha cabeça. Na TV, o rei fazia seus votos. A flecha atingiu o peito da mulher...

... tocando o local onde a espada lhe atravessou: o coração.

— NÃO! — Pulei do sofá, ofegando. — NÃO!

Eu me afastei da TV, cambaleando, os olhos ainda presos na imagem da mulher no chão, a flecha alojada em seu peito. Em minha cabeça, era Michelle. A espada atravessada no meio do peito, o sangue jorrando pela ferida mortal. O ar ficou preso em meus pulmões. Bati com o quadril em alguma coisa e um vaso caiu, se estilhaçando aos meus pés.

Ela não podia morrer.

—Bambina?

A porta se abriu com um estrondo. Eu ouvia vozes ao fundo, mas meu pulso martelava nos ouvidos, minha respiração ofegante encobria qualquer coisa. Michelle não podia! Aquilo não podia ser verdade.

— Camila? Camila, consegue me ouvir? — perguntou aquela voz que eu conhecia tão bem. Elevei os olhos e ali estava ela, o rosto lindo corado de preocupação. Por puro instinto, levei a mão a seu peito, onde eu tinha visto a lâmina se alojar. Seu coração bateu rápido, forte, vivo, sob minha palma.

Lágrimas de alívio começaram a escorrer pelas minhas bochechas, e eu me joguei contra ela, enlaçando os braços em sua cintura, a cabeça pendendo em seu ombro. Seu corpo todo se retesou, e eu gostaria de parar para analisar o que o deixara tão apreensivo, mas o medo e o alívio se embolaram, fervilhando dentro de mim até eu não suportar a pressão. Comecei a soluçar sem controle, me apertando mais a seu corpo. Meio hesitante, seus braços me envolveram. Mais firmes e decididos conforme os soluços se tornavam convulsivos.

— O que está acontecendo? — murmurou em meu ouvido.

— Eu n-não sei. Simplesmente não s-sei.

Aquela cena não fazia parte dos sonhos. Não os que eu já tivesse sonhado, pelo menos. Por quê? Por que eu tinha visto aquilo? Por que Michelle havia sido ferido? Sim, parecia um fragmento das minhas fantasias, mas eu nunca, jamais, vira aquilo. Nem remotamente parecido com aquilo. Michelle não morria! Ela não podia morrer. Eu não suportaria. Ela não podia me deixar.

— Você está me assustando. — Sua voz era pura angústia.

— Estou b-bastante assustada também.

— A Dinah disse que te contou sobre como nos conhecemos. Ela não devia ter feito isso. Aconteceu faz muito tempo, Camila. Você está segura aqui. — Como que para comprovar isso, ela me segurou junto a si com mais intensidade. — Eu juro que não há nenhum perigo.

Balancei a cabeça freneticamente.

— Não foi isso que me assustou. Não foi o Dinah — murmurei. — Foi você.

Eu me agarrei a ela com desespero, inspirando seu cheiro, seu calor abrandando o tormento que me apertava o peito.

— Está tudo bem. — Devagar, sua mão subiu e desceu pelas minhas costas. — Está tudo bem agora.

— Acho melhor eu pegar um chá pra ela, Lauren — disse Dinah.

O que A italiana disse fez meu corpo todo se enrijecer. Não, não por causa do chá. Por dizer o nome do homem a quem eu me agarrava como um coala.

— Ah, meu Deus. — Eu me desprendi da minha chefe, dando um passo para trás, mas meus joelhos fraquejaram. Lauren me pegou antes que eu caísse.

Sem dizer nada, passou um braço em minha cintura, o outro atrás de meus joelhos, e me aninhou em seu peito. Tive a impressão de que ela pareceu incerto quanto ao que fazer a seguir. Acabou por me acomodar no sofá.

Meu Deus, o que tinha acabado de acontecer? Como eu tinha tido aquele sonho... ou um pedaço dela... se nem estava dormindo? O que estava acontecendo comigo?

Enquanto minha mente girava, Lauren foi até um carrinho metálico no canto da sala, e eu ouvi o ruído do líquido sendo servido. No instante seguinte, ela apertava um copo de uísque em minha mão.

— Beba — ordenou.

Um pouco vacilante, experimentei um gole. A bebida passou pela minha garganta com a mesma sutileza de uma brasa.

— Deus do céu! — Tossi algumas vezes.

— Eu sei. Mas vai te ajudar. — Ela se sentou ao meu lado.

Sabe de uma coisa? Não sei se foi a sua presença ou o uísque em chamas que me atingiu o estômago, mas o frio em meu peito começou a ceder, meus membros ficaram mais pesados conforme a descarga de adrenalina começou a esmaecer.

— Melhor? — Ela não conseguiu esconder a preocupação. Assenti, embora fosse uma grande mentira. Com delicadeza, ela perguntou: — O que aconteceu, Camila? O que a apavorou dessa maneira?

O tremor me pegou de guarda baixa e me sacudiu com violência ao mesmo tempo em que a imagem de Michelle ferido no campo de batalha preenchia minha mente.

Como se quisesse me confortar, vi Lauren estender o braço em direção a meu rosto molhado. Prendi o fôlego, ansiando por aquele toque mais que tudo no mundo. Mas ela mudou de ideia no último instante e deixou a mão cair entre nós.

— O que você quis dizer agora há pouco? — Sua voz me pareceu instável. — Sobre eu ter assustado você assim. Camila, eu nem estava na sala.

Balancei a cabeça. Não estava pensando direito no momento em que lhe disse aquilo. E não tinha como explicar o que havia acontecido comigo sem parecer maluca.

Ah, é! Porque ter um ataque bem no meio da sala dela e não abrir a boca para explicar coisa alguma era supernormal.

— Me diga — ela suplicou.

Levantei a cabeça e olhei dentro dos seus olhos, que ardiam exatamente da mesma forma que os da minha Michelle. Aturdida, abri a boca e soltei a verdade.

— Eu vi você morrer.

Ela enrijeceu dos pés a cabeça, uma sombra tomando conta de seus olhos, de seu rosto, dela todo. Mas que outra reação poderia ter? Já era um milagre ela não ter saltado do sofá e ligado para o manicômio.

— Você me viu... — ela começou, mas a porta se abriu de repente.

Parecendo muito abalada, Lauren se levantou e caminhou pela sala até parar diante da janela, contemplando o jardim enquanto Dinah apareceu equilibrando uma bandeja.

— Aqui está! Chá de camomila. Beeem doce. — Acomodou tudo sobre a mesinha, empurrando os controles do videogame para o lado.

— Obrigada, Dinah. Não era preciso nada disso.

Ela forçou um sorriso ao se deixar cair no sofá, mas seus olhos o traíram e demonstraram outra coisa. Ela estava mortificada. Que droga.

— Dinah, você não me assustou — garanti a ela, que apenas encolheu os ombros, fitando os joelhos do jeans. — Tô falando sério. Não foi a sua história que me assustou.

— O que foi, então?

— O fato de o sra.Jauregui ter tido um cachorro — brinquei, tentando aliviar o clima.

Deu certo. Ou meio certo, pelo menos, pois Dinah riu. Lauren, no entanto, continuou a olhar para fora, parecendo não ter ouvido uma palavra, imerso em pensamentos que eu não tinha certeza se queria saber quais eram, mas desconfiava de que descobriria em breve. Dessa vez ela ia me demitir.

— Escute, bambina — Dinah falou. — Eu sei que você não vai admitir que foram as cicatrizes, porque é uma pessoa gentil demais para...

— Não foram as cicatrizes. — Pousei a mão em seu antebraço, sobre as cicatrizes. — Juro! Foi um pesadelo que eu tive. O videogame me fez lembrar dela e... eu fiz uma tremenda confusão na minha cabeça.

Desconfiado, ela me estudou por alguns instantes, mas vacilou ao perceber que eu não mentia.

— É vero?

— É, sim.

— Vamos deixá-la descansar agora, Dinah. — Lauren, despertando de onde quer que estivesse, se afastou da janela, mantendo a atenção em qualquer coisa que não fosse eu.

Muito embora eu ainda tremesse tanto que, mesmo se não estivesse usando aquela bota rígida, teria sido difícil me manter de pé, e ficar quietinha por alguns minutos fosse realmente tentador, eu já tinha causado problemas demais por um dia.

— Obrigada, sra.Jauregui. — Eu me inclinei para deixar o copo de uísque na bandeja de chá e obriguei meus joelhos a suportarem meu peso, me aprumando. — Mas eu queria ir pra casa, se estiver tudo bem.

— Tem certeza? — Ela finalmente olhou para mim, uma preocupação genuína lhe enrugando a testa. — Não é melhor esperar um pouco mais?

— Estou bem. De verdade.

Ela me encarou por um longo momento, um tipo de batalha acontecendo dentro dela. Por fim, soltou o ar com força e cedeu ao meu pedido.

— Está bem. Vou te levar pra casa, então.

 



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