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História Rainha Vermelha - Capítulo 4


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Notas do Autor


Espero que esse capítulo seja uma boa distração para vocês em meio a essa quarentena. Se cuidem, lavam as mãos e fiquem em casa, galerinha.

Tenham uma boa leitura ^^

Capítulo 4 - Transitus


— É feio espiar pessoas prestes a se renderem ao pecado da carne. — A voz de Baekhyun foi aquela que quebrou o silêncio sepulcral que tomou conta do sótão após Irene se revelar telespectadora do momento íntimo dos bruxos.

Se fosse em outra ocasião, Baekhyun não perderia a oportunidade de fazer uma piada infame, mas não estava lá com muito humor para isso, afinal, havia sido escandalosamente interrompido. Fazia semanas que não conseguia ficar a sós com Chanyeol daquela forma. Chegava a ser piada.

Estava irritadiço enquanto abotoava a camisa, mas não conseguiu levar a irritação muito à frente. Ao levantar os olhos dos botões, que agora estavam devidamente fechados, notou que Irene tinha se levantado e virado de costas para eles.

— É só não olhar para o meio de nossas pernas, de resto, não vejo problemas. 

— NATHANIEL! — A censura veio da voz alarmada de Chanyeol.

— Christopher. — Baekhyun rebateu em tom ameno em uma clara provocação ao maior antes de mirá-lo. Tinham o costume de se repreenderem utilizando o nome americano um do outro, tal artifício tornava a censura mais efetiva e firme. Todavia, naquela situação em especial, usar seus nomes ocidentais era cômico.

Chanyeol bufou e fez careta, estava com as orelhas vermelhas. Baekhyun não sabia dizer se era pelo constrangimento ou pelo seu atrevimento, talvez um misto dos dois. Sorriu de canto para o Park antes de o lançar uma piscadela travessa. Até que era divertido ver o amado em meio a tal situação. 

Irene se virou, lentamente, em direção aos rapazes. Os olhos castanhos estavam cheios de pedidos de desculpas não ditos e com centelhas de culpa. Baekhyun chegou a abrir a boca para tirar o peso da culpa dos ombros da menina, mas acabou por se distrair com o sibilo de Ghede, que se esticou preguiçosamente para fora do armário.

— Ghede te assustou? — O bruxo indagou ao passo que foi até o armário e ofereceu seu braço direito para a cobra, tão negra quanto o céu noturno, se enrolar. 

— É seu familiar?!  — Irene parecia chocada. A jovem aprendiz sabia que Baekhyun tinha um familiar que não aparecia muito pela casa, mas como raios poderia imaginar que se tratava de uma cobra?!

O moreno se limitou a assentir ao mesmo tempo que passou os olhos pelos papéis colados nas portas do armário.

— Não se meta nos assuntos da polícia, pseudo Sherlock. — Os olhos afiados se direcionaram para a figura, um tanto pálida, de Irene, mas logo se fixaram em Chanyeol. Apontou com o queixo para o armário e o Park não hesitou em ir até lá.

— Bruxos não podem se envolver com assuntos mundanos. — O timbre forte de Chanyeol preencheu cada cantinha do cômodo e arrepiou os pelinhos da nuca da garota — Principalmente quando o assunto se trata de um crime. — Os grandes olhos do Park agora encaravam os da jovem — Nem pense na possibilidade de fazer justiça com as próprias mãos, você está no limite.

— Limite?

— No meio entre a luz e a escuridão. Se você saciar sua sede de matar, não haverá nada que te impeça de passar pela porta vermelha. — Baekhyun foi aquele que respondeu, este ainda mantinha os olhos voltados para os recortes de jornal — Você não tem uma âncora que te prenda desse lado. Mais uma morte e você condena sua alma. 

Assim que as palavras de Baekhyun adentraram os ouvidos de Irene, a jovem sentiu os pelos dos braços se eriçarem, a boca se amargar e a terrível sensação de haver uma mão invisível apertando seu coração de forma violenta. O ar escapou de seus pulmões por alguns segundos; segundos que o casal aproveitou para vasculhar o armário e falarem algo baixinho entre si que, infelizmente, a bruxa não conseguiu ouvir.

— Você está investigando crimes de abusos sexuais. — Chanyeol concluiu — Bem, podemos fazer justiça de um jeito mundano.

— Queria vê-lo morto. — As palavras pularam de sua boca antes que Irene pudesse controlá-las. Havia acabado de dar voz a uma ânsia letal da parte mais sombria de seu coração.

— Nós sempre queremos. — Ouviu a voz baixa de Baekhyun antes deste soltar um longo suspiro — Quando se vislumbra a porta vermelha uma vez, passamos a ver a morte como a melhor punição para aqueles que achamos que a merecem. E, bem, quase sempre não desejamos mortes rápidas...Digamos que, essa sua sede de justiça banhada a sangue, é uma tentação causada pela caixa de pandora. É difícil resistir a tentação de abrir a caixa, eu sei. Já passei por isso. — Nesse ponto a jovem encarava o bruxo com os olhos arregalados. Baekhyun se limitou a abrir um sorriso carregado de pesar.

— E...como você resistiu? 

— Sempre tive minha âncora. — Os olhos de Baekhyun se voltaram para Chanyeol.

Aquela foi a primeira vez que Irene viu os dois se olhando de forma amorosa e profunda. O tipo de olhar que só aqueles que se amam, e possuem uma forte ligação entre si, se direcionam. Rapidamente desviou o olhar e os direcionou para seus pés enquanto um pensamento martelava em sua cabeça.

— Então, isso quer dizer que estou fadada a ficar na corda bamba. — Afirmou e soltou um risinho amargo. Não tinha ninguém que amasse, muito menos alguém que atuasse como uma âncora em sua vida, não mais. O que mais estava a motivando a lutar contra a tentação das trevas era justamente aquilo que podia condenar sua alma: sua sede de justiça.

— Nada é tão preto no branco assim, há sempre rotas alternativas. — Baekhyun falou e se afastou do armário. A cobra, Ghede, trilhava um caminho sinuoso pelos ombros largos do bruxo enquanto a parte traseira se prevalecia enrolada no braço de Byun. Irene sentia calafrios com a cena, não era a maior fã de cobras. Não chegava a ter medo, mas também repelia a idéia de ter alguma transitando livremente pelo seu corpo.

— Se alguma dessas rotas alternativas fizer o policial pagar pelo o que fez...

— Posso resolver isso. — Chanyeol se manifestou.

— E como seria essa resolução? — A jovem indagou.

— Não revelo meus métodos. — Abriu um sorrisinho de canto.

— Isso será interessante. — Baekhyun comentou antes de um sorriso gozado tomar conta dos lábios finos — Deixe que Chanyeol cuide disso.

Irene hesitou por alguns segundos, mas não tardou a se dar por vencida. Afinal, ainda estava constrangida pelo o que tinha visto/ouvido e não queria prolongar aquilo. Pensando nisso, apenas assentiu e falou que já tinha dado a hora dela. Tal coisa arrancou uma risada sonora de Baekhyun, era a primeira vez que o via rindo de forma tão espontânea.

— Nada de bancar a detetive vingadora. — Chanyeol alertou, Irene se limitou a assentir antes de soltar um "Aproveitem" e sair do sótão com as bochechas coradas.

— Você ouviu nossa mais nova pupila, vamos aproveitar. — Baekhyun falou assim que a garota bateu a porta do sótão. Não perderia a oportunidade de saciar as ânsias de seu corpo e, aparentemente, Chanyeol também não. 

— Me lembre onde paramos. — Chanyeol ronronou em um tom provocante enquanto retornava a se sentar em cima da mesa de sinuca.

Observou Baekhyun se aproximar de si com o andar felino e um sorriso safado tomando conta dos lábios finos. Uma vez em frente ao maior, Byun murmurou um "deite-se". Novamente, o Park atendeu tal ordem. 

Com agilidade, Baekhyun retornou a subir na mesa e, tão logo, fez do quadril de Chanyeol seu assento. Park soltou um sonzinho de satisfação enquanto observou o familiar de Baekhyun deslizar pelo braço do parceiro e se acomodar em um canto da mesa. Ghede sempre os assistia durante suas transas.

— Com todo prazer.

 

 

Passava um pouco das nove da noite quando o jantar foi servido. Como Chanyeol estava ausente, quem ficou ao encargo de cozinhar foi Sehun.

Naquela noite, Irene descobriu que os dotes culinários do Oh eram tão bons quanto os de Chanyeol. Bem, ao menos seu paladar estava sendo agraciado por uma boa mistura de sabores, mas, seus pensamentos, estavam bem longe dali. Fazia um bom tempo que Chanyeol tinha ido atrás do suposto policial abusador. Mesmo sabendo que o Park se trata de um bruxo imortal, a preocupação se instalou no coração da jovem e a deixou inquieta.

— Sua comida vai esfriar. — A voz de Seulgi encheu os ouvidos de Irene e a fez acordar do pequeno transe que tinha entrado. Direcionou uma sombra de sorriso para a castanha antes de levar uma garfada de macarrão com queijo a boca. O macarrão em seu prato tinha esfriado.

— Aconteceu alguma coisa? — A colega de quarto continuou, a pergunta fez o peito de Irene pesar. Seulgi não sabia de nada do que tinha acontecido no sótão, nem ela, nem Sehun ou Jongdae. Somente Baekhyun e ela sabiam onde Chanyeol tinha ido. 

Por algum motivo, se sentia culpada por manter a colega de quarto às escuras sobre o caso que investigava, mas sentia que aquele não era o momento para falar sobre o assunto. Tendo isso em mente, moveu a cabeça em uma negativa e levou mais uma garfada de macarrão até a boca.

— Ela deve estar pensando na forma mais doce de falar que Sehun é um pé no saco como professor. — Jongdae provocou e ganhou um olhar entediado de Sehun.

 — Se quiser um professor bem humorado, pisque duas vezes. — Jongdae continuou, mas, dessa vez, recebeu a represália do Oh, que consistiu em fazer um vidrinho de pimenta em pó levitar até o prato de Jongdae e ser despejado neste.

— Hoje quem lava a louça é aquele que tem a comida mais apimentada. — Sehun falou em um tom levemente entretido. Jongdae fez careta e praguejou antes de se levantar da mesa com seu prato apimentado.

Seulgi soltou um risinho com a cena.

— Caso queira saber, eu também estou disponível como professora. — A menina lançou uma piscadela a Irene, que conseguiu conter uma risadinha no mesmo instante que Baekhyun surgiu na cozinha. O bruxo mantinha a expressão séria, e esta não se alterou quando ele se sentou na frente da jovem aprendiz.

— Onde Chanyeol foi? — Seulgi indagou assim que o tio sentou ao seu lado.

— Foi resolver um assunto pendente. — respondeu enquanto esfregava o meio da testa. Os olhos de Baekhyun estavam ardidos de tanto ler e sua cabeça dava indícios de dor. Não se utilizou de magia para sanar os males, estava preocupado e queria sentir tais incômodos para sua mente ter o que dividir a atenção.

— E qual seria esse assunto? — A pergunta partiu de Sehun.

Baekhyun ergueu a cabeça e mirou Sehun antes de abrir um sorrisinho lateral.

— Segredo. 

— Devo me preocupar? 

— Você já faz isso o tempo todo, não é? 

Sehun arqueou a sobrancelha e chegou a abrir a boca para questionar o mais velho, mas, antes que pudesse retrucar, o som da porta da frente se abrindo com um estrondo assustou a todos e fez com que as atenções se voltassem ao som de passos pesados, que ecoaram pelo corredor até a figura de Chanyeol surgir na entrada da cozinha.

O arfar chocado de Seulgi foi o único som ouvido segundos antes de um silêncio sepulcral recair no ambiente.

Irene sentiu a respiração ficar presa em algum canto de sua garganta no momento que mirou Chanyeol. Um calafrio violento tomou conta de seu corpo quando viu respingos grossos de sangue manchando a camisa cinza clara, as mãos, os braços e um dos lados da bochecha do bruxo. Instantaneamente, a imagem do assassino de seu pai veio a sua cabeça, inclusive, flashes dela mesma esfregando a própria pele com violência, durante o banho, para tirar todo e qualquer vestígio de sangue daquele verme. 

 Subitamente, se sentiu enjoada. 

— O que você fez?! — O primeiro a se manifestar foi Baekhyun, que saltou da cadeira, mas não foi até Chanyeol, apenas ficou o encarando de trás da mesa. 

Chanyeol abriu um sorriso quebrado.

— Longa história.

— Para a sala, agora! — Sehun ordenou com o tom mais alto e autoritário do que o normal.

Chanyeol soltou um suspiro cansado antes de dar as costas e retornar pelo caminho por onde veio, Baekhyun prontamente o seguiu e Sehun foi atrás.

Irene observou Seulgi levantar da cadeira, mas, antes que a castanha desse um passo em direção a porta, Jongdae falou:

— Nem ouse. — E aquela foi a primeira vez que a jovem viu o bruxo mais vibrante da casa com o semblante sério e voz firme como aço. Jongdae parecia tenso quando olhou para o corredor que levava até a sala.

Seulgi voltou a se sentar, o coração da bruxa batia de forma acelerada. Nunca tinha presenciado tal cena, temia a razão do tão amável Chanyeol está sujo de sangue. Tudo aquilo estava tão errado...

— A culpa é minha. — A voz de Irene soou baixa até para os próprios ouvidos. Imediatamente olhos queimaram sua pele.

— O que quer dizer com isso? — O questionamento partiu de Jongdae que, nessa altura, havia virado totalmente o corpo em direção a morena.

Irene engoliu em seco antes de erguer o olhar e o passar pelo rosto surpreso de Seulgi até os fixar na expressão de olhos estreitados de Jongdae.

— Chanyeol pode ter matado alguém que eu queria que fosse morto. — Um sorriso murcho se formou em seus lábios — Eu...deveria me sentir culpada, mas não me sinto. — Um misto de pesar, medo e de algo que Irene não soube identificar surgiram nos olhos castanhos de Jongdae.

Não esperou por uma resposta. Ignorando as ordens do Kim, saiu da cozinha e marchou até a sala. E, uma vez nesta, se deparou com três bruxos falando em voz baixa. Demorou alguns segundos até estes notarem sua presença no recinto, mas, assim que notaram, se silenciaram.

— Creio que tenho o direito de participar dessa discussão. — falou com firmeza antes de conectar o olhar com o do necromante.

— Você tinha razão, o policial é culpado. — Chanyeol falou de uma vez. — Não o matei, se é isso que está pensando.

— Então, quer dizer que...eu estava certa.  — O estômago de Irene se contorceu em repulsa ao mesmo tempo que engoliu em seco. Estava certa todo esse tempo. — Como está a vítima? E de quem é esse sangue? — Sinalizou para o líquido escarlate, que deixava a figura do Park ainda mais pálida em contraste com os fios brancos do cabelo.

— O sangue é da vítima. A moça se feriu, caiu em cima de uma mesa de vidro de tão dopada que estava. Ela tentou escapar, mesmo em tal estado. — Chanyeol contorceu a face em uma expressão de desconforto. Detestava relatar esse tipo de situação. — Foi fácil descobrir o endereço da moradia do policial. E, assim que descobri, me informei na portaria do prédio se ele tinha chegado acompanhado, me confirmaram que sim. A partir daí, veio a denúncia anônima e uma breve espera para os policiais locais chegarem. Após isso, dei um jeito de subir até o andar daquele sujeito, me passei por um vizinho e ajudei nos primeiros socorros da vítima, por isso o sangue. O policial foi pego em flagrante. A polícia chegou antes. 

"Do abuso acontecer...", Irene completou mentalmente e engoliu em seco. Sentia os músculos tensos e o estômago revirando. Se sentia enjoada com o relato e a amargura de está certa sobre o maldito.

— A vítima passa bem, mas foi encaminhada ao hospital. Tive que dar depoimento como testemunha e tudo mais, por isso a demora. — Chanyeol completou.

— Ele vai pagar, não vai? — A voz da bruxa soou baixa. Mal deu por si, mas tinha se abraçado e começado a alisar os próprios braços, como uma forma de se tranquilizar.

— Pode apostar que sim. — Foi a vez de Baekhyun responder. Este, até então, estava silencioso, de braços cruzados e expressão fechada. Não parecia muito disposto a falar mais do que isso. 

Sehun também se mantinha silencioso. Na verdade, ele estava a observar a cena com o típico olhar analítico. Irene não estranhou, já tinha notado que ele, às vezes, fazia isso. 

— Obrigado. — falou a jovem, mantendo o tom baixo.

Estava encolhida em si mesma e sentia um amargor na própria boca ao se pegar pensando que o policial poderia se safar dessa por conta de seu cargo ou arrumar um modo da polícia abafar o caso e várias outras possibilidades que a deixavam tremendo em agonia.

— Preciso tomar banho. Esse cheiro de sangue é enjoativo. — A voz grossa do Park a arrancou de sua onda viscosa de pensamentos. O mirou a tempo de vê-lo entortando o nariz antes de dar as costas aos presentes e seguir escada acima. Sehun, silenciosamente, seguiu o necromante.

Irene sabia bem como era a sensação de querer limpar o sangue de terceiros do próprio corpo. Sorriu com amargura antes de se sobressaltar com uma mão em seu ombro. 

— Não continue com essa caça. — As palavras vieram de Baekhyun — Não podemos sempre interferir no caminho dos humanos para fazer justiça. Se continuar a procurar casos como os de hoje, uma hora ou outra, pode te gatilhar a fazer justiça com as próprias mãos. — Baekhyun falava em voz baixa, porém, seu tom era de alerta. 

Irene engoliu em seco e notou que seu coração estava agitado, os pelos de seus braços eriçados e seu estômago dolorido. Sentia medo. Medo de onde aquela vingança poderia levá-la. Medo de perder o controle. Medo de se perder em si mesma.

Fitou os olhos castanhos do bruxo mais velho e assentiu, não estava com capacidade de formular uma resposta em palavras. Sentia a língua adormecida dentro da boca e o corpo a tremer sob a mão quente em seu ombro. Sentiu vontade de chorar, porém, não iria se dar a esse luxo, não ali. Detestava chorar em público, se sentia exposta. Chorar era algo íntimo para si, uma amostra de suas dores e temores que só ela devia presenciar.

Entretanto, a morena não esperava o próximo gesto de Baekhyun. Este a puxou, delicadamente, para os próprios braços e a abraçou. Um abraço leve, daqueles que dá para se desvencilhar caso não se sentir à vontade. O que não foi o caso, visto que Irene não sabia, até então, que precisava daquilo. Retribuiu o abraço do mais velho e deixou que uma ou duas lágrimas quentes deslizassem por suas bochechas enquanto se permitiu afundar nos braços que ofereceram a proteção que, secretamente, ansiava. 

 

 

As semanas passaram em um piscar de olhos e os dias, no ver de Irene, pareciam mais curtos e exaustivos. O treinamento de bruxaria na mansão era árduo, não por pressão de seus tutores, mas sim por pressões vindas de si mesma. 

Depositava todo seu foco e atenção nos ensinamentos que recebia, decorava cada detalhe, se frustrava com os diversos erros cometidos e se aliviava a cada acerto realizado. Não foram tempos tranquilos para a jovem bruxa, mas era isso que ela desejava. Estar compenetrada em seus estudos fez com que a dor do luto fosse varrida para o fundo de seu âmago, todavia, às vezes, a dor retornava para atormentar suas noites. Porém, tais tormentos, vinham se tornando cada vez mais raros. Além disso, durante esse período, teve a chance de conhecer melhor os bruxos com quem morava.

Baekhyun, por exemplo, é um exímio praticante de Vodu. Se sentiu ainda mais intimidada pelo bruxo ao saber disso, porém, após o conhecer mais, viu que o rapaz cuida e preza por sua família acima de tudo. Especialmente por seu parceiro, Chanyeol, o necromante. Tal dom apresenta muitas similaridades com o Vodu, o que torna a ligação entre eles ainda mais forte. Ambos têm uma intimidade com a morte que nenhum outro naquela casa seria capaz de possuir.

Já Jongdae, além de ser o alívio cômico da casa, surpreendeu Irene ao revelar ser um discípulo da alquimia. Dentre todas as artes ocultas, esta é a mais complexa e que exige décadas de estudo. E, por fim, Sehun, líder do coven devido aos seus extraordinários poderes psíquicos, que abrangem uma grande diversidade de habilidades, como, por exemplo: controle da mente e leitura de pensamentos.

Irene não negava sua preferência pelas aulas de Sehun, afinal, ele é aquele com quem tem mais conversas casuais, o que aumentou a afinidade entre os dois. Porém, considerava todos os ensinamentos dos bruxos igualmente importantes. Tudo que a ensinavam tinha relevância, por menor que fosse.

Conforme os meses se seguiram, Irene conseguiu sentir seu avanço. Ficou orgulhosa de si mesma quando conseguiu passar do nível básico. Se tornar poderosa era a motivação central em sua vida; o que, por muitas vezes, a fez negligenciar sua saúde, coisa que seus tutores não deixaram passar batido. Por vezes, a bruxa teve que ter suas horas de descanso e de se alimentar controlada por eles.

Até um tempo atrás, pensava que bruxaria se tratava de coletar ervas e lançar feitiços em latim, mas acabou sendo surpreendida. Descobriu que a magia se trata muito mais de algo interno do que externo. Sehun a confidenciou que o verdadeiro poder está dentro de cada um, e, por conta disso, grande parte do treinamento inicial foi meditação. Irene precisou meditar por incansáveis horas até conseguir controlar a sua raiva, seu medo e aumentar sua concentração. Todo feitiço necessitava de foco, caso contrário, poderia surtir o efeito oposto do esperado. Aprender a controlar seu interior era primordial.

Teve muitas lições sobre poções, maldições — em diversas línguas —, e uma infinidade de velas e objetos a sua disposição, que a ajudaram a canalizar a magia. Tais objetos são apenas para bruxos comuns, no caso dos supremos, líderes de covens, tais auxiliares de magia são dispensáveis.

Com o passar dos anos, chegou um ponto que o conhecimento transbordou de Irene. Com muito esforço, conseguiu domar sua própria mente e, até mesmo, receber elogios de Sehun por tal feito.

O dia que conseguiu blindar sua mente, mesmo que por alguns segundos, dos poderes psíquicos de Sehun, foi quando soube que estava pronta para avançar ainda mais.

Quando se sentiu satisfeita com seu desempenho como bruxa, resolveu investir em uma forma de ganhar seu próprio sustento; afinal, ainda precisava manter as aparências na sociedade humana. Com o dinheiro da venda da loja de máscaras e da antiga casa, reformou o espaço que seu progenitor tinha deixado para ela e o transformou em uma singela doceria. Que começou pequena, mas, com a dedicação e trabalho duro da bruxa, foi crescendo e ganhando cada vez mais clientes.

Nesse meio tempo, Seulgi se tornou alguém essencial em sua vida. A bruxa esteve ao seu lado ao decorrer de todo seu treinamento e foi alguém que a deu muito apoio, incentivo e a presenteou com uma amizade de laços fortes. Ao decorrer dos anos, Seulgi conquistou plenamente a confiança de Irene, que via a menina como sua confidente e seu porto seguro.


 

New Orleans, Janeiro de 2020
 

— Esse vestido não está muito...Hm, extravagante? Sinto que estou a caminho de um baile. — Irene ajeitou uma das alças do vestido vermelho que trajava. Era um belo vestido, com a parte da frente da saia batendo um tanto acima dos joelhos enquanto a parte traseira, uma longa calda, caia em leves ondulações pelo chão. As mangas rendadas iam até o meio dos braços enquanto finas alças de veludo se mantinham firmes nos ombros. 

O cabelo de Irene estava arrumado em um coque propositalmente desleixado. Seulgi havia dito que o tal penteado seria mais adequado para a ocasião, a morena não se opôs. Apenas deixou a castanha arrumar seu cabelo e a embelezar para o seu "grande dia".

— É preciso causar uma boa impressão. E esse vestido não está extravagante, cerimônias pedem por roupas como essas. — Abriu um sorriso gaiato — E você está linda. — Completou enquanto ondulava, com o indicador, uma mecha negra dos fios que se manteriam soltos do coque.

— Você também está. — Irene prontamente retrucou — Seu bom gosto para roupas ainda me impressiona.

— Tenho um olhar apurado no que diz respeito a vestimenta. A maior parte das roupas dos armários dos meninos foi eu que escolhi de acordo com o gosto de cada um.

— Praticamente uma personal stylist. 

— Basicamente. — A castanha deu risada, Irene a acompanhou. Era fácil se esquecer das próprias obrigações ao lado da Byun. Seulgi a deixava confortável, tanto que se sentia uma mundana se arrumando para uma festa e não uma bruxa suprema pronta para ser apresentada a comunidade bruxa, que veio de diversas partes do mundo para presenciar a cerimônia.

Cerimônias, no mundo bruxo, nada mais era do que a apresentação formal de um novo supremo, ou, nesse caso, suprema para os anciões e bruxos com relevância.

No alto de seus 26 anos, Irene estava prestes a dar um grande passo para o que, durante sete anos, deu tudo de si para alcançar. E, agora, se encontrava nervosa. Sentia sua barriga apertar em nervosismo ao pensar em encarar bruxos que, provavelmente, a julgariam. Bruxos, de um modo geral, são mais acolhedores e tolerantes do que humanos, entretanto, há algo que ambos têm em comum: o julgamento. No caso dos bruxos, o julgamento se dá por conta dos poderes.

Irene engoliu em seco ao mirar seu reflexo no espelho. Estava linda e fazia tempos que não se sentia assim. Tinha se tornado uma mulher que aprecia a simplicidade, tanto que virou uma grande entusiasta do minimalismo. Não tinha o hábito de se maquiar, no máximo cuidava da pele e passava um rímel e batom para ir trabalhar. Porém, hoje, estava toda maquiada, bem vestida e embonecada. Sua casca estava incrível, enquanto seu interior se encontrava em meio a bagunça feita pelo seu nervosismo.

— Preciso de água. — Verbalizou sua vontade antes de pegar a garrafa de água, que estava na penteadeira em frente a ela.

Seulgi soltou um risinho enquanto ajeitava a cinta liga, que ligava seu short preto de cintura alta a sua bota. Seulgi, no ver de Irene, estava parecendo uma personagem saída de algum live action com suas botas pretas, batendo no meio das coxas, e seu terninho, de mesma cor, cheio de detalhes em dourado e com um grande laço vermelho saindo do colarinho. 

— Se você beber tanta água assim, terá que fazer várias pausas para ir ao banheiro. Anciãos adoram conversar.

— É reconfortante saber que eles são tagarelas quando eu mal sei manter uma conversa com um estranho sem deixar que um silêncio desconfortável caia entre nós.

Pelo canto do olho, viu quando Seulgi se agachou. Sentiu as mãos da colega de quarto em seu colo, logo a fitou. 

— Joohyun, você se sairá bem. Todos que estão lá embaixo estão curiosos para saber quem é a suprema que Sehun tem protegido. Seu nome é muito comentado na comunidade bruxa, é normal que exista curiosidade em relação a você. — Nesse momento, as mãos de Seulgi se enlaçaram nas da morena. As mãos da Byun estavam quentes, enquanto as da Bae estavam gélidas — Apenas seja você mesma, sim? Grande parte dos bruxos e bruxas que estão à sua espera são pessoas bacanas. Qualquer coisa, só dá uma coçadinha na orelha que eu me meto em meio a possíveis conversas desconcertantes. 

— Obrigada. — Por mais curto que fosse seu agradecimento, era sincero. Até mesmo apertou as mãos da castanha contra as suas para enfatizar sua gratidão por tais palavras de encorajamento. Realmente se sentia um tanto menos nervosa pelo o que a esperava.

Batidas na porta fizeram com que Irene se levantasse e corrigisse a postura. Costumava ser muito relaxada com a postura no passado, porém, Sehun, ao longo dos anos, a censurou tanto por conta disso que acabou se acostumando a se lembrar, constantemente, de manter a coluna reta. 

— Pode entrar. — Irene se viu falando.

Em seguida, a porta se abriu e revelou a figura de Sehun, que estava exalando elegância em seus trajes.

— Ok, isso realmente está parecendo cena de baile de formatura. — Seulgi comentou enquanto Sehun adentrou o quarto.

— Vocês estão fantásticas! — Sehun a elogiou com um sorriso discreto no rosto — Está pronta, Joohyun?

— Se pronta significa está com o estômago revirando, talvez eu esteja. — Tentou soar engraçada, mas o sorriso que desenhou em seu rosto foi nervoso. — Você também não está nada mal.

Conforme ficou mais íntima dos rapazes, Irene preferiu que eles a chamassem pelo seu nome coreano. Só permitia pessoas íntimas a chamarem de Joohyun. Para desconhecidos, preferia que a chamassem pelo nome ocidental.

— Fique tranquila, vai dar tudo certo. — O tom do moreno era calmo, este possuía uma voz que passava tranquilidade e, naquele momento, a voz do bruxo foi muito bem vinda.

Respirou fundo antes de aceitar engatar o braço com o de Sehun e de segurar a mão livre de Seulgi. Logo, se viu seguindo corredor adentro. 

Tinha chegado seu grande momento. 


Notas Finais


Para quem ainda não ouviu a playlist da fanfic: https://open.spotify.com/playlist/6T5VvZBzVtHFHRPIOGR9i3?si=mGCw4CpjQl-DYWe2bbd77Q

Caso forem tímidos, mas, ainda sim, quiserem falar comigo, meu cct está sempre aberto: https://curiouscat.me/baekstreet

Até a próxima ~


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