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História REDONE - Bellamy Blake - Capítulo 18


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Capítulo 18 - Sangue e Água


Fanfic / Fanfiction REDONE - Bellamy Blake - Capítulo 18 - Sangue e Água

“SANGUE E ÁGUA”

 

A chuva caia pesadamente sobre o acampamento, as rajadas de vento ficando cada vez mais potentes, arrastando os galhos das árvores para a direção que soprava com brutalidade. A força era tamanha que as gotas espessas batiam na lona da barraca parecendo estilhaços de vidro, e Clarke quase se perguntava como não cortavam o material.

A tenda alta que a protegia deveria servir para três pessoas dormirem lado a lado, assim abrigando com pleno espaço os cinco amigos — Finn, Octavia, Jasper, Monty e ela — que esperavam de pé a presença de Joan.

Ninguém dizia nada ao aguardar, o som dos trovões e da água forte consumindo o ambiente, assim como o barulhinho baixo de seus queixos batendo de frio.

Todas as camadas de tecido que antes os aqueciam, estavam ensopadas por inteiro, deixando seus corpos gelados e seus lábios roxos em tal noite tão frígida. Clarke sentia até seus ossos enregelados, porém não somente pela falta de calor.

Ela podia sentir a ausência de Wells a sua volta, seus pés violando as folhas secas que ele havia arranjado para ela e Joan dormirem, e sua cabeça coberta pelo teto da tenda que ele havia montado com as próprias mãos quando ainda tinham vida. O fantasma de Wells parecia assombrar o local, e Clarke sentia que pisava em um cemitério.

— Por que ela está demorando tanto? — Reclamou baixinho em um suspiro raso e impaciente, deixando que seus braços cruzados se soltassem, caindo pelas laterais de seu corpo com grande peso. Ao seu lado, os olhos suaves de Finn deslizaram em sua direção, parecendo ser o único a escutá-la.

Não conseguia imaginar como a morte de Wells devia estar sendo para Clarke. Ele mal o conhecia e sua mente não conseguia se livrar da visão de seu corpo inerte da lama.

Podia ver a tristeza escondida em seus olhos falsamente fortes e potentes, a dor corroendo o seu peito. Sabia como era lidar com perdas, e como tudo era pior quando se estava sozinho.

O que Clarke, por sorte, não estava.

Ela sentiu Finn buscando os dedos dela com os seus, o toque delicado do polegar dele acariciando as costas macias de sua mão úmida a fazendo olhar para cima, encontrando seus olhos verdes com os dele em um fraco olhar cumplice e terno, agradecido.

Era de certa forma acolhedor saber que tinha Finn ao seu lado, mas sabia que ele não era o ombro a qual ela queria chorar no momento. Nunca poderia entender a confusão que se passava por sua mente, ou reconfortá-la da maneira que necessitava ser.

Mas Joan estava ocupada demais brincando de líder.

Finn manteve seus dedos entrelaçados com os de Clarke, apesar de seus olhos passarem para a entrada da barraca, onde do lado de fora a lama se agitava em sons claros de passos, as pisadas afundadas sendo não somente de uma, mas de duas pessoas.

A água desabou da lona quando Joan a ergueu para entrar, o impostor passando pelos panos atrás dela logo em seguida.

Os lábios de Octavia se contorceram em desgosto ao ver o irmão.

— Era por isso que estávamos esperando? — Cuspiu, sua voz rouca e só não firme pelo tremor de seu queixo que lutava contra o frio.

— Você querendo ou não O, o que tiver naquela nave envolve todos nós — Joan a respondeu rápida e calmamente, nem sequer a mirando ao torcer seus cabelos encharcados. Estava preparada para a farpa rebelde de sua amiga desde o momento que decidiu chamar seu irmão.

— Ela está, por mais irritante que seja, certa. — Bellamy se pronunciou, a voz grave e rouca beirando entre o descaso e a derrota. — Precisamos pensar juntos agora, temos uma tempestade forte para resistir e...

—  Um corpo para lidar. — Finn interrompeu em puro desafio, seus olhos conflitantes sobre o impostor, que abaixou o olhar para os próprios pés enlameados, seu peito amargurado e pequeno roubando-lhe o ar dos pulmões em um suspiro cansado.

— Eu nunca quis isso. — Sua voz saiu falha e áspera, seus olhos nus e vulneráveis passando por cada um dos jovens a sua frente, parando por um instante a mais em Octavia, então em Clarke, e depois deslizando para encontrar com os olhos de Joan ao seu lado, a sinceridade presa em suas palavras. — Não queria nada disso.

— Ainda assim não fez nada para impedir. — Octavia atacou com a língua afiada, seus braços cruzados se apertando ainda mais contra o peito ao fechar os punhos com força, seus olhos quentes e desdenhosos sobre o irmão. — De novo.

Um silêncio desconfortável tomou o ar da barraca, quase conseguindo torná-lo ardente. Olhares inquietos e cumplices eram trocados entre os jovens, salvo por Octavia, que devorava o irmão em fúria e desprezo com os olhos.

Jasper deu um curto pigarreio, indo para frente e para trás nas pontas dos pés, e o amigo ao seu lado segurou seu pulso, fazendo com que parasse antes que todos o encarassem.

— Eu... — Monty hesitou em se pronunciar, seus olhos buscando aprovação nos de Joan, que quase o suplicavam para continuar a falar, fosse o que fosse. — Eu acho que esse não é o ponto aqui.

 — Sim, obrigada — Joan respirou fundo, aprumando seus ombros ao tentar reestabelecer a imagem forte que precisava passar. Qualquer um ali, porém, podia ver em seus traços finos que estava cansada, seus olhos pesados lutando para manterem-se firmes. — A tempestade está cada vez pior, e eu não acho que as barracas que montamos vão aguentar o vento por muito tempo.

— A única coisa que podemos fazer é pegar a água coletada e colocar todo mundo dentro da Nave. — Clarke afirmou passivamente, seus olhos vazios sobre Joan em uma conexão puramente... profissional. Fria como a risada abafada e sarcástica do impostor, que atraiu olhares afiados em sua direção.

— Nossos povos se matariam confinados naquela lata de metal. — Argumentou Bellamy, nada ameaçado pelos olhares fulminantes sobre si ao cruzar seus braços sobre o peito.

Os seus já começariam com vantagem. — Grunhiu Octavia, rolando os olhos antes de pousar os mesmos cheios de desgosto em cima do irmão.

— Nós não sabemos quem matou Wells.

Chega — O tom de Joan subiu rispidamente, cuspindo a palavra com os lábios trêmulos e punhos cerrados, seus olhos atormentados e sem brilho. — Ninguém mais diz uma palavra sobre o que aconteceu hoje.

Todos puderam ver o sofrimento vazando pelas rachaduras da armadura que Joan construía para se manter de pé, experimentando o gosto amargo de sua dor e se calando com a profundidade do sentimento, o silêncio ajudando-a a reparar cada brecha, soltando o ar túrbido preso em seus pulmões lenta e discretamente.

— Podemos separar os dois lados em andares. — Sugeriu Monty, seus lábios secos e seus olhos fitando as folhas sob seus pés, mais uma vez quebrando o clima tenso do grupo. — O terceiro andar para os sem pulseira e os outros dois para os com.

— Parece bom — Joan assentiu em um murmúrio raso, seus olhos passando sem vontade para o impostor ao seu lado, que jogou a cabeça para trás em um suspiro pesado.

— Talvez dê certo — Assentiu fracamente, sem transmitir grandes certezas.

— Ótimo. — Um sorriso foi forçado em seus lábios, seus olhos âmbar amortecidos caindo sobre Monty. — Você lidera nosso grupo?

— Espera, e quanto ao que caiu do céu? — Perguntou Jasper, sua mão erguida no ar na altura de seu peito como se pedisse a palavra. Ato deixado de lados pelos outros, também querendo saber.

— Vou separar um grupo de busca. — Joan afirmou com convicção, cruzando seus braços no peito ao olhar para Bellamy. — Se tiver suprimentos separaremos igualmente entre acampamentos.

Mesmo querendo dizer que mereciam mais após o incêndio, Bellamy não conseguiu se pôr contra Joan naquele momento, não sabendo pelo que estava passando, não vendo seus olhos desgastados sustentando os dele com seu brilho quase indo embora.

— Parece justo — Assentiu. — Mas quero gente do meu lado nessa equipe.

— Sem problemas. — Joan deu de ombros, decididamente virando-se para a saída atrás de si, seus cabelos molhados respingado nas folhas secas com o movimento brusco. — Vamos.

— Eei ei Bellamy segurou o braço da garota antes que ela pudesse dar mais um passo, suas sobrancelhas franzidas sobre os olhos atônitos, seu peito batendo forte em vários níveis diferentes de preocupação. — Você quer dizer agora? Não devíamos esperar a tempestade passar?

— Eu tenho quase certeza que tem gente naquela nave. — Explicou Joan, seus olhos subindo da mão firme de Bellamy em seu bíceps para os olhos do rapaz, tão surpresa quanto ele. — E se estiverem precisando de ajuda?

— Então o ajudaremos, mas depois. — Bellamy quase suplicava com seus olhos justos nos dela, sua mão ainda mais apertada no braço da garota, como se pudesse intensificar por ali o olhar profundo que mantinham.

Ela mal notou sua mão subindo até a dele, cobrindo-a com delicadeza, pedindo gentilmente, que aliviasse o toque, que a soltasse, mas ele se recusou a o fazer, seu maxilar enrijecendo ao engolir seco, sem permitir que ela saísse.

— Nós temos que ir lá. — Joan insistiu, os olhos suplicantes nos deles.

— Não. — As esferas duras quebravam as dela, sua intensidade rija e quente. Confusa para Joan. — Seremos só mais pessoas que precisarão de ajuda.

Por mais que quisesse acreditar que aquelas palavras sábias e protetoras estavam sendo ditas por Bellamy, aquele que se preocupava com ela e os outros ao seu redor, Joan tinha quase certeza que a sua frente via o impostor. Aquele desgraçado.

— Você está certo. — Ela soltou bruscamente o ar preso em seus pulmões, fechando os olhos âmbar, como se desistisse de repente da batalha que antes travavam com o olhar. — Vamos quando a chuva passar.

Hesitantes, os dedos de Bellamy aliviaram sua pegada, escorregando para longe como seus olhos o fizeram. O sorriso de triunfo foi muito bem escondido em seus lábios, e seu peito pesado permitiu-se se aliviar, assentindo levemente para Joan.

— Vou dizer para Miller ajudar a pôr todo mundo no 3º — Avisou em voz baixa, saindo pela entrada da barraca assim que recebem um sinal de concordância de Joan.

Ela ouviu seus passos se afastarem na lama, e teve de respirar fundo para conter sua frustração. Quando achava que estava indo a algum lugar com Bellamy...

— Você realmente confia nele? — Finn perguntou a suas costas, e em qualquer outro momento Joan teria de pensar duas vezes antes de responder, ali, porém, tinha as palavras na ponta da língua.

— Nele? Nunca.

»»»

Por entre a chuva forte e o breu das nuvens pesadas, a floresta estava mais escura e sombria. O vento arrancava as folhas das árvores e os animais se escondiam em suas tocas, fugindo do som estridente dos trovões e das pancadas de água. Eles possuíam o instinto irrefutável de fugir do desconhecido, do que poderia feri-los e debilitá-los de alguma forma.

Bellamy, no entanto, não possuía o mesmo instinto.

Seu corpo estava rígido pelo frio das gotas geladas em sua pele, seus cabelos e suas roupas encharcadas colando em seu corpo e sua testa pelo vedo que quase o arrastava para trás, seus pés afundando na lama para conseguir dar qualquer passo.

Punha uma mão sobre as sobrancelhas para evitar que a água caísse em seus olhos, apertando-os na busca de conseguir foco entre a camada espessa e turva de chuva, sua direção sendo guiada por uma luz azulada fraca no horizonte, que piscava como uma estrela longínqua ao horizonte.

Não podia ouvir nada além do vento assobiando em seus ouvidos e os trovões estourando ao longe quando se aproximou da clareira feita pela queda da nave. Não conseguia ao menos escutar os seus próprios passos na lama grossa ao apressar-se até a fonte de luz.

Partes da nave haviam se soltado com a descida bruta, e ele passava pelas grandes peças e pelos cascos de metal com fios soltos quanto mais adentrava na clareira, seus olhos castanhos ainda pequenos e protegidos pela cobertura de suas mãos ao fitarem a estrutura arredondada e escura mais a sua frente, os botões luminosos piscando fracamente, e um cabo de energia estourando faíscas azuis em seu topo.

Tudo parecia destruído. Se não fosse pela chuva, Bellamy tinha certeza de que a nave estaria em chamas no momento, explodindo como uma bomba.

Talvez ele não precisasse fazer nada afinal.

Cogitou a ideia de voltar atrás, pensando em quão mais fácil seria viver sem guardar mais uma mentira, mas ele não quis dar chance para o azar. Precisava ter certeza de que o rádio não funcionaria, que não haveria nenhum meio de se comunicar com a Arca.

Então abriu a porta da nave em um solavanco bruto, fazendo toda sua estrutura destruída chacoalhar na lama profunda, e um grunhido dolorido escapar dos lábios de alguém do lado de dentro.

O coração de Bellamy acelerou, seus olhos atentos correndo para o interior da nave onde, inconscientes, dois jovens estavam atrelados a seus assentos pelo cinto de segurança, seus peitos subindo fracamente, ainda vivos, respirando.

A garota tinha seus cabelos castanhos presos em rabo de cavalo alto, mas fios bagunçados saiam para fora do penteado, as mechas em sua testa ensopadas em sangue. O líquido vermelho escorria do corte em sua cabeça, cobrindo seus traços cansados e abatidos durante o sono profundo.

O outro garoto ao seu lado parecia fraco e pálido, mas Bellamy não via ferimentos evidentes em suas feições como o sangue que cobria o rosto da garota.

Joan estava certa. Havia pessoas ali, e elas precisavam de ajuda.

Assim que ele se livrasse do rádio podia voltar para o acampamento e dizer que mudou de ideia. No momento ele precisava pensar em si, priorizar sua irmã e as responsabilidades que possuía com ela.

Nesse pensamento, ele suspirou brusca e rasamente, desviando os olhos da garota para o painel a sua frente, buscando o pouco conhecido, mas facilmente identificável rádio, sua mão descendo até sua cintura para tirar a faca improvisada que havia guardado ali.

Seus dedos mal seguraram o objeto, quando foi puxado para trás pela gola de sua camiseta, o calor de outro corpo juntando-se a suas costas, e a lâmina fina da faca profissional tocando no limite de um corte a pele de seu pescoço.

Não precisava vê-la para saber que era Joan.

— Atacando um homem pelas costas? — Ele buscou o tom firme, a voz áspera parecendo mais rasgada que o normal, seu tom aumentando para que ela o ouvisse entre o som forte da chuva. — Nada justo Joan.

Justo? Se for para ser justa eu devo cortar sua garganta aqui e agora. —Cuspiu. O nojo e a fúria intoxicando as palavras brutais ao pé do ouvido do impostor, e seus dedos se apertando no cabo da faca, afundando um pouco mais na pele molhada e resistente. — Você quer matar todos nós, e aqueles na Arca. Não vejo nada mais justo a fazer.

O silvo entredentes e resolutos batendo em sua orelha fez os olhos de Bellamy escurecerem, seu maxilar endurecendo em algo próximo a culpa, mas não completamente lá.

— Nós não precisamos deles. — Rosnou em tom rouco e baixo, porém nada fraco. Suas palavras pausadas e duras acendendo uma chama flamejante no peito de Joan, seus traços fechando no mais límpido desgosto e seus músculos enrijecendo em raiva.

Os nós de seus dedos foram para o mais claro tom de branco ao segurar a faca firme no pescoço do impostor. Em mesma intensidade que a fúria tomava conta de seu corpo, lágrimas agressivas pareciam querer escapar de seus olhos.

Seu peito apertado sentia pequeno demais para conter a enxurrada de sentimentos confusos e nervosos que a consumia, e tinha vontade de arrancar sua própria pele fora, para que essa sensação terrível tivesse espaço o suficiente para fugir.

Joan queria matar o impostor preso em suas mãos, queria vê-lo na lama com sangue escorrendo de seus lábios e um osso deslocado em seu pescoço, assassinado como Wells havia sido.

O ecoante rosnado agudo e rasgado foi a única predição dos atos dela. Quando percebeu já não havia mais chão sobre seus pés, o céu escuro e turvo passando como um raspão por seus olhos ao cair, sua nuca topando na lama grossa em um baque árduo e doloroso, fazendo-o soltar um curto silvo raso entredentes.

Com os olhos fechados pela dor latente foi impossível defender-se quando os joelhos de Joan caíram na lama por cima de seus braços, imobilizando-o covardemente antes de colidir com os punhos cerrados em ímpeto com a maçã de seu rosto, a faca longe de seu alcance.

Nós precisamos deles! — As palavras saíram por seus lábios inquietos completamente alteradas e instáveis, seu tom tremulando ao gritar em meio ao segundo golpe bruto no rosto de Bellamy, os nós de seus dedos cortando a pele do topo do seu nariz.

Sangue escorria para a lama passando pelos lábios dele, a água gelada da chuva fazendo o ferimento arder descomunalmente. Ainda assim, ele se mantinha firme contra os dedos de Joan, seus olhos castanhos pendurados no rosto da garota, atônito com a linhas delicadas e finas contorcidas em tamanha... dor. Seus lábios trêmulos e retorcidos ao cuspir as palavras presas em seu peito pesado.

Eu preciso deles.

Com um nó embolando em seu estômago, Bellamy viu a lágrima desesperada descendo pela bochecha saliente de Joan, e diferente de qualquer pingo de água que escorria por seu rosto, aquela gota se destacava, carregada de sentimentos que transbordavam da garota sempre calma e controlada.

— Wells se foi... — Joan murmurou com o peito ofegante, suas mãos passando pelos cabelos encharcados que caiam por seu rosto dolorido, seus olhos âmbar carregados ao mirar para o céu escuro, as lágrimas ganhando brilho com a luminosidade de um trovão que estourou a suas costas. — Minha família...

Entre um suspiro pesado, seu olhar desceu para o impostor, as lágrimas desabando de seus cílios diretamente para o peitoral do rapaz, que pôde senti-las em sua camiseta molhada, cada gota diferenciando-se da chuva com seu calor e emoção.

Ele sustentou seu olhar, seu coração remoído no peito ao encontrar na profundidade de suas esferas nebulosas apenas dor, raiva e ressentimento. Joan podia ver, mesmo em meio ao banho de sangue descendo do corte em seu nariz, os resquícios de Bellamy, e não do impostor.

Argh! — Joan rosnou em um rasgo agudo de garganta, o ar denso em seus pulmões fugindo entre o grito revolto e seus punhos se apertando ao socá-lo mais uma vez, seu punho afundando no peito forte do rapaz, tirando-lhe o ar. — Por que você é assim?!— Ela gritava com toda a potência de seus pulmões, sem ao menos ver onde seus punhos o atingiam, seus olhos violentamente fechados em martírio. — Por que você faz isso?!

— Porque... — Bellamy se esforçou a dizer entre um soco e outro da garota, sua firmeza já mais abalada, sua voz áspera e abafada, quase um suspiro. Ele podia sentir o sabor metálico de seu próprio sangue, o gosto enjoativo entalando sua garganta, quase o fazendo desistir de falar qualquer coisa.

Mas Joan diminuiu a força de seus golpes gradualmente, seus olhos atentos sobre ele, estudando-o. Sua mão fria descansava em seu peito como apoio para o próprio peso, conseguindo sentir o ritmo acelerado do coração nervoso de Bellamy sobre a sua palma.

Ele só conseguia lembrar da noite da cerimônia, das palavras reconfortantes que gracinha havia dito para seu povo, palavras que lhe traziam curta esperança.

 “Eu não os condeno pelos crimes cometidos para sobreviver.”

Era isso que queria de Joan no momento, e o que o motivavam a ser honesto com a mesma. Ele precisava que ela não o condenasse.

— Eu matei o chanceler. — O murmúrio foi engasgado pelo sangue em sua boca, tão baixo e rouco que acreditava que ela não pudesse ter o ouvido. Porém ao encontrar seus olhos aturdidos, ele soube que a confissão não escapou de seus lábios por nada.

O coração de Joan seu afundou peito como uma âncora em alto mar. E mesmo em meio a tanta água, seus lábios pareciam secos.

— O que? — Soou as palavras vazias no ar.

— Eu tinha. Eu precisava. — Bellamy arfava ao dizer, seus olhos sustentando os dela com vigor, suplicando para que o compreendesse. — Eles me ofereceram um acordo. Jaha por Octavia. Descer com os 100.

— Você matou Jaha? — O murmúrio escapou por seus lábios sem significados ou profundidade, sua mente difusa e seus olhos vazios, presos em Bellamy, mas longe dele, perdidos.

Gradualmente som da chuva pareceu ficar mais alto e os trovões mais fortes, preenchendo o silêncio deles no ar.

Bellamy sabia que ela não precisava de mais respostas, e sim de tempo. Conseguia sentir os músculos de Joan ficarem fracos sobre ele, e poderia tirar seus braços debaixo dos joelhos da garota com facilidade, mas não o fez, com medo de perturbar a calmaria que estabeleceu.

Deixou que Joan reconstruísse seus muros, associasse suas palavras. Vendo-a fechar os olhos ao respirar fundo, seus cabelos pesados com a água caindo para trás ao jogar com leveza seu pescoço delicado para trás, sentindo as gotas frias de água lavarem seus traços finos, levando sua exasperação junto da sujeira.

 — É por isso que você está sabotando as chances da Arca de descer. — Os seus olhos fechados abriram-se lentamente, calmamente descendo para fitá-lo. — Eles matariam você.

Assentindo vagarosamente, ele a observou passando as mãos pelo rosto, arrastando os dedos para cima até passarem por seus cabelos, pondo-os para trás. Seu peito se enchia com o ar gélido do anoitecer ao respirar fundo, librando um pouco mais o peso sobre o abdômen do rapaz.

— Você pode confiar em mim, Bellamy. — Disse então, suas palavras sinceras sendo levadas pelo vendo, mas seus olhos firmes nos dele, acesos como chamas. Uma luz clara entre a escuridão, um refúgio quente na chuva fria.

— Eu confio. — Disse ele. O sussurro suave escorregando por seus lábios, roubado pela sinceridade do momento.

— Nós podemos fazer isso juntos. — Joan assentiu, seu estômago revirando-se em incertezas, mas seus olhos seguros, firmes nos dele. — Manteremos os 100 unidos, salvos, e o rádio intacto.

Uma sensação agradável subiu pelo estômago de Bellamy ao notar a leveza nos traços de Joan, seus lábios bem desenhados quase formavam um suave sorriso. Ainda assim, não podia deixar de pensar no que suas afirmações levariam.

— E quando a Arca descer?

Os olhos de Joan parecerem se perder por um segundo nos seus, pensando, antes de lhe responder com o olhar firme e a voz decidida em seu tom sempre aveludado.

—  Eu te ajudo a se esconder. —  Ela afirmou, seus dedos se embolando no tecido molhado da camisa dele. — Temos um bunker, você fica nele e eu... — Engoliu seco, respirando fundo. — Eu digo que você morreu... ou sumiu... o que seja.

Bellamy sabia que a ideia poderia funcionar, com três cadáveres para a conta dentro dos 100, a Arca não gastaria suas forças para encontrar um foragido dado como morto. Ainda assim, seu peito estava inquieto, seus olhos deslizando por Joan sem querer imaginar todas as hipóteses de seu sentimento turbulento, focando-se apenas em um, aquilo que ele deveria sempre se preocupar.

— E... Octavia?

Foi surpreendente para ele ver o sorriso gracioso formar-se nos lábios de Joan quando fez a pergunta.

— Eu vou cuidar dela. — Ela manteve seus olhos nos dele, suas palavras nunca mais honestas. Seus joelhos escorregando propositalmente para dentro, ficando contra sua cintura, porém libertando os braços de Bellamy. — Eu prometo.

Ele nunca se sentiu tão extasiado, seu peito leve, mesmo com ar escasso, e seus olhos perdidos no dela, afundados na ligação profunda que haviam ali estabelecido.

Os movimentos de suas mãos foram inconscientes, lentos. Quando percebeu já conseguia sentir a pele dos pulsos de Joan sob seus dedos enlameados, as mãos dela ainda apoiadas em seu peito agitado, sentindo seu coração acelerado.

Com o sorriso suave ainda em seus lábios bem desenhados, Joan assentiu para Bellamy em meio ao olhar limpo que trocavam.

Eles estavam juntos nessa.

— Eu sei que a situação toda é muito sexy. — Uma voz feminina veio das costas de Joan, longínqua e abafada pela chuva. — Mas precisamos de uma ajuda aqui.

Olhando por cima dos ombros, Joan avistou de primeira o sangue escorrendo pelo rosto a garota morena que se apoiava na porta da nave, seu peito instável e seu torso curvado para frente, claramente com dor.

— O que aconteceu? Você está bem? — Joan perguntou ao se levantar de cima de Bellamy com pressa, seus pés afundando na lama a cada passo.

— Eu estou bem — Raven assentiu, tapando o corte em sua testa com a manga da sua jaqueta. Seus grandes olhos redondos mergulhando no mar de preocupação ao mirar para dentro da nave. — Ele é que não.

Quando perto o suficiente, Joan adentrou na nave quase por inteiro, seus olhos passando para o banco do piloto, onde o rapaz magro e pálido contorcia seu rosto em dor, sua camisa e testa molhadas de suor.

Demorou para que ela encontrasse, na escuridão da parte mais baixa da nave, o grande estilhaço de metal enterrado na coxa do garoto, cortando sua carne e atravessando seus músculos até sair pelo outro lado. Uma poça de sangue larga se formando aos seus pés.

Um nó se embolou na garganta de Joan, ainda não acostumada como Clarke a feridas tão brutais.

— Temos que levar ele para o acampamento. — Disse com seu coração batendo a milhões no peito, seus olhos passando diretamente por Raven ao olhar por cima de seus ombros, contornando-a para chegar a Bellamy. — E vamos precisar do rádio.

 

 


Notas Finais


Boooooom, chegamos a uma parte critica, não é mesmo? Bellamy e Joan no mesmo lado, Tyler pousando já machucado, Raven chegando para acabar com Clarke e Finn.

Pelo menos o rádio está funcionando. ':)

Adoro ler a previsão de vocês, o que acham que vai acontecer nos próximos capitulos?

+ Estou sem Phoshop até o meio do agosto, estão estou tendo que reutilizar as capas de capitulos :(


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