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História Rainha Vermelha - Capítulo 2


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Notas do Autor


Antes de mais nada, muuito obrigada a todos que deram chance a "Rainha Vermelha" ><

Voltei mais cedo do que pretendia, até porque estava ansiosa para postar esse capítulo. Aqui teremos algumas explicações, que ficaram em abertas no primeiro cap, e apresentações do restante do elenco de RV hehe

A primeira parte do capítulo, em itálico, é referente ao passado dos meninos, se atentem a ela e aos anos apresentados no início de cada passagem de tempo.

Sem mais delongas, boa leitura!!! E vejam as notas finais!!!!

Capítulo 2 - Rubrum Ostium


New Orleans, Maio de 1815

 

Água salgada pingava em cima das crianças, que se encontravam encolhidas e se encolhiam ainda mais a cada vez que uma onda, provocada pela tempestade, batia contra o casco do navio. 

Os corpos dos meninos tremiam, tanto pelo frio, tanto pela aflição de estarem navegando em direção ao novo mundo por conta própria. Tiveram que deixar suas famílias e seu país de origem para trás para fugirem às pressas, sem nada mais além de uma pequena mala precária para cada um.

Quatro garotos, herdeiros de sangue bruxo, mantinham-se no canto mais afastado do navio. Oh Sehun, o mais novo entre eles, agarrava um livro, enrolado em um tecido surrado, contra o peito e o protegia com toda a força de seus bracinhos trêmulos. Já os outros três tentavam tornar o ambiente o mais confortável possível enquanto mascaravam seus temores. Eram refugiados indo para a América após seu país ter sido invadido. Os pais dos garotos, sabendo qual destino o povo teria, enviaram suas crianças nos navios cargueiros, de modo ilegal, para que tivessem a chance de terem liberdade.

Fora prometido que alguém tomaria conta e guiaria as crianças durante o começo de suas novas vidas, mas essa pessoa nunca apareceu, o que levou os pequenos a aprenderem a cuidar uns dos outros. Muitas das crianças, enviadas junto dos meninos, acabaram por virar piratas sujos e maltrapilhos enquanto outras tiveram um pouco mais de sorte.

New Orleans não tinha sido uma escolha aleatória. Era o coração da bruxaria e misticismo em todo continente. Cada dia mais bruxos e bruxas chegavam buscando por abrigo e acolhimento, foi por esse motivo que os pais do jovem quarteto escolheram aquela cidade para enviar seus pequenos.

Embora Sehun fosse o caçula do grupo, era o mais perspicaz para sua idade, tanto que ele e Baekhyun, o mais velho, acabaram por ficar com a tarefa de manter o pequeno grupo vivo. Começaram dormindo em vielas e, devido a falta de dinheiro, se viram sem escolhas além de roubarem padarias para matarem a fome antes de fugirem por entre as sombras da bela cidade enquanto ouviam pragas e ameaças de padeiros furiosos. Se acostumaram a vida difícil, mas, felizmente, não foi algo permanente. Conforme iam conseguindo aprender o idioma local, seus poderes e conhecimentos se desenvolveram e os tornaram mais fortes. Todavia, tais poderes acabaram por serem cobiçados, principalmente por eles: os caçadores.

Inúmeras vezes os quatro se encontraram cara a cara com a morte, mas, felizmente, escaparam de todas as situações que envolviam risco de vida. Sabiam que não durariam muito apenas contando com a sorte. Embora fossem tão unidos quanto uma família de sangue, ainda não eram capazes de se protegerem de todos que os perseguiam.

O livro, carregado e cuidado com tanto apreço, não era um acessório para o grupo. Este carregava em suas páginas a receita para a imortalidade, que foi iniciada pelos mais antigos dos povos e passada de geração a geração, de país para país e de impérios para impérios até chegar nas mãos dos garotos. Por anos eles tentaram compreender aquele feitiço, até que um dia conseguiram. Porém, o preço a se pagar era além do que esperavam. A receita para imortalidade exigia um ingrediente peculiar: vidas humanas.

Houve certa relutância por parte dos meninos em executar tal feitiço, mas, após inúmeras perseguições, os quatro entraram em consenso e concordaram em executá-lo.

Após matarem e sujarem suas mãos com sangue humano, conseguiram juntar todos os ingredientes necessários para fazer o líquido imortal. Uma vez com esse pronto, eles o beberam e, gradativamente, adquiriram grande respeito pela cidade, especialmente pela comunidade bruxa, que espreitava na chance de conseguir a receita, mas ninguém nunca conseguiu. 

O segredo morreria com os quatro, assim diziam. 

Conforme os anos passaram, seus poderes aumentaram além da magia, coisa que os fizeram conquistar fortunas e propriedades e, assim, iniciarem seu legado em New Orleans.
 

 

New Orleans, fevereiro de 2012

 

Irene sentia sua cabeça pesada e o corpo dolorido. Parecia que um caminhão havia passado por cima de si e transformado seu corpo em uma massa irreconhecível. Porém, infelizmente, algum idiota teve a brilhante ideia de tentar modelar a massa e fazê-la retornar a sua forma original. Amaldiçoava esse ser e amaldiçoou ainda mais quando cenas frescas, dos últimos acontecimentos, vieram em uma avalanche confusa e intensa de flashes que inundaram seu coração de dor.

Tinha ciência de que estava deitada em uma cama macia, tanto quanto estava ciente que haviam pessoas esperando que abrisse os olhos. A constatação fez um riso quebrado coçar em sua garganta. A última coisa que queria fazer era abrir os olhos e encarar sua nova realidade impregnada de dor, morte e sangue. Até queria alimentar a esperança que tudo havia sido um pesadelo, mas o cheiro de sangue, que estava a irritar suas narinas e a fazer seu estômago revirar, era um lembrete que tudo havia sido real.

Sua magia havia sido despertada da pior forma. Se sentia vazia ao mesmo tempo que sentia cada terminação nervosa de seu corpo doer, mas nada superava a dor emocional que estava a dilacerá-la de dentro para fora. Em sua cabeça, a mesma cena se repetia, e, a cada replay, sentia como se agulhas se afundassem em seu coração. Abrir os olhos não parecia mais uma ideia tão ruim.

Lentamente, abriu as frestas dos olhos e tentou enxergar o ambiente ao seu redor por debaixo dos cílios. Conseguiu ver quatro formas embaçadas que, como previsto, estavam esperando o seu despertar.

— A bela adormecida está acordando — uma voz masculina sussurrou, logo outros sussurros, mais baixos do que o primeiro, vieram. Mesmo que Irene tenha se esforçado, não conseguiu ouvir.

Dado por vencida, abriu os olhos por completo e se pôs a encarar o lustre antigo no teto, que, com toda certeza, valia uma fortuna. Antes que pudesse fazer com que sua mente focasse em descobrir o preço aproximado daquele lustre, sentiu seu estômago revirar e um frio percorrer sua espinha. Se sentia enjoada e sabia muito bem o porquê. O cheiro de sangue, se possível, estava mais forte e aquilo estava lhe dando ânsia de vômito.

— Irene? — Ouviu a voz de Sehun, porém, estava muito focada em manter a comida dentro da barriga. O cheiro de sangue a afetava de uma forma tão infeliz que, em um movimento rápido, se sentou na cama e fez uma careta. Sentia sua testa e nuca grudadas de suor ao mesmo tempo em que sua face se contorceu em expressões que remetiam ao vômito.

Em um piscar de olhos, um balde preto estava diante de si. Foi nesse balde que Irene colocou tudo o que estava em seu estômago para fora.

— Isso foi nojento — a mesma voz masculina comentou antes do dono da voz ganhar uma cotovelada na cintura. 

— Não precisava verbalizar isso, Jongdae. — censurou uma segunda voz, também masculina.

— Mas... — o primeiro homem, nominado Jongdae, começou, mas foi interrompido.

— Não comecem — uma terceira voz masculina, um tanto irritadiça, os repreendeu.

Nenhuma daquelas vozes eram familiares para Irene, que, no momento, respirava com dificuldade enquanto se recuperava da cena que acabou de protagonizar. Ainda não havia tido coragem de erguer os olhos para encarar os homens diante de si, estava envergonhada e se sentindo frágil e diminuta diante de desconhecidos, coisa que detestava. Tinha causado uma péssima primeira impressão e sabia disso. Parte de si tentava a convencer de que pouco importava o que aquelas pessoas pensavam de si, enquanto outra parte estava irritada com a ideia de levantar os olhos e se deparar com olhares de pena em sua direção. Não queria a pena de ninguém.

— Irene? — Novamente a garota ouviu a voz de Sehun tentar chamar sua atenção.

Não ergueu o rosto, apenas tirou o balde de vômito da sua frente e contorceu o rosto em uma careta. Ainda se sentia enjoada e, assim que abaixou os olhos para suas roupas, soube o que estava a causando tal enjoou.

— O sangue… daquele porco — sussurrou para si mesma, mas, devido a proximidade, Sehun a ouviu.

Em um piscar de olhos, roupas limpas e dobradas foram estendidas em sua direção.

— O banheiro fica na porta em frente a esse quarto — Sehun falou novamente. Apesar da voz dele estar baixa e a trazer um certo tipo de confiança, ainda não conseguia encará-lo, não naquele estado. O sangue em suas roupas só a fazia se recordar da porta vermelha que quase cruzou.

A porta vermelha é o limite que bruxos jamais podem ultrapassar, visto que se trata do berço da escuridão. Tal escuridão se torna uma tentação depois que um bruxo suja suas mãos com sangue humano ou com o de qualquer criatura viva. Bruxos não podem matar, mas, uma vez que matam, o risco de serem engolidos pela escuridão é alto. Após a primeira morte, a porta vermelha começa a tentar o bruxo em seus momentos de fragilidade. É preciso ser forte para resistir a essa tentação. 

"Tudo o que está atrás da porta vermelha mata a humanidade de um bruxo", Irene conseguiu ouvir a voz de seu pai com perfeição em sua cabeça. Ele repetiu tanto essa frase ao decorrer de sua vida que era impossível impedir que a voz, em tom de advertência, ecoasse em sua mente de forma dolorosa.

Instantaneamente se encolheu e assentiu para o homem a sua frente, sem nunca levantar o olhar. 

Seus cabelos agiram como uma cortina negra em seu rosto quando se levantou de forma trôpega da cama. Chegou a ver a mão de Sehun tentando ampará-la, mas desviou do toque e cruzou o quarto sem se focar nos donos dos olhares que estavam queimando suas costas. 

Após sair do quarto, escutou alguns sussurros baixos demais para sua audição, mas podia apostar que estavam falando de seu comportamento. Optou por ignorar, a última coisa com que esquentaria a cabeça seria pré julgamentos.

Uma vez no banheiro, ligou a luz e, assim que seus olhos miraram seu reflexo no espelho, se assustou com o que viu. Deu vários passos cegos para trás, estava terrível! Parecia uma sobrevivente de guerra. Estava uma confusão de cabelos desgrenhados, sangue, suor, sujeira e lágrimas. Porém, o que mais a incomodava era o sangue sujo em sua pele e roupas. Precisava se livrar daquele sangue nojento. Estava com nojo de si mesma por ainda estar carregando na pele o sangue daquele que a tirou tudo.

Sentia o coração acelerar no peito e sua respiração se tornar audível enquanto sentia a faísca da adrenalina perpassar pelo seu corpo. Irene abriu um sorriso amargurado quando, em um impulso, rasgou sua blusa. Não demorou muito para fazer o mesmo com sua calça, que tinha alguns rasgos na parte dos joelhos e tornaram fácil fazer um estrago nela. Rasgou as peças como se fossem o corpo do morto que, secretamente, queria matar novamente, por mais insano que isso pudesse parecer. 

Após rasgar as roupas da forma que pôde, se deu por satisfeita e acabou de desnudar o corpo. Havia conservado suas peças íntimas simplesmente por não querer usar as oferecidas por Sehun. 

Se sentindo subitamente exaurida, se arrastou até o chuveiro e o ligou. Logo a água morna estava a cair sobre seu corpo como um manto quente que, de certa forma, a ofereceu o conforto que precisava para, enfim, desabar em lágrimas doloridas.

 

 

Uma vez de banho tomado, e após ficar com uma aparência minimamente decente, saiu do banheiro. Havia passado tempo demais por lá, mas precisava desse tempo para se armar novamente. Conhecia Sehun desde pequena. Apesar da aparência jovem, Sehun é um dos bruxos imortais mais poderosos que Irene já ouviu falar. Tanto que, o coven de Oh, é o mais influente da comunidade bruxa. Sehun sempre foi um amigo próximo do pai de Irene e, basicamente, a viu crescer. Confiava nele, porém, não conhecia o restante dos membros do coven, não sabia se podia confiar.

Ao colocar os pés de volta ao quarto, se deparou novamente com os quatro homens, que pararam de conversar assim que sua presença se tornou gritante no ambiente. Engoliu em seco.

Todos ali eram intimidadores e transpiravam tanto poder ao ponto de fazer Irene se sentir acuada e até mesmo mal vestida, mesmo que estivesse vestindo um vestido preto que combinava com as vestimentas escuras dos membros do coven, que tinham como cor dominante o preto. Cada coven tinha o hábito de ter uma cor dominante que os simbolizavam.

— Fizemos uma aposta de quanto tempo Sehun ficaria sem ir na porta do banheiro perguntar se estava tudo bem. Aposto que veríamos uma versão sombria da Ana tentando convencer a Elsa a sair para brincar na neve. — Mais uma vez, o homem, que pela voz reconheceu como sendo Jongdae, se manifestou. Sendo que, dessa vez, Irene o mirou e se deparou com um belo rapaz de cabelos tingidos com um loiro puxado para o tom de trigo. Esse era dono de um sorriso gatuno e provocativo.

— Elsa nunca abriria a porta — Irene retrucou em tom baixo, mas foi na altura perfeita para Jongdae ouvir e arregalar sutilmente os olhos.

— Ela sabe falar! — Colocou a mão no peito de forma dramática, porém, o drama não durou muito, visto que logo corrigiu a postura e lançou mais um de seus sorrisos gatunos em direção a morena. — Sei que não é a situação mais propícia para fazer esta observação, mas, nossa! Preto definitivamente é a sua cor.

— Na verdade, minha cor é vermelho, como a do sangue que estava na minha pele. 

— Que mórbido. — Jongdae contorceu o rosto em uma careta antes de se sentar em uma das poltronas espalhadas pelo quarto. Ao que parece, havia perdido o interesse de continuar a tentativa de flerte, coisa que Irene agradeceu mentalmente.

— Jongdae é inofensivo, não se preocupe — Sehun assegurou enquanto atravessava o quarto e ia em sua direção. Ao fundo, Irene pôde ouvir o bufar de Jongdae. — Vejo que o vestido coube perfeitamente.

— Parece que sim... — Nesse momento, o olhar da jovem vagou para as duas figuras que estavam próximas a uma mesa cheia de garrafas de whiskey. Ambos observavam a cena com olhos taciturnos e um tanto arrepiantes. Do maior entre eles Irene se recordava, vagamente, de ter o visto com Sehun quando… aquilo aconteceu. A altura do bruxo era algo intimidante por si só, já os olhos pareciam que estavam a analisar a cena que se desenrolava na sua frente, assim como um crítico de cinema faria ao analisar um filme indicado ao Oscar. Por sua vez, o menor, ao lado do grandão, a encarava diretamente sem nenhum tipo de vergonha. Seu olhar era de uma intensidade desmedida, tanto que a morena, por um momento, se sentiu nua e envergonhada por olhar para o próprio vestido, só para confirmar se esse ainda estava em seu corpo. Rapidamente desviou o olhar.

— Eles são boas pessoas, só estão intrigados com você. — A voz de Sehun se fez presente, o que fez Irene piscar em sua direção.

— Como…

— Vamos para as apresentações, sim? Teremos uma longa conversa, mas, para a conversa se suceder, você precisa conhecer meu coven. 

Irene anuiu e, mais uma vez, agradeceu mentalmente por Sehun não a fazer perguntas tolas, como por exemplo: "Você está bem?". Era evidente que não estava, ficava agradecida de não ter que responder algo tão óbvio.

Observou Sehun se virar para os três homens da sala, que prontamente focaram os olhos nele. Naquela breve troca de olhares entre os quatro, Irene pôde ver o quão respeitado pelos outros o Oh era.

— Kim Jongdae. — Apontou para a figura sentada confortavelmente na poltrona. Jongdae se limitou a lançar uma piscadela acompanhada de um sorrisinho de canto para a garota. Irene, por sua vez, fez uma breve reverência para ele. 

— Park Chanyeol. — Sinalizou para o rapaz alto de cabelos brancos, tal coloração capilar o denunciava como necromante. Necromantes possuíam os cabelos naturalmente brancos devido às próprias habilidades. Era um traço inconfundível e presente em todos os praticantes da necromancia.

— Seja bem vinda! — A voz profunda de Chanyeol ecoou pelo ambiente silencioso. Irene observou ele erguer um copo de whiskey em sua direção como uma forma de comprimento. Prontamente fez mais uma reverência em direção ao bruxo e respondeu um tímido "Obrigado".

— E Byun Baekhyun — Sehun falou, por fim, ao indicar com o queixo o homem mais baixo que estava ao lado de Chanyeol, esse deu um longo gole em seu copo de whiskey antes de caminhar com a elegância de um felino até o lado de Sehun. Agora Baekhyun estava de frente a Irene que, mais uma vez, engoliu em seco.

Se de longe o olhar de Baekhyun a desnudava, de perto parecia que estava a olhar sua alma. Por mais que sentisse vontade de encarar os próprios pés, sustentou o olhar daquele homem até esse abrir um sorrisinho deveras entretido.

— Não precisa me olhar com olhos temerosos, eu não mordo. — A voz de Baekhyun era suave e macia, mas havia pitadas de divertimento contido em seu tom.

Sehun o lançou um olhar reprovador, que foi capturado por Baekhyun, que apenas ampliou o sorriso sacana.

O coração da jovem, nessa altura, ressoava em seus ouvidos. Estava um tanto nervosa e intimidada em um ambiente dominado por homens que não tinha nenhuma intimidade. Porém, não se deixaria abater.

— O modo como você me encara fala o contrário. — Foi sincera e arrancou um riso fraco de Baekhyun.

— Baekhyun gosta de intimidar os novatos. É um divertimento pessoal para ele — Chanyeol comentou ao fundo enquanto contornava a boca do copo com a ponta do indicador. 

— Ele é um cretino, isso sim! — Jongdae gritou.

Baekhyun virou a cabeça na direção do Kim e, com um tom presunçoso, falou:

— O cretino que impediu sua cama de ser vomitada, de nada. — Em resposta, Jongdae o deu a língua.

Sehun moveu a cabeça em negativa antes de buscar os olhos de Irene e pedir, silenciosamente, desculpas. A jovem apenas assentiu. Não achava ruim os meninos serem um tanto implicantes entre eles, na verdade, isso era um tipo de distração bem-vinda.

Aparentemente, todos estavam reunidos no quarto de Kim Jongdae. Essa nova informação fez com que Irene vagasse os olhos pelo ambiente ao redor e captasse toda a decoração rústica do lugar. O quarto era bem espaçoso, organizado e decorado com elementos que harmonizavam entre si. Kim tinha bom gosto.

Rapidamente a atenção da jovem se voltou a Baekhyun, até porque esse havia acabado de falar consigo.

— Não há necessidade de me temer. Na verdade, no seu lugar, temeria Jongdae. Ele não pode ver belas mulheres que já vira um incômodo. 

— Calúnia! — Jongdae se apressou em responder. Baekhyun riu de forma descontraída.

— Não tenho interesse em homens — Irene falou de súbito, coisa que fez Baekhyun cessar as risadas e a encarar com a sobrancelha arqueada e Jongdae gemer em frustração. 

Estava sendo sincera, nunca teve interesse em homens, romanticamente e carnalmente falando. Todavia, sabia reconhecer quando homens eram bonitos. Aliás, todos os homens naquele coven eram excessivamente belos. Pareciam modelos ou galãs de cinema.

Sehun limpou a garganta instantes antes de pedir que todos se direcionassem para a sala, mas antes pediu que Jongdae se livrasse do balde com vômito e o limpasse. Mais resmungos foram ouvidos por parte do Kim antes desse fazer o que Sehun havia pedido.

Irene observou Sehun e Baekhyun saírem porta a fora do quarto de Jongdae, iria esperar que Chanyeol também o fizesse, mas este último parou a sua frente e gesticulou para a porta do quarto antes de falar, em uma voz rouca e profunda, um "Primeiro as damas". A morena sentiu suas orelhas pinicarem antes de cruzar a porta.
 

 

— Do que se lembra? — Sehun começou. A morena havia notado que Sehun tinha o hábito de ser direto. Mirou os olhos castanhos e, mesmo que Sehun fosse a figura mais familiar para si naquela sala, sentiu o estômago revirar pela segunda vez naquele dia. Respirou fundo e deixou com que o aroma agradável de rosas, presente no ambiente, a acalmasse.

— Um homem… — Mordeu o lábio, não queria se lembrar dos momentos agonizantes que passou, mas ao mesmo tempo não queria prolongar aquilo — Me assediou na rua quando fui comprar algo para comer. — Sehun permanecia inexpressivo, mas em seu olhar havia pesar. Sentia que os demais também a encaravam, mas não se sentia confortável para encarar nenhum deles de volta — Depois me seguiu até em casa e… — Seus olhos queimavam e um estranho bolo pesava em sua garganta . Se sentia exposta, nervosa e envergonhada. Mesmo tendo ciência que era a vítima da história e que não tinha nada do que se envergonhar, sentia o constrangimento tomar conta de si e se juntar a sua explícita fragilidade emocional. Estava quebrada em milhões de pedaços, pior que nem sabia se queria que alguém a concertasse.

— Não precisa continuar — Sehun falou pausadamente e com certa suavidade antes de limpar a garganta. Era claro para a jovem que ele também estava sem jeito, mas tentava manter a firmeza — Hum, antes de partir para cima desse homem… o que sentiu? — Irene franziu o cenho ao notar o brilho de interesse nos olhos do bruxo.

— Ouvi vozes. — Optou por ser sincera — Chamavam por mim. — Omitiu a parte das vozes terem a mandado matar o homem.

— Você viu a porta vermelha? — A pergunta veio de Baekhyun. Imediatamente a jovem o mirou e assentiu. Todo bruxo sabia o significado da porta vermelha. — Passou por ela? — Byun continuou e Irene notou que os outros a encaravam com evidente expectativa pela sua resposta. 

— Não — respondeu rápido demais. Nunca imaginaria que ouviria tal pergunta ser direcionada a si.

— Por quê? — Novamente a voz de Baekhyun se fez presente. Sua voz era melodiosa e, apesar de soar boa aos ouvidos, Irene desconfiava das intenções por trás de tal indagação.

— Por que alguém atravessaria? — rebateu.

— Poder ilimitado. — Assustou-se ao ouvir o timbre rouco de Chanyeol. — Se vender sua alma ao diabo, ele irá te presentear com poderes. Não acha tentador? — A desafiou com o olhar.

— Não sou facilmente suscetível a tentações — rebateu a morena ao mesmo tempo em que observou Chanyeol abrir um sorrisinho, parecia ter gostado de sua resposta. — Não quero brincar com o diabo, o preço que ele cobra é muito alto. Se bem que, não tenho mais nada a perder. — Soltou um riso quebrado.

— Todos temos algo a perder, por mais que ache que não. — Sehun se manifestou.

A língua de Irene coçou para retrucar. Iria dizer que havia sim perdido tudo o que tinha. Seu pai era seu pilar de sustentação e agora não estava mais entre os vivos. Não tinha esperanças em relação a nada, não tinha mais objetivos, não sabia nem o que diabos faria da sua vida dali para frente, sequer sabia se queria fazer algo. Mas, ao invés de confrontar o bruxo, optou por ficar quieta. Estava cansada demais até para discutir. 

— Não me digam que perdi as melhores partes da conversa. — Jongdae surgiu na sala — Não murchem só porque eu cheguei. Ouvi que ninguém passou pela porta vermelha, isso é muito bom, hein! — Sentou-se no braço do sofá, bem ao lado de onde Chanyeol estava, enquanto lançava um olhar amistoso para a jovem. Irene ergueu minimamente os lábios em uma tentativa de sorriso, porém, não foi bem sucedida. Em contrapartida, o Kim a lançou um efusivo dedão positivo.

— Não é como se a porta não fosse aparecer outra vez. — Soltou um longo suspiro antes de alisar as próprias pernas em uma espécie de consolo — De agora em diante a porta irá aparecer em todos meus momentos de fragilidade emocional, como um lembrete que existe um caminho mais fácil, não é? — Direcionou o olhar para Sehun que, em um primeiro momento, fechou os olhos antes de assentir.

Irene abriu um sorriso amargo.

— Vamos ajudá-la! Você não está só, Irene. — A voz profunda de Chanyeol voltou a preencher o ambiente. A garota o encarou e pôde ver o olhar compreensivo que o necromante a lançava. Chanyeol era todo grande, mas seus olhos grandinhos e expressivos o fazia se assemelhar a um Golden Retriever. Porém, Irene bem sabia, aparências enganam. Estava longe de cometer a tolice de subestimar um bruxo ancião por conta de uma comparação boba.

— Nos veja como guardiões — propôs Baekhyun. — Ou, quem sabe, pseudo familiares. — Abriu um sorriso pequeno antes de repousar o cotovelo no braço do sofá e deixar com que a destra se tornasse apoio para o queixo. Os anéis, que enfeitavam o anelar e o dedo médio, reluziam na luz. — Sehun é aquele que você deposita sua confiança. — Direcionou os olhos para o moreno, que observava o desenrolar da conversa com olhos atentos, mas logo retornou a mirar a jovem — Iremos conquistar sua confiança também. Acredite, não sou tão ruim quanto aparento. Ser intimidador é apenas um charme que utilizo para me divertir um pouco. — Um biquinho acompanhou cada uma de suas palavras — Jongdae também não é sempre tão chato, até que ele é suportável.

Jongdae bufou auditivamente e Irene pôde ouvi-lo praguejar baixinho. Nesse meio tempo, Chanyeol revirou os olhos.

Sabia que eles estavam tentando criar um clima descontraído e admirava tal esforço. Tentou abrir múltiplos sorrisos, mas todos eram forçados. Se sentia anestesiada, mas se mantinha reagindo a cada uma das implicâncias bobas entre os bruxos. Observá-los distraía sua cabeça de seus pensamentos.

— Irene... — Ouviu a voz de Sehun antes de voltar a atenção para ele. Contudo, antes que o moreno falasse qualquer coisa, o barulho de chave na fechadura foi ouvido. Logo uma voz feminina ecoou pela sala e, em um piscar de olhos, a mesma figura fantasiada de Princesa Jujuba surgiu na área de visão de Irene, que, por sua vez, não conseguiu esconder sua surpresa ao se deparar novamente com a menina de sorriso bonito.

Naquele momento, se recordou que pensou na possibilidade de ir até ela e, de imediato, um amargor se espalhou pela sua boca ao mesmo tempo que uma mão de ferro se fechou em torno de seu coração. E se o carro elétrico não a fizesse perder a rosada de vista? E se tivesse ido até a menina? Poderiam tais escolhas mudarem o curso dos acontecimentos? Poderia seu pai estar vivo naquele momento e ambos estarem tomando café com biscoitos?

Engoliu em seco, mas não deixou de encarar a rosada, que parecia ter a reconhecido, visto que parou abruptamente seu caminhar ao pousar os olhos castanhos em si. Os olhos da garota carregavam um misto de surpresa, espanto, confusão e curiosidade. 

Mesmo que Irene, naquele momento, estivesse achando sua vida uma grande piada de mau gosto, não esperou com que ninguém a motivasse; se levantou e fez uma reverência muda para a rosada, que repetiu o gesto de forma visivelmente hesitante.

— Temos uma nova hóspede. — A voz de Sehun cortou o ar de forma quase vibrante — Seulgi, está é Irene e, a partir de hoje, ela faz parte de nosso coven.

 

 

Após uma longa sessão de explicações a Seulgi, olhos pesarosos em cima de si e de assegurar aos bruxos que estava sem um pingo de fome, pôde, enfim, ir para seu mais novo quarto. Esse se tratava de um ambiente sofisticado, espaçoso e bonito. Porém, o que o quarto tinha de belo, tinha de frio e silencioso.

A última coisa que Irene precisava era de silêncio, não queria ficar sozinha com seus pensamentos. Tanto que, antes de Sehun a deixar descansar no mais novo quarto, agarrou o braço do bruxo.

— Tem outro quarto que eu possa ficar?

— Não gostou desse? 

— O quarto é lindo, mas... — Engoliu um pouco de saliva antes de fechar os olhos, suspirar e, por fim, falar. — Não quero dormir em um quarto tão grande sozinha. Não quero ficar sozinha com meus pensamentos, mas também não quero que nenhum de vocês seja obrigado a compartilhar o quarto comigo. — A sinceridade fluiu em sua fala como vento em uma tarde de primavera. 

— Durma no quarto de Seulgi.

E assim o fez. 

 

Agora se encontrava em cima de um colchão confortável, que se localizava ao lado da cama de Seulgi, a encarar o quarto da menina. Havia um bom balanceamento de cores naquele quarto e a organização também era algo a se admirar. 

Assim como o quarto que Sehun ofereceu para ela, aquele era igualmente grande e espaçoso. Não era muito fã de ambientes grandes e espaçosos, se sentia mais confortável em ambientes medianos e confortáveis, tanto que se surpreendeu por se sentir confortável naquele quarto. Desconfiava que o conforto se devia aos mais diversos tipos de pelúcias que haviam espalhadas por ali e pelas três prateleiras de barbies, em sua maioria princesas da Disney, que se localizava acima de uma escrivaninha charmosa. Se perguntava se Seulgi brincava com aquelas bonecas ou se era uma colecionadora assídua.

— Você gosta de bonecas? — A voz feminina a sobressaltou.

Rapidamente piscou e retornou a atenção a dona da voz, que havia acabado de sair do banheiro (que ficava no próprio quarto) vestindo uma regata coberta de ursinhos e uma calça de moletom igualmente lotada de ursos. Seulgi secava os fios castanhos com uma toalha, coisa que fez o cheiro adocicado de seu shampoo se desprender dos cabelos e tomar conta do quarto. 

— Você tem uma bela coleção — Irene retrucou ao mesmo tempo em que apontava para as bonecas. Iria parar por aí e ignorar o fato de que a castanha tinha a feito uma pergunta, mas, após mirar os olhos cheios de expectativa da garota, voltou atrás com sua escolha e deu o braço a torcer. — Gosto de bonecas. — Não era como se estivesse no clima para conversas casuais. Não estava em uma situação casual e nem queria agir como se estivesse em uma. 

Observou um sorriso pequeno repuxar o canto da boca da menina antes dessa se sentar ao seu lado no colchão. Não se moveu, apenas se manteve encarando Seulgi, que a encarava de volta em uma análise silenciosa.

— Sei que está sentindo dor.

— Não estou machucada. — "Ao menos não fisicamente", completou mentalmente.

— Você sabe a que tipo de dor me refiro. — Havia delicadeza em seu tom de voz, provavelmente a castanha estava a medir suas palavras. De certo, tinha aprendido com Sehun. — Sinta tudo o que tem que sentir, não guarde nada dentro de si. Se sentir vontade de chorar, chore, se quiser gritar, grite, mas não permita que a dor fique presa dentro de você. 

E assim a impassividade de Irene foi quebrada para dar lugar a uma expressão surpresa.

— Sábias palavras.

Seulgi anuiu e abriu mais um de seus sorrisinhos discretos antes de colocar algo macio nas mãos da morena.

— Para afastar seus pesadelos. — Ouviu a voz de Seulgi ao mesmo tempo em que abaixou os olhos e encontrou uma pelúcia de um ursinho branco com um grande laço vermelho no pescoço. — Não está enfeitiçado — Seulgi se apressou em dizer —, mas quando durmo com esse ursinho, não tenho pesadelos. Espero que o mesmo ocorra com você. 

— Obrigada, isso foi… bem doce da sua parte.

— É de se esperar um tanto de doçura de alguém que se fantasia de Princesa Jujuba, não acha? — Seulgi indagou ao passo que se levantava do colchão da mais nova integrante do coven. Em resposta, uma sombra de sorriso enfeitou os lábios rosados da jovem órfã.

Irene seguiu com o olhar o caminho que a garota fez até a cama e desejou a anfitriã uma boa noite de sono.

Assim que todas as luzes do quarto estavam apagadas — exceto a do banheiro, pois Irene pediu a Seulgi que está ficasse ligada —, a morena se viu sozinha com seus pensamentos, que se resumiam em luto, culpa, dor, medo e portas vermelhas. Tanto que não foi surpresa alguma quando viu seus temores reunidos em seu pesadelo. Se agarrar ao ursinho de Seulgi não funcionou naquela noite. 

A mente de Irene havia separado os piores cenários para ela estar durante seu sono, que foi tão perturbador ao ponto de acordar suada, com náuseas e com a face melada pelas próprias lágrimas. 

— Irene? — A voz alarmada de Seulgi a assustou. — O que houve? — Mesmo com a baixa iluminação do quarto, viu a preocupação inundar os olhos da castanha quando ela pulou da própria cama para seu colchão.

Sentiu o toque quente de Seulgi em sua pele fria. Só naquele momento notou que estava tremendo, mas não se importou, apenas uma necessidade tomava conta da sua mente:

— Acho que eu preciso de um abraço — sussurrou, mal se ouvindo. Porém, Seulgi a ouviu e não demorou para atender o pedido da sua nova companheira de quarto.

Irene a agradeceu mentalmente e deixou o calor do corpo da jovem bruxa a embalar naquela noite.

 


Notas Finais


Não se acanhem, me digam o que estão achando, viu? Eu adoro ver as reações dos leitores ><
Se forem muuuito tímidos, podem ir no meu cct: https://curiouscat.me/baekstreet

E ah, antes que eu esqueça, a @pcychokill e eu fizemos, juntas, uma playlist para "Rainha Vermelha" no Spotify. Recomendo MUITO que dêem uma olhada: https://open.spotify.com/playlist/6T5VvZBzVtHFHRPIOGR9i3


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