História Red Feather. - Capítulo 4


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Categorias Dragon Ball
Personagens Chichi, Goku
Tags Chichi, Gochi, Goku, Romance Policial
Visualizações 50
Palavras 5.044
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ecchi, Mistério, Policial, Romance e Novela, Suspense, Universo Alternativo
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, meus amores. ♥️

Ainda estamos em fase de construção do mistério. Mas tem algumas evidências e pistas para serem guardadas em nota mental. Atenção, detetives. <3

Espero que gostem do capítulo e o mais importante, se divirtam.

Capítulo 4 - Quattuor.


Fanfic / Fanfiction Red Feather. - Capítulo 4 - Quattuor.

 

"Aquilo que uma pessoa realmente é só fica aparente quando vem o teste, ou seja, no momento em que se fica firme sobre os próprios pés ou se tomba.”

       

        - Hercule Poirot

 

Seus olhos emitiam um brilho intenso à medida que vagavam, contemplando os movimentos lentos e graciosos dela — o pássaro de fogo. A estética sutil, pura, vaidosa, expressava-se com tanta naturalidade. Não havia ruptura entre o espaço físico e ela. Por mais que a suave silhueta parecesse tão pequena em contraste ao palco. Naquele momento, cada componente se encaixava em um todo; a música clássica, o equilíbrio e a leveza na pontas dos pés, o charme firme entre a luz e as sombras; eram todos um só elemento. O fogo.

Atentou-se a olhá-la mais detalhadamente, acompanhou o desenho de cada linha de seu corpo, a elasticidade das pernas em conjunto com a dos braços, a gravidade acelerada em acorde à sinfonia; eram violinos, violoncelos, contrabaixos, arpas e um piano... A melodia era inspiradora e fazia a alma chorar, não por tristeza das lembranças saudosistas que, naquele instante, lhe martelavam a mente, mas porque era épico e ia de encontro aos sentimentos mais primitivos. Apenas de vê-la dançando, ele sabia exatamente como ela estava se sentindo. Em chamas; consumindo a todos da plateia com sentimentos puros e inexprimíveis. Sua dança era pura magia. A beleza dos movimentos ritmados, o encanto de cada passo sincronizado. Fisicamente, deveria doer; provavelmente seu corpo estivesse sendo levado ao limite, todavia, sua alma aguerrida transcendia, era nítida a paixão, e isso a moveria até o fim.

Goku tocou com os olhos os contornos dos lábios semicerrados, a intensidade do olhar enérgico que se movia desesperadamente enquanto Chichi girava graciosamente em sua pirueta, a saia de tule se movendo ao redor dela como organismo vivo... Era tão frágil e delicada, mas detentora de uma força inimaginável, de uma sensualidade carregada de prazer. A tensão era palpável no ar. A respiração controlada do detetive, mal entregava sua humanidade; o coração inebriado por uma miríade de emoções que há sete anos não sentia, o roubara todos os sentidos, e ele só percebera que seus pensamentos eram audíveis ao sentir o tato da mãe, batendo levemente em seu queixo, forçando-o a fechar a boca.

— Sim, você tem razão. Vermelho cai bem a ela – Gine sussurrou, seus olhos transmitindo um brilho divertido logo se enfureceram quando o celular do filho começou a tocar baixinho. — Não acredito que você deixou isso ligado, Goku! – ela o censurou, irritada.

 Ele colocou o celular no silencioso e esboçou um fraco sorriso de desculpa ao atender, curvando o corpo para frente para que ninguém percebesse o que estava fazendo.

— Detetive Son...

O caso que eu te enviei hoje cedo, ganhou um upgrade – a inconfundível e agitada voz de Lunch, soou pelo aparelho. — É sério. Você precisa me encontrar no Royal Opera House. Uma das bailarinas está sofrendo ameaças. E eu tenho quase certeza que é o assassino do Yamcha.

Goku sentiu um fio de eletricidade percorrer toda a extensão de sua coluna vertebral. Foi como levar um choque.

— Qual o nome da bailarina? – ele perguntou, levantando o olhar para o palco, acompanhando a performance de Chichi, no pas de deux com Vegeta. Alguma coisa no Prince, o incomodava profundamente, e não era ciúme.

Gine novamente pediu para que o filho desligasse o aparelho. Contudo, a frase: “Chichi Cutelo, a princesa do balé londrino”, fez todo o corpo do Son reagir de maneira forte, como quando estava em uma perseguição policial. Porém, dessa vez, era imensuravelmente mais intenso. Seu instinto desafiante pulsou avassalador em seu peito. Sim, ele iria assumir o caso. Provaria a Chichi, seu valor como detetive.

— Já estou no Royal. Onde eu te encontro?

Lunch emitiu uma risada e então, espirrou. Sua voz antes alvoroçada, tornara-se macia e talvez um pouco melancólica, mas apenas quem estava familiarizado, percebia seus rompantes sutis.

Cinco minutos nos bastidores. Imagino que esteja portando seu distintivo. Use-o.

A ligação terminou e Goku lançou à mãe um sorriso “o dever me chama”.

— Pelo visto, terei que pedir para Gowass vim me buscar.

Gine soltou um suspiro desgostoso, ganhando do filho um beijo na testa.

— Dessa vez é mais do que uma decisão unilateral, mãe. Cada jogada desse jogo valerá a pena – Goku disse em voz baixa, se levantando em seguida. — Sua recompensa será memorável, prometo.

Enquanto o detetive se dirigia aos bastidores, Gine olhou para o palco e esboçou um sorriso miúdo. Assim como fora impossível convencê-lo a substituí-la na gestão das empresas Kakarotto, ela sabia que era inútil opor-se a decisão do filho em aceitar um chamado do trabalho, mesmo em seus dias de folga. Inclusive, até montar uma agência particular de primeiro mundo para suborná-lo a deixar a Scotland Yard — uma instituição pública —, ela tentara; mas fora em vão. O espirito livre de Goku, não o permitia a ficar trancado em um escritório de luxo, enquanto podia estar fazendo algo muito mais útil na vida das pessoas. Então, só restava a Gine...

— Torço para que esse caso o enlouqueça de amor; quem sabe não voltem a amar um ao outro de perto, e não de longe...

 

 

Quando a apresentação chegava ao fim, o casting principal do espetáculo, seguia o mesmo roteiro: entrevistas, fotos e, a parte favorita de Chichi, a interatividade com os fãs. Era este o grande trufo do seu sucesso como bailarina. Ela acreditava que por meio de um contato mais dinâmico com o público — principalmente com os pequenos —, era possível ter um melhor feedback sobre sua postura na dança, o que lhe ajudava a se manter distante dos rígidos padrões já tão bem delineados pelos demais bailarinos. Com perspicácia e habilidade, ela aplicava o tom ideal e a medida certa na constante lapidação de seu dom, buscando sempre tocar e encantar o coração das pessoas através do seu amor pelo balé clássico.

Após, com muito custo, conseguir escapar de uma entrevista constrangedora para um jornalista, cheio de escrutínios sensacionalistas, Chichi se dirigiu até o camarim para tomar um remédio de dor de cabeça e organizar suas coisas para ir para a casa descansar.

Suspirando exausta, ela girou a maçaneta, abrindo a porta abruptamente. A figura de um homem, deixando uma bandeja de café e guloseimas no camarim, quase fez Chichi dá um pulo para trás. Fato que só não ocorreu pois ele se virou logo que percebera a presença dela, abrindo um sorriso amplo e amigável.

— Que susto, Zamassu! – ela levou as mãos sobrepostas ao peito, soltando todo o ar de seus pulmões, aliviada ao reconhecer o inesperável visitante. — Não me diga que desistiu da orquestra para trabalhar de staff. – Passado o susto, ela brincou, vendo as bochechas do platinado, ganharem um leve tom de vermelho.

— Perdoe-me a invasão, Chi. É que a copeira teve um mal súbito, e eu pensei em lhe fazer um agradado. Sei o quanto aprecia um cappuccino com chocolate antes de ir embora – ele coçou a nuca, desconcertado diante da morena.

Para a sorte de Zamassu, Chichi atribuíra seu nítido embaraço à timidez. Jamais passara pela cabeça da bailarina, que ele era perdidamente apaixonado por ela. Para a Cutelo, o Gattai era apenas um jovem músico promissor. Não o via como um homem, tanto pela idade cronológica quanto pela divergência na experiência de vida. Estava acostumada com os atos gentis do rapaz e associava as pequenas sutilezas como uma forma que ele encontrara para agradecê-la pelo constante apoio que ela lhe dava ante as exigências de seu pai, o diretor musical da Royal Ballet.

Com um sorriso cordial, ela o agradeceu, aproximando da penteadeira para se servir do cappuccino, notando um buquê de tulipas vermelhas e embrulhos da mesma cor, discretamente violados, próximos da bandeja.

— Acha que foi algum tipo de doença? – Chichi questionou, levando a quente bebida à boca.

Os olhos acinzentados de Zamassu fixaram o rosto da bailarina pelo reflexo do espelho. Ele a encarou interessado por alguns instantes, sem nem ao menos ter processado a pergunta; estava concentrado em tomar coragem e convidá-la para jantar, tudo o que mais desejava era uma oportunidade para mostrá-la seus reais sentimentos e devoção, acreditando que assim a impressionaria e conquistaria como mulher.

— Apreensão – Chichi dera sua própria resposta ante a expressão hesitante de Zamassu. — Com certeza o boato sobre a maldição do pássaro de fogo, deve ter chegado aos ouvidos dela.

— E você? Acredita nisso? – perguntou o músico, cauteloso.

Chichi ficou em silêncio, seus olhos desfocados, trazendo a expressão morta e vazia do boneco de ventríloquo; a voz robótica e infantil; a cabeça balançado para um lado e para o outro; o cheiro acre, dos dedos em decomposição, conservado em suas narinas... De repente, ela sentiu o cappuccino revirar em seu estômago.

— Jovem Gattai, pode nós da licença? – uma voz profunda e calorosa, soou atrás deles. — Eu preciso conversar com a senhorita Cutelo.

Chichi virou-se, surpreendendo-se imediatamente, antes mesmo de saber quem se dirigia ao músico, e viu o CEO da companhia, parado de braços cruzados na soleira da porta.

Se despedindo com um sorriso fraco, Zamassu girou os calcanhares e saiu apressadamente do camarim, frustrado, mais uma vez, por não ter agido como havia planejado.

— Você não parece muito feliz em me ver, princesa. – O homem de corpo atlético, vestido com um terno cinza e bem cortado, fechou a porta e se aproximou dela, cumprimento-a com um beijo no rosto.

— Bom, receber a visita do diretor geral, após a estreia do espetáculo, dizendo que precisa conversar, não é muito agradável. – Ela foi sincera ao justificar. E enquanto ele se servia com café e biscoitos amanteigados, resolveu tirar todas as dúvidas sobre a presença dele ali. Afinal, ela não era mulher de muitos rodeios. — Diga-me Tenshi, o que devo a honra? Você não costuma fazer uma reunião particular, se não tiver um bom motivo para isso. – Ele a encarou profundamente; seus olhos gentis ganharam uma preocupação perceptível, o que fez o sangue de Chichi, correr feito lâminas de gelo por suas veias. — Alguma insatisfação com a minha performance de hoje? – ela perguntou, assumindo uma postura tensa.

Embora fosse jovem, Tenshi Han era um homem plenamente calvo, o que lhe dava um ar suntuoso. As fortes e clássicas feições em seu rosto parecia ter sido modeladas diretamente do busto de um faraó egípcio, tal como Ramsés. Alguns poderiam achar que seu semblante de intensos olhos negros, era distante e preocupado, mas, na verdade, o ex dançarino transbordava serenidade e enxergava muitas coisas que os outros não viam.

— Não, Chi! – ele balançou a cabeça, sorvendo um pouco do café. — Você é cria da escola. Umas das dançarinas mais carismáticas da Royal. Não tem o título de primeira bailarina à toa. – Tenshi esboçou um fino sorriso, mas Chichi ainda não estava aliviada quanto ao rumo do assunto. — E justamente por isso, eu e o conselho do balé londrino, resolvemos dar uma exclusiva atenção à ameaça que você recebeu hoje. Em respeito à memória de Clowe Black, é nosso dever zelar por seu bem-estar e por sua segurança.

— Tenshi, o que aconteceu foi apenas uma brincadeira macabra – ela pegou uma barra de chocolate, abrindo-a nervosamente. — Algum engraçadinho aproveitando da morte de Yamcha, para se divertir à nossas custas. Não precisamos ficar tão alarmados.

  — Não estou me referindo apenas ao ventríloquo, Chichi – percebendo a confusão no semblante da bailarina, o diretor continuou com sua explicação. — A senhorita Forbis me contou que desde a morte de Yamcha, vocês duas vêm recebendo ligações e mensagens anônimas, todas mencionando você, “o pássaro de fogo”, como a culpada da maldição que paira sobre o espetáculo e que se não for destruída, mais mortes acontecerão.

Uma nova confusão permeou a mente de Chichi, ela e Suno, eram amigas há tanto tempo, por que não lhe contou que também estava recebendo os trotes? Mordendo a barra de chocolate suíço, logo se lembrara da conversa entre as duas, minutos antes do boneco aparecer. A ruiva tinha mesmo razão, a Cutelo era uma tola por crer na benevolência das pessoas. Com certeza, ela integrava a lista de suspeitos pela morte de Yamcha, que a Forbis criara. E a omissão dela, só confirmava tal pensamento.

— Isso é ridículo! – Chichi exclamou, perplexa. — Eu não mato nem uma barata voadora, Tenshi.

Pensativo, ele alisou o queixo, antes de falar qualquer coisa, deixando-a mais nervosa do que já estava. — Eu comuniquei o ocorrido a polícia – revelou, simplesmente.

— Você, o quê?! – ela esbravejou, largando o chocolate sobre a bancada. — Envolver a polícia nisso é uma péssima ideia! Já imaginou no escândalo que vai ser, caso se torne público? Ai sim, eu não terei paz.

— Chichi, tudo será mantido sob sigilo, não se preocupe. Ainda que não tenha ligação direta com a morte de Yamcha, mais bailarinos devem estar recebendo as mesmas mensagens e ligações. Eu não posso ficar de braços cruzados, permitindo que isso se estenda e você não tem direito algum de se opor a essa decisão, sabe o porquê?! – Tenshi Han pegou um dos embrulhos violados e a estendeu. — Abra.

Embora desconfiada, ela pegou a caixa vermelha da mão dele e, após alguns segundos de hesitação, fez o que ele a pediu. Sempre fora corajosa, podia lidar com o que estivesse ali dentro.

 Ledo engano...

Quando os olhos de Chichi, pousaram no rosto da boneca, dela, sem o corpo; seu coração falhou uma batida. Havia uma pena vermelha e uma mensagem, dizendo que seria aquela a recordação que Yurin teria da irmã, após executada a justa sentença.

— Engula o orgulho e aceite, Chi. Eu fiz exatamente o que precisava ser feito –Tenshi deu um beijo na testa da bailarina e ao ouvir uma batida na porta, dirigiu-se até a mesma, abrindo-a em seguida.

— Imagino que tenhamos lhe dado tempo o suficiente para convencê-la.

A voz feminina possuía um tom seco, mas de certa forma soara tão frágil aos ouvidos de Chichi, que, instantemente, sentiu o coração perder o ritmo novamente ao erguer os olhos da caixa e deparar com o casal parado diante da porta do camarim, fitando-a com um olhar frio e sutilmente escrutinador, quando Tenshi deu-lhes passagem para entrarem.

Com uma expressão impassível a bailarina colocou a caixa sobre a penteadeira e aprumou o corpo, fazendo uma nota mental que nunca teria tantas surpresas em um mesmo dia.

A mulher parecia uma ninfa estérea, dona de uma excêntrica beleza capaz de levar um homem ao céu ou ao inferno, com seu corpo moldado por curvas perfeitas, o rosto angelical de olhos azuis brilhantes, e cabelos louros ondulados com uma mecha roxa destacando na lateral direita. A pele era alva e delicada, contrastante a negra jaqueta de corte moderno, proporcionando-lhe um tom ideal de sensualidade combinada a calça legging de couro e as botas coturnos.

O homem ao seu lado parecia ter o dobro de seu tamanho, devido ao porte físico corpulento de 1,90 m. Os cabelos negros e lisos, morosamente bagunçados, davam-lhe um charme à parte inarmônico com o smoking e a frouxa gravata slim, que fez Chichi quase sorrir. Ele sempre encontrava um modo de tornar qualquer traje despojadamente dele. Os olhos escuros, mesclando vigor e ingenuidade; o maxilar pontiagudo; o rosto másculo e jovial, conferiam ao moreno uma atratividade inexplicável, exatamente como ela se lembrava.

O olhar dele para si era gélido, mas Chichi poderia jurar que viu um meio sorriso contraindo a lateral do seu rosto, quando se dera conta que passara tempo demais o analisando e os olhos se encontraram, causando um leve rubor em suas bochechas.

— Prazer, sou a detetive Lunch, e este é meu parceiro, detetive...

— Son Goku – Chichi a cortou, visivelmente desconfortável com a situação, quando a loira apertou sua mão.

A detetive lançou um olhar questionador para o parceiro, e depois voltou a encarar a bailarina. — Vocês já se conhecem?!

Goku sorriu, sem deixar de estudar as feições intrigadas de Chichi. — Sim, nós...

— Estudamos juntos em Cambridge – a bailarina foi mais ágil com as palavras, estendendo a mão para cumprimentá-lo. — Como vai, ‘detetive’ Son? – havia um certo desdém na voz de Chichi, que tão logo amolecera, quando sentiu a quentura dos lábios dele de encontro a sua pele, beijando-a na mão, sem deixar de encará-la. Um olhar inquisidor: “por que não usa o anel?”

— Pode nos relatar o que vem lhe acontecendo, senhorita Cutelo? – a detetive Lunch salvou Chichi de um palpável desconcerto ante o olhar de seu parceiro.

Mordendo o interior da boca, a bailarina voltou sua atenção para a loira, sentindo um conhecido calor, enfraquecê-la o equilíbrio das pernas, com o olhar de Goku ainda sobre si. Embora fosse apaixonada por aquele ar sedutor, a peculiar e impassível postura de detetive, a deixava deveras irritada.

Frisando sua insatisfação em ter a polícia envolvida no assunto e com certa má vontade, Chichi relatou as ligações, as mensagens, o ventríloquo e a boneca, retificando que era apenas uma reprimenda, uma brincadeira irrelevante de alguém que queria se divertir as suas custas. Uma hora ele iria se cansar.

Os detetives ouviram tudo, sem contra argumentar, trocando, em certos momentos, olhares cúmplices entre si, o que fez Chichi pensar que fossem bastante íntimos.

— Senhor Han, você disse que soube do fato através de uma outra bailarina. Seria esta que estava presente durante o evento com o ventríloquo – O detetive Son virou-se para Tenshi que assentiu, meneando sutilmente o rosto.

— Sim. Suno Forbis. Ela também recebeu ligações e mensagens desse tipo.

 — Leve a detetive Lunch até a moça. Eu irei interrogar a senhorita Cutelo, enquanto isso.

Tenshi Han recolhera a caixa com a boneca de Chichi, e saiu acompanhado da loira, que, antes de fechar a porta, lançou uma piscadela para o parceiro, desejando-o boa sorte.

Goku apoiou os quadris na borda da penteadeira, pegou a barra de chocolate que Chichi largara sobre a bancada, e, enquanto a provava, examinou a princesa de cima a baixo. Ela estava tão mais espetacular do que sempre estivera.

Chichi cruzou os braços e arqueou uma das sobrancelhas ante a avaliação nada discreta do ex noivo, que a irritou sobremaneira. Se ele almejava reconquistá-la através daquele jogo, era melhor não se iludir. Definitivamente, naquele momento, a vontade dela era mandá-lo se foder junto ao elo fajuto dele. Como ela fora capaz de acreditar na baboseira de: “permanecerem ligados mesmo distantes”? Era nítido o flerte entre ele e a parceira. A Cutelo intuiu, equivocadamente.

— Algo de errado com meu figurino, ‘detetive’? – Chichi foi sarcástica, captando o olhar de Goku sobre suas coxas expostas pelo vestido preto, que embora fosse um moletom adaptado, não era curto tampouco justo.

— Não – respondeu simples, abrindo outra barra de chocolate. Pelo visto, o vício de Chichi pelo doce, continuava intacto. — Estou apenas comparando as imagens da minha lembrança com a imagem real na minha frente. – Ela semicerrou os olhos, em um misto de curiosidade e raiva, como se previsse o teor do comentário que seguiria. — Moletom e botas negras? Imaginava saia rodada e sapatilhas, um tom entre lavanda e rosa bebe. Combina mais com você.

— Não me importo com suas ponderações ao meu respeito. Ficarei grata se fizer logo seu trabalho de ‘detetive’ – a irritação em sua voz, só deixou Goku ainda mais satisfeito.

— Certo, ‘princesa’! – O tom pelo qual ele a chamou de ‘princesa’ soou tão desdenhoso e implicante quanto o que ela usara para chamá-lo de ‘detetive’. Chichi começou a compor uma nota mental, disposta a usá-la contra Suno, por fazê-la passar por isso. — Qual era seu grau de intimidade com Yamcha? – ele perguntou, sem pretensão pessoal alguma, embora para ela não parecesse.

Chichi riu, o lançando um olhar: “É sério?”. O que obrigara a Goku assumir uma postura mais rígida.

— Senhorita Cutelo, eu não tenho pressa. Posso ficar a madrugada inteira com você nesse camarim, sem problemas – disse suavemente, enquanto aprumava o corpo e apontava para o branco sofá, convidando-a se sentar. 

Acomodando-se a uma distância segura dele, Chichi fungou, ligeiramente.

— Apenas dançávamos juntos – ela disse de maneira simples. — Na verdade, ele foi pupilo da minha mãe... Mas, só se dirigia a mim, quando estávamos no estúdio. Por obrigação... Acho que Yamcha não gostou muito da minha nomeação à primeira bailarina.

Houve uma breve pausa em que os dois ficaram se encarando. Os olhos de Chichi emitiam um brilho cansado, e Goku sabia — tanto pela experiência em ler as pessoas através de seus gestos, quanto por conhecê-la — que estava sendo sincera.

— Pelo que eu notei, há um boato de que ele cometeu suicídio, acredita nessa teoria? – perguntou ele.

Ela sacudiu levemente a cabeça, em uma negativa.

— Estão associando o que aconteceu com o término de um relacionamento com uma das bailarinas. Porém, Yamcha era alegre e confiante demais para acabar com a própria vida por um motivo tão tolo.

— Quem pode conhecer os segredos da mente humana? É possível sim que houvesse um ponto fraco o qual ele soube disfarçar muito bem. É comum em quadros de depressão.

Goku aplicou um bom-senso fugaz, surpreendendo Chichi.

— Qual o nome da bailarina? Sabe o motivo do término – Ele continuou os questionamentos, implacável.

— Bulma... – Chichi pausou como se hesitasse, e a reação chamara a atenção do detetive que não desviara seus olhos dela nem por um segundo sequer. — ... Está com Vegeta, agora...

— O que dançou com você no espetáculo de hoje?

— Você me viu dançar? – a pergunta praticamente soltou da mente da morena que logo erubesceu; um miúdo sorriso brincando em seus lábios ao constatar o óbvio. Não havia outro motivo para aquela vestimenta. Afinal, detetives não eram adeptos ao traje formal.

Notando um leve rubor se formando nas bochechas de Chichi, Goku apenas lhe deu um sorriso discreto, dando seguimento as perguntas.

— São seus amigos?

— Parceiros de dança – ela retificou, tomando Suno como exemplo.

— E quanto a você, está com alguém?

Chichi rolou os olhos antes de respondê-lo.

— Não!

— Terminou algum relacionamento recentemente?

O par de ônix no olhar da morena, flamejaram. Os questionamentos estavam tomando um rumo muito suspeito, ou melhor dizendo, ridículo.

— Este é mesmo um interrogatório de detetive? Ou, seria curiosidades de um ex noivo?  

Sou exatamente os dois, Chichi”. Ele quis responder. Entretanto, apenas a encarou como um tigre que avalia sua presa, se ajeitando no sofá. A intensidade do olhar de Goku, despertou um arrepio na nuca da bailarina. “Inferno de homem tentador!” Ela pensou para si mesma, reprimindo-se por se sentir tão envolvida.

— Estou seguindo um protocolo, princesa. Ciúmes, rejeição, inveja... são os principais motivadores para alguém se tornar um assassino – a voz dele soou indiferente, embora, de fato, estivesse interessado na vida pessoal da bailarina. — Vou precisar de uma lista com os nomes dos homens com os quais se relacionou nos últimos dois anos, não necessariamente um namoro. Qualquer tipo de relacionamento em um nível pessoal, se é que me entende.

Chichi lamentou não estar segurando uma xícara de cappuccino, pois era bem verdade, que teria jogado na cara dele sem dó. Se Goku soubesse de sua abstinência sexual-afetiva nesses sete anos, descartaria logo essa hipótese, contudo, ela não iria confessar o fracasso que era sua vida amorosa desde que se afastaram.

— Não me envolvi com ninguém no período – ela revelou, vendo os lábios do detetive se curvarem em um meio sorriso. — Corrigindo, eu não quis me envolver – ela tentou sair por cima, não o deixaria pensar que era ele o motivo. — O balé consome muito do meu tempo.

 — Bom, esse: “eu não quis me envolver”, pode ter soado como rejeição a alguém. A falta de reciprocidade nem sempre inibe o desejo e a fantasia de uma pessoa.

— Sendo assim, o aconselho a interrogar todos os fãs de balé da Grã-Bretanha – ela o encarou, esboçando um sorriso fraco, que transparecera todo o seu cansaço. — Você sabe que eu não faria mal a ninguém. Por favor, acredite em mim, eu não vejo motivos para estar sendo perseguida dessa forma; acusada de ser uma maldição...

Pela primeira vez, desde que entrara naquele camarim, Goku enxergou dor no olhar dela.  

— Eu tenho absoluta certeza que não – ele disse em um tom de voz suave, dando-lhe um olhar compreensivo, e tal atitude foi o suficiente para desmontá-la da postura defensiva, fazendo-a relaxar os ombros.   

Chichi se sentira a mesma menina apaixonada de dezoito anos quando convidara o colega divertido do curso de direito para assistirem Quem Quer Ser um Milionário no cinema. Dentre todas as pessoas do mundo, o homem que parecia desnudá-la com o olhar, era o único que ainda conseguia deixá-la desequilibrada e excitada.  

Involuntariamente, Goku sentiu vontade de tocar o queixo delicado dela e acariciar aquela pele aveludada, enquanto lhe garantia que tudo acabaria bem, deleitando-se com seus beijos ardentes.  Mas, provavelmente, ela morderia sua mão e arranharia sua face, isso na melhor das hipóteses. Chichi podia ser simpática, carismática, educada, porém, ele sabia muito bem, que por trás daquele rosto meigo, se escondia uma mulher feroz e arisca. Não era surpreendente que ela, mesmo impactada com todos os fatos recentes, se mantinha firme, sem histeria e sem desespero. Uma mulher valente, ele reconhecia. 

— Não vou tomar mais do seu tempo, ‘princesa’ – Goku se levantou quando percebeu que já estava perdendo o foco e deixando-se levar por emoções nostálgicas. — Embora sua beleza continue intacta, penso que uma noite de sono lhe faria muito bem. É importante que esteja descansada para aguentar esse início de temporada e enfrentar esse possível vingador psicótico. – O teor da voz dele, era puro profissionalismo, e Chichi sentira falta de toda a gentileza com a qual estava acostumada. — Precisarei de seu celular para averiguação... Penso que por ora não será muito revelador, afinal, criminosos são covardes; além de modificadores de voz, eles agem através de celulares descartáveis. Nem mesmo podemos ter certeza que é um homem. Mas, é assim que trabalhamos. 

— Eu conheço bem a forma de trabalho da polícia – ela estendeu o aparelho preto fosco para Goku, fazendo questão de soar amarga. E o detetive sabia bem do porquê. 

— Ótimo! A senhorita está dispensada, por hoje – ele soou enfático. —   Amanhã, eu e a detetive Lunch, voltaremos a te procurar, para darmos nosso parecer sobre o depoimento da outra bailarina. 

— Espera aí, eu serei obrigada a conviver com vocês dois, é isso? – o bico se formando sutilmente nos lábios de Chichi, fez Goku quase sorrir. 

Ele pegou a última barra de chocolate da bandeja e, se dirigindo até a porta, respondeu de maneira provocativa: 

— Enquanto sua vida estiver em risco... Sim. 

Ela apanhou a bolsa e ao passar por ele, parado com uma das mãos na maçaneta da porta enquanto a outra levava o doce até a boca, o lançou um olhar desafiador. 

— Então, mantenha-se em seu lugar, detetive. E, bem longe dos MEUS CHOCOLATES!

A forma brusca com a qual ela tomou-lhe a barra da mão, fizera Goku perceber o anel preso no colar em seu pescoço, e, de imediato, um sorriso esperançoso brincou em seus lábios. 

“Nosso elo continua intacto e a personalidade perigosamente atraente dela também. Linda, doce e ainda mais fera! Uau, que mulher!”

Ele refletira enquanto se dirigia até o estacionamento, encontrando a detetive Lunch escorada com os braços cruzados em sua negra mercedes esportiva. 

— E então, Son. O que achou do caso? – a loira perguntou junto ao barulho de destrave do automóvel.

— Ela continua a mesma rosa espinhosa. Atraente, arisca e perigosa – o detetive encarou a parceira já acomodada no banco carona. — Um caso desafiador – ele concluiu, dando partida no carro. 

Lunch gargalhou, apoiando os pés cruzados no painel à sua frente; uma bolha rosa de goma de mascar se formando em seus lábios, estourou, quando, com um olhar divertido, ela encarou o parceiro.  — Eu não perguntei sobre a vítima, Goku. 

— Quem está por trás dessas penas vermelhas, é só um psicopata obsessivo com o qual já estamos acostumados a lidar – ele girou o volante e acelerou o carro, fazendo o pneu cantar no asfalto com o brusco movimento. Uma manobra ousada, que desequilibrou a detetive no banco carona. Entendendo o recado do parceiro,  ela endireitou o corpo e o esboçou um dedo do meio antes de plugar o cinto de segurança. Ele riu.  — Seja sincera, tem algo mais interessante do que a princesa do balé londrino, nesse caso?

— Você e ela, já se pegaram, não é? – Lunch estourou mais uma bolha, enquanto procurava por uma boa playlist no streaming de música pelo painel interativo do carro do parceiro. 

— Usando da sua língua, digamos que eu e ela... vivemos um conto de fadas erótico no passado; assim como você e o senhor Han, no presente.  

♫  “We spent the late nights making things right between us”  

(Passamos as últimas noites acertando as coisas entre nós)

A loira cantou, abrindo a janela para sentir o gélido vento da madrugada, despenteá-la os cabelos. 

— Quando pegarmos o “Red Feather”, me lembre de agradecê-lo por ter me feito encontrar sexo decente. 

O pedido arrancou uma gargalhada alta de Goku que pisou fundo no acelerador rumo à delegacia.

        

 

Uma melodia clássica ecoava pelo minúsculo cômodo iluminado apenas por uma lâmpada de filamento.  A mão coberta por uma luva de couro, brincava de “Uni Duni Tê” pelas bonecas sentadas na prateleira, ao mesmo tempo em que os sapatos de grife, negros, gingavam sobre o assoalho repleto de plumas vermelhas.

O dedo indicador dançava da ruiva para a azulada; da esverdeada para a morena...  De repente, pausou, movimentando agitadamente, enquanto a mente repassava o próximo passo. 

Um sorriso doentio se formou na face pálida, que lhe conferia um ar fantasmagórico naquele ambiente, quando o barulho de gesso quebrando invadiu seus ouvidos. Seu desejo naquele instante, no entanto, era que, entre suas mãos, fossem os ossos do pescoço da verdadeira Chichi Cutelo. Imaginava-a gritando, implorando-o para que o quebrasse logo, após sofrer arduamente por cada lágrima que lhe fizera chorar. A faria pagar.

Sentindo um prazer indescritível só de imaginar a intensidade do brilho das preciosas ônix, no olhar da maldita princesinha, apagando-se lentamente; caminhou até a bancada fria de alumínio e jogou, de qualquer jeito, a cabeça da boneca na caixa de presentes. Por ora, iria aterrorizá-la aos poucos, tirar sua paz, ver o sorriso perdendo gradativamente a cor em seu rosto. Nada lhe faria mais feliz do que a morte de Chichi.

Girou, gingando o corpo para lá e para cá, como se regesse uma orquestra fantasma. 

Seu jogo de terror estava apenas começando. 

 


Notas Finais


Gostaram do reencontro? <3

Espero ler suas reflexões, detetives.

Beijos de luz.
♥️


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