História Red Velvet - Capítulo 7


Escrita por: ~

Postado
Categorias Yuri!!! on Ice
Personagens Georgi Popovich, Nikolai Plisetsky, Otabek Altin, Victor Nikiforov, Yuri Katsuki, Yuri Plisetsky
Tags Au Mafia, Long Hair Yuri, Otayuri, Smooth Daddy Kink, Victuuri
Visualizações 359
Palavras 4.620
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Drogas, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


quero que saibam que são 02:00 da manhã e eu explicando o nome do capitulo; bora que tem historia por trás pra ver como sou loca.
Enfim, lá estava eu linda e cansada no ônibus voltando do curso quando uma música do Johnny diva Hooker começou, ela em si não tem nada com o capitulo, mas uma frase ficou grudada na minha cabeça "você acha que é um Deus
Narciso pintado em ouro", e do nada eu lembro da história do Narciso ???? fui até na wiki e, finalmente chegamos ao nome do capitulo, Narke em grego significa entorpecido.

boa noite e fiquem com Yuri reflexivo

Capítulo 7 - Narke


Merda, merda, merda, merda, merda!

Não podia ser real, foi um sonho, apenas um sonho estranho com ele, não foi nada de mais. Apenas a porcaria de um sonho. Respiro fundo e fecho os olhos, ainda estava deitado em minha cama. Nada parecia diferente, eu não me sentia diferente. Eu passei à tarde de ontem jogando poker com Georgi, tinha o triplo da minha mesada com fichas guardadas no fundo da minha mochila, eu comi pizza e bebi um refrigerante barato no jantar. Lilia acordou, ligou para meu avô e eu falei com ele por quase duas horas, quando perguntei como as coisas estavam em casa ele tentou mudar de assunto, dizendo que não precisava me preocupar com nada; relutante eu acreditei na palavra dele. Pelo menos poderíamos voltar em dois dias. Eu tomei um banho demorado, Lilia puxou meu cabelo ao invés de me ajudar a pentear, fez alguns telefonemas e voltou para seu quarto; passei a outra metade da noite jogando 21 com Otabek na mesa de centro da sala, foi silencioso e eu odiava aquilo, o simples e maldito fato de não conseguir manter uma conversa com ele sem desejar ficar apenas o encarando estava começando a me irritar. O foda era que Otabek parecia sentir o mesmo, eu não sabia quantas vezes tive que refazer as contas das cartas em minhas mãos, ou quantas vezes o peguei me encarando profundamente; ficávamos um sustentando o olhar do outro em uma disputa interna para ver quem aguentava mais. Ele estava começando a ganhar. Eu lembro de me deitar no sofá com ele sentado no chão ao meu lado, eu o via encarar minhas pernas e para provocá-lo eu as cruzei ao seu lado, pude jurar ouvi-lo engolir seco assim como a mudança leve de expressão, ele parecia nervoso ao meu lado e aquilo era divertido. Eu gostava da sensação de ser olhado por ele. Otabek não me olhava como os outros empregados do meu avô, tinha algo diferente ali. Não apenas o “neto do Nikolai”, mas como eu mesmo. Eram raras as vezes que ele me chamava de “senhor”, Otabek me tratava como igual.

Ele tinha um ponto. E um acréscimo só porque gostava do jeito que ele dizia meu nome. Em algum momento uma manta foi coloca sobre minhas pernas e eu adormeci. Foi quando as coisas ficaram estranhas. Quando eu era mais novo meu avô me dizia que os sonhos são reflexos de desejos internos, ou apenas um amontoado confuso do que passamos pelo dia. Talvez aquele pré sonho que tive no sofá da sala fosse às duas coisas. Odiei o fato de Otabek ter me acordado daquele jeito, já não me bastava o sonho e ele ainda veio me tocar, certo que foi um cutucão, mas mesmo assim havia algo naquele toque que formigou em minha pele; não era a mesma coisa que senti quando suturei o corte em suas costelas, as minhas mãos estavam geladas e pele dele quente. Aquele arrepiou descia por minha coluna, doía na boca do estômago e se espalhava pelo meu peito.

 Respiro fundo mais uma vez e abro os olhos, o teto branco me encarava de volta, as paredes tinham um padrão de luzes estranho devido à renda das cortinas, tudo tinha um reflexo rosa amarelado. Eu me lembro ter voltado para meu quarto irritado, ele havia me acordado na melhor parte do sonho, e por algum motivo eu não queria dormir insatisfeito com aquilo; eu me deitei e me toquei com a lembrança do sonho.

Eu queria as mãos dele no lugar das minhas, a boca dele no lugar da fronha cobrindo meus gemidos, eu queria o peso dele no lugar das almofadas, eu queria aquela boca marcando minha virilha, me expondo, excitando; queria os dentes dele no lugar das minhas unhas. Sentir os músculos se tencionarem com meu toque, queria meu nome saindo de sua boca como uma reza. Eu me arrepiava só de pensar na respiração quente em meu pescoço. O desejo de ouvir como minha voz ficaria ao gemer por ele foi meu fim.

Não havia sido um sonho. Eu realmente fiz aquilo, eu devia me envergonhar, mas tudo que eu conseguia pensar era em como havia sido bom. Eu gemi por Otabek, eu gozei pensando nele. Me sento, passando as mãos pelo rosto na tentativa se limpar a baba seca dos cantos da boca. Inútil. Sinto o peso de Potya no pé da cama, arranhando os cobertores ao se espreguiçar, vindo até mim na busca de seu carinho matinal ao se enfiar em meus braços, apoiando as patas dianteiras em meu peito e enfiando a cara na curva do meu pescoço. Ela passaria o dia me ignorando, trocando seus brinquedos pela barra da calça de Otabek, ou deitando nos casacos de Lilia; mas a melhor parte era ver Georgi com medo quando ela o seguia pela casa. Ela só queria brincar, – como eu disse, às vezes ela parecia um cachorro – sendo trazendo um inseto morto ou ficar miando para o nada. Eu nunca entendi porque Georgi a chamava de demônio, ela era um anjo. Ela gostava de Otabek.

Ele devia estar na sala agora, lendo ou vendo as notícias na TV, ouvindo as ordens do dia e tomando seu café em silêncio enquanto Georgi devia estar voltando para o quarto. Algo no fundo do meu estômago gritava ao me dizer que ele tinha me ouvido ontem à noite, e esse mesmo algo dizia para voltar a dormir e só acordar quando tudo a minha volta me fizesse crer que nada daquilo era real.  Eu não sabia por que estava tão nervoso para sair do quarto, eu era melhor que isso. Não era eu quem queria provocá-lo porque achava divertido? Qual era a merda do meu problema?

– Eu não tenho outra escolha, não é? – perguntei a Potya, segurando sua cabeça entre as mãos. Ela miou em resposta, batendo a pata em minha boca. – Você deveria ser rude com ele, sabia? – outro miado – Eu sei. – Potya mia de novo, dessa vez ponto as duas patas sobre minha boca. – Eu podia te treinar para isso. – ela me olha, as unhas apertando meus lábios – Você não pode ir com ele. – ela começou a ronronar – Não é porque ele fez carinho em você que também é seu dono. – juro por Deus, aquele ronronar ficou triste do nada – Não vou mudar de ideia. – Potya se mexeu até finalmente se livrar das minhas mãos e desceu da cama, ela ficou arranhando a porta. – Você vai me trocar logo cedo? – disse a ela enquanto me livrava dos cobertores, por algum caralho de motivo eu me lembrei do sorriso que ele deu enquanto brincava com Potya em seu colo ontem.

Ele não era de mostrar muitas expressões faciais, mas ontem? Porra, o que era aquele sorriso?! Suspiro pesado ao por a mão na maçaneta, aquela sensação descendo por minha coluna de novo, se espalhando por meu peito, doía. Eu sentia meu rosto vermelho.

– Como faz pra isso parar? – minha voz sai quase em um sussurro ao finalmente abrir a porta, Potya corre pelo corredor, pela fresta da porta eu a vi arranhar as pernas de Otabek, e antes de pensar em qualquer merda eu apenas fechei a porta e me deixei escorregar até o chão.

                Quanto tempo era necessário para desenvolver uma queda platônica por alguém? Começo a rir da minha própria desgraça, tudo era tão irônico que chega a ser trágico. Eu não me sentia envergonhado por isso, mas culpado por achar que estava nutrindo algo por ele. Ainda mais naquela velocidade, a parte racional me dizia que era apenas atração, um tesão estranho por me sentir desejado não pela porcaria do status social, mas por quem eu era de verdade. Dou fim ao ataque de risos com um suspiro pesado, triste comigo mesmo. Eu ia, precisava, superar aquilo; todas as consequências do que eu podia fazer me vieram a cabeça. Otabek não podia perceber meu estado, ele se preocupava demais e tê-lo na minha cola o dia todo era a última coisa que queria agora. Lilia ficaria em casa hoje.

Com as ideias no lugar eu me levanto, arrastando os pés até o banheiro. Eu estava horrível e meu cabelo pior ainda; dentro do armário sobre a pia eu procuro algo prende-lo de qualquer jeito antes de lavar o rosto, eu tomaria um banho mas a fome era maior. Me apoio na pia e me olho nos olhos, as olheiras ainda estavam ali e a linha do meu maxilar parecia mais fina, a mancha roxa no meu pescoço havia sumido, desço os olhos até meus ombros parando no lugar onde ele havia encostado. Eu ainda sentia formigar.

– Não pense merda, Yuri. – falei ao abrir a porta, aquele cheiro de pão vindo da cozinha me chamava alto.

Porém, o passar pelo quarto que ele dividia com Georgi meus pés travaram no chão. Eu senti meu peito gelar e esquentar tão rápido que o ar me faltou; ele só estava trocando a camisa, então porque a batedeira? Talvez fosse luz, mas tudo aquilo parecia melhor agora, o peito defino, o abdome, até mesmo algumas cicatrizes espalhadas, a linha de seu ventre... Não pense merda, Yuri. Quando ele terminou eu senti que minha boca estava levemente aberta, Otabek ficou me encarando, o rosto dele estava vermelho e eu não pude fazer nada a não ser desviar o olhar e voltar a andar até a cozinha.

– Água pela manhã? – perguntou Lilia.

– Estou com sede, só isso. – minhas mãos tremiam ao segurar o copo, batia nos meus dentes. Eu sentia o olhar dela em mim, mas como todo dia eu apenas ignorei e caminhei até a mesa de jantar, Georgi lia o jornal e eu comi em silêncio. Não queria olhar, mas foi automático. Eu praticamente o sequei enquanto ele se servia de um pouco de café, as mangas longas do moletom cinza cobrindo parte dos dedos, Otabek sustentava meu olhar, a expressão confusa e as bochechas levemente coradas, os lábios secos apertados em uma linha fina. Otabek tinha as olheiras fundas, ele parecia ansioso, suspirando pesado ao desviar o olhar. Merda.

– Vocês estão estranhos. – disse Georgi, quebrando o contado visual entre mim e Otabek.

– Impressão sua. – respondi. Otabek não disse nada, apenas puxou a cadeira e continuou quieto como sempre.

Lilia voltou da cozinha, o bule com seu inseparável chá. O segredo de sua magreza estava na quantidade de gengibre que ela jogava naquela água. Georgi trocava algumas informações com ela, ao que tudo indicava ela passaria a tarde fora de novo, e eu ficaria com ele. Aquilo não agradava Lilia, e pela primeira vez eu fiquei nervoso com a situação. Respiro fundo quando ela me disse aonde ia e quanto tempo demoraria, eu precisava me acalmar, era só um dia, eu só tinha que agir como se aquilo não me afetasse. Seria fácil.

Depois do café Lilia me obrigou a arrumar o quarto e separar o suficiente de roupas para os últimos dias em São Petersburgo, “você já pode voltar às coisas para a mala” disse ela, não que aquilo fosse ruim, eu sentia falta da minha cama, do meu quarto, de não dividir o banheiro com a casa inteira, eu sentia falta até da empregada que me trazia a roupa limpa e contava alguma fofoca, mas principalmente do meu avô; a voz chiada pelo celular não era o suficiente. Noticias vagas sobre a casa não me eram o bastante para que minha preocupação diminuísse, eu não gostava do jeito que Viktor fazia as coisas e essa história com a Yakuza ainda daria muito pano pra manga. Suspiro cansado, não aguentava mais dobrar as roupas ou tentar parar de pensar no que poderia estar acontecendo em casa, ou em ontem à noite. Soltei um som frustrado e fechei a mala, me levantei e com passos pesados fui até o quarto ao lado. Ele e Georgi conversavam sobre a troca de turnos de amanhã e as vozes abaixaram até sumir quando me viram na porta, esperando que falasse algo.

– Altin, – chamei – podemos conversar? – ele se levantou da cama e me seguiu até a cozinha, não havia ninguém ali. Eu me encostei na pia, cruzei o braços e olhei para o piso gasto. Otabek continuou em silêncio. Era pesado, fazia meus joelhos tremerem de nervosismo. Era só atração física, eu mal o conhecia. Mas eu precisava tirar umas das preocupações da minha cabeça. Ergo os olhos para ele, Otabek parecia preocupado com aquelas sobrancelhas franzidas – Eu quero te perguntar uma coisa. – finalmente digo.

– Claro.

– Você ouviu alguma coisa ontem? – ele perdeu a cor, olhou para baixo e enfiou as mãos nos bolsos. – Eu não quero que você pense algo estranho. Olha pra mim. – Otabek levantou o rosto, seus olhos se prenderam nos meus e eu andei até ele, poucos passos de distância. Eu senti meu peito queimar, meu coração parecia derreter quando senti o calor que vinha dele, daquele olhar – Você ouviu ou não algo ontem?

– Você quer que eu responda o que quer ouvir, ou o que realmente aconteceu?

– Qualquer coisa.

– Eu ouvi. – engulo seco, e mesmo sentindo meu rosto queimar não desvio o olhar, apenas dei outro passo para frente prendendo-o a parede ao lado do armário. – Mas me faço de surdo se quiser.

– Você parece um cachorro, sabia? – eu podia sentir seu hálito – Se eu falar pra lamber o chão você vai?

– Se isso te fizer feliz, eu lamberia até vidro.

– Qual seu problema?

– Acredite, eu também gostaria de saber.

Me afasto dele, porém Otabek avança até que estivesse com as costas na pia novamente. Eu não queria mais daquele contato visual, e mesmo assim eu o forçava, aguentava ser avaliado até a alma, mesmo com minhas mãos tremendo de ansiedade por qualquer coisa que ele fosse fazer; a respiração dele falhava. Eu devia retrucar, agir primeiro, mostrar que podia controlar minhas emoções mesmo com tudo aquilo bem ali a minha frente, há exatos três passos de distância. Eu não queria demonstrar o quanto aquilo começou a me afetar; ontem não devia significar nada, mudar nada.

Otabek inclina o corpo em minha direção, dois palmos, eu abri a boca para falar primeiro, puxando o ar com força, vendo-o descer os olhos até meus lábios, um palmo. Eu me peguei olhando para sua boca, os lábios grossos e carnudos, ele passou a língua por ali, meio palmo...

– Yuri! – era Lilia, sempre havia algum empecilho quanto tentava conversar com ele. Engulo em seco, sentindo-o se afastar com pressa, o ar voltou aos meus pulmões e pude ouvi-lo pigarrear disfarçando enquanto abria a geladeira só para não me olhar. Lilia vinha com passos firmes até mim. Meu Deus! Eu estava gritando por dentro ao tomar consciência do que quase aconteceu. – Onde você estava?

– Aqui o tempo todo. – falei.

– Eu estou saindo, quer alguma coisa?

– Doces. – sumir.

– Yuri.

– Foi você que perguntou.

– Não vou precisar repassar as regras, não é? – ela olhou pra Otabek, ele ainda olhava a geladeira, disfarçando com uma garrafa de água na boca – Você ainda está com os números que te dei no outro dia?

– Sim.

– Ótimo. – Lilia segurou meu rosto entre as mãos, fazendo uma pressão leve em minhas bochechas, mas foi o suficiente para me deixar com a cara estranha – Não fuja. – depois da praia? Não, obrigada – Tudo o que você precisa está aqui. – ela soltou meu rosto, dando o conhecido tapinha logo em seguida. – Se comporte. Os dois. E Yuri?

– O que?

– Lave o cabelo.

Eu ia responde-la, mas Lilia já marchava para fora da cozinha, pegando a bolsa sobre a mesa. Georgi carregava uma mala de couro nas mãos, e um casaco na outra. Estava sozinho com ele. Ouço a porta da geladeira fechar finalmente, sentindo-o parar ao meu lado. Ficamos em silêncio por uns cinco minutos, e pela primeira vez eu me senti confortável com aquilo. Foi bom para me acalmar, o ar já não arranhava em minha garganta e a sensação em meu peito era mais suportável.

– Eu espero que nada fique estranho. – falei enquanto ele caminhava para fora da cozinha.

– Não vai. – Otabek se vira para mim, mordia o interior da boca com força, suspirando em seguida – Eu disse que me faria de surdo, lembra?

Eu quase ri, puta merda ele levava as coisas muito a sério. Otabek me deixou ali sozinho na cozinha, eu tentei não olhar para a bunda dele enquanto andava; estava caindo na minha própria mentira de superação. Mesmo sabendo que precisava.

Estávamos no chão da sala, havia começado a chover e o frio consequentemente aumentou no final da tarde, eu ouvia Potya roncando na poltrona e Otabek estava na cozinha fazendo alguma coisa para beber, tinha cheiro de café e chocolate. Se eu não tivesse comido todos os biscoitos amanteigados seria o acompanhamento perfeito. Devido a chuva algum disjuntor do pequeno condomínio queimou, a fraca luz cinza passava pelas cortinas agora abertas, eu contei 256 pregos no forro da sala, 14 castiçais e em uma única pilha de 25 livros. Fotografias antigas e amareladas, o inconfundível cheiro de limpeza e madeira. Otabek apareceu na porta da sala, viro o rosto em sua direção esperando que ele falasse algo, ele tinha um vidro pequeno de algum condimento nas mãos.

– Você quer canela? – nego, vendo-o voltar para a cozinha, mas parando no meio do caminho – Yuri, você comeu todos aqueles biscoitos? – assenti, e puta merda, lá estava aquele sorriso de novo; ele devia estar se perguntando como eu havia conseguido comer tudo aquilo sozinho. Um tempo depois ele voltou da cozinha, as duas xícaras nas mãos, Otabek se sentou ao meu lado com as costas no sofá. Ainda estava com as pernas no sofá quando ele deixou minha xícara sobre a mesa de centro, eu o vi soprando o vapor com calma enquanto trovejava lá fora, Otabek queimou a língua no primeiro gole. Me viro para a janela, a chuva havia engrossado, acumulando neve no beiral, eram só 16h00 e parecia quase meia noite; que dia de merda. Não havia nada para se fazer, nada para comer, meu celular estava sem bateria, e o silêncio era constante. Eu precisava fazer alguma coisa ou acabaria derretendo com aquele tédio.

– Vamos jogar alguma coisa. – falei ainda olhando para a janela.

– Eu vou perder dinheiro com isso? – perguntou.

– Se você quiser apostar, – disse tirando as pernas do sofá, me sentando direito e virando para ele – eu posso pegar as fichas.

– Não, eu passo. O que quer jogar? – ele encosta a xícara na boca, mas não toma. Ele estava apenas achando um jeito de esconder o rosto enquanto me encarava. As sobrancelhas levemente franzidas enquanto me via pegar a xícara sobre a mesa. Aquele era o melhor chocolate quente que havia tomado na vida.

– Vinte e um.

– As cartas de novo?

– Não, vinte e uma perguntas. – ele me olhou curioso, deixando a xícara sobre a mesa e ficando de frente para mim. – Você me faz vinte e uma perguntas, e eu faço o mesmo com você.  – Otabek cruzou as pernas como um índio, apoiou os cotovelos no joelho e juntou as mãos perto do queixo – Mas vamos por um limite, ok?  Nada de perguntas estúpidas.

Otabek ficou em silêncio por um tempo, a mão sobre a boca, pensando sobre os pros e os contras daquele jogo. Depois da tensão hoje de manhã na cozinha, – e minha total falta de vontade de tentar superar qualquer coisa que estivesse ou não nutrindo por ele – eu decidi que se Otabek seria meu guarda costas, eu pelo menos teria que saber algo dele, ter um motivo além da tensão sexual. Se fosse pra viver aquilo, então que fosse com a consciência limpa e ele ciente da situação. Eu não me importava mais com aquilo, meu desejo agora era que ele apenas tomasse algum tipo de iniciativa, que ligasse o foda-se pelo menos uma vez. Puta merda, se não fosse Lilia me chamando só Deus sabe o que teria acontecido naquela pia; eu podia sentir a mesma tensão vindo dele, eu suspirava pesado quando o via ou quando reparava que ele me seguia com os olhos. Ele sequer disfarçava.

– Justo. – disse finalmente.

– Quer começar? – pelo amor de Deus, eu não tinha nada formulado.

– Quero perguntar uma coisa antes, e isso não tem muito a ver com o seu jogo.

– Vá em frente.

– E se alguém não quiser responder? Se sentir desconfortável ou algo assim.

– Pulamos a pergunta, e pagamos uma punição depois. 

– Como o quê?

– Quando voltarmos para Moscou, vamos naquela hamburgueria de novo.

– Eu estou falido, Yuri. – suspirou.

– Eu sei. – sorri.

– Certo, vamos jogar isso. Mas você começa.

Varias perguntas vieram à mente, mas nenhuma delas parecia boa o suficiente para começar. Eu podia perguntar o que ele fazia nas horas vagas, como conseguiu montar aquela moto sozinho, sua idade, onde aprendeu a fazer aquele chocolate quente, por que só usava a palheta de cor preta e cinza. Otabek apertou os lábios em uma linha fina, ergueu as sobrancelhas, esperando. Eu sabia que tinha que ir devagar, tomo outro gole do chocolate, prendendo o olhar dele no meu.  Pergunte qualquer coisa Yuri, qualquer coisa que não seja estúpida.

– Por que você não tem um emprego normal? – quando ele sorriu, eu tive certeza que aquilo era estúpido.

– Eu tinha um emprego normal antes, – ok, poderia dar certo – mas não me rendia o suficiente pra sustentar minha casa.

– Por isso veio pra Rússia?

– Como sabe que eu vim pra Rússia?

– Essa é sua primeira pergunta?

– Pode ser.

Silêncio. Engulo em seco, meu chocolate quente havia acabado e Otabek suspirou.

– Sim, foi por isso que vim pra Rússia. Mas eu acabei me metendo onde não devia e quando percebi estava no meio de uma rinha de gangue, apostando minha cara por um pouco de dinheiro para ter o que comer. No começo foi divertido, ossos quebrados e o olho roxo todo final de semana, nunca me faltou um trocado no bolso. Mas as coisas ficaram violentas com o tempo; minha família pedia cada vez mais dinheiro e eu não tinha. – ele parou de repente. Eu não o forcei a continuar.

– Eu sei que você não é daqui por dois motivos, – falei. Ele parecia aliviado por não continuar a falar. – seu sotaque é diferente, – Otabek abriu um sorriso largo, constrangido – mas não se preocupe, eu acho bonitinho. E o segundo é que você foi o assunto no escritório por quase um mês, “o garoto novo”. – fiz aspas – o que me leva a próxima pergunta: há quanto tempo trabalha para o meu avô?

  – Dois anos.

– Dois anos?! Como eu nunca te vi pela casa?

– Eu fazia as entregas, e até onde me contou, você ficava preso em casa. – então ele ficou no meu lugar nas entregas? – Georgi me contou do seu castigo, quanto tempo você ainda tem de prisão?

– Bom, – suspiro – se contarmos ao meu avô sobre a praia, talvez eu ganhe mais um mês. A proposito, obrigado por não ser um cuzão e ter contado a Lilia sobre o que aconteceu.

  – Ela já me odeia, por que eu iria cutucar a raiva dela?

– Por que ela te odeia? – aquilo era até preocupante, não que tudo na vida fosse um mar de rosas, mas pra odiar alguém você precisa de um motivo.

– Isso é uma coisa que eu gostaria de saber. Talvez ela não goste da minha cara.

– Impossível. – minha voz saiu quase em um sussurro, mas ele me ouviu e eu senti meu rosto esquentar. Eu agradeci ao meu cabelo caindo por meu rosto quando abaixei a cabeça encarando minhas mãos. Porra, por que eu disse uma coisa daquelas?

– Por que você deixa o cabelo crescer? – perguntou calmo. – Não dá trabalho pentear tudo isso?

– Trabalho? – ri nervoso enquanto o olhava, era um inferno desembaraçar aquilo sozinho – Não, é um exercício de paciência, sabe, lavar duas vezes, usar um condicionador que não piore a situação, passar o pente de baixo para cima e depois da raiz para as pontas todo santo dia, hidratação e tudo mais. Chega uma hora que aparecem uns cachos por motivo nenhum. E... – pego uma mecha de cabelo, ele estava quase na altura das costas, uma massa de fios pesados caindo e enroscando em qualquer coisa. – Eu sinceramente não sei por que o deixo crescer tanto, eu acho bonito, só isso.

– Ele é bonito. – comentou, aquilo fez as juntas dos meus dedos relaxarem e senti o peso da mecha caindo em meu ombro – Até quando você acorda e ele parece um monte de feno e amaçado de um lado, ele é bonito de qualquer jeito.

Engulo em seco, e Otabek suspira alto ao tomar consciência do que havia falado tão descaradamente. Aquela sensação tomou conta do meu peito de novo e eu rezei para que ele não percebesse nada, até porque ele mesmo parecia abalado com alguma coisa. Eu devia quebrar o gelo.

– Eu reparei que você não come carne, é vegetariano ou algo assim?

– Eu evito comer carne vermelha. – respondeu.

– Então porque mordeu meu hambúrguer aquele dia?

– Você comia aquilo com tanto gosto, queria saber se estava tão bom quanto parecia.

– Você quase não me perguntou nada.

– Tem alguma tatuagem?  Piercing? Quantos?

– Nenhuma, e são sete.

– Algum deles doeu?

– Não que me lembre. São perguntas muito vagas, Otabek.

– Gosto de te ouvir falar.

– E do que mais você gosta? – eu me inclinei em sua direção, Otabek travou, o rosto ficando tão vermelho quando a jaqueta que eu estava usando. Eu não pude conter o sorriso se abrindo em minha boca, pela primeira vez o calor em meu peito era confortável. Otabek desviou olhar, segurando um sorriso ao morder o lábio inferior. Ali estava ela, bem na minha cara: a confirmação que eu queria. Ele queria. A respiração dele falhou quando me apoiei em minhas mãos e me inclinei um pouco mais, estávamos na mesma distância de hoje de manhã, talvez menos. O hálito se misturando enquanto ele se apoiava no chão na tentativa de se afastar, Otabek se sentia tão atraído quando eu. A única diferença ali era que talvez ele soubesse disfarçar, ficando na dele enquanto eu simplesmente me enfiava no quarto e me tocava sem vergonha alguma de acordar um pouco rouco de gemer a noite por algo que não podia ter. Mas ali, agora, tudo parecia querer acontecer, no momento em que seus olhos se prenderam nos meus, no jeito que lambi os lábios, quando ele avançou um palmo em minha direção ao invés de fugir. Um alarme imaginário gritava na minha cabeça, era errado. Por mais que ambos quisessem aquilo, tínhamos que simplesmente empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Fecho os olhos, sentindo a respiração dele invadir meus pulmões – Se Lilia não tivesse aparecido hoje, o que você teria feito?

– Quem sabe.

– Você iria se arrepender se tivesse acontecido? – eu o olho, estávamos tão perto que doía.

– Não. – daquela distância eu o ouvi engolir seco, Otabek prendia a respiração quando me afastei, ousando por as mãos trêmulas em seu peito, sentindo os músculos firmes. Subo os dedos até seus ombros, deixando as mãos em sua nuca. Otabek tremia ansioso; meu estômago voltou a doer, não consegui controlar o arrepio em minha coluna ou o calor em meu peito, ele percebeu – Você também sente isso? – ri nervoso.  

– Tá tão na cara assim? – Otabek sorriu, tocando meu cabelo e o colocando atrás da orelha.  Arranho sua nuca suavemente, puxando os fios curtos entre os dedos. Eu estava quase em seu colo, uma de suas mãos havia pousado em minha cintura, apertando suave. Aquilo queimava. Estava acontecendo rápido demais, era até estranho. – Isso vai parar um dia?

– Posso pular essa pergunta?

– Você me deve um hambúrguer. O mais caro.

– Quantos quiser, Yuri. Mas não me obrigue a responder. – eu comecei a rir.

Por que ele tinha que ser assim? 


Notas Finais


vocês pediram, tá ae, até sei lá quando e perdoem os erros


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...