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História Quando o amor bate à porta - Capítulo 3


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Notas do Autor


Boa noite meus amores, capitulo quentinho para vocês.
Boa leitura, até lá em baixo.

Capítulo 3 - Perigosamente irresistível


Fanfic / Fanfiction Quando o amor bate à porta - Capítulo 3 - Perigosamente irresistível

Quando muitas ideias a respeito de cenas e de pessoas preenchiam sua mente, Lica era capaz de trabalhar até seus dedos começarem a doer e se recusarem a segurar adequadamente o lápis ou a caneta.

Nos dias em que isso acontecia, geralmente alimentava-se apenas com biscoitos e bebidas diet, por gostar de ter a sensação de que estava equilibrando as calorias em relação aos dias em que havia abusado delas.

No papel, a cada tira cômica, Emily e sua amiga Cari, que durante os últimos anos vinha apresentando muitas características da personalidade de Tina, planejavam e arquitetavam mil maneiras de descobrir os segredos do srta. Misteriosa. Iria chamá-la de "Lambertine", mas não por muitos episódios.

Durante três dias, Lica mal saiu da mesa de desenho. Tina tinha uma cópia da chave de seu apartamento, por isso não era necessário ficar se preocupando em atender à porta quando a amiga aparecia para uma visita. E Tina nunca fazia cerimônia para abrir a porta para a algum outro vizinho que decidia visitar Lica.

De fato, em um dado momento da terceira noite, havia tantas pessoas no apartamento de Lica que foi possível fazer até uma festinha informal, enquanto ela terminava de colorir a tira cômica que sairia no jornal de domingo.

Alguém havia ligado o aparelho de som, mas a música não a distraiu. Os risos e a conversação chegavam até seus ouvidos, vindos do andar de baixo, mas ela não se importava com isso. Gostava da animação de seus vizinhos, mesmo quando não podia compartilhá-la.

Sentiu um delicioso aroma de pipoca e imaginou se alguém levaria um pouco para ela. Encostando-se na cadeira, examinou o que já estava pronto em seu trabalho. De fato, não tinha a veia irônica nem a genialidade artística de sua mãe, mas tinha o que poderia ser considerado como um "talento inusitado".

Tinha a mão muito ágil e precisa para o desenho. Sim, gostava do que fazia e do resultado final de seu trabalho. Mas gostava principalmente do fato de ele fazer as pessoas rirem.

Se a Lambertine, do 8B, achava que ela ficara ofendida com o comentário dela, estava muito enganada. Lica estava mais do que contente com seu "talento inusitado para o absurdo".

Agitada pelo êxito de três dias de trabalho intenso, pegou o telefone assim que este começou a tocar.

-   Alô?

-   Ora, ora, se não é minha neta preferida.

-   Vovô! - Lica se encostou na cadeira, com um sorriso satisfeito.

-   Eu estava morrendo de saudade, mas não me venha com essa história de "neta preferida", porque eu sei que você diz isso para a Clara também.

-   "Morrendo de saudade"? – Mauricío repetiu. - Então por que não me telefonou ou para sua avó? Você sabe quanto ela se preocupa com você, aí sozinha, nessa cidade imensa.

-   Sozinha? - Com um sorriso, ela segurou o telefone no alto, para que o som da festa no andar de baixo de seu apartamento pudesse ser ouvido por seu avô. – A mamãe mora a uma hora daqui . E parece mesmo que estou sozinha, vovô?

-   Está com seu apartamento cheio de pessoas de novo?

-   É o que parece. E vocês, como estão? Está tudo bem por aí? Quero saber tudo.

Os dois passaram a conversar a respeito da família. Lica ouvia tudo com um brilho de divertimento no olhar, rindo e fazendo seus próprios comentários de vez em quando. Ficou contente ao saber que havia uma reunião familiar marcada para dali a algumas semanas.

-   Que bom! Mal posso esperar para ver todos novamente. Parece que faz tanto tempo que nos vimos, desde o casamento de Clara e Juca, no último outono. Estou morrendo de saudade de vocês.

-   Ora, então por que esperar até a reunião de família? Você sabe que estamos aqui o tempo todo.

 

-   Talvez eu faça uma surpresa a vocês.

-   Pois telefonei para fazer uma a você - declarou, com seu costumeiro tom firme mas bem-humorado. – Depois do casamento de sua irmã, so falta você casar.

-   Bem, em último caso, ainda me resta a chance de jogar tudo para o alto e me casar com Alice.

-   Aquele garota com boca de peixe?

-   Não, vovô. - Ela riu.

-   Ela só beija como um peixe. De qualquer maneira, sim, é ela mesmo.

Mauricío fungou, impaciente

-   Você precisa é de uma companheira, não de uma truta vestida com um vestido caro. Uma mulher com mais interesses na mente do que apenas dólares e investimentos. Alguém que entenda de arte e que tenha juízo suficiente para mantê-la longe de problemas.

-   Sei me manter longe de problemas - lembrou Lica, achando melhor não mencionar o incidente daquela fatídica noite.

-   Além disso, vovó não iria gostar que eu o roubasse dela, portanto, terei de me

Conformar em continuar sozinha, aqui, nesta imensa cidade. Mauricío riu alto, do outro lado da linha.

-   Com todos as mulheres que existem em São Paulo, não é possível que não acabe encontrando uma. Você sai para passear de vez em quando, não sai? Não acredito que passe o dia inteiro sentada aí, desenhando seus papéis engraçados.

-   Tenho feito isso apenas ultimamente, porque tive uma ótima idéia e precisei aproveitá- la logo. Estou com uma vizinha nova, vovô. Ela é meio taciturna e reservada. Bem, digamos que ela é "certinha" demais e que detesta que invadam o espaço dela. Acho que ela está desempregada, embora toque baixo de vez em quando em um clube aqui perto.É simplesmente a vizinha perfeita para Emily.

-   Só isso?

-   Bem, ela passa o dia inteiro fechada no apartamento e não fala com ninguém. O nome dela é Lambertine.

-   Mas se ela não fala com ninguém, como sabe o nome dela?

-   Vovô. – Lica sorriu com ar travesso. - Alguma vez já me viu desistir de falar com alguém quando decido fazer isso? Não que ela seja do tipo que se solta depois de alguns biscoitos de chocolate, mas, mesmo assim, consegui descobrir o nome dela.

-   E o que achou dela? - indagou Mauricío, fingindo um tom casual.

-   Ela parece muito, muito incrível. Capaz de deixar Emily maluquinha.

-   É mesmo? - Mauricío riu com satisfação.

Quando conseguiu saber tudo o que precisava da neta, Mauricío fez a ligação seguinte. Cantarolando baixinho e examinando as unhas, lustrou-as sobre a camisa e sorriu quando Samantha atendeu ao telefone com um impaciente:

-   Sim, o que é?

-   Ah, essa sua natureza dócil sempre me deixa surpreso, Lambertine. Chega até a me comover.

-   Sr. Gutierrez?

Samantha ajeitou na cadeira no mesmo instante. Não havia como confundir aquele sotaque. Mudando subitamente de humor, riu e afastou-se do computador.

-   Isso mesmo, minha garota. Como está se saindo no apartamento?

-   Muito bem. Quero lhe agradecer mais uma vez por me deixar usá-lo enquanto minha casa continua naquela infinita reforma. Eu nunca conseguiria trabalhar com todo aquele barulho. - Dizendo isso, lançou um olhar de censura para a parede, enquanto o barulho do outro apartamento lhe chegava aos ouvidos.

-   Não que a coisa esteja muito diferente por aqui esta noite. Minha vizinha parece estar comemorando alguma coisa.

-   Lica? Ela é minha neta, sabia? Uma garota muito sociável.

-   Até demais - falou Samantha, quase em um resmungo. - Imaginei que ela fosse sua neta, por causa do sobrenome

-Bem, apenas informalmente. Precisa se soltar um pouco, garota, e ir participar da festa.

-   Não, muito obrigado. - Ela preferiria saltar de pára-quedas, sem pára-quedas.

-   Acho que metade da população do bairro deve estar lá nesse momento. Este seu prédio, Mauricío, está cheio de pessoas que preferem mais falar do que viver. E sua neta parece ser a líder da "gangue de tagarelas".

Mauricío riu. Admirava a sinceridade de Samantha Lambertine.

-   Ela gosta apenas de ser amigável com todos - disse, em defesa da neta.

-   De qualquer modo, fico mais tranqüilo em saber que você está morando no apartamento em frente ao dela. Você é uma moça sensível, Samantha. Por isso não me importo em pedir que você fique de olho nela. Lica é muito ingênua às vezes, se é que entende o que eu quero dizer. Eu me preocupo com ela.

Samantha riu, lembrando-se de quando a vira acertar uma boa ajoelhada nas "partes baixas" do bandido que tentara atacá-la.

-   Eu não me preocuparia se fosse o senhor. Pode acreditar.

-   Bem, não vou mesmo me preocupar sabendo que você está por perto. Minha Lica... Ela é uma gracinha, não é?

-   Linda como uma flor - anuiu Samantha.

-   E inteligente. Também é responsável, embora às vezes pareça levar a vida feito uma borboleta esvoaçante. Ora, mas também não é possível ser um iceberg e conseguir produzir uma tira cômica por dia para um jornal, não é mesmo? Só tendo muito senso de humor, e isso é o que não falta à minha Lica.

-   Sem dúvida, sr.

-   Para trabalhar nesse tipo de coisa - continuou Mauricío -, é preciso ser criativa, ter uma boa veia artística e ser prática o suficiente para encontrar temas nas situações do dia-a-

dia. Mas você sabe de tudo isso melhor do que ninguém, certo? Escrever roteiros de teatro também não é um trabalho fácil.

-   Não mesmo - concordou Samantha, massageando os olhos cansados depois de horas diante do computador.

-   Mas você tem o dom, minha garota. Um dom raro que eu admiro muito.

-   Esse dom tem sido mais como uma maldição para mim ultimamente, sr., mas obrigado pelo elogio mesmo assim.

-   Precisa sair um pouco, arejar a mente, beijar uma bela garota... Não que eu entenda muito do processo de escrever, embora tenha dois netos que se dedicam a isso, e muito bem por sinal. Deveria aproveitar mais o fato de estar aí, em São Paulo, antes de voltar para sua cidade e se fechar em sua casa.

-   Talvez eu ainda faça isso.

-   Oh, srta Lambertine? Poderia me fazer o favor de não mencionar a Lica que eu lhe pedi para ficar de olho nela? Ela não gosta muito de superproteção. Mas é que a avó dela vive preocupada com aquela menina e, você sabe como é, na idade em que estamos não é bom facilitar...

-   Pode ficar tranqüilo, Mauricío, Não direi nada a ela – Samantha prometeu.

Ciente de que aquele barulho não o deixaria mesmo trabalhar, Samantha saiu do apartamento. Tocou no clube de Renata, mas, dessa vez, nem mesmo a música a  distraiu dos pensamentos que andavam rondando sua mente.

De onde estava, sobre o palco, não era difícil imaginar Heloísa sentada no fundo do salão, com o queixo apoiado sobre a mão, os lábios curvados em um sorriso e um brilho sonhador no olhar. De fato, ela conseguira invadir um de seus bens mais preciosos: a música. E ela estava se sentindo profundamente irritada com isso.

O Delta era um de seus refúgios. Havia noites em que ela viajava de carro do Rio a São Paulo só para subir no palco com Guto e tocar até que toda sua tensão desaparecesse por meio da música.

Então voltava para casa ou, se já. fosse muito tarde, apenas se acomodava em um sofá no fundo do Delta e dormia até a manhã. Ninguém a aborrecia no clube ou esperava que ela desse mais do que queria dar.

Mas depois que Heloísa estivera ali, seu olhar insistia em se voltar para a mesa que ela havia ocupado, enquanto ela se flagrava imaginando se ela não estaria ali, observando- a com aqueles olhos de pantera.

-   Garota - disse Guto, tomando um gole de água da garrafa deixada ao lado do piano -,

você está mesmo esquisita esta noite.

-   Sim, acho que sim.

-   Geralmente, quando quando mulher fica com essa expressão, é porque há algum homem envolvido na história, no seu caso mulher.

Samantha balançou a cabeça, negando o fato mais para si mesma do que para o amigo.

-   Não, não há nenhuma mulher. Estou preocupada com o trabalho.

Guto se limitou a dar de ombros enquanto Samantha voltava a se concentrar no baixo.

-   Se é o que você diz...

Samantha chegou em casa às três horas da manhã, preparado para bater à porta do apartamento de Heloísa e exigir silêncio. Por isso, foi um alívio chegar e descobrir que a festa havia terminado. Não se ouvia nenhum ruído vindo do apartamento dela.

Entrou em casa, trancou a porta e prometeu a si mesma que aproveitaria ao máximo aquele momento de paz. Depois de preparar um café forte, acomodou se novamente diante do computador, preparando-se para entrar na mente das personagens que estavam arruinando suas próprias vidas por não conseguirem seguir os impulsos de seus corações.

O sol já estava alto quando ela parou de trabalhar, depois que o súbito surto de energia criativa que se apoderara de sua mente finalmente se desvaneceu. Concluiu  que aquele fora o primeiro trabalho mais consistente que ela conseguira realizar na última semana, e decidiu comemorar isso caindo sobre a cama com a mesma roupa com que estava vestida.

Não demorou muito para começar a sonhar. Um belo rosto com expressivos olhos se apoderou da maioria das imagens que surgiram em meio a seu estado onírico. E juntamente com ele, uma voz insistente que parecia não parar mais de falar.

Por que tudo tem de ser tão sério?, ela perguntou, rindo ao deslizar a mão sobre o abdomen dela.

Porque a vida é um negócio sério.

Mas esse é apenas um dos lados da moeda. E há muitas e muitas moedas em nossa vida. Não vai dançar comigo?

Ela já estava dançando. Estavam no Delta, e embora o clube estivesse vazio, havia música no ar. Uma música suave e sensual.

Não vou ficar de olho em você. Não conseguirei fazer isso. Mas você já está.

Samantha apoiava o queixo no ombro dela. Quando ela inclinou a cabeça para o lado e mordiscou-lhe o queixo com sensualidade, ela sentiu um arrepio pelo corpo.

Ficar de olho em mim não é tudo que você quer fazer comigo, não é? Eu não quero você.

Ouviu-se uma risada leve como o ar.

Acha que adianta negar isso até mesmo em seus sonhos? Pode fazer o que quiser comigo em seus sonhos. Não fará diferença.

Eu não quero você, ela repetiu, já deitando-se com ela sobre o chão.

Samantha acordou ofegante e suando, enrolada entre os lençóis. Depois de alguns segundos, quando sua mente finalmente começou a clarear, não conteve o riso.

Heloísa era mesmo uma ameaça, concluiu. De fato, a única coisa que parecera mais sensata em seu sonho erótico fora o detalhe de ela repetir que não a queria.

Depois de passar as mãos pelo rosto, olhou para o relógio ainda em seu pulso. Já passava das quatro horas da tarde, e foi somente então que ela se deu conta de que aquela fora a primeira vez que ela conseguiria dormir por oito horas na última semana. Que culpa tinha ela, se seu relógio biológico andava meio maluco?

Ao chegar à cozinha, notou que teria de descer e comprar algo para comer. Tomou um banho e lavou seu cabelo, deixando-o ainda mais volumoso, depois de três ou quatro dias sem fazê-lo.

Pensou em comer algo fora, para ter uma refeição decente. Quem sabe assim teria mais ânimo de enfrentar o horror de ter de fazer compras e ver todas aquelas pessoas armazenando carrinhos e mais carrinhos de comida no mercado.

Já vestida e sentindo-se mais bem-disposta, abriu a porta.

Lica abaixou a mão que havia acabado de levantar para tocar a campainha.

-   Graças a Deus que você está em casa.

Samantha não conseguiu deixar de se lembrar do sonho que tivera havia poucas horas.

-   O que foi?

-   Você precisa me fazer um favor.

-   Não, não preciso não.

-   Mas é uma emergência! - Ela a segurou pelos braços antes que Samantha pudesse se afastar. - E uma questão de vida ou morte! A minha vida e muito provavelmente a morte de Katiane, sobrinha da Josefina. Sim, porque uma de nós vai morrer se eu tiver de sair com ela! Foi por isso que eu disse a ela que já tinha um encontro esta noite.

-   E você acha que eu tenho algo a ver com isso porque...

-   Oh, não seja ranzinza justo agora, Lambertine. Não está vendo que sou uma mulher desesperada?! Ouça, ela não me deu tempo de pensar, e eu sou péssima com mentiras. Quero dizer, não minto com muita freqüência, por isso não consigo mentir direito. Ela ficou insistindo em perguntar com quem eu ia sair, e eu não consegui pensar em ninguém mais a não ser você.

Lica continuou de pé bem diante dela, impedindo-a de sair. Samantha respirou fundo, tentando se manter paciente.

-   Vamos deixar uma coisa bem clara, está bem? - disse a ela. - Isso não é problema meu.

-   Não, eu sei que é meu. E com certeza teria inventado uma coisa melhor se ela não houvesse me pegado de surpresa, enquanto eu estava trabalhando e pensando em outra coisa. - Desesperada, Lica passou a mão pelos cabelos, .

-   Ela vai ficar me vigiando, entende? Vai querer se certificar de que eu vou mesmo sair com alguém.

Dizendo isso, começou a andar de um lado para outro massageando as têmporas, como que para estimular os pensamentos. Samantha aproveitou o momento de distração de Lica e começou a seguir em frente pelo corredor.

-   Ouça, tudo que terá de fazer será me acompanhar para fora do prédio fingindo ser alguém que está interessada em mim - falou ela, atrás de Samantha.

-   Poderemos tomar um café, ou algo do gênero, e passar algumas horas fora antes de voltarmos. Sim, porque ela também vai saber se não voltarmos juntas. Aquela mulher sabe de tudo! Prometo que lhe pagarei cem reais por isso.

Ouvir aquilo a fez parar de repente.

-   Quer me pagar para que eu saia com você?

-   Não é bem assim, mas é quase - admitiu Lica. - Sei que o dinheiro lhe será útil, e acho justo compensá-la pelo tempo que você vai gastar. Cem reais, Lambertine, por algumas horas. Ah, e eu pagarei o café.

Samantha se encostou na parede e ficou observando-a. A idéia parecia tão absurda que chegava a ser cômica.

-   Nem um pedaço de torta? - perguntou a ela. A risada de Lica foi de puro alívio.

- Torta? Você quer torta? Pois terá sua torta.

-   Onde está ele? - indagou Samantha, olhando para o bolso dela.

-   Ele? Ah... o dinheiro? Espere um pouco aqui.

Lica entrou no apartamento e Samantha pôde ouvi-la andando de um lado para outro, abrindo e fechando gavetas e armários.

-   Deixe-me apenas me arrumar um pouco - disse ela, lá de dentro.

-   O cronômetro está correndo, garota.

-   Tudo bem, tudo bem. Onde diabos está minha... A-ha! Dois minutos, só dois minutos. Não quero que ela fique dizendo por aí que saio com garotas sem nem mesmo arrumar o cabelo.

Samantha teve de admitir: quando ela dizia dois minutos realmente eram dois minutos. Quando voltou, dois minutos depois, estava usando o mesmo par de  coturnos e a jaqueta de couro. Devia ser a roupa de guerra dela, concluiu ela. Uma "inusitada preferência pelo tom preto".

-   Ficarei muito agradecida por isso - disse Lica.

-   Sei que a situação deve estar parecendo ridícula, mas é que não tenho coragem de magoá-la.

-   Se os sentimentos da mulher valem cem reais para você, tudo bem. - Samantha deu de ombros.

-   E melhor para mim - acrescentou, guardando o dinheiro no bolso de trás da calça. - Agora vamos. Estou faminta.

-   Oh, quer jantar? Também posso lhe pagar um jantar. Há um restaurante ótimo no final da rua, onde eles servem massas deliciosas. Tudo bem, vamos começar o teatrinho agora - avisou ela, enquanto se encaminhavam para a saída do prédio.

-   Finja que não sabe que está sendo observada por ela. Aja naturalmente e segure minha mão, está bem?

-   Por quê?

-   Ah, pelo amor de Deus, Lambertine! - respondeu ela por entre os dentes, entrelaçando os dedos com firmeza entre os dela e sorrindo com ar sonhador. - Estamos saindo para um encontro, lembra-se? Nosso primeiro encontro. Faça um esforço e finja que está se divertindo.

-   Mas você só me deu cem reais.

A ironia fez Lica dar uma gargalhada.

-   Puxa, você é mesmo "durona", 8B. Vamos saborear uma refeição quente e ver se isso melhora seu humor.

De fato, melhorou e muito. Seria preciso ser um pessoa muito mais mal-humorada do que ela para conseguir resistir ao apelo de uma enorme travessa cheia de espaguete com almôndegas, aliada à esfuziante companhia de Lica.

-   Maravilhoso, não é mesmo?! - falou ela, gostando de vê-la saborear o prato com tanta empolgação.

Provavelmente a coitada não tinha uma refeição decente havia semanas, pensou ela, lembrando-se do apartamento vazio. Talvez ela estivesse mesmo com dificuldades financeiras.

-   Sempre como demais quando venho aqui - confessou. - Eles servem uma porção suficiente para meia dúzia de adolescentes famintos, mas acho que é isso que dá um certo charme ao lugar. Toda essa fartura. Depois, termino sempre levando para casa. o que sobrou e comendo demais também no dia seguinte. Mas dessa vez poderá me salvar levando um pouco para sua casa - acrescentou ela, com um sorriso.

-   Negócio fechado - respondeu Samantha, tocando a taça de Chianti na dela.

-   Sabe de uma coisa? Aposto que há dezenas de clubes noturnos na cidade que se mostrariam mais do que interessados em contratá-la.

-   Hum?

-   Para tocar.

Lica sorriu novamente para ela, que não resistiu ao impulso de observar aqueles lábios polpudos e convidativos.

-   Você é muito boa no que faz - continuou ela. - Aposto que conseguirá arranjar um bom emprego logo, logo.

Divertindo-se com o comentário, Samantha levantou a taça novamente, sugerindo outro brinde. Então a Heloísa Gutierrez pensava que ela era uma músicista desempregada? Bem, melhor assim.

-   As oportunidades vêm e vão - foi tudo que Samantha falou.

-   Você toca em festas particulares? - Subitamente animada, ela se inclinou sobre a mesa. - Conheço uma porção de pessoas, e há sempre alguém oferecendo uma festa.

-   Imagino que isso seja mesmo muito comum no seu círculo social - ironizou Samantha.

-   Posso divulgar seu nome, se quiser. Importa-se de viajar?

-   E para onde eu iria?

-   Alguns dos meus amigos são donos de hotéis - explicou Lica. – Campinas não fica muito longe daqui. Acho que você não tem carro, certo?

Samantha conteve a vontade de rir, lembrando-se de seu Porsche "novinho em folha" guardado em uma garagem do prédio.

-   Não aqui comigo - foi sua resposta.

Lica sorriu, mordiscando um pedaço de pão.

-   Bem, de qualquer maneira, não é difícil se deslocar de São Paulo para Campinas.

Por mais divertido que aquilo estivesse sendo, Samantha achou melhor amenizar um pouco as coisas.

-   Heloísa, não preciso de alguém para administrar minha vida.

-   Ela fez uma careta.

-   Eu sei. Esse é um dos maus hábitos dos quais não consigo me livrar. - Sem parecer ofendida, ela partiu o pedaço de pão em dois e ofereceu um a ela.

-   Eu me envolvo demais com as coisas - admitiu.

-   Depois fico aborrecida quando as outras pessoas se metem na minha vida. Como a Malu, atual presidente do partido "Vamos Encontrar uma Pretendente para Lica". Aquela mulher quer controlar minha vida. Isso me deixa furiosa.

-   Porque você não quer uma pretendente – afirmou Samantha.

-   Oh, sei que encontrarei uma no devido tempo. Vir de uma família grande meio que nos predispõe... A mim, pelo menos... A querer ter uma também. Mas ainda há muito tempo para isso. Gosto de morar na cidade grande e de fazer aquilo que quero quando eu quero. Detestaria ter de me submeter a horários rígidos, o que, definitivamente, não combina com meu trabalho de criação. Não que o meu trabalho não exija um certo tipo de disciplina, mas sou eu quem a faz, do meu jeito. Como acontece com sua música, imagino eu.

-   Creio que sim - anuiu Samantha.

O trabalho dela raramente se tornava um prazer, como o dela parecia ser. Mas sua música, sem dúvida, era feita por prazer.

-   Ei, Lambertine - começou ela, com outro de seus sorrisos marotos -, quantas vezes você realmente já se soltou e respondeu a uma pergunta com mais do que três frases curtas em uma mesma conversa?

Samantha comeu o último pedaço de almôndega de seu prato e olhou para ela.

-   Gosto do mês de novembro. Geralmente, falo muito mais em novembro. É o tipo de mês de transitoriedade que faz com que eu me sinta mais filosófica.

- Três de uma única tacada - brincou ela. - E todas inteligentes. - Sorriu para Samantha.

-   Você tem um senso de humor escondido em algum lugar, não tem? - Antes que ela pudesse responder, Lica se recostou na cadeira com um suspiro e perguntou:

-   Quer sobremesa?

-   Claro que sim - respondeu Samantha, como se aquela fosse a resposta mais óbvia. Lica sorriu.

-   Tudo bem, mas não peça o tiramisu, porque serei forçada a lhe implorar um pedaço, depois dois e então terminarei comendo metade dele e provavelmente entrarei em coma.

Sem desviar os olhos dos dela, Samantha fez um sinal para o garçom, com a autoridade casual de uma mulher acostumada a dar ordens. Aquilo fez Lica franzir o cenho.

- Tiramisu - pediu ela, sem hesitar. - E dois garfos - acrescentou, fazendo Lica rir alto. - Talvez entrando em coma, você fale menos.

-   Acho que nem assim - salientou ela, ainda rindo. - Falo até dormindo, sabia? Minha irmã costumava ameaçar pôr um travesseiro na minha cabeça.

-   Acho que eu iria gostar de sua irmã.

-   A Clara é maravilhosa. Provavelmente o seu tipo também. Contida, sofisticada e inteligente. Ela dirige sua propria grife de moda.

Samantha notou que estavam quase terminando de tomar a garrafa de vinho. O Chianti era mesmo muito bom, e provavelmente estava sendo a causa de ela se sentir tão relaxada. De fato, não se sentia assim havia semanas. Ou meses. Talvez anos.

-   Então vai me apresentar a ela?

-   Acho que ela iria gostar de você - considerou Lica, observando-a por sobre a borda da taça e apreciando a sensação de leveza que a bebida lhe dera.

-   Você é bonita de uma maneira meio... Como posso dizer... Meio selvagem, acho. Além disso, toca um instrumento musical, o que apelaria para o lado de Clara que é sensível às artes.

E é auto-suficiente demais para tratá-la como alguém da realeza. Muitos mulheres fazem isso, por causa da grife.

-   E mesmo? - Samantha se surpreendeu.

-   Clara detesta esse tipo de atitude, por isso acaba sempre tendo de dispensá-las, como amigas. Provavelmente terminaria arrasando seu coração - completou Lica, fazendo um gesto com o copo.

-   Mas a experiência seria boa para você.

-   Não tenho coração - declarou ela, quando o garçom chegou com a sobremesa. - Pensei que já houvesse deduzido isso.

-   Claro que tem. - Com um suspiro de rendição, Lica pegou o garfo e provou a primeira porção do doce, com um gemido de prazer. - Só que você o mantém guardado dentro de uma armadura, para que ninguém possa feri-lo novamente - finalizou ela. - Deus, não é maravilhoso? Não deixe que eu coma mais do que esse outro pedaço, está bem?

Samantha continuou a observá-la, aturdida com a precisão com que Lica tão casualmente a descrevera, sendo que nem mesmo aqueles que diziam amá-la haviam chegado tão perto.

-   Por que disse isso?

-   Isso o quê? Eu não lhe disse para não me deixar comer mais disso? Está querendo me matar?

-   Esqueça. - Decidindo deixar o assunto de lado, Samantha afastou o prato do alcance dela. - O restante é meu - disse e começou a comer.

Felizmente, teve de ameaçar dar uma garfada na mão de Lica apenas uma vez.

-   Nem sei como agradecer por você haver me livrado de ter de sair com a Katiane - disse Lica, quando as duas voltavam para casa.

-   Por que simplesmente não diz a toda essa gente que não está interessada em ter uma namorada? - perguntou Samantha, intrigada.

Ela suspirou.

-   O problema é que não tenho coragem de magoar ninguém, e acabaria fazendo isso ao dizer a verdade. Elas só querem o meu bem.

-   Mas estão controlando sua vida, Lica, mesmo que com a melhor das intenções.

-   Oh, eu não sei o que fazer! - Ela exalou outro suspiro. - Veja meu avô, por exemplo. Ele... É meio complicado, mas tentarei resumir ao máximo.

-   Será que terei mesmo o privilégio de presenciar esse milagre? - Samantha arqueou uma sobrancelha.

-   Pare de me provocar - ralhou Lica, sem conter o riso. - Bem, meu avó Maurício Gutierrez,ele é o pai do Edgar, meu pai, basicamente ele teve um caso e engravidou outra mulher quando ainda era casado com a minha mãe, e assim nasceu a Clara. Crescemos juntas, hoje minha mãe é casada com o Luiz que era casado com a Malu, mãe da Clara que teve um caso com meu pai... - Lica começou a rir, tendo de se apoiar nela para não perder o equilíbrio. - Acho que tomei vinho demais. Deixe-me ver... Sim, já lembrei. Casamenteiros. -o que meu avô, que por acaso é, mostra ser em todos os sentidos. Quando o assunto é arranjar casamentos, é ele quem dita as regras. O homem é uma verdadeira raposa, Lambertine. Você nem imagina... - Lica parou um instante e começou a contar nos dedos. - Hum... Até agora, acho que todos ao seu redor se casaram com pretendentes arranjados por ele.

-   O que você quer dizer com "arranjados"?

-   Não me pergunte como, mas ele meio que escolhe a pessoa certa  e depois dá um jeito de uni-los de alguma maneira, deixando a natureza seguir seu curso. Então, antes que você se dê conta, já está a caminho do altar. No último telefonema, ele jogou na minha cara que a Clara está casada. Meu avô está nas nuvens.

-   E alguém já mandou ele parar de se meter na vida dos netos?

-   Ah, constantemente - respondeu Lica, lembrando-se das reprimendas da avó.

-   Mas ele não dá atenção.

-   E quanto a você?

-   Ah, sou esperta demais para ele. Conheço todos seus truques e não pretendo me apaixonar tão cedo. E você, já esteve lá?

-   Lá onde?

-   Na terra dos apaixonados, Lambertine. Não seja tão lenta.

-   Ora, não é um lugar, é uma situação. E não, acho que realmente não estive lá.

- Mas acabará indo - falou Lica, com ar sonhador. - Eventualmente... - Ela ia dizer mais

alguma coisa, mas parou de repente.

-   Essa não! Aquele é o carro da Katiane. Pelo visto, ela acabou vindo mesmo. Droga, droga, droga! Muito bem, lá vamos nós novamente com o plano. - Dizendo isso, virou-se para Samantha, mas teve de se apoiar nela ao sentir uma onda de tontura. - Eu não deveria ter tomado aquela última taça de vinho, mas acho que ainda sou dona do meu destino.

-   Pode apostar que sim, menina. Lica fez uma careta de desagrado.

-   O suficiente para saber que o fato de você me chamar de "menina" demonstra que está sendo arrogante e querendo parecer superior a mim, você não é muito mais velha que eu, mas isso não vem ao caso. Teremos apenas de andar mais um pouco de mãos dadas, até passarmos pela janela da casa dela. Com muita naturalidade, está bem?

-   Não vai ser fácil, mas verei o que posso fazer.

-   Adoro essa sua veia sarcástica. Muito bem, estamos prontas e preparadas. Agora vamos ficar só mais um pouco aqui porque ela está olhando - acrescentou Lica, arriscando um -olhar na direção da janela da casa de Josefina. - A qualquer momento a cortina vai se fechar. Tenho certeza.

O fato de a situação não oferecer nenhum risco, e de ela estar começando a se divertir com tudo aquilo, manteve Samantha no lugar. Segundos depois, olhou disfarçadamente para trás, tentando notar se a mulher continuava à janela.

-   Parece que ela não vai desistir assim tão fácil. O que faremos agora? Lica moveu os olhos com rapidez, como que tentando pensar em algo.

-   Terá de me beijar.

-   O quê?!

-   E terá de ser convincente - salientou ela. - Se formos convincentes, ela se convencerá de que não estou realmente interessada na Katiane. Prometo que lhe pagarei mais cinquenta reais por isso.

Samantha teve de se esforçar para continuar séria.

-   Então, vai me pagar mais cinquenta para que eu a beije?

-   Como um bônus - justificou Lica. - Farei qualquer coisa para mandar a Katiane de volta para casa dela. Aja como se estivesse sobre o palco, representando. Isso não precisa significar realmente alguma coisa. Ela ainda está olhando? - perguntou, mudando de posição.

-   Sim - respondeu Samantha, mesmo sem olhar para a janela.

-   Ótimo, então vamos lá. Aja com romantismo, está bem? Posicione os braços assim, em torno do meu pescoço, incline-se um pouco e...

-   Sei como beijar, Lica.

-   Claro que sabe. Mas um pouco de ensaio não fará nenhum mal...

Samantha se deu conta de que a única maneira de fazê-la parar de falar seria agindo. Em vez de circundar os braços em torno dela, puxou-a de uma vez para si. A última coisa que viu antes de seus lábios esmagarem os dela, foram os expressivos olhos se arregalarem de espanto.

Ela estava certa. Completamente certa, pensou Lica. De fato, ela realmente sabia como beijar. Teve de se apoiar nos ombros dela para não cair. Então, para seu próprio espanto, deixou escapar um gemido.

Sentia a cabeça zonza, como se, de repente, as duas estivessem em outro lugar, longe das pessoas e do mundo. Seu coração acelerado parecia estar batendo alto a ponto de ser ouvido, e seu corpo se tornara trêmulo, vulnerável ao apelo sensual da proximidade daquela que estava se tornando uma pessoa cada vez mais presente em seus pensamentos mais íntimos.

Era quase como no sonho, pensou Samantha, só que melhor. Muito melhor. O sabor dos lábios de Lica era adocicado e único, incapaz de ser resgatado apenas pela imaginação. Depois de saboreá-los com voracidade, afastou-a um pouco, mas somente para verificar se o ar de desejo estava tão evidente no semblante dela quanto deveria estar na dela.

Lica ficou olhando para ela, ofegante, ainda com os braços circundando seu pescoço.

-   O próximo é meu - disse ela.

Então Lica se entregou mais uma vez àquele turbilhão de sensações deliciosas e provocantes. Não protestou quando Samantha insinuou a língua por entre seus lábios e começou a explorar os recantos mais secretos de sua boca.

Quando ela se afastou pela segunda vez, moveu-se tão devagar que foi quase como se não quisesse fazê-la. Lica queria poder tê-la ali mesmo, em meio à penumbra da noite e sob os olhares surpresos, e provavelmente escandalizados, dos transeuntes. Pouco lhe importava que olhassem. Queria saciar aquela sua sede pela energia sensual de Samantha. De fato, só se conteve por saber que uma atitude mais ousada acabaria assustando-a. Samantha própria estava assustada com sua reação. Era como se sempre houvesse guardado um vulcão dentro de si que, de repente, resolvera entrar em erupção.

-   Acho que isso será suficiente - disse a Lica.

-   Suficiente? - repetiu Lica, como se houvesse acabado de chegar de outro planeta.

-   Suficiente para convencer essa Josefina.

-   Josefina? - Ela balançou a cabeça, tentando ordenar os pensamentos. - Oh, sim, claro. Puxa, você é mesmo muito boa nisso, Lambertine.

Um sorriso relutante curvou os lábios dela. A sinceridade de Lica era realmente encantadora, pensou Samantha. E perigosamente irresistível.

-   Você também é muito boa nisso- respondeu ela, conduzindo-a em direção à entrada do prédio.


Notas Finais


Quem ai também está pirando com esse "encontro" do nosso casal? Será que finalmente Samanthinha vai amolecer com a nossa menina Lica?
To louca para saber a teoria de vocês!
Até o próximo capitulo.


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