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História Queening - Capítulo 3


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Notas do Autor


Desculpe pela demora, Juliana. Foi uma longa gestação.

Capítulo 3 - A Roda da Fortuna


Fanfic / Fanfiction Queening - Capítulo 3 - A Roda da Fortuna

Ei
Que tipo de futuro
Eu deveria procurar nessa cidade?
— Fuyu no Hanashi (Given)

Mal sempre ouviu histórias sobre Auradon. Quando era mais nova, seus pais adotivos lhe contavam sobre a ilha da realeza e sobre como, um dia, a barreira de Asfos cairia e eles poderiam conhecer o mundo. Na época, Mal esperava que, no ano seguinte, as preces dos seus pais se tornassem realidade.

Conforme o tempo passava, a esperança de visitar Auradon se transformava em uma pequena faísca oculta em seu íntimo. Aos doze anos, essa esperança passou a ser apenas um devaneio que sequer merecia ser lembrado. Por volta dos catorze, a garota caiu em si e, enfim, soube que as histórias que ouvia eram apenas contos de conforto para uma criança dormir em paz e não perder-se precocemente por estar em Asfos.

Nos últimos anos, Mal havia enterrado no fundo de si a esperança de deixar a ilha de Hades. A esperança da liberdade. Até que tudo mudou e, naquele momento, ela estava sendo encaminhada para ir para a corte. Algo ou alguém havia conspirando ao seu favor. A partir daquele momento, três possíveis destinos a esperavam: o mais previsível, ser uma lady da corte real; o menos esperado, tornar-se rainha; e a que mais temia, ser morta por algum tipo de traição.

Ao percorrer a longa faixa de água que separava Asfódelos de Auradon, Mal permitiu-se acreditar no que estava acontecendo. Permitiu-se sentir o balançar do barco enquando estava no quarto espaçoso e acreditar na veracidade do momento. Aquilo era real.

Mal encarava o teto do aposento com um olhar fixo. Acima da confortável cama de casal, uma pintura de constelações em um céu noturno ixibia-se em toda a sua glória. A garota ainda estava surpresa por existir alguém com tamanho talento a ponto de fazer aquilo.

Ao mesmo tempo que contemplava a obra, ela imaginava como todos aqueles anos na ilha a fizeram enxergar o mundo de forma diferente da qual ele é de fato. Tentar entender a realidade com o que aprendera na terra natal era como tentar ver um quarto inteiro pelo buraco da fechadura. A ilha a limitou. Mas ela não era a única. As pessoas que nasceram em Asfos após a Batalha de Verdun jamais veriam coisas que, aparentemente, eram banais fora da ilha. Coisas que ela ia descobrindo pouco a pouco, como aroma de flores em minúsculos frascos de vidro e bebidas gasosas que a faziam soluçar.

Ainda no barco, a garota já sentia que tudo era novo. Conforme ela ia fazendo descobertas, não conseguia parar de pensar em Celia e em como ela amaria o que a camareira chamou de sorvete.

Pensar na amiga ainda era tocar em uma feriada aberta.

Depois de embarcar, Mal dormira e acordara, mas seus pensamentos ainda apontavam para a mesma direção: a ilha, a floresta, Celia.

Ao perceber que seus olhos estavam marejados e que sua garganta fechava, ela deixou de contemplar o céu feito a pinceladas e se dirigiu às escadas. Dali, cerca de dez a doze degraus a conduziriam até o convés.

Subiu num passo acelerado e, ao final, se surpreendeu com a imensidão azul. O céu limpo sem nuvens fundia-se às águas calmas do mar. Ali, uma brisa fraca era suficiente para agitar seus cabelos e inflar as velas.

Foi até a popa do navio. A ilha de Hades já não podia mais ser vista. Encostando-se em um balaustre de madeira, ela sentiu o vento nos seus cabelos e o cheiro da brisa marinha.

Tudo era calmo e pacífico.

Rapidamente ela deixou a popa e dirigiu-se à proa. Uma vez ali, inclinando-se na ponta, ela se surpreendeu. Faltando ainda alguns quilômetros para chegar ao porto, Mal já via a grandiosidade de Auradon. Enquanto Asfos emanava fome e amargura, a ilha alfa irradiava segurança e conforto.

Mal não conseguiu evitar um sentimento de indignação que brotava no fundo do seu peito. Como alguém vindo de Asfos, Mal sentia o quão palpável era a desigualdade no Reino das Sete Ilhas. Enquanto Asfos sobrevivia em um embate diário contra a miséria — uma luta que há tempos foi vencida pela segunda —, Auradon não media esforços para ter tudo de melhor.

Coisas como um navio com detalhes a ouro e tetos delicadamente pincelados a deixavam revoltada, mas o pior era o sentimento de impotência que tinha diante daquele momento. A partir dali, a garota sequer podia verbalizar suas reivindicações, diante da perspectiva de ser executada como traidora.

— Chegamos, senhorita — um dos soldados que a acompanhava no convés do navio falou em voz alta atrás de Mal e a tirou bruscamente do devaneio — Bem-vinda a Auradon, a ilha do Rei.

Mal forçou um sorriso por cima do ombro para o soldado que havia falado com ela.

— Claro, obrigado — Disse meio distraída encarando a ilha que se tornava mais próxima.

Quando chegou ao porto e desceu do navio que a transportava, Mal foi recebida por um grupo de soldados reais trajados com calças e fraques brancos com adereços em dourado. A garota podia ver, ao longe, um grande castelo se erguer no topo de uma colina. Ela conseguiria fazer o trajeto a pé sem sequer cansar, mas a equipe de recepção a esperava com um veículo roxo e surpreendentemente alongado.

— Sua limusine a espera, Senhorita – Um dos homens falou com uma reverência e um gesto de mão que apontava para o veículo.

— Certo. Digo... Ah, claro — Mal falou desconfortável, passando a saber o nome do estranho automóvel.

— Temos que ir o mais breve possível. Todas as outras selecionadas já chegaram há pouco tempo. As autezas reais esperam apenas pela senhorita — O mesmo soldado, de cabelos negros e pele pálida, falou e se dirigiu à limusine.

Mal não deu resposta à fala perfeitamente educada do soldado. Apenas se limitou a acompanhar o homem até a porta do carro.

— Permita-me — O cavalheiro abriu a porta para que ela entrasse.

— Obrigada — Mal sussurrou cabisbaixa e entrou no veículo, que começou a se deslocar silenciosamente logo que ela fechou a porta com uma batida quase inaudível.

— Vamos passar pelo vilarejo, senhorita — O motorista da limusine falou, após baixar o vidro fosco que separava os dois compartimentos do automóvel — É desejo do príncipe Ben que as selecionas conheçam um pouco da corte para se sentirem mais à vontade no seu novo lar.

Aos poucos, as árvores próximas ao litoral foram substituídas por belas casas vitorianas pintadas com cores pastéis. Conforme essas moradias de luxo se tornavam mais frequentes, Mal não conseguiu, mais uma vez, evitar conparar Auradon com Asfódelos. Ela, assim como a maioria das pessoas da ilha ômega, morava em um chalé simples constituído de um único cômodo de madeira e palha. Enquanto isso, as pessoas de Auradon se benecificiavam de tudo que queriam. O sentimento no seu peito ficou mais agudo ao lembrar de crianças como Celia, que tiveram que dedicar suas vidas à sobrevivência e, assim, eram o obrigadas a crescerem muito cedo.

"Prometo me esforçar", Mal pensou consigo mesma as últimas palavras que dissera a Celia antes de deixar Asfos. Essas palavras reassoavam na sua mente, enquanto encarava através da janela fechada do automóvel.

Aos poucos, as casas deram lugar a um belo jardim e, ao notar a cerca-viva que agora acompanhava o percurso feito pelo veículo, Mal soube que chegara ao castelo.

***

— Bem-vinda a Auradon, senhorita — Um homem loiro de trajes reais idênticos aos dos soldados que a acompanharam até ali falou educadamente com uma mesura sutil — Permita-me condizí-la às suas acomodações para dos devidos... cuidados — Ele falou enquanto estendia um braço sinalizando para que ela o acompanhasse.

A exitação na voz do soldado foi o suficiente para fazer com que Mal, pela primeira vez, reparasse em sua aparência. Vestia o melhor traje que trouxera de Asfos: uma calça cinza frouxa com algumas partes desfiando pelo uso e uma blusa completamente branca sem detalhes. Ali, sentiu-se desconfortável e deslocada. Desde que saíra da Ilha de Hades, Mal estava nervosa e tensa. Não havia até então reparado o quão ímpar era naquele cenário.

No percurso para a ilha alfa, ela havia tomado banho e experimentado todos os produtos que a camareira do navio a havia entregue, até havia passado um gel oleoso nos cabelos para deixá-los menos secos. Achou-o de uma fragrância agradável e o colocou discretamente na sacola de roupas para, posteriormente, manter os cuidados com o cabelo.

— Quer que eu carregue sua bagagem? — O soldado que ainda esperava na entrada do castelo questionou com um olhar curioso. De certo estranhando o silêncio da jovem.

— Não, não é preciso. Trouxe apenas isso — Mal ergueu o saco de pano que carregava sem encarar o homem à sua frente. Não confiava nele para pegar suas coisas. Qualquer um que visse seu livro de feitiços não exitaria em denunciá-la para o rei.

— Pois bem — O soldado continuou, se virando e seguindo para dentro do castelo — Siga-me.

Se por fora o castelo transmitia um ar de força e resistência, por dentro ele era igualmente imponente, mas com um ar de segurança e conforto. Enquanto o soldado a guiava por um corredor comprido, Mal encarava belas tapeçarias ilustradas que se entendiam ao longo das paredes.

— São sobre a história da unificação do reino? — Mal parou em frente a uma tapeçaria fixada à sua direita no meio do corredor.

— Sim — O soldado respondeu se virando e encarando a peça — Essa em especial retrata o momento em que a Entende de Devoção foi criada.

À sua frente, Mal encarava a representação de um homem forte empunhando uma espada em um ato heróico. Atrás dele, em um semicírculo, outros seis homens vestidos com trages elegantes empunhavam rosas e as apontavam para o homem no centro, o líder. Todos os representados na tapeçaria tinham auréolas douradas em torno da cabeça, como se fosse um círculo de luz divina.

— Caso não os tenha reconhecido, esses são o Rei Adam e os outros líderes das demais ilhas do reino. Nessa ocasião, foi feito um juramento de vassalagem pelos seis que estão mais atrás. O Rei Adam, o suserano, é este — Ele apontou para o homem ao centro em posição heróica.

Por mais estranho que parecesse, o que mais chamou a atenção de Mal foi a ambientação da cena. Eles estavam nas ruínas de uma cidade, com um céu tempestuoso representado ao fundo, como se fosse chover em poucos minutos. Aquela alegoria ela conseguiu entender por conta própria. Representava a ameaça, a destruição, a tirania. Representava seus pais e tudo que eles podiam fazer para o reino.

Mal desviou os olhos da peça à sua frente e olhou para o soldado. Seus olhos castanhos estavam preocupados, ele parecia impaciente.

— Perdão, senhorita, precisamos ir agora. Você deve se preparar a tempo para o jantar com a família real.

Ele voltou a andar, agora em um passo mais acelerado e Mal limitou-se a seguí-lo. Subiram escadas, atravessaram salas e cruzaram corredores. Tudo bem ornamentado com armaduras, telas a óleo, tapeçarias e, o que a surpreendeu, muito equipamento que o soldado falou ser usado para filmagens e transmissões.

Após alguns minutos cruzando o castelo, o soldado parou em frente a uma porta dupla fechada.

— Aqui estamos — ele fez uma mesura e indicou a porta à sua esquerda — Esse corredor é dedicado às acomodações das selecionadas. O seu quarto estará devidamente indicado com o nome da sua ilha e de seu Deus patrono.

O soldado abriu a porta e Mal entrou com passos lentos. Ali, um tapete de um vermelho sangue se estendia por todo o chão. Na paredes de tijolos cinza, videiras verdes com detalhes dourados foram delicadamente traçadas com pinceladas singelas. O conjunto inteiro tinha um ar de fineza e classe que Mal não estava acostumada. Por isso, limitou-se a ir até a parede e tocar um dos ramos. Era gracioso e agradável ao toque, não conseguia comparar com nada.

Estendendo o olhar por todo o amplo corredor, ela viu três portas à sua direita e três à sua esquerda. Cada uma exibia uma placa branca com letras pretas em uma escrita cursiva e enrolada.

Mal começou a andar pelo corredor, observando o que havia em cada porta. Morféia, Ilha de Hipnos. Citera, Ilha de Afrodite. Cláucico, Ilha de Atena. Atlantis, Ilha de Poseidon. Beladona, Ilha de Hécate. Até que parou frente à última porta da direirta. Asfódelos, Ilha de Hades.

Mal ficou parada frente à porta do seu quarto, até que uma voz no lado oposto do corredor a chamou.

— Com licença — Uma jovem de cabelos castanhos escuros apareceu na primeira porta da esquerda — Você está atrasada! Pode vir até aqui?

Mal começou a andar desconfiada em direção à menina.

— Rápido, rápido.

Ela acelerou o passo até chegar na porta semiaberta. A garota usava um vestido rosa claro com delicadas rendas e fazia cachos perfeitamente modelados nos seus cabelos.

— Você deve ser a outra camareira que a Lenna foi chamar. Faça as coisas certas da próxima vez e passe as medidas corretas. Meu vestido está frouxo na cintura, preciso que conserte nesse momento.

Sem parar de fazer fazer seus cachos, a garota pegou-a pelo pulso e a puxou pra que entrasse.

Mal não entendia o que estava acontecendo. Aquela garota devia tê-la confundido.

— Não, espere — Mal firmou-se onde estava e puxou o braço do aperto da garota — Sou Mal, venho da ilha de Hades. Não sei quem você é, mas com certeza você me confundiu com outra pessoa.

Por um instante, uma expressão de surpresa cruzou o rosto da menina à frente de Mal, mas rapidamente foi substituída por escárnio.

— Ora, ora. Veja o que veio com o caminhão de entregas, a selecionada que restava — entoou com uma sobrancelha erguida e um sorriso com dentes perfeitos — Se quer uma dica, aconselho tirar esses... trajes. Você não quer ser confundida com servos, quer?

Antes que Mal pudesse responder, a garota deu uma risada alta e bateu a porta com um ruído, deixando-a ali, sozinha, com os punhos cerrados para controlar a fúria que brotava no seu peito.



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