História Red lips - Capítulo 1


Escrita por:

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Categorias Neo Culture Technology (NCT)
Personagens Ten
Tags Chittaphon, Nct U, Ten, Yugpabo
Visualizações 34
Palavras 1.283
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Universo Alternativo

Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Essa não é uma daquelas típicas histórias sobre garotos que usam batons. Vai além disso; vai além do manifesto, vai além de todos os alunos (incluindo meninos) do colégio aparecendo com seus lábios reluzindo ou de compartilhamentos em redes sociais. Vai além de quebrar padrões – na verdade, não é nem um pouco sobre isso. Se fala mais de uma questão de necessidade, da beleza que o vermelho traz e de como tudo parece não ter cor com sua ausência.

boa leitura!1 xx

Capítulo 1 - Capítulo Único.


Capítulo único

Um mundo avermelhado

 

A primeira lembrança que tenho em vida é de ver minha mãe passar, lentamente, um batom vermelho em seus lábios cheios. Tal cor contrastava perfeitamente com seu tom de pele levemente moreno, e este, por sua vez, combinava com seus cabelos negros e lisos. Ela, com seus olhos de jabuticaba, encarava a si mesma no espelho de sua penteadeira antiga... E eu? Eu a encarava também. Era impossível não fazê-lo.

Minha mãe era a mulher mais bonita do mundo, do tipo que traz um novo ar ao cômodo quando o adentra e que as pessoas se sentem agraciadas por poderem ter tamanha beleza em seus campos de visão.

Desde pequeno, observava atentamente minha mãe se maquiar. Nunca achei que isso a tornava mais bonita, embora. Ela era linda de qualquer jeito, por mais que não acreditasse nisso.

Muitas vezes acompanhei-a em buscas por batons de marcas conceituadas e passei horas lendo revistas de moda enquanto a esperava em salões de beleza. Isso era duramente reprimido por minha família, especialmente por meu avô, que lamentava a ausência de uma figura masculina em minha vivência diária – meu pai largara minha mãe assim que o anúncio que eu existia lhe chegara aos ouvidos –, mas minha mãe nunca se importou com palpites alheios quanto à maneira como eu era e deveria ser criado. Mamãe me fez ser quem eu sou, e isso ninguém mais poderia ter feito.

Meu avô dizia que eu não passava de um viadinho, de uma mulherzinha, mas eu apenas não queria assobiar para meninas da minha idade e sorrir perante de suas reações constrangidas. Filmes de super-heróis não me interessavam também, eu preferia a Audrey Hepburn. A única coisa que eu queria era estar com minha mãe, seja observando-a se maquiar ou passeando pelo shopping com ela, observando os vestidos caros nas vitrines e a imensidão de discos que uma loja que nunca soube o nome abrigava.

Minhas tias comentavam com minha mãe que ela supria seus desejos de ter uma filha menina comigo, e que fazê-lo era errado, e que ela deveria me deixar ser um menino normal. Mamãe apenas respondia que não acreditava nesse conceito que elas pregavam, e tal conceito também não me agradava. Eu preferia seguir o estilo de vida de minha mãe juntamente com ela, pois havia me apaixonado por aquele mundo vermelho repleto de batons e saltos altos. Eu gostava de dançar I Want To Break Free com ela e ficar lendo no aconchego de seu closet repleto de roupas e mais lindas roupas.

E não havia nada de errado nisso.  

Aos quatorze anos, minha mãe passou-me, pela primeira vez, um batom vermelho nos lábios. Observei, com meus olhos que de uma criança migravam para a flor da adolescência, o vermelho que passava a se apoderar de meus lábios até o último róseo resquício do que era puro e imaculado de fato. E me senti completo.

Olhando-me no espelho, naquele exato momento, eu me senti lindo.

Só queria saber do batom vermelho, nenhuma outra cor me agradava. O rosa soava muito frágil e o roxo trazia-me uma imagem fúnebre. O vermelho, por sua vez, era perfeito, reluzia em meus lábios um sentimento de força e amor, além de uma extrema beleza.

Aos quinze anos, ganhei o meu próprio batom. Lembro-me perfeitamente daquele dia: era um dia ensolarado e o céu mostrava-se de um forte e amigável azul. Os girassóis pareciam brilhar na floricultura que podia ser vista da janela de nosso apartamento, o Sol batia em confortavelmente em minha pele e então minha mãe apareceu-me com um sorriso a brotar na plenitude eterna de seu rosto jovem. Entregou-me assim singela embalagem que guardava algo que logo eu veria que para mim era algo deveras precioso.

Ao abrir o presente, presumo que meu rosto tenha se iluminado como nunca antes. Corri para o espelho para então passar o batom na boca, e mamãe veio logo atrás; pude ver pelo espelho o seu rosto sorridente e satisfeito. Naquele dia, tiramos uma fotografia, gastando o último filme de nossa velha polaroide, e olhando aquela imagem hoje, posso ver que éramos muito parecidos. Nossa personalidade diferia um pouco: mamãe tinha graça e classe, movimentava-se como uma verdadeira dama, e eu era um menino que tropeçava nos próprios pés e ficava com raiva do vento quando o outono chegava na cidade.

 Todavia, aos poucos, fui ganhando uma postura. Aprendi a andar com a coluna ereta e o chão abaixo de mim já não me amedrontava mais. O vermelho em meus lábios continuava a refletir, também, minha fúria do mundo quando eu guardava por entre meus dentes palavras feias e rudes que ansiava por proferir quando tomavam-me o direito de ser quem eu realmente era, inócuo menino que usava um batom na boca. Fui muito ingênuo com o mundo; se fechar meus olhos, posso sentir minhas costas doerem ao serem pressionadas contra o armário da escola e a gola de minha farda sendo amarrotada por um menino que me queria punir por eu ser um viadinho de merda. Se eu fechar os olhos, posso sentir também o nojo que foi ser beijado contra minha vontade por este mesmo menino e não poder dizer nada.

Tais acontecimentos são segredos sujos que irão morrer comigo, mas que não deixei com que me abalassem. Ergui meus ombros, retoquei o batom e permaneci minha caminhada, dessa vez sem dar ouvidos ao que diziam. Afinal, eu estava lindo. Era lindo. E isso era tudo o que importava, minha mãe me ensinara isso.

Minha mãe me ensinou a ser lindo.

Ao passo que cresci, no auge de minha juventude, meus olhos eram sutilmente destacados com delineador e o batom vermelho nunca era por mim deixado. Continuei a dançar Queen com minha mãe, e quando visitávamos lojas de maquiagem, comprava produtos para mim também. Ignorávamos os olhares tortos e eu pintava as unhas de mamãe quando chegava em casa.

Sinto que passei a vida toda esperando por momentos como aquele, e, infelizmente, estes não eram eternos. Sempre acreditei que minha mãe era, sim, eterna, mas é como já disse: fui ingênuo com o mundo. Assim como eu tomava o delineador de minha mãe, a morte a tomou de mim. Minto – tal comparação é absurda, o primeiro ato não é nocivo, e o outro, sim. O fato foi que minha mãe estava envelhecendo; seu corpo ficava cada vez mais frágil e chegou o dia em que ela disse adeus para a vida.

No funeral de minha mãe, o batom vermelho em meus lábios acompanhou o terno preto em meu corpo. Meus familiares fingiram que não me conheciam, e não me importei; não precisava deles. Talvez viesse em seus corações tamanha indignação de ver meus lábios brilhando em vermelho num momento tão preto e branco, mas não fiz aquilo para causar. Fiz aquilo porque aquele menino com batom vermelho nos lábios era e ainda é quem eu sou. Fiz aquilo porque era daquele jeitinho que minha mãe me amava e que eu aprendera a me amar também.

Naquele momento, minha mãe havia definitivamente ido embora, e agora a única parte dela que me restava era sua penteadeira, além da coleção de batons vermelhos.

Percebi o mundo cair aos poucos ao meu redor quando minha mãe não se passava de mera lembrança. Não a via, não podia vê-la, embora me viesse aos pensamentos todos os dias – e isso não me era suficiente; havia uma necessidade em tocá-la e desfazer-me em seu abraço para ter certeza de que estava tudo bem, que ela existia, que eu existia.

Com isso, aprendi que as coisas podiam ser eternas apenas enquanto duravam.

Exceto o vermelho, que sua duração era a eternidade.



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