História Quarto dos Segredos - Capítulo 17


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Categorias EXO
Personagens Baekhyun, Chanyeol, D.O, Personagens Originais
Tags Baekyeol, Brotheragem, Brotp, Chanbaek, Chanyeol Pov, Depressão Psicótica, Exo!pais, Muçulmanos!au, Tensão Sexual
Visualizações 148
Palavras 4.933
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Fluffy, Hentai, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


O capítulo 14 foi tão ruim assim? Porque parece que vocês se traumatizaram e resolveram não abrir o 15. Vocês sabem que feedbacks são bem-vindos, podem falar quando sair uma merda!

Capítulo 17 - 16 - Refúgios


 

 

Com latas de spray e uma máscara dentro da mochila, senti-me carregando meus sonhos enquanto o skate rolava pela calçada na cidade. Uma escola masculina havia me contratado para dar uma pitada de vivacidade ao graffite desgastado em seus muros. Há tempos, eu não me sentia aventureiro, pronto para revelar um tesouro com meu próprio talento à tinta. A última vez que pintei algo relativamente grande foi numa oficina gravada por um programa de televisão, e nem sequer fora uma parede, e sim uma tela; isso foi há três anos, talvez eu já tivesse enferrujado devido ao tempo que passei sem segurar numa lata.

A pintura inicial que queriam que eu refizesse se tratava do nome da escola em letras que seguiam um padrão artístico. Por se tratar de um colégio tradicional muçulmano, não laico, além da exigência do diretor, eu não teria tanta liberdade assim sobre aquelas paredes. Oh, dó!, amo pintar pessoas e animais, ainda mais quando Rosana alimentava aquele gato esquisito que cagava em volta do nosso pessegueiro, este que já estava se despindo em pleno início de outono.

A parede já estava pintada, porém ainda era perceptível que graffite que havia sob as camadas de tinta verde. Seria fácil recriá-lo, pois o contorno estava forte e, de longe, era possível ler o nome da escola. Eu possuía uma foto do antes, de quando os muros haviam acabado de serem pintados, e a vista do agora, só precisaria pintar por cima dos relevos de tinta sob as camadas verdes.

No momento em que girei nos calcanhares a fim de caminhar até a outra calçada para ter uma vista ampla do muro, meu coração quase saltou pela boca. O rosto se avermelhou num único instante, tornando-se tórrido, e meus ombros estremeceram. Minha respiração começou a acelerar e se tornar barulhenta na medida em que eu inspirava para manter a calma.

Yaiza.

Pisquei inúmeras vezes e ela continuava ali, com sua trupe de quatro marginais. Cerrei os punhos e os dentes em nervosismo. Era o perfil de minha filha do outro lado da rua, virada de lado, a sorrir amistosamente com suas amigas. O que ela fazia ali, longe de casa e da escola? Engoli em seco. Não queria nem correlacionar a sua presença ao fato de que estávamos diante de um colégio masculino.

Com o coração palpitando fortemente, atravessei a rua a passos largos. Uma das garotas havia notado a minha proximidade e mudado sua expressão. Próximo à minha filha, calada, que parecia já ter me notado pela visão periférica, cutuquei o seu ombro por trás. Quando se virou para mim, seu rosto continuou inexpressivo, como se já esperasse que eu aparecesse.

 

– Vá para casa.

 

Abstive-me de escândalos, pois, de certa forma, não queria envergonhar a ela, muito menos a mim. Suas amigas me fitavam como se eu fosse a pior pessoa do mundo, mas eu era apenas um pai envergonhado. Minha filha tratou de colocar a mochila nos dois ombros e, sem se despedir de sua trupe, saiu andando. Virei às costas, pedi paciência a Deus, e voltei ao trabalho.

Nunca suspirei tanto na minha vida: minha respiração não se normalizava de jeito nenhum. Eu estava nervoso, trêmulo e atônito de que fui traído por Yaiza. Milhões de coisas se passavam na minha mente enquanto eu tentava pintar as transições de degradê vermelho na parede que contornavam as letras, o que acabava por não dar tão certo devido à tensão. Meu braço estava molenga enquanto guiava a então tinta preta. A testa estava molhada só de tentar imaginar o que a menina pretendia fora da escola.

Respire, Chanyeol.

Parei por um instante para respirar fora da máscara. Chacoalhava as latas de tinta preta e vinha desenhando as letras pelas paredes; o nome era extenso e as juntas do braço já doíam. Eu havia enferrujado, sim, porém ainda havia o fator estressor para foder com o meu trabalho que pelo menos já estava pago. Graças a Deus, o serviço era apenas para acompanhar as linhas sob as camadas de tinta verde e preencher o contorno que eu já havia feito.

Tinha um misto de indignação e ceticismo dentro de mim. Ainda não queria acreditar no que vi, apesar de que fora óbvio: Yaiza estava matando aula. E quantas vezes já não o fez quando eu a levava até o portão da escola e virava as costas? Tremia, tremia furioso. O nome da instituição parecia um tanto torto porque, na verdade, era a minha preocupação quanto à minha filha a sabotar o meu corpo mais uma vez, além da falta de prática. Será que ela realmente tomou rumo para casa?

Mais uma vez, suspirei trêmulo. Não estava gratificante como pensei que seria.

Ao terminar, fui até a outra calçada para ter uma vista ampla do trabalho: praguejei-me tanto por ter visto as tortuosidades de perto, mas não estava nem um pouco ruim. Por um instante, esqueci-me do nervosismo ao qual Yaiza me acometeu e permiti-me orgulhar um pouco de minha releitura. Saí-me muito bem para quem não usava latas de spray há três anos, porém os braços estavam mais doloridos do que eu poderia me lembrar que costumavam ficar. Pelo menos não ficara tão ruim no final, mas poderia ter feito melhor.

Novamente, suspirei. Não estava nem um pouco a fim de adentrar a secretaria e pedir para avisar ao diretor que havia terminado, então simplesmente enviei-o uma mensagem antes de guardar as tintas, a máscara e rolar o skate de volta para casa.

Yaiza...

Pensei em mil coisas para falar e mil métodos para castigá-la, mas sabia que, na hora, vacilaria porque quem realmente a educou foi Rosana, não eu. A verdade é que nunca conheci a minha filha de fato: não tinha muita ideia de seus amores ou de seus ódios, apenas da paixão por maquiagem, música experimental e pelos produtos da loja de Boulos. Tenho tentado me esforçar desde que minha esposa se foi, porém Yaiza sempre parecia distante de mim, até me senti tímido diante dela por algumas e como um completo desconhecido por outras vezes; de jeito nenhum parecíamos pai e filha. E eu nem sequer me sentia como se fosse seu pai.

Ao chegar à casa amarela, respirei fundo antes de encaixar a chave no buraco da fechadura e contei até três antes de girar a maçaneta. Adentrei e encontrei a menina sentada no sofá da sala com o rosto concentrado no celular, que fora abaixado por ter notado que cheguei. A televisão estava desligada, o silêncio era pleno, porém eu não: estava tenso. Devia ser a primeira vez que redigiria uma bronca em minha filha.

Larguei o skate sob o mancebo próximo à porta e caminhei até o centro da sala, agachando-me diante da mesinha de centro, a qual deixei que ficasse entre nós dois. Pensei que Yaiza não fosse ter coragem de me olhar nos olhos, mas a garota me enfrentava com garra. Pela primeira vez, vi-me intimidado por uma jovenzinha de treze anos.

 

– Por que você não foi para a escola? – perguntei.

– Porque eu não quis.

 

– O que estava fazendo em frente a um colégio masculino? Estava esperando alguém?

– Não é da sua conta.

 

Franzi o cenho.

 

– Eu sou o seu pai. – continuei com o tom de voz bem medido.

– E age como se não fosse. – respondeu ácida. – Você simplesmente se tranca no quarto e esquece que existe um mundo aqui fora.

 

Falava como a minha mãe.

Respirei fundo, cerrando os olhos.

 

– Yaiza, por que você não foi para a escola? – indaguei calmamente.

 

Minhas mãos já tremiam sobre a mesa de centro e seus orbes estavam bem em cima de meus dedos nervosos.

 

– Da mesma forma que você não confia em mim, eu não confio em você.

– Eu tenho as minhas questões e os meus problemas que não são da sua conta porque você não tem idade o suficiente para entender, mas eu tenho idade o suficiente para entender por que você não vai para a escola. – meu maxilar tremia. – Por que você não foi?

 

– Você se importa?

– Sim! – enrijeci o tom.

 

– Você sabe o risco que eu corro andando sozinha pela rua, m-me entrega um canivete que pode ser tirado da minha mão num segundo e diz para eu me virar. Você se isola quando não passa a noite ou o dia inteiro na rua e age como se não fosse o meu pai o tempo inteiro. – sua voz embargava em meio àqueles gritos. – E-Eu estou vendo, pai, você se destruir desde que mamãe morreu, e você faz isso em silêncio, você simplesmente me ignora ou faz de conta que eu não me importo com a sua vida, e-e me importo porque é você quem quer se matar, não eu! Só tenho a-a você, mas parece que na sua cabeça eu não existo o-ou sou apenas um fardo que mamãe deixou na sua vida, sei lá, eu só... – fungou, com os olhos marejados e avermelhados. – Eu não quero te contar m-mais nada, eu não quero que você faça parte da minha vida porque da sua eu já fui expulsa há muito tempo!

 

No fim, ela chorou, mas suas íris escuras ainda estavam apontadas para mim com rancor. Não havia erro algum em suas falas, seus sentimentos não eram absurdos. Tudo caiu sobre mim como uma chuva gélida de nuvens que já se mostravam carregadas, apesar de que, no início, eu apenas queria dar uma bronca nela. Eu queria protestar contra as suas palavras, só me faltava razão para isso. Falhei como pai, simplesmente não me havia maturidade para criar uma adolescente, a quem eu entregava o cartão, os boletos e dizia “pague-os”.

Diante dela, senti vergonha por tê-la negligenciado, por mais que fosse algo entre nós dois — e Kyungsoo. Sempre estive errado ao tentar fugir da paternidade como se fosse um problema, inventando a mim mesmo que aquela menina era madura o suficiente para isso ou aquilo; estava apenas obrigando-a a cumprir papéis que não eram de sua responsabilidade. Meu rosto queimava com toda a carga que pus sobre a minha filha.

Sou um péssimo pai!

 

– Eu queria que o meu pai confiasse em mim como a minha mãe confiava. – continuou, com os lábios trêmulos. – E-E eu não tenho nada a ver com o colégio masculino, estávamos apenas andando. – fungou, enxugando o rosto no dorso das mãos. – Foi a minha primeira v-vez matando aula.

– Yaiza. – levantei-me, dei meia-volta e sentei-me ao seu lado. Passei o braço pelos seus ombros, abraçando-a de lado a fim de tê-la em meu peito, bem onde, em seguida, aconchegou-se. – Só... Só não faça mais isso. – pedi sem jeito enquanto seu choro se cessava.

 

Oh, porra, não sei ser firme!

 

– As coisas vão melhorar, mas você também não pode regredir. A única coisa que te peço é para frequentar as aulas porque quero que você cresça na vida e não dependa de ninguém, quero que você seja livre, então, por favor, fique na escola! – apelei.

 

Em resposta, recebi um abraço afetuoso.

 

+++

 

Eu contava os dias da semana para vê-lo mais uma vez. Era mais uma tarde de sexta-feira, e novamente eu estava a subir pelo elevador até o terceiro andar. Seu lar era o refúgio terreno que Deus apresentou para mim quando me esforcei a caminhar pela senda reta. De maneira bizarra, sentia-me seguro em seu apartamento, ao contrário de quando estou na casa amarela, onde me vejo vulnerável aos meus demônios. Em seus braços, então, era onde construí o meu ninho de serenidade; onde eu me encontrava para pacientar o meu peito e gozar de minutos de silêncio.

Combinei com Baekhyun que jantaria em sua casa e pedi para Yaiza não me esperar. Segurando uma pesada caixa metálica vermelha em formato de gato de doces do Kedi’s Café, estava um tanto nervoso como se eu estivesse a gastar o meu dinheiro pela primeira vez por alguém. Ele iria gostar, sim, dizia minha mente e meu âmago. Quem não gosta de doces? E ainda em formato de gatinho? Só o pequeno fotógrafo os ama tanto quanto a si mesmo, já eu sempre preferi pratos salgados, apesar de nunca dispensar açúcar.

Ao tocar a campainha, uma moça de silhueta magra que devia ser um pouco mais velha que eu me atendeu à porta. Era difícil definir o que era chamativo em sua aparência: os olhos de oliveira abaixo de uma franja preta ou os seios pálidos a saltarem de uma camisa azul de um time de baseball aleatório.

 

Salammm. – saldou com a voz rouquenha e arrastada, e eu não sabia dizer se queria me cativar ou estava sonolenta.

Assalamu aleikum, eu sou-

 

– Chanyeol! – Baekhyun, de camisa branca e um shorts preto curtíssimo, abriu mais a porta. – Esta é minha mãe, Azizah. – pousou a mão sobre a cabeça da mulher e, em seguida, cochichou-a algo em outra língua, relembrando-me a origem afegã de sua família. Ela acenou com as pontas dos dedos, convencendo-me de que, sim, queria me cativar, antes de me dar espaço para passar pela porta. Evitei fitá-la diretamente.

– Por favor, sente-se. – a moça deixava-me à vontade e eu, antes de prontamente me colocar sobre o sofá, acenei para as gêmeas sentadas no tapete da sala de estar em frente à TV ligada, que gesticularam amistosas de volta. Era a primeira vez que via Huda e Duha em casa. – Chanyeol, não é? Que nome mais bonito! Quer alguma coisa? – seu entoar era lento e meigo.

 

Em seguida, Baekhyun disse algo, talvez em persa, e foi respondido pela mulher que parecia um tanto impaciente para ele. O garoto, enfim, sentou-se ao meu lado com um suspiro e sua mãe por uma das portas do corredor. Eu tentava parecer um homem como qualquer outro e não olhar diretamente para as coxas rosadas do rapaz, que, juro!, estavam implorando pelos meus olhos, e era difícil manter a postura. De relance, até reparei em algumas marcas brancas em sua pele, que deveriam ser cicatrizes.

Oh!, se não me falha a memória por conta do remédio, uma vez, ele me enviou fotos destas cicatrizes.

 

– O que trouxe? – perguntou, referindo-se à caixa metálica vermelha em formato de gato. Já havia um leve sorriso em seu rosto, imaginando que comeria dali.

Eeeu trouxe doces para você. – entreguei-o a lata.

 

– Oh, sério? – abriu seu sorriso de modo a exibir os dentes pálidos. – Você é demais! – abria o pacote. – Meu Deus, quanto doce, quanto gato!

– Tem um quilo de doce.

 

– Uau!

– Nós já tivemos uma gata. – uma das meninas disse, fitando-me por cima do ombro. – Era toda preta.

 

– Baekhyun, divida com as minhas netas! – sua mãe gritava rígida de um dos quartos antes que eu pudesse responder à garotinha.

 

O pequenino pegou um dos quadrados de harissi da caixa e a deixou sobre a mesa de centro para suas sobrinhas atacarem os doces. Atento, eu observava Baekhyun lidando com aquela fatia de bolo sírio, jogando para uma e outra bochecha os pedaços que mordia enquanto mastigava para, então, engolir lentamente.

 

– Vamos para o meu quarto? – convidou-me e o segui para uma das portas no corredor. Por ventura, acabei por fixar meus olhos no movimento de seus quadris; Baekhyun parecia ser um rapaz de corpo carnudo, bem como seus flancos grossos haviam me indicado quando eu os toquei sob as vestes.

 

Seu quarto era branco e possuía uma parede azul, na qual reconheci três de minhas ilustrações, alguns papéis com anotações que não me interessavam e uma escrivaninha rente, com uma daquelas estatuetas de boneco de madeira para desenhistas e um notebook fechado com uma caneca com algo que parecia achocolatado na metade. Uma réplica da minha “A mulher de niqab vermelho” estava sobre a cabeceira de sua cama de casal, esta tão bagunçada quanto a minha vida. Numa estante ao lado do espelho, havia livros e revistas empilhados ao invés de postos em pé lado a lado, não sei por quê; apontado para a mesma parede, tinha um tapete no chão. Por fim, havia o seu closet. Era um quarto normal para um rapaz da sua idade com a cabeça no lugar.

 

– O que achou do meu quarto? – perguntou, sentando-se na beira da cama, onde me juntei a ele.

– É um quarto bem arrumado.

 

– Eu arrumei porque você estava vindo.

– E se esqueceu da cama. – ri e o garoto desferiu um amigável soco no meu ombro. – O harissi estava bom? – indaguei sem assunto algum.

 

– Tudo do Kedi’s Café é bom. Acho até barato para a qualidade deles. – disse.

 

Vários anos atrás, Boulos discordaria, pois, uma vez, disse-me que seu sonho era comer no Kedi’s Café. Bem de vida, visitava o lugar toda semana até que enjoou.

 

– Como você tem passado?

– Bem, eu acho. – pendi a cabeça para o lado. – Yaiza jogou verdades na minha cara anteontem, sabe?

 

– Quais verdades?

– Que eu sou um péssimo pai.

 

– E você concorda?

– Sim. – comprimi os lábios. – Eu a deixo muito de lado, acabo até esquecendo que tenho uma filha e ela fica preocupada, sabe?

 

– Eu também ficaria preocupado com a minha mãe se ela fosse uma mulher que sai para caminhadas quase todos os dias como você. – seu tom de voz abaixou. – Ela tem alguns problemas parecidos com os seus, por isso vive internada, mas isso não me impede de me preocupar. Na França, conheci um rapaz casado com uma moça que foi abusada enquanto estava internada, acredita nisso?

– Astaghfirullah! – franzi o cenho.

 

– Eles fazem muitas maldades com as pessoas porque ninguém dá uma foda para gente com problemas como os seus. – cruzou os braços. – Pelo menos nada nunca aconteceu à minha mãe, alhamdulillah!

 

Passei quatro meses numa clínica em Riade enquanto Rosana fazia o Hajj* com seu irmão e até hoje prefiro não carregar a minha mente perguntando a mim mesmo ou a Deus por que caralhos passei tanto tempo preso lá. Bem, não era um ambiente tão ruim como relatado pela cultura, talvez porque se tratava de um lugar que atendia familiares de magnatas, porém senti negligência até me dar conta de que, na verdade, não era negligência, e sim eu quem não conseguia superar nenhum trauma. Logo, eu mesmo me negligenciava por não ser sincero com meus médicos.

Havia um técnico, auxiliar, ou seja lá o quê de enfermagem, que dava banho em mim, também não sei por quê. Sim, ele tocava o meu corpo; ele deveria tocar o meu corpo porque preferia assistir-me tomando banho, mas eu não conseguia me mover pelado diante de alguém, então o rapaz vinha até mim, e eu me encolhia no chão enquanto tinha a carne esfregada por um desconhecido sob a água morna. No começo, eu relutava e chorava como nunca, logo vim me aquietando e aceitava aquela merda humilhante. Lu’loah, minha mãe, dizia que ninguém deveria tocar o meu corpo, mas não consegui evitar.

Falavam: “você precisa ser vigiado para evitar uma tentativa de suicídio”. E daí? Não era como se realmente se importassem com quem morria ou sobrevivia naquela espelunca. A comida era uma merda. Parecia merda de verdade, mas tinha um cheiro bom que não condizia com o gosto de nada ou com a aparência de merda.

Tudo isso fora resultado de uma crise que tive num hotel em Meca, então fiquei sem realizar o Hajj. Espero que Deus entenda por que espero nunca mais voltar à Arábia Saudita.

 

– Já fiquei internado uma vez. – contei. – Quase me mataram de tédio.

 

Então abaixei o olhar e, desatinadamente, encontrei suas coxas rosadas. Esparramadas na cama, dava para ter uma noção sobre o quão deliciosas poderiam ser ao toque, pois, observando-as melhor, pareciam formadas por carne flácida. Hiperventilei.

 

– Quer tocar?

– O quê? – estreitei os olhos ao seu rosto.

 

– Chanyeol, você está me devorando com os olhos. – disse em tom de seriedade. – Quer pegar nas minhas coxas?

 

Foi como se o mundo tivesse parado apenas para eu responder à sua pergunta. Estremeci-me ao imaginar o calor de suas pernas estorricando as minhas palmas e nos vergões avermelhados que queria deixá-las com as minhas unhas por cortar.

Não esperei mais nem um segundo sequer para atacá-lo os lábios e a voluptuosidade das pernas, apertando-a com uma das mãos enquanto, com a outra, segurava seu queixo durante nosso beijo, este que já se iniciara abrupto. Nossos dentes até se chocavam, mas nada nos parava, a não ser a falta de fôlego, e, ainda assim, nossas línguas se encontravam fora das bocas, trocando toques no ar.

Eu enchia a mão com a carne apetitosa de sua coxa, bem da parte interna, onde havia flacidez, a qual eu apertava entre os dedos até que ele urrasse em protesto, que era quando eu lambia os seus lábios para, então, voltar a enlaçar a minha língua à sua. Sentia-me e via-me num pré-coito, apalpando-o daquela forma tão libidinosa que me excitava; os dedos, por pouco, não se dirigiam às suas nádegas porque talvez fosse invasivo demais apertar a bunda que não me fora oferecida, então me contentava com sua coxa enquanto nossos quadris se chocavam como num duelo.

 

– Chega. – empurrou-me. – Mamãe está em casa, preciso me comportar.

 

Minutos depois, na monotonia em que Baekhyun se ocupava pensando — e falando — coisas nojentas para me livrar de minha ereção, sua mãe nos chamou para o jantar. Antes, pude escutá-la conversar com Yixing em pastó em voz alta quando este chegou do trabalho. Ou era persa? Será que os hazaras também têm um dialeto? Que seja! Ela continuava com os seios a mostra pela camisa de beisebol, que com certeza devia ser alguma peça de roupa que seu marido não levou consigo para a África, e de shorts. Nua, esperava o chinês servir o jantar para nós enquanto seus orbes, em olhadelas maliciosas, dirigiam-se a mim. Ao meu lado, estava o fotógrafo, e seu joelho tocava o meu sob a mesa.

Nunca tive um jantar tão desconfortável na minha vida!

 

+++

 

Estava muito perto. Muito perto. Tão perto que tocava o meu rosto. E eu chorava. Ele se masturbava com as minhas lágrimas, com o meu catarro, que descia pelo meu rosto e gotejava em seu membro, este que era roçado contra o meu rosto com força. Machucava, mas não a tez, e sim o âmago, porque eu já sabia que era sadismo vindo dele. Não era por prazer que ele fazia aquilo comigo, e sim porque queria sentir o controle sobre mim.

Meus lábios trêmulos recebiam a benção de sua glande molhada; eu tentava escondê-los dentro da boca para não sentir o seu gosto, mas ele continuava a se esfregar no meu rosto. Então ele segurou as minhas bochechas com força, quase separando as minhas mandíbulas, forçando-me a conter o choro por medo.

 

– Se morder, eu conto para todo mundo o que você faz.

 

Mamãe costumava dizer que não se podia colocar porcarias na boca, mas nunca mencionou homens. Eu tentava amenizar para mim mesmo que não estava fazendo algo proibido com ele, porém meu rosto ardia sob as camadas de pele quando ele me colocava para fazer aquilo. Eu nunca queria abrir a boca, então ele apertava as minhas narinas até eu separar os lábios em busca de fôlegos; nesta brecha, ele entrava em mim.

 

Acordei num safanão. No mesmo instante em que as minhas costas elevaram-se do colchão, escutei um gemido ameno ao meu lado; era Baekhyun. Baekhyun dormia comigo, ao meu lado, enrolado nas cobertas que pareciam ter fugido de mim. O cenário era-me estranho, porém ainda um pouco familiar. Não era o meu quarto, não era o meu quarto, não mesmo. Era o quarto de Baekhyun, que dormia comigo, ao meu lado, e parecia tranquilo enquanto eu estava implodindo.

Os toques de Namjoon eram como parasitas que caminhavam sob as camadas da minha tez, eu até poderia sentir o relevo destes andando por debaixo de minha derme. Meu corpo inteiro formigava; seu gosto estava vívido em minha boca e eu queria vomitar, mas não estava na casa amarela para isso.

 

– Baekhyunnie? – cutuquei-o.

 

Check, vá dormir, caralho...! – respondeu sonolento.

– Baekhyunnie, e-estou no seu quarto?

 

– Quer ir para casa? – virou-se vagarosamente na cama.

 

Abracei-me ao peito alheio com força, sendo aceito pelos braços joviais de Baekhyun.

 

– Estou com medo. – sussurrei contra o seu peito.

– Do quê? – pousou a mão sobre o meu parietal.

 

– Eu... Não... Sei. – tentava falar o mais baixo possível.

 

A verdade era que eu não queria contá-lo sobre o meu pesadelo porque parecia bobo demais para aterrorizar um homem da minha idade.

O pânico estava tão próximo quanto eu sentia Namjoon vindo pelos corredores do dormitório. Eu tremia, suava, espasmava e protestava contra a série de sensações que meu cérebro criava para o meu corpo, tudo fruto de buracos na minha mente que foram tapados com traumas. Tornava-se difícil respirar, não sei se pela ansiedade violentando o meu ritmo ou por eu estar com o rosto afogado no peito de Baekhyun, que afagava os meus cabelos enquanto eu ofegava trêmulo em seus braços.

 

– Estou com medo. – cochichei mais uma vez. – Estou com m-muito medo.

 

O medo irracional me consumia: eu o apertava mais ainda contra mim; eu o comprimia em meus braços na medida em que me enterrava em seu peito. E comecei a chorar; chorei porque não estava livre. Mais de vinte anos se passaram e continuei sendo estuprado quase todas as semanas pela mesma pessoa, por mais que esta não esteja mais aqui; sentia-o, e sentia como se ele estivesse atravessando o campus, vindo ao dormitório para me ver, para me infernizar.

Eu estava com medo: pela visão periférica, fitava a porta fechada, talvez trancada, esperando pelo momento em que ele entraria sorrateiramente no quarto, viria até a cama e alisaria o meu corpo sob as cobertas como sempre fazia. Eu não conseguia respirar. A porta já não era mais nítida, nada era nítido; estava tudo escuro demais, eu não conseguiria enxergar o momento em que Namjoon apareceria e começaria a me torturar de novo. E de novo. De novo, de novo, de novo.

Eu era refém do medo, do medo que não existia: meu corpo tremulava violentamente, da cabeça aos pés, nos braços daquele que tentava me chamar de volta para a realidade, para o presente, mas minha consciência estava enganchada à minha infância. Não havia fôlego o bastante para que eu suportasse aquilo mais uma vez. Mais uma vez. Mais uma vez, sofria porque a Zaqqum*, plantada dentro de mim por Namjoon, frutificava no inferno que era a minha mente. Minha língua ardia dentro da boca seca, pela qual eu suspirava em tentativas falhas de preencher os pulmões.

 

Shhh, Chanyeol, fique calmo, calminho... – escutava o doce sussurro de Baekhyun. – Vou cuidar de você, okay? Nada vai te acontecer enquanto eu estiver aqui, eu prometo. Sshhhh...

 

Seu queixo estava rente à minha testa férvida. Em seu peito, eu me refugiava dos meus medos irracionais, pois foi este o porto seguro que Deus concebeu a mim. Namjoon estava perto, mas ao mesmo tempo numa distância de um plano, pois eu o sentia chegar como quando era criança — e talvez ainda seja —; sentia sua presença, sentia-o dentro e fora de mim, tocando-me, e seus toques eram bem adversos aos de Baekhyun, que trespassavam-me leveza em meio àquela tempestade de pânico.

Bizarro era me sentir a salvo durante um ataque de pânico, ofegando amedrontado com a segurança de que apenas o fotógrafo estava, ali, comigo, tomando conta de meus impulsos. Gradativamente, a porta voltava a ter formato de porta e o ciciar do fotógrafo voltava a soar limpidamente aos meus ouvidos. Os pulmões puxavam e devolviam o ar em modo vagaroso, recuperando a capacidade de inspirar e expirar de forma decente. Eu passava a língua entre os lábios a fim de lubrificá-los após passar minutos com a boca seca.

O silêncio se instaurou após a minha respiração ser normalizada, a não ser pelas vezes que funguei. Baekhyun se debruçou sobre mim para acender a luz do abajur no criado-mudo ao lado da cama. Por mais clichê que soe, seu rosto à meia-luz parecia a coisa mais linda que já vi na vida e era a imagem que eu gostaria de ter sempre depois de um ataque de pânico, ou até antes, para que eu me consumisse em seus traços, evitando que o medo tomasse conta de mim.

 

– Está melhor? – perguntou em tom didático e, após fungar, meneei a cabeça positivamente. – Quer falar sobre o seu medo?

 

Foi o homem que me estuprou.

 

Uh-um. – neguei. – Estou bem, é o que importa.

 

Eu estava dengoso como nunca, ali, tendo os cabelos jogados para trás da orelha por ele, que me fitava como Lu’loah o fazia quando eu tinha pesadelos — isto antes de nos afastarmos —.

 

– Quer que eu busque água? – ofereceu, enxugando o canto de minha boca com o polegar.

– Não precisa.

 

– Mas eu vou, já volto. – levantou-se da cama.

 

Virei-me para o teto, amaciando meu estômago após todo aquele misto de sensações que me levaram à loucura enquanto Baekhyun se perdia em seu próprio apartamento. Em questão de um ou dois minutos, apareceu na porta novamente, portando um copo transparente d’água. Para tomá-la, precisei que ele segurasse o fundo do copo porque minhas mãos ainda tremiam. Ao final, colocou-o sobre o criado-mudo e se deitou ao meu lado.

Sob a penumbra, eu não tinha coragem de encará-lo. A gratidão era imensa, mas a vergonha por tê-lo interrompido o sono era maior.

 

Jazak Allahu khayran. – agradeci em palavras porque o silêncio estava me condenando de uma maneira que me faria cometer uma loucura naquele tribunal mental.

– Eu só fiz a minha parte.

 

Selamos os nossos lábios tão brevemente que não passara de um resvalar de bocas para matar as saudades.

 

– Eu te amo. – confessei.

– Ama? – interrogou num adorável tom cético.

 

– Amo tudo relacionado a você.

 

 


Notas Finais


Hajj* é uma peregrinação obrigatória (pra quem tem condição) que se faz à Caaba, em Meca
*A frase é autoexplicativa: Zaqqum é como o alcorão chama a árvore do centro do inferno
https://curiouscat.me/justdodoit


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