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História Rainha da Morte - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Capítulo 3


A cerimônia se iniciaria em algumas horas, Sofie insistiu que ajudasse a me preparar. Ela não falou nada, não questionou meu sumiço depois dos presentes, não questionou minha indignação, não julgou. Estava sentada de frente a penteadeira, Sofie ajeitava meus cabelos calmamente. Eu apenas encarava a caixa sobre o meu colo, me sentindo infinitamente egoísta e ingrata com as três pessoas mais importantes da minha vida.

 

- É só uma espada, querida.

 

A voz doce e baixa de minha tocou meu coração como mil alfinetes. Era sim só uma espada. Sofie permaneceu onde estava, os dedos rechonchudos ajeitavam cachos e prendiam flores por toda extensão de meus cabelos.

 

- Me perdoe. Eu…

- Tá tudo bem. - ela estava perto, tocou meu ombro desnudo e eu finalmente criei coragem de encará-la através do reflexo no espelho.

- Eu apenas queria que ele me enxergasse como a guerreira que ele criou. - desabafei. - É difícil quando ele apenas quer que eu me case, não é isso que desejo pra mim.

 

Mamãe sentou-se na poltrona que mais cedo Luke estava sentado. O vestido azul tiffany destacavam ainda mais sua beleza angelical, as mangas longas a deixavam elegante, o saiote usado era sútil e dava um volume encantador ao vestido, arabescos dourados estampavam todo o tecido da roupa. Ela havia colocado o diamante lunar em um colar que adornava seu fino e longo pescoço e os cabelos amarrados no alto de sua cabeça com um coque elegante o fazia brilhar ainda mais. Ela estava lindíssima.

 

- Seu pai só tem medo de partir e deixá-la sozinha. - ela ajeitava alguns anéis em seus dedos. - Eu também tenho.

- Não estou só, tenho você, Luke, ele. - suspirei. - E a Sofie.

 

Uma risada baixa e contida escapou dos lábios de Sofie e de mamãe.

 

- Pra sua infelicidade Sofie é casada.

 

E ali eu sabia que não havia ressentimento algum da parte de minha mãe pelo ocorrido, e provavelmente da parte de nenhum dos dois homens.

 

- É apenas uma espada. - ela se levantou. - Saiba que o que ele te deu é mais valioso que qualquer tesouro de todo o reino.

 

Mamãe saiu do quarto deixando uma Lilith pensativa pra trás. Olhei novamente para a caixa sobre o meu colo, ela não tinha fechadura alguma, precisarei descobrir como se abre.

 

- Pronto. - Sofie falou tocando meus ombros desnudos em seguida. 

 

Elevei os olhos para encarar meu próprio reflexo, atrás de mim havia uma Sofie orgulhosa de seu trabalho. Era incomum que eu usasse aquele tipo de penteado e maquiagem. Meus cabelos longos lisos foram penteados e agora cachos grossos caiam em uma cascata sobre as costas, flores azuis e rosas foram presas em alguns pontos fazendo com que parte do cabelo ficasse preso também. Sofie havia tomado todo cuidado para que as pontas das orelhas ficassem cobertas. Nos olhos, ela apenas delineou puxando-os para o canto como olhos de gato, as bochechas levemente coradas e os lábios pintados em um tom rosado leve.

 

- Não quis fazer nada que te deixasse desconfortável. - ela sorriu.

- Foi suficiente, obrigada. - toquei sua mão sobre o meu ombro e as apertei levemente.

- Sei que não irá levar sua espada...- Sofie se afastou e seguiu em direção a minha cama. - Eu ficaria mais aliviada se levasse qualquer coisa que pudesse protegê-la de algum perigo.

 

Sofie retornou a penteadeira e me entregou duas adagas que papai me presenteara no inverno. Eu não pude evitar sorrir, antes ela havia sido compreensiva e agora era cúmplice. Sentei-me de forma que eu pudesse levantar a saia e as poucas anáguas do vestido e enfiei as adagas uma em cada bota. Sofie me puxou pra que eu ficasse de pé.

 

- Uma verdadeira dama. 

 

Vestir aquele tipo de vestimenta também era raridade, eu não costumava usar anáguas. O vestido era como o de mamãe, porém menos volumoso. Ele era em um tom de rosa chá com uma camada de tecido transparente sobre, este tecido carregava na barra bordados de flores cor de rosa, azul e amarelo. Os ombros estavam desnudos e grossas tiras em rosa chá amarraram meus braços unindo-os ao vestido, o corpete trazia um pequeno é inocente decote e era completamente bordado com as mesmas flores da barra do vestido.

 

- Eu me sinto um jardim, Sofie.

 

Ela gargalhou. Sofie sabia o quanto eu odiava aquele estilo de roupa e cores, sempre preferi roupas escuras e tons pesados e quando era obrigada usar vestidos, optava pelos sem volume e anáguas. A dama da noite, era como todos me chamavam na corte. E eu não ligava, até gostava do apelido. 

 

- É primavera. - ela justificou.

 

Olhei novamente para o reflexo e suspirei, estou ridícula.

 

- Vamos, seu pai à espera no hall. 

 

Sofie jogou sobre meus ombros uma capa azul marinho dando um laço em meu pescoço, ela ajeitava o tecido sobre meus ombros e também o capuz que repousava em minhas costas.

 

- Seja lá o que você esteja sentindo...- ela falava sem me encarar. - Jamais ignore. Se tiver que fugir, fuja. Se tiver que lutar, lute. Mas não o ignore.

 

Eu tive certeza de que ela sentia o mesmo que eu e aquilo me assustou.

 

- Agora vá, sabe que depois das sete os Goblins costumam vagar as florestas e estradas.

 

Sai do quarto com as palavras de Sofie ecoando em minha mente. Encontrei a todos do lado de fora do casarão, papai me esperava de pé ao lado da carruagem. Nos acomodamos e o cocheiro conduziu a carruagem em direção ao castelo. A sensação de que algo estava errado se intensificava a cada respirar da minha família ao meu redor, os dedos e orelhas ficavam ainda mais quentes conforme nos aproximávamos do castelo. Ver o vilarejo movimentado e as carruagens e cavalos seguirem para a entrada do castelo me despertavam, deixavam-me em estado de alerta. 

 

- Lilith...- senti uma eletricidade extremamente doloroso quando a mão de papai tocou a minha. 

- Ai!- resmunguei e imediatamente a puxei.

 

Os olhos dele oscilaram de mim para minha mãe e ele encolheu a mão. Seus lábios se comprimiam e ele parecia tenso.

 

- Vamos chegar, cumprimentar a rainha, esperar o início da cerimônia e a candidatura dos cavaleiros e após, vamos embora.

 

Seu tom de voz era áspero e poucas vezes eu o havia visto daquela forma, talvez ainda estivesse chateado comigo. Aquilo me doeu o coração, era provável ser culpa minha. A carruagem parou e a pequena porta se abriu. Papai saiu esticando a mão em seguida para que eu pegasse, senti medo. Minha pele já não formigava mais, ela doía e eu me esforçava para esquecer a sensação, o pavor.

 

- Pai, vamos embora, por favor. - pedi.

 

Eu não soube explicar o olhar que ele me lançou, era diferente. Ele movimentou o corpo para olhar para a entrada do castelo e observar os convidados.

 

- Não há perigo. - ele tentou me confortar, mas sua voz falhou. - Não há ninguém que nós já não tenhamos enfrentado antes.

 

Novamente ele estendeu o braço e as mãos, tentei me convencer que estava tudo bem. Toquei a ponta de seus dedos, temendo um novo choque, mas não veio. Desci da carruagem com receio, ele tomou minha outra mão e beijou o dorso de ambas, atrás de nós Luke acompanhava mamãe. Retirei a capa que usava e entreguei para um lacaio, papai enlaçou nossos braços e seguiu.

 

- Algo está errado pai, eu sinto. - apertei o braço de meu pai.

 

Ele apenas acariciou minha mão que repousava em seu braço , seus passos eram lentos e firmes. Ali estava o comandante de guerra, mas ainda era meu pai.

 

- Fique perto de mim. - ele falava enquanto cumprimentava algumas pessoas da corte nobre. - Mantenha seu olhar feroz, jamais abaixe a cabeça. Não vacile, não deixe seu inimigo farejar seu medo.

 

Quando finalmente estávamos no salão eu pude entender o porque ele falava aquilo. Escutei os passos de mamãe diminuírem, os olhares de todos se voltaram para nós. Papai continuou sua caminhada em direção a Rainha, o olhar impassível, a postura impenetrável, eu apenas o imitei.

 

- Não era dia para se vestir como uma princesa. - ele sussurrou e riu. - Hoje era o dia para apavorar seus inimigos. 

 

Engoli em seco, os olhares ainda permaneciam sobre nós quando finalmente chegamos ao nosso destino. Desvencilhei nossos braços e toquei a pesada saia do vestido, curvando-me em reverência, pelo canto dos olhos pude ver meu pai fazer o mesmo.

 

- Majestade. - falamos em uníssono.

- Finalmente meu guerreiro mais temido chegou. 

 

A Rainha Margot era um poço de carisma e bondade, o povo a adora. Ela se levantou do trono e se aproximou de nós.

 

- Vejo que nossa dama da noite ficou em casa. - ela riu baixinho em seguida beijou-me a bochecha. - Tome cuidado esta noite menina.

 

Quanto mais me alertavam e eu olhava ao redor, mais a minha pele doía e meu interior chacoalhava. As pontas dos meus dedos queimavam como fogo e eu sentia todo meu corpo eletrizado. Eles estavam por toda parte. 

 

- Duas cortes feéricas estão aqui. - a rainha sussurrou para meu pai. 

 

Eu sabia que algo aconteceria. Olhei com o canto dos olhos para meu irmão e ele mordiscou o lábio inferior, em seguida sussurrou.

 

- Juntos.

 

Os olhares carinhosos e corajosos que eu, mamãe, Luke e papai trocamos significava segurança. Respirei fundo e sorri.

 

- Majestade, devo admitir que a festa está belíssima. - sorri como uma perfeita diplomata. Dissimulada. 

- Minha querida, é como se tivesse sido feita especialmente para você. - ela respondeu enquanto gesticulava as mãos mostrando meu vestido. - Como o inverno desabrochando uma flor de primavera.

- Como parte da cerimônia, permanecerei com a rainha próximo ao trono. - papai nos chamou atenção. - Permaneçam sob o meu campo de visão .

 

Esperei que meu pai e a rainha se afastassem e me aproximei de meu irmão. Nossa mãe nos puxou com graciosidade para o canto do salão e eu finalmente pude observar com mais clareza. Os diversos olhos coloridos e incomuns nos encaravam e eu não sabia dizer se era curiosidade ou raiva. Próximo a nós estava a Rainha de Sanôr, a encarnação viva da natureza, borboletas flutuavam ao seu redor e ao redor de seus convidados. Os longos e cacheados cabelos verdes balançavam com graciosidade, a pele morena brilhavam como se o próprio sol estivesse a tocando, os olhos brancos me olhavam com curiosidade, mas o sorriso era acolhedor e carismático. Ali estava uma versão feérica da rainha Margot. Observei as orelhas pontudas escaparem dos cabelos e então me lembrei das minhas. A Rainha era incrivelmente alta e bonita, muito mais que qualquer humana que eu já havia visto, no meio de seus convidados haviam outras mulheres e homens, algumas fadas e um pequeno e emburrado brownie. Ela sorriu.

 

- Pare de encarar Lilith. - mamãe me chamou atenção.

- Tarde demais. - falei, a rainha já estava seguindo em nossa direção.

 

Luke ficou nervoso e eu quis rir. Ali estava uma feérica que exalava bondade e amor. Ela caminhava com tamanha leveza, que mal parecia pisar os pés no chão. Seu vestido longo parecia ter sido feito de folhas de árvores e era tão verde quando os seus cabelos. Os pés descalços escapavam na fendas do vestido e carregavam jóias brilhantes.

 

- Majestade. - repeti a mesma reverência que fiz anteriormente e fui copiada pela minha família. - Devo lhe dizer o quão magnífica é. 

- Criança. - ela sorriu. - Você é a primavera encarnada. 

- Me sinto lisonjeada. - ao longe vi papai nos encarando.

- Qual seu nome, criança?

- Lilith, Majestade. - eu não estava com medo, muito pelo contrário.

 

Eu conseguia olhá-la nos fundo dos olhos, os deuses foram generosos ao me presentearem com uma certa altura. Aquela rainha tinha um olhar calmo e sincero. Eu não tinha que ter medo.

 

- Tahiel. - ela falou. - Me chame pelo meu nome.

 

Tahiel balançava uma taça de vinho em sua mão. Os dedos cheios de jóias e os pulsos também, sobre sua cabeça uma coroa de flores com borboletas de ouro. 

 

- Interessante. 

 

Ela falou, os longos dedos tocaram-me as bochechas e acariciaram a mandíbula. Ao lado dela aquela sensação que eu tinha não existia, ela exalava paz e segurança.

 

- Me diga, minha criança. - ele afastou os dedos. - Você é uma típica humana?

 

Aquela pergunta soou de forma estranha. Eu estava longe de ser típica.

 

- Quantos se aproximaram de você está noite, minha rainha?

 

Atrás de mim, Luke tossiu. Como se quisesse me chamar atenção.

 

- E quem é esta espécime perfeita?

 

A rainha Tahiel desviou seu olhar para o meu irmão, os olhos brancos percorreram-no de baixo para cima, como se o avaliasse. A julgar o sorriso em seu rosto, ele passou em seu teste de qualidade.

 

- Deixe-me apresentá-la. - dei um passo para o lado. - Este é Luke, meu irmão.

- Há algo que deseja e que ainda não tenha conquistado? - ela permaneceu o analisando. - Basta uma palavra, Luke, e te darei tudo o que quiser.

- Majestade. - mamãe gaguejou roubando sua atenção, Tahiel se calou a observando, ela se aproximou da matriarca e inspirou profundamente seu cheiro. Afastando-se em seguida assustada. 

- Vocês precisam ir embora daqui. - ela alertou. - Agora.

 

Tahiel se afastou, os passos apressados e firmes chamando pra si todos os olhares da noite, com exceção do outro reino ali presente.  Mamãe tocou minha mão e me puxou pra perto dela.

 

- O que foi isso? - perguntei e ela balançou a cabeça negativamente.

 

Ao longe, meu pai sussurrou algo no ouvido da rainha e ela apenas assentiu.

 

- Hoje é uma noite doce e alegre pra todos. - ela começou a falar. - Desejo as boas vindas à Rainha Tahiel, do reino Sanôr. Uma festa com tamanho significado para você e seu povo. - Margot procurava a rainha feérica no meio da multidão. - E não me esquecendo, desejo as boas vindas ao rei Galion, do reino Lunôr. - observei o homem do outro lado do salão elevar uma taça. - Iniciamos a cerimônia, com a candidatura de três jovens rapazes para cavaleiros da tropa de ouro. - o som de cornetas clarins soaram pelo salão. - Aproximem-se Henry Bentley, Pierre Beaumont e Luke Thimothié.

 

Meu irmão apertou minha mão com nervosismo e seguiu até o trono. 

 

- Com enorme pesar, comunicamos a saída do comandante Arthur Thimothié da tropa de ouro, tendo sido ontem seu último dia como servente da coroa...

 

Eu não conseguia prestar atenção no que a rainha Margot falava. Apenas nele, Galion, o rei de Lunôr, ele parecia extremamente jovem. Seus cabelos eram tão brancos como a neve e tão lisos quanto fios do mais fino tecido, a pele era rosada e bronzeada e os olhos incrivelmente azuis, duas enormes asas de penas estavam recolhidas atrás de si, as orelhas pontiagudas escapavam dos cabelos e seguravam uma pequena tiara que lembravam asas, uma sobre cada orelha. A túnica era leve e branca bordada com fios de ouro e terminava um pouco acima dos joelhos, as calças tinham o tom de azul dos lagos e mares, seus pés estavam descalços como os de Tahiel e assim como ela, ele não economizava nas jóias. Uma beleza única, quase celestial.

 

- Ele é um Serafim. - mamãe falou baixinho.

 

Galion era quase um anjo e poderia até ser profanação dizer o contrário.

 

- O povo da luz. - ela completou.

 

Os convidados ao seu redor eram um pouco diferentes dele. Alguns com asas, porém menores, outro com escamas e barbatanas aparentes. Alguns eu poderia sugerir um lacaio exclusivo para secagem do chão, de tanta água escorrendo de suas peles para o piso. Um toque carinhoso foi sentido em meu ombro e eu me virei, Tahiel estava ali novamente.

 

- Chame sua família. - ela falava gentilmente para minha mãe. - Providenciei para que saiam em segurança. 

 

Mamãe trocou um breve olhar com meu pai que nos vigiava como uma águia e então o vi balançar a cabeça positivamente, sussurrando algo no ouvido da rainha.

 

- Mas não podemos. - argumentei. - Meu pai tem que estar junto a Rainha Margot. 

 

O olhar de Tahiel oscilou entre mim e meu pai. Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, burburinhos soaram e passos pesados ecoaram.

 

- Uma festa como essas e não fui convidado? - a voz era grave, porém arrogante. - Eu deveria me sentir incomodado. - ele ronronou, seus passos ainda ecoavam. - Oh, quase me esqueci. - uma risada rouca e maliciosa soou. - Majestade.

 

Os dedos de Tahiel apertaram o meu ombro com mais força. Meu corpo foi tomado por uma eletricidade dolorosa, meu interior queimava. Aquilo estava muito errado.

 

- Vocês precisam ir, agora.



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