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História RARE — haseul - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Rare (capítulo único)


Fanfic / Fanfiction RARE — haseul - Capítulo 1 - Rare (capítulo único)

Nem todos os dias eu estou disposta a ser boa o suficiente para o mundo.


A ideia de querer apenas o meu próprio bem e apenas em benefício a mim é a mais pura fantasia das grandes mídias que usam de nossos monstros interiores para ganhar dinheiro com meia dúzia de frases estampadas em camisetas.


É assim que funciona o capitalismo, se ainda não entendeu.


Constantemente eu me sinto usada para servir de exemplo de como eu não consegui ser boa o suficiente, mas que dei um jeito de resolver a minha vida. As pessoas ao meu redor precisam de um espelho para olhar e se inspirar no que veem, porque a verdade é que ninguém quer totalmente a realidade que é vista.


É duro saber que algumas pessoas gostam de desfrutar do meu sofrimento para mostrarem o quão sou fraca, incapaz e vulnerável, e sabe, não tem nada de grave em se sentir assim de vez em quando.


Às vezes, no silêncio da noite, eu penso em como sou um produto da massa, algo a ser ofertado, que as pessoas podem cultuar, compartilhar e tentar me colocar num pedestal que eu não mereço.


Todos nós temos nossos demônios que trabalham dias e dias para nós desestabilizar, e eu sei que os meus estão vivos dentro de mim. Eles podem receber diversos nomes para serem neutralizados e parecerem inofensivos, e da mesma forma vão continuar me amedrontando.


Por muito tempo em minha vida, eu deixei que todos os problemas dos outros fossem despejados em mim pois sempre me disseram que eu era um porto seguro. Absorver as energias que me passavam me destruía e eu queria acreditar que isso não era verdade. 


Você já passou muito tempo rodeado de maus sentimentos e acabou achando que um deles era você mesmo?! Eu me sentia assim.


Não queria chorar, na verdade, eu nunca fui disso. Aprendi a engolir o choro e sempre pensar que há pessoas em situações piores que a minha, que sofrem por coisas relevantes, e me rebaixar a um nível em que nada em mim me importava era mais viável do que enfrentar meus pesadelos.


Só que eu aprendi do modo mais doloroso que pode sim haver problemas maiores que os meus, mas eles continuam me pertencendo, e eu não posso colocar nada na frente do que é meu, independente de ser bom ou ruim.


Pessoas diziam que eu era forte, que queriam ser firmes, decididas e bem resolvidas como eu, e eu nunca tive a oportunidade de desmentir.


Nunca tive e nunca quis.


Me fazer acreditar que eu era algo tão firme a ponto de nenhuma dor me degradar era incrível. Ser aquele alguém que todos podem contar a qualquer hora e nunca ter nenhum problema que me desestabilizasse me fazia popular entre as boas palavras.


Eu sabia o que dizer para os outros, não tinha um problema que eu não conseguia resolver, nenhum... Além dos meus, que eu jurava que eram irreais.


Era como um castelo de papel construído no fim do verão. As dobraduras eram bem feitas, construídos em ótima proporção para ser gigantesco e visivelmente forte, mas a sua própria construtora não prezava pela sua obra e tinha se esquecido que depois do verão, vinha o outono com uma intensa ventania e uma chuva passageira mas destrutiva.


Eu não queria olhar pela minha janela e ver pessoas felizes; a felicidade delas me incomodava posto que a minha tinha de ser maior, eu tinha que provar que pra mim era tudo mais fácil e verdadeiro, e acabei construindo alguém que não se assemelhava em nada comigo.


Alguém que facilmente poderia ser destruída por um sopro ou por um colapso da própria mente. E foi isso que me aconteceu.


A minha mente foi a minha inimiga, e depois de tantos dias procurando alguém para culpar o meu descuido, entendi que eu era o meu próprio fim, e que também seria eu quem deveria decidir se deixaria que ele fosse agora ou desse chances para adiá-lo.


Eu perdi a vontade de viver, não em si de estar viva, pode soar masoquista, mas eu gostava de sentir aquela dor. O sentido de viver era na verdade ser aquela Haseul que fingia ser em fotos, vídeos e palavras bonitas em posts bem decorados.


Passei por meses sem conseguir me olhar no espelho; queria que a antiga eu voltasse para o meu corpo porque era muito difícil entender que ela nunca me pertenceu. Os meus pensamentos entravam em conflito a todo momento.


Alguns não sabiam o que tinha acontecido, alguns me culpavam, outros me acalentavam, mas a maioria deles queria o meu fim, e eu deixei, por muito tempo eu deixei que eles fossem o comando principal e tentei por diversas vezes me destruir.


Tinha muitas más energias dentro de mim que eram o principal alimento de meus demônios, que ficavam visíveis em meus olhos e constantemente me usavam até deixar-me exarcebada em cansaço.


Passei a sentir tudo demais; dor demais, frio demais, ansiedade demais, solidão demais.


E sempre me negar parecia controlá-los, o que foi muita burrice da minha parte. Eu os dei ouvido, domínio e confiança. Eles me comandavam, me faziam chorar todos os dias e me isolar no canto mais escuro de meu quarto.


Nunca cometi nenhum ato de insanidade mental ou de alívio contra o meu próprio corpo, como me machucar, mas doía mais dar ouvidos aos gritos ensurdecedores dos meus pensamentos exalando pelo meu quarto e distanciando-me de todos.


Demorei a pedir ajuda por conta do meu orgulho, ele falava mais alto e me impedia de ser frágil, de sentir tristeza e de me encontrar.


Era uma frequente luta em que eu era a minha própria adversária, e demorou para entender que ninguém teria a possibilidade de me salvar se eu mesma não tomasse providências para encontrar a minha ajuda.


Eu precisei entender que eu não podia ser o porto seguro de ninguém, e isso não faria de mim uma má pessoa, apenas confirmaria que como qualquer outro, eu era um ser humano que precisava de apoio, distanciamento e tinha meus momentos para desfrutar sozinha quando necessário.


Não era culpa dos meus amigos eu ter acumulado tantas más energias, era culpa de seus egoísmos e minha dificuldade em dizer não quando não estava bem. Não era culpa dos outros eu não aceitar meus demônios, eles existem e eu tenho de saber controlá-los.


Chorar, eu podia chorar descontroladamente e tudo bem, isso não significava que eu era fraca e sim, alguém que precisa sentir todas as emoções que meu corpo me proporcionava. Eu podia me sentir pequena e incapaz de vez em quando, desde que isso não se tornasse uma rotina.


Eu podia ficar deprimida, podia me sentir sozinha e apelar por um abraço, e mesmo assim eu continuaria sendo uma pessoa forte, com sonhos, decisões e bons conselhos. 


Chorar se tornou uma atividade que eu não conseguia conter. O choro era a única emoção que podia transbordar de mim em qualquer situação; alegria, tristeza, fúria, felicidade, frustração... Então por que eu repreendia tanto?!


Por que eu sempre tinha de vincular isso a algo ruim?!


Porque eu era fraca de espírito, era alguém que lá no fundo, odiava quem realmente era e tinha medo de ser rejeitada.


A verdade é que todos nós temos medo de rejeição porque nunca aprendemos a lidar com ela. 


Aprender da pior maneira que ser rejeitado não é uma das piores coisas da vida me ensinou a subir os degraus da superação. Lá estava eu de novo, sentada em meu trono, com meus demônios adormecidos, quietos o bastante para serem comandados por mim.


Eu podia os doutrinar e os adestrar porque nunca poderia me livrar deles, e nem queria. Eles serviam para me mostrar que eu era humana, e que nunca deveria me desprezar para ser alguém que os outros gostem.


Encontrei a raridade no lugar que, para mim, era escondido, distante e inexistente. Eu encontrei nesse local uma carta escrita a próprio punho que dizia que eu era rara e que deveria usar disso para me amar um pouco mais.


Eu encontrei a carta escrita por mim mesma, aquela com grande cunho sentimental e engrandecedor, bem ali, no fundo do meu coração, que destrancou a porta para o meu jardim de boas e relaxantes experiências.


Era a mim que eu queria e não deixaria que mais nenhuma repreensão feita pelos meus demônios me deprimisse novamente.



~×∆×~



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