História Rascunhos da Vida 2: Canções e Conflitos - Capítulo 5


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Categorias Histórias Originais
Tags Lgbt, Musical, Romance Adolescente
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Terminada Não
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Música recomendada: Drag Me Down - One Direction (Megan Nicole, Sam Tsui e KHS cover)

Capítulo 5 - A história de Halo


Fanfic / Fanfiction Rascunhos da Vida 2: Canções e Conflitos - Capítulo 5 - A história de Halo

- Andrew, acorda!

Abro os olhos. Todo o meu corpo dói. Eu nem tirei os sapatos... São folhas de árvores no meu cabelo? E por que diabos minha roupa está molhada? Achei que já tivesse passado dessa fase...

- Você escutou? O café está esfriando! - Alerta Marlon, no andar inferior.

- Tô indo... - Murmuro.

Em resposta à minha voz sonolenta, Laika salta sobre cama trazendo um pano escuro pendurado no focinho. Uma touca...? De onde tirou isso?

- O que... Halo!

Pulo de repente, recordando de tudo.

- Não foi sonho..., o passeio, a perseguição... Deus do céu!

Cambaleio em direção ao banheiro e ligo o chuveiro na água fria. Graças a baixa temperatura meus músculos e sentidos enfim despertam totalmente. Escovo os dentes, termino de me vestir e desço as escadas acelerado. Informo a Marlon que estou atrasado e cruzo a porta levando uma maçã para que ele não reclame.

Na escola, Julie luta contra o armário enferrujado, esmurrando a porta de metal.

- Oi... - Cumprimenta. - Nossa, você está péssimo.

- Valeu, melhor amiga, o que eu faria sem seus incentivos matinais? - Tiro a touca preta da mochila e entrego para ela ver. - Olha...

- Legal, comprou em qual loja?

- É do Halo. Ele esqueceu no meu quarto ontem à noite.

Primeiro ela não compreende. Subitamente sua face fica branca e a boca escancarada.

- Ai. Meu. Deus. Eu sabia que rolava um flerte... Poxa Andrew, como não me contou que já estavam tão adiantados?

- Que flerte?! Não é nada disso, sua pervertida!

- Vocês se preveniram, né?

A impaciência me consome.

- Argh, tanto faz! Você tem o número dele ou o endereço?

- Não. Como eu poderia ter isso?

- Não sei, Julie! - Reclamo. - Talvez porque você é a responsável pela banda e deveria obrigatoriamente possuir esse tipo de informação.

- Ei, não surta! É normal o cara se afastar depois da primeira vez, principalmente alguém que conheceu, tipo, há dois dias...

- Eu não transei com ele, caramba!

Todas pessoas do corredor se viram e me encaram. Posso ter falado um pouco alto demais, possivelmente berrado.

- Que foi?! - Grito.- Vão cuidar das suas vidas!

Os estudantes disfarçam e prosseguem com suas atividades cotidianas. Já consigo visualizar uma nova onda de boatos a meu respeito surgindo... Ah, quem liga? A formatura é daqui a dois meses mesmo...

Apoio as costas nos armários e deslizo lentamente pro chão, exausto. Julie, agora preocupada, também se senta.

- Andrew, o que houve? Por que tanta urgência em contatar o Halo?

O sinal toca. Merda, ficar me torturando e presumindo o pior é inútil, preciso esperar até o ensaio...

- Deixa pra lá. E o novo namorado?

A nanica claramente percebe a tentativa chula de mudar o assunto, porém prefere não insistir por enquanto.

- Lembra do cara que eu te falei? Estou considerando convidar ele para o baile e...

As palavras dela entram por um ouvido e saem pelo outro, e as aulas foram puro blá blá blá sobre vestibular, emprego e idiotices. Por mais que eu queira, minha mente não vai assimilar nenhuma informação antes de comprovar que aquele gatuno mentiroso está à salvo.

À tarde, o ensaio deveria ter começado há quinze minutos, entretanto Halo ainda não apareceu. Totalmente aflito, mal tenho cabeça para brigar com Violet.

- E aí, Andrew, ouvi um falatório sobre você no corredor, hoje. - Debocha. - Gosta de humilhação pública?

- Você e suas fofocas podem ir se fod...

- Gente! - Como de costume, Julie interrompe. - Nossa banda não tem nome!

- E é necessário? - Pergunto.

- Claro que é! Tanto para a inscrição quanto para o sucesso. Sugestões?

Sou péssimo com títulos e prefiro manter os lábios selados. Violet cita nomes ridículos em idiomas estranhos que ela supostamente é fluente. Dylan, afinal, decide se pronunciar.

- Que tal "Bad Essence"? Combina com a nossa... energia intensa.

Sério? Desse jeito que denomina a constante tensão assassina que paira sobre essa garagem toda vez que nos reunimos? Bom, que seja.

- Bad Essence é legal. - Apoio.

Imediatamente ele sorri pra mim. Qual o problema desse garoto?

- Sim! Bad Essence é perfeito! - Julie anota o nome recém criado no caderno de canções.

Violet não perde a oportunidade e coloca a mão no ombro de Dylan.

- Sempre eficiente. - Elogia.

Que descarada...

Essa cena patética não se prolonga por muito tempo. Halo finalmente aparece caminhando tranquilamente. Impulsionado pelo meu alívio de vê-lo, levanto, percorro a calçada e o abraço, ignorando os olhares confusos dos demais.

- Hey! - Diz ele, desconfortável. - Eu sei que sou irresistível mas...

- Você está bem?!

- Por que não estaria?

É assim? Vai bancar o sonso? Ótimo! Aperto a touca preta e empurro contra seu peito.

- Toma, esqueceu isso ontem.

Constrangido, me adianto para retornar à garagem, contudo Halo segura meu pulso.

- Meia-noite. - Sussurra.

- O que?

Ao invés de explicar, ele pisca e vai ao encontro dos outros. Sem alternativa, o sigo.

- Foi mal, galera, o ônibus quebrou...

- Hã... Tudo bem, que bom que conseguiu vir! - Julie entrega as partituras, apressada. - O que acham dessa letra?

- Myers e eu cantando juntos? - Violet torce o nariz. - Ridículo.

- Infelizmente a senhorita frescura tem razão. Nossas vozes não combinam.

- Praticamente todas as minhas canções são duetos... Não podemos experimentar só uma vez? - Suplica a compositora.

- Bem... não.

- Sem chance.

Não damos o braço a torcer. Dylan tenta argumentar e nós quatro quase iniciamos uma discussão quando Halo interfere.

- Parem de drama. Vocês dois não são amadores, são?

Óbvio que somos. Todavia se há uma coisa que Violet e eu temos em comum, é o imenso orgulho. Ser subestimado pelo idiota exibido que chega atrasado? Jamais.

- Vamos nessa. - Concordamos em uníssono.

Ambos pegamos os microfones, empunhando como espadas afiadas. As expressões corporais transmitem uma mensagem identica e determinada: Eu não vou perder pra você!

- I've got fire for a heart, I'm not scared of the dark; You've never seen it look so easy...

- I got a river for a soul and baby you're a boat; Baby, you're my only reason [...]

Quanto mais ela aumenta o tom, mais me esforço para acompanhar. Minha concentração é dobrada, tendo que tocar guitarra e cantar simultaneamente. Violet bate o salto no chão, conduzindo o ritmo.

All my life you stood by me when no one else was ever behind me

All these lights that can't blind me

With your love, nobody can drag me down [...]


***


Meia-noite em ponto e estou pronto para escapulir de novo. Espio pela janela e, em meio às sombras, localizo Halo que acena e sorri cinicamente. Minha vontade é de fechar as cortinas, entretanto, ele provavelmente viria ao meu quarto. Droga... 

Saio novamente me segurando na calha. Imagina que engraçado seria se Dylan resolvesse abrir as cortinas para admirar as estelas neste exato instante...

Atravesso a rua e Halo já está acedendo um cigarro.

- Essa porcaria vai ferrar com seu pulmão.

- A morte é inevitável. - Rebate entre baforadas. - Desculpa, Andrew.

Por fim! Hora de aproveitar o momento.

- Pelo que, exatamente? Você fez muitas idiotices...

- Por tudo. Invadir sua residência, te empurra no chafariz, fazer você esbarrar com a gangue de otários... Juro que não era minha intenção causar qualquer tipo de dano. Consegue me perdoar?

Cruzo os braços, pouco comovido.

- Depende, quero ouvir a história completa. Para de joguinhos e desembucha: Quem é você?

Noto seu olhar frio e raivoso, contudo isso não me assusta mais e permaneço irredutível. Derrotado, Halo suspira e nos abaixamos, descansando na guia de concreto.

- Sou Halo Kyle. Tenho dezoito anos e moro sozinho num prédio abandonado do centro da cidade desde que fugi de casa.

- Fugiu de casa. Por que?

- Meu pai é um desgraçado, que descontava suas frustrações na minha mãe e em mim.

- Ele... batia em você?

Hesitante, assente.

- E só piorou após a morte dela. Eu metia o pé ou deixava o filho da puta acabar comigo também...

Sem saber o que dizer, observo a lua cheia e majestosa no céu negro.

- Lamento.

- Eu não. Nunca me senti tão livre.

- Ok. E quem são os Darker?

Igualmente nervoso, Halo brinca com a chama do isqueiro.

- Nos primeiros meses eu não tinha onde ficar. Aqueles caras... meio que me acolheram. Ofereceram comida, abrigo, proteção...

- Você era da gangue deles?!

- Éramos revoltados. Arrombando mercadinhos trancados, explodindo caixas de correios, pichando muros por toda a cidade e virando as madrugadas nos bares.

- Impressionante... - A intenção era ser sarcástico porém... Caramba, isso parece divertido. - E depois?

- Uma noite, Trevor se cansou dos pequenos delitos e planejou algo maior: assaltar um posto de gasolina usando máscaras e uma arma de verdade. 

- Merda...

- Pois é. Evidente que deu errado. O único funcionário presente, um senhor, quis chamar a polícia e Trevor atirou. O homem caiu na minha frente, banhado em sangue... Eu... eu não consegui ficar parado e tentei ajudá-lo...

As mãos de Halo tremem. Em seu dedo permanece a minúscula marca da minha mordida.

- Trevor ficou furioso e me acusou de traição. Um camburão apareceu, os Darker escaparam e me largaram para trás com o velho agonizando. Então fui preso.

- Que cretinos! Como você se safou dessa confusão?

- O homem baleado não prestou queixa. Inventei que estava desesperado e morrendo de fome. Incerta, a oficial responsável decidiu dar uma chance e "esqueceu a cela destrancada". Eu a agradeci, todavia ela ameaçou me prender de verdade caso visse minha cara de novo.

Por isso tem tanto medo da polícia...

- Quanto aos Darker, decidi simplesmente esquecer que esses merdas existiam e desertei do bando.

- E pelo que percebi, eles não reagiram bem à sua escolha... - Concluo, relembrando dos acontecimentos no dia em que nos conhecemos. - Por que não denuncia os ex-parceiros?

Halo emite uma leve risada.

- Essa é a parte interessante. Trevor e Quentin são sobrinhos do delegado de Overhill e tenho certeza que os acobertar em seus crimes.

- Porra...

A brasa do cigarro se extingue. Ele joga a bituca na rua.

- Sem família, sem dinheiro, sem amigos, sem merda nenhuma. Esta é a minha vida. Vou compreender se não me quiser mais na no seu grupo...

Como se o peso do mundo estivesse em cima de seus ombros, Halo inclina a cabeça e olha fixamente para o tênis gasto.

Geralmente, essa é a fase que eu o aconselharia a não desistir e cairia fora, contudo algo restringe minha atitude. Uma espécie de empatia que acreditava não possuir mais.

Se Jordan e Marlon não me adotassem anos atrás, talvez estivesse numa condição similar à dele.

- Você comentou que entrou na banda com o objetivo de ganhar o dinheiro do prêmio, né?

- Sim. Deve ser o suficiente para sair dessa droga de cidade e recomeçar num lugar bem longe.

- Certo... - Resmungo. - Guardarei o segredo do seu passado sombrio e me dedicarei aos ensaios para aumentar nossas chances de vencer. Mesmo que isso signifique cantar com a insuportável da Violet...

Ele torna a elevar o rosto, surpreso. Os olhos cinzas paressem ligeiramente mais vividos.

- Eu sou um perdedor fodido e te arrestei pros meus problemas... Por que você ainda quer me ajudar?

Me ergo, esticando os membros para escalar de volta ao quarto.

- Não sei. Apenas... tô cansado de fingir que não me importo.



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