História Redentor - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias Saint Seiya
Personagens Aiolia de Leão, Aioros de Sagitário, Algol de Perseu, Camus de Aquário, Dohko de Libra, Hades, Hyoga de Cisne, June de Camaleão, Miro de Escorpião, Pandora, Radamanthys de Wyvern, Saga de Gêmeos, Saori Kido (Athena)
Tags Angst, Auto-penitência, Comfort, Drama, Hurt, Lavagem Cerebral, Psicológico, Seita Religiosa, Tortura
Visualizações 191
Palavras 8.111
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Famí­lia, Lemon, Mistério, Policial, Romance e Novela, Suspense, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Homossexualidade, Incesto, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, meus queridos

Vamos ao terceiro capítulo de "Redentor". Estejam atentos aos avisos, por favor. Nada aqui tem intuito de romantizar violência, a mesma serve apenas à trama e ao que nela irá se desenrolar.

No discurso de Hades, talvez alguns percebam que, em relação ao que ocorre na fic "Dame Jolie", o emprego do "vós" é bastante irregular e por vezes, equivocado. Isso é intencional e retrata um padrão no modo de falar de líderes carismáticos, que costumam misturar os níveis de linguagem. Exemplo: "Todos vocês são pecadores, sim, vós que aqui estão, pecadores sois!" Vendo vídeos eu percebi isso. Percebo em pregações de rua e transmissões televisivas de cultos também. Algumas Bíblias ainda possuem a linguagem mais rebuscada, outras, mais modernas, já adotam "você(s)", pode ser esta uma das razões da confusão.

Quando os personagens estiverem lendo ou citando a Bíblia, darei preferência às versões tradicionais.



ATENÇÃO - neste capítulo (nas partes em negrito e itálico, POV de Camus):

- Orgasmo forçado
- Non-con
- Uso de drogas não intencional
- Estupro

...

vamos então?

Capítulo 3 - Messias - Ato III : Lágrimas de Sangue


A música suave e constante marca o ritmo de meus passos. Sinto-me flutuar por sobre o fosco assoalho de madeira; por ele a barra da túnica alva que cobre meu corpo dolorido se arrasta, tolhendo ainda mais meu incerto caminhar. Um dos Arautos me pergunta se estou bem. Antes que eu lhe responda, ele é duramente repreendido por outro, mais velho, por “ter se dirigido ao Messias”. Não lhes é permitido. O rapaz se desculpa, nervosamente. Gostaria de agradecer sua preocupação ao menos com  um sorriso. Mas... eu não consigo.

Mesmo manter meus olhos abertos me é custoso.

Paramos diante de uma porta branca.

Eles esperam por mim.

Não.

Esperam por ELE.

Ele... que vive em mim.

Um dos meus acompanhantes abre a porta.

Eu sei o que devo fazer. Devo fazer. Devo ser...

Começo a descer pela estreita escada, iluminada por lamparinas. Frágeis teias de aranha brilham sob a luz mortiça.

Ao final dos degraus, uma irmã de longo vestido cuja cor não posso distinguir aguarda-me. Ela se ajoelha, respeitosamente. Apenas espero que ela se levante e separe as grossas cortinas de veludo púrpura para que eu acesse o Santuário.

Aperto as pálpebras,  devido ao golpe súbito das luzes intensas.

Aplausos eclodem pelo amplo lugar.

Centenas e centenas de pessoas (eu acho que são centenas) explodem em devoto júbilo, enquanto mantenho-me imóvel, observando-as. Elas sorriem, riem, choram, exclamam palavras de agradecimento... por minha aparição.

Não é algo que aconteça frequentemente, embora eu não possa tampouco precisar a frequência... tempo para mim é uma incógnita, é algo que apenas aos outros pertencem.

De qualquer modo, hoje é uma noite especial.

É a Vigília dos Santos.

Estas pessoas estão em jejum há dias, preparando-se para este auspicioso encontro.

O encontro com o seu Redentor.

Passaram o dia em oração, reunidas aqui unicamente para este momento de comunhão.

Meu pai terreno situa-se imponentemente no centro do palco. Seu traje, negro como os longos cabelos, contrasta com a luminosidade ao seu redor. Ele estende a mão para mim, conclamando que eu desça do topo do palco. Ao pé da pequena escadaria, um grande trono. Nas laterais do púlpito, tronos menores nos quais estão assentados meus dois irmãos, ricamente trajados, e quatro dos mais importantes assessores de meu pai, chamados de Vigias.

Seus nomes, Minos, Aiacos, Asterion e Capella.

Eu desço pelos degraus acarpetados até onde está meu pai terreno. Ele se aproxima e se ajoelha. Toma a barra de minha túnica na mão direita, leva até seus lábios... beija-a com reverência. Miro sua intimidante figura curvada a meus pés. Em seguida, direciono meu olhar para os fiéis. Agora reina um silêncio absoluto. Parece que todos mantêm suspensas suas respirações. Eu os julgaria mortos, não fosse o fulgor em seus olhos esgazeados, cravados todos em mim. Deixo meu pai terreno e caminho lentamente até mais à frente. Neste instante, meus irmãos e os Vigias dobram seus joelhos à minha passagem.

Detenho-me quase na beirada da estrutura, de onde contemplo o mar de gente.

Eu sinto seu amor.

Eu sinto sua dor.

Eu sinto sua fé.

Eu sinto... o clamor de seus semblantes contritos, vindo a mim como uma brisa morna, que ainda assim me arrepia.

A voz de meu pai eterno estilhaça o mutismo reinante, trovejante, profunda, dominante.

“Galileus, por que olhais para o céu? Este mesmo Jesus, que dentre vós foi elevado aos céus, voltará da mesma forma como o vistes subir.” (1)

De algumas bocas entreabertas escapam algumas exclamações:

“É ELE...!”

“Deus seja louvado!”

“Vejam... o Messias...”

“Vejam, vejam... o nosso Salvador... ali...”

São abafados, tementes, incertos em seu maravilhamento.

“Irmãos, a Palavra se cumpriu. O Jesus que foi elevado aos céus... voltou da mesma forma... encarnado mais uma vez. Sangue mais uma vez. Corpo mais uma vez. Seu hausto santificado por sua herança espiritual. Ei-lo aqui...”, meu pai eterno brande as mãos em minha direção. O calor que sobe pelo meus membros intensifica-se. “Está em João 3:16, `Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.’”

“Amém! Amém!”, murmuram, em uníssono.

Meu pai sorri para mim, terno. Tão terno que a visão de sua complacência aninha minha alma, como um dia minha mãe morta aninhou-me entre seus seios palpitantes.

Minha face arde.

As luzes.

O amor.

A fé.

Meu pai sorri. Então volta-se para a plateia. Não lhe vejo o olhar que faz a todos se calarem novamente.

“Filhinhos meus”, fala, o microfone devidamente ajeitado, “nesta noite vocês se reúnem aqui sob o manto da Graça de Nosso Senhor, pois que sem ela, nada seriam. Nada seriam, nada são e nada serão, se não for pela misericórdia daquele que tudo sabe, tudo vê... e Ele sabe... e Ele vê... Ele vê o coração de cada um que está aqui. Ele sabe o que vai na alma de cada um de vocês. E o que Ele vê, meus amados... aaaah, o que Ele VÊ... a ínfima fração do que Ele vê seria o bastante para atirá-los ao lago de fogo e enxofre do Inferno por toda uma Eternidade!”

Não mais vejo o amor, a euforia, o júbilo em seus semblantes.

“Homens. Mulheres. Anciãos. Crianças.”, ele prossegue, gravemente.

Eu não sei precisar o que vejo nas ovelhas.

Eu não sei.

Mas... me dói em ver.

Desperta-me piedade.

Foi assim que Ele se sentiu?

Decerto que sim.

Hades ergue o rosto, mira ao redor. Anda devagar pelo palco enquanto prega:

“Filhinhos, sua fé não é o bastante. Suas obras não são o bastante. Suas intenções não são o bastante. Grandes são os vossos pecados, os céus choram a cada despertar vosso nesta terra magoada... mas eis que, Consciente da miséria em que irremediavelmente residem suas existências, do hórrido fim a elas destinado por direito e justiça, Deus enviou Seu Filho mais uma vez...”

Seus olhares lastimosos sobre mim são flocos de neve que caem sobre meu corpo quente, dormente... mantenho-me sereno, quero que saibam que em mim HÁ paz.

Ainda que eu não saiba o que é a paz.

Mas eu devo?

Conheceu meu Antecessor a paz?

“A Palavra diz que o Filho de Deus, em sua segunda vinda a esta terra, levaria sua Noiva, a Igreja... vós... para o céu. Mas”, ele frisa, duramente, “eis que há muito, muito, o mundo jaz no Maligno, e de tal forma que o Arrebatamento tornou-se ameaçado. Assim como Deus se arrependeu de ter criado o homem (2), Ele se arrependeu de ter planejado o Arrebatamento. Como colher bons frutos em uma plantação totalmente comprometida por pragas? Uma fruta podre apodrece todas as outras, ainda que sãs, basta que estejam no mesmo cesto. Em outras palavras, meus filhos...”, seu tom baixa, como quem lamenta, “não havia almas puras para que Cristo levasse para o Paraíso... o Arrebatamento... não poderia acontecer... não havia almas puras... NÃO HÁ.”

Alguns choram.

Alguns soluçam.

Crianças buscam saber por que seus pais pranteiam. As que detêm mais consciência indagam, em aflição “mamãe, papai, nós não vamos pro céu?”

“Filhinhos... foram essas as palavras que saíram da boca do Anjo Gabriel, que surgiu diante de mim, há 15 anos, com a missão pela qual eu deveria viver... quando eu as ouvi, eu também chorei como vocês estão chorando neste momento...”

Eu sinto o temor das ovelhas.

Ele vem até mim em ondas quentes de medo.

O medo...

“O plano de Salvação estava ameaçado pela corrupção hedionda do homem, que se curvou completamente perante Satanás. Cristo sofreu, sangrou, foi humilhado por amor à Humanidade... que não tardou a virar-lhe as costas novamente, fazendo o bem ou o mal... lembrem-se de Romanos 3: `Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.’ A Palavra não diz ‘alguns’. A Palavra diz TODOS. Vocês são TODOS, não?”

Eu vejo trilhas de lágrimas que rutilam.

“A Palavra diz ainda: `Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda. Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.’ NEM... UM... SÓ!”, ele brada, tão repentino que até meu coração dispara.

Eu vejo angústias que emanam.

Meu pai terreno contempla-os, a piedade pouco a pouco cobrindo a ira.

“Por isso, ‘nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.’ Meus filhinhos, o que isso quer dizer? Quer dizer que até querendo fazer o bem, até buscando a Deus... vocês pecam.”

Umedeço meus lábios.

A despeito do mal estar, permaneço impassível, tal qual o trono que me espera.

“Era-nos necessária uma nova paga por Cristo. Não mais haveria o Arrebatamento. Fez-se mister uma nova vinda de Cristo, sim, não para levar as suas ovelhas de imediato, mas para tornar a apascentá-las, desgarradas que estavam... e mais uma vez... limpá-las. E como Ele o faria?”

Ele me olha, solenemente. Sustento o olhar, quase sem respirar.

“Da mesma forma que o fez da primeira vez... agora porém... por mais tempo. Pois que mais são os pecados desta era, mais são os homens desta era. E ele veio. E ele está AQUI. Por nós. Para nós.”

Sua voz tremida me faz estremecer.

“E foi assim, filhinhos, que há 15 anos, o Anjo Gabriel profetizou que Deus, em sua infinita misericórdia, JÁ HAVIA enviado o Seu Filho... novamente... em um novo corpo... uma nova existência... seu Filho estava entre nós, ele me disse, e eu disse ONDE? ONDE?”

Está aqui.

Está em mim.

Minhas córneas queimam.

Minha garganta fecha.

Não... não chorem mais...

Não chorem mais...

“Então o Anjo Gabriel apontou para o meu filho Camus... e Camus chorou. Chorou como vocês agora choram. Mas não DA MANEIRA como choram! Porque seu pranto rompia os limites da humanidade naquele instante... a consciência de quem era, não mais meramente humano, mas dotado da essência divina... Camus é a reencarnação de Cristo... é o Messias desta era... é o Redentor deste tempo... ele chorou... e eis que ele chorou...”

“Mamãe, o Messias está chorando sangue!”, ouço uma voz infantil que se eleva do silêncio.

“SANGUE!”, mais alguém exclama.

Clamores.

Aleluias.

Súplicas.

Algo REALMENTE escorre pelo meu rosto.

Minhas córneas queimam.

“Ele chorou sangue diante do Anjo, diante de sua missão... porque a iniquidade deste mundo tornou-se fardo excessivo até mesmo para seu pobre corpo físico, fadado a suportar martírios por amor a VOCÊS... tal qual seu Antecessor, sua missão é padecer por causa de seus pecados, de suas almas maculadas! Ele levará sobre si a desgraça de SUAS vidas! E vocês choram? E VOCÊS consideram os SEUS fardos pesados? Tudo suportem, tudo sofram... pois certamente... certamente... ele sofre MAIS...”

Filetes de sangue tocam-me os lábios. O gosto metálico prontamente irradia-se pela minha boca.

“Somente AQUI, junto ao seu Pastor, ovelhas que escolheram deixar o mundo corrupto e mau para trás... SOMENTE AQUI PODEREIS OBTER A SALVAÇÃO!”

“Aleluia!”

“Glória a Deus!”

“O Messias... o REDENTOR... EI-LO AQUI!”, grita Hades, agora inflamado, “VOCÊ CRÊ NISTO?”

“SIIIIM!!!!”

“Vocês REALMENTE CREEM NISTO?!?”

“SIM, EU CREIO!”

“Eu creio! Aleluia!!!”

Brados se elevam dos fiéis, agora em frenesi, palavras em honra a meu Pai Celestial irrompem de bocas que chegam a salivar.

Gritos, lamentos, cânticos descompassados, dizeres ininteligíveis. Alguns permanecem estáticos, alguns caem ao chão, alguns rolam, alguns convulsionam, alguns parecem mortos.

Eu me compadeço das ovelhas.

De minhas ovelhas.

Caminho até a borda do palco.

Eu as amo.

Não quero que sofram...

Sofrerei por elas de bom grado.

Oh, Pai Celestial, se com meu sofrimento eu puder extirpar-lhes toda essa dor!

Ergo meus braços para elas.

Abro minhas mãos.

Miro-as com amor.

Eu as amo.

Elas me amam.

Alguém me ama.

Elas me amam.

Sem emitir som algum, eu digo, tão somente movendo meus lábios ensanguentados:

“Que se cumpra em mim a Palavra!”

 

*************

 

Na imagem projetada pelo datashow na parede da sala de reuniões da Polícia Federal de Red Meadow, um homem pálido, de longos cabelos negros presos em um displicente rabo de cavalo, distinguia-se na foto tirada em algum tribunal. Sustentava um olhar pacato e trajava um terno preto.

- Hades. Como é de praxe em grande parte dos líderes e demais ocupantes de seitas, esse não é o verdadeiro nome do cavalheiro que vemos. Seu nome verdadeiro é Armand Chermont De La Faure. Francês de nascimento, veio com os pais ainda bebê para a América, mais especificamente para New Hampshire. O pai, Laurent Chermont, tinha uma fábrica de calçados em Lyon. Vendo os negócios prosperarem no final dos anos de 1960, em 1974 veio para cá com intuito de expandi-los. Chegou a abrir uma indústria em New York, seu sonho realizado. Ele, a esposa e o único filho, o cidadão ali, tinham uma vida confortável, luxuosa até. Viviam no melhor dos mundos. Foi quando as coisas começaram a mudar em 1988.

O promotor local Saga tomou um gole de água mineral antes de prosseguir. A história do homem no telão era longa.

- Com quinze anos, Armand, que era o melhor aluno de um renomado colégio particular da cidade de Newport, conhece a seita Ministério dos Ungidos do Senhor Iaveh, por intermédio de amigos da irmandade escolar. Faziam uso de psicotrópicos, eram dados a orgias ditas santas, acreditavam que se tornariam imortais e influentes se a frequentassem.

- Nada de muito original. – O comentário de Milo veio seguido de um sonoro bocejo. Dormira pouco, e mal. Entornara umas cervejas depois de voltar do culto na Igreja Aurora do Novo Porvir, agora estava ali, lutando contra o sono e um discreto, porém presente, mal estar.

- Foi o começo do fim para os de La Faure. Dois anos depois, Armand abandonou a faculdade, o trabalho no escritório da família e fugiu de casa. Tinha ido se enfurnar em uma comunidade religiosa pertencente ao Ministério dos Ungidos, em Michigan. Em 1990 casou-se com uma jovem da seita, e teve com ela três filhos. O pai de Armand tentou de tudo para fazê-lo retornar ao lar, sem sucesso. O coitado, além de perder parte de seu patrimônio, acabou adoecendo no processo. Ele vem a óbito em 2007. Nunca conheceu nenhum dos netos. A esposa havia falecido alguns anos antes.

Mais fotos de Hades apareciam diante dos presentes.

- Um ano depois, Armand volta a New Hampshire com a mulher e os filhos, a fim de tomar parte do que restara dos bens. Já não era tanto, mas com certeza não era pouco. Tanto que, contrariando todas as expectativas, ele não retornou ao Ministério. O Ministério não viu um centavo do que um de seus maiores líderes havia herdado. Armand preferiu ir para Grayville, cidadezinha a caminho do Maine. E lá, surpreendentemente, ele funda a sua própria igreja. Isso se deu em 2008, segundo consta, depois da visita do Anjo Gabriel, que lhe incumbiu de assessorar o “novo messias”. Um “messias exclusivo”, “particular”, devidamente escondido na comunidade que Armand fundou; ele comprou fazendas em Grayville, anexou-as até formar uma verdadeira cidade, que seria o Vale da Aurora Dourada, um paraíso na terra para poucos. Especialmente poucos que pudessem por isso PAGAR. Estendeu seus domínios para algumas dezenas de cidades, onde foram fundadas igrejas da Aurora do Novo Porvir. O resto da história vocês já sabem, os frutos dessa nova denominação...

- Oh, sim... lavagem de dinheiro, tráfico de influência, estelionato, falsidade ideológica... –  À mesa, diante da projeção, Aiolia ia enumerando o que ouvira. – com tantos “atributos no currículo”, não sei como a Aurora do Novo Porvir está aí ainda na ativa, como se ninguém soubesse de nada. São conhecidos da Justiça há pelo menos cinco anos, então, a julgar pelas datas dos primeiros processos...

- Não é a primeira e, infelizmente, não será a última seita a gozar do privilégio da impunidade. – Resmungou Milo, sorvendo o café forte. Torcia para que lhe ajudasse a dissipar aqueles restinhos de ressaca.

- Impunidade essa patrocinada por alguns membros do nosso Estado, lembre-se. Muitos lucram com o valioso silêncio que a igreja precisa comprar... e mais ainda com arquivamentos dos casos. – acrescentou Dohko, secretário do promotor Saga, mastigando uma caneta na intenção de sublimar a vontade por um cigarro. Que demônio não poder fumar nas instalações da Polícia Federal!

- A impunidade não é a única explicação. Não querendo culpabilizar um direito universal solidamente justificável, a própria liberdade religiosa muitas vezes não deixa claro à justiça o que é um excesso, o que é uma vontade própria de seus membros, falando dos casos de exploração e estelionato. Atos voluntários mascaram a culpabilidade dos que desses atos se aproveitam. – Observou Saori Kido, psicóloga que assessorava a equipe naquele caso.

- Em outras palavras, se os babacas não admitem que estão sendo explorados, fica difícil condenar a corja.

- Não deixa de estar certo, Milo. – Admitiu ela, neutra.

Nervoso com a cefaleia insistente e com a visão da caneta rodando na boca de Dohko, ele esticou a mão e tirou o objeto dos lábios do colega, demonstrando de repulsa ao largá-lo sobre a mesa do outro.

O promotor local tomou fôlego e observou:

- Falcatruas nascidas da exploração da fé alheia não são novidades em nosso país, muito pelo contrário... e muitas delas terminaram de forma dramática. Assassinatos, suicídios em massa, sacrifícios cerimoniais... é isso que queremos evitar, pois, a julgar pela trajetória de uma denominação que começou como igrejinha fundo de quintal em Grayville há 15 anos, não vai demorar para os grandes jornais estamparem manchetes do tipo.

- E vão culpar a polícia por não terem parado os filhos da puta a tempo. – Completou Milo, sorrindo de lado.

- Ela tem tentado. Mas na rede que atira ao mar... só vem peixe pequeno. Nada estarrecedor que convença as autoridades a condená-la.

- É bem por aí, Aiolia. – Saga concordou. Cruzou os braços, caminhando à frente da projeção. – Como o dinheiro arrecadado dos fiéis é livre de imposto, utilizam-no em empréstimos para compra de imóveis e estabelecimentos de fachada. Grande parte vai ser aplicado em paraísos fiscais, retornando ao país mediante movimentações de gente comprada... A Aurora do Novo Porvir se embrenhou entre os poderosos, e tem neles a sua plantação de “laranjas”... pelo menos as de melhor qualidade. Ela não dispensa os préstimos de quem quer que seja, pobre, rico, o cidadão médio comum...

- E de igual forma não dispensará o de nosso amigo “Michael Segerson” – Dohko olhou para Milo, trocando com ele um sorriso.

- E ele já chegou causando – Brincou o loiro. – Se bobear, arrumo um casamento lá dentro. Do jeito que as “irmãzinhas” me olhavam...

Foi a vez de Saori cruzar os braços, como Saga, com a diferença de que ela revirou os olhos.

- Voltando à, espero, temporária invencibilidade da Aurora do Novo Porvir, durante estes últimos cinco anos, o Ministério Público pescou alguns “peixes podres” – O promotor ilustrava, posicionando-se novamente ao notebook para seguir com a exposição. – Em 2012, ouviu denúncias de ex-membros. Estas iam desde apropriação indevida de bens até assédio moral e agressão física. Não se conseguiu muita coisa, pois mais da metade voltou atrás em suas declarações, os demais... três retornaram à seita, dois saíram do país... e pelo menos um cometeu suicídio. Até onde se sabe...

Imagens de pessoas ora sorridentes ora chorosas passavam à frente deles, projetadas na parede da sala espaçosa e climatizada.

- Em 2013, motivados por essas testemunhas, agentes conseguiram evidências de irregularidades as quais algumas Aiolia acabou de citar. Tudo a partir da descoberta de postos de gasolina, hotéis e concessionárias no nome de chefões da igreja, dentre eles, o nosso recluso senhor Hades.

A foto de um homem pálido, de longos cabelos negros presos em um rabo de cavalo, de óculos escuros, trajando um terno escuro, apareceu: cercado de policiais e repórteres, ele mantinha a cabeça baixa.

- Em 2014 o “pop star” em questão prestou uma série de depoimentos, respondeu a alguns processos... mas, para variar... como o peixe escorregadio que é, escapou de todos. Alguns peixinhos pequenos foram por ele descartados, e deram o “cala boca” necessário à opinião pública. Não se fez mais do que algumas piadas aos fiéis da seita, principalmente quando se ouviu falar de uma suposta comunidade, onde estaria o “messias” deles.

- Ele parece mesmo um “pop star”. Um Michael Jackson das trevas. – brincou Milo, arrancando risos de Aiolia e Dohko. Saga e Saori se entreolharam, preferindo manter a paciência. O promotor prosseguiu, ao mesmo tempo que passava as imagens em sua apresentação:

- Como eu dizia... o Ministério Público pescou alguns peixes podres, mas o mar de lama mesmo segue a céu aberto. A doutora Kido pode nos elucidar uma das razões. Talvez não a maior, mas certamente uma bem significativa...

Ela umedeceu os lábios pintados de rosa salmão e dirigiu-se aos policiais:

- Vivemos a era do espetáculo. Convido os senhores a puxarem das memórias o que REALMENTE fez as seitas abusivas ganharem os holofotes e, eventualmente, caírem ao longo do tempo... ou, ao menos, tornarem-se estigmatizadas. Nem precisam voltar demais ao passado, sequer me refiro às já pertencentes ao imaginário popular. Lembrem-se da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Últimos Dias. Da Palavra da Fé. Davidianos. Portal Celestial. Igreja Reorganizada dos Santos dos Últimos Dias. Crescendo em Graça.

- Um grande escândalo. – Arriscou Milo, pensativo.

- Mais do que isso. – Ela frisou bem as palavras, mirando fixamente cada um dos homens presentes na sala. – Um escândalo que verdadeiramente chocou a opinião pública. No imaginário coletivo, escândalos financeiros, econômicos e políticos costumam ser, de certa forma, subjetivos demais. Por outro lado, crimes estritamente ligados a violações de direitos humanos mostram-se mais eficazes na derrocada dessas organizações criminosas que se ocultam sob a égide de organizações religiosas.

- Se a América em PESO se insurgir contra a Aurora do Novo Porvir, não haverá mais como as autoridades fazer tanta “vista grossa” a ela, é isso que a senhora tá querendo dizer?

- Basicamente sim, Aiolia.

Milo uniu as mãos sob o queixo e refletiu em voz alta, sério:

- “Crimes contra os direitos humanos.” Não é o que se distingue de cara no culto dos doidos lá, sabe. Claro, até porque várias das características de manipulação carismáticas sobre as quais a senhora falou estão lá.

Na expectativa de seu relato, Saga, Aiolia, Dohko e Saori permaneceram quietos. Ele continuou:

-Eles parecem se sentir felizes. Empolgados. Uma atmosfera de alegria, de comunhão, desde o início do culto, até o seu término. Por vezes eles choram, emocionados. Durante todo o tempo, a música monótona de fundo, contínua, quase mórbida... a voz monocórdia do pastor, que se eleva de súbito, exaltada nos momentos de maior apelo e comoção… o abordamento amoroso…

- Abordamento amoroso? – Aiolia ergueu uma sobrancelha, não compreendendo o termo.

- Já se esqueceu, cara? – Milo explicou, encarando a psicóloga, como em uma prova oral. – É uma tática de recepção amistosa. Um recrutamento sem conclamação direta. Estabelece-se logo uma dependência no sentido de que incutem na pessoa abordada uma sensação de pertencimento.

Ela assentiu, aprovando-lhe o esclarecimento. Milo se sentiu livre para se expressar mais a seu modo sarcástico:

- Tem toda a palhaçada padrão de “segure a mão do seu irmão, diga a ele que Jesus o ama, e que você também o ama”... tem ideia de como foi desagradável um marmanjo me dizendo uma merda dessa?

- E você teve que dizer o mesmo pra ele! – Riu Aiolia.

- Que escolha eu tinha? Olha, mereço um aumento digno de comprar uma mansão na praia, ouviu bem, Saga?

- Estava indo bem, Milo, continua a nos dizer como foi lá, por favor. – O promotor pediu, bufando um pouco.

- Beleza... daí era sorrisinho pra cá, sorrisinho pra lá... meu maxilar ficou doendo, juro por Deus.

- Imagino como doeu prum cara mal humorado como você. – Alfinetou Dohko, divertido.

- Não sou mal humorado, só não tenho sangue de barata com certas coisas, diabos.

- Me diz que você não usou essa linguagem na igreja... – suspirou Saga, revirando os olhos azuis.

- Claro que não... relaxa. Eu fui um “santo”. Continuando...  no final do culto, chamaram os visitantes para irem à frente do público, perto do púlpito, para se apresentarem à congregação.

- Mas Hades não estava lá. – Disse seu primo, servindo-se de café.

- Ele não deve aparecer. Comanda tudo dos bastidores. – Murmurou Saga. – Não se esqueça de que há pelo menos vinte filiais da “igreja” pelos Estados Unidos.

Espreguiçando-se, Milo deu por si que sua ressaca havia sido quase totalmente aplacada. Animado, seguiu com o relato de sua primeira experiência entre os fiéis da Aurora do Novo Porvir:

- Não bastasse o maldito culto durar fodidas seis horas, quando acabou rolou uma social...

- Uma social?

- Uma reunião. Confraternização. Um lanche com o povo num salão de festas. Uma boca livre.

- Aquela quiche de queijo tava uma delícia, vê se traz mais da próxima vez. E aquela torta de amora também, puta merda, nem minha avó fazia uma igual quando...

- Aiolia. – Saga chamou-o à atenção.

- Posso?

- Por favor, Milo…

- Daí, aquele festival de comilança, confesso que curti, fazia tempo que não comia tão bem, vou acabar engordando se não me segurar um pouco. Conheci algumas pessoas, inclusive encontrei a garota que nos deu os panfletos lá na praia. Vocês seguiram a vadiazinha direitinho.

- Poderia moderar o seu linguajar, por gentileza? – Saori franziu o cenho em desagrado.

O loiro sorriu para ela, provocante, pensando “pois você bem gostava quando eu te chamava assim na cama, sua japinha gostosa...”. Talvez a psicóloga tenha deduzido de forma certeira o que o agente pensara, pois seu semblante fez-se ainda mais reprovador.

- Então lá estava ela... veio falar comigo, provavelmente feliz por ver na igreja alguém a quem ela entregou um folheto na rua. Cumpriu seu papel! Claro que me fiz de arrependido, envergonhado, pedi desculpas por ter falado com ela de qualquer maneira lá no bar da praia...

- Isso aí deveria ter sido autêntico, Milo, você foi super grosseiro com a coitada. - O primo lembrou, em tom de crítica.

- Por isso que quando vocês me contaram a história eu escolhi Milo e não você, Aiolia, para o papel. A partir disso, vi uma chance maior de inserção, a partir desse pedido de desculpas, dessa explicação do porquê de ele ter agido assim.

- Tinham que ver a cara dela, tava bem diferente... acho mesmo que ela gostou do papai aqui. Ficou toda vermelhinha falando comigo. Gaguejou, até! – Riu, mexendo nos compridos cachos dourados. – Rebecca, o nome dela. Até que sendo mais simpática, a guria é bem gatinha.

- Milo, pelo amor de Deus, a garota não deve ter nem 17 anos!

- Dezessete não é sete.

- Também não é vinte um! – Retrucou o primo, revoltado com a brincadeira inconveniente do outro.

Desta vez Saga e Saori reviraram os olhos ao mesmo tempo. A Dohko nada daquilo preocupava verdadeiramente. Milo era um cretino, mas um cretino bem carismático.

Perdera a esposa, o convívio com o único filho, nunca se dera bem com os familiares. Não se estabelecia em relacionamento algum. Abusava de álcool e não tinha lá muito senso de preservação.

Ainda assim era carismático, sedutor, divertido, magnético.

Dissimulado.

Excelente ator.

Não havia COMO ter escolhido Aiolia para desempenhar o que planejaram para Milo. Aiolia era um cara autêntico, verdadeiro, pura alma e coração. De estampar na cara o que ia na alma.

Milo não.

E, para completar, extremamente eficiente em seu trabalho.

Sorriu, satisfeito. Olhou para Saga, sabendo que o chefe pensava igual. O promotor deu de ombros, mostrando resignação. Tomou a palavra, encarando o agente infiltrado:

- Bem, essa deve ser a sua rotina daqui para frente... você vai frequentar a igreja pelo menos duas vezes por semana. Depois eu sugiro que aumente a frequência para três vezes. “Michael Segerson” cada vez se sentirá mais pertencente a essa comunidade tão... única. Se sentirá em casa. Fará amizades, se tornará membro atuante, importante... dízimos, contribuições generosas, doações... se tornará “a presa especial”.

- Até virar um “escolhido”. – Completou Dohko. – Não podemos te adiantar quanto tempo levará isso. Podem ser semanas. Podem ser meses. Temo até que anos...

- Puta que pariu, tomara que não. – Resmungou Milo, tomado de genuíno pavor ante a ideia de ficar frequentando aquele lugar, a ele detestável, por tanto tempo.

- ... mas se o tempo não podemos estimar, podemos assegurar que, de acordo com levantamentos e pesquisas, esse é o procedimento padrão de um “escolhido” em potencial. O “senhor Segerson”, além de homem solitário e generoso, demonstrará firmeza de ideias, certo radicalismo na manifestação de opiniões, nunca titubeando, mas ao mesmo tempo um homem suscetível a culpas... a ressentimentos antigos dos quais ele quer ardentemente se livrar... e um desejo imperioso de fazer a diferença neste mundo.

- Eu já me mostrei bem assim ao pastor Salsicha...

- Pastor Salsicha?

- Esquece.

- E quando enfim o “senhor Segerson” for escolhido... receberá a proposta irrecusável, destinada apenas aos selecionados dentre os milhares de fiéis. De ir para o Vale da Aurora Dourada. O Paraíso na Terra... o lar do “messias” deles. As igrejas nada mais são que “celeiros de talentos” para Hades. Pense em uma agência de modelos. Lá elas se cadastram, fazem testes, passam por seleções...

- E as mais gostosas vão pras passarelas.

- Não necessariamente, Milo. – Corrigiu Saga. – As mais APTAS a desempenharem suas funções, seja em fotos... seja em passarelas.

- Tem de haver um perfil. Pense em quantas, das milhares que tentam, REALMENTE enriquecem e fazem fama com isso. – Aiolia complementou.

Saori cruzou as pernas, protegidas do olhar cobiçoso de Milo por uma calça de linho azul marinho, ao relembrar:

- O escândalo envolvendo violação a direitos humanos de que precisam certamente será deflagrado com o material que Milo conseguir levantar no lugar. Quem de lá escapou, ainda que tenha mudado de discurso depois, mencionou maus tratos, castigos físicos, tortura, condições de trabalho análogas a trabalho escravo, lavagem cerebral, exploração infantil...

Milo voltou à seriedade que o acometia quando da menção de tais perversidades. Exploração infantil! Fez-se sombrio, de verdade.

- Eu prometo que os desgraçados vão ME IMPLORAR pra ir pra esse inferno.

- Cuidado, você tem que receber como um verdadeiro privilégio, quando isso acontecer.

- Eu vou CHORAR, te garanto. Não vai ser difícil. – respondeu, franzindo as sobrancelhas.

Um mapa foi projetado na parede.

-  Conforme disse, comunidade fica em Grayville. É uma província rural, a cerca de sete horas daqui, de carro. Pouco povoada, conta com algumas poucas fazendas hoje, já que grande parte delas foi agregada ao Vale da Aurora Dourada.

Um vídeo mostrava uma extensa cerca ao longo da qual enfileiravam-se pinheiros e carvalhos. Dezenas de homens se postavam, impávidos diante de agentes federais. Carros da polícia enfileiravam-se na estrada de terra, dentro deles alguns homens atentos à movimentação à frente das fronteiras da comunidade.

- O que se sabe sobre o local é impreciso e fragmentado, uma vez que, como eu disse antes, os que lá estiveram ou mudaram seus depoimentos, ou voltaram pra lá, ou saíram do país, ou se mataram. As inspeções do Ministério Público, uma das quais vemos nesse vídeo, sempre mediante mandatos, foram inconclusivas... ou não conseguiam autorização para adentrar a propriedade, ou entravam e não constatavam nada de errado. Apenas estranho, mas não condenável pela lei.

- O que vocês queriam, porra? Ir a um hospício desses com mandato é como um gato avisar ao rato que horas ele vai caçar... e onde!

Dohko mirou Milo com certa condescendência ao retrucar:

- Espero que tenha sido uma observação retórica, meu jovem. Você já tá na Federal há cinco anos...

- É claro que foi! Não sou nenhum idiota. É só que... inferno, se há uma coisa que não suporto nesse nosso sistema é a burocracia... – o loiro se afundou na cadeira, contrariado.

- Bem, há que se agir dentro da lei. Se não for assim, como cobrar que a mesma seja cumprida caso se comprovem as irregularidades e, mais ainda, os crimes? – Argumentou Aiolia, consternado.

- Precisamos invadir o covil. E para invadir, precisamos de mais que testemunhos desencontrados. Precisamos do que MILO vai fazer. Supondo, claro, que ele consiga se infiltrar lá. Se Milo puder ATESTAR o que se ESPECULA... obteremos a autorização para tomar de assalto o Vale da Aurora Dourada. – Pontuou o secretário do promotor.

- Sabe-se que uma vez lá dentro... NÃO HAVERÁ SAÍDA. – Saga fitou-o com severidade. – Nem que você queira. Os que conseguiram... foi através de fugas ou por mandato de busca por parte de parentes. E este segundo quase nunca se mostrou bem sucedido. Sendo “Michael Segerson” um homem solitário, quem o procuraria?

- Não se preocupe, Saga. Darei o meu melhor para ser convocado pro acampamento dos fanáticos. E lá dentro, farei melhor ainda pra vocês botarem o barraco abaixo. – Sorriu, decidido. Em seguida, desfez o sorriso ao se dar conta de um desagradável detalhe:

- Merda, só vou lamentar ficar tanto tempo sem uma cervejinha que seja!...

 

 

*************

 

É chegada a hora.

Eu adentro a sala, fria como se o inverno tivesse se antecipado.

Mas não. É apenas a refrigeração.

Neste cômodo, assim como nos demais recintos onde ocorrem Cerimoniais fechados às ovelhas, não há janelas. Em verdade, não sei se é noite ou dia. Não me importei em olhar pela janela dos meus aposentos, antes de deixá-los, escoltado por Radamanthys, Argol, Asterion e Minos.

Imagino que seja noite, porque lembro de ter ouvido que o próximo Cerimonial da Sagrada Semente seria à noite. Então...

Este lugar tem as paredes vermelhas. O chão é de madeira escura e lustrosa, quase escorregadia. Tenho que pisar com cuidado. Nas paredes há alguns símbolos. Eu não me lembro de seus significados. Sei que são santos. Consagrados. Como tudo aqui.

É um momento consagrado.

Não posso me esquecer disto.

Eu esqueço de muitas e muitas e muitas coisas.

Entretanto NUNCA, JAMAIS posso me esquecer de que TUDO é santo e consagrado.

Tudo tem um propósito.

Tudo tem razão de ser.

Até a minha dúvida tem razão de ser.

É obra DELE.

É para me testar.

O demônio nunca desistirá.

Eu vejo além de meu pai terreno, os demais Vigias, Capella e Aiacos... vejo também dois obreiros e o Agraciado da noite.

Ele não me é estranho.

Eu já o vi em algum cerimonial. Não deste tipo. Talvez tenha sido em algum Suplício Cerimonial. Sim, estou quase certo de que foi isso. Talvez.

Ele não é velho nem novo.

Ele...

Eu não sei dizer como ele é.

Face lisa, olhar tristonho, acho que são olhos verdes. Ou castanhos. Ou pretos. São caídos. Seus cabelos elevam-se no topo da cabeça, arrepiados, cor de ferrugem. Ele usa uma veste cerimonial; túnica branca bordada de vermelho. Detalhes dourados.

Ele se ajoelha diante de mim.

Ao perceber que eu o observo, ele oculta o rosto rubro no assoalho, protegendo-o com as mãos.

“Pelo Eterno, pelo Passado, Futuro, Presente, e pelo Mistério Insondável do Infinito.”, entoa meu pai terreno, vestindo a túnica vermelho sangue, “Reunimo-nos neste sagrado abrigo para proceder ao Ideal Eternal daquele que ordenou a Seus Filhos: `Crescei e multiplicai-vos`.”

Todos, e eu incluído, dizemos “Amém”.

“As bênçãos multiplicar-se-ão mediante as graças divinas, que fluem do Criador para nós através do corpo de nosso Messias. Quaisquer que sejam, através do devido sacrifício, ser-nos-ão concedidas.”, ele então pergunta para o homem prostrado aos meus pés: “Irmão, você pleiteou um Cerimonial da Divina Semente em prol de uma rogatória. Anuncie, diante de seu Redentor, o que Dele almeja obter.”

O homem ergue sua cabeça. Há sinais de pranto sob as pálpebras inchadas. Após gaguejar um pouco, ele consegue falar: “Cordeiro Santo, há mais de vinte anos eu tento ter um filho homem com minha esposa. Mas só... somente...”, ele soluça, desconsolado. “Já são sete meninas e nem um varão... nem um que possa coroar minha descendência... eu vou morrer sem ter um filho varão...!"

“Homem de pouca fé!”, meu pai terreno empurra-o com o pé. Ele cai violentamente ao chão. Eu não mexo um músculo. Isso não é novo para mim. “Por que está a sentenciar maldições bem na hora de pedir a dádiva ao seu Senhor? Eu deveria açoitá-lo... mas não quero que seu sangue impuro contamine o Redentor. Aumentarei o valor de sua Indulgência por esse pecado.”

Acocorado, o homem engole o choro. Firma a voz e continua:

“Eu nunca quis recorrer aos métodos do mundo para conseguir o meu varão...”

“Nem deveria!”, interrompe Capella, fazendo uma careta hedionda, “Nenhum artifício desenvolvido por infiéis mundanos, torpes e sujos serve aos filhos de Deus!”

“É preciso purificar a sua semente, senhor Miller, irmão Babel. Ela traz a maldição de seus pais. Ela é fraca, deficiente. Não é capaz de gerar um macho, a coroa da criação.”, desta vez é Minos, cujos olhos sequer aparecem devido à volumosa franja grisalha, quem fala.

“Seu pai ou o pai de seu pai deu-lhe a maldição, Babel?”, indaga Asterion.

“Sim... sim!! M-meu pai e-era... era um beberrão... vivia na jogatina... s-saiu de casa quando... quando eu...”

“Basta, já entendemos que era escória. Babel, quanto está disposto a doar para a obra como agradecimento pela graça que obterá em breve?”, Aiacos pergunta, não muito paciente.

“E-eu... acertei o valor de... cento e cinquenta mil dólares...”

“Serão duzentos mil, por causa da demonstração de sua pouca fé”, interveio meu pai terreno. “Argol. O contrato.”

Meu irmão mais novo traz um papel, que prontamente é assinado pelo homem.

“Babel, o cheque.”

Eles resolvem o que têm de resolver.

Eu me preparo mentalmente.

Acabo esquecendo de orar.

Só penso em evadir minha mente.

Radamanthys se aproxima de mim. Mas eu não espero que ele me conduza; vou até a cama. Ele me ajuda a deitar nela. Em seguida, restringe meu corpo, afivelando bem meus pulsos e tornozelos. Ouço o homem perguntar, em tom nervoso “Me perdoem, Santos, mas... isso é mesmo necessário?”

“É para preservar a integridade do próprio Redentor”, esclarece meu pai terreno, vindo acariciar meu rosto. “Radamanthys. Um pouco mais, desta vez.”

“Um pouco... mais?”

“Sim.”

“Meu pai, da última vez ele quase... não acho que seja bom aumentar a dose do...”

“Já cicatrizaram as chibatadas de hoje? Deseja mais?”

É verdade.

Depois da Vigília dos Santos, meu pai terreno foi castigar Radamanthys na Câmara de Gomorra, pela desobediência cometida antes da Vigília dos Santos.

Percebo Radamanthys tenso, ao passar o dedo por sobre meu braço. Dá suaves batidinhas no local escolhido, para facilitar seu serviço. Eu nem fecho os olhos quando a agulha penetra minha veia, malgrado a fina dor me incomode. Mas Radamanthys é mais hábil nisso do que Argol, muito mais, então, eu só tenho a agradecer.

Uma vez Rada me explicou o que eles injetam em mim neste momento. Foi gentil da parte dele, porque eu nunca perguntei. Disse-me que é um remédio para concentrar o sangue no meu membro, deixando-o bem sensível. Assim, expelir a seiva não demora tanto, e eles me poupam deste... transtorno.

Ao menos um pouco.

Bom, só de diminuir o tempo do Cerimonial já é motivo para entoar louvores de agradecimento. No início, não usavam o remédio... era bem mais desagradável. Eu demorava a derramar a semente, por vezes sequer conseguia, e...

... melhor não pensar nisso agora.

Pode me atrapalhar.

“A Santa Semente fluirá para o interior de seu corpo através da ingestão, Babel. É a Santa Ceia em prol de sua descendência. De posse dessa dádiva, você com certeza será capaz de gerar um filho homem no ventre de sua esposa.”

Olho para o teto no qual mais símbolos estão pintados. Tento ver rostos neles... montar figuras... fingir que são peças de brinquedo. Minha mãe me deu peças de montar, uma vez. Era para montar um castelo, acho. Vou montar um castelo.

Eu não lembro como é um castelo.

Deve ser como o nosso Templo. Ou o Tabernáculo.

Alguém levanta minha túnica.

Não vejo quem é.

Não devo ver.

Estou montando um castelo... um palácio no céu.

É isso que vou montar.

Algo gelado segura o meu órgão.

“Espere um pouco”, adverte Radamanthys.

Obrigado, meu irmão.

Ele quer que o remédio faça efeito antes de os lábios de Babel circundarem meu membro.

Ele nem precisa falar.

Eu sei.

Secretamente agradeço.

Passam-se alguns minutos e meu órgão lateja, pulsa, meu baixo ventre parece em chamas. Meu peito se aquece até acima do meu pescoço. Acabo cerrando os olhos, incapaz de mantê-los abertos como preferia. Eu me sinto flutuar por sobre um oceano infindo de nuvens tingidas pelo sol do meio dia. Sinto um tremor na altura das coxas. Elas parecem se contrair sem que ninguém nada faça.

Eu já não vejo nada.

Nem quero ver.

Eu não preciso.

Que a Palavra se cumpra.

É meu dever.

Servir à Obra.

“Já pode começar, Babel. Estaremos em oração. Lembre-se, sem excessos. Não ouse mordê-lo ou coisa do tipo.”, orientou Hades, quase ameaçador.

Meu membro é inserido em uma cavidade úmida, é como ser envolto por espuma.

Mas em seguida ela se solidifica.

E me puxa.

E me suga.

E me aperta.

E me puxa.

E me suga.

E me aperta.

Sinto dedos se afundarem na carne de minhas coxas. Ouço grunhidos, abafados porque a boca está ocupada com...

Meu coração bate tão rápido que quase não acredito ser possível que resista.

Mordo o lábio inferior. Algo se movimenta, insidioso como uma serpente de fogo, dentro de mim, descendo até entre as minhas pernas.

E me puxa.

E me suga.

E me aperta.

E me puxa.

A língua de Babel parece exigir mais. Sinto-o bufar em minha masculinidade. 

Eu não quero pensar no que ocorre, no que sinto, no que ouço, no que cheiro.

Estou planando acima do precipício...

... eu penso...

NÃO.

Eu não devo pensar.

não-pense-não-pense-não-pense-não-pense-não-pense-não-pense-não-pense-não-pense-não-pense

Mãe, por que você deixou ele te matar?

Veja, o castelo que fiz pra você está quase pronto.

E se eu olhar para o despenhadeiro?

Verei o anjo ascendendo rumo ao meu inferno celestial?

Minha coroa está pesadas.

Os espinhos se entranham. Remexem-se em minha carne. Serão vermes?

Estou… eu estou… estou…

Eu queria não gemer.

Mas...

Algo escorre por entre minhas pernas.

“Não desperdice, seu tolo!”, grita meu pai terreno.

Ele obedece, e sorve toda a semente que expeli. Não deixa de lamber-me as partes, certificando-se de que nutriu seu corpo doente.

Agora ele está são.

Agora ele poderá ter seu filhinho.

Quem sabe vai amá-lo.

Sem perceber, eu suspiro. Na verdade, estou ofegando.

“Está consumado.”, sentencia meu pai terreno.

“Senhor Hades... e-eu... eu quero pedir...”

A voz de Babel está diferente.

BEM diferente.

Eu não consigo mais escutá-la. Ela se converte em um sussurro medroso.

“Terá de pagar o dobro, Babel. E isso porque estou sendo piedoso. Sei que você não é nenhum milionário. O dobro e pode...”

“O dobro! Senhor, eu não tenho esse dinheiro!”

“Então vá embora. Não lhe foi oferecido isso. É você quem está querendo. Se não pode pagar...”

“Espere! E-eu... oh, Deus... eu preciso, entende...? Eu nunca...”

“Não há diferença entre o ânus de um homem e de uma mulher. Estivéssemos falando de vaginas...” Hades ri.

Desta vez arregalo os olhos, apavorado.

Não.

NÃO ERA ISSO QUE IRIA ACONTECER!

“Aqui está... o cheque!...”

“Não trema tanto, Babel, a letra sairá feia...”

Eu tento articular alguma coisa.

Mas minha boca está dormente demais, eu estou ausente demais, perdido demais, longe demais.

Alguém me liberta das correias.

Só para me virar de costas.

A cama afunda.

Meus pulsos são novamente restritos, desta vez por mãos.

Quem... ?

Olho ao redor.

Vultos.

Borrões.

O ar de move, se desvanece, tinta caindo na água que se espalha em raízes trêmulas.

Alguém afasta minhas pernas.

E então a DOR.

A dor absurda, perversa, atroz.

Sou partido ao meio, sou uma árvore cujos galhos são separados, partidos, e o machado... o machado penetra meu tronco, Senhor, A DOR. A dor!

O machado... não, é um tição em brasa.

O fogo infernal me penetra, me devora, me consome...

Por sobre as areias escaldantes do deserto, ELE RI.

Deve achar que não vou aguentar.

Que vou me ajoelhar perante Sua Nefanda Figura.

Que vou aceitar sua oferta.

Que vou aceitar os Impérios desta Terra.

Meu Antecessor expulsou-o, dizendo “Vai-te, Satanás!”

Tenciono fazer o mesmo.

Mas antes disto, a Escuridão me envolve e me traga para os domínios do Nada e do Silêncio.

 

*************

Frio.

Faz tanto frio.

Em verdade... não é que faça frio.

É meu sangue que...

É o meu sangue...

Meu peito dói.

Dói tanto.

Talvez se eu deixar de respirar. Sim, reter a respiração. Assim como eu retenho os pensamentos.

Sempre é proveitoso reter os pensamentos.

Com certeza também será se eu retiver a respiração...

... o ar já penetra cáustico em minhas narinas.

Meus pulsos, braços, pernas, meu ventre...

... cada parte parece querer seguir um rumo diferente, como se tivessem vida própria...

... mas COMO? Como podem ter vida, se a vida principia a me abandonar?

Não, não é assim.

Não foi assim.

Quando Ele expirou, o preço foi pago.

O salário do pecado...

Mas eu...

... eu...

... eu não quero fraquejar!

Não quero falhar!

Não quero deixar as almas se precipitarem para as regiões abissais!

Ele NÃO pode vencer.

Ele, que tem o Olhar Inverso.

Ele, que vem por sobre as areias escaldantes do deserto.

Ele, que outrora foi a mais brilhante estrela do firmamento.

No entanto, será ele a vencer... ou EU a retroceder?

Deus meu, Deus meu, por que me...

... desam...

... desamparaste...

Meu peito... vai explodir...

Minha cabeça lateja. Ouço os clarins.

Ouço as trombetas.

Ouço o ruflar das asas.

Volvo meus olhos para o cerne da escuridão que abarca tudo abaixo de mim.

E ele vem.

Ele emerge das trevas, iluminando o precipício com o fulgor de seus longos cabelos loiros, iluminando o negro firmamento com o refulgir de seus olhos azuis, é como a queda das águas... de baixo para cima.

Eu acima.

Ele abaixo.

Mas eis que ele vem...

Ele vem me...

Me...

“Camus. Camus, acorde.”

Desperto em um sobressalto. Vejo os olhos cor de mel de meu irmão mais velho.

Percebo que estou em minha cama, no meu quarto.

Radamanthys espera que eu me encontre nesta realidade. Ele percebeu que eu sonhava.

Espero que não me pergunte COM O QUÊ.

“Você desmaiou durante o ato. Eu tentei avisar ao pai de que a dose era excessiva. Você quase... enfim, foi até melhor, se pararmos para pensar. Ser possuído por aquele homem vil e asqueroso... foi Deus quem lhe presenteou com a inconsciência. Assim que ele te deixou, apliquei outro remédio, para minimizar os danos. Como se sente?”

Eu não minto. Por isso nada digo.

Não tenho como falar que me sinto bem.

Apenas digo-lhe que não se preocupe comigo. E peço que não se expresse daquela maneira. Se alguém escutá-lo proferir tais coisas, será castigado de novo.

Ele ignora o meu apelo, preferindo perguntar: “Você estava sonhando, não?”

Faço que sim, com a cabeça, temeroso.

“Sonhava com o quê?”

Ele me acaricia o rosto com suavidade, indo até o meu queixo.

“Não precisa ter medo de me falar, não temos segredos, temos?”, insiste, esfregando delicadamente seu polegar em meu maxilar, subindo até quase meus lábios.

Suspiro.

“Eu vi o anjo novamente.”

“O anjo? Ah, você me falou uma vez que sonhou com um anjo vindo até você.”

Assenti. Sentado em minha cama, ele mira fundo em meus olhos cansados.

“Você... tem certeza de que era um anjo?”

“Eu via... asas... ele era todo luz... ele vinha... vinha até mim.”

Radamanthys para de me acariciar e parece vasculhar-me a alma com seu olhar duro.

“E como era esse anjo?”

“Como era?... Era…”

Eu não quero dizer.

Não quero contar.

Ele é meu...

Não posso mentir.

Mas posso me calar.

Radamanthys sabe disso. Espera pela resposta que não vem.

Seus dedos entrelaçam gentilmente em meus cabelos. Com voz macia, ele muda de pergunta:

“O que esse anjo queria, Camus? O que ele vinha fazer?”

“Ele... ele vinha... vinha me...”

Algo aperta-me a garganta.

Minha respiração restrita por um garrote invisível.

Não consigo falar.

Antes não queria.

Agora NÃO CONSIGO.

“Camus... por que está chorando?”

“Mas eu não estou chorando”, estranho-lhe o pedido.

“Como não!”, os dedos que enroscavam-se em minhas mechas agora passam-me pelas faces. Mostra-os a mim.

Sangue.

“Vê?”

Eu me surpreendo, vivamente.

“Mas... mas eu nem senti... eu NÃO SINTO. Eu não sinto nada...!”

“Camus”, chama-me, terno.

Eu mesmo esfrego meu rosto e contemplo minhas mãos sujas de sangue.

Sequer sinto que estou chorando.

Fico estático, sem ação, enquanto ele me abraça, suplicante:

“Camus, não chore. Não chore, meu irmão!...”

 

*************

 

 

 

 

 


Notas Finais


(1) Atos dos Apóstolos 1:11

(2) "O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal.
Então o Senhor arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra; e isso cortou-lhe o coração."
Gênesis 6:5,6

*************

O "Cerimonial da Santa Semente" foi idealizado por mim para a história. Mas, de acordo com pesquisas feitas, ele é uma REALIDADE em algumas seitas, com certas variações.

Curiosidades sobre esta e as demais fics você confere no grupo do Facebook:
https://web.facebook.com/groups/1690225937895246/?ref=bookmarks

Obrigada por lerem, e até a próxima.
Desejo a todos uma ótima semana! Bjs :x


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