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História Quarto 302 - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Não é Tão Desprezível Assim


O barulho naquela sala de espera era infernal. Pessoas andando para lá e para cá com seus jalecos brancos e extremamente limpos, alguns às vezes passavam por ali com alguma manchinha de sangue no uniforme, mas como bons profissionais a expectativa era de que nada além daquela única gota de sangue tenha sido jorrado. 

O lugar era bem iluminado, com suas paredes brancas e enormes, era sustentado por algumas colunas na mesma cor que as paredes, os assentos na cor azul escuro davam a impressão de que seria confortável passar um tempo com o trazeiro acomodado ali, mas ninguém mais do que eu sabia o quão ruim eram aquelas cadeiras.

 Perdida em meus pensamentos, levanto um pouco minha cabeça para observar ao meu redor, nada além de pessoas andando por ali, nenhuma conhecida, nenhum rosto gravado no fundo da minha memória... Não, espere! No fundo do salão, bem no fundo, sentada na última cadeira da última fileira estava aquela garota; Maggie Price. Seus cachos loiros caindo sobre seus olhos não dificultaram o processo de reconhecimento, muito pelo contrário, ajudaram bastante. Seus olhos verdes estavam concentrados em algo que por coincidência estava bem na minha direção, discretamente olhei para trás, tentando tomar consciência do que a garota tanto encarava, e percebi que não havia nada atrás de mim que não fosse uma parede ou um quadro monótono de uma enfermeira lavando as mãos de forma correta, mostrando que nem para isso servimos; lavar bem as mãos. Olhei novamente na direção da menina, que continuou me encarando franzindo o cenho, parecia estar tentando chegar à conclusão de que sim, sua vizinha estava mais uma vez naquele hospital, esperando por mais quatro horas de sua vida. Decidi tentar a sorte e levantei um pouco meu braço direito, o suficiente para ter meu palmo ao lado de minha cabeça e acenei, exibindo um sorriso simpático e padrão para todos os conhecidos que encontrava em qualquer lugar que não fosse dentro da minha casa. Enfim ela se deu conta de que estava sim encarando para sua vizinha e sorriu também, mostrando os dentes extremamente brancos. De fato, a garota tinha uma beleza notável em cada canto do seu ser, sempre tive isso em mente conforme fomos crescendo juntas na mesma rua. 

Ela abaixou a cabeça, voltando sua atenção para seu celular, e eu resolvi fazer o mesmo pois já fazia um bom tempo que não checava minhas mensagens e estava doida para continuar uma conversa com Daevon, o cara mais legal que já havia passado pela minha vida inteira. O garoto não era lá essas coisas mas conseguia seu pão de cada dia com pouco sacrifício, afinal sua fama de ter muitas habilidades impressionava qualquer homem que ousasse se declarar homossexual. Daevon sempre esteve ao meu lado e em momentos como esse era a única pessoa que me restava para acalmar minha ansiedade, que normalmente era a única coisa que me segurava de pé quando meu coração estava na sala de cirurgia pela décima terceira vez no ano.

— Louise Carrington? — chamou uma voz grossa, mas em um tom simpático e extremamente familiar para meus ouvidos.

— Sim, doutor? — atendi com minha voz baixa e não muito potente, já me levantando e me preparando para o que poderia vir a escutar.

— A cirurgia ocorreu com grande sucesso, mas como o esperado não conseguimos tirar todo o tumor. A próxima cirurgia está para ser marcada e neste intervalo a Sra. Carrington vai dar continuidade ao tratamento com a quimioterapia. — seu tom era claro e paciente, ele gesticulava com as mãos, um costume que só havia notado nele depois de três anos de convivência.

— Obrigada, doutor. Quando poderei vê-la? 

— Você já pode ir, ela estará adormecida e pode demorar para acordar, mas é uma ótima desculpa para terminar esse ciclo de quatro horas sentada. Eu já disse que faz mal pra saúde? — Thomas riu, e pediu licença, logo se despedindo. 

Como de costume, o doutor havia se esquecido de me informar o número do quarto em que a paciente que acabara de operar estava se recuperando. Me diriji até a recepcionista, durante o caminho curto reparei que o enorme balcão tampava totalmente o rosto da funcionária que digitava enfurecida com seu trabalho, e deixava apenas o coque alto à vista. Me apoiei no balcão, agora sim conseguindo ver a face da baixinha rabugenta que havia virado uma grande amiga nesses três anos, com minha mão esquerda dei batidinhas leves na madeira que separava Lia de mim. Ela levantou a cabeça com seu bico enorme nos lábios, mas logo abriu um sorriso ao me ver em sua frente.

— Você anda muito desnutrida, garota. — ela ressaltou, voltando os olhos para o computador, ao bater o olho, vi que estava procurando por minha mãe no sistema.

— Ah, qual é?! São três anos plantada nesse hospital sem comer nada por quatro horas ou mais, a culpa não é minha! — disse sorrindo largo, adorava ter essas pequenas e divertidas discussões com a senhora já de idade.

— Você sabe que pode muito bem se levantar e pegar algo nas máquinas que ficam espalhadas pelo hospital inteiro... — ela pegou um papel e anotou alguns números com sua letra extremamente ilegível.

— Não tenho acesso à cafeteria, Lia? — perguntei batucando meus dedos na madeira grossa do balcão, como a camada que revestia o coração da senhora na minha frente.

— Tem, mas não quero ver sua cara lá enquanto eu estiver no meu momento sagrado. — ela me entregou o papelzinho e o crachá de visitante, indicando rapidamente com a mão para que lado ficava meu destino — então não ouse aparecer por lá.

Soltei uma risada um pouco alta, sabia que a senhora gostava de me ver rindo e na maioria das vezes só fazia isso para deixa-la contente. Com o papelzinho em mãos, segui meu rumo com passos calmos, afinal de contas mamãe estava bem e aquele processo um dia iria acabar, com ela viva ou não. 

É estranho pensar que todo o sofrimento só vai acabar quando morrermos... Não existe outro jeito de acabar com isso? Quer dizer, mamãe foi diagnosticada com câncer no ovário há três anos, e desde então tem sido uma luta constante para a sobrevivência dela; mas olhando nos olhos daquela mulher é notável o quanto ela anda sofrendo fazendo o tratamento para continuar a ter os pés firmes na terra, às vezes chego a me questionar se optar por isso foi a melhor escolha para ela. Desde que começou o tratamento, nossas cabeças mudaram muito e a minha concepção sobre morte mudou junto. Morte não é algo ruim, muito longe disso, é uma espécie de livramento. Você descansa quando morre, todos os seus erros e todos os seus acertos ficarão para trás e você não vai mais ter consciência do que fez ou não fez. Sua essência vai sumir e com isso você vai deixar de existir, mas a sua memória não.

As pessoas têm como pena máxima por um crime a morte. Outras pessoas têm como desejo a morte. O que a morte é exatamente? Eu não sei, mas de uma coisa eu tenho certeza: ela não é tão desprezível assim.

Corredor 7, quarto 303.

Olhei ao meu redor, observando cada porta de cada quarto. Todas eram iguais, na cor branca e com uma textura lisa; mas a porta logo ao lado me chamou a atenção. 

Corredor 7, quarto 302.

Eu não sabia quem estava ali dentro, e não estava tão louca assim para bater na porta e abrir fingindo engano para quem estivesse ali dentro, descansando após uma cirurgia ou até mesmo morto. Mas a vontade era grande. Me desliguei dos meus desvaneios e bati na porta do quarto 303, adentrei no mesmo em silêncio e com calma, lá estava ela. 

Mamãe estava com os olhos fechados, seus fios ruivos sobre o travesseiro já não eram mais visíveis, sua cabeça estava limpa e brilhante. Seu rosto parecia cansado e sua respiração calma indicava que ela estava dormindo bem, as mãos ao lado de seu corpo estavam com pontinho roxos em suas costas de tantas agulhadas falhas para tentar achar sua veia. Ela parecia bem, mas ao mesmo tempo horrível.

Joceline Carrington havia perdido seus fios ruivos, como as chamas de uma fogueira vibrante, logo depois que começou a quimioterapia. Suas sobrancelhas foram junto e todos os pelos de seu corpo foram parar no chão de mármore da simples casa em que morávamos. A única coisa que marcava sua presença, ainda presente em seu corpo, eram seus olhos azuis; claros como gelo, congelantes como os meus. Sempre agradeci muito por ter nascido parecida com minha mãe, o que me proporcionava certa fama entre as meninas também homossexuais do colégio.

Me aproximei do corpo estirado sobre a maca e me inclinei para baixo, deixando o mais leve dos beijos na testa da mulher de 35 anos, que lutava pela vida mesmo que adormecida. Sentando-me na poltrona no canto do quarto, olhei para fora e me deparei com aquela porta novamente.

Corredor 7, quarto 302.

Algo me chamava muito a atenção para aquela simples porta de madeira lisa e tingida de branco. Era como se a porta fosse se abrir sozinha e algo estupendo seria revelado como a cura do câncer ou a solução para a paz mundial eterna. Mesmo que eu passasse três horas encarando aquela desgraça, ela não se abriria, nada iria sair de dentro daquele quarto, vivo ou morto.







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