História Quando éramos jovens e queríamos colocar fogo no mundo - Capítulo 17


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Categorias Malhação
Tags Lica, Limantha, Samantha, Viva A Diferença
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Palavras 6.733
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, FemmeSlash, LGBT, Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Irmã dela aqui, seu merda!
Melhor amiga dela aqui, seu bosta!
Dica do capítulo: Proteja sua irmã e sua melhor amiga de tudo e de todos e apoie ela sempre!

Capítulo 17 - Casa


“Casa é qualquer lugar que te faz esquecer que o mundo todo tá pegando fogo.” 
— Rudy Francisco 

Marta olhava para a filha sem saber o que dizer. O relato havia sido feito pela garota com uma fúria contida e agora, quando a mais velha devia estar falando, ela só conseguia ficar em silêncio. As coisas não eram justas, Marta sabia disso. As coisas eram difíceis para quem não seguia um padrão. As coisas ficavam ainda piores quando os pais não apoiavam. Ou pelo menos um deles. Marta apoiava. Ela queria ver Lica feliz. Mas, ao mesmo tempo, ela sabia que sua filha estava em perigo. Em perigo pelo simples fato daquela janta ter aparecido no horizonte. Uma simples janta era sim capaz de destruir todo o caminho que Marta e Lica haviam feito juntas até chegarem ali, naquela paz e segurança que reinavam naquela casa e em suas vidas. E Marta não iria deixar aquilo ser quebrado daquela forma. Edgar não tinha mais poder para fazer aquilo. 

Olhando para a filha fixamente, Marta segurou sua mão e sorriu com ternura. Lica viu aquilo vindo sem que precisasse ser anunciado, ela viu nos olhos da mãe. 

— Lica, eu queria te contar uma coisa. Não sei se esse é o momento, mas eu não quero que o Edgar consiga usar isso contra você amanhã, caso ele tente. — começou a mulher, lentamente. — Luís e eu estávamos esperando você e Clara fazerem as pazes, e depois que isso aconteceu, estávamos tentando juntar vocês duas em uma conversa e não deu. Mas você não pode ir até a casa do Edgar sem saber. 

Lica não precisava que a mãe seguisse falando, apenas aquela introdução havia sido o suficiente, mas ela conseguia ver nos olhos da mulher que ela precisava falar sobre aquilo, então ela apenas seguiu ali, deixando que sua mãe segurasse uma de suas mãos e falasse mesmo sem ter necessidade. 

— Luís e eu estamos juntos, namorando. Faz um bom tempo. Não contamos nada antes porque você e Clara estavam brigadas e nós não queríamos deixá-las ainda mais confusas. Desculpa te contar nesse tipo de situação, mas eu tenho certeza que o Edgar vai tentar usar isso para irritar você. 

— E ele vai falhar miseravelmente, mãe. E não só porque você me contou agora, mas também porque eu não tenho problema nenhum que você namore o Luís, ele é ótimo. — Lica sorriu. — E a Clara vai ficar feliz em saber disso também. 

— Bom, isso cabe ao Luís. Mas, por favor, Lica, não entre nos jogos do Edgar amanhã, e nem nos da Malu. Você sabe que eu odeio falar mal dele, já que ele é seu pai, mas é necessário, ainda mais no contexto. 

— Eu sei. — Lica olhou fixamente para a mãe e beijou-lhe o rosto. — Vai ficar tudo bem, mãe, eu juro. 

Marta não tinha certeza disso, mas mesmo assim sorriu para a filha tentando mostrar que acreditava nela, que acreditava que seria apenas um jantar inofensivo. 

— Me ligue se precisar de alguma coisa. 

— Como faço sempre.  

Lica sorriu e levantou-se. Tudo o que precisava era dormir e tentar, ao máximo, esquecer que amanhã, àquela hora, estaria entrando na casa de Edgar e Malu. 

Clara já havia escutado discussões demais. Na verdade, ela já havia perdido a conta de quantas havia ouvido. Por isso, enquanto os gritos de Malu e Edgar ecoavam pela casa, ela ficava sentada na cama em total apatia. Mas naquela noite foi diferente. Havia algo novo no ar. Algo novo e ao mesmo tempo já conhecido. Fazia muito tempo que Clara não sentia angústia. Meses, para ter exatidão. Mas ela estava lá novamente, enquanto ela ouvia Malu gritar que “aquela garota” não podia ser convidada para sua casa sem o seu consentimento, e Edgar gritava de volta que a casa também era sua, então ele podia chamar quem ele quisesse para jantar lá. Clara sentiu angústia de novo porque era de Lica que estavam falando. E agora ela se preocupava muito com Lica. Com o que Malu e Edgar podiam fazer a ela quando descobrissem o real motivo por trás dela ter atacado Rafael. Clara sentiu angústia e tocou com a ponta dos dedos nas cicatrizes que partiam seus antebraços. Aquele tempo havia ficado para trás. O tempo em que ela resolvia sua angústia abrindo sua pele. Ela não voltaria para o passado, mas o passado estaria, para todo o sempre, no seu futuro, marcado em sua pele, sussurrando que ele ainda estava ali, pulsante. 

“Merda!” pensou ela, fechando os olhos para suprimir as lágrimas e cerrando as mãos em punhos. Ela odiava aquela angústia. Odiava o lugar onde morava que não conseguia chamar de casa desde que seu pai havia ido embora e Malu havia ameaço processá-lo se ele tentasse levar Clara junto. 

— Nós vamos dar um jeito. — havia prometido Luís, mas ele ainda não havia conseguido nenhuma brecha na amargura de Malu. 

E, de repente, os gritos cessaram, tão abruptamente quanto haviam começado. E Clara soube, do fundo do seu ser, que eles só haviam parado porque Lica havia batido na porta. “É agora” pensou Clara, como um mau agouro. 

Ela ouviu o som da voz de Edgar dando as boas-vindas para alguém que respondeu em um sussurro. Ouviu Malu bufando e vindo na direção do seu quarto. Em alguns segundos a porta seria aberta. Clara respirou fundo. A porta abriu e Malu apareceu. 

— Ela chegou, Clara. — o desprezo na voz da mulher era palpável. 

A garota apenas concordou com a cabeça e seguiu a mãe para fora do quarto. Mãe.... era tão desconhecido pensar naquela mulher como sua mãe. Clara tinha lembranças boas com ela, de infância, mas agora tudo parecia pertencer a uma outra pessoa. Memórias roubadas de uma outra Clara, que vivia em outra São Paulo, que tinha outra mãe chamada Malu. Memórias roubadas de uma vida que parecia nunca ter sido dela. 

— Lica. — chamou Clara, com um fio de voz. 

As duas irmãs se olharam nos olhos e souberam que o mundo ia acabar naquela noite, dado que as duas estavam no lugar mais perigoso para se estar naquele momento, mas que elas estariam lado a lado. Irmãs servem para isso, elas haviam descoberto há pouco. 

— Oi. — cumprimentou ela, sorrindo para a loira.  

— Bom, vamos nos sentar, então. — chamou Edgar, convencido de que se ele fingisse que tudo estava bem e que todos estavam cômodos, aquilo se tornaria realidade. Minta tantas vezes quantas forem necessárias para que a mentira vire uma verdade, com certeza, era o lema de vida daquele homem. E Clara e Lica o abominavam por isso. 

Sentados à mesa, que já estava posta, os quatro protagonistas daquele pré-anunciado show de horrores se fitaram pausadamente, medindo uns aos outros, calculando o que o oponente poderia dizer ou fazer, preparando suas armas e suas defesas. Mediram-se pelo que pareceu uma eternidade, e então Edgar pigarreou: 

— Heloísa, estamos aqui única e exclusivamente por sua causa. Pode começar a falar, então. 

— Pensei que jantares em família eram comuns no seio da família tradicional brasileira. 

“Um para Lica, zero para Edgar” pensou Clara, fixando seus olhos no homem, esperando a retaliação. 

— Sempre ácida, não é? — a voz de Malu soou com um chicote, cortando o ar. 

— Aprendi com você. 

— Heloísa! 

Clara encolheu-se. Ela queria que a falsa paz tivesse durado mais tempo. Ou pelo menos o tempo necessário para que ela preparasse alguns ataques também. 

— Você vai expulsar o Rafael ou não? — os olhos de Lica arderam na direção de Edgar. 

— E por que eu faria algo assim? 

— Ele foi homofóbico. 

— Homofobia não é crime no Brasil. — Malu disse aquilo com um prazer sádico extremamente assustador. 

— Ser idiota também não, e ainda assim, aqui estamos.  

Clara apertou os lábios para que um sorriso não denunciasse sua imensa vontade de rir. Se de nervosismo ou de divertimento, ela não saberia pontuar. 

— Heloísa, abaixe suas armas agora mesmo! 

— Eu não vim armada. E pensei que vocês dois também não viriam. 

O silêncio que recaiu sobre a mesa foi pesado como um véu de pedras. Os dois adultos ficaram tensos e Lica olhou Clara pelo canto dos olhos, buscando ali qualquer tipo de apoio. Clara lhe devolveu um olhar firme, porém de entendimento. Elas estavam do mesmo lado não apenas da mesa, mas também do confronto que estava tomando espaço naquela fria sala de jantar. 

— Heloísa, eu poderia sim expulsar o Rafael. Na verdade, eu posso expulsar qualquer aluno. Mas você precisa me dar algum motivo sólido para fazer isso. — Edgar começou, com seu tom tedioso de sempre, como se lhe custasse muito falar com a filha. 

Clara e Lica não precisaram trocar olhares para dizerem uma para a outra que a hora havia chegado. Não precisaram fazer nada, apenas respiraram fundo ao mesmo tempo e então, aconteceu o que as duas já haviam previsto que iria acontecer: Lica teve que dizer toda a verdade. 

— Eu sou bissexual. 

Edgar engasgou-se com o ar. Malu fixou seus olhos frios nela como se quisesse matá-la apenas com aquele singelo ato. Clara cerrou os punhos novamente, suprimindo sua vontade de levantar daquela mesa e sair correndo levando Lica junto consigo. Ela estava há tempo demais naquela casa e já sabia muito bem o que acontecia quando se dizia coisas que os adultos não queriam ouvir. Ela ainda lembrava dos berros descontrolados de Malu quando lhe disse que estava junto com Fio. 

— Você é o quê? — havia um misto de nojo e confusão no tom de Edgar. 

— Bissexual. — repetiu Lica, tranquilamente. — Me sinto atraída tanto por meninos quanto por meninas. E eu estou com uma menina agora. Por isso o babaca do Rafael me chamou de sapatão. Por isso eu chamei ele de verme covarde e burro. E ele me empurrou. E eu chutei ele.  

— Uma menina? — era óbvio que toda a atenção de Edgar ficaria presa naquela parte do discurso de Lica, sua mente era pequena demais para não se focar naquele detalhe. 

— Menina, mulher, garota, moça, guria, madame, senhorita, como quiser. Eu prefiro chamar de Samantha, que é o nome dela, mas vai saber. 

— Era só o que me faltava. Primeiro a Clara namora um negrinho pobre e agora isso, a Heloísa namora uma devassa. 

Ninguém nunca será capaz de precisar qual das irmãs levantou-se mais rápido, com mais raiva, e com mais ímpeto de lançar-se na direção de Malu depois que a mulher proferiu aquela frase. Assim como ninguém nunca vai conseguir dizer com certeza como Edgar foi tão rápido quanto as garotas e agarrou uma por cada braço e arrastou-as para longe da esposa com violência. Mas qualquer um poderia dizer, com bastante certeza, que a cena de Malu sentada com os olhos esbugalhados, as garotas arfando com os corpos tremendo pelo ódio, Edgar segurando com força uma por cada braço e mantendo-as afastadas da mulher, em pé próximos da mesa era uma cena digna de quadros. Uma cena digna de ser intitulada “família tradicional brasileira”. 

E havia muita violência no olhar que Edgar lançou para Lica. Havia ódio no olhar que Clara lançou para Malu. Havia desprezo no olhar que Lica cravou em Edgar. E havia surpresa no rosto de Malu enquanto esta olhava sua filha. Porque de Lica ela esperava a selvageria, mas nunca de Clara. 

— Me solta, porra! — esbravejou Lica, sacudindo-se na tentativa de desvencilhar-se de Edgar. 

O homem não disse nada. Apenas deu um último apertão nos braços das garotas e soltou-as, mantendo-se em pé entre elas e a esposa. 

— Devassa é a puta que te pariu, ridícula. — gritou Lica, por sobre o ombro de Edgar. — Devassa é a grandiosa puta que te pariu! 

— Heloísa! 

— Para de gritar o nome dela, cacete! 

Os outros três voltaram-se para Clara, todos com a surpresa tomando seus rostos. 

— Clara... — balbuciou Malu. 

— Você nem fala nada. — Clara tremia de raiva, e ela sabia que agora que havia começado a falar, nada conseguiria pará-la. Ela ainda tinha medo, mas a raiva estava falando mais alto. — Porque você me dá nojo, muito nojo. Espero que você saiba, e nunca se esqueça, que esse negrinho pobre me dá muito mais carinho, atenção e amor do que você, e você nunca vai chegar aos pés dele, porque o Fio, é esse é o nome dele, é um ser humano incrível e você só me dá vergonha. E também espero que você nunca esqueça que a devassa é minha melhor amiga e me trouxe de volta dos mortos quando você nem sabia que eu estava lá. 

— E você, Edgar, ou expulsa o Rafael ou eu troco de escola. — Lica, então, vendo que a adrenalina de Clara começava a baixar e ela iria ceder ao choro, segurou-a pela mão. — Vocês dois não merecem viver com a Clara. Não merecem nem chegar perto dela, porque ela, essa garota aqui, é um ser humano incrível e eu não vou deixar... — e então Lica sentiu que sua voz quebrava pelo choro, mas ela engoliu em seco, porque não daria aquele prazer para eles dois. — Eu não vou deixar vocês roubarem nem mais um segundo de vida dela. 

E sem esperar respostas, Lica puxou Clara na direção da porta. As duas já estavam saindo quando a voz de Edgar soou às suas costas: 

— Onde vocês pensam que estão indo? 

Lica ia sair sem responder, mas sentiu Clara soltando-se dela e virando-se novamente para Edgar e Malu. 

— Para casa. — a voz de Clara saiu firme. — Para a casa de onde eu nunca deveria ter deixado vocês me tirarem. 

Lica seguiu Clara até o elevador, deixando a porta do apartamento aberta. Lá dentro, enquanto elas desciam para o térreo, Clara desabou. O choro veio doloroso. Cheio de mágoa, rancor, ódio e medo. Lica, desesperada, apertou a irmã contra seu peito e deixou-a gritar, soluçar e chorar tudo o que queria. Deixou-a agarrar seu corpo com força, como se aquilo fosse sua única conexão com o mundo real. Deixou-a minguar entre seus braços e prometeu a si mesma que nunca mais ia abandonar Clara, nunca mais mesmo. 

Samantha havia pedido que Lica e Clara lhe ligassem assim que a janta chegasse ao fim. E por isso ela estava sentada na cama, com um livro em mãos, e o celular ao seu lado na mesa de cabeceira com o volume no máximo. Parte do seu cérebro estava lendo aquele livro e outra estava pensando sobre sua melhor amiga e sua.... ela ainda não sabia como rotular Lica, mas aquilo não era sua preocupação no momento. Ela só conseguia pensar nas duas e pedir que elas ficassem bem e que fosse apenas uma janta, que Edgar e Malu não usassem aquele evento para tentar alcançar Lica, que apenas a deixassem em paz. Mas, por algum motivo, quando seu celular tocou e não eram nem oito e meia, Samantha soube que tudo havia dado errado e seus pedidos haviam sido totalmente ignorados. 

— Lica! — Samantha agarrou o celular e levantou-se da cama de um salto. — O que houve? 

— O que a gente já esperava que fosse acontecer. 

O coração de Samantha apertou-se dentro do peito e ela não soube o que perguntar primeiro, mas ela também não precisou. 

— Você pode vir aqui pra casa? A Clara tá aqui e ela precisa de você. 

— Chego aí em dez minutos. 

— Ok. — a voz de Lica saiu abafada. 

— Eu tô chegando, Lica.  

Samantha apenas deu-se conta que seus pais estavam em casa quando já estava abrindo a porta de entrada. Ela precisava dizer para eles onde estava indo e aquilo lhe tirou todo o ímpeto de sair correndo. Samantha parou com a testa encostada na porta e suspirou. Ela podia dizer que Clara precisava dela, mas Lica também precisava. Mas se ela dissesse que Lica estava envolvida, seus pais nunca a deixariam sair de casa. “Uma meia-verdade a mais, uma a menos”, pensou ela, indo na direção do quarto dos pais. 

— A Clara me ligou. — Samantha começa, depois de abrir a porta e entrar no quarto. — Ela precisa de mim. Posso ir dormir na casa dela? 

Valéria e Pedro trocam aqueles olhares de sempre e concordam com a cabeça. Nenhuma palavra é dita e nenhuma recomendação é dada. Enquanto sai de casa, Samantha agradece por isso. Pediu um táxi e esperou por ele olhando para o celular de trinta em trinta segundos, mas nenhuma outra mensagem ou ligação apareceu. Quando o táxi finalmente chegou, ela mal viu qual rota o motorista pegava, mais interessada em fixar seus olhos no relógio para ver se conseguiria mesmo chegar em dez minutos na casa de Lica. O elevador do prédio pareceu não andar e o corredor até a porta pareceu imenso, mas finalmente ela conseguiu tocar a campainha e encontrar Lica. 

— Sammy. — a garota sussurrou abraçando-a.  

Samantha aperta Lica contra seu peito, acariciando seus cabelos. Ela não ouve nenhum  som dentro do apartamento e isso faz com que ela questione onde estão Clara e Marta. 

— Elas tão na cozinha. — Lica diz, como se tivesse lido os pensamentos da outra. — Minha mãe fez um chá de camomila pra Clara. Ela tava desesperada, chorando sem parar. 

— O que houve, Lica? — Samantha afastou a garota delicadamente e olhou-a nos olhos. 

Lica parecia exausta, como se tivesse corrido uma maratona. Seus olhos estavam opacos, seus cabelos caíam até seus ombros de forma desordenada e sua franja estava espetada, denunciando que ela havia passado a mão por ali inúmeras vezes, coisa que ela sempre fazia quando estava nervosa ou precisava pensar rapidamente sobre os fatos. 

— Edgar e Malu falaram merda e a Clara se encheu de coragem e gritou um monte de verdades para eles e então, quando eu vi que ela ia ceder, eu tirei ela de lá. Ela disse... — Lica apertou os lábios e fixou seus olhos nos próprios pés. — Ela disse que estava vindo pra casa e agora ela está aqui, Sammy. Acho que esse tempo todo a Clara considerou esse apartamento a casa dela e eu joguei isso fora também. 

— Lica. — Samantha disse com suavidade, tocando no rosto da outra. 

— Ela me defendeu e defendeu você, e eu defendi ela depois. Nós fomos irmãs de verdade. 

— Me defendeu? 

Lica fixou seus olhos em Samantha e sentiu uma imensa vontade de chorar. A violência do que Malu havia dito ainda ardia nela e agora estar ali, diante de Samantha, fazia tudo queimar ainda com mais força. 

— Malu disse que você era uma devassa, por isso Clara e eu nos irritamos e tudo desandou. 

Samantha ficou totalmente sem reação e depois, quando Lica ia pedir desculpas por algo que não era culpa dela, Samantha beijou-lhe os lábios como se a vida de ambas dependesse daquilo. Um beijo pesado, desesperado, ansioso, que aos poucos tornou-se terno, calmo e curativo. 

— Eu amo você, Lica. Desculpa dizer isso do nada, mas eu amo você. 

As duas se fitaram e Lica sentiu lágrimas trilhando seu rosto. Samantha sorriu com doçura e abraçou-a. 

— Vamos entrar e dar uma olhada na Clara, ok? 

Lica acenou com a cabeça e Samantha entrou. As duas foram até a cozinha e encontraram Clara sentada à mesa com uma xícara entre as mãos. Os seus olhos estavam inchados e sua pele alva estava marcada pelo choro. Marta, em pé diante dela, lhe olhava com um misto de ternura e preocupação. Samantha não esperou nada para ir até a amiga e abraçá-la. Clara, ao ver quem era, apertou os lábios e escondeu o rosto no peito de Samantha, segurando seus braços com as mãos trêmulas. Lica olhou para a mãe com total desesperança e Marta andou até a filha, passando um dos braços pelos seus ombros e puxando-a para perto. As quatro ficaram naquelas posições por um longo tempo, até que Lica resolveu servir chá para ela, a mãe e Samantha. A noite seria longa, melhor fazer aquilo tomando algo quente. 

Quando todas estavam com xícaras em mãos e sentadas na volta da mesa, o silêncio caiu sobre elas porque não havia mais nada a ser dito. O estrago já havia sido feito e agora elas apenas podiam sentir o luto. Era como se elas estivessem em um velório, velando as certezas de Clara e a vida de Lica sem mais aquela ferida aberta. 

— Acho que o melhor que podemos fazer agora é dormir. — pronunciou-se Marta, quando o silêncio já estava durando tempo demais. — Acho que vocês três cabem na cama da Lica, não? 

— Sim. — respondeu a garota. 

— Então vamos lá. Dormindo tudo se ajeita.  

Marta levantou-se e estendeu a mão na direção de Clara, que a olhou totalmente desamparada e se deixou levar até o quarto. Lica e Samantha ficaram sentadas, olhando ora para as xícaras, ora uma para a outra. Então, Samantha também se levantou e estava indo na direção da sala quando Lica disse seu nome. A garota virou-se e esperou. Lica suspirou e levantou os olhos, encarando Samantha durante um tempo. 

— Eu também amo você. 

Samantha sorriu. Por trás de todo o cansaço, havia felicidade, e Lica conseguia ver isso. 

— Vamos deitar, vem. — chamou ela, esticando a mão na direção da outra. 

Lica levantou-se, entrelaçou seus dedos aos de Samantha e deixou que ela a guiasse para o quarto. Quando as duas chegaram, Clara já ocupava um dos lados da cama e Marta não estava mais lá. 

— Desculpa meter vocês duas nessa bagunça toda. — murmurou Clara. 

— Melhores amigas são pra isso.  

— Irmãs também. 

Clara sorriu com os olhos marejando e Samantha correu para abraçá-la outra vez. Lica olhou a cena durante alguns instantes e depois foi na direção do seu roupeiro. Ela e Samantha precisavam de roupas para dormir. Em alguns minutos, as três estavam vestidas com pijamas e deitadas lado a lado na cama. Clara e Samantha nas pontas e Lica no meio. Aos poucos o silêncio ameno e consolador foi trabalhando junto com o cansaço físico e emocional e as três caíram no sono sabendo que tinham umas às outras e que enquanto aquilo fosse válido, elas estavam seguras. 

Lica ouvia os ecos e não conseguia dizer se era um sonho ou não. Sua semiconsciência não lhe permitia. Ela estava no limiar do dormir e acordar, por isso não conseguia entender direito o que estava acontecendo ao seu redor, se é que havia alguma coisa. Enquanto debatia internamente tentando definir se seguia dormindo ou não, um grito em especial lhe fez despertar. Ainda de olhos fechados, sentindo um corpo ao seu lado na cama, Lica teve certeza de que havia ouvido a voz de Edgar gritando. Mas como aquilo era possível, dado que ela estava na sua casa e ele não morava mais lá, era um mistério. 

Lica abriu os olhos e encontrou Samantha ao seu lado, ainda de olhos fechados e parecendo estar presa na indecisão de acordar ou não. Olhou para o outro lado e encontrou a cama vazia, o que a deixou alerta. 

— Clara? 

— Aqui. 

A voz da irmã veio baixa e Lica sentou-se na cama de um salto. Clara estava sentada no chão ao lado da porta, abraçando suas pernas e parecendo apavorada. Seus olhos estavam esbugalhados em um grito mudo por auxílio. Com os movimentos na cama, Samantha acordou-se e não precisou de mais que dois segundos para entender todo o cenário. Os gritos de Marta e Edgar chegavam até lá e a fraca luz do sol tentava entrar pela janela fechada. Não deveriam ser nem oito da manhã e o caos já havia partido aquele sábado em pedaços. 

— Há quanto tempo você está acordada? — perguntou Lica, saindo da cama e ajoelhando-se diante de Clara. 

— Uns minutos, acordei com os gritos. 

Lica sentiu Samantha colocando-se ao seu lado e Clara desviou os olhos para as próprias mãos. As três ficaram em silêncio, tentando ouvir a briga e, assim, decidir o que fariam. 

— Ela é minha filha! — berrou Edgar. 

— Sua filha, Edgar? Conte-me outra piada. — rebateu Marta. — A Clara é filha do Luís e nada vai mudar isso. 

— Eu vim buscar ela e ela vai embora comigo. 

— Não, ela não vai. 

— Não me faça chamar a polícia, Marta. 

A risada debochada da mulher saiu alta, forçada. 

— Eu vi as marcas nos braços da Clara ontem, Edgar. Você quer mesmo chamar a polícia? Porque eu duvido que eles vão achar muito legal aquelas cicatrizes todas nos braços da filha do diretor e da vice do Grupo. 

— E o que você acha que a Clara vai fazer quando descobrir que seu pai está namorado você, a mãe da pessoa que ela mais odeia? 

— Como sempre, você está atrasado. 

Lica cravou seus olhos em Clara e nada mais existia além da garota diante de si. Como se a vida fosse um ciclo, agora era Lica quem sabia com antecedência que Marta e Luís estavam juntos, assim como, meses antes, era Clara quem sabia de Malu e Edgar. As duas irmãs de fitaram e Clara sorriu fraco. 

— Eu amo sua mãe. — murmurou ela, como se aquilo conseguisse resumir toda sua aceitação. 

Lica acenou com a cabeça e sentiu Samantha apertar-lhe a coxa levemente. Edgar havia mesmo tentando usar o namoro de Marta e Luís para machucar as garotas. Ele havia mesmo chegado naquele nível de baixeza. 

— Edgar, eu sinceramente recomendo que você saia da minha casa agora mesmo. — Marta disse aquilo com uma raiva contida.  

— Eu só saio daqui com a Clara! — o grito do homem quebrou todas as paredes e Lica levantou-se de um salto. 

— Lica. — chamou Clara. 

A menina não respondeu. Ela não iria deixar que ninguém gritasse com sua mãe daquele jeito, e por isso ela abriu a porta do quarto de supetão e saiu correndo, sabendo que alguém lhe seguia, mas não parou para ver quem era. Ela entrou na sala abruptamente e lançou-se na direção de Edgar, interpelando-se entre ele e a mãe. 

— Some daqui antes que eu chame a polícia! — a garota gritou, rouca, pegando os dois adultos de surpresa. — Você não é pai de ninguém que está nessa casa, então você não tem direito sobre ninguém aqui. Vai embora! 

— A Clara não vai sair daqui. 

E então Lica soube quem havia vindo atrás dela enfrentar todo aquele caos. Era Samantha. A garota voltou-se e viu a outra, em pé ao lado de Marta, com o celular em mãos e os olhos fixos em Edgar. 

— O número da polícia está discado, você tem dez segundos para ir embora e não voltar nunca mais. — a firmeza no tom de Samantha era assustador. Lica nunca a havia visto tão séria e feroz, e aparentemente aquela posição da menina estava pegando até mesmo Edgar de surpresa.  

O homem lançou um olhar de raiva descomunal para Marta e saiu batendo a porta. Lica seguiu com os olhos fixos em Samantha, e esta olhava para um ponto em frente, respirando pesadamente. Marta deixou-se cair no sofá e escondeu o rosto entre as mãos, suspirando.  

— Sammy.... 

Samantha olhou para Lica e sorriu entre a timidez e um pedido de desculpas. Ela sabia que talvez aquela não tivesse sido a melhor ideia, meter-se em um assunto de família, mas ela fazia de tudo por Clara e sem nem pensar duas vezes. 

— Tia.  

Lica, Samantha e Marta voltaram-se ao mesmo tempo para Clara, que chegava na sala hesitante, como se estivesse com medo de que Edgar ou Malu fossem saltar de algum lugar e levá-la de lá. 

— Clara, por favor... 

— Não precisa dizer nada, tia. — a loira sorriu tranquilamente. — Eu amo você e amo meu pai, então eu amo vocês dois juntos. 

Os olhos de Marta marejaram-se e a garota atravessou a distância que as separava e abraçou-a. Ali, naquele contato, havia carinho, aceitação e agradecimento, afinal, a mulher havia acabado de enfrentado Edgar por ela. 

Enquanto isso, Lica e Samantha trocaram outro olhar. Ali Lica dizia que admirava Samantha e ela respondia que sabia que poderiam haver consequências, mas que ela só queria falar sobre aquilo mais tarde. Lica concordou com a cabeça e voltou-se para a mãe e a irmã. 

— Eu vou ligar para o seu pai, ok? Dizer que ele venha para cá e então nós vamos decidir o que fazer. — dizia Marta. — Lica, ligue para a Leide e dispense ela por hoje. Você faz o café da manhã. 

— Tudo bem. 

Marta deixou a sala já retirando o celular de um dos bolsos da calça e Lica dirigiu-se para o quarto. Samantha sentou-se no sofá ao lado de Clara e a loira olhou-a fixamente durante alguns instantes. 

— O Grupo não vai mais ser um lugar seguro para você e a Lica agora, ainda mais depois de você ter enfrentado o Edgar desse jeito. — sussurrou Clara. 

— O mundo não é um lugar seguro para duas meninas que estão juntas, Clara, e não por isso a gente vai parar de andar por aí. 

— O que você vai fazer? Se seus pais descobrirem.... 

— O Edgar pode fazer isso? Até pode. Mas eu resolvi hoje que eu não tenho mais medo. — Samantha olhou para o lado do quarto de Lica e novamente para a amiga. — Nós três podemos dominar o mundo, amiga, e eu estou me dando conta disso agora. Eu, você e a Lica somos capazes de muito mais do que a gente acredita. 

Clara apertou os lábios, indecisa entre acreditar na melhor amiga ou não. Antes que ela pudesse responder, Marta voltou dizendo que Luís estava a caminho e, ao mesmo tempo, Lica voltou do quarto anunciando que havia falado com Leide. 

— Quem quer me ajudar a não colocar fogo na cozinha? — convidou ela. 

— Eu vou. — ofereceu-se Samantha, já levantando do sofá. 

Enquanto as duas iam para a cozinha, foi possível ouvir Marta dizendo que Clara poderia tomar um banho e pegar algumas roupas de Lica se quisesse. O relógio marcava sete e quarenta, então começar aquele dia que já estava longo com um banho podia ser uma boa ideia. 

— Lica, o que você tem em mente? — perguntou Samantha, sentando-se no balcão da pia. 

— Conversar com você. 

Não havia raiva ali, nem cobrança, mas mesmo assim Samantha franziu o cenho e Lica cruzou os braços diante do peito e colocou-se em pé diante da outra. 

— Você sabe que o Edgar pode fazer da sua vida um inferno, né? 

— Sei. 

— E que ele pode dizer para os seus pais que nós estamos juntas como uma forma de retaliação? 

— Sim. 

— E que isso daria uma merda catastrófica? 

— Sim. 

— E mesmo assim você ameaçou ele com polícia. 

Samantha encarou Lica longamente, buscando ali algum sinal de desaprovação, mas não achou nada. 

— Ele estava ameaçando minha melhor amiga. 

Lica estudou Samantha e suspirou, deixando que seus braços pendessem ao lado do seu corpo. 

— Eu amei o que você fez. Eu já admirava você há muito tempo, mas hoje isso chegou ao seu ápice. Mas, Sammy, eu estou com medo das consequências. 

— Vai ficar tudo bem. Se meus pais me enfiarem num internato, eu sei que você vai juntar um esquadrão pra me tirar de lá. 

— Óbvio que sim, mas... 

— Lica, a gente pode pensar em uma coisa de cada vez, por favor? A gente mal começou a resolver as questões da Clara e eu não sou capaz de pensar nas minhas junto. — Samantha segurou o rosto de Lica entre suas mãos e sorriu, passando-lhe confiança. — Meus pais sabem que eu estou com a Clara porque ela precisava de mim e isso basta. Eles não vão me ligar até hoje de noite, porque eles não se importam tanto assim comigo. Então vamos focar na Clara e pensar nos Lambertini depois, ok? 

Samantha esperou que Lica concordasse com a cabeça e então beijou-a rapidamente. 

— Café da manhã, Heloísa. O que vai ser? 

Luís chegou quando Samantha havia terminado de passar o café e Lica já havia conseguido concluir duas omeletes. O homem abraçou a filha longamente e depois Marta disse que eles podiam ir até o seu quarto para conversar em particular. Lica e Samantha seguiram na cozinha e Marta juntou-se a elas, arrumando a mesa. 

— O que você acha que vai acontecer agora? — perguntou Samantha para Lica, em um sussurro. 

— Acho que o Luís vai, definitivamente, levar a Clara pra morar com ele. 

— A Clara me contou um dia que ele ainda não tinha feito isso porque a Malu tinha ameaçado processar ele. 

— Filha da puta! — murmurou Lica, entre dentes. 

Quando os dois apareceram novamente, Clara parecia ter recuperado sua vitalidade. Ela olhou para a irmã e para a melhor amiga e sorriu demonstrando alívio. Luís cumprimentou as duas garotas com um sorriso e os cinco, como uma grande, unida e pacífica família, colocaram o café da manhã na mesa e sentaram-se para comer, conversando sobre amenidades e deixando que o tempo passasse lenta e despreocupadamente. Foi só quando a refeição se deu por encerrada que Luís olhou para as quatro mulheres e sorriu sugestivamente. 

— Que tal irmos passar o dia em Santos? 

— Sério, pai? 

— Sim. Tô com o tanque cheio e me deu uma vontade imensa de ver a praia. Que tal? — o homem olhou para Marta, sorrindo. 

— Se as garotas quiserem, eu não me oponho. 

— Vamos, por favor! — Clara virou-se para Lica e Samanha. 

— Por mim. — Lica deu de ombros. 

— Sam... 

— Vamos! 

Em dez minutos, estava tudo pronto e o carro estava na estrada, levando os cinco para um dia que seria balsâmico depois de todo o caos que as três adolescentes haviam enfrentado. Com seus celulares desligados, eles andaram pela praia conversando e rindo até ficarem sem ar. Almoçaram em um restaurante que apenas servia frutos do mar e descobriram que Samantha era alérgica a camarão e que Lica odiava mariscos. Andaram pela cidade, passando em algumas lojas apenas para ver o que era vendido. Terminaram o dia sentados na areia, perto de onde o mar beija a praia, lado a lado, comodamente deixando que o silêncio reinasse.  

Samantha encostou a cabeça no ombro de Lica. Luís segurou uma das mãos de Marta e com o outro braço, envolveu a filha pelos ombros. Os cinco sentiam paz, uma imensa paz. Lá, Edgar, Malu, os pais de Samantha e qualquer outro problema não chegava, não conseguia se aproximar. Lá eles podiam respirar fundo e sentir que tudo estava no lugar. 

— Lica, você já sabe onde vai fazer faculdade? — perguntou Samantha, em um sussurro, para que apenas a outra garota ouvisse. 

— Ainda não pensei muito nisso, por quê? 

Samantha, então, retirou a cabeça do ombro de Lica, erguendo-se. Próximos delas, Marta e Luís conversavam aos sussurros e Clara tinha o olhar perdido no mar diante dela, como se quisesse enxergar o que havia além daquela imensidão azulada. Lica fixou seus olhos em Samantha, perguntando com aquilo o que ela queria dizer. 

— O que você faria se eu dissesse que quero ir fazer faculdade em Campinas? 

Lica seguiu fitando Samantha pelo que pareceu uma eternidade, com o rosto congelado na mesma expressão serena que tinha antes da pergunta feita por Samantha. E ela poderia ter ficado assim o resto da vida, não fosse a outra chamando seu nome. 

— Lica, me responde! 

— Eu... — ela parou, apertando os lábios. — Não sei. 

Samantha bufou, frustrada, e fez menção de levantar-se, mas Lica segurou seu braço, fazendo com que as duas seguissem frente a frente. 

— Sammy, eu nunca vou pedir pra você ficar. Se é isso que você quer que eu faça, me perdoa, mas não vai acontecer. E eu não vou pedir isso exatamente porque amo você e sei que seu sonho está em Campinas, não em São Paulo. Faculdade de Música Popular, né? Eu já suspeitava. 

— Lica... 

— E eu aposto que o Guto vai ir fazer música também, né? Ou talvez bacharel em piano. 

Samantha concordou com a cabeça e Lica sorriu. Ela não sabia explicar, mas tinha uma imensa serenidade dentro de si. Não lhe causava nenhuma angústia o fato de Samantha estar dizendo que queria fazer faculdade em outra cidade. Mesmo que ela fosse perto, ou longe, para Lica tanto fazia, porque algo nos olhos de Samantha lhe dava a garantia de que tudo seguiria como se elas ainda vivessem na mesma cidade. 

— E a Clara quer ir também, fazer Pedagogia. 

— Aposto que em alguns anos o Grupo vai estar em melhores mãos, então. 

— Eu não mereço você. — murmurou Samantha, desviando os olhos para as próprias mãos. — Primeiro todos os problemas com os meus pais e agora eu querendo ir embora pra outra cidade no final desse ano e você segue aqui. 

— Samantha, você gostou de mim mesmo com todas as merdas que eu fiz da oitava série até agora. Você gosta de mim mesmo que seja eu. — Lica sorriu. — Se tem alguém que não merece alguém aqui, sou eu. 

Lica ia beijar Samantha, mas a voz da sua mãe chamando fez com que elas se afastassem. A mulher estava chamando-as para jantar e então voltar para São Paulo. As duas levantaram e já iam começar a andar quando Clara parou diante delas. 

— Eu só queria agradecer... — a loira olhou para a melhor amiga. — Por você estar aqui. — voltou-se então para a irmã e sorriu. — Por você não ter me deixado lá. 

Não se soube qual das duas abraçou Clara primeiro, mas em um segundo as três se abraçavam ao mesmo tempo, de forma desajeitada e igualmente carinhosa. Aquilo era “casa”. O lugar físico que algumas pessoas procuram e que outras já entenderam que pode ser um lugar não concreto. O lugar que alguns buscam dentro dos seus próprios corações e alguns buscam nos corações de outros. Casa, o lugar que o poeta disse que era onde se conseguia ignorar que todo o resto do mundo estava pegando fogo. Para Lica, Samantha e Clara, casa era exatamente aquilo. O lugar, ou o grupo de pessoas, que fazia com que elas esquecessem que todo o resto do mundo crepitava violentamente. 

— Eu amo vocês duas. — sussurrou Clara, com a voz embargada. 

Samantha e Lica não precisaram responder para que Clara soubesse que era recíproco. As três eram a casa e a família umas das outras. 

— E meu pai vai me levar pra morar com ele. — Clara soltou-se das outras duas e ela sorria com uma felicidade que há um dia não era vista em seu rosto. — Ele me disse hoje quando chegou na sua casa, Lica. Quando a gente chegar em São Paulo ele vai na casa da Malu pegar todas as minhas coisas e eu vou ficar com ele. 

Aquilo sim eram notícias maravilhosas. 

Samantha foi deixada em casa por Luís e Marta sabendo que Clara estava segura, a ponto de ir morar com o pai, e que Lica estava bem, sabendo sobre Campinas e, novamente, querendo ficar. Samantha entrou em casa procurando os pais com os olhos e encontrou-os na cozinha, preparando o jantar daquele sábado que havia sido uma mistura perfeita de caos e calmaria.  

— Cheguei! — anunciou ela, fechando a porta de entrada. — Estou bem. 

— Como está Clara? — a voz da sua mãe chegou da cozinha. 

— Melhor. Está tudo quase resolvido. 

— Fico feliz em ouvir isso. 

Samantha encostou-se no marco da porta da cozinha e observou os pais. Pedro cortava os tomates para a salada e Valéria cuidava a carne que cozia na panela. 

— Segunda tudo já volta ao normal. Os estudos, no caso. 

— E Guto? 

— Ele não ficou sabendo do que houve, mas acho que Clara vai contar para ele assim que estiver mais calma. 

Pedro, então, fitou a filha. Ele pareceu a ponto de perguntar algo, mas não o fez e Samantha sabia por quê. Seu pai ia perguntar por Heloísa, que se sabia que era irmã de Clara. Os escândalos, dentro das famílias ricas de São Paulo, são sabidos. Mas Samantha também sabia que seu pai não queria arriscar que ela lhe dissesse que havia sim visto Heloísa e passado com ela. “Eu não tenho mais medo” disse Samantha, para si mesma, e então, mesmo sem a pergunta do pai, ela disse: 

— Heloísa estava junto. Ela está bem também. 

Tudo na cozinha ficou em suspenso e Samantha sentiu seus pais cravando os olhos dela, totalmente surpresos. 

— Foi um problema de família. — disse Samantha, à guisa de explicação. 

— Entendo. — devolveu Valéria, rouca. 

— Quere ajuda com a salada, pai? 

Pedro demorou alguns instantes para entender o que Samantha estava dizendo, mas quando se deu conta, o homem acenou bobamente com a cabeça e a garota foi pegar uma faca. 

— Você corta as cenouras, por favor, Samantha. 

— Ok. 

E os Lambertini seguiram fazendo a janta em total silêncio, mas agora Samantha sabia que além de Clara estar segura, Lica saber de Campinas e ter decidido ficar com ela mesmo assim, ela própria, Samantha Lambertini, não estava mais trabalhando com meias-verdade, ela estava livre. 


Notas Finais


Gente, não sei se vocês repararam, mas eu AMO a dinâmica e a relação Lica/Clara/Samantha, então isso é uma coisa muito presente. Mas não se desesperem, eu não esqueci da Tina, Benê, Ellen e Keyla. Próximo capítulo elas aparecem!


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