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História Reinado de Ouro - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Prólogo


Fanfic / Fanfiction Reinado de Ouro - Capítulo 5 - Prólogo

A taberna estava cheia naquele dia. A garota chamava a atenção, não pela pesada capa preta que carregava sobre os ombros e pelo capuz que cobria parte de seu rosto, mas pelos peculiares cabelos acinzentados que reluziam sob a luz da lua.

A neve cobria o solo e os telhados, os moradores do pequeno vilarejo Saffir se escondiam do inverno, mantinham-se em suas moradas ou nas casas de bebidas. A vegetação estava coberta e nenhuma plantação crescia ali, era o lugar mais gelado de Catália. Já em Ice Moon e Luma, nos campos das Forças do Exército e nas terras próximas ao palácio, o inverno não era tão prejudicial na produção de alimentos, e aquele era de longe a vila com menos recursos do Reinado de Safira.

A garota parou diante do balcão, onde o velho Narkroff ergueu a cabeça, os cabelos negros estavam sujos com as cinzas da lareira, a fuligem subia pela madeira e deixava as paredes pretas. O taberneiro limpou as mãos em um pano encardido, pendente em um prego enferrujado que estava preso na pilar de madeira.

— Cerveja? — Perguntou o velho, que já enchia uma caneca de madeira e barro em um dos barris.

— Costela e cenoura. — Respondeu, retirando o capuz para revelar seus cabelos brilhantes. Os ombros do taberneiro relaxaram e ele deixou a caneca sobre o balcão, preparou os ingredientes para a sopa.

— Está com febre, soberana dos barris?  — Ironizou, e a garota fez o gesto de uma faca cortando verduras em uma tábua. O homem riu pelo nariz e começou a fazer uma sopa de cenoura, ervas e costela de porco.

O vapor da comida preenchia os ares da taberna, deixava o lugar abafado o suficiente para a garota retirar a capa e pendurá-la em outro prego, onde os alcoólatras que frequentavam o local costumavam deixar os chapéus e casacos.

Ela era conhecida como a mais deslumbrante de Safira, cobiçada por todos, mas escondia ao máximo seu rosto, sabia que não a deixariam viver em paz se soubessem a força que ela detinha. Falsificava a própria identidade, chamava a si mesma por um nome inexistente, em um corpo que já estava morto e não lhe pertencia. Beleza e mistério, era exatamente isso que ela buscava para atravessar a barreira sem danos físicos ou mentais, sem sucumbir.

O taberneiro posicionou a tigela de barro na frente da garota, o cheiro era o melhor que já havia sentido em todos os anos em que vivera, e o homem rodeou o balcão, puxou uma cadeira ao lado dela e sentou.

— O que você quer, Narkroff? — Dizia com a voz desagradável, depois bebeu um gole da sopa quente, que desceu queimando sua garganta e aquecendo parte do corpo congelado. — Está deprimido porque a soberana dos barris não quer a sua cerveja barata? — Ela riu.

— Você é minha melhor cliente.

— Hum. — Ela grunhiu, indiferente.

— Eu ouvi falar sobre uma maneira de atravessar a barreira. — Os olhos da garota brilharam e ela parou de degustar o alimento para ouvir o velho. — Existe um grupo de fanáticos pelo rei que realizam sacrifícios de híbridos.

— Se fosse pra atravessar morta, eu já o teria feito. — Ela continuou bebendo o caldo da sopa e partindo os pedaços da carne com os dentes.

Narkroff já devia saber a reação da mulher, a mais cabeça dura que ele havia conhecido, tinha a vibração de uma jovem audaciosa, continuava sóbria mesmo quando bebia cinco canecas de cerveja, uma mulher carrancuda e difícil.

— Eles não vivem em Saffir. Estão situados no norte de Ice Moon. Dizem que suas cabanas são montadas em meio às Montanhas Polares.

— Montanhas Polares? Querem se esconder?

— De fato. Eles fazem sacrifícios para o Reinado de Ouro, mas não matam suas vítimas.

— E como garante que eles atravessam a barreira? — Ela deu um último gole na sopa, estava faminta.

— Eu disse que ouvi falar, são apenas boatos, não posso afirmar nada. As vítimas atravessam como sacrifício pro Baile da Meia-Noite, então sabe que...

— Eles sequestram para servir de oferenda, sim, eu sei.

A garota retirou dois sacos de safiras, pendurados na bainha de couro, e entregou ao taberneiro, que sorriu. Ela levantou-se e ajeitou a espada no quadril, presa pelo cinturão, pegou a cerveja que Narkroff havia posto e levou consigo.

— Ei — A garota olhou para trás, seus cabelos já estavam cobertos pelo capuz. O homem jogou o saco de pedras para ela, que o pegou ainda no ar. — A cerveja fica por conta da casa.

Ela ergueu a caneca, fazendo um brinde a todos na taberna, que retribuiram animados.

°•°•°•°•°•°

Caminhou por cima da neve pesada, suas mãos estavam geladas e o vento forte fazia com que ela tivesse que segurar o capuz. Estava sozinha, apenas ela e a espada. Tomou o último gole da cerveja e arremessou a caneca para o oeste, que iria sumir na neve após alguns segundos. Aquele inverno duraria o ano todo, e no ano seguinte se tornaria ainda mais gélido e forte, com um frio que congelava as juntas.

Por sorte, encontrou um celeiro conhecido na região. A mulher de vestido simples e encardido puxava as rédeas do último cavalo, prestes a fechar as portas de madeira e ir embora para sua casa. Já havia alimentado os animais e cuidado do pelo, mas havia um bom tempo desde que aparecera alguém disposto a pagar por um.

— Qual é o seu melhor cavalo? — Ela perguntou, mas ao lado de fora, enquanto a geada rondava brutalmente os arredores.

A mulher a fitou por um tempo, depois andou até os fundos do celeiro, na penúltima cela, à esquerda, havia um cavalo robusto e preto. Ele era o mais alto e bem cuidado, uma raça nobre que um dia foi um cavalo real.

— Ele foi abandonado pelo rei Azad, porque não era bonito o suficiente para ser seu cavalo.

A garota de cabelos cinzentos entrou no celeiro, aproximou-se da cela para encontrar o cavalo de pelo negros e brilhantes. Ele tinha uma cicatriz que ia da sobrancelha até a extremidade do maxilar, onde o pelo falhava, mas aquilo era sinônimo de beleza.

— Por quanto posso ficar com ele?

— Quarenta safiras.

A garota separou três sacos com safiras, haviam sessenta pedras, e entregou para a mulher, cujos olhos brilharam como se estivessem cheios de lágrimas. Nunca havia cobrado tão caro em um único cavalo, e muito menos recebido por ele.

— Dez safiras por esta sela. — Ela retirou uma sela de couro, posicionada sobre um tronco polido de madeira. — E dez pelos arreios.

Ela começou a preparar o cavalo para sua primeira montaria, enquanto a desconhecida olhava eufórica, sem reação diante da situação tão repentina. Já em cima da sela e segurando firme as rédeas, ela deu uma última olhada para a mulher abaixo.

— A comida é paga também ou é direito do animal?

A vendedora sacudiu levemente as mãos, nervosa, pensando em algo que pudesse resolver, pegou um saco repleto de cenouras que seu marido havia trago de Luma e entregou à garota, dizendo que era por conta da casa.

— O nome dele é...

— Aaron, eu já sei. — Puxou os arreios, o cavalo virou-se e começou a correr, trotava em meio à neve e desviava dos pinheiros quando saíram da vila.

Agora, ela estava de volta com o seu animal, o cavalo criado por ela e que fora roubado pelo rei Azad, maltratado apenas pela sua cicatriz de batalha. O cavalo que havia defendido sua dona durante a guerra e ganhou aquela enorme marca, a marca de um sobrevivente. Estavam juntos novamente, ele reconhecia Artena pelo cheiro, um cheiro inconfundível mesmo que estivesse em outro corpo, cheirava rosas.

— Aaron, para as Montanhas Polares. Você já sabe onde iremos. 



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