História Red - Capítulo 14


Escrita por: ¢

Postado
Categorias Elizabeth Olsen, Harry Styles, One Direction, Zayn Malik
Personagens Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Niall Horan, Personagens Originais, Zayn Malik
Tags Charlie Dawson, Drama, Elizabeth Olsen, Guerra, Harry Styles, One Direction, Starlotus2017, Terrorismo
Visualizações 1.532
Palavras 5.794
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Hello, meus amores!
Por favor, não me matem. Vim trazer a atualização pra vocês e prometo não me demorar muito aqui, nessas notas. Basicamente, quero implorar pelo perdão de vocês pela minha enorme demora em postar. Serião, galera. As coisas fugiram do meu controle ultimamente (todas as coisas, em absolutamente todos os aspectos) e colocar esse trem nos eixos novamente não tem sido fácil. Peço que me perdoem.
Também peço que me perdoem pela demora em responder os comentários de vocês. Terminando de postar aqui, eu já estarei respondendo todos. Muito obrigada por cada um deles e por cada lindo favorito que vocês me deram. Eu sou realmente imensamente grata pelo carinho e pelo apoio.
Sem mais delongas, boa leitura! E, ah! Perdão por qualquer erro de ortografia e/ou pontuação.

Capítulo 14 - Red mauve taupe


Fanfic / Fanfiction Red - Capítulo 14 - Red mauve taupe

Charlie

O dia de segunda é estranho. E isso só para dizer o mínimo.

Para começar, há o clima. O calor de domingo é completamente subtraído. Ainda há um resistente e tímido sol tentando ganhar espaço no céu, mas ele não está se saindo muito bem na batalha. O vento é de frio extremo e cortante;  para conseguir me proteger dele, retiro alguns casacos mais grossos e um cachecol do armário.

Eu me preparo para rever meu irmão. Ele chegaria naquele dia. Becky e Liam o buscariam no aeroporto e nós jantaríamos juntos essa noite. Em um prazo máximo de uma semana, ele já estaria em outro vôo, dessa vez para a Irlanda, onde começaria uma busca intensa por todo o seu histórico familiar.

As coisas se tornaram um pouco estranhas com Diana desde sábado. Por mais que o tempo transcorrido no período fosse curto, não sentia que eu e ela seguíamos a nossa rotina.

Imaginei, inicialmente, que a causa disso pudesse ser a aproximação entre Harry e eu. Mesmo já tendo me dado alguns conselhos e todo o apoio, ele ainda está muito longe de ser a pessoa preferida dela no mundo. Depois, conclui que era um péssimo argumento. Ela estava sendo tão simpática e empática sobre o que parecia ser um relacionamento que eu duvidava ser essa razão.

Mais tarde, cheguei a uma conclusão mais óbvia e eficiente. A viagem de Diana se aproximava mais e mais a cada dia. Minha amiga deveria estar pura ansiedade para que o dia chegasse e ela finalmente embarcasse para Yorkshire. Com certeza estava apenas dedicando seu tempo a organizar tudo que precisasse ser organizado.

Eu sabia que seria um baque para lá de forte. Diana e eu somos colegas de quarto desde que eu entrei para a Sussex. Não duvidaria se ela fosse, verdadeiramente, a minha única amiga em todo o campus. De uma hora para outra, eu precisaria me despedir e aceitá-la morando em outra cidade. Arranjariam outra colega de quarto para mim e isso seria tudo.

Visitas ocasionais em fins de semana, feriados e férias não seria o bastante para manter o contato. Eu já entrava no redemoinho dos últimos períodos, tendo que começar a busca por estágios e concluir o curso. Diana não teria só a faculdade para cursar. Seu trabalho lhe tomaria bastante tempo.

Estou orgulhosa dela. As circunstâncias, seu empenho... Tudo. Sempre foi muito claro o quão importante uma oportunidade dessas seria e eu não poderia conviver comigo se, de alguma forma, obrigasse-a a ficar.

Tento me focar na aula. A matéria, todavia, é muito mais chata do que parece e me concentrar com tantas coisas acontecendo é uma tarefa mais árdua do que se pensa.

A situação fica pior quando Daniel, ainda no começo do processo de cicatrização de seus ferimentos, aparece e me entrega uma lista com o nome de cinco psicólogos. Ele diz que são os melhores dentro dos termos que eu julgo serem corretos.  

Imediatamente me lembro de Harry. Como se tudo já não fosse o suficiente, ainda há sua instabilidade completa e a minha vontade de ajudá-lo. Apenas naquele momento recordo-me de que não telefonara como prometido e somo isso a lista de foras até aquele momento.

Gasto o meu tempo de almoço para telefonar para os médicos naquela lista e ver qual me garantia um atendimento mais rápido. Consigo marcar com a terceira deles para daqui a três semanas.

A verdade é que eu nem sei como Harry reagiria a proposta. Se é que proposta é um termo representativo para a ideia. Eu só quero que ele se trate. Não estou certa de que vê as coisas da maneira como eu vejo, mas posso supor que ele se conhece o suficiente para saber que não está nada bem. Passo o dia criando argumentos que me favoreçam no momento da discussão e reunindo todos os pontos que comprovem a minha razão

Ao fim do dia, estou exausta. Todas as minhas forças haviam sido exauridas até o limite e eu sinto que apenas férias poderiam fazer com que eu me recuperasse. Arrasto-me para fora e depois pelo campus, em direção a meu apartamento.

— Você não me ligou.

Eu nem precisei olhar. A imagem de Harry imediatamente está em minha mente, ocupando grande parte dela. Eu viro o rosto, encontrando-o sentado em um dos bancos com uma touca azul e as mãos encaixadas nos bolsos da blusa de frio. Ele sorri.

— Pode se defender? — continua, erguendo-se e andando até mim.

— O que está fazendo aqui?

— Essa é a sua melhor justificativa? Você não deu qualquer sinal de vida e eu comecei a me preocupar com a ideia de você estar viva. Então, eu vim checar pessoalmente.

Harry tira as mãos dos bolsos e as coloca ao redor de meu rosto. Ele se inclina sobre mim, deixando seus lábios sobre os meus.

Eu me surpreendo. Leva um tempo até que eu consiga esboçar algum reação. O fato é que não esperava ver Harry ali, embora eu já soubesse coisas o suficiente sobre ele para imaginar essa ideia como plausível. Eu muito menos esperava esse tipo de atitude dele. Não sabia se isso combinava com os fatos  que eu já conhecia de sua personalidade.

Todavia, eu momentaneamente solto-me desses questionamentos tolos e coloco minhas mãos ao redor de seus braços.

— Como pode ver, eu estou muito viva. — digo, afastando-me dele o bastante apenas para conversar.

— Eu só queria confirmar.

— Já está feito. — sorrio. — Mas eu estou feliz que tenha vindo. Eu realmente queria falar com você.

— Queria?

— Vem. Vamos atrás de um lugar para conversar.

Balanço a mão, indicando a Harry que me siga. Nós andamos um pouco para fora daquela área, procurando um espaço na grama verde que seja um pouco menos cheio. O grande problema é que as aulas estão sendo encerradas agora e, como qualquer bom aluno, tudo que se deseja é fugir para longe.

Eu me sento e Harry faz o mesmo. Suas mãos voltam aos bolsos do caso e ele mantém as pernas esticadas enquanto eu cruzo as minhas. Tiro a alça da bolsa do meu ombro e a deixo ao meu lado.

— Sobre o que quer conversar? — Harry questiona.

Travo. Emudeço por completo. Quais eram os meus argumentos? Eu os esqueci totalmente. Não sei mais como defender o meu ponto de vista e se antes supunha que ele não seria aceito, agora eu tinha certeza disso. Meu estômago se afunda dentro da cavidade intestinal e o nervosismo se mistura ao meu sangue, percorrendo minhas veias.

— Você se lembra do Daniel? — começo e Harry discorda com um movimento de cabeça. — Você socou a cara dele algumas semanas atrás.

Esse pequeno comentário é o suficiente para mudar o clima entre nós. De repente, há muita tensão envolvida ali e não conheço nenhuma forma de alivia-la. Meu corpo reage, tornando-se igualmente tenso de forma involuntária. É uma ação quase temerosa. A expressão de Harry também se altera. Agora, ele já parece irritado. Sua tranquilidade aparente se evaporou, deixando no lugar inúmeros sinais de esquiva evidente. Franze o cenho e trava os braços na frente do corpo. Seu rosto se vira para o lado oposto ao meu.

Esse é o ponto de sua reação que mais me deixa incomodada. Harry age de modo a não ter que me olhar e isso só torna as coisas difíceis.

Todavia, não posso deixar o assunto morrer. Existe uma razão para eu ter posto esse tópico em jogo e deixar a peteca cair não está nos meus planos. Por hora, não tenho mais os meus argumentos ou muito com o que me defender, mas não acho que esteja errada nessa situação.

— Ele é estudante de medicina aqui. — prossigo, tentando não demonstrar o quanto sua reação me aflige. — Depois do que houve ele te achou louco. Mas... Eu acho que acho tem algo errado com você

— Chocante sua constatação do fato, Dawson.

— Falei com Daniel nas vésperas da sua viagem. Ele estava furioso. Ainda está. Mas eu pedi ajuda e ele me deu uma lista de psicólogos. Eu liguei para cada um deles ten...

Harry imediatamente se levanta, cortando minha frase ao meio. Eu paro, observando as passadas duras que dá enquanto cria uma distância entre nós. Sei que toquei em um ponto muito crítico.

Não consigo compreender, mas Harry sempre demonstrou a vontade de manter seu passado em segredo. Acredito que, para ele, deixar seus atos anteriores enterrados seria o bastante para afastar todos os possíveis fantasmas. Por baixo da máscara constante de calmaria, porém, eu começava a perceber uma realidade dura: todos os demônios ainda estão por perto.

Atormenta-me a ideia de que isso aconteça. A simples teoria de que eu possa ajudar e me recuse a isso porque temo a reação de Harry me faz sentir ainda pior, quase constrangida. Não posso fazer isso e seguir com a consciência limpa

Talvez Harry me ache uma intrometida. Eu nem duvidaria dessa hipótese. Talvez eu até seja uma. Não sei se o nosso relacionamento me dá o direito para falar as coisas que estou falando. Eu vejo as coisas. Eu vejo Harry e é muito fácil perceber que ele está cheio de cacos. Não posso ficar parada e ignorar esse problema até que completassemos um ano juntos.

Eu me levanto também.

— Você procurou um médico para mim?  — Harry pergunta, irado.

— Não se vê no espelho? Você não está bem! O que aconteceu aquele dia foi a comprovação. Quando tempo até que perca todo o controle?

— Eu não estou nem um pouco perto de perder o meu controle.

— Ah! Sério? Eu discordo. Acho que você está quase lá. Em qualquer momento, vai explodir. Bum! Quantas pessoas além de você vão ficar feridas no meio do caminho?

— Já estive em psicólogos antes. Uma dezena ao menos desde que voltei. Minha irmã me arrastou para todos os consultórios e grupos de apoio que pudesse conhecer. E nenhum deles me ajudou em absolutamente nada.

— Se já sabe que não vai fazer nenhuma diferença, porque não se consulta e comprova que eu estou errada? Eu consegui uma data para daqui a duas terças e você pod...

— Então você realmente marcou um médico?

Ele quase berra isso. E o faz como se eu acabasse de cometer um dos piores pecados. Arregalo os olhos, surpresa com a reação para lá de exagerada. Ele deveria ver que me importo e que é a unica razão para fazer isso.

As pessoas lançam olhares rápidos em nossa direção. Os grupinhos mudam a entoação da conversa enquanto tentam, disfarçadamente, descobrir o que se passa aqui. É tão desagradável que juro a mim mesma jamais tomar atitude semelhante.

Não sei se Harry está negando os problemas que obviamente tem ou apenas sendo teimoso. Talvez seja orgulho e, por isso, sua decisão de não se mover nesse aspecto se mantenha. Ele está furioso agora e está me deixando irada.

Acredito que ele realmente não vê que estou preocupada com sua situação. Não sei porquê, mas ignora completamente o meu lado dessa situação. E precisa desse tipo de ajuda porque suas feridas não vão se curar sozinhas nunca. Mas ele é como um animal acuado depois de uma surra: acha que lamber os machucados é p suficiente para fazê-los cicatrizar e que não pode confiar em ninguém além de si mesmo.

Sei que posso apenas voltar atrás e deixar tudo isso no passado. Eu peço desculpas, chegamos a conclusão de que tudo pode ficar bem e seguimos em frente — fingindo que Harry está realmente em seus melhores dias. É fácil. Até demais. Só não é o certo.

— Sim, eu marquei. — esbravejo. — Eu marquei a droga de uma psicóloga para você. Em duas semanas.

— É melhor ligar desmarcando. Eu não vou fazer essa merda

Bufo.

— Como não pode ver o que eu vejo, Harry? Você está se matando por dentro! Lentamente, como uma tortura. Eu o conheço a pouco tempo e já percebi isso. Você se conhece desde sempre. Como pode não ter percebido isso?

Minha fala o paralisa. Dura pouco tempo, mas o suficiente para que eu perceba que Harry sabe que estou certa. Ele me encara, menos furiosos que antes, com a boca entreaberta, como se pronto para dizer algo, mas se mantém calado. Sua expressão suaviza e eu quase posso supor que consegui alguma vantagem e que conseguirei ganhar essa guerra.

Todavia, foram apenas segundos. E logo depois, a coisa voltou a ser tão catastrófica quanto era antes. Como se dessem play no filme, a expressão de irritação voltou a dominar Harry, fazendo o cenho franzir e a boca tensionar.

— Eu estou nos meus melhores dias, Dawson. Talvez você não me conheça o suficiente.

Ele dá de ombros como se não fosse nada. Está tentando me desarmar, jogando pesado para cima de mim. Harry sabe que eu me incomodaria com essas palavras, mesmo que elas não sejam uma mentira completa. Como uma cutucada, não chega a doer. Porém, fico incomodada o suficiente para dar um passo para trás, hesitando.

— Por favor, Harry. Só uma consulta. — peço. Quase imploro.

— Não.

Endureço.

— Se você não for nessa droga de médico, não precisa voltar a me procurar.

Ele não diz nada. Fica me encarando, como se esperasse que eu mudasse a minha frase para outra e corrigisse aquele pequeno erro. Mas não tem erro. Não há o que corrigir. Eu não tenho qualquer argumento mais para comprovar minha razão. Meus meios de fazer isso se extinguiram e se tenho que partir para a chantagem emocional, tudo bem. Eu posso fazer.

Harry solta uma gargalhada que mistura nervosismo e desconcertamente. Ele ainda está absorvendo o choqur de minhas últimas palavras. Cruzo os braços sobre o peito, tentando demonstrar que não haverá qualquer mudança.

— Ótimo! — Harry grita, marchando para longe. — Puta merda, que maravilha! Foi ótimo te conhecer, Dawson.

Eu fico sem fôlego quando ele se afasta tão irado que temo pelas pessoas no meio do caminho. Observo seus passos. Sua silhueta diminuí de tamanho até que ele se torna apenas mais um da multidão e eu não posso localizá-lo.

Por um segundo, eu espero. Estou crente de que sou importante o suficiente para Harry mudar de ideia ou apenas reavaliar a situação com mais calma. Os minutos se estendem e ele não volta. Todavia, minha expectativa não é destruída. Talvez ele precise de tempo. Tempo sozinho para pensar sobre o que eu disso. E ainda vai estar tudo bem caso não seja por minha causa. Só quero que ele fique bem.

Inclino-me em direção ao chão. Puxo a bolsa pela alça e a penduro em meu ombro. Mais uma vez, eu encaro o caminho que Harry trilhou para longe apenas para me certificar de que nada mudou. Quando não vejo nada além de estudantes atravessando o espaço, eu me ponho q andar até o alojamento.

Estou tão exausta que quase penso em cancelar o jantar com Becky. Um segundo depois desse pensamento entrar em minha mente, eu o excluo. Lembro-me que são vários meses desde um último contato com meu irmão e que sinto falta de vê-lo.

O caminho até Norwich nunca me pareceu tão longo. Eu não sei se é o vento frio endurecendo minhas articulações ou apenas todo o cansado do dia me deixando abatida. Só sei que a distância parecia quatro vezes maior do que de costume.

Em casa, eu jogp a minha bolsa sobre o sofá. Diana conversa ao telefone. Aparenta muito mais tranquilidade do que ontem ou está manhã e isso me deixa um pouco mais leve. Vou direto para meu quarto e me arrumo, tomando banho e vestindo roupas novas e melhores. Tenbo o cuidado de passar alguma maquiagem para disfarçar as orelhas.

Quando saía, Diana me chama:

— Charlie.

Eu paro com a porta entreaberta e minha mão na maçaneta. A bolsa escorrega por meu ombro e eu movimento o braço, tentando fazer a alça retornar ao seu lugar.

— Sim?

— Eu vou comprar a passagem para Yorkshire amanhã. Em Londres. — ela sorri. — Quer me acompanhar?

É inevitável que qualquer empolgação que eu possa ter murche um pouco com essas palavras. Diana só me faz esse convite porque sabe que Harry mora lá e provavelmente já criou um cenário para que eu pudesse encontrá-lo. Nunca esperei que chegássemos a esse ponto, porque minha amiga sempre demonstrou sentimentos negativos com relação à Harry.

Tento disfarçar. Não é sensato ir a Londres com esse tipo de expectativa. A probabilidade de ela desmoronar ao primeiro toque é demasiada grande e a queda pode acabar deixando feridos pelo caminho.

— Isso é ótimo! Eu estou feliz por você. Já contou ao Jay?

— Não ainda. Eu vou contar quando voltar. É o melhor. Devo te chamar cedo amanhã?

— Acho melhor não. Eu estou com mais coisas para fazer do que gostaria essa semana.

— Ah!

— Mas me diga a data da viagem porque eu vou com você até a estação no dia.

Eu sorrio para Diana antes de sair. Meu farol para problemas deve estar quebrado desde que Harry viajara, porque agora ele indica um tempestade cheia de catástrofes chegando. Mais uma sensação esmagadora com a qual preciso lidar apenas para descobrir que não é nada.

Pego um ônibus para a casa de Becky. É meu irmão quem abriu a porta e eu não lhe dou chance de falar nada. Apenas jogo meus braços ao redor de seu pescoço, abraçando-o. Quando sinto meus olhos cheios de lágrimas, percebo que a saudade é muito maior do que eu pensava.

— É ótimo te ver, Charlie. — ele fala.

— Eu tenho que te dizer o mesmo. Não tem nem ideia do quanto é bom te ver.

Desenlço-me dele.

— Vamos entrar. — diz, puxando-me para dentro.

Penduro o casaco e o cachecol no cabide. Deixo minha bolsa junto. Becky e Liam se levantam para me cumprimentar. Eles haviam acendido a lareira e abriaram um vinho.

Por muito tempo, ficamos apenas sentados na sala. Niall nos dá cada mínimo detalhe de como as coisas estavam em Montana. Contou tudo que podia, desde o novo hobbie de vovó até a vontade repentina de Maya em ter mais um filho.

É difícil pensar que eu estou longe, principalmente por tanto tempo. Quando escuto as histórias sobre casa, eu ainda me imagino sentada na varanda, vendo as estrelas e pensando sobre as minhas escolhas. Ainda posso sentir o cheiro de terra nova e bem cuidada e ouvir alguma vaca pastando.

Porém, duvido que sou capaz de me sentir inclusa naquela cidade minúscula. Já não s a mesma pessoa que saira de lá;  absolutamente tudo em mim havia sido tocado e modificado de alguma forma, criando algo completamente novo e diferente da matéria prima. Eu já tinha visto tanta coisa e vivido tanta coisa que pensar em lidar com as mesas mentes fechadas me deixa irritada. Já estou ciente de que eles não me compreenderia mais naquela cidade. Por mais que seja o meu lar, não sinto como se ainda pertencesse aquele lugar.

Quando Niall conta suas histórias, ele parece se divertir com o que narra. Sua risa interrompe os contos e é um som tão contagiante que eu também começo a rir. Mas é o único motivo que me provoca gargalhadas. Escutando o que meu irmão tem para contar, sinto que a cidade entrou em um lapso temporal onde, apesar de fisicamente diferentes, ninguém realmente mudou. Fazem as mesmas coisas de quando eu ainda morava lá.

O jantar de Becky está realmente muito bom. Ela se supera dessa vez. Liam contou que ela tinha gastado muitas horas preparando aquilo. Niall até brincou com o cheiro de queimado que subia em alguns momentos. Mas está valendo muito a pena. O ensopado que ela fizera tinha um gosto muito parecido com o que minha avó fazia.

Liam e Becky lavam a louça.  A forma como o fazem é divertida. Estão se esbarrando e jogando água um no outro. Confessam coisas em um tom que só eles percebem e mantêm seus segredos bem guardados. A risada estridente de minha prima corta o ambiente a todo minuto.

Fico os observando. A forma como agem é tão intensa e conexa que fica difícil desviar os olhos. Becky e Liam funcionam bem. Essa é a verdade inegável sobre eles. Desde que os conheço sei que completam com exímia perfeição. São como yin-yang. É quase de causar inveja o modo como um faz bem ao outro.

Encho mais uma taça com vinho para mim e beberico um gole. Niall desdobra sobre a mesa um mapa cheio de riscos e detalhes. Os post its  variavam de cor e, tendo em mente o quado organizado meu irmão consegue ser, suponho que demarquem categorias ou níveis, separando as informações.

— Isso costumava ficar na parede do meu quarto, mas não podia deixar para trás ou estaria completamente perdido. — Niall explica. — Vou começar aqui, em Dublin. — aponta o local no mapa. — Eu contatei uma mulher do serviço social e ela me indicou um bom detetive particular.

— Que vai custar os olhos da cara! — Becky grita.

— É, mas eu sou um cara bem sucedido. Posso pagar por algum tempo. Talvez tempo o suficiente. — Niall volta a me olhar. — O serviço social não tinha muito como ajudar. Minha mãe havia entrado ilegalmente, então não havia muito para se saber mesmo. Todos os documentos eram falsos. Mas foram falsificado na Irlanda. Eu pedi que um amigo meu investigasse isso para mim.

— Ele conseguiu algo?

— Bom, a falsificação não foi ruim. É bem ao contrário disso. Mas ele me disse que alguns falsificadores deixam marcas nos trabalhos que fazem, mesmo que façam isso sem querer. Ele cruzou vários dados e me deu uma lista de possíveis falsificadores. Eu enviei para o meu contato em Dublin.

— Como os nossos pais ficaram quando disse que queria isso?

Sempre me foi chocante como eles aceitavam a ideia que poderíamos querer manter algum tipo de relacionamento com nossa família biológica. Sempre deixaram muito claro, mesmo nunca precisando comprovar isso. Eu só tentava entender como poderiam querer algo assim.

Acho que estavam tentando evitar os conflitos. Independente de quem são nossos progenitores, ignorar o fato que o passado interfere no futuro e presente é tolice. Queriam que fossemos quem quiséssemos e aceitassemos quem poderíamos ser.

— Eles me perguntaram se não queria companhia. — Niall ri. — Para eles, isso é muito importante. Eles sabem que é um pedaço da minha história e que não posso só fingir que esse trecho do livro não existe.

— É um bom começo. Vai conseguir as respostas que procura.

Esvazio a taça e ocupo um lugar na pia para lavá-lo.

— Não quer as suas? — Niall questiona, guardando suas coisas.

— Eu já tive as minhas. Foram mais que o suficientes.

— Vai dormir aqui, Char? — Becky pergunta ao guardar os potes com restos de comida na geladeira.

— Não. Eu não posso. Tenho uma manhã lotada amanhã.

— E o cara do último encontro? Andaram se vendo?

Becky não é sempre discreta. Às vezes, ela é espontânea demais e apenas libera as palavras sem refletir sobre seu significado ou o poder de ação. Talvez ela só estivesse curiosa nesse momento. Não lhe disse nada mais sobre Harry e, se a situação fosse ao contrário, eu também estaria me mordendo apenas para saber o fim da história.

Niall me encara. Ele está de testa franzida e olhar crítico. Durante minha adolescência, apresentar meus namorados para ele era igualmente importante a apresentar para os meus pais. Ocupando o cargo de irmão mais velho e sendo homem, ele se julgava suficientemente capacitado para avaliar os pretendentes

É um preocupação fraternal. Eu sei. Sinto o mesmo por ele, embora não me sinto incomodada quando ele anuncia estar saindo com uma garota. Na maior parte do tempo, relevo aquilo porque Niall cresceu cuidando de mim e eu sempre seria sua irmã mais nova.

— Que cara do último encontro? — repete com um tom extremamente crítico

— Não é ninguém demais.

— Você e ele não saíram mais vezes? — Becky prossegue, curiosa

— Saímos. Mas talvez não tivesse que ser

— Uou! Calminha aí, Charlie. — Niall agita as mãos. — De onde esse cara é? Ele te trata bem? Não posso deixar que aceite menos do que merece.

Dou de ombros. Esforço-me para não demonstrar que estou chateada. Qual a validade de todos esses questionamentos depois do que houve essa tarde? Horas se passaram e Harry não deu qualquer sinal de vida. Talvez ele falasse sério naquele momento e eu deveria ter prestado mais atenção aos sinais.

— Não importa. — digo. — Agora isso não faz mais diferença. Acredito que tudo entre nós tenha se acabado essa tarde.

Niall não diz nada. Ele balança a cabeça, compadecido pela situação, e volta o olhar para o enorme mapa. Começa a dobrá-lo, respeitando cada uma das marcas já feitas até aquele momento.

Becky estala a língua.

— É uma pena. Ele até era bonito. — comenta.

— Era, mas...

Não termino a frase. No lugar disso, eu apenas suspiro.

Estou frustrada. Desapontada. Criei e nutri a expectativa de que seria o suficiente para convencer Harry a começar o tratamento. Mas não consegui. E no fim nem era essa a parte mais incomoda da situação. O mais ruim foi pensar passos a frente da realidade atual, colocando-me em um pódio ao qual não pertencia.

É um tanto quanto triste se eu pensasse bem. Parece com uma cena de filme. Todavia, o final aqui não poderia ser dado por um roteiro e nem o que eu desejaria. Às vezes, a vida te dá coisas que não aquilo que deseja. E, às vezes, você não pode fazer muito mais para mudar isso.

— A vida continua. — falo, por fim. — Existem outros caras pelo mundo, não é?

Existem. Centenas de milhares. Altos, baixos, gordos, magros, morenos, loiros. Uma infinidade de combinações possíveis. Uma infinidade de jeitos e possibilidades. Mas, naquele momento, eu não saberia se aceitaria qualquer um deles porque minha mente seguia com a mesma imagem de olhos verdes, cabelo castanho e mania de praguejar.

Niall pega o carro de Liam emprestado e me leva de volta para a faculdade. Nem poderia descrever o quão aliviada fiquei por aquele pequeno gesto. Estou tão exausta ao chegar em casa que apenas troco a roupa, escovo os dentes e ativl o despertador.

Meu telefone toca muito cedo no dia seguinte. Não estou apta a acordar em um horário como aquele, especialmente quando a noite foi curta demais para que eu pudesse descansar de fato.

Eu me jogo para fora da cama e resmungo enquanto caminho para o banheiro. Timk um banho gelado. A temperatura baixa da água me desperta de modo muito mais eficiente que o som do telefone.

Visto-me. Diana só se levanta depois que eu termino de passar o café. Ela anda pela casa, criando uma trilha de barulho ininterrupto. Está cada dia mais empolgada e conter isso se torna, congruentemente, mais complicado. Arranjo uma garrafa térmica no armário e a limpo. Ciente da minha sonolência extrema e de que será difícil me manter acordada nessas circunstâncias, eu coloco pouco mais de meio litro de café ali. Despeço-me de Dianae saio.

É estranho. Ainda está muito cedo para afirmar, mas eu divido que a temperatura aumente em um grau que seja. A neblina delgada que embaça a paisagem leva-me a supor que o frio perdurará por mais alguns dias.

Ando por um campo ainda sem despertar. Um indício de movimento começa a ganhar força enquanto poucos guardas cochicham no hall de prédios. Fora isso, alguns professores ou alunos apressados marcam vaga no estacionamento. Mais nada. Silêncio e calma. De um jeito muito mais pacífico do que durante as noites ou madrugadas. Quase como uma sensação boa.

Na quinta, eu saio mais cedo da faculdade. Encontro Becky e Niall em um supermercado.

Meu irmão tem uma lista de coisas para comprar antes de seguir com a viagem. Minha prima tem uma série de itens para repor na sua casa. Eles uniram o útil ao agradável e eu me meti no meio da situação, só buscando um escape. Decido que ir com eles seria a escolha mais apropriada para dar um descanso a minha mente.

Niall segue com sua lista e Becky com a dela. Eles pegam o necessário e riscam o papel, revezando a única caneta entre si. Eu empurro o carrinho e me distraio com a chuva ou com algum rótulo mais colorido.

Quando estamos no corredor das massas, a coisa mais estranha acontece. Becky e Niall jogam conversa fora enquanto comparam diferentes marcas de macarrão, tentando descobrir qual é mais saboroso. Eu passo um tempo os observando, mas depois me distraio com o formato da massa no corredor a minha esquerda. Então, surgindo quase que do nada, Harry simplesmente aparece na minha frente.

O cabelo está molhado, escorregando pela lateral do rosto. O casaco preto é impermeável, obrigando as gotículas de água a escorrerem pelo tecido em direção ao chão. A expressão em sua face é tão determinada que chega ao ponto de assustar.

Por um tempo, nenhum de nós dois pronunciou uma palavra que fosse. Da minha parte, estou apenas em choque, completamente surpresa por ver Harry ali. É muito claro que não chegou aqui por pura coincidência.

Não sei o que o mantém em silêncio. Harry apenas me encara e eu retribuo,

— Como você me achou? — questiono, de imediato.

— Eu liguei no seu alojamento e sua amiga disse que tinha vindo ao supermercado. Posso falar com você? — Harry pede.

Eu olho para o lado, percebendo que Becky e Niall encaram a nós dois. Pigarreio. Isso não será um show.

— Temos que comprar manteiga. — Becky fala, compreendendo do que se trata.

Ela segura o braço de meu irmão. Arrasta-o para longe, enquanto Niall reluta e reclama, dizendo que deveria ficar ali.

Volto meu olhar para Harry.

— Agora você pode.

E ele me encara. De repente, não parece mais tão determinado assim. Sua expressão passa a me indicar que ele não sabe mais o que deve fazer. Suas mãos se movem, como quando se está nervoso e é preciso aliviar que tende a acumular. Seus lábios, porém, não se movem.

Começo a me questionar se aquilo não e uma espécie de retaliação esquisita pelo que ocorrera na segunda. É uma hipótese insana, mas, de repente, paro de pensar que ele veio aqui porque se importa. Talvez só queira deixar bem claro para mim o quão estúpida essa ideia.

Então o silêncio se torna incômodo. Não é só o desconforto típico entre duas pessoas.  Há também o temor pelo que ele veio falar.  

— Tudo bem. Isso não é fácil como eu pensei que seria. — Harry finalmente se pronuncia. — Certo, Dawson. Eu tinha escrito um bilhete. Você leria e isso seria muito mais fácil. Mas eu não estava preparado para essa chuva e acabei completamente molhado. O papel também.

Enfatizando suas palavras, Harry leva a mão ao bolso traseiro do jeans e puxa de lá o que originalmente era um pedaço de papel. Agora, não passa de uma pasta mole e manchada por tinta esferográfica escorrida.

— Tente falar.

— É. Boa ideia. Eu posso falar. — ergo uma sobrancelha, sentindo cada vez mais minha paciência se esgotar. — O meu discurso estava na merda do papel. Porra. Só me perdoe. Faz muito tempo desde que estive em um relacionamento com alguém, Dawson. É como se eu fosse novo nisso.

Passo de irritabilidade e impaciência a choque. Parte de mim supõe que não escutei Harry corretamente. De fato, ele está aqui, parado em minha frente, mas deve ter me dito algo mais provável de sair da boca dele. Todavia, as palavras ecoam com tanta força que é difícil achar que não foram ditas de fato.

Balanço a cabeça. Estou ainda absorvendo a surpresa. Não tive qualquer artifício que fosse capaz de amortecer o impacto duro. Tenho que lidar com ele sozinha, e torcer para que tudo não tenha sido uma ilusão.

— Hum... Isso significa que vai se consultar? — inquiro.

— Significa que... É, eu vou me consultar.

De forma espontânea, um sorriso surge em meu rosto. Não é porque ganhei essa batalha, embora esse também seja um fator decisivo para a minha teimosia e ego.

Ouvir Harry dizer essas palavras é o mesmo que ouvir que ele aceita a ajuda que precisa. Um pontapé inicial que deve, ao menos, solucionar parte dos problemas dele e fazê-lo se sentir um pouco melhor. Nem sei o que o levou a revogar sua primeira decisão, mas acabo decidindo que isso não importa de fato. O que realmente importa é o que ele está fazendo agora.

— Você não cancelou a consulta, cancelou? — Harry me puxa de volta à Terra..

— Não. Eu tenho o endereço e horário. Só um segundo.

Peço que Harry segure meu celular enquanto abro a bolsa e começo a revirar o conteúdo. Ele desbloqueia a tela do aparelho e me mostra a foto de minha família em um parque durante o natal, questionando-me se aquele lugar é minha cidade. Eu respondo que sim e prossigo tateando às cegas até encontrar um papel amassado.

Puxo para fora. Está marcado com força em alguns pontos e eu desdobro, verificando se é realmente o que eu queria. Quando confirmo, passo o retângulo fino para Harry e pego meu celular de volta.

— Precisa ligar e confirmar o dia. Eu marquei para a data mais próxima disponível. — murmuro. — É em Brighton, mas podemos buscar um em Londres. Seria mais fácil para você, não?

— Brighton está bom.

Harry coloca o papel no bolso em gesto automaticamente. A possibilidade de esse também se molhar e se desfazer de todas as informações percorre a minha mente. Aponto para ele tentando lhe dizer que deveria tomar cuidado, porque não estou certa de que tenho uma cópia dessas informações. Todavia, Harry não me dá tempo para isso; ele segura o metal da ponta do carrinho e obriga o objeto a virar de lado e o empurra para longe. Criai um bloqueio no corredor, mas deixa livre o espaço entre nós dois. Sua mão pega a minha e ele me puxa para perto.

Harry ainda cheira a sabonete e cigarros. Agora, há um toque extra de chuva e terra molhada. Mas a fragrância que eu estou aprendendo a reconhecer com uma facilidade absurda permanece ali, emaranhada em sua pele e marcando seu corpo. Estou chegando ao ponto de gostar do cheiro.

O contato entre nós imediatamente molha minhas roupas. Imagino se não deveria me afastar e permanecer seca. Um segundo depois, percebo que era uma das coisas mais idiotas para pensar.

No final das contas, acho que Harry sentiu minha falta. Essa é a justificativa mais plausível para ter vindo aqui e aceitado minha proposta inicial. Em contrapartida, eu também não gostei de passar tanto tempo longe e com uma possibilidade pequena de reencontro

— Obrigada. — sussurro. Ergo a cabeça para encará-lo. — De verdade. Não sabe o quanto isso vai me ajudar a dormir.

— Estou aqui apenas para servir, madame. Só para servir.


Notas Finais


Muito obrigada por terem chegado até aqui e, novamente, peço imensas e sinceras desculpas por minha absurda demora em atualizar. Espero, sinceramente, que tenham gostado de como ficou e mal posso esperar pra trazer outro capítulo pra vocês (em algumas semanas, espero). Como sempre, sintam-se à vontade para me chamarem pra gente bater um papo por qualquer rede social. Vai ser bom pra caramba falar com vocês.
Até loguinho!
xoxo


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