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História Raphael - Capítulo 24


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Notas do Autor


Olá, crianças! Adivinhem quem está se dando uma desilusão de presente de aniversário. Pois muito que bem, eu mesmo hahaha
Esse capítulo é o último que retrata esse abençoado jantar, seguimos agora com a nossa programação normal haha
E, meus anjos, por favor, o mundo está meio caótico lá fora. Fiquem em casa, se banhem em álcool em gel e se CUIDEM, por favor. Se mantenham seguros. Logo essa situação difícil passa, mas estamos todos juntos. Eu desejo a todos todas as coisas boas e que vocês fiquem bem. Tenham uma boa leitura <3

Capítulo 24 - O Jantar - "Bezzzteira"


O mal-estar estava, aos poucos, dissipando-se junto da brisa agradável que os viera recepcionar logo que passaram pela porta. O arcanjo dera alguns passos largos, enquanto ainda preso àquele entojo, e, ao pedido muito prestativo de Miguel, foi acompanhado por Beelzebub. Antes de sair o ouvira comentar algo como “Não é difícil combinar cores, é bem simples na verdade. Ah, a minha cor favorita, a propósito, é amarelo”. Dagon, pela primeira vez naquela noite, parecia prestar atenção, concentrando nos detalhes que Miguel fazia questão de, lisonjeado, lhe passar. Gabriel não pode culpá-lo pelo incidente. E, para ser franco, ele sequer tinha como. Saiu do ambiente fechado em uma velocidade desmedida em questão de tiquetaquear de relógios, e quando finalmente, como dito no começo, alcançou o sopro fresco, embora não tão límpido, da noite tranquila, pode sentir algumas sensações com mais precisão e outras, com menos. Ainda sentia o gosto deveras desagradável no interior da boca, mesmo quando aquele arrepio estranho já não se fazia mais presente e ainda depois de, milagrosamente, livrar-se, da forma mais pronta possível, daquela matéria nojenta, antes que ela pudesse manchar o templo que era seu corpo. Respirou fundo. Tudo bem, estava tudo bem. Ele havia até conseguido não vomitar! Controlara um pouco a respiração e fugira. Tudo bem.

- Qual é o seu problema? – A pergunta não era agressiva nem indignada. Era só uma pergunta. Porque agora aquilo era absurdo. Não: Sempre fora absurdo. Mas agora aquilo era ridículo. Gabriel havia lhe feito um convite para um jantar para que pudessem discutir burocracia. Ele só havia se enrolado nas palavras até agora e, vejam só, tinha um estomago ridiculamente fraco. Bom, ele devia ter um estomago, ela concluiu, esperando veementemente que ele não tivesse esquecido um detalhe tão bobo. Mas a questão era: se Gabriel não era, o que nitidamente não era, adepto de certos hábitos e fã em nível nenhum de gastronomia, porque um jantar? Eles podiam ter feito uma reunião em qualquer outro lugar. Literalmente qualquer outro lugar. Ou, se não fosse um assunto de urgência, esperarem até o próximo fim do mundo para colocarem as cartas na mesa. Mas, não, um jantar estranho. Por quê?

- Eu não estou... Habituado, me desculpe. – Ele pigarreou, tentando oferecer-lhe um sorriso, mas aquele gosto ainda o incomodava. Respirou mais uma vez e, com outro milagre, permitiu-se esquecer, isso em termos de sensações, que tivera paladar. Mas os calafrios daquela coisa descendo por sua garganta ainda o assombrariam por alguns dias. – Mas eu...

- Arcanjo, - Ela o interrompeu, olhando-o nos olhos. O céu das horas tardias não lembrava em nada e o inferno não devia se parecer em nada com a clareza entorpecedora que aquele olhar mirífico transmitia. – Qual o motivo dessa “reunião” ? – Deslumbrado sorriu, mesmo que um pouco entristecido. Estava fazendo rodeios demais, não é?  Depois de um suspiro breve, encostou-se ao ponto de ônibus que estava logo ali. É, viam-se agora alguns passos distantes do restaurante. Olhou para o céu em silencio por um momento. Queria que Raphael estivesse ali, ele certamente saberia o que fazer e teria o orientado. O que ele diria? Engraçado que fazia já tanto tempo que não o via que ele já não sabia mais. Ainda sim, as constelações lhe sorriam, como talvez tivesse feito Raphael e isso era reconfortante o suficiente.

- Você lembra... – Ele começou, sem tentar juntar todas as certezas do mundo. Ele sabia que Raphael certamente estava o assistindo de algum lugar e que ele só precisava de um pouco de coragem. – Se lembra de quando tínhamos nomes gravados no corpo? – Beelzebub arqueou uma sobrancelha, olhando de Gabriel para o céu e então cruzou os braços, sem desfranzir o cenho, desconfiada:

- Uhun.

- O que... O que você achava disso? – Ele especulou, uma jogada decisiva, vendo-se subitamente todo nervoso novamente. O demônio ponderou por um tempo, encostando-se ao lado de Gabriel, também fitando aquela imensidão azul enfeitada.

- Bezzzteira.

- Oh. – Como se fosse possível tal proeza, o nervosismo tornou-se crescente. Ele molhou os lábios, e continuou, quase confiante: - Mesmo assim, lembra qual era o seu? – Novamente houve um segundo de silencio, antes de uma resposta.

- Não. Eu fizz um ezzzforço pra ezquecer. – Uma pausa. Então: - Coisa sem sentido.

- Haha... É. – Ele respirou mais uma vez. Estava se habituando a isso de respirar. Às vezes Gabriel se esquecia dos efeitos colaterais que podia sofrer ao dividir seu tempo com os humanos. Todavia, ignorando isso, pousou uma das mãos sobre o antebraço, onde descansava tranquila aquela antiga marca. Se os segundos não fossem contados da forma que estavam sendo, devido ao fato de estarem na terra e existir um tiquetaquear em todos os relógios, se um segundo pudesse ter sido um milésimo de segundo mais longo ele teria subido a sua manga e estragado tudo. Tentou ponderar, seguir o conselho de Miguel: “Não seja estúpido”, mas era difícil. Talvez devesse mostrar interesse, como lhe dissera Aziraphale, ou parar por ali mesmo, evitando ir rápido demais, como lhe prevenira Crowley. Mas o que teria dito Raphael...? Por que todos aqueles conselhos eram reflexos das incertezas de outras pessoas, não das dele. O que teria dito seu príncipe da cura? Talvez ele tivesse complementado o conselho de Miguel: “Não seja estúpido porque você não é, Gabriel; você é inteligente, vamos lá, pense com a sua própria cabeça!”. – Na verdade... – As palavras foram fugindo. – Na verdade eu não acho besteira.  – Ele olhou para Beelzebub, que mostrava nítida indiferença. Encheu o peito de coragem e tentou continuar, porque precisava, mesmo que sua única desculpa fosse todo o amor envolvido: - Eu fiquei confuso, no começo. E depois perdido.  – Ele contou. – E então eu esqueci. – Ele sorria meio melancólico. Com um olhar sonhador, continuou: - Mas eu encontrei a pessoa! E então eu simplesmente soube! Sabe...?

- Hum, bom pra você.

- É... É! Foi um momento único e breve. Eu não voltei a vê-la, mas quando nós estávamos lá foi tão...

- Gabriel.

- Sim?! – Mais uma vez: Se a história de Gabriel não passasse de um grande manuscrito, cheio de rodeios, prosas questionáveis, e varias páginas incoerentes bagunçadas, os pontos de todas as suas exclamações e interrogações seriam pequenos corações, como os que pareciam brilhar em seus olhos.

- Olha, você não fazz ideia do tanto de coisa que eu tenho para resolver no inferno. Não ezzztou dizendo que sua companhia é ruim. – Não, não, muito pelo contrário, se fosse comparar com as companhias que tinha no inferno Gabriel era curiosamente... Agradável? Beelzebub não sabia direito. Anjos eram muito estranhos. Um pior que o outro. É, totalmente incoerentes. Mas, de todos aqueles engomadinhos, se Beelzebub fosse obrigada a escolher alguém com quem conversar, possivelmente seria aquele mensageiro idiota. – Mas eu não tenho tempo pra ficar perdendo com você.

- Oh... – Então isso era o que chamavam de desilusão? Aquele aperto no coração, uma sensação curiosa de desamparo? Era como estar... Impotente. Céus, ele era a porra do arcanjo Gabriel, ele não era impotente, ele sempre tinha as coisas sob controle. Gabriel, aquele arcanjo mensageiro de Deus, sem uma única palavra que pudesse servir de consolo ao seu descompassado coração. Aquilo era confuso, estarrecedor, ver-se assim, com situações e sentimentos que simplesmente não podia controlar. E que o machucavam. Por que... Porque não eram recíprocos. O coração era algo interiço, não é? Importante e insubstituível e então Gabriel viu-se se perguntando o que aconteceria com sua forma física se o seu quebrasse. Porque ele estava sentindo a rachadura crescente e profunda que o fazia partir ao meio, despedaçar-se, e então, eventualmente, sabia que ele seria só um monte de pedacinhos. O que vinha depois?– Sim, eu só...

- Você me chamou para resolver burocracia. É o que eu faço. Não dá pra eu ficar ouvindo essas suas conversas de anjo.

- Certo, certo, eu compreendo perfeitamente, mas, Beelzebub... – O que Raphael faria? Ele aproveitaria a oportunidade! Ele não era um arcanjo de deixar oportunidades passarem. Não havia sido assim que compusera tão belamente o céu? Usando suas ferramentas, usualmente dizendo sim, fazendo aquelas pequenas travessuras. Sabe lá Deus, e literalmente só Deus, quando teria a chance de encontrar Beelzebub de novo. E se fosse como Raphael? E se não voltasse a vê-la? E se esquecesse dela novamente? Não, ele não podia se permitir esse luxo bobo de fugir. Estivera pronto para uma guerra fazia tão pouco tempo... Isso não era uma guerra, mas era uma batalha a qual estava disposto e decidido a lutar. Com mais uma respiração funda colocou-se de frente para o demônio e então, em um gesto que era uma coisa só, levantou a manga, expondo seu antebraço e fechou os olhos, como alguém que tem certeza de que vai ser atingido por um raio. Mas não foi bem assim.

A reação de Beelzebub não conteve nenhum elemento extraordinário. Ela simplesmente fitou, por alguns segundos arrastados, a marca no antebraço de Gabriel. Talvez tenha estreitado os olhos para ler melhor. Apenas isso. Suas feições não entregavam em nada o que se passava em sua mente. Ou em seu coração. Davam-lhe ainda o mais puro ar de indiferença. Não havia sido assim que Gabriel imaginara a situação toda. Tudo bem, talvez ele tivesse criado expectativas demais. Mas ele pensou que seria tudo um pouco mais dramático do que estava sendo. Que ao deparar-se com aquela caligrafia, ao reencontrar aqueles traços que sussurravam o nome que um dia fora o seu, qualquer vislumbre do passado viria assombrá-la. E ela se amedrontaria perante as lembranças do que fora um dia. Seu olhar se levantaria e, ao deparar-se com os olhos ternos do arcanjo, um sorriso enfeitaria seus lábios. “Gabriel!”, ela diria, o sorriso ainda marcando presença, como alguém que reencontra um amigo há muito tempo perdido. E então pularia em seus braços, o abraçaria forte. Ela não precisaria amá-lo, naquele momento breve em particular, só precisava querer estar em seus braços. Então ali estariam eles, depois de todos os recomeços: Dois anjos separados pela queda. Bom, não estava nem perto de ser essa a presente realidade. Beelzebub, ainda sem mais expressões, manteve o olhar por mais alguns segundos. Então juntou as sobrancelhas e estreitou os olhos para Gabriel, que sentia o corpo inteiro tremer.

- O que é que...

- É um nome. – Prontificou-se ele e, ainda que desesperado, sua voz explicativa soou extremamente suave. Apesar de, é, não ter sido esse o sentido da pergunta e Gabriel parecer um idiota, fazendo-a revirar os olhos, não foi totalmente a contragosto que Beelzebub recebeu a informação. A voz de Gabriel não parecia a pior coisa desse mundo. – Baal. – Ele explicou. – Significa alguma coisa pra você? – O demônio deu de ombros, plenamente indiferente.

- Não conheço.

- Não conhece...?

 Certo, tudo bem, ele já imaginava. Era no mínimo lógico que Beelzebub não se lembrasse. Eles não deviam se lembrar. Há pouco tempo o próprio Gabriel não se lembrava. Era um dos pontos que dava sentido àquilo tudo. Seria contraditório se céu e inferno soubessem e se lembrassem e fossem cheios de certezas. Gabriel entendia que Deus não fazia joguinhos com o universo, mas compreendia, de igual forma, que, às vezes, trabalhava de forma misteriosa. Então, tudo bem, seria incoerente céu e inferno lembrarem e Beelzebub lembrar, mas, ainda sim... Gabriel vinha se ancorando a uma esperança boba. De que, ao mostrar aquele nome a ela, ali gravado com aquela caligrafia angelical, talvez ela pudesse recuperar alguns vislumbres do passado, vindo como flashs, assim como ocasionalmente vinham ao arcanjo. As coisas seriam simplesmente fáceis se fossem assim, não é? Com todas as coisas boas se concretizando ali, na frente deles, para eles. Todavia, fosse como fosse, estava se iludindo em vão. Ainda sim, era um arcanjo e não deixou a esperança morrer: Tudo bem se ela não lembrasse. Não era relevante. É claro que haviam se cruzado pelo céu antes, isso era fato, mas já havia se passado muito tempo desde então. E agora esses sentimentos recém descobertos não eram dedicados a uma memória borrada de quem fora alguém algum dia. Eram a tudo que Beelzebub era agora. Como existia e como caminhava. E como falava e a aquele olhar que, ah... O fizera divagar por dias a fio com um sorriso idiota e apaixonado. Se quem ela havia sido um dia teria ou não alguma relevância para a relação era ela quem decidiria. Gabriel aceitá-la-ia, fosse como fosse, viesse como viesse.

- Não. Não é nenhum dos meus demônios. Sinto muito por não poder ajudar. – O olhar de Beelzebub trazia agora qualquer coisa mais expressiva. Algo entre piedoso e impotente que só Gabriel teria conseguido ler em tão pouco. – Mas dezzejo que sua buzzzca seja...

- O que? Oh, não, não! – Gabriel riu, abobalhado e divertido. – Desculpe, eu acho que me expressei mal. Eu não te chamei aqui pra vasculhar o inferno em busca de um... Não, não, eu nunca...

- Então foi pelo que? – Beelzebub era tolerante, ainda que só o suficiente. Às vezes é necessário para um demônio isso de ser tolerante. Mas paciência não era, nem de longe, sua virtude. Demônios não eram muito donos de virtudes, essa parte ficara mais para o céu, você meio que não consegue pensar em um sem completar com o outro, isso de “anjos” e “virtude” serem próximos. Bom, já tinha que aguentar seus demônios fazendo drama o dia inteiro e vinha sendo uma eternidade desde então, rodeios e mais rodeios. Não ia gastar o que se dera como uma folga, duma vez que estava longe do inferno e de grande parte dos seus problemas, ouvindo Gabriel fazer rodeios sobre besteiras. O arcanjo pigarreou, talvez sem reação, talvez limpando a garganta, preparando-se para o que viria, porque ele, corajosamente, começou:

- Beelzebub, eu... – Ele tentou evitar, mas era impossível não acabar todo embananado nas palavras. Era um anjo, sendo assim, por si só, mensageiro. Era um Arcanjo e como se isso apenas não bastasse, era o Príncipe Mensageiro, escolhido, sobretudo, por Deus para anunciar à sua a querida Maria o nascimento de seu amado menino Jesus. Em suma: Gabriel trabalhava com mensagens e era bom com as palavras, mas ali, olhando para Beelzebub, todas as palavras lhe fugiam. Ficava sem ação e então, apesar de saber o que dizer, parecia já não saber mais. Estava estarrecido. Como se a mais sutil das vírgulas, se usada erroneamente, pudesse entregar uma vitória ao inferno. Não, não, pior que isso: Uma vírgula errada poderia fazê-lo perder o amor de toda uma eternidade.  – Eu... Quando nos vimos durante o... O que eu estou tentando dizer é que... – Beelzebub bufou.

- Por que você é o arcanjo mensageiro mesmo? Você enrola muito pra falar.  – Aquilo certamente foi um baque.  Durou pouco, embora tempo o suficiente. Ser um mensageiro era o que ele fazia! Era tudo que era! Tudo que sabia ser! E se não era isso, o que era então? Uma desculpa ridícula para um arcanjo?

- Eu estou um pouco nervoso... – Foi sincero. – Beelzebub, a questão é que eu... – Suas mãos alcançaram as do demônio, que franziu o cenho e, ainda sim, arregalou os olhos. – Eu estou querendo dizer que... É você. Você, Beelzebub, é a minha alma gêmea. – Beelzebub adquiriu um ar visivelmente perturbado. Por um instante pensou que o arcanjo era estúpido. No seguinte, concluiu que ele era simplesmente idiota. No entanto, de primeiro momento, não se preocupou em afastar tão logo a união de mãos que Gabriel havia começado. Aquilo era ridículo.

- Você ezztá equivocado, Arcanjo.  – Prontificou-se. Ali estavam eles. Esse era o motivo, afinal? De toda aquela algazarra e daquele jantar sem sentido? Era incongruente.

- Não, não! Eu não estou! Eu sei que é você, Beelzebub! Eu sei que... – O demônio retorceu os lábios, revirando os olhos.

- Você se contradiz nos seus próprios argumentos. – Ela revidou, agora agitando um pouco as mãos, para que Gabriel as soltasse. O que, de antemão, não chegou a acontecer. – Eu não sou...

- Baal.

 Por um instante, Beelzebub congelou em suas ações, aturdida. E então cessou a agitação das mãos, que implicava silenciosamente para Gabriel as soltar. Porque, por um instante, essa não era a prioridade. De alguma forma, ela percebeu, de uma maneira peculiar, enquanto entreabria os lábios, que a forma como Gabriel pronunciara aquele nome ridículo tinha qualquer coisa de... Familiar? Havia sido... Reconfortante. Era algo como a bonança após a tempestade. Como voltar para casa. Então as ruas escuras se encheram de luz. Uma luz branca, vinda não se sabe de onde, tomando as construções e devolvendo um azul límpido de um céu claro. Veio como algo celestial demais. Divino, ela talvez ousasse dizer. Enquanto se via também envolver pelo brilho daquela luz sublime, percebeu o asfalto ser levado embora e de como não havia sido devolvido nada em seu lugar. Em lugar nenhum. Agora era como se flutuasse.  Sentiu os cantos dos lábios curvarem-se em um sorriso genuíno e alegre. Mas Beelzebub não estava sorrindo. Não é? Entorpecida, olhou envolta. De onde vinham todas aquelas nuvens? O que estavam fazendo ali embaixo? E aquilo que se ouvia ao longe... Era música? Mesmo o ar parecia mais... Leve? Era como se os sopros do vento fossem jovens novamente. Livres de poluições e fardos e medos. Outros fatos isolados? Prontifico-me a acrescentar: Os cabelos de Beelzebub balançavam com o vento, mas não o suficiente, pois, longos, estavam presos. O vento também balançava sua toga e podia senti-lo soprar gentil em seus pés descalços. E Gabriel? Gabriel lhe sorria. E, talvez, apenas talvez, ela lhe sorrisse de volta. Que sentimento estranho de paz era esse... ?

 Quando Beelzebub piscou, tudo voltou ao seu devido lugar e o cenário celestial foi substituído por aquela rua mal iluminada e pelo ruído alto dos carros. O ar não era mais tão leve e marcou presença instantaneamente. Ainda sim, nesse cenário, Gabriel havia sido o único detalhe que permanecera intocado. Ele ainda estava ali e, ainda que não tivesse o sorriso mais encantador de todo o céu estampado em suas feições naquele momento em particular, ainda segurava suas mãos. Ele tomou fala, com a voz gentil:

­– Eu sei que você não é mais Baal. É Beelzebub e mesmo assim! Eu sei que é você! Eu sei que... – Cerrando os olhos, Beelzebub forçou-se a sair daquele transe na qual havia se visto presa e negou com a cabeça. Não, ela se repreendeu. Porque, simplesmente, não. Aquilo ainda era coisa demais para ela poder processar.

- Você não tem como saber. Isso é bezzzteira.

- Não é. Porque eu sei. – Beelzebub negou novamente com a cabeça e voltou a movimentar as mãos, tentando soltá-las das do arcanjo.  – Beelzebub...

- Eu não tenho paciência para esse tipo de brincadeira, Gabriel. – Ela advertiu. 

- Mas eu não estou brincando! Beelzebub, por favor, acredite em mim, eu sei que...

- Isso é idiota. É ezzpeculação. Você não tem como saber e eu não tenho tempo pra isso! – Beelzebub o empurrou, fazendo-o vacilar para trás e finalmente soltar suas mãos.

- Não! Beelzebub, por favor... – Em uma ultima e desesperada tentativa, Gabriel estendeu o braço, conseguindo alcançar a mão do demônio que já lhe dera as costas e se afastava em passos apressados. Quando ele conseguiu envolver-lhe a mão novamente com a sua, tentando, em vão, impedir sua partida, Beelzebub perdeu o temperamento.  Voltou-se para o arcanjo, o olhar enfurecido e agarrou-o pela frente das vestes. Se não fosse aquela diferença explicita de altura o teria levantando do chão. Gabriel não conseguiu formular uma reação imediata , enquanto Beelzebub o puxava para mais perto, de um jeito absurdamente intimidador. – Bee...

- Fique longe de mim, Arcanjo.  – Ainda que perplexo, Gabriel teria persistido, se tivesse tido a chance. Foi no segundo seguinte que sentiu uma pressão no peito, que não tinha nada a ver com o coração partido, e sim com Beelzebub, o empurrando com uma força descomunal para longe, atirando-o para a outra extremidade da rua, seu percurso sendo interrompido apenas com o baque que sofrera ao chocar-se contra uma lixeira, que acabou por arrastar, sem poder impedir, por mais alguns metros. Beelzebub finalmente deu-lhe as costas e voltou, apressada, para dentro do restaurante.


Notas Finais


A gente já sabia que isso ia acontecer, né Beelzebub, mas mesmo assim machuca tanto hahaha Gabriel nas latas de lixo é meu atual estado de espirito, obrigado por ter lido até aqui <3


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