História Quarentena - ABO - Capítulo 1


Escrita por: e Monsieur_Park

Visualizações 85
Palavras 4.127
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Ficção Científica, Lemon, Luta, Mistério, Romance e Novela, Saga, Survival, Suspense, Terror e Horror, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oi, tudo bem?
Essa é mais uma fanfic minha, Monsieur_Park, e da Mlle_Kim. De longe é uma das que eu mais gosto e espero que vocês também gostem dela.
Quisemos fazer uma coisa diferente com esse universo ABO e é a primeira vez que nós dois vamos tratar dessa tag.
Estava com saudades de postar alguma coisa e ansioso para esse, que estamos planejando e pensando a muito tempo já.
Se você ainda não viu o Short Film, o link vai estar nas notas finais.

Boa leitura.

Capítulo 1 - Etapa 1 - Adsorção



"... Meteorologistas dizem ser o inverno mais rigoroso dos últimos vinte anos. As montanhas estão praticamente inacessíveis e as estradas sendo cobertas pela neve numa velocidade maior que os veículos responsáveis pela sua retirada conseguem desobstruir. Autoridades sugerem que os moradores de Yeongju permaneçam em suas residências..."

Enquanto escutava o rádio, eu observava minha respiração se condensar na janela do ônibus. Era divertido escrever inúmeras letras "T" na superfície fria, observando-as desaparecer uma a uma. A voz no rádio tinha razão, fazia muito frio e, para minha felicidade, as aulas haviam acabado mais cedo naquele dia. Na rua, uma menina de galochas vermelhas andava escorregando na neve, segurando firmemente a mão de sua mãe para evitar a queda. Ela parecia se divertir, mas a mulher tinha um olhar preocupado e perdido em pensamentos. Sorri quando a menina acenou para mim e eu acenei de volta, fazendo uma careta para vê-la colocar a mão sobre os lábios e sorrir com os olhos. E então, o ônibus virou a esquina.

"... Temos registros de cadáveres de lobos sendo encontrados por motoristas que conseguiram passar perto da encosta das montanhas, voltando para a província. Alguns deles que pararam para olhar os cadáveres, dizem não haver marcas de ferimentos aparentes. Estudiosos não excluem as mortes em massa por conta do frio, pois esses novos lobos das montanhas nunca presenciaram um inverno como esse... "

Toquei a ponta do nariz com as luvas, tentando esquentá-lo de alguma forma. A idosa roliça que antes estava sentada ao meu lado, havia se levantado e deixado de compartilhar seu calor comigo. Agora, me encolhia no banco, esperando pacientemente que o ônibus quase vazio parasse no meu ponto, para que eu pudesse chegar em casa e aproveitar o aquecedor. Maldito frio.

"...Em contrapartida, várias pessoas nas regiões montanhosas próximas ao litoral da Coréia e no norte da província de Gyeongsang estão apresentando estranhos comportamentos na última semana. Muitas delas foram interceptadas pela polícia cometendo atos ilícitos ou imorais. Algumas testemunhas assimilaram as características apresentadas como tipicamente caninas, como farejar, rosnar e agredir alguns passantes..."

Eu apertei os fones de ouvido, prestando atenção ao que o homem do outro lado do rádio dizia. Lobos morrendo e pessoas assumindo suas características. Aquilo era ao mesmo tempo bizarro e curioso.

"...Exames foram realizados nesses homens-cães, para verificar se havia uma nova droga no sangue, porém nenhuma nova substância foi encontrada. Aguardaremos mais testes para novas informações..."

Dei o sinal no ônibus, descendo em uma rua paralela a minha. Meus pensamentos alternavam entre a notícia estranha dos lobos, a neve que molhava meus sapatos me fazendo prometer que compraria galochas e o novo jogo de vídeo game que Jungkook disse que iria me mostrar. Ele sempre comprava todos os jogos de última geração por causa do seu console igualmente tecnológico e eu precisava ficar indo a casa dele se quisesse jogar, ou me contentava com game plays.

Qual desculpa eu daria para ir a casa dele dessa vez? Que ele estava praticamente morrendo de resfriado e eu precisava anotar suas últimas palavras? Que ele precisava de algo emprestado? Entregar as tarefas já que ele havia faltado de aula hoje? É, a última opção parecia mais viável. Quando Jungkook não ia a escola, eu sentia como se o tempo lá fosse tempo perdido. Sinceramente, eu só tinha vontade de ir para escola para conversarmos sobre qualquer coisa.

O portãozinho de grades de ferro cobertas de neve rangeu e deixou marcas na cobertura branca e uniforme no chão, quando eu o empurrei. Talvez meu pai ainda não tivesse chegado do trabalho, já que não havia pegadas na neve, me dando mais chances de convencer minha mãe de que o Jungkook precisava das minhas anotações.

Assim que adentrei o Hall, pude sentir o calor aconchegante me envolver, como um cobertor quente, e suspirei. Era uma escolha difícil: Calor e TV, ou Jungkook e seu novo jogo de zumbis mutantes. Retirei os fones de ouvido, que já reverberavam em uma música POP americana, a mochila, o casaco e os sapatos molhados por causa da neve. O aquecedor de piso era incrível, esquentando meus pés em segundos, fazendo-me sorrir e agradecer ao meu pai por ter gasto um dinheiro a mais na construção da casa para termos esse luxo.

Minha casa era uma casa comum, com fotos de uma família comum nas paredes, com móveis antiquados e novos contrastando-se, paredes cor de salmão e uma mistura de odores que possuíam histórias. A marca escura no piso próximo a mesa ainda estava lá, revelando o lugar em que eu havia derrubado uma folha de papel em chamas, que havia acendido só para observar o que aconteceria, quando tinha dez anos.

— Mãe, estou de volta! Não acha que foi uma ideia genial o papai ter mandado colocar o aquecedor de piso? Na casa do Jungkook eles colocaram só carpete comum e agora ele fica lá, com os pés congelando enquanto joga com seu videogame de última geração. Um dia vou chamá-lo aqui, então ele pode invejar meu piso e nós cantamos no ventilador com vozes robóticas... — Enquanto falava, andei até a cozinha, onde podia ouvir sons de panelas se chocando e uma faca cortando algo sobre a tábua. Minha mãe estava de costas, sem seu avental cor-de-rosa, que eu havia dado de dia das mães, que costumava usar e a janela perto da pia estava entreaberta, deixando o ar frio entrar. — Aqui está congelando! — Resmunguei, indo fechar a janela rapidamente. O que ela tinha na cabeça? Devia estar fazendo uns menos quinze graus lá fora.

— Ah, olá Taehyung. — Eu ainda prendia os trincos quando sua voz fraca atingiu meus ouvidos, fazendo-me virar em sua direção. A neve lá fora era colorida e viva em comparação a palidez no rosto da minha mãe, que cortava tomates sem cuidado algum. Olheiras profundas contornavam seus olhos escuros e seus cabelos castanhos estavam presos em um coque mal feito.

— Mãe? A senhora está bem? — Minha voz saiu um pouco tremida, porque tinha o péssimo hábito de me preocupar excessivamente com o que acontecia naquela família e com seus membros. Os amava como se fossem parte de mim. — Ei, ouviu? — Comecei a me aproximar dela, mas me detive quando seus olhos desviaram-se dos tomates e foram pousar nos meus. Estranheza e confusão, era isso que havia neles, como se ela não me reconhecesse apesar de ter acabado de dizer meu nome. Sua cabeça inclinou-se levemente, como um cão curioso e depois seus olhos piscaram diversas vezes.

— Está tudo ótimo... Vou buscar sua irmã na escola. Ouvi que as estradas serão interditadas e os ônibus vão parar de rodar... — Ela começava a falar com confiança e depois sua voz sumia aos poucos, como se tivesse se esquecido de como falar.

— A senhora quer que eu peça nossa vizinha para fazer isso? Sabe que ela não se importa, já fez isso antes. — Segurei em um de seus braços, como que para demonstrar que preferia que a mesma ficasse e subisse para o quarto para descansar. Nessas horas eu gostaria de ter aprendido a dirigir, para que minha mãe não se desgastasse tanto por nós dois. Seu rosto lentamente se virou em minha direção. Depois de alguns segundos, como se finalmente percebesse que eu havia feito uma pergunta, ela negou ligeiramente com um movimento da cabeça.

Suspirei, apoiando-me no balcão e tomando a decisão de conversar sobre isso com minha irmã quando a visse novamente. Nossa mãe parecia estar abatida com algo que a preocupava. Mesmo que ela não soubesse o porquê, normalmente me ajudava a pressionar  a mamãe para que ela nos contasse algo. Seja o que for, conheço a minha mãe e tenho noção de que nada que eu disser agora fará com que ela me conte ou sequer tenha algum efeito em seu humor.

— Posso ir na casa do Jungkook? — Mesmo com a consciência um pouco pesada por pedir algo nesse momento para minha mãe, ou por deixa-la aqui nesse estado, fiz o pedido. De qualquer forma, ela logo estaria com Eunji, que saberia pelo menos como faze-la ficar um pouco melhor. Isso é, se ela deixasse. Geralmente minha mãe nunca deixava eu ir na casa do Jungkook, pois sabia que quando eu fazia isso, demoraria para voltar para casa, já que sempre perdia a hora no videogame e nunca atendia suas ligações. E, com esse frio todo, minhas chances eram reduzidas a quase zero. Por que continuo pedindo? Simples. Um dia a pessoa cansa de sempre ouvir as mesmas perguntas e passar pelos mesmos argumentos  e acaba deixando. Esse dia pode ser hoje.

— Sim… — Bem eu já sabia que… Espera, ela disse sim?

— Desculpe, mãe. A senhora disse sim? — Ela assentiu lentamente. Resistir duramente ao impulso de pegar o celular e ligar para a ambulância. Algo de errado ali realmente não estava certo. Estava quase perguntando se ela tinha certeza disso e se estava ciente de sua frase quando de repente me lembrei do jogo novo de Jungkook. Mordi os lábios, sem saber qual decisão tomar.

Por fim, peguei minhas chaves e saí antes que minha mãe ficasse sã novamente.


Jungkook morava a apenas dois quarteirões da minha casa, por isso nós sempre voltávamos juntos, no mesmo ônibus. Mas apesar da distância curta, amaldiçoei-me por ter tirado meu cachecol quando entrei em casa e esquecido de voltar a colocá-lo antes de sair. Meu nariz estava congelando na falta de algo para cobri-lo e apenas levantar a gola do grosso casaco que estava vestindo não fazia uma enorme diferença.

Ao avistar a casa de meu amigo, praticamente corri até a entrada, pulando a cerca e degraus. Abri a porta bruscamente, já sabendo que ela se encontraria aberta. Do outro lado, pude ver a tia Sun hee voltando ao chão, após o que pareceu ser um pulo de dois metros de altura, com a mão no coração.

— Onde está acontecendo o incêndio?— Ela perguntou com a voz ainda assustada e os olhos quase escapando de suas órbita.

— Bem que podia, está congelando lá fora. — Disse com um sorriso, indo em sua direção para depositar um beijo em sua testa. Ela sorriu e afagou meus cabelos. Senti um cheiro característico de chocolate quente em seu cabelo e espalhado pela casa. Sorri largamente, indo até a cozinha e procurando por minha bebida favorita.

— Acabei de fazer! — Escutei o grito de Sun hee da sala, junto a sua risada doce ao final do aviso. Minha boca já estava salivando em expectativa. Sunhee fazia o melhor chocolate quente que eu já bebi na minha vida. Não fiquei surpreso ao ver em cima do balcão a minha xícara, esperando por mim. Solvi alguns goles da bebida enquanto voltava para a sala.

— Delicioso, tia. — Ela se virou para mim com um sorriso, começando a rir logo em seguida. Esfreguei a manga da minha blusa na minha boca e percebi que havia me sujado  ao beber o chocolate.

Passei por Sunhee e subi pelas escadas animadamente, saltando, como sempre, alguns degraus. Jungkook obviamente estaria no quarto dele, o vampiro nunca abandonava aquele buraco.

Abri a porta do quarto dele da mesma forma que a de entrada, vendo pela segunda vez naquele dia uma pessoa saltar pelo susto.

— Querida, cheguei! — Berrei ao abrir a porta.

— Hyung! — Ele exclamou, repetindo o gesto de sua mãe ao colocar a mão no peito. Diferentemente de como achei que o ia encontrar, ele não estava jogando no videogame. Jungkook se encontrava sentado em sua mesa do computador, com todos os seus três monitores ligados, e muitos artigos de jornais, revistas e outras anotações espalhados ao seu redor. Tentei dar uma espiada no conteúdo de sua aparente pesquisa, quando fui distraído por sua cama perfeitamente arrumada e aparentemente bem macia, a minha frente. Sorri malicioso, deixando a xícara de chocolate quente sobre a cômoda perto da porta, antes de correr em direção a aquela enorme cama de casal e me jogar sobre ela.

Jungkook me olhou de lado com uma sobrancelha arqueada quando me viu afundar nos travesseiros e lençóis e começar a me mover sobre eles, me esfregando. Aquilo era muito macio e eu me sentia como um cachorrinho que nunca saiu de casa e pela primeira vez conheceu a grama.

— O que está fazendo? — Ele perguntou com um tom divertido.

— Marcando território. — Disse parando de me mover e com a voz abafada pelo travesseiro. Não ouvi sua resposta mas podia imaginá-lo revirando os olhos naquele momento. — Por que não foi na aula hoje? — Olhei em sua direção, vendo que o garoto agora concentrava sua atenção nas telas de seu computador.

— Estive ocupado, buscando informações. — Fechei os olhos, quase não absorvendo o que Jungkook dizia, devido ao seu cheiro inebriante presente nos lençóis. Respirei pela quinquagésima vez os travesseiros, onde seu cheiro era mais forte. — Ouvi meu pai conversando ontem com um colega de trabalho dele pelo telefone. Eles falavam sobre a morte dos lobos nas florestas. Achei estranho o departamento de polícia do meu pai estar envolvido nisso, então entrei no computador dele para saber mais. —  Aquilo havia chamado minha atenção, fazendo com que eu me virasse na direção de Jungkook. Estava escutando sobre isso mais cedo no rádio, e a respeito dos comportamentos estranhos que algumas pessoas aqui de Yeongju estavam tendo.

Jungkook respirou fundo, antes de continuar, ao ver minha expressão de curiosidade se destacar.

— Vi que a polícia está realmente considerando a ideia de que a morte dos lobos e as pessoas enlouquecendo têm alguma ligação. Achei que era publicidade da mídia, que eles estavam exagerando. Antes de ver isso aqui. — Ele virou sua poltrona de lado e direcionou o monitor da esquerda para a minha direção. Sentei-me na cama para observar melhor o que ele mostrava.

— E isso é…? — Deixei a pergunta no ar.

— O recente laudo da perícia criminal. O mesmo vírus que têm atacado os lobos dessa região, têm afetado também os moradores de Yeongju. — Ele disse rapidamente e olhou para mim com os olhos buscando algo, que eu não entendi bem o que era.

— Disseram na radio que eles estavam morrendo por causa do frio intenso desse inverno. — Minha voz estava baixa e falha. Aquilo chegava a ser amedrontador.

— Eu sei. Mas pareceria estranho sair algo assim na mídia, não? — Concluiu o mais novo.

— Sabe o que isso significa? — Perguntei confuso.

Jungkook ficou em silêncio por um tempo, encarando intercaladamente os monitores de lado.

— Ainda não. Estou a algum tempo pesquisando um tipo de vírus com essas mesmas características e tentando descobrir o que meu pai acabou de fazer para fechar os arquivos dele. Aparentemente ele descobriu que eu estava olhando. Droga. — Ele franziu as sobrancelhas e pressionou a ponta dos dedos na base do nariz. — Você pode vir aqui amanhã para me ajudar com isso? — Ele perguntou esperançoso. Senti meu estômago afundar.

— Não posso, Marquei com a Yang mi amanhã. — Disse pesaroso. Não podia desmarcar com a minha namorada, sendo que estávamos planejando há uma semana. Fiz um bico chateado. Queria estar livre amanhã. Jungkook achava as coisas mais interessantes para fazermos juntos e não era a primeira vez que ele olhava os arquivos do seu pai quando estava entediado. Joguei-me novamente na cama, dando um suspiro.

— Ah, tudo bem. — Ele disse, fingindo desinteresse e voltando a prestar atenção no que estava fazendo, ignorando minha existência. — Eu te ligo, caso encontre algo interessante. Só espero que não comente com ninguém sobre isso.

— Óbvio que não. — Meu tom era um pouco revoltado, mesmo sabendo que Jungkook não disse duvidando de mim. Era apenas um aviso de que esse era o tipo de coisa que eu não podia sair gritando por aí, não falta de confiança. Ele sorriu amarelo

— O que fez para fugir dessa vez? — Perguntou, claramente querendo mudar o assunto. Havia se estabelecido um ar pesado ali e eu sentia que não era por causa de seu pedido para eu não dizer nada. O que eu disse de errado, então?

— Nada. Por mais incrível que pareça, hoje minha mãe liberou a minha vinda para cá. — Respondi descontraído, já me esquecendo da tensão que estava ali entre nós.

Um silêncio se estabeleceu no quarto e tudo o que eu podia ouvir era o leve som do computador ligado e os dedos frenéticos de meu Hyung batendo nas teclas de seu teclado vez ou outra. Levantei mais uma vez em um pulo e caminhei até ele, abraçando-o por trás da poltrona, escorando meu queixo no topo de sua cabeça.

— Koookiee, vamos jogar o seu novo jogo? — Comecei a balançar a cadeira giratória, junto ao seu corpo, de um lado para o outro na tentativa de chamar sua atenção. Ele espremeu os lábios.

— Eu estou concentrado, Tae. —  Dei uma risadinha, percebendo que o mais novo precisava apenas de mais uma leve pressão para desligar aquilo e realizar meu pedido.

— Você pode fazer isso amanhã. É sábado, vai ter o dia todo. — Puxei sua poltrona para trás, na tentativa de fazê-lo largar o computador e ir logo jogar comigo. Ele suspirou derrotado, mas pude ver um sorrisinho de canto.

— Interesseiro, só veio aqui para jogar. — Acusou-me.

— Nada disso. Vim também pelo chocolate quente da tia Sun hee. — Sorri quadrado, já correndo mais uma vez até a cama, dessa vez pegando o controle do videogame e sentando-me  sobre ela, na beirada e esperando que Jungkook colocasse o jogo. O outro me olhou indignado enquanto se abaixava perto da escrivaninha para procurar o que eu pedia. Naquele momento, escutamos uma batida na porta e nos viramos simultaneamente.

Sun hee estava parada a porta semi aberta, a qual eu me esqueci de fechar, com a mão ainda erguida próxima a onde havia batido.

— Seu pai quer falar com você. — Ela mostrou o telefone que eu não tinha visto que estava segurando na outra mão. A tia franziu o cenho para Jungkook quando ele demorou alguns segundos para levantar e ir até ela, claramente hesitante. — O que você fez? Ele parecia nervoso com você.

Meu dongsaeng apenas abaixou os olhos para o aparelho nas mãos da mãe e o pegou, levando-o em seguida para a orelha. Antes de dizer qualquer coisa, ele apenas me enviou um olhar que claramente dizia que não íamos jogar videogame hoje. Suspirei, levantando-me e seguindo Sun hee para fora do quarto. Jungkook fechou a porta assim que saímos.

— Você quer que eu faça uma pipoca para você, querido? Está passando um ótimo filme na televisão. — A mãe de Jungkook perguntou docemente. Juntei todas as minhas forças para recusar, ao olhar o horário em meu celular. Minha mãe já deveria estar voltando com Eunji da escola e agora que meu amigo havia ido resolver certos problemas familiares eu achava que estava na hora de eu voltar também e ir resolver os meus.

— Não, obrigado tia. Eu devia estar voltando. — Sorri agradecido e passei por ela lhe dando um beijo na bochecha de despedida.


Andava calmamente pelas ruas, dessa vez. Apesar do frio, estava pensativo. Será que o pai do Jungkook ligou e estava com raiva pelo filho ter invadido os seus arquivos? Apesar de que ele provavelmente seria demitido caso alguém de seu trabalho descobrisse que Jungkook tinha acesso aos arquivos confidenciais, sempre pensei que o senhor Jeon sabia dessa mania de seu filho e não se importava muito com isso.

Quando éramos mais novos, eu sempre tive medo do pai de Jungkook, com sua farda do exército e expressão pesada. Não que agora eu tivesse menos medo, mas tinha aprendido a controlá-lo e não ir para casa quando ele chegasse. Esse medo não era de graça, sem motivo: Há alguns anos, quando eu abracei meu amigo como eu sempre abraçava, de uma forma carinhosa e comum entre nós, o homem amarrou a cara. Minutos mais tarde, quando eu saía da casa, escutei ele dizer ao Jungkook que se ele tivesse alguma relação amorosa comigo ou com qualquer outro homem, estaria morto.

Aquilo sempre ficou marcado em minha memória, apesar de Kookie nunca ter sequer tocado no assunto. Passei a evitar tocá-lo quando seu pai estava por perto e, quando comecei a namorar Yang Mi, o homem pareceu mais tranquilo. Imbecil.

Um pouco de neve voou para o alto quando foi chutada por mim, com meus pensamentos sobre o porquê aquele crápula estar zangado com o meu melhor amigo. Interiormente desejava que Jungkook tivesse uma namorada só para seu pai parar com aquela implicância, mas ele parecia ter tanto interesse em relações amorosas quanto um carnívoro em plantas.

Nesse momento, meu longo devaneio foi interrompido. E ali foi onde aquilo começou. Gostaria de nunca ter meus pensamentos afastados tão subitamente por aquela visão: Um carro vermelho e pequeno como uma Joaninha passou pela rua em alta velocidade, instável por causa da pista congelada. Aquele com certeza era o carro da minha mãe. Meus músculos se retesaram e meus lábios se entreabriram sem produzir som algum, ao ver o carro virar a esquina e um barulho ensurdecedor chegou aos meus ouvidos.

Minhas pernas simplesmente começaram a funcionar sozinhas, cortando metros como se fossem centímetros. Eu fazia todo tipo de esporte nos clubes da escola, como artes marciais e corrida e, nesse momento, utilizei da minha velocidade e meus músculos trabalhados como nunca havia usado antes.

Alguns curiosos já estavam ao redor da lataria destruída quando avistei o carro. Minhas pernas amoleceram como gelatina, vendo a expressão de horror nos rostos das pessoas que tentavam ver o que estava acontecendo. Eu precisava ir ajudar, mas também não sabia se teria forças para isso. Enquanto ainda estava em estado de choque, a porta do motorista se abriu com um baque e minha mãe saiu de lá cambaleando, mas aparentemente ilesa.

— Fiquem longe da minha filha! — O seu grito cortou o ar, fazendo o murmúrio contínuo da pequena multidão que se formava se cessar, inclusive o das pessoas que ligavam para a ambulância. A mulher tinha os joelhos flexionados no que parecia ser uma posição de ataque, com os lábios tão curvados que chegava a mostrar os dentes. Eram rosnados. movimentos animalescos.

Meu coração parecia querer sair pela boca, mas eu ainda precisava ver minha irmã e ajudar minha mãe de alguma forma. Então, me aproximei quando ela virou de costas, observando a menina no interior do carro, que tinha um ferimento na testa e estava desacordada.

— Mãe? — No momento em que toquei seu antebraço e a chamei, seu movimento foi rápido e certeiro. Ela apenas se virou e, um segundo depois, eu sentia meu rosto queimar ao ser atingido por suas unhas. Eu não sabia quem tinha a expressão mais assustada e confusa: Eu, com a mão no recente ferimento ao qual eu já sentia o sangue quente fluir, ou ela, com os olhos arregalados e o rosto retorcido em dor por reconhecer seu filho. Suas pupilas aumentavam e diminuíam em uma velocidade anormal, por vezes ficando tão estreitas quanto as de um gato.

Então, a mulher fez algo que eu jamais imaginaria: Deu-me as costas com os olhos marejados e simplesmente correu na rua, na direção da mata fechada e, ao longe, as montanhas cobertas de neve. Sentia-me como se estivesse sonhando. Minha irmã sangrando e desacordada, minha mãe possivelmente infectada por um vírus que parecia atingir até mesmo as funções cerebrais. Eu estava em torpor demais para conseguir chorar. As pessoas falavam ao meu redor, mas eu não conseguia assimilar os significados das palavras, então apenas assentia.

Permaneci assim, anestesiado e encarando o ponto que minha mãe havia desaparecido, até que o celular vibrou em meu bolso. Eu ansiava por uma boa notícia, ansiava para que meu pai chegasse e dissesse o que eu deveria fazer. Quando consegui focar os olhos na tela, vi o nome de Jungkook piscar e automaticamente atendi a ligação, levando o celular ao ouvido em uma ação robótica.

— Oi. — Aquela era a minha voz. Uma voz distante.

— Taehyung, eu invadi os computadores da polícia porque meu pai gritou, berrou comigo por ver os arquivos e bloqueou meu acesso. Então eu precisei hackeá-lo porque eu sabia que estava me escondendo algo… — A voz do garoto do outro lado da linha estava ansiosa e ofegante, sem nem mesmo respirar para soltar todas aquelas palavras. Minha mãe infectada, minha irmã ferida e ele dizendo coisas que meu cérebro demorava algum tempo para processar. Porém, a voz dele se tornou grave, extremamente séria em um segundo. — … Tae, estão construindo uma cerca elétrica ao redor da cidade cheia de sentinelas para impedir o vírus de se propagar. Estão vigiando para não nos deixar sair daqui, não arriscar que as pessoas infectadas pelo vírus, que estão chamando de Canis Lupus, saiam de Yeongju. A cidade está em quarentena.


Notas Finais


E aí? Gostaram?
Pretendemos postar o próximo capítulo daqui a duas semanas e quem fará isso será a Mlle_Kim. Estarei de volta com vocês no capítulo três.
Enquanto isso, comentem para sabermos o que acharam até aqui.
Apenas para efeito de curiosidade: Nessa história, nosso estilo de escrita é "metade - metade". Metade do capítulo é a Mille quem escreve e metade sou eu. As vezes o início, as vezes o final, a gente reveza.

Link para o Short Film no YouTube:

https://youtu.be/c_BbfprZ-9E

A gente se fala nos comentários.


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