1. Spirit Fanfics >
  2. Quem matou Jeon Jungkook? >
  3. Dormientibus non succurrit jus

História Quem matou Jeon Jungkook? - Capítulo 6


Escrita por:


Capítulo 6 - Dormientibus non succurrit jus


Seokjin

Era hora do almoço para ele, um horário mais atrasado do que as pessoas normalmente costumavam comer, mas o bandejão ainda estava milagrosamente funcionando e, com pouquíssimas pessoas no refeitório, ele comia com seus amigos à mesa, desfrutando daquela hora sagrada de folga em que estavam juntos. O pior era que, mesmo em um horário em que não estivessem trabalhando, o assunto principal era o trabalho.

­– Mas se você acha que ela deveria ser passada para o Dr. Kim? – sua colega Joohyun perguntou, enquanto colocava mais um pedaço de comida na boca com seus hashis.

– O neurologista? – seu outro colega, Jungwoo, respondeu olhando um pouco pensativo para a sua bandeja. – Eu não sei, ainda não tenho como saber. Estou esperando os exames.

– Jungwoo, eu acho que você deveria prestar atenção – SeokJin deu sua opinião, de forma relaxada e séria. – Sabe que você é o rei de deixar informações importantes passarem. Quando for fazer a análise dos exames dela, tem que prestar o dobro de atenção. É um caso especial, e se você falhar nele, você tá ferrado.

Seu colega Jungwoo apenas riu e concordou com a cabeça, aceitando o sermão de bom grado.

Depois de quatro dolorosos anos de estudo, Seokjin conseguira vaga para residência naquele hospital no início do ano passado, e mesmo com o curto período de estadia já havia aprendido o suficiente para ser referência aos seus colegas, dando conselhos e broncas de vez em quando. Ele sempre levara tudo muito à sério desde que tinha começado a frequentar o hospital, não importava se os médicos o considerassem inicialmente apenas um estudante do quinto ano da faculdade. Cada paciente, cada exame, ele não se deixava distrair com nada. E era muito competitivo.

Apenas uma pessoa ficava em sua cola no quesito de eficiência do trabalho.

E esse era seu namorado, Lee Jinki.

– Sempre dando o ar de sua sabedoria, né? – Jinki comentou ao seu lado. – Eu devo ter muita sorte.

Então ele se inclinou para dar um beijo na bochecha de Seokjin, que aceitou com um meio sorriso orgulhoso. Havia de admitir, Jinki era muito mais apaixonado do que ele. E isso era uma das poucas coisas em qual sua sabedoria falhava; porque ele não sabia se isso era um grande problema.

Só sabia que ele era bom para ele, de certa forma, e que tinha muito medo de perdê-lo. Foi o que ele percebera durante os últimos seis meses de namoro, e Seokjin esperava que continuasse sendo assim.

Já havia terminado seu almoço àquela altura e sua bandeja estava vazia. Isso significava mais uma jornada longa de trabalho e mais uma oportunidade metódica de sair de sua mente cheia de assassinato, rancor e tristeza.

Não sabia se ficava chateado ou aliviado.

Quando estava pensando nisso, porém, algo começou a vibrar em seu bolso. No primeiro instante, pensou que poderia ser algum médico o chamando, mas quando percebeu seu beep quieto, viu que era apenas o seu celular tocando.

Era um número desconhecido.

Pediu licença para seus amigos e Jinki se ofereceu para levar sua bandeja, o que ele agradeceu baixinho.

Naturalmente, atendeu a ligação apenas quando se assegurou que estava bem longe de seus colegas e que eles não poderiam ouvi-lo.

– Alô?

– Oi, Seokjin, é o Taehyung!

O jovem endireitou a postura automaticamente. Não estava esperando que se lembrasse desse assunto de forma tão rápida e abrupta, e definitivamente não estava esperando uma ligação de Taehyung.

– Oi, Taehyung – ele respondeu o comprimento, depois de um milésimo de segundo de pura confusão – Posso saber como conseguiu meu número?

– Ah, nem foi difícil, essa não é a parte que interessa – ele desviou da pergunta. – Eu te liguei porque Namjoon e eu estávamos conversando agora há pouco e...

Seokjin não segurou a risada de leve, e tinha certeza que Taehyung a havia escutado.

– Parece que algumas coisas nunca mudam, não é? – comentou.

Escutou Taehyung rir de leve no autofalante, sem aparentar se abalar nem um pouquinho sequer.

– Felizmente, não é nada do que você está pensando, pequeno pervertido.

– Ah, agora eu sou o pequeno pervertido?

– Olha, eu vou te ser bem direto – Taehyung falou rispidamente.– Nós só estávamos conversando e chegamos a uma decisão, um tipo de acordo, de que nós vamos nos ajudar. Deixar um pouco esse rancor de lado, e nos aliar nessa situação difícil, que, convenhamos, é quase como se fosse uma guerra. Queríamos saber se você gostaria de se juntar a nós.

Seokjin franziu as sobrancelhas. Aquela conversa estava muito estranha, obscura, como se ele estivesse no banco de trás de um taxi que o estivesse levando para um lugar que ele não conhecia. Mesmo assim, infelizmente, ele estava curioso.

– Prossiga.

– Bom – dava para ouvir o orgulho óbvio na voz do garoto –, nós dois queremos investigar Yoongi de perto, porque achamos que ele tem algo a esconder. Porque ele tem mostrado um lado muito desesperado por achar um culpado toda vez que a gente vê ele.  Eu vejo isso muito claro. Ou nós fazemos algo, ou vamos estar a mercê de qualquer coisa que ele queira fazer no comando dessa investigação... Entende isso, Jin?

Seokjin sorriu com o apelido. Jin, o apelido de infância. Ninguém mais o chamava assim (ele fazia questão) e também não esperava ele de pessoas com quem ele não falava havia mais de cinco anos, que eram suspeitas de assassinato e fatalmente odiáveis por si só. Era uma forma de provocação, ele tinha certeza, mas não gostaria que ela fizesse efeito. Então apenas ignorou.

Suspirou alto, de forma que o microfone captasse.

– Como vou saber que o assassino não é um de vocês dois?

Ouviu a linha em silencio por um tempo, e imaginou Taehyung levando a mão ao queixo a fim de pensar um pouco na resposta.

– Acho que você vai ter que confiar na gente.

Confiar.

Seokjin sentiu vontade de rir da palavra.

Confiar.

– Eu parei de confiar em vocês quando eu tinha dezenove anos.

– Bom, acho que agora seria um bom momento para você mudar isso, não?

Ah, claro.

– Como vocês sabem que não fui eu?

Dessa vez, Taehyung parecia realmente não estar preparado para pergunta, e levou mais tempo ainda para arrumar uma resposta, deixando Seokjin sozinho com a estática por um tempo.

Era ridículo, Taehyung falava sobre confiança e ao mesmo tempo duvidava de Seokjin na primeira oportunidade. Era claro como a luz do sol o quanto as lembranças ainda estavam vivas em todos, e Seokjin não seria o primeiro a escapar delas, por mais simpático, por mais bondoso que pudesse ser. Bem ali, no corredor vazio do hospital, ficou óbvio.

– Você não faria uma coisa dessas, Seokjin. Conhecemos você.

Seokjin abanou a cabeça com a idiotice da situação e sentiu uma forte vontade de desligar a ligação na cara de Taehyung. Mas o que ele falava era realmente uma boa possibilidade que ele não poderia se dar o luxo de negar, Taehyung tinha dinheiro e poder, muito dinheiro e poder, e Namjoon era policial. Juntos, eles podiam ter a investigação na palma das mãos e, tendo Yoongi como alvo, poderiam até virar o jogo.

Infelizmente, ser preso era um medo para Seokjin tão quanto era para todos os outros, não importa o quão inocente ele fosse. Era horrível já ser suspeito de um assassinato, porque se as pessoas ao seu redor descobrissem isso, você seria olhado com outros olhos. Graças aos céus nenhum dos seus amigos aparentou saber de nada até aquele momento, mas ele não estava ansioso para saber quando aconteceria.

Queria acabar logo com aquilo o mais rápido possível.

E Yoongi era um ótimo suspeito.

– Eu te passo uma mensagem te dando uma resposta. – acabou por falar, decidido. – Agradeço o convite.

– Não há de quê, príncipe. Só não demore muito. Pretendemos nos reunir hoje à noite.

E assim Taehyung se foi, deixando Seokjin com o silêncio. E com a mente cheia novamente.

Tentou esquecer as imagens da casa, tentou parar de forçar a sua mente a todo custo a se lembrar de onde estava naquele dia em que Jungkook havia sido morto, pois não conseguia, e tentou esquecer a pessoa extraordinária e repugnante que Jungkook era. Não conseguia se lembrar.

Talvez teria que perguntar para Jinki, mas isso significaria contar tudo...

Guardou o celular em um dos bolsos da calça e se virou novamente para o refeitório, com seus amigos ainda conversando à mesa, e percebeu que Jinki tentava disfarçar, mas vez o outra lançava os olhos a ele. Provavelmente o observou o tempo todo enquanto fazia a ligação.

Seokjin se perguntava o que se passava na sua cabeça.

 

 

Hoseok

Eram quase onze horas da noite quando Hoseok e seus colegas fechavam o expediente, organizando a loja para o dia seguinte. Kihyun ficava responsável em puxar os portões sobre as portas de vidro, enquanto Shownu fechava o caixa e Hoseok varria o piso.

– Ei, vocês querem comer uma pizza quando sairmos? – ouviu seu amigo Kihyun assim que ele entrou de volta.

Hoseok varreu os pés do amigo parra irritá-lo e este apenas riu e deu um passo para trás, se apoiando na vitrine, para que Hoseok limpasse o chão a sua frente.

A loja em que Hoseok trabalhava ficava em um shopping e era pequena – trinta metros quadrados talvez ainda fosse demais para dimensionar o tamanho do local – e vendia objetos para presente e algumas coisas de papelaria. Ele havia aprendido a gostar de trabalhar ali, mais pelas pessoas das quais havia ficado próximo do que pelos clientes escassos e que às vezes só vinham para olhar.

– Eu topo – Shownu confirmou detrás do balcão do caixa. – E você, Hoseok?

Ele suspirou, expressando o cansaço, embora estivesse longe de querer ir para cama. Seu corpo estava eletrizado para falar a verdade, seus braços levemente tremendo enquanto ele passava a vassoura, e estava bem difícil de esconder aquilo.

– Acho que dispenso hoje. Vou pra casa tentar dormir um pouco. Tentem não se comer na minha ausência.

Os dois riram e Hoseok fingiu rir. Não estava com o humor que tentava aparentar.

Ele guardou a vassoura nos fundos da loja ao terminar o trabalho e após os outros também finalizarem suas tarefas, as quais faziam tão natural e metodicamente quase todos os dias, eles saíram por uma pequena portinhola no portão. Kihyun trancou-a a trás deles.

Enquanto andavam juntos pelo límpido corredor do shopping, Hoseok não conseguia parar de pensar em tudo. De novo e de novo. Nada conseguia sair da sua cabeça. O sangue no chão da cabana, os cinco tiros, Jungkook morrendo. Ainda parecia irreal mesmo depois de cinco dias. Sua cabeça estava completamente bagunçada.

Além disso, ele temia pelo que Yoongi poderia fazer. Além de o detetive ter conseguido a suspeita, e correta, de que Hoseok fazia parte da grande e discreta máfia que era o Tigre Branco, ele ainda tinha o interrogado no dia anterior e foi uma sensação tão esquisita praticamente ser empurrado contra parede com as suas perguntas, quando ele já tinha dado tudo que poderia ferrar sua vida inteira.

Ele estivera com Yoongi e seu parceiro Minhyuk em sua sala de estar, sentado em uma cadeira de madeira enquanto eles se sentavam confortavelmente em seu sofá velho. Mickey, ainda bem, dormia pacificamente em seu quarto e não perturbou em nenhum momento o questionário.

Você possui armas de fogo, Hoseok? – ele lembrou de Yoongi perguntando.

Foi a pergunta que mais o assustou.

Em reação, Hoseok riu de nervoso, mas dispersou a risada tão rápido quanto o modo com que ela veio.

Não, não tenho licença para isso.

E então Yoongi pediu para fazer uma vistoria pelo apartamento. Ele pediu, e Hoseok não era obrigado aceitar, mas é óbvio que ele aceitou. Uma vez que você nega algo desse tipo em uma investigação, você está praticamente gritando que tem algo a esconder.

Eles fizeram a inspeção mexendo nas gavetas e nos armários, nada muito dramático e mal-educado como se vê em filmes, e encontraram Mickey dormindo na cama e Minhyuk até soltou um “ah, ele é tão fofo!” enquanto Yoongi evidentemente ignorava o cachorro. E foi isso, eles não encontraram nada.

E ele sabia que não encontrariam nada. Mas aqueles momentos em que eles afastavam papeis nas gavetas, mexiam nas suas roupas e vasculhavam o armário do seu banheiro são momentos pelos quais ele não quer passar nunca mais.

Quando finalmente Hoseok e seus amigos saíram do shopping naquela noite e sentiram o ar gelado de Seul tocar seus narizes, ele saiu de sua mente e voltou ao chão para despedir-se. Deu um breve soquinho com Kihyun antes de Shownu de repente segurar em seu pulso.

Hoseok ficou atônito.

– Kihyun, pode ir indo na frente, por favor? Preciso falar só um assunto rápido com o Hoseok.

Kihyun ergueu as sobrancelhas numa careta cômica.

– Vocês e seus assuntos particulares. Não liguem para mim. Sou apenas uma plebe sendo excluído dos assuntos particulares.

O rapaz de cabelos amavelmente pintados de rosa ergueu a ponta do nariz e se virou cheio de atitude em direção ao frio da cidade. Ele andava devagar, para que Shownu o alcançasse sem dificuldade depois, porém longe o suficiente para que não ouvisse sussurros.

Shownu soltou a mão do pulso de Hoseok, mas ele ainda estava confuso. Qual era o motivo disso?

Foi pelo olhar de Shownu que ele enfim reconheceu.

– Eu vi a matéria no jornal do assassinato do seu amigo.

Ele fez uma careta. Estava torcendo para que essa conversa não viesse, embora já estivesse a prevendo a um tempo porque Shownu é o tipo de cara jovem que assiste e lê a jornais quase que religiosamente e não deixava nada passar. Já era natural.

– E?

– E você está lá, cara, pelo menos seu nome está. E de mais uns outros quatro caras dos quais eu nunca ouvi falar, a não ser por Kim Taehyung que eu acho que é o descendente daquela família rica, dona da Diamond. É uma notinha no Herald, eu não entendi porque tão pequena. E aponta você como suspeito... Hoseok, o que tá acontecendo, cara?

Ele se afastou um pouco e colocou as mãos nos bolsos, envergonhado. Não queria que seu melhor amigo acreditasse que ele era um assassino, não gostaria de ser visto dessa forma por ninguém. Naquele momento, só praguejava tudo e todos.

Era quase certeza que Taehyung e Yoongi eram dois homens que estavam fazendo de tudo para não atrair o olhar da imprensa para aquele crime. Taehyung pelo seu nome imaculado, e Yoongi pela sua própria negação como suspeito não ser tão irrefutável. Hoseok se perguntava o que tinha acontecido para aquela notinha, por mais ínfima que fosse, conseguir escapar.

Agora não adiantava chorar pelo leite derramado.

– Bom... Acham que um de nós seis pode ter matado Jungkook, só porque tínhamos a chave daquela maldita casa. E... por uns motivos do passado. Por mais idiota que isso soe.

– E porque raios você tinha aquela chave, Hoseok? Desde quando você se mete com essa gente, ou briga com essa gente? Eu nem sabia que você conhecia Kim Taehyung!

– Eu não me meto mais com essa gente! – Falou. – Pelo menos, não por vontade própria. Nós éramos amigos no colegial, e agora... estamos tendo que lidar com tudo isso.

– Sei – disse Showu desconfiado. Provavelmente nada feliz de Hoseok estar contando tudo isso só agora. Mas ele não podia fazer nada, a verdade é que a última coisa que queria era que as pessoas a sua volta soubessem disso. – E você está ok com tudo isso?

Que tipo de pergunta era aquela?

– O máximo que consigo – respondeu. – Sim, eu acho.

– Cara, isso pode acabar com você se for longe demais. Inclusive, se o patrão descobrir...

– Eu sei – esfregou o rosto com uma mão, em aflição. – Tenho certeza que estão tentando abafar o caso e eu realmente quero que isso acabe logo, eu juro.

– É, eu imagino – o outro respondeu, e pousou a mão em seu ombro, em um gesto amigável. – Fique bem, tá ok? Eles logo, logo, vão pegar o verdadeiro culpado. Tem certeza que não quer ir comer pizza com a gente?

Hoseok fez que não, os lábios comprimidos. Depois dessa conversa é que não havia como ficar tranquilo mesmo.

– A propósito... – viu o outro começar a falar, enquanto ajeitava os braceletes de couro em seu braço.

Hoseok quase fechou os olhos em aflição, sabendo aonde aquele gesto estava levando. Ah, meu Deus.

­– Sim?

O outro ergueu os olhos com os lábios franzidos para o lado, como se avaliasse a situação. Tímido com seus pensamentos. E ainda assim bastante sem-vergonha quando a pergunta veio à tona.

– Você me falaria se tivesse feito algo errado, né?

Ele poderia ter feito piada. Poderia ter rido daquela pergunta idiota e batido três vezes no ombro do amigo. Poderia ter dado uma resposta sarcástica, ou dito “sim, e fui eu” apenas por diversão. Mas Jung Hoseok estava cansado, estava puto, e não conseguia aceitar de bom grado o fato de que Shownu, atualmente seu amigo mais próximo, duvidava de sua inocência. Era de fazer seu peito fumegar.

Então ele só respondeu, seco.

– Não fui eu.

E se virou para ir embora, na direção da estação de metrô.

 

...

 

Hoseok batia o pé no chão do elevador, ansioso. O pior é que Min Yoongi não morava em um andar tão alto, mas naquela noite parecia estar demorando uma eternidade chegar ao décimo segundo andar, ainda mais com o silêncio do elevador que estaria vazio se não fosse por ele. Estava um tanto tarde para encontros como aquele, mas ainda assim, lá estava Hoseok subindo, vestido com uma jaqueta azul desgastada por cima de uma camisa meio laranja que exibia uma ilustração sobre lamén. Era uma camisa engraçada e tinha realmente escolhido ela antes de sair. Agora, questionava sua escolha bem humorada.

Quando finalmente chegou no hall do décimo segundo andar, apertou a campainha da porta escura que exibia o numero 1203 em dourado. E foi o detetive Minhyuk que abriu.

– Finalmente você chegou. Pode entrar – disse, enquanto já voltava para dentro do apartamento, deixando Hoseok com a porta para fechar.

– Deus, Hoseok, já estava começando a achar que você pensava que era só amanhã – ouviu a voz de Yoongi reclamar mesmo antes de tirar seus sapatos e adentrar o local.

Assim que entrou, deu de cara com a sala e os dois sofás cinzas e elegantes que ficavam de frente para uma televisão tela plana pendurada na parede. Na mesma parede, um móvel branco com algumas estantes emoldurava a televisão exibindo livros, objetos de decoração e porta retratos com molduras de vidro transparente. Hoseok não demorou para achar duas fotos de Yoongi e Jungkook, posando como um casal.

Num ambiente conjugado à sala, logo antes da varanda que soprava um vento frio devido às portas abertas, havia uma mesa de mármore branco, onde tudo parecia estar acontecendo. Yoongi o olhando com uma cara de poucos amigos, Minhyuk se sentando e Park Jimin – com os olhos normais e parecendo bem melhor do que da última vez – o cumprimentando com um curto aceno de cabeça.

Hoseok tentou ficar indiferente para o gosto simples e elegante de decoração que o apartamento de Yoongi exibia – embora fosse mesmo completamente inesperado – e foi se juntar à eles.

– Eu falei que saía do trabalho onze horas hoje.

– É, cara, mas você demorou... – Yoongi voltou a resmungar, como se fosse um mau-humorado adolescente novamente, quase fazendo biquinho. Hoseok percebeu que ele falou propositalmente de forma cômica e infelizmente não conseguiu evitar sorrir.

– Estão aqui há muito tempo? Todos vocês?

– Só eu e Minhyuk. Pedi para Jimin vir às onze e meia também, ele acabou de chegar então podemos conversar todos juntos. Eu e Minhyuk viemos discutindo o caso enquanto isso e...

– Ainda está muito nublado – Minhyuk completou.

– Tudo muito nublado – o outro repetiu, concordando com a cabeça – Mas, como combinei com vocês dois que os manteria bem pertinho da investigação, aqui estamos.

Cada um dos detetives, sentados um ao lado do outro, tinha um notebook sobre a mesa logo a sua frente, onde Hoseok presumiu que eles estavam organizando a investigação e as hipóteses de uma maneira mais metódica – ou apenas fazendo papelada.

Perto de cada um, estavam empilhadas algumas folhas de papeis A4 e Hoseok viu, enquanto se sentava na cadeira ao lado de Jimin, que havia algumas anotações rabiscadas loucamente neles com caneta vermelha. Minhyuk, ele percebeu, estava com a sua caneta na mão e distraidamente coçava a cabeça com ela enquanto olhava para o computador, lendo algo.

– Infelizmente, hoje foi um dia de péssimas notícias – Yoongi continuou, explicando para Jimin e Hoseok. – Vocês até agora foram os únicos que estavam disponíveis para responder às perguntas de praxe no momento em que pedimos. Hoje, quando contatei Taehyung, Namjoon e Seokjin, todos disseram que estavam ocupados e que poderiam responder as perguntas amanhã.

Minhyuk fez uma observação:

– Namjoon, não. Taehyung disse que tinha um dia de reuniões e uma palestra e que chegaria tarde em casa mas que amanhã ele estaria disposto a responder às perguntas pela tarde, Seokjin disse que estaria no hospital e que também aceitaria responder às perguntas no final da tarde em sua casa amanhã. Mas Namjoon deu a desculpa menos convincente, disse que tinha que ir às compras e não disse quando podíamos vê-lo.

Hoseok estava concentrado no que os dois estavam falando, realmente estava, e profundamente interessado. Mas logo que Minhyuk falou aquilo ele só conseguiu pensar em uma coisa: Seokjin tinha conseguido entrar para faculdade de medicina? Estava impressionado.

– Eu ainda acho isso um absurdo, inclusive – pontuou Yoongi. – E eu e Minhyuk estamos aqui há tempo demais para saber quando alguém está escondendo algo. Se continuar assim, vamos ter que intimá-lo a um interrogatório formal na delegacia. Não vai ser bonito.

– Não mesmo – Minhyuk concordou. – Do jeito que ele parece ser, vai vir com advogado e tudo.

Hoseok pensara sobre a contratação de um advogado. Era uma linha tênue que ele via diante de si mesmo entre contratar um ou não, porque, no final das contas, estava se virando bem sozinho e nenhum dos outros homens estavam contratando. Iria parecer estranho se só ele aparecesse com um. E a verdade é que nem podia julgar Namjoon naquela situação hipotética, pois ele faria exatamente o mesmo se fosse intimado.

– Porque será que ele está se esquivando em responder? – Hoseok pensou alto – Isso é tão esquisito. Por mais que seja desconfortável, se você não tem nada a esconder, deveria ser tranquilo responder às perguntas.

– Porque ele tem algo – Yoongi reiterou, com firmeza.

– Vocês acham que pode ser alguma ligação com Jungkook? – disse Jimin – Algum evento recente com ele que não queira que vocês descubram?

– Nós cogitamos isso – respondeu Yoongi com uma feição de desprezo para a sugestão, enquanto indicava o computador. – Não há nada no celular de Jungkook, não há nada no diário dele...

Foi instantâneo. Tanto Jimin quanto Hoseok quase que engasgaram ao tentar segurar a risada, mas ao verem o próprio namorado do falecido Jeon Jungkook sorrir, eles não se impediram mais e riram juntos.

– Jungkook tinha um diário? – Hoseok repetiu.

– É tão legal descobrir isso, eu... Nunca poderia imaginar. Será que ele mudou tanto assim?

– Mudou, ele mudou... – Yoongi confirmou – Mas eu não sei porque vocês parecem tão surpresos. Quando ele era adolescente, ele também andava por aí com um caderno. Praticamente a vida toda dele anotada.

– Ninguém nunca entendia aquele treco – Jimin justificou – Era cheio de desenhos... Poucas palavras. Eu perdi as contas de quantas vezes abri aquele caderno e dei de cara com um monte de desenhos e rabiscos, palavras esquisitas. Às vezes eu tinha a sorte de encontrar um nome ou outro, mas aquilo era inútil.

Hoseok riu ao se lembrar vagamente do caderno de capa preta.

– É verdade. Fora os desenhos de gente pelada... Cara! Era muito desenho de homem naquele caderno.

Dessa vez nem Minhyuk aguentou e caiu na risada junto com o resto deles. Era estranho para Hoseok ver Min Yoongi sorrindo daquele jeito, era a última coisa que ele esperava ver.

Toda aquela noite estava sendo a última coisa que esperava.

– Bom, era daquele jeito porque ele queria que fosse assim. Por isso deixava de bobeira e nós, curiosos, dávamos de cara com um monte de coisas que não entendíamos. Algumas vezes, só, ele tinha me explicado o que estava pensando em cada página, e era profundo mesmo... Ele deixava tudo aquilo extremamente mais longe do que poderíamos alcançar. O Jungkook do diário de hoje em dia é diferente. Ele deixava tudo bem claro, organizado. Ele não queria mais se esconder.

Enquanto falava isso, havia um sutil, quase invisível, sorriso inclinando os lábios de Yoongi como se ele estivesse se lembrando de algo bom, e ele passava os olhos pela tela de seu computador enquanto rolava a rodinha do mouse.

– Você tem o diário aí? – Hoseok perguntou, curioso, indicando o computador – Podemos olhar?

Viu Minhyuk olhar assustado quando Yoongi não se importou em dizer sim e virou a tela para que eles pudessem ver. Deu o mouse para Jimin, para que ele pudesse controlar e então os olhos de Hoseok recaíram sobre fotos de um caderno que seguia um estilo tão organizado e limpo de bullet journal – coisa que Hoseok só sabia o que era por ter visto no seu Instagram algumas vezes – que nem em mil anos ele pensaria ser de Jungkook.

Jimin fez o que qualquer um faria e, com o controle do mouse, foi para o topo do arquivo em Pdf, o começo do caderno.

Era de uma arte estupenda a forma como Jungkook se expressava, com fitas decorativas e pedaços de papeis e canetas de tons diferentes, mas seguindo um padrão de cor que parecia ser marrom-alaranjado. No meio de toda essa decoração, e vez ou outra desenhos muito bonitos, ele escrevia seus pensamentos em caneta preta com uma letra caprichada e inclinada. Ele sempre tivera a letra inclinada.

Era o começo daquele ano.

Dia 1 de Janeiro de 2018. Eu e Yoongi passamos o ano novo na ilha de Jeju e foi simplesmente o máximo, melhor do que tudo que eu poderia imaginar. É nosso segundo ano começando juntos e eu estou exultante com isso. Eu nunca me imaginei amando tanto uma pessoa, ao ponto de passar o ano novo com ela e esperar que esse ano que vem seja bom e principalmente seja bom com essa pessoa do meu lado. Tenho grandes esperanças para esse ano, começando pelo trabalho, em que quero muito receber um aumento e quem sabe ser promovido a colunista principal. Eu me esforço muito e confio muito no que faço, mesmo que em alguns dias eu acredite que tudo que eu escrevo é a mais pura merda *carinha decepcionada*. Espero que eu possa praticar mais esse ano e ser melhor no meu trabalho. Não perca a esperança, Jungkook, você já passou por coisa bem pior!

Você está no melhor momento da sua vida.”

Essa última frase havia sido escrita em caneta vermelha e destacada com o desenho de uma nuvem em volta. A reação de Hoseok para tudo aquilo era uma expressão óbvia de confusão. E um pouco de nojo também.

Não teve tempo de olhar para Jimin, para saber se estava sentindo o mesmo, quando ele passou a página.

“Dia 15 de Janeiro de 2018. Cara, o ano mal começou e o trabalho já está louco de pedra. Por enquanto, ainda sou só substituto em entrevistas de campo, e ontem quando estava escrevendo um artigo para entregar >hoje< para o jornal, com uma pressa danada ligando para as fontes, vem meu chefe dizer que preciso estar na avenida Janhul em trinta minutos, porque o Jinyoung passou mal. Assim não dá. ASSIM NÃO DÁ. Mesmo assim eu fui pisando o pé no acelerador para a porra da avenida que fica praticamente do outro lado da cidade e cobri a matéria no lugar dele. Quando voltei para casa ainda tive que madrugar para terminar a matéria. Foi um saco, mas sei lá, engraçado de certa forma. Yoongi tentou me mostrar como ver o lado bom do que aconteceu. Por exemplo, eu fiz tudo sozinho, eu consegui. Sozinho. Ele disse que eu sou um bom profissional por isso.”

Tinha um desenho de uma caricatura logo ao lado do texto, um bem feito que ressaltava os piores traços da pessoa. Jungkook era mesmo expositivo nesse caderno ao ponto de fazer uma seta apontando para a cabeça do desenho, e indicando-o como “meu chefe”.

– Isso é estranho.

Isso é o Jungkook? – Jimin falou e pela voz Hoseok conseguiu ouvir que ele estava tão perturbado quanto ele. – É nisso que ele se transformou? Em alguém... Feliz?

Então Hoseok percebeu que Jimin segurava lágrimas nos olhos, emocionado. Ele mesmo estava profundamente mexido com aquilo, com a personalidade completamente diferente do que a do Jungkook que ele conhecera. E agora ele se arrependia tanto, tão mais, de não ter respondido as mensagens do rapaz, ou retornado sua ligação, ou aceitado sua solicitação de amizade no Facebook. Seu peito era cheio de arrependimento.

Jungkook não pôde ver o que seria feito do seu ano.

E agora seu coração tolamente se apertava porque, apesar de todas as torcidas de Hoseok, não foi Jungkook quem acabara infeliz no final das contas. Foi ele mesmo.

– Ah, ninguém é cem por cento feliz – Yoongi disse. – Se você descer as páginas, vai ver os dias em que ele ficou triste, amuado. Em que só vinha com notícias tristes ou um humor estressado, se depreciando. Ele fazia essas páginas em azul, é bem óbvio. Mas, no geral, ele era feliz sim.

Jimin desceu no documento com a rodinha do mouse e não demorou para chegar em uma parte azul. A página toda tinha um sentimento diferente. As letras estavam menos caprichadas, e os desenhos tinham um ar mais deprimido.

“Eu não PRESTO” estava escrito em letras azuis gigantes como se fosse decoração da página.

Isso era algo que eles falaram muito para ele nos últimos tempos colegial, principalmente no dia da formatura “Você não presta, Jungkook”. Vai ver, até aquilo havia ficado com ele.

Hoseok ergueu o olhar das fotos.

– Yoongi, eu estou curioso, porque você está mostrando tudo isso para gente? Porque você está nos mantendo perto dessa investigação, no final das contas?

– Eu também perguntei a mesma coisa – Minhyuk ergueu uma sobrancelha – Mas aí vem a explicação...

Yoongi se empertigou, plenamente confortável, e deu uma comprimida de lábios antes de se explicar.

– É vantajoso ter vocês por perto. Assim, eu vejo a forma como reagem, como falam, como mentem... É bom para observar. Se, por ventura, um interrogatório formal com vocês dois vier, eu vou ter mais chance de acabar com vocês. E vocês mesmos se voluntariaram a isso.

Hoseok riu.

– Isso é bem tranquilizador.

– Se mantenham na linha e sejam inocentes então não precisarei fazer isso – ele deu de ombros. – Queria que Namjoon tivesse se juntado a mim também, como vocês fizeram. Mas ele e Taehyung... Presumo que já sejam como unha e carne de novo, senão agora pelo menos só daqui a mais uns dias.

– Também não duvido muito – admitiu Hoseok. E era verdade. Só um bobo discordaria disso vendo a maneira como Namjoon correra atrás de Taehyung no dia anterior. Não preocupado o suficiente para parecer romântico, mas era evidentemente alguma coisa.

– Podemos ver às paginas num momento mais próximo do assassinato? Vocês já viram, né? Acharam alguma coisa? – Jimin perguntou, enquanto passava as páginas do diário um pouco mais rápido, procurando por algo que chamasse a atenção. Hoseok também olhava para a tela, curioso.

– Na verdade, vou pedir que pare por um segundo – Yoongi advertiu, fazendo Jimin parar e então pegando o notebook e o mouse de volta. Ele colocou o computador virado para si novamente e suspirou. – Você acha que conto para eles, Minhyuk?

Minhyuk, apesar do horário tarde e cansativo e apesar de estar bem calado naquela conversa que não o pertencia da forma como pertencia aos outros três, estava bem atento em seu lugar à mesa. Ele ponderou um pouco sobre a pergunta antes de dizer:

– Esses caras parecem ter um mínimo de inteligência. Fala.

Hoseok se perguntou o que ele queria dizer com aquilo. Mas então, Yoongi se inclinou sobre a mesa e apoiou seus cotovelos nela.

– O que vou dizer aqui, preciso que mantenham em segredo pela investigação. É um risco que corro contar isso a vocês. Mas trazer vocês para perto já era um prelúdio desse risco, que estou disposto a tomar. E vejam, prestem atenção, não importa se vocês soltarem o que eu vou falar a vocês aos quatro ventos, para todos ouvirem. Vocês só vão dificultar tudo para vocês mesmos, porque vão precisar de provas e enquanto isso não acontece eu não vou sair do pé de vocês. Ainda estou no comando, e não é fácil me tirar. Entendem isso?

Jimin e Hoseok assentiram com a cabeça, a coragem de ambos tomada a sangue frio pela tonalidade grave e assustadora da voz de Yoongi.

– Muito bem.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...