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História Quebrados - Capítulo 12


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Notas do Autor


Os personagens dessa história pertencem ao universo batatiras, criado por Jonnhy Jota ou Alec Drummond

Capítulo 12 - Peixes II


O garotinho e a mãe estavam encolhidos no tapete da sala de estar. A mulher o abraçava apertado, e acariciava-lhe os cabelos dizendo palavras de conforto, todas vazias.

"Tem certeza que está tudo certo?", o visitante parado à porta tinha perguntado ao homem que o recepcionara. No peito, tinha inscrições com seu nome, tipo sanguíneo e o brasão que representava a polícia da cidade.

"Sim, fique tranquilo", o pai tinha dito.

"Fique esperto com o garoto", aconselhou o policial. "Não queremos que o cara errado apareça aqui. Hoje em dia qualquer coisinha é motivo pra escândalo"

"Tem razão. Essas crianças...",  o homem respondeu, abanando a cabeça. "Eu te pego as dez para a patrulha amanhã?"

"Tudo bem, por mim", respondeu.

Com um aceno, se despediram. O homem fechou a porta devagar, e os olhos em fúria varreram mãe e filho.

"Qual dos dois imbecis ligou pra polícia?", perguntou, a raiva evidente na voz grossa. "Eu sou a polícia, idiotas!"

"Deve ter sido algum vizinho, querido. Ele estava aqui comigo o tempo todo!", sua esposa tentou argumentar.

Mas o homem não escutou, avançando para cima dela e apertando-lhe o pulso da com tanta força que a carne ia se esverdeando quanto mais ela tentava se desvencilhar: tudo isso calada. Aprendera do pior jeito que o marido detestava choro de mulher.

O garotinho ainda tentou libertá-la. Puxou as mãos do pai, e quando viu que não teria sucesso, tentou mordê-lo. O homem se zangou, agarrando o menino pelos cabelos e desferindo-lhe um golpe na costela, em seguida em um dos olhos.

"Quer ser valente? Então seja!"

Peixes acordou num sobressalto, assustado com o barulho de algo caindo na cozinha. Fazia tempo que não sonhava aquele sonho, mas tinha o corpo suado como se fosse a primeira vez. Respirou fundo algumas vezes para se acalmar, e então arrancou as cobertas rapidamente e se esgueirou até o cômodo de onde tinha ouvido o baque, silencioso como uma sombra. Pollux dormia à porta do quarto, e não o traiu latindo.

Foi quando identificou o vulto familiar na sala de estar, mexendo na bolsa lateral, cabelos ligeiramente úmidos, despenteados.

Suspirou pesadamente, sentindo o coração apertar e afrouxar, tudo ao mesmo tempo. Não conseguiu sorrir.

"Eu procurei você em toda parte", disse.

Gêmeos virou-se, surpreso. Não esperava ser interrompido àquela hora.

"Oi", cumprimentou, um sorriso travesso brincando na face pálida.

Peixes se aproximou, os olhos azuis estreitos e a testa franzida numa expressão irritada.

"Procurei na cidade toda. Hospitais. Delegacias. Necrotérios!", disse, gesticulando.

O bicolor mordeu o lábio, prendendo o riso.

"Foram só três dias"

"...e quatro noites", completou. Gêmeos lhe lançou um riso torto, enquanto se aproximava devagar do pisciano. "Tem noção do quão preocupado eu estava? Achei que estava morto. Aconteceu tanta coisa e você nem atendia o telefone! Se fizer isso comigo de novo eu-"

Se interrompeu quando o geminiano afundou seu rosto no próprio peito, abraçando-o com força. O pisciano sentiu a raiva esmaecer, e envolveu o amigo nos braços, sentindo o cheiro de almíscar que o bicolor exalava.

"Mais calmo?", perguntou o mais velho, baixinho.

Peixes o fitou. Os olhos heterocromáticos o encaravam com um ar de divertimento, como quem esperava uma resposta. Em vez disso, lançou um convite:

"Quer tomar um ar?"

 

****

 

A noite estava fresca no terraço do sobrado. Os dois sentaram na ponta, os pés pendendo à beira, e ficaram alguns minutos em silêncio contemplando o céu.

Até as nuvens tinham se afastado, deixando visíveis a lua e as estrelas. Uma mancha acobreada preenchia o horizonte, fruto da poluição que os carros e fábricas insistiam em lançar no ambiente. As cigarras cantavam, estimuladas pelo calor de dezembro.

Gêmeos tirou do bolso um pacote amassado, desembrulhando de dentro um cigarro para si e oferecendo outro ao pisciano, que o pegou e o girou entre os dedos, um ar de divertimento nos olhos azuis.

"Newport?", riu o azulado. "Temos doze anos de novo?"

"Com doze anos você reclamava bem menos", zombou o bicolor, acendendo o próprio pito e em seguida o do mais novo.

Peixes puxou o fumo, inalando a fumaça e deixando-a preenchê-lo. Suspirou, reunindo coragem para perguntar:

"Por onde esteve?"

Gêmeos mordeu a parte interna da bochecha.

"Você sabe onde", respondeu.

E o pisciano, lá no fundo, sabia. Jogando. Lançando-se de cabeça em apostas cujo benefício potencial é deixado ao acaso. Estava nas mesas de pôquer, blackjack, roleta e caça-níqueis. Nos dados e no gamão. Fosse onde fosse, se valesse tudo ou nada, o bicolor estaria envolvido.

"Eu quase consegui o dinheiro todo, Peixes. Estava perto assim", disse, aproximando o dedo indicador do polegar, num gesto dramático. "Perdi  tudo na última noite."

Peixes abanou a cabeça, soturno.

"Precisa parar, Gêmeos. Está se acabando nisso"

O bicolor o ignorou.

"Eu só vim buscar minhas coisas. Ficando aqui eu só te coloco em risco. Roque daqui a pouco me encontra e-"

"Se essa é sua preocupação, relaxe. Roque não estava atrás de você no Rouge"

Gêmeos o fitou. Parecia surpreso.

"Como não?", perguntou.

"Estava atrás do Escorpião"

"Escorpião?? O meu ex??"

"Seu o quê?!"

Os latidos de Pollux vindos da casa de baixo interromperam a conversa. Gêmeos ergueu-se de imediato, descendo as escadas. Peixes o seguiu, apressado.

"Gêmeos! Seu o quê??"

Virou-se para alcança-lo nas escadas, mas o outro já tinha entrado na casa. Diminuiu o passo, processando a informação nova. Então é daí que Escorpião e ele se conhecem, pensou.

Encontrou o amigo brincando com seu cão, distraído. Não parecia ter dado muita importância àquele informe.

"Então… vocês namoravam?", tentou iniciar o assunto.

"Sim. Terminamos há alguns meses"

Peixes emitiu um grunhido, como quem tomou ciência. Perguntou-se porque Escorpião tinha ocultado aquela história. Fez uma nota mental a respeito e abafou a própria mente, pondo toda sua atenção no bicolor e no cachorro.

Pollux girou em torno do próprio eixo, os olhos embotados tentando baldamente focalizar no rapaz que o acariciava.

Gêmeos deslizou as mãos por suas orelhas, rindo, enquanto Peixes encarava a cena com um sorriso no rosto.

"Ele sentiu sua falta", observou o pisciano.

"Eu também senti a dele"

Gêmeos brincou com o cão por mais alguns segundos, enquanto o pisciano refletia. Peixes limpou a garganta.

"A polícia está procurando o Roque agora"

Gêmeos o fitou por alguns momentos, antes de se erguer. O azulado continuou:

"Parecem bem interessados nele"

Gêmeos soltou um riso amargo.

"Claro que estão", disse. "Ele é a chave pra praticamente toda atividade clandestina desse lugar"

O outro assentiu.

"E não é só isso", disse, depois de alguns momentos. "Provavelmente vão me chamar pra depor"

As íris do bicolor pareceram diminuir.

"Depor? Você? O que eles sabem? Falou de mim?"

"Não", o pisciano respondeu, assertivo. "E nem vou falar, relaxe"

Gêmeos assentiu, devagar, enquanto processava as novas informações.

"Eles já sabem do Roque?"

Peixes bufou.

"Vão descobrir em breve. Não é como se fosse um segredo. Esse cara manda em tudo por aqui."

"Não sozinho"

"Não sozinho", concordou Peixes.

Gêmeos apertou os lábios, em seguida suspirou, apreensivo.

"A última coisa que eu queria era te envolver nisso", disse.

"Não me envolveu em nada. Vamos dormir, amanhã conversamos, você vai conseguir um trabalho e…"

"Eu nunca vou conseguir o dinheiro que preciso trabalhando. Não mais. É tarde pra mim"

O outro revirou os olhos.

"Você nem tentou"

"Peixes, não é problema seu. Para de tentar salvar todo mundo!"

"A única pessoa que quero salvar é você", respondeu, ríspido demais.

Gêmeos baixou os olhos. Ficaram calados por um longo momento. O bicolor sentiu as maçãs do rosto esquentarem levemente enquanto sentia o olhar zangado do azulado cair sobre si.

De repente, eram só garotos de novo, matando aulas no terraço da escola, fumando cigarros baratos; pulando os muros pra ir pra casa e alugar filmes de terror. Sempre fora assim: um era pelo outro, e os dois eram contra o mundo.

Foi Peixes quem tornou a falar.

"Vamos conversar amanhã. Já tivemos muito por hoje"

O outro assentiu. Ajudou o pisciano a armar a cama, e ele lhe entregou travesseiros e cobertores limpos. O geminiano estava prestes a se virar para ocupar seu leito, mas Peixes o deteve:

"Prometa que estará aqui quando eu acordar"

Ele o fitou, o olhar carregado em toda firmeza que podia aturar.

"Prometo".

 


Notas Finais


Obrigada por ler!


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