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História (Re) Nascer - Capítulo 16


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Notas do Autor


Bem... No fim eu mesma acabei optando por postar dia sim e dia não, mesmo que ninguém tenha se manifestado contra ou a favor xD
Só digo que preparem os corações pra esse capítulo, porque será igual o UP, só que com altas emoções...
Boa leitura ;)

Música do capítulo: O Tempo É Sua Morada de Francisco, El Hombre.

Capítulo 16 - Entre irmãos


Fanfic / Fanfiction (Re) Nascer - Capítulo 16 - Entre irmãos

Fausto firmou seus passos sobre o feno na baía que era sua residência durante todo aquele mês. Lysandre apoiou o cotovelo sobre a madeira do cercado, observando o bezerro ensaiar seu trotar no pouco espaço disponível. Ele seria um boi forte e vistoso quando adulto, tinha certeza.

— Quem diria que aquela coisiquinha frágil ia ficar assim, né? — O fazendeiro ouviu a voz de Clarice logo ao lado e virou-se surpreso. A veterinária abriu um largo sorriso, rindo da expressão do amigo.

— Não vi você entrar — Lysandre comentou, voltando a apoiar o cotovelo sobre a madeira e dando espaço para a amiga.

— Você parecia distraído — ela respondeu. — Ele já mamou hoje? — Como resposta, Lysandre acenou em afirmação. — Poxa, assim você tira o meu trabalho aqui — fingiu uma reclamação, entregando o vidro com o líquido branco para o fazendeiro.

Lysandre gesticulou, indicando para seguirem para a saída. Após mais uma última olhada no bezerro — que pareceu desistir de caminhar e se deitou para uma siesta —, os amigos deixaram o curral.

— Não é a minha intenção — o fazendeiro retomou o assunto anterior. — Acabei cedendo aos apelos de Fausto. 

Os dois foram saudados pelo sol invernal do lado de fora. O céu estava como uma tela limpa, colorida apenas por um azul anil. Apesar disso, o tempo ainda pedia por mangas compridas.

— Deixo passar porque eu sei como aquele garoto pode ser mimado. — Clarice riu-se, sendo acompanhada por Lysandre.

A moça o olhou de canto de olho, percebendo a leveza no semblante do amigo. Devido à conversa que tiveram na última vez em que se viram, esperava ser recebida por um Lysandre um pouco mais sisudo, disposto a conversar sobre o assunto ou pedir para que não tocassem mais nele. Porém, fora surpreendida. Como sempre.

— Tem um carro entrando? — ela questionou, vendo um veículo passar pela porteira.

Após o Corsa preto entrar na propriedade, o estilista em suas vestes vitorianas desceu do lado do motorista, fechando a porteira e retornando para dentro em seguida, planejando estacionar o veículo próximo à casa.

— Leigh e a namorada vieram passar o feriado na fazenda — Lysandre explicou, subindo com Clarice para longe do curral.

O Corsa passou por eles, levantando um pouco de poeira e estacionando. Logo, a porta do passageiro se abriu e Rosalya saiu, carregando algumas sacolas nas mãos.

— Por que você nunca me disse que tinha roupas tão bonitas na vila, hein? — ela cobrou o cunhado, aproximando-se dele e dando um tapinha no ombro. — São artesanais ainda por cima.

— Desculpe, você sabe que não acabo prestando atenção nessas coisas — Lysandre tentou se escusar, recebendo apenas um olhar enviesado da cunhada.

A moça desviou os olhos do cunhado, finalmente vendo a veterinária parada ao lado dele. A morena acenou, junto de um sorriso.

— Olá, prazer em conhecer. — As duas trocaram um beijo no rosto como cumprimento. — Sou Rosalya, cunhada do Lysandre.

— Que bom te conhecer! — a veterinária exclamou, deixando a outra surpresa. Claro que Lysandre não contou sobre o ocorrido na noite da quermesse.

— Clarice? — O estilista saiu do carro, batendo a porta em seguida. 

— Leigh! Há quanto tempo! — a veterinária exclamou e se aproximou dele para um abraço, que foi retribuído.

— Que surpresa ver você por aqui — ele disse, separando-se da moça e observando-a. Como Lysandre percebeu semanas atrás, estava diferente de suas memórias. — Lysandre se esqueceu de mencionar que era você a veterinária que estava cuidando do bezerro — afirmou, fazendo com que seu rosto e o de Clarice se voltassem para trás, na direção do fazendeiro. 

— É mesmo? Não é nem novidade o Lysandre se esquecendo das coisas, né — ela tentou brincar, ciente de que aquele não fora um mero esquecimento. Apenas se perguntava por quê.

Lysandre colocou as mãos nos bolsos da calça jeans, corando um pouco as bochechas. Rosalya ergueu as sobrancelhas, sentindo-se alheia à conversa toda. Coisa que detestava.

— Vamos entrar pra tomar o café? O café que o Lys-fofo prepara é maravilhoso! — disse para Clarice, a quem ainda encarava com uma certa desconfiança, principalmente pela proximidade com o estilista. 

— Ainda não tive tempo de passar o café — Lysandre afirmou e subiu na frente para a cozinha.

Leigh ficou para trás, para retirar algumas sacolas de compras do porta-malas do carro. Clarice e Rosalya subiram juntas.

— Então… Você conhece os dois faz tempo? — a platinada iniciou o assunto, curiosa como de praxe.

— Estudei com Leigh durante o ensino médio e fui amiga de infância dos dois — ela afirmou sucinta e a outra apenas assentiu, o olhar atento a cada movimento da veterinária.

Ambas as mulheres entraram na casa, com Rosa deixando as sacolas em um dos sofás da sala e dirigindo-se à cozinha junto da outra. 

— Você fez aqueles biscoitinhos de novo, Lys? — Clarice pediu para o fazendeiro, que acabava de colocar a chaleira no fogo para ferver.

— Fiz alguns ontem à tarde, para Leigh e Rosa — respondeu, se afastando do fogão. — Creio ter sobrado um pouco…

Enquanto ele procurava pela comida, as duas mulheres sentaram-se à mesa.

— Lys-fofo é um dono de casa e tanto — Rosa afirmou, apoiando o rosto sobre as mãos e os cotovelos sobre a mesa. — Sabe cozinhar, fazer café, costurar…

O fazendeiro virou-se para elas, depositando um pote com os biscoitos sobre a mesa.

— Se fosse minha vó, diria que já dá pra casar — Clarice brincou e o olhar dela se cruzou com o do fazendeiro, com ambas as bochechas corando. Clarice se arrependeu de imediato do comentário e pegou um dos biscoitos para disfarçar. — Ainda preciso pedir essa receita.

Lysandre apenas sorriu e se afastou, indo preparar as coisas para passar o café.

Os lábios de Rosa desenharam-se em um sorriso, ciente do que se passava nas entrelinhas daqueles dois. Não apenas por ser perceptiva para aquelas coisas, mas pela tensão que exalava como um perfume entre eles. Quem diria…

— Será que o queijo já está pronto? — Leigh questionou ao irmão logo que colocou os pés na cozinha.

— Acredito que sim — ele respondeu, retirando a chaleira do fogo.

— Deixe que eu mesmo desenformo um — o estilista afirmou, indo pegar uma das forminhas escondidas em um canto da cozinha.

— Então… — Rosa iniciou um novo assunto, logo monopolizando aquela conversa. — Vocês se conhecem faz muito tempo, Clarice?

— Acho que, o que… — Ela tentou fazer alguns cálculos mentais.

— Quase quatorze anos — Lysandre respondeu por ela, despejando lentamente a água quente no coador de pano.

— Isso! Acho que você sempre foi melhor nas contas do que eu — ela brincou rindo, fazendo Lysandre sorrir, mesmo que de costas para ela. — Nós sempre fomos vizinhos e eu incomodei o Lys até ele virar meu amigo.

Leigh colocou o queijo branco em um prato sobre a mesa, indo lavar as mãos em seguida. Rosa pegou a faca, cortando um pedaço e logo levando até a boca.

— Acho tão fofo isso — comentou enquanto Lysandre deixava a garrafa térmica de café e uma jarra com leite sobre a mesa. — É difícil encontrar uma amizade que dure tanto tempo, né? E esse tipo de laço costuma ser tão forte… — comentou como quem não queria nada e olhou para o cunhado, que ergueu uma sobrancelha, não compreendendo completamente o comentário.

— Esses dois costumavam ser inseparáveis — Leigh disse ao voltar para a mesa. Escolheu a cadeira vaga ao lado da namorada. — Foi uma pena quando vocês se separaram — comentou, pegando uma das xícaras que o irmão acabava de deixar perto deles e a enchendo com café.

— Ah, então vocês não passaram esses anos todos juntos, né? — Rosalya soltou o óbvio. — O Lys-fofo foi viver uns anos com o Leigh na cidade. Obrigada, amor — agradeceu quando o namorado entregou-lhe uma xícara de café com leite, na quantidade exata que gostava. 

— Na verdade foi eu quem abandonou ele primeiro — Clarice corrigiu e trocou olhares com Lysandre, que logo escondeu parte da expressão de seu rosto por trás da xícara. — Só fomos nos reencontrar esse ano — ela finalizou, pegando mais um dos biscoitinhos do pote.

Rosalya olhou para o outro lado da mesa, vendo o cunhado encarar Clarice de soslaio. Para ela, era claro como o dia do lado de fora o significado da expressão no rosto dele.

Sorrindo, cortou mais um pedaço do queijo, monopolizando a conversa mais uma vez. Pobre de quem fosse bombardeado por suas perguntas.

Lysandre lambeu a ponta da linha, aproximando a agulha do rosto para poder passar a linha pelo buraco. Os últimos raios de sol tingiam de laranja e vermelho o céu, amarelando onde tocava. Inclusive a varanda dos fundos, local em que o fazendeiro estava sentado na cadeira de balanço.

Conseguindo o que queria, pôs-se a remendar uma das camisas puídas que usava para trabalhar. Foi capaz de ouvir a porta de acesso à cozinha se abrir e passos se aproximarem.

— Achei que fosse estar aqui — Leigh afirmou, sentando-se na cadeira ao lado do irmão.

— Onde está Rosa?

— Tirando das sacolas as roupas que comprou e mostrando para Alexy via Skype — respondeu e o mais novo balançou a cabeça. Rosalya com certeza foi a pessoa mais animada com a instalação da internet na fazenda. — Encontrei com seu Juca quando estava na vila — Leigh mudou de assunto. — Ele me perguntou se você tinha mudado de ideia sobre a proposta de cantar na quermesse.

— Ele me propôs cantar no último final de semana da festa — Lysandre explicou, começando a coser a peça em seu colo.

— E irá aceitar? 

— Provavelmente não — o fazendeiro respondeu.

— E por que não? — Leigh questionou, apoiando o cotovelo sobre o braço da cadeira. — Você ainda canta bem.

— Estou um pouco inseguro quanto a me apresentar depois de tanto tempo. — Lysandre foi sincero, recebendo um aceno de cabeça como entendimento.

Os dois ficaram em silêncio, com o estilista observando o sol caminhando para o horizonte a passos lentos e o fazendeiro ocupado com o remendo de sua roupa.

— Fiquei surpreso por Clarice ter retornado — Leigh iniciou um novo assunto. — Você não mencionou o nome dela nenhuma vez em nossas conversas.

— Preferia não iniciar o assunto através de mensagens.

O estilista calou-se, optando por não insistir no tópico, sabendo do temperamento e personalidade do irmão. Lysandre não era muito fã de manter longas conversas por telefone.

— Apenas fico curioso por saber o que está acontecendo — Leigh disse, olhando para o irmão de canto de olho. — Me preocupo com você, Lysandre — soltou em uma postura de irmão mais velho, quase como se desse bronca no outro.

— Desculpe — pediu e Leigh balançou a mão, indicando que estava tudo bem. 

O silêncio voltou para os dois, sequer tendo o coro de grilos e cigarras dessa vez. Leigh hesitava para dizer algo, o que não passou despercebido por Lysandre. O fazendeiro parou de coser, deixando um ponto pela metade.

— Há algo a lhe incomodar? — o mais novo questionou, voltando sua atenção totalmente para o estilista ao seu lado.

— Apenas algumas considerações… — Leigh suspirou. — Você ainda mantém alguns desejos do passado? — Lysandre ergueu as sobrancelhas, não compreendendo e o estilista viu-se obrigado a explicar. — Seguir com a música, talvez com as Letras…

— Me surpreende você tocar neste assunto de repente — Lysandre retorquiu. 

A verdade é que não foram poucas as vezes em que Leigh trouxe à tona o mesmo tópico, das mais diversas formas possíveis. Porém, havia tempo que não o fazia tão abertamente daquele jeito.

— Estive pensando em algumas possibilidades com a instalação da internet na fazenda — explanou sua ideia e Lysandre grunhiu um resmungo baixo.

— Clarice disse algo semelhante essa semana — Lysandre relembrou do acontecimento de quarenta e oito horas atrás.

— E o que exatamente ela disse?

— Para eu tentar estudar à distância — Lysandre respondeu e tentou voltar a coser. 

— Não é uma má ideia — Leigh devolveu e viu o irmão errar o ponto, sendo obrigado a desfazer parte da costura. 

— Não posso pagar por isso, Leigh. — Lysandre apertou a agulha um pouco mais forte do que deveria. — Apenas consigo o suficiente para manter a fazenda e o Chico.

— Eu poderia pagar para você — Leigh disse simplesmente, como se fosse o óbvio.

Lysandre soltou um resmungo ao espetar o dedo na agulha. Leigh estendeu a mão para o irmão.

— Aqui, deixe que eu termino. — Com isso, o fazendeiro entregou a camisa, linha e agulha para o irmão.

— Não, Leigh — o fazendeiro respondeu ao questionamento anterior. — Eu estou bem do jeito que estou. Não preciso disso. 

Leigh parou o trabalho manual, encarando o irmão com censura.

— Contar uma mentira muitas vezes não vai torná-la verdade, Lysandre — disse com certa dureza, voltando os olhos novamente para a roupa.

— Independente de ser verdade ou não, Leigh, prefiro não ser um peso para você — Lysandre resolveu se munir da sinceridade, devido à fala anterior do irmão. Leigh arregalou os olhos para o fazendeiro, espantado pela afirmação. — Você tem gastado muito para expandir sua loja, não é a hora de incluir gastos desnecessários nas suas despesas.

— Desnecessário? — Leigh cuspiu a palavra com descrença, não acreditando nas palavras ditas pelo irmão. — Não importa se tenho que gastar um pouco a mais ou não, você nunca será desnecessário, Lysandre — respondeu um pouco amargo e arrebentou a linha de costura com força, tendo terminado o remendo da camisa, entregando-a para o irmão.

— Obrigado — o fazendeiro agradeceu, abaixando a cabeça, na intenção de fugir do olhar magoado do irmão. — Talvez possamos deixar isso para outra hora — ele disse, na tentativa de se esquivar. Ficava a dúvida se do assunto ou da conversa em si.

— Toda vez que eu vejo as nossas fotografias sorrindo nos porta-retratos sobre a mesa da sala, fico pensando que não era para as coisas serem assim — o estilista desabafou repentinamente, surpreendendo o irmão. 

Depois de mais de um ano, Leigh finalmente conseguia olhar para as imagens do passado com nostalgia. Conseguia olhar para aquela casa não com a dor da lembrança do que não iria mais voltar, mas com a memória das alegrias vividas ali. Aquilo, nada seria capaz de apagar. Mesmo que a saudade fosse uma companheira sempre presente, o luto havia ficado no meio do caminho.

Infelizmente, não podia se dizer o mesmo de Lysandre. Diferente do irmão, aquela casa não trazia apenas as lembranças dos pais. Em cada parede estava marcada a memória de tudo o que deixou para trás para estar ali. O luto de Lysandre estava enraizado dentro de si por tudo o que perdeu em tão pouco tempo: o pai, a mãe, a namorada, a oportunidade de ter o futuro que queria, os próprios sonhos. O único ciente de tudo aquilo, além dele próprio, era Leigh. 

— Mas é assim que elas são — Lysandre respondeu, um tom amargurado em sua voz que não passou despercebido pelo irmão.

— Não é assim que elas precisam ser. — Após isso, não obteve resposta se não um desviar de rosto. — Não é assim que você precisa viver para sempre.

Lysandre apenas balançou a cabeça, resignado.

— Este é o destino que eu me propus, Leigh. Por nossos pais, por termos os deixado para trás, por tudo o que devemos a eles... — desabafou de uma vez, afundando-se na cadeira de balanço e deixando que ela fizesse seu movimento designado.

— Mas você não precisa passar por isso sozinho, Lysandre. — Leigh apoiou a mão sobre o braço do outro, atraindo a atenção dele. — Esta fazenda pertence à nossa família. A nós dois. Independente de você não querer ser um peso para mim, não posso deixar você passar sozinho por isso. Eu sou seu irmão, Lysandre — finalizou com suavidade, fazendo com que os olhos coloridos do irmão cruzassem com os seus escuros. — Você pode ter tomado como seu dever cuidar dessa fazenda. Mas também é o meu dever cuidar de você. 

Lysandre suspirou, sentindo o toque do irmão em seu braço e relembrando de quantas vezes aquele mesmo toque se fez presente em sua vida. Sua proteção quando criança e temia as tempestades, seu incentivo quando teve medo após sofrer bullying na escola, a presença constante nas primeiras semanas após ficarem órfãos. Lembrando que, apesar de tudo, Leigh sempre estaria ali por ele.

Lysandre segurou a mão do irmão em seu braço, olhando em seus olhos.

— Irei pensar sobre o assunto.

Com a promessa, Lysandre deixou a varanda, levando com ele somente a blusa e as lágrimas nos olhos.


Notas Finais


O Tempo É Sua Morada, Francisco El Hombre: https://youtu.be/783qJgyQnno
Já que a Beemov fez o desfavor de simplesmente largar o Lysandre na fazenda, aqui a gente explora essa relação entre os irmãos como eles merecem ♥
Até mais, povo o/


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