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História Ready to go - Capítulo 6


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Notas do Autor


Hello!
Disse que tinha voltado e demorei mil séculos, apenas uma situação normal por aqui hahaha. Tive uma crise enorme com essa história nesse período desde o último capítulo e tanta coisa aconteceu nesse meio tempo que cheguei a conclusão de que 2020 estava se camuflando de ano bom pra eu baixar a guarda e ele me atacar huahuauha.
Enfim, espero que gostem do capítulo e nos vemos nas notas finais.

Capítulo 6 - Um céu cheio de estrelas


Gerard observa Frank por um instante, tentando identificar se ele está realmente falando sério. Afinal, já passa das duas da manhã, ele acaba de chegar do trabalho e suas feições evidenciam que está cansado. Apesar disso, ele continua aguardando uma resposta, trocando o peso de uma perna para outra e erguendo discretamente as sobrancelhas enquanto ambos se encaram.

– Tudo bem – Gerard concorda, por fim. – Me mostre.

Frank sorri.

– Certo. É melhor você pegar um casaco enquanto eu troco essa roupa, então – ele sugere, ao que Gerard assente.

Frank se afasta em direção à própria casa. Enquanto isso, Gerard se ergue dos degraus e espana a poeira da roupa antes de entrar e procurar um casaco.

...

Os dois se encontram na frente da casa de Frank dez minutos mais tarde. Frank desce os degraus da entrada trajando uma jaqueta de motociclista, com o capacete extra enganchado em um dos braços e carregando uma mochila estufada. Os dois últimos itens são entregues à Gerard.

– O que tem aqui? – Gerard pergunta, apertando a mochila, que está leve e fofa.

– Você vai descobrir em breve – Frank responde, sorrindo misteriosamente antes de subir na moto e ajeitar seu capacete.

Guardando sua curiosidade para si, Gerard passa as alças da mochila pelos braços e coloca o capacete, subindo na moto atrás de Frank e segurando em sua cintura.

– Pronto? – pergunta Frank, virando a cabeça ligeiramente para o lado.

– Sim – responde Gerard, acomodando-se.

Frank dá a partida e os dois iniciam a viagem.

Eles atravessam a cidade em direção à Interestadual 95 e seguem para o sul. Na rodovia deserta, Frank acelera a moto, fazendo o motor roncar conforme os dois ganham velocidade. Gerard vê as placas de sinalização passando por eles em velocidade cada vez maior, borrões brilhantes que desaparecem assim que os faróis deixam de alcançá-los.

Depois de pouco mais de meia hora cercados pela escuridão da rodovia deserta, Frank entra em uma cidade. Ele percorre as ruas com a facilidade de alguém que conhece muito bem o caminho e finalmente diminui a velocidade ao chegar ao seu local de destino. Eles agora estão em uma rua diferente; de um lado, há casas, e do outro, um estacionamento, no qual Frank entra e para em uma vaga.

Ele desliga a moto e Gerard desce. Quando tira seu capacete, o som de ondas quebrando suavemente invade seus ouvidos.

– Onde estamos? – ele pergunta, olhando ao redor.

O estacionamento é pequeno, duas filas de vagas separadas pelo corredor para manobras e iluminadas por um poste duplo. Além do limite deste espaço, na direção oposta às casas, há um aglomerado de árvores que formam um paredão. É impossível enxergar o que há depois.

Frank desce da moto e tira o capacete, ajeitando rapidamente os cabelos em um gesto automático. Em seguida, pega o celular e acende a lanterna do aparelho, com a qual ilumina um caminho entre as árvores. Ele gesticula para que Gerard o acompanhe.

Eles caminham por alguns metros, com areia fofa penetrando em seus calçados, até saírem para um grande vazio. O som das ondas se torna mais alto e, com a lanterna alcançando apenas uma grande extensão de areia para todos os lados, Gerard finalmente entende onde estão.

Uma praia.

Eles avançam até encontrarem um píer e percorrem a extensão de madeira até o final, onde a passarela se abre em uma estrutura retangular maior.

O céu estrelado estende-se sobre os dois a perder de vista. No horizonte, ao longe, é possível ver as luzes da cidade de Nova York. Frank pega a mochila com Gerard e lhe entrega a lanterna. De dentro da mochila ele retira uma manta impermeável, a qual estende sobre a madeira, finalmente matando a curiosidade de Gerard. Eles se sentam e Frank cobre as pernas de ambos com uma manta de lã. Depois, desliga a lanterna e se inclina para trás, deitando com um suspiro profundo e cansado.

Gerard também se deita, olhando, hipnotizado, para o céu. Ver aquela imensidão de pontos brilhantes de forma tão clara, sem construções e luzes da cidade atrapalhando, faz com que um arrepio percorra sua espinha. Uma sensação de serenidade o invade e ele se acomoda sobre a manta, inspirando o cheiro úmido e agradável da praia.

– Você tinha razão – Gerard murmura, fechando os olhos por um instante e sorrindo com satisfação. – Esse lugar acalma. Acho que fazia muito tempo que não me sentia assim.

Frank dá uma risada preguiçosa.

– Eu sei. É incrível.

Gerard abre os olhos novamente e continua sorrindo em meio à escuridão. Ele sente cada centímetro de seu corpo vibrando com um sentimento avassalador de gratidão à vida, de esperança e impulso, como se fosse invencível. Os últimos dias lhe trouxeram a sensação de que sua vida está desmoronando ao seu redor. No entanto, neste momento, Gerard sente que é exatamente o contrário. Nesse tempo todo ela está, na verdade, se reconstruindo.

...

Mais tarde, quando o céu escuro da noite começa, aos poucos, a mudar sua paleta de cores a caminho de uma nova manhã, Gerard vira a cabeça e percebe que Frank em algum momento pegou no sono.

Apoiando-se em um dos cotovelos, Gerard observa o homem ao seu lado. Ele mantém a mesma posição, deitado de barriga para cima, mas em algum momento da madrugada puxou a manta até a altura do peito. Seu rosto está completamente relaxado, os lábios ligeiramente entreabertos deixando escapar a respiração serena. Conforme o céu se torna mais claro sombras surgem em seu rosto, delineando seus contornos e tornando-os mais nítidos.

Parece impossível acreditar que apenas poucos dias antes os dois sentiam enorme desgosto pelo simples fato de colocarem os olhos um no outro. Esses dias agora parecem pertencer à outra vida.

Frank é um cara legal. Gentil, prestativo, dono de um coração enorme. E bonito. Neste momento, Gerard se sente bastante em paz consigo mesmo para admitir isso. Só gostaria de ter percebido antes que Frank era essa pessoa, em vez de se odiarem como cão e gato. Eles poderiam ter sido bons amigos. Poderiam ter feito muitas coisas juntos, mesmo tendo gostos diferentes. Em outra vida, isso poderia ter dado certo.

...

Frank acorda dez minutos mais tarde quando um bando de gaivotas canta no céu acima do píer. Ele abre os olhos, deparando-se com as cores alaranjadas do amanhecer e boceja enquanto se ergue, olhando em volta.

Ainda sonolento, ele leva um momento para perceber o que há de errado.

– Gerard? – ele chama, ficando de joelhos ao perceber as roupas amontoadas na beira do píer. – Gerard, cadê você?

Frank avança até a beirada. A água ao redor reflete o amanhecer, e, exceto pelo movimento das ondas, parece calma.

– Gerard! – Frank grita, inclinando-se sobre a borda e olhando para baixo.

De repente, alguma coisa emerge espirrando água para todos os lados.

– Você ficou maluco?! – grita Frank ao ver Gerard dentro d’água. Apesar de ser o mês de maio e na maior parte dos dias as temperaturas estarem variando entre amenas e quentes, hoje não é um destes dias. – Que diabos você está fazendo aí?

– Dando asas a uma ideia estúpida – responde Gerard, se encolhendo com o frio e afundando um pouco. – Achei que seria legal dar um mergulho, faz tempo que não venho à praia. Só que esqueci que a água provavelmente estaria fria.

Frank revira os olhos e balança a cabeça como se essa fosse a coisa mais idiota que já ouviu.

– Pensei que você tinha se afogado, você me assustou – confessa Frank.

Gerard sorri, batendo os dentes.

– Não se preocupe, ainda tenho dois dias de vida pela frente.

– Isso não é engraçado – devolve Frank.

– Ok, desculpe.

Gerard se aproxima do píer e tenta içar o corpo para cima, mas não consegue. A água não esta dando pé àquela altura e não há nada em que ele possa se apoiar para pegar impulso. Frank tenta ajudá-lo, mas o píer não tem guarda-corpo e ele quase escorrega para dentro d’água também.

– Acho que você vai ter que nadar até a beira da praia – Frank diz, por fim. – Vou recolher as coisas e te encontro lá.

Gerard suspira frustrado, mas não há alternativa. A ideia foi sua, afinal de contas.

Enquanto Gerard avança para a terra firme, sentindo a água fria ao seu redor como uma piscina de gelo em contraste com seu corpo que perde calor a cada instante, Frank junta as coisas de ambos e caminha pelo píer até a areia. Quando a alcança, Gerard está há poucos metros de distância, caminhando encolhido dentro d’água em sua direção.

Frank deixa as coisas que carrega na areia e o encontra quando ele sai da água, jogando sobre seus ombros a manta de lã e esfregando seus braços.

– Eu nunca achei que você fosse muito normal, mas com essa você me surpreendeu – murmura Frank.

Gerard tenta rir, mas o som sai como um sopro trêmulo por entre seus lábios azulados. Ele se deixa conduzir para o lugar onde Frank deixou as coisas. Frank se senta e o puxa para perto, envolvendo-o com seus braços e esfregando as mãos sobre a manta para aquecê-lo.

Demora um pouco, mas acaba por dar certo. Devagar, Gerard sente seu corpo voltando à vida, seus músculos tensos relaxando e os tremores diminuindo. Conforme isso ocorre, ele também passa a sentir com maior intensidade a proximidade de Frank – o calor de seu corpo que atravessa a manta e aquece a pele de Gerard, os movimentos ritmados de sua respiração, os braços que o rodeiam. Gerard se concentra nas emoções que o perpassam e permanece em silêncio, apenas absorvendo-as e tentando entendê-las.

– Você está bem? – pergunta Frank depois de algum tempo, afastando Gerard para observá-lo com atenção.

– Sim, obrigado. – Gerard fita Frank enquanto ele o avalia.

Frank passa o polegar em sua bochecha direita, secando algumas gotas de água. Em seguida, afasta uma mecha de cabelo molhado de sua testa.

– Você está mais corado, isso é bom – observa Frank, ignorando que o motivo de Gerard estar corado provavelmente tem muito menos a ver com o fato de ele agora estar aquecido do que com sua recém adquirida superconsciência da proximidade entre os dois.

Gerard deixa escapar um pequeno sorriso.

– O que foi? – Frank pergunta, depois de um instante.

– Nada.

Frank estreita os olhos, desconfiado.

Gerard sustenta seu olhar por um momento, mas logo eles acabam descendo involuntariamente para os lábios de Frank. A distância entre os dois é curta. O que aconteceria se ele simplesmente eliminasse essa distância e encostasse seus lábios nos dele? Qual seria a sensação?

Mas não. Em vez disso, Gerard deixa o olhar cair até a manta que cobre suas pernas. Sua mente está confusa e provavelmente um pouco congelada, e ele precisa pensar com calma. Há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Frank segura suas mãos para verificar a temperatura. Ainda estão frias.

– Acho melhor você se vestir, e depois acho que devemos ir.

– Está bem.

Gerard se desvencilha de Frank e pega suas roupas, desvirando as mangas da camiseta e da jaqueta antes de vesti-las.

– Frank? – chama Gerard, de repente lembrando-se de algo.

– Sim?

Gerard levanta.

– Posso perguntar uma coisa?

– Sim... – Frank repete, a curiosidade o invadindo.

De costas, Gerard usa a manta de lã como uma capa sobre os ombros para impedir que Frank o veja enquanto tira a roupa íntima molhada e veste as calças.

– Por que você fez aquilo na manhã passada? – Gerard pergunta, pronunciando as palavras rapidamente, antes que tenha tempo de pensar melhor sobre elas e decida não dizê-las.

Ele lança um olhar breve sobre o ombro e vê um lampejo de compreensão atravessar o rosto de Frank juntamente com um sorriso.

– Acho que a pergunta certa deveria ser “por que você estava me espiando pela janela?”.

Gerard, agora devidamente vestido, solta o ar por entre os lábios em um bufar levemente indignado.

– Eu não estava... Eu estava olhando pela janela do meu quarto. Não fazia ideia de que o seu era logo em frente até você aparecer se exibindo.

Gerard senta na areia para colocar os sapatos.

– Todas as casas são iguais, era óbvio que meu quarto seria aquele par de janelas na frente do seu – argumenta Frank.

– Não necessariamente. Não é o único cômodo da casa onde é possível colocar uma cama – insiste Gerard.

– É a única suíte – murmura Frank.

– Enfim – retoma Gerard, enfaticamente. – Você pode achar que a pergunta certa seja essa, mas não foi essa a que eu fiz. Por que você fez aquilo? Com a toalha – ele acrescenta, como se pudesse haver alguma dúvida sobre o que ele está se referindo.

Frank assume um ar provocante, parecido com o que costumava direcionar à Gerard antes de se tornarem mais próximos.

– O quê? Cobrir minhas partes íntimas dos seus olhos vorazes?

Frank claramente está se divertindo com o assunto. Gerard o encara com irritação.

– Não era isso o que você estava fazendo, você sabe muito bem! Você estava brincando com a toalha de banho, fingindo que ia deixar cair. – Gerard veste as meias com certa agressividade.

– Você queria que eu tivesse deixado cair? – Frank sorri com zombaria.

– Não!

– Jura? Você parecia bastante interessado na minha toalha.

– Eu nem olhei para a sua toalha – Gerard grunhe.

– É verdade. Você estava olhando para o meu corpo.

Gerard arqueja, empurrando Frank com força e fazendo-o tombar para trás. Ele gargalha deitado na areia enquanto Gerard termina de vestir os sapatos com movimentos rápidos. Em seguida, ele levanta para dobrar a manta.

– Acho que o que eu mais gosto em você é a facilidade com que você fica irritado – Frank comenda, ainda rindo enquanto volta a se sentar.

Gerard se mantém em silêncio enquanto transforma a manta de lã em um retângulo que caiba dentro da mochila, se sentindo tolo por ter caído na armadilha de Frank, tolo por sua reação explosiva que apenas serviu para alimentar a piada, tolo por toda a confusão em sua mente.

– Vamos embora? – pergunta Frank, erguendo-se do chão e limpando a areia das roupas.

Gerard respira fundo e se vira, entregando a manta dobrada para Frank.

– Tudo bem.

Frank observa Gerard por um instante.

– Desculpe – pede ele.

Gerard o avalia a fim de descobrir se é um pedido sincero ou mais uma de suas gracinhas. Depois de concluir que é sincero, ele assente.

– Obrigado. – Frank então sorri. – Da próxima vez, prometo que não deixo você tão curioso.

Gerard lhe dá um encontrão com o ombro, fazendo Frank cambalear para o lado. Assim que recupera o equilíbrio ele revida, e é em meio aos empurrões e risos, que escapam involuntariamente, que os dois juntam suas coisas e seguem em direção às árvores.

...

A viagem de volta demora um pouco mais do que a ida devido ao maior movimento nas estradas depois que o dia amanhece. Quando os dois chegam em casa, pouco depois das sete da manhã, Gerard sobe direto para o banheiro. O número três rubro no espelho está lá para lembrá-lo de que os dias estão, um por um, ficando para trás, e que logo ele ficará também. Depois de limpá-lo, sentindo-se um pouco agradecido por ele ter voltado a surgir da forma tradicional, já que assim ele não terá de trocar os lençóis todos os dias, Gerard entra no chuveiro e toma um banho quente, finalmente aquecendo-se de maneira satisfatória. Após o banho, veste um pijama confortável e cai na cama, embarcando rapidamente em um sono profundo e sem sonhos.

Já passa das duas da tarde quando ele acorda. Sua vontade de permanecer na cama ainda é grande, mas sua fome é ainda maior. Como para enfatizar que ele precisa levantar seu estômago ronca alto, como se fosse o lar de um bebê dragão. Espreguiçando-se, Gerard desce para a cozinha e analisa seu estoque de comida congelada, escolhendo uma lasanha para o almoço. Ele prepara a refeição e, depois de pronta, desfruta-a na sala, em frente à televisão.

Após o almoço, prepara uma caneca de café e vaga a esmo pela casa, pensando no que fazer a seguir. É incrível como a falta do seu emprego é capaz de tirá-lo dos eixos. Não pelas questões financeiras, já que em breve ele não terá que se preocupar com isso, mas sim devido ao fato de não ter nada para fazer.

A saudade do trabalho o leva para a sala. Parando em frente ao móvel da televisão, ele abre a gaveta onde mantém inúmeros exemplares de jornais e um caderno com recortes de matérias que já escreveu.

No início, quando ver seu nome junto ao título de uma matéria ainda lhe causava certa euforia, Gerard criara o hábito de colecionar estes registros como uma lembrança. Depois, quando o trabalho deixara de ser uma novidade e se tornara cada vez mais denso, acabara deixando este hábito de lado. Apesar disso, sempre manteve seus primeiros trabalhos guardados ali, e fazia muito tempo desde que pegara aqueles jornais pela última vez.

Pela hora seguinte, sentado no chão da sala, Gerard se perde em suas lembranças, recordando como aquilo lhe fizera feliz, identificando as mudanças que seu estilo de escrita e suas reportagens sofreram ao longo dos anos. Ele começa a sentir vontade de escrever alguma coisa e acaba buscando seu notebook.

Instintivamente, entra no seu e-mail de trabalho e começa a ler as propostas de matérias que deixara para trás enquanto se dedicava à sua reportagem perdida. O jornal propusera um caderno especial em comemoração ao seu aniversário de cem anos, com o qual os funcionários deveriam contribuir enviando textos de autoria própria que achassem pertinentes para a edição comemorativa, mas Gerard não dera bola para isso. Expor o submundo do crime e das contravenções lhe parecera muito mais atraente do que palavras bonitas sobre assuntos aleatórios.

Gerard abre um documento em branco no editor de textos no computador e põe as mãos sobre o teclado. Apesar de já ter sido desvinculado da empresa, quem sabe pudessem deixá-lo publicar uma última matéria como forma de despedida?

No entanto, sobre o que escrever? Gerard olha ao redor, para a bagunça de jornais antigos, e pensa na importância que aquelas folhas de papel tiveram em sua vida. Desde criança ele gostava de investigar coisas. Depois da escola, passava um bom tempo no jardim observando as casas dos vizinhos, fazendo anotações sobre suas rotinas como se fossem informações valiosíssimas. A coisa mais relevante que descobrira com isso foi que o Papai Noel não existia. E isso se deu graças ao fato de ter visto alguns dos vizinhos que tinham filhos carregando sacolas de brinquedos para dentro de casa – brinquedos que eram declarados por seus ganhadores como presentes de natal logo que a data passava. E também porque ele vasculhara a casa toda no natal seguinte à chocante revelação e encontrara todos os presentes escondidos no porão, dentro de um baú velho e assustador.

Isso aconteceu há uns vinte e cinco anos. Quantas coisas mudaram nesse período. Assim como muitas coisas estavam mudando em cinco dias, e uma infinitude de outras havia mudado nos últimos cem anos.

Pensando sobre mudanças e recomeços, Gerard começa a escrever seu primeiro rascunho.

...

Já é noite há algum tempo quando Gerard finalmente revisa a última linha de seu texto. Agora, além do computador, da caneca de café e dos jornais, ao seu redor há um prato com migalhas de pão e um pacote de salgadinhos vazio. Ele anexa o documento de texto ao e-mail e o envia para seu antigo trabalho. Em seguida, baixa a tela do notebook e estica o corpo para trás contra o sofá, alongando o corpo e relaxando os músculos.

Apesar de estar cansado após horas na mesma posição, ele sente suas energias renovadas. São dez e meia da noite e ele se permite fechar os olhos por um instante enquanto pensa no que fazer a seguir. É sábado e muitas pessoas estão se divertindo a esse horário. O que ele poderia fazer para se divertir?

Após alguns minutos de reflexão, Gerard descobre o que fazer. Ele leva a louça suja para a cozinha e lava os utensílios antes de guardá-los. Depois, arruma a bagunça que fez na sala. Com a casa novamente em ordem, troca de roupas e sai com seu destino em mente.

Não é surpresa alguma para Frank quando Gerard aparece no bar. Frank o avista poucos segundos depois que ele entra e o cumprimenta com um aceno de cabeça. O estabelecimento está cheio e há apenas um banco vazio junto ao balcão, o qual Gerard imediatamente trata de ocupar. Frank está envolvido em seu trabalho na outra ponta do balcão. Depois de alguns minutos, ele finalmente se aproxima de Gerard.

– Olha só quem está se tornando um frequentador assíduo – diz Frank, com um sorriso simpático. – O que você vai querer hoje?

– Você tem um menu?

– Claro. – Frank pega uma pasta preta e fina sob o balcão e a coloca em frente à Gerard. – Quando decidir, me chama. – Ele dá um tapinha no balcão e se afasta.

Gerard corre os olhos pelo menu, lendo os nomes das bebidas e seus ingredientes. Após alguns minutos ele toma sua decisão e chama Frank, pedindo um Penicillin Cocktail. Ele observa enquanto Frank prepara o drinque e dentro de pouco tempo o copo surge em sua frente.

– Voilà – murmura Frank, fazendo uma reverência.

– Obrigado – Gerard sorri.

Devido ao grande movimento no bar, Frank logo precisa se afastar para atender a outras pessoas. Sendo assim, Gerard permanece sozinho enquanto bebe seu drinque, os olhos acompanhando Frank e observando-o operar sua mágica, seus braços cobertos de tatuagens se movendo com destreza enquanto ele mistura bebidas e ingredientes e serve em copos diversificados de acordo com o tipo de drinque.

Gerard suspira e balança a cabeça para si mesmo. Tantas coisas acontecendo em sua vida, e ele simplesmente conseguiu criar mais um problema para si. Sim. Um grande problema, pois ele não pode mais tentar enganar a si mesmo justificando as batidas aceleradas de seu coração como qualquer outra coisa que não exatamente o que são. Isso, mais o fato de que Frank está sempre surgindo em sua mente, seja sob a forma de alguém a quem pedir socorro, seja enquanto imagina o que ele faria em seu lugar. E Gerard está sempre o procurando também, forçando ocasiões para vê-lo. Indo ao bar para “relaxar”. “Observando as estrelas" na varanda de sua casa, quando era óbvio que acabaria por ver Frank voltar pra casa.

Taquicardia, agitação e nervosismo podem ser sintomas de diversas doenças, mas, no seu caso, significam apenas uma coisa.

Ele está se apaixonando por Frank.

Pelo mesmo Frank que não passava de um desgosto em sua vida há menos de uma semana, e que ainda hoje se sente muito satisfeito em tentar irritá-lo. Como algo tão importante aconteceu tão rápido? Gerard se sente traído por si mesmo. Evitara o assunto até que ele crescera e se expandira ao ponto de não haver mais volta. É tarde demais, não há nada que possa fazer quanto a isso. E há tão pouco tempo restante...

Ele vira o copo bebendo o restante do drinque em goles rápidos e o deixa sobre o balcão, retirando-se para uma mesa livre. Pede uma cerveja e uma travessa de petiscos para um atendente e volta para os seus pensamentos.

Não há muito tempo, mas, ainda assim, há tempo o suficiente se ele quiser correr o risco.

Será que ele quer?

...

O bar começa a esvaziar aos poucos depois da meia noite, até que às 2h não há mais ninguém além dos funcionários. Gerard saíra por volta da meia noite e meia, depois de pagar a conta e deixar gorjetas para Frank e para o outro funcionário que o atendera.

Depois que todos vão embora, Frank ajuda os outros funcionários a organizarem rapidamente o bar. Em um esforço coletivo as cadeiras e bancos são recolocados no lugar, o lixo é recolhido, os copos são lavados e enxugados, o balcão é limpo e eles se despedem, um por um, até que apenas o dono fique para trás para apagar as luzes e fechar o estabelecimento.

Frank sai para o ar fresco da madrugada e olha ao redor do estacionamento quase vazio. Há dois carros, além de sua moto. Um deles é o carro do dono do bar, e o outro... Frank franze o cenho, olhando melhor.

O carro de Gerard?

– Frank... – Ele ouve a voz conhecida e se vira, vendo Gerard na penumbra, apoiado na parede do bar. Ele se afasta da parede e se aproxima devagar.

– Gerard? O que está fazendo aqui?

– Eu estava esperando por você.

Frank ergue as sobrancelhas.

– Me esperando? Para quê?

Gerard diminui a distância entre os dois até parar na frente de Frank.

– Queria falar com você. – Gerard o fita com uma expressão indecifrável.

– Às 2h30 da manhã?

– É importante.

Frank o observa e, discretamente, cheira o ar ao redor de Gerard. Ele não está alcoolizado. Na verdade, parece estar mais consciente do que nunca, os olhos brilhando de um jeito que faz com que alguma coisa dentro de Frank se agite.

– Tudo bem, pode falar – ele murmura.

Por um instante, Gerard não se mexe. Então, reunindo toda sua coragem, ele dá mais um passo, eliminando a distância entre os dois. Ele ergue as mãos, segura o rosto de Frank e aproxima o seu até que seus lábios estejam unidos.


Notas Finais


Então, o que acharam? Sério, ainda não superei 100% a crise com essa história, então tenho muitas inseguranças com relação esse capítulo. Espero que tenham gostado dele e que minhas preocupações sejam só piração da minha cabeça rsrs. Comentem por favor! Hahaha.

Até o próximo que, ESPERO, não demore tanto assim haha. Estou criando uma rotina pra tentar ser mais organizada com a escrita e evitar futuros bloqueios.

Fiquem seguros!


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