História Red - Capítulo 19


Escrita por: ¢

Postado
Categorias Elizabeth Olsen, Harry Styles, One Direction, Zayn Malik
Personagens Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Niall Horan, Personagens Originais, Zayn Malik
Tags Charlie Dawson, Drama, Elizabeth Olsen, Guerra, Harry Styles, One Direction, Starlotus2017, Terrorismo
Visualizações 1.034
Palavras 5.677
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oi, gente linda! O tempo voa, né? E como voa. Mais de dois meses sem dar as caras por aqui é no mínimo muita falta de vergonha. Milhões de desculpas pela minha completa falta de atenção. Sério mesmo. Foi completa falta de atenção e outras coisitas mais. Me perdoem.
Mas, em contrapartida, posso dizer que adorei (e talvez eu seja louca) todas as cobranças e tudo mais. Cobranças é um pouco pesado. Gostei que tenham vindo falar comigo, perguntar da história e tudo mais. As MPs, menções e algumas mensagens no WPP. Eu realmente adorei isso e queria agradecer por se importarem tanto com a história.
Também quero agradecer por cada comentário e favorito. Eu chorei (chorei mesmo) quando abri a história outro dia e vi os números. Eu fiquei “PQP, Jesus Maria José!” e quis gritar por perceber o quanto a história cresceu. Só posso agradecer vocês por dedicarem a atenção e tudo mais. E, com relação aos comentários, vou responder todos logo, prometo. Já peço desculpas por ser tão relapsa e demorar tanto.
Um muito obrigada e um super abraço pro meu filhote, Cezinha, que está literalmente possibilitando que esse capítulo vá ao ar essa noite. Muito obrigada por postar, filhote!
Ah! Antes que eu me esqueça, vou deixar o link da minha última one nas notas finais. Espero que deem uma chance pra ela também haha
Sem mais delongas, aproveitem o capítulo e nos vemos lá embaixo.

Capítulo 19 - Red Jam


Fanfic / Fanfiction Red - Capítulo 19 - Red Jam

Charlie

Daniel me ajuda a colocar Harry no banco do passageiro. Deixo a luz do Toyota acesa e os faróis bem ligados enquanto coloco o cinto. Harry não me dá problemas. Ele não reclama, não reluta e nem nada do tipo. Eu fico grata por isso. Não sei se Daniel e eu seríamos o bastante para nocautear Harry.

Fecho a porta do passageiro e me certifico de que a chave do Yaris está segura em meu bolso. Viro sobre os calcanhares e encontro Daniel pouco abaixo de mim, encostado no carro e iluminado a apenas pelos faróis de nossos dois veículos. Meu rosto de repente mergulha em fogo. Sinto as bochechas, testa, queixo e nariz queimarem. Estou envergonhada. Verdadeiramente envergonhada.

Não deveria ter feito Daniel ser parte dessa confusão. Não Daniel, que tem um péssimo histórico com Harry e não gosta dele por suas próprias ótimas razões. Não Daniel, que acredita que eu comprei passagem para o pior e mais furado barco de todo o porto. Qualquer um, mas não Daniel.

Só percebi o tamanho da minha loucura depois de fazê-la. Liam tem um carro. Ele poderia me ajudar. Meu irmão, hospedado na casa dele, poderia me ajudar. E nem um deles odeia Harry ao ponto de querer que ele suma da minha vida. Daniel, sim. E,  com certeza, odeia muito mais depois de tudo que aconteceu essa noite. O modo como ele me olha, uma mistura bem desagradável de pena, tristeza e raiva, e a prova mais definitiva disso.

— Obrigada — sussurro. Vou ao seu encontro, encaixando as mãos nos bolsos traseiros e tentando disfarçar minha vergonha. — Muito obrigada mesmo, Danny. Você não tem noção do que fez por mim e eu nunca vou conseguir agradecer o bastante.

Daniel move a cabeça e continuo em silêncio. Mesmo na penumbra, vejo a sua expressão irritada: testa encrespada e lábios franzidos. Dou-lhe um desconto. Tudo bem ficar bravo. Acho que é justo. Mas o grilo e os dedos de Harry batucando na janela do carro são a única coisa que escuto e logo estou incomodada.

— Desculpe por ter te trazido para isso. Foi desespero. Deveria ter sido um pouco mais racional... — balanço a cabeça e esfrego os lábios. — Eu não sei. Só sei que não foi nada bom para você. Desculpe.

— Para. Precisa parar de pedir desculpas, Charlie. Nada nessa noite foi bom. Para nenhum de nós. Não precisa se desculpar por algo que não foi culpa sua.

— Não é por isso. Não é por... É porque isso não é sua responsabilidade. Nunca foi e eu nunca poderia imaginar que viria a ser. Seu problema com Harry deveria ser o bastante para que eu entendesse que separado é a melhor ideia. Não junto, como forcei hoje.

Daniel vira o rosto para mim. Seus braços estão tensionados; marcando os músculos.

— Lembra quando fiquei com Diana pela primeira vez? — movo a cabeça afirmativamente. — Você tinha chegado há pouco tempo e com certeza não gostava de mim. Só que isso não importa. Não foi importante naquela época e não é agora. Você não era uma grande fã minha e nem da maioria dos outros caras. Mas teve uma coisa. Uma coisa que você disse uma coisa que eu nunca consegui esquecer.

— O quê?

— Eu sei como me manter segura.

Eu caio. Sinto quase como se literalmente beijasse o chão. Já sei para onde vamos. Sei exatamente o ponto dessa conversa. E não quero chegar lá. Não quero ter de ouvir um sermão e ganhar mais pontos para poder questionar tudo que tinha em mente até pouco tempo. Agradeço muito à Daniel, mas, sendo muito mesquinha, não quero ouvir isso.

— Por favor, não começa com isso. — peço em um sussurro tão baixo que quase não escuto.

Daniel continua falando como se eu não tivesse dito nada. Talvez ele realmente não tenha sido ouvida.

— Quando você pegou aquela arma e descarregou, eu pensei "nossa! Ela sabe realmente se cuidar". Então você me disse para sair e eu tive um tempo sozinho. Um vácuo de tempo e silêncio em que só fiquei pensando. Você descarregou a arma. E daí? Que merda isso significa? Que você consegue achar um pente em um revólver? Por que isso significa que você sabe se cuidar?

— Porque eu posso.

Dessa vez, estou certa de que Daniel me ignora:

— Você se livra do perigo de uma arma em uma noite e em todas as outras você apenas aceita que a sua cabeça seja o alvo. Isso é trágico. Tão trágico que chega a ser cômico. Mas é o tipo ruim de piada e a gente logo vê que o que faz rir é a única coisa que também faz chorar. Você não é minha responsabilidade, Charlie. E eu não sou o tipo de cara que fica se metendo na vida dos outros só porque tem uma opinião. Mas pensa bem no que está fazendo. Não quero pensar que, numa próxima vez, você não consiga pegar a arma antes de ela atingir alguém.

Fecho os olhos e suspiro. Deixo que as palavras de Daniel flutuem por minha cabeça, transitem entre os meus neurônios, sem rumo algum e depois se guardem em algum canto. Mais tarde, talvez eu pense nelas. Mais tarde, talvez eu entenda o que Daniel está falando. Mais tarde, talvez eu até concorde. Mas mais tarde. E só talvez.

Quando abro os olhos, Danny ainda está ali. Os braços ainda estão cruzados sobre o peito e, pela mudança em sua expressão, acho que finalmente entende que não vou lhe dar ouvidos essa noite. Não agora. Talvez,  nem nunca. Eu só quero resolver a parte mais urgente e depois lidar com os cortes menos graves. Daniel é, quer queira ele, que queira eu, ou não, um dos cortes menos graves.

— Vou voltar para o alojamento. — avisa-me Daniel, movendo-se. — Aproveitar esse resto de madrugada e dormir.

Ele se afasta do carro e abre a porta do motorista, inclinando-se para dentro.

— Espera! — peço-lhe.

Acho que Daniel tem algum tipo de esperança. Quase sei o que ele pensa: vou passar a responsabilidade de Harry para outra pessoa e entrar naquele carro com ele. Ficar segura. Sim. Segura. É isso que ele espera. Quando vejo um brilho de expectativa atravessar seu olhar.

— Muito obrigada. De verdade.

— Não precisa agradecer por isso. Só se cuida.

— Daniel.

— O que é?

— A arma. Você me dá a arma. Você não a leva.

É quase perigoso o modo como o corpo de Daniel para a meio passo de estar dentro de seu carro. E fica parado daquela maneira por algum tempo, dando sinais da surpresa no qual foi pego. Só que não entendo. Simplesmente não consigo entender, nem supor, o que corria na mente de Daniel para ter essa reação.

Aperto o meu corpo com os braços. A madrugada é fria e a umidade em meu corpo não ajuda em nada. Espero até que Daniel finalmente se mova, girando para me olhar.

— A arma. Claro.

Eu me surpreendo quando Daniel puxa o revólver de dentro da calça e o entrega para mim. Está leve como se estivesse descarregado. Penso em pedir pelo pente de balas, porém logo percebo que isso não é tão importante. O mais necessário está bem nas minhas mãos.

E ainda não entendo o que Daniel estava planejando.

— Muito obrigada. — repito, sem conhecer qualquer outra palavra que possa se encaixar melhor.

Um mero aceno de cabeça encerra a conversa. Daniel finalmente entra no carro e some na rua apagada. Eu olho para minhas mãos;  meus dedos tremem enquanto se esticam para manter o revólver parado sobre eles. Mesmo sem a carga, é pesado. Tudo bem. É absurdamente pesado.

Passo um tempo tentando decidir o que fazer.  Um pedaço de mim fica tentando a deixar aquela coisa ali. Ir para a casa da praia e apagar o máximo de detalhes dessa noite. Só não posso. Simplesmente não posso fazer isso. Apesar da enorme vontade, meu sexto sentido berra que não é o certo.

Volto ao carro. Passo pela janela do passageiro e vejo Harry recostado no banco. Ele foi do caos à paz. Logo vai estar muito perto de catatônico, se não chegar nesse nível. Então o álcool vai perder grande parte do efeito. E voltaremos ao caos. Um tipo diferente de caos, mais igualmente desagradável.

Sigo em frente sem ser notada. Guardo a arma no porta malas, onde Harry não mexera tão cedo. A ideia me parece idiota, mas é só o que tenho. Espero que seja minimamente funcional. Volto à frente do carro, entrando direto no lado do motorista.

— Chega por hoje, cowboy. — digo, dando a partida.

Passamos a primeira parte do caminho em silêncio. São cinco minutos nos quais meu foco pleno está na estrada iluminada por meus faróis altos. Harry parecia estar dormindo e depois de um curtíssimo tempo, eu tirei minha atenção dele para deixar que só a direção me preocupasse.

— Onde está minha arma, Charlie?

Fico surpresa ao vê-lo bem acordado. Quase parece sóbrio. Mas essa conclusão é um erro de julgamento apressado; dá para sentir que Harry ainda está fora de si.

— Guardada.

— Preciso dela. Para o mês que vem. Preciso dela.

— Por quê?

— Vou para Fallujah.

É horrível, mas uma pequena parte de mim até sente vontade de rir.

— O que tem que fazer lá? — pergunto, mantendo a seriedade.

— Tenho que trabalhar. Você sabe o que eu tenho que fazer, Charlie. Eu sei que sabe. A gente fica ignorando toda essa merda, mas você é inteligente. Você sabe. Que eu sou um mentiroso e que ainda adoro atirar nas horas vagas.

A minha boca se abre e se fecha inúmeras vezes sem emitir o menor som. Eu encaro Harry, surpresa com sua seriedade, e logo volto a encarar a estrada. Fico em silêncio, apenas avaliando a situação.

Gente bêbada não é confiável. Eu sei disso. Tudo se mistura na cabeça e é muito fácil se perder entre passado e presente. Simplesmente não deveria ouvir Harry por isso; nada do que ele me disse por hora é exatamente uma verdade ou exatamente uma mentira. São só histórias. Histórias que para o meu próprio bem deveria ignorar para não ter de lidar com teorias mas desagradáveis. Só que não é isso que eu faço. Eu não sei o que se passa em minha cabeça quando incentivo Harry a continuar.

— É, você é um mentiroso às vezes. — digo. Meus olhos não param de se mover da estrada para Harry. De Harry para a estrada. — Talvez eu até me acostume com isso algum dia. Só não sei nada sobre essa segunda parte.

— Sabe sim. Você só não quer ver, Charlie. Você só não gosta de ver.

— Abra os meus olhos, então.

Harry vira o rosto em minha direção com um movimento brusco. Seu cabelo se balança e quase cai no rosto. Eu deixo que meus olhos fiquem por um pouco mais de tempo nele, quase como se uma parte de mim quisesse ter certeza de que ele vai se comportar, antes de voltar a encarar a estrada vazia. As árvores grandes projetam sombras assustadoras sobre o asfalto.

— Não. — Harry estala língua. — Não posso. Você vai ficar brava e brigar comigo.

Suspiro. Harry quase parece uma criança que quer muito fazer algo que sabe ser errado e que sabe que vai ser descoberta assim que o fizer. Eu não esperava por nada muito diferente disso. É até reconfortante que estejamos ainda em limites tão seguros.

— Não vou ficar brava. — digo-lhe. — Mas tudo bem. Você pode me falar mais sobre isso depois.  Sobre o que quiser.

— Tudo bem. — de repente, Harry sorri. Parece que se lembrou de uma piada. — Eu estou bêbado como um gambá, Charlie. Não vou lembrar de nada disso amanhã e não vou poder contar nada.

Falar com Harry nesse estado é como tentar entender um trava línguas. Sua fala se embola e sai arrastada. O sotaque dele se perde em alguns momentos e em outros se torna muito forte e muito marcado. As palavras travam na boca dele e não conseguem ser ditas. Então ele muda de ideia e fala de um jeito mais simplificado.

— Eu te lembro. O que acha? Te lembro de tudo que falamos e você me conta o que quiser.

— Tudo bem.

Harry então se cala. Ele se vira de lado sobre o banco, com rosto e corpo virados na direção da janela. Deve estar indo dormir.

Depois de alguns segundos em silêncio profundo, eu suspiro. É um som que mistura cansaço e alívio: vencemos a noite e ainda sinto que falta muito para realmente vencermos. Acho que vou me contentar com essa pequeno momento. É, parece apropriado. Mas ao mesmo tempo que parece ser bom, sinto que me contentar ou comemorar é como agradecer pela catástrofe e abrir os braços para que muitas outras venham. Não tem o quê comemorar.

De certa forma, Daniel está muito certo.  A noite não foi boa para nenhum de nós. E o dia que vem não pode ser bom também. Harry precisa me encarar e eu preciso encará-lo. Precisamos falar sobre essa noite. Precisamos conversar. Preciso escutar. Ele precisa falar. E não sei se qualquer uma dessas coisas é realmente possível.

— Eu já matei crianças, você sabia? — Harry me pergunta. Ele está encolhido e de costas para mim. E não sei o quão perto está de chorar. — E mulheres. Velhos. Tudo que pode imaginar.

Não digo nada. Meus dedos apertam o volante e os nós ficam brancos. Não sou idiota. Isso que Harry disse pode ser verdade. Provavelmente é. Por que não seria? Nunca acessei registros e nem fiz muita questão de pensar no assunto, mas é fácil imaginar que ele tenha matado muita gente.

— E já torturei também. Já vi fazerem. Não é bom. Aposto que por isso você não esperava.

— Não.

Harry tenta fazer piada e até ri. Só que não funciona para nenhum de nós dois. Engulo em seco e minha visão começa a se embaralhar e embaçar. Pisco várias vezes, tentando fazer com que ela volte ao normal. De repente, sinto que uma gota cai em mjnha bochecha. Imediatamente toco o lugar e descubro toda a trilha até os olhos. Estou chorando? Por que eu estou chorando?

— Desculpe, Charlie. Eu sei que você não gosta disso. Eu também não gosto muito. Só que tenho que fazer essas coisas. É trabalho. Você sabe, não é? Diz que sabe. E que não me odeia por isso. Ou pelas coisas que eu faço. Você acha que elas são erradas, não acha?

— Fazia, Harry. As coisas que você fazia.

— Que eu faço, meu amor. São as coisas que eu faço.

Começo a me cansar. Eu realmente sinto a cabeça latejando enquanto parece me implorar por silêncio. Quase peço para Harry se calar. Isso não é sinceridade;  é bebedeira. Não sei até que ponto ele me fala a verdade e quando o álcool começa a misturar suas histórias e falar o resultado sem se preocupar em ser fiel à realidade. Não sei de muita coisa.

— Eu podia te contar como é. Mas você não ia gostar. Você não gosta de nada disso. Eu nem sei como consegue gostar de mim.

— Como é?

— Não sou tudo de ruim que você desaprova, Charlie? Você acha que pode me salvar, mas não pode. Só eu posso. Só eu posso.

Harry torna a se calar. Dessa vez, eu não espero nada. Sei que o silêncio não vai durar. São segundos até que ele resolva abrir a boca e despejar coisas cujo o contexto já me é um mistério. E eu só vou escutar, porque Harry essa noite é como uma torneira estragada que alguém abriu. Ele não vai parar. Ele não consegue parar. Tem muita água na tubulação, só esperando para sair.

Eu inspiro profundamente. Ainda tenho os olhos embaçados sem saber a razão. E não sei o que fazer. Parte de mim queria comemorar a sinceridade. É tudo tão caótico, porém, que não tenho o que comemorar. É ruim. É realmente ruim. E assustador.

— Só não me odeie, tudo bem? Só não me odeie.

Harry dorme depois disso. Ele finalmente dorme. E quando o carro realmente fica em silêncio, silêncio de verdade, sinto os meus lábios tremerem. Meus lábios tremem e eu choro em silêncio. Em silêncio para não acordar Harry. O choro para tentar extravasar toda a loucura desse dia.

Só que não funciona. Agora eu sou a torneira aberta. Quanto mais lágrimas derramo, mais sinto que tenho para derramar. Não consigo ver nada além de borrões a minha frente e não distinguo nada a minha frente.

Encosto o carro no meio fio e mantenho a chave na ignição. Junto as mãos sobre o volante e apoio o rosto nelas. Fico assim por um tempo, frustradamente tentando me acalmar. Não funciona. Parto para o plano B, muito mais arriscado. Abro a porta e pulo para fora. Dou alguns passos, criando um pouco de distância entre o carro e eu.

É uma coisa presa em minha garganta. Chorar não ajuda. Sinto vontade de gritar. Então, eu grito. Só que gritar também não serve de muita coisa. O tampão ainda está ali, no mesmo exato lugar de antes. Torna difícil respirar. Torna difícil pensar e eu simplesmente não entendo como me livrar dele.

Olho para trás. Harry só se revirou, mas ainda está dormindo perfeitamente. Ele está bem. Ele está bem, não está? Não está? É claro que não. Enfrentamos uma tempestade violenta essa noite. O sucessor natural é a calmaria. Mas não vai durar para sempre, eu sei. Não vai durar nada. Eu também sei.

Na verdade, a calma é aparente. Não estou calma e Harry só está sob controle. Um vulcão que voltou a dormir depois de entrar em erupção. Logo teremos mais. Mais catástrofe. Mais confusão.

Quase penso que deveria fazer o que Daniel sugeriu hoje. Fugir. Eu deveria fugir. Ir para longe dessa confusão. Para o que é aparentemente é pacífico e seguro. Só que essa simples ideia me faz mal. Não é justo e nem bom manter um pensamento como esse na minha cabeça. Meu estômago realmente se embrulha diante de tal ideia. Não consigo. Eu simplesmente não consigo, independente do quanto pareço querer isso.

Caminho frente ao carro tentando organizar tudo que há em minha cabeça. Foi um dia intenso. Muita coisa de uma vez só e eu estou desnorteada. Apoio-me sobre o capô e inspiro inúmeras vezes, levando o ar o mais fundo que consigo e o soltando do modo mais lento que posso. Meu coração começa a entrar em controle. Meu cérebro começa a se livrar de toda a névoa. Minha garganta ainda está travada com algo que não sou capaz de identificar.

Entro no carro. Já não tenho mais lágrimas no rosto e nem nada assim. Posso me controlar e resolver. Digo isso a mim mesma até quase começar a acreditar. Então giro a chave na ignição e o motor berra.

Transfiro a minha energia em fazer o básico. Eu dirijo pela estrada deserta e escura sem pressa. Quando chego na casa da praia, eu nem me preocupo em guardar o carro. É quase outro dia e convenço a mim mesma de que ninguém vai perder tempo tentando roubar uma lata velha dessas. Duvido que o Toyota de Harry tenha mais valor financeiro do que emocional.

Arrasto-me até a entrada. Tiro tudo que possa me atrapalhar do meu caminho assim que acendo as luzes. Olho para trás. A distância do sofá até o carro é muito maior do que pensei. Suspiro cansada, dando meia volta. Abro a porta do passageiro. Harry resmunga assim que coloco minhas mãos sobre ele.

— Tem que me dar uma ajuda, cowboy. — sussurro.

E ele até ajuda. Ou tenta. Depois que jogo seu braço ao redor de meu ombro, Harry desliza o corpo para fora. Quase cai no chão e me leva junto. Arfo e passo minha mão ao redor da barriga dele. Fixo os pés no chão e só assim consigo içá-lo. Harry quase desmorona de novo; está muito mais perto de dormir do que de ficar acordado.

Fecho a porta. Digo a mim mesma que já estamos do lado de fora e isso deve representar pelo menos uns 30% de todo o trabalho. Eu olho para frente e desânimo ao perceber que 30% é uma perspectiva muito otimista. Tirar Harry do carro foi fácil. Agora preciso carregar todos os quilos dele em cima do meu ombro por uns quarenta metros até o sofá. Isso é difícil.

Inspiro mais uma vez antes de dar o primeiro passo. Arrasto Harry junto. Seguimos em um ritmo muito lento, com os meus músculos queimando. Penso em pegar uma pausa, só que logo descubro que a ideia é ridícula. Se eu parar, Harry cai e terei o dobro do trabalho para colocá-lo em pé novamente.

Quando entramos, já não sinto nada além de pura queimação nas pernas e braços. É até feliz ver o sofá, muito perto de ser alcançado. Ando mais rápido que consigo, deixando que meu corpo reclame mais alto e seja ignorado. Jogo Harry sobre o sofá com uma lufada alta e cheia de alívio. Ele nem percebe o que se passa. Apenas gira, ficando de costas para mim.

Fecho a porta. Não vão roubar o carro. Não vão roubar o carro. Digo isso a mim mesma não sei quantas vezes até me convencer de que isso é uma verdade e que não preciso voltar lá e conferir se realmente o tranquei e guardá-lo.

Tiro o meu caso ainda úmido e os sapatos. Deixo-os perto da porta e subo as escadas. Pego um cobertor e almofadas. Penso em trocar de roupa mas acabo concluindo que, por hora, estou dando valor demais a algo que não é realmente importante. Então desço.

Viro Harry para conseguir tirar a camisa dele. Deixo-a no chão. Depois, tiro seus sapatos e meias. Ele pare quase um comatoso e não reage a nada que eu faço. Jogo a coberta sobre o seu corpo e suspiro aliviada porque isso é o mais próximo de fim que terei.

Apago as luzes da sala e acendo a da cozinha. Remexo nos armários até achar um resto de pó de café. É instantâneo e não vai dar muita coisa mas, dada as circunstâncias, consigo ao menor suprir a necessidade imediata. Deixo a água fervendo enquanto busco por uma xícara.

Com meu café em mãos, subo. Não tenho a menor esperança de dormir. Minha mente está tão elétrica que acho que isso é impossível. Sento-me ao chão, colocando minha xícara ao lado e puxo as caixas de Harry para mais perto.

Hesito antes de abri-la. Horas mais cedo, eu quase fui pega espiando. Agora esse não é mais um risco. Harry está inconsciente no sofá e não vai ser nada discreto ao se levantar e tentar subir as escadas. Vai fazer um bom alarde. O problema é que não sei se realmente devo. Parece errado mexer no que não é meu sem permissão e claramente as escondidas.

A caixa parece vibrar na minha frente. Digo a mim mesma que sou uma idiota e que já fiz isso hoje. Não há nada de errado em fazê-lo novamente. Então, eu agarro o papelão das aba e as puxo para cima. A fita adesiva que deveria segurar o lugar está desgastada e perdeu a cola, soltando-se com muita facilidade. Eu encaro o interior. Enfiar minha mão ali é como colocar os dedos dentro da boca do monstro e deixar que ele os morda como quiser.

Puxo o uniforme de Harry. Sem pensar muito, eu o levo até o nariz e aspiro. Tem cheiro de naftalina e bolor. Não me lembra Harry. Lembra minha avó, finalmente conseguindo se livrar das coisas de meu avô mais de um ano depois de ele ter morrido.

Tateio os bolsos da roupa. Estão vazios. Com essa constatação, deixo o uniforme de lado e enfio as mãos na caixa de novo. Só tem o boné, que não me mostra nada de novo, e a fotografia velha. Eu olho para a imagem de jovens com muita expectativa;  duvido que qualquer um deles ainda mantenha essa perspectiva.

Viro a foto, olhando o verso do papel. Algum lugar poeirento perto de Nassíria onde provavelmente vamos morrer, 18 de março de 2003 - A hora de detonar é essa, seus fudidos. Só que não há qualquer nome ou qualquer coisa que possa ter utilidade. É divertido. Por alguma razão, ver o sorriso que mistura ansiedade e expectativa é divertido. E depois some. Não há mais nada, então.

Volto essas coisas para a caixa com medo de de ser descoberta. Então vou para a próxima. São as fotos. Lembro que há menos de 12 horas estava com um desses álbuns em mãos, espiando. É direto para ele que eu vou. Releio o bilhete que deseja melhoras para Harry e o coloco de lado. Vou para as fotos. E sinto a mesma diversão começar e esmorecer do nada. Na verdade, não tenho qualquer motivo para rir disso.

Dessa vez, chego ao final do álbum. A última foto é quase surpreendente: crianças jogando futebol com homens em calças camufladas. Todos os homens que vi inúmeras vezes ao longo dessas fotografias, até mesmo Harry. E todos bem. Fico ainda mais surpresa ao olhar a contracapa e perceber, encaixado nela, um pedaço de agenda. Tem um nome escrito, Matthew Watertown, e um telefone.

Eu imediatamente me ergo e procuro feito uma desesperada por meu celular. Digito o número e paro antes de apertar o botão que confirma a ligação. Que merda exatamente estou fazendo? Vou ligar para um completo desconhecido e dizer o quê? Não é um plano mada lógico. Bufo, irritada comigo mesmo e deixo o telefone sobre a cama.

Mas talvez... Um desconhecido para mim, não para Harry. E é provável que ao menos uma vez Harry tenha ligado para esse tal de Matthew. Com sorte, Matthew talvez tenha até o celular de Harry salvo.

Desço as escadas com o papel em mãos. Do modo mais silencioso que posso, enfio as mãos nos bolsos da calça de Harry. Em certo momento, ele resmunga e gira. Paraliso. Penso que ele vai acordar e que não tenho nenhuma desculpa. Mas Harry só dorme. É o que ele me disse mais cedo: bêbado como um gambá. Vou precisar de muito mais que um toque leve para acordá-lo.

No instante seguinte, estou com seu celular em mãos. Afasto-me para a cozinha, digitando os números e apertando o botão verde com o desenho de um telefone. As chamadas começam.

Só então percebo que não sei o que vou falar, que horas são onde esse Matthew está e que estou seguindo por um caminho absolutamente ridículo. Quero desligar. Só não consigo. Eu simplesmente não consigo afastar o telefone de minha orelha e cancelar a ligação antes que seja muito tarde. Quando estou realmente pronta fazê-lo, é realmente tarde. O telefone foi tirado do gancho e uma mulher atendeu:

— Alô?

Eu não digo nada. Fico muda, paralisada por várias razões diferentes. A mais óbvia é que mergulhei de cabeça no cimento seco: como algo de bom poderia sair de uma ideia tão terrível quanto essa? Além disso, eu esperava um homem e não uma mulher.

— Olha, seu engraçadinho, eu tenho um identificador de chamadas e... Oh, meu Deus! É o número de Harry. Santo Deus! Harry, é você? — faço um som com a garganta, um murmúrio sem muita voz, indicando que sim. — Deus do céu!  Matt, é o Harry no telefone! Meu Deus! Você sumiu, rapaz! Sumiu e Matt e eu pensamos no pior. Matt vai ficar tão feliz de falar com você... Ele está aqui. Vou passar a ligação.

A linha fica em silêncio e eu deixo uma excelente oportunidade escapar pelos dedos; deveria ter desligado. No entanto, não faço nada. Meus dedos estão rígidos ao redor do celular e parece que suas conexões com meu cérebro foram interrompidas ou desconectadas. Sei o que deveria fazer e por algum diabo de razão, simplesmente não o faço.

Matthew pega o telefone. Não faço a menor ideia de quem seja Matthew.

— Harry? É você?

Ele parece um pouco descrente. Acho que o nome disso é senso e percepção — algo que não tenho funcionando nesse momento. Como fiz com a mulher histérica antes, solto um som que seja o bastante para indicar que sim. Não posso nem pensar em falar. Mesmo que quisesse, não chegaria perto de falar um A como Harry fala.

— Deus do céu, rapaz! Onde esteve todo esse tempo? Trudy e eu estávamos preocupados. Não pode sumir sem dar notícias assim.

Acho que Trudy é a mulher que me atendeu e começo a suspeitar que ela seja esposa de Matthew ou algo desse tipo. A única coisa da qual estou completamente certa é que deveria desligar antes que me meta em confusões ainda mais sérias.

— Como estão as coisas? — Matthew  prossegue. — Edwards ainda tem te chamado? Convocado ou convidado, não sei como vocês chamam isso. Sei que é loucura. É disso que sei. Que Trudy não escute essa conversa. Ela odeia isso com todas as forças. Você está ai, Harry? Está aí, rapaz? Soube que Edwards está preparado seu próprio dia D e com certeza ele v...

Eu desligo. É automático e inesperado. Afasto o celular de minha orelha enquanto meu dedão aperta o botão esquerdo e dá fim a ligação. O telefone cai sobre a bancada velha da pia e eu ofego. Até acho que estou suando. Parece que me livrei de uma arma em minha nuca.

Antes mesmo que esteja no meu normal, eu remexo todo o cômodo até encontrar papel e caneta. Escrevo o que ouvi de Harry e Matthew, porque preciso de explicações. No final, minha lista fica com os seguintes itens: "preciso da minha arma mês que vem porque vou para Fallujah", "sou um mentiroso e você sabe disso", "matei gente para caramba", "as convocações/convites de Edwards", "o dia D de Edwards", "quem é Edwards?", "Matthew e Trudy".

Quando releio as anotações, risco o item sobre o dia D e as pessoas mortas. Por alguma razão, isso não é importante. Não sinto que seja. Acho um imã caído no chão e fixo minha lista na porta da geladeira. Encaro o celular de Harry e mordo a parte interna da bochecha. Estou prestes a fazer algo que nunca fiz antes: futricar o telefone de um companheiro.

Puxo a cadeira e me sento. Desbloqueio a tela com um toque na tecla certo. O papel de parede é provavelmente o mesmo desde que Harry comprou o aparelho;  ele é previsível e não perdeu tempo mexendo com isso. Penso em ir na galeria e desisto. Não vou encontrar nada lá. É claro que não vou. Harry com certeza não gasta seu tempo fotografando tudo por aí. Isso não seria típico dele.

Vou para a agenda. Meu número está salvo ali como Dawson, o que deveria ser no mínimo previsível. Não tem nenhum Matthew por ali. Tem Louis, que eu já conheço. E Will, Gemma, I.N.C, emergência, polícia e bombeiros. Nada muito além disso. No final, perdido entre vários outros contatos, acho um que é quase cômico: "psicóloga que a desesperada da Charlie marcou".

Até rio. Não sou desesperada. Ao menos, eu acho que não. Clico nele e vejo o número que já praticamente apaguei da memória. Puxo a caneta e escrevo-o em minha mão. O tempo corre com rapidez entre vigiadas em Harry e caminhadas ao redor da mesa. Quando percebo, são quase 9h da manhã e eu uso o celular de Harry para discar para o telefone em minha mão.

Digo que quero adiantar sua próxima consulta. A recepcionista diz que não é possível. Peço uma razão e ela quase ri na minha cara.

— Faz muito tempo desde que o senhor Styles marcou uma última consulta ou esteve aqui. — conta-me.

— Muito tempo?

— Sim, senhora. No primeiro mês, ele compareceu por três semanas seguidas. E depois parou. Liguei várias vezes para marcar a próxima consulta. No começo, ele dava uma desculpa. Depois, nem atendia mais.

Travo os lábios em tensão. Inspiro profundamente para me manter o mais próximo de calma e encerro a ligação sem muita justificativa. Não tenho  menor paciência para criar desculpas agora.

Ergo-me e anoto algo mais na lista da geladeira. Fim das consultas? Você realmente é um mentiroso. Risco essa última parte porque acho muito cruel. Mas ainda estou irritada. Irada, mais precisamente. Preciso controlar a vontade de acordar Harry com um balde de água fria e fazê-lo se justificar por tudo, especialmente pelas mentiras.

Sinto-me uma idiota. Talvez eu seja. Eu acreditei cegamente, não é? Nem busquei comprovações. Só acreditei. Esqueci de analisar as variáveis. Confiei. E não deveria ter deixado a corda tão frouxa porque deveria ser óbvio que haveria ao menos a tentativa de uma evasão. Harry não estava disposto e eu não sei o que exatamente o fez voltar atrás, mas não foi assim tão bom para fazê-lo manter a promessa. Frustrada, percebo que foi a distância forçosa que criei diante de sua reação e percebo que não sei o que pensar disso.

Vou para os fundos e me sento no deck de madeira empoeirado. Minhas pernas se balançam sem parar, tentando se livrar da ansiedade que me percorre o corpo. Brinco de esticar os pés ao máximo sem nunca realmente tocar a grama envelhecida do grande quintal. Meus dedos, por sua vez, deslizam pelo colar em meu pescoço e se agarram na corrente, girando-a e desgirando-a.

Faço isso por não sei quanto tempo,  até escutar os palavrões murmurados de dentro da casa. Harry pragueja, tenho certeza que por causa da ressaca. As molas do sofá rangem e escuto outro tipo de xingamento. Alguns minutos depois, eu me ergo e vou para dentro da casa. Passo pela coberta que Harry jogou de lado e vou direto a cozinha. É irônico porque Harry está parado de costas para mim, com os pés descalços e a lista que fiz em mãos. Dessa vez, ele não me nota.

— Você vai me contar? — pergunto, obrigando-o a se virar para mim. — Ao menos dessa vez, você vai conseguir me explicar tudo?


Notas Finais


Muito obrigada a todos que chegaram aqui. Novamente, obrigada pelas cobranças, comentários e favoritos. Essas são algumas das maiores alegrias, acreditem. Minha última one: https://spiritfanfics.com/historia/queda-9309511 e o link do trailer de Red porque é maravilhoso e super válido de ser visto: https://www.youtube.com/watch?v=5R_iZxHEfzQ
Sintam-se super à vontade pra falarem comigo na TL, mencionar, mandar MP... O que quiserem. Sempre amo e tô sempre aberta a falar com vocês.
Até logo!
xoxo


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