1. Spirit Fanfics >
  2. Raízes >
  3. O iluminado

História Raízes - Capítulo 22


Escrita por:


Notas do Autor


Shaketes do meu Brasil, essa é a hora de vocês! Rs.
Eita homi difícil de compreender, viu? Desafiante escrever capítulos com ele. Mas gostei da experiência! Espero que gostem também. ;)

Capítulo 22 - O iluminado


Fanfic / Fanfiction Raízes - Capítulo 22 - O iluminado

Dalila já havia atravessado a casa de Virgem muitas vezes no passado sem grandes preocupações em seu caminho para o 13º templo. O guardião estava sempre a meditar e nunca se importava com a passagem dela. Permanecia imóvel, sem abrir os olhos ou trocar uma palavra. Provavelmente já conhecia o cosmo da lemuriana e sabia que não se tratava de nenhuma ameaça. Seria diferente agora?

Ela adentrou a casa a passos tímidos e deteve-se logo na entrada, admirando aquela cena que nunca antes havia mirado com atenção. Shaka meditava sobre a flor de lótus ao fundo do ambiente. Postura ereta, pernas cruzadas e as mãos descansando no colo, com dedos entrelaçados e polegares unidos voltados para cima. Usava sua túnica de monge budista e tinha um semblante sério e tranquilo ao mesmo tempo, com os olhos evidentemente fechados. Um brilho dourado emanava do cavaleiro, dando uma aura realmente divina àquela figura.

Embora estivesse bastante apreensiva, aquela imagem trouxe alguma paz ao coração de Dalila. Era como se o cosmo meditativo do virginiano ocupasse todo o ambiente, que estava tomado por um silêncio absoluto, quase incômodo, e um agradável odor de incenso de sândalo.

Ela respirou fundo e pôde ouvir cada partícula de ar entrando e saindo de suas narinas. O que estava fazendo ali afinal? O que teria a dizer àquele ser tão sublime? Ele parecia reunir toda a plenitude e iluminação que um ser humano podia alcançar. Ela não era nada perto da grandeza dele.

Quando fez menção de virar o corpo para sair, notou um leve movimento do cavaleiro. Desesperou-se, puxando o ar para seus pulmões em reflexo. Tinha interrompido a meditação de Shaka de Virgem! Quem ousaria fazer isso? Sentiu seu coração se acelerar. Havia tirado Mu dele e agora atrapalhado seu sagrado ritual meditativo.

O cavaleiro separou as mãos e descruzou as pernas lentamente, saindo da posição com uma graciosidade ímpar, como se seu corpo não pesasse um grama sequer. Colocou-se de pé em frente à flor de lótus e pôs-se a caminhar na direção dela com toda a majestade e imponência que sua figura quase divina impunha. As passadas vagarosas e firmes ecoavam no ambiente silencioso.

Dalila ficou imóvel com os olhos arregalados. Já começou a ponderar mentalmente para qual dos mundos do círculo das seis existências preferia ser lançada. Por que tinha ido até lá afinal? Que ideia absurda.

Bom, ele já sabia que ela estava lá, não é mesmo? Então fugir não parecia uma opção. A visitante ficou estática, aguardando que o cavaleiro selasse o seu destino.

Shaka parou bem em frente a ela, sem alterar seu semblante. Era possível ouvir a respiração acelerada da lemuriana, mas apesar da vergonha de saber que ele percebia isso, ela não conseguia controlar. Ficou ali mirando aquela face voltada para si com os olhos cerrados. Nunca havia estado tão próxima a ele. Alguns fios dourados da franja encobriam parcialmente o bindi vermelho no centro da testa e até mesmo seus cílios eram loiros. Tinha traços bastante simétricos numa feição severa. Ele era tão belo quanto assustador.

- Vejo que ousou interromper minha meditação, Dalila – A voz grave do indiano ecoou no ambiente e a lemuriana fechou os olhos achando que morreria imediatamente. Se não fosse pelas mãos dele, seria do coração.

Mas isso não aconteceu, então abriu novamente as pálpebras e sentiu-se no dever de responder.

- De... desculpe, Shaka. Eu não tinha a intenção de te atrapalhar. Foi um erro ter vindo – reconheceu.

- Devia ter pensado nisso antes perturbar a sagrada paz da casa de Virgem com esse seu cosmo conturbado.

As palavras do cavaleiro soavam afiadas como adagas. Dalila se teletransportaria dali naquele instante se fosse possível. Sentia medo e vergonha.

- Peço perdão novamente, cavaleiro. Vou me retirar, se me permite – ela propôs, aguardando a autorização dele, enquanto movia sem perceber os dedos das mãos num gesto nervoso, sentindo que faltava circulação nessa parte de seu corpo.

- Não me faça perder tempo duas vezes. Veio para falar de Mu, não foi? – o virginiano intimou-a, para seu espanto.

Será que ele podia ler mentes? Ou era apenas tão evidente assim? Dalila deu um suspiro.

- Foi – assumiu. Já estava ferrada de qualquer jeito, achou melhor tentar colocar pra fora um pouco do que sentia, já que ele parecia saber exatamente do que se tratava. – Eu não queria ser um atravanco para vocês, Shaka. Eu não sabia do... – Como chamaria aquilo? – envolvimento que tinham...

Ela se calou. O semblante implacável do cavaleiro não a deixava relaxar. 

- Somos apenas amigos – ele corrigiu.

Dalila baixou a cabeça, desanimada, cada vez mais certa de que aquela conversa não levaria a nada. Só não contava que o virginiano fosse aprofundar o assunto.

- Mu e eu compartilhamos algumas práticas meditativas tântricas como você já deve saber, mas sempre com o objetivo de alcançar a iluminação. Por acaso sabe o que é o estado de iluminação, Dalila? – perguntou, altivo.

Um pouco insegura, ela se esforçou para ser fiel ao conceito que Mu explicara anteriormente sobre isso:

- É o estado de consciência completa em que se esvai todo o sofrimento humano?!

Shaka inclinou sutilmente a cabeça, espantando-se um pouco ao receber a resposta correta.

- Exato – confirmou. Fez uma pausa, como se ponderasse as próximas palavras. Dalila o mirava com certa curiosidade. Embora tivesse conversado com Mu sobre aquilo, ainda não compreendia por completo essa história de iluminação. E como se respondesse à inquietação dela, ele retomou:

 - Eu iniciei essa jornada de despertar espiritual já há muitos anos, ao sentir-me inconformado com a miséria e o tormento que muitas das pessoas a minha volta viviam na Índia. Eu me questionava por que os indivíduos nascem nesse mundo se é impossível desafiar o sofrimento e o fim inevitável que é a morte. – A expressão severa foi dando lugar a uma espécie de nostalgia ao relatar sua história. – A vida do homem parece tão breve e fugidia quanto o piscar de um olho frente a grandeza divina.

Dalila estava absorta ao relato dele. Parecia uma forma um tanto pessimista de ver o mundo, mas ela podia contemplar a verdade que aquelas palavras traziam. Mirou-o com um pouco mais de tranquilidade e até certa empatia. Conseguia imaginar claramente o jovem cavaleiro de Virgem com seu forte senso de justiça, inconformado ao se deparar com a desgraça e a miséria do seu país de origem. Ele continuou, expondo a solução que encontrou para sua angústia:

– Mas a divindade está presente em cada um de nós, em cada ser vivo, em todas as coisas desse mundo. E alcançar a iluminação é ter plena consciência disso, tornando-se sagrado em si mesmo, livrando-se de todo sofrimento humano. Ainda na infância percebi que iluminando-me com essa verdade, conseguiria superar esses sentimentos ruins que me assolavam. Então me dediquei implacavelmente a isso, oferecendo minha alma a esse propósito, dia após dia, mês após mês, ano após ano.

Dalila não entendia bem a razão por trás daquelas revelações, mas compreendia melhor os motivos do indiano agora. Estava claro, depois de tanta dedicação, como ele havia alcançado o título de homem mais próximo de um Deus. O cavaleiro, então, voltou ao ponto de partida da conversa:

- Mas embora Mu tenha dividido comigo algumas práticas nesse sentido, ele nunca conseguiu se desapegar de alguns aspectos mundanos como a noção de família. – Ele colocou isso não em tom de julgamento, como era esperado de alguém tão iluminado, mas sim como um fato dado, tão fundamental quanto a chuva cai das nuvens para a terra e não o contrário. A consciência dele era tamanha que até as aparentes incapacidades alheias em alcançar o estado máximo de iluminação eram compreendidas.

Shaka ponderou por um instante se deveria prosseguir, receoso em expor algum aspecto da privacidade de Mu que Dalila não conhecesse. Mas sabia que eles já haviam conversado bastante e, ademais, estava apresentando aqueles fatos com uma intenção. Então continuou:

– Shion foi um mestre ausente para ele, tanto em vida, por conta das obrigações com o Santuário, quanto, obviamente, depois de sua morte. Então Mu tentou fazer o oposto com Kiki, criando-o próximo, como filho.

Dalila nunca tinha pensado nisso, mas fazia muito sentido. Tinha conversado com o lemuriano sobre essa história aquele dia no quarto dele, mas não havia visto com esses olhos. O cavaleiro de Virgem com certeza o conhecia bem o suficiente para fazer essas análises. Shaka finalizou:

- Mu sempre amargou em seu coração o fato de não ter conhecido os próprios pais. Logo ele, que é uma pessoa tão ligada às raízes, às tradições de sua raça, não pôde conhecer seus ascendentes... Daí vem a importância de seu mestre e seu pupilo em sua vida. – Ele respirou fundo antes da inesperada conclusão que exporia com o semblante sério: – E você pode dar isso a ele, Dalila! Esse vínculo, essa companhia, esse afeto. Seja a família que Mu nunca teve e sempre almejou!

Ela elevou as marcas circulares em sua testa, atônita. Estava mesmo ouvindo isso? O indiano achava que ela seria uma melhor companheira para o lemuriano do que ele próprio, pois ela se adequava às necessidades de Mu que não faziam parte da essência de Shaka.

Dalila foi tomada por uma comoção inesperada. Quando chegou à casa de Virgem não imaginava, nem eu seus melhores sonhos, que ouviria aquilo de Shaka. Principalmente depois da recepção pouco calorosa do cavaleiro. Mas após conhecer um pouco melhor a história dele e ouvir as precisas análises que fez sobre a vida de Mu, tudo parecia fazer sentido. No fim, talvez ele não fosse um rival como ela pensava, e sim mais alguém preocupado com a felicidade do lemuriano.

- Eu serei a família nunca teve, Shaka. Ele é muito importante para mim – afirmou, um pouco emocionada.

Ele assentiu com a cabeça, satisfeito em ouvir isso. E ela completou:

- Pelas suas palavras vejo que têm um forte apresso e uma amizade muito sincera por Mu. Fico extremamente feliz em saber disso.

O cavaleiro permaneceu em silêncio e ela tentou decifrar a sua feição. Estaria sendo totalmente sincero? Será que ele era tão iluminado a ponto de não sentir nem uma pontinha de ciúmes? Difícil dizer mirando aqueles olhos fechados.

Então, inesperadamente, ele elevou a mão direita e moveu em direção à face dela. Sem saber o que o cavaleiro pretendia, a lemuriana se assustou, mas permaneceu estática. Então ele encostou as pontas dos dedos nos dois pontos circulares em sua testa. Ela ainda não estava à vontade o bastante para ficar confortável com esse toque e nem entendia qual era a intenção, mas acabou fechando os olhos em reflexo e sentindo seu coração se acelerar um pouco com o nervosismo. Percebeu uma troca sutil de energia no local do toque, sem conseguir definir se partia da sua própria pele ou da dele.

- Você possui um cosmo poderosíssimo como todos os lemurianos – o cavaleiro afirmou, para espanto de Dalila. – Mas ainda precisa aperfeiçoar seu controle sobre ele para poder usá-lo a seu favor.

- Eu estou tentando – respondeu, ainda com os olhos fechados. – Além das lições sobre reparação de armaduras, tenho treinado meu cosmo com Mu, principalmente a partir da prática da telecinese e do teletransporte.

Mais alguns segundos se passaram. Shaka parecia analisar alguma coisa dentro de Dalila e ela se assustava um pouco com essa ideia, mas não se opôs. Só torceu mentalmente para ele não mexer nas memórias dela. Ele era bastante misterioso, como Mu no início.

Enfim o cavaleiro recolheu a mão, mas o que viria a seguir jamais passaria pela mente Dalila. Um breve movimento das pálpebras e ele começou a abrir lentamente os olhos. Ela se apavorou! Seria verdade a lenda de que todos a sua volta morriam quando isso acontecesse? O que ela tinha feito de errado para merecer isso? A conversa tinha acabado tão bem. Não tinha? Assombrada, ela sentiu um impulso de fechar os próprios olhos para não ver o que viria. Mas algo dentro de si clamou por mantê-los bem abertos, mirando o indiano, num misto de curiosidade e fascínio.

Eram azuis! Os olhos de Shaka de Virgem, o homem mais próximo de Deus, eram azuis. Como dois cristais de opala, com um leve brilho esverdeado. Era um olhar quase hipnótico. Dalila não conseguia mais desviar daquelas íris cintilantes. Ele examinou cuidadosamente o rosto dela.

- Você tem uma beleza natural, exótica e elegante, como Mu – constatou, sério.

Ela não pôde esconder o espanto com aquela afirmação. Ficou lisonjeada! Mas também um pouco enciumada com as palavras finais.

- O... obrigada.

Sentia-se desconcertada de uma forma estranha. Por que ele tinha aberto os olhos para ela?

- Quando Mu vier à casa de Virgem meditar, acompanhe-o. Será uma boa prática para o seu controle do cosmo – o cavaleiro propôs.

- Virei – ela respondeu, honrada com o convite.

O indiano fez menção de se virar para terminar aquela conversa, mas ela quis aproveitar os últimos momentos dele com os olhos abertos. Não saberia quando teria essa oportunidade de novo em sua vida.

- Shaka – começou, mirando profundamente aqueles poderosos olhos azuis. – Obrigada pelas palavras. Foram muito importantes para mim – agradeceu, com sinceridade.

- Não há de que, Dalila.

Algo naquele olhar a atraia e amedrontava ao mesmo tempo. Que experiência ímpar! Os dois se fitaram por mais alguns segundos, antes do cavaleiro encerrar o assunto.

- Vou voltar a minha meditação, então, se não se importar.

- Claro. Peço perdão, mais uma vez, pela intromissão. Até mais, Shaka.

- Adeus, Dalila.

Foram as últimas palavras antes de ele fechar as pálpebras novamente, virando-se direção à flor de lótus. Dalila se apressou para o lado de fora, parando alguns degraus abaixo na escadaria para Leão. Ela passou as mãos pelos cabelos rosados.

- Por Atena, o que foi isso? – indagou a si mesma após a intensa experiência com o cavaleiro de Virgem.


Notas Finais


A intenção era ser misterioso, mas espero que tenha dado pra entender alguma coisa pelo menos. Rs.
Eu tenho meus palpites do que se passa da cabeça do virginiano, mas cada uma pode ter os seus também. ;)
Beijinhos e até o próximo cap, amores!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...