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História Rejoy - Capítulo 8


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Notas do Autor


Olá meus amores, como vocês estão? Espero que bem e com o coração preparado porque estamos na reta final da história! Não vou me prolongar muito, mas muito obrigada pelos 20 favoritos na história, vocÊs não sabem como eu fico feliz!

Boa leitura!

Capítulo 8 - Você está me machucando


Eu te amo

                Eu te amo

                Ouvi suas últimas palavras ecoando toda hora e em todos os lugares. Ás vezes parecia que ele estava sentado ao meu lado na mesa de jantar ou aninhando meu cabelo ao lado da cama, como fazia quando eu era pequena.

                Estou indo melhor do que imaginava, para ser sincera. Lorenzo, Talia e Pedro vêm me ajudando muito.. Daisy, que agora aprendeu a ler, le os livros que me dei de presente a ela, em nossas visitas. Rita, as poucas vezes em que tinha liberdade das tarefas do castelo, fazia minha refeição favorita ou me mandava flores silvestres recém-nascidas.

                Descobri que Rita estava viva quando, numa manhã fria, a mesma bateu em minha porta.

                -Como ousa voltar pra essa porcaria e não me visitar?- disse ela beliscando meu braço. A abracei no mesmo instante, sem conter o choro. O guarda a porta parecia confuso, mas fechou-a mesmo assim.

                Agora, não vejo a hora de o dia acabar. Esse chá de bebê está acabando comigo, apesar de ver Ana sorrindo me fazer feliz. O rei insistiu em Catarina e a rainha compartilharem o chá de bebê, já que estavam praticamente no mesmo mês de gestação. Ver a mulher que disse que eu estava passando vergonha enquanto o sangue do meu pai estava fresco em meu rosto foi de perder a cabeça. Minha vontade é de pular em seu pescoço o tempo.

                Além disso, tinha me acostumado a não vê-la, já que ela e Charles voltaram para Suffolk logo após a coroação. Imagino que vão voltar para lá logo quando essa baboseira acabar.

                -Olhe só que graçinha! Um chocalho!- disse Ana colocando a mão em meu braço e me mostrando o objeto. A barriga protuberante a fazia se inclinar para trás e ficar quase deitada na poltrona. Os seios, inchados, cada vez mais protuberantes pelo decote.

                Assenti, pegando o objeto de suas mãos. Ela agarra minha mão por um breve momento, como se pedisse perdão por eu ter que passar por isso. Desde o dia da coroação, não tivemos um momento a sós, então não conseguimos falar sobre nada. Enviar cartas e me visitar estavam fora de questão, ela é uma rainha agora. Sou súdita e dama de honra, quem deve visitá-la e enviá-la cartas sou eu, não ela. Mas vive cheia de cartas e seus aposentos, agora os mesmos que o rei, cheio de convidados.

                O chocalho faz um barulho irritante e passo para a mulher ao meu lado, que está chorando desde o inicio. Levanto-me e dou a desculpa esfarrapada de que vou pegar um pouco de chá, mas apenas deixei meu presente no meio da pilha e saí andando do quarto, sentindo uma lufada de ar fresco no rosto. Se eu passasse mais um segundo lá dentro, seria sufocada por talco de bebê. 

                Entro de fininho no meu quarto pela entrada de servos, já que o guarda à minha porta me mandaria de volta para os aposentos da rainha no mesmo momento. Fecho os olhos e me encosto sobre a porta, suspirando.

                Ando pelo quarto, arrumando algumas coisas e pensando no que posso fazer agora que tenho minha tarde livre. Uma soneca seria ótima, mas podia muito bem ler um livro. Pego um que está em cima da minha escrivaninha. É o caderno que trouxe da vila, que pertence à Lorenzo. Não contei a ele sobre o “empréstimo” e, se ele se deu por falta, não deixou transparecer.

                Quando estávamos na vila, li um pouco toda noite e imaginava sua voz lendo em minha cabeça. Nunca entendia o contexto das anotações ou dos desenhos irregulares, mas era o que me trazia conforto.

                Ouço alguém sufocando e alguns sussurros a minha porta.

                -Cale a porra da boca e entre, ela está com a rainha- disse uma voz irritada.

                Olho pelo quarto. Preciso de um lugar para me esconder. Quem quer que seja, não vai ficar feliz com a minha presença. Decido ir até embaixo da cama, me espremendo pelo espaço estreito e empoeirado, bem no momento em que a porta é aberta e a visão de duas botas de couro entra em meu campo de visão.

                -Vamos, começa a procurar. Tem que ter alguma pista sobre o paradeiro da fedelha por aqui.

                Fecho os olhos e suspiro, a voz do homem comandando a busca finalmente se encaixa na minha cabeça. Bolena.

                Ele está procurando pistas sobre Daisy. Reviro minha memória se tema algo que possa dar a entender que tenho contato com alguma criança e os meus batimentos aumentam consideravelmente porque não consigo me lembrar. O fato de ele estar no meu quarto significa que ele sabe muito bem que eu conheço Daisy. Lorde Bolena nunca faria algo para se comprometer sem ter certeza.

                Um tempo depois, o ar seco e empoeirado debaixo da cama me sufoca e meu quarto é revirado. Bolena xinga cada vez mais e o homem que está procurando vai diminuindo o ritmo, sem achar nada. Vejo roupas, jóias, livros e cartas caírem no chão, o que me faz ficar mais desesperada.

                -Espere- diz Bolena.- Olhe embaixo da cama.

                O homem se aproxima a passos lentos.

                -Mas não vou conseguir enxergar nada...- diz o homem mas logo se cala.

                Olho em volta. Tem espaço o suficiente para que eu possa colar meus pés e as mãos entre as madeiras para ficar suspensa no ar por algum tempo até que o homem olhe abaixo da cama.

                Apresso meus movimentos e me ergo do chão, sinto farpas entrarem em minhas mãos e os músculos da minha perna ardendo, desacostumadas com esforço físico. O homem se abaixa no exato momento e torço para que esteja escuro demais para que ele possa ver a saia do meu vestido pendendo, assim como meu cabelo e o colar do meu pescoço. Prendo a respiração e pressiono minhas costas contra a cama o máximo que posso.

                O homem se ajoelha e não consigo ver seu rosto, então não posso dizer se ele me viu ou não. Ele tosse e se ergue.

                -Nada, senhor.

                Bolena chuta o pé da cama e tremo dos pés a cabeça.

                Os dois saem do cômodo e espero seus passos estarem ao longe no corredor. Vou até a porta para pedir ajuda a algum guarda, mas não vejo ninguém.

                Tenho que achar Lorenzo.

 

(...)

 

                Ando por todo castelo descubro, meia hora depois, que ele está em reunião com alguns nobres para informar o rei Francis sobre a união entre Inglaterra e França. Respiro fundo. Eu preciso contar isso para alguém e preciso avisar Pedro que estamos sendo caçado. Lorde Bolena é esperto e tem olhos em todos os lugares. Se não nos movermos, ele vai chegar até Daisy em breve. Só tenho mais uma pessoa em mente que pode me ajudar.

                Charles.

                Vou ao salão, onde os homens ficam enquanto suas damas estão no chá de bebê, e abro caminho na multidão. O cheiro de suor e cerveja, junto com a gritaria me faz ficar zonza, além dos olhares tortos que os idiotas estão me lançando.

Charles está encostado numa coluna, olhando para um jogo de cartas que está rolando, de forma desinteressada, mas sua perna esquerda está balançando, revelando seu nervosismo. Ao me aproximar, seus olhos encontram os meus e não posso evitar lembrar o olhar que ele me deu quando um pai morreu.

-Preciso falar com você- falo em voz baixa quando chego ao seu lado.

Ele desencosta da coluna, com uma cara surpresa, e limpa a garganta.

-Claro- diz ele, meio exasperado.

Atravesso os homens de novo, agora mais atentos pela saída de Charles com uma mulher que não é sua esposa e sim a órfã dama da rainha. Não abaixo a cabeça por um segundo.

Quando nos afastamos de todos, ele me puxa pelo braço com gentileza.

-Eu queria me desculpar...

O interrompo.

-Lorde Bolena entrou no meu quarto e revirou tudo em busca de algo que o levasse a Daisy- engulo em seco.- Mas acho que nós dois sabemos muito bem como esse homem e, quando ele quer algo, não para até conseguir. Preciso da sua ajuda para descobrir o quanto ele sabe. Imagino que Henry não esteja sabendo do que ele planeja porque acha que a Daisy morreu no incêndio. Pode me ajudar?

Ele arregala os olhos, tentando absorver tudo o que eu disse, mas assente.

-Certo, vou ver o que posso fazer. Só acho que vai ser muito difícil fazer isso no sigilo, já que o maldito está em todo o lugar- ele faz uma cara de desprezo.- Imagino que a sua rainha já sabe disso tudo.

                Respiro fundo e minha mão formiga para que eu de um tapa em seu rosto.

                -Não coloque Ana no meio disso e, não, ela não sabe de nada disso- digo, apontando o dedo em seu rosto.

                Charles me encara e depois olha para minha mão, onde o anel que Lorenzo me deu repousa em meu dedo.

                Ele me encara de forma desconfortável.

                -Ana, é? Quanta intimidade- o diz zombeteiro para disfarçar seu desconforto, esperando que eu o contradiga.

                Não o faço.

                -Sim, tenho muito afeto por ela, sou sua dama. O que esperava?

                Ele balança a cabeça, sem acreditar.

                -Bom, ela é uma cobra interesseira, espero que tenha notado.

                Aproximo-me em desafio.

                -Da mesma forma que Henry é louco e fraco, espero que tenha notado- respondo na mesma moeda.

                Charles não rebate.

                -O anel. Ela te deu?

                Fraquejo por um instante.

                Enzo e eu não assumimos o noivado para ninguém. Não por vergonha, mas porque não sei se estou pronta para receber mais olhares estranhos e pessoas apontando enquanto eu passo. “Olhe só, mal perdeu o pai e já vai se casar” e talvez comentários até mais maldosos. Alias, ninguém aqui é cego, uma garota de 16 anos aparece com anel no dedo e isso só significa duas coisas, ou ela vai se casar ou é amante do rei e ganhou um anel. Os boatos já devem estar rolando.

                -Não- digo e passo meus braços a minha volta.

                Charles parece impaciente.

                -Então? Quem te deu?

                Abaixo os olhos.

                -Lorenzo. Lorenzo me deu.

                Ele ri incrédulo.

                -Então o que? Você está noiva agora?

                O tom de deboche em sua voz me irrita.

                -Ah me desculpe, Lorde Brandon, por buscar ter aceitado a proposta de um homem que se importa comigo e me respeita porque, se não fosse ele, eu estaria na rua agora ou, quem sabe, num bordel, me vendendo para poder sobreviver e as terras do meu pai e da minha mãe seria vendidas e eu nunca poderia tê-las- digo entre dentes.- Mas você, aparentemente, pode se casar com quem e quando quiser. Você pensou em mim, nem que por um segundo quando pediu Catarina em casamento um mês depois de ter me pedido, o que confirmou minhas suspeitas sobre você ser um canalha?

                Sinto minha garganta queimar.

                -Então não me venha com esse papinho sínico de ficar magoado por eu ter ficado noiva quando eu tive de ver você e Catarina felizes. Minha melhor amiga se casando com o primeiro homem que tive uma conexão forte, se é que eu não inventei isso.- digo incrédula, passando as mãos pelo cabelo.

                Ele me olha perdido.

                -Anna eu... estava completamente perdido quando pedi Catarina em casamento. Não me arrependo, muito pelo contrário, mas quando você negou o pedido, fiquei com raiva e, como conhecia Cat a algum tempo, decidi pedi-la para te mostrar que posso sim amar.- ele fale de forma exasperada.

                Faço cara de cínica.

                -Então aquela criança na barriga da Catarina é tudo uma forma de me provar que você pode amar?- logo ele tenta começar a se explicar, mas eu rio.- Ah me poupe Charles. Catarina pode ter sido uma péssima amiga para mim nesses últimos meses mas ela não merece ser usada dessa forma.

                -Eu a amo, amo mesmo, assim como vou amar a criança que está para nascer. Mas Anna você...

                Ele olha através de mim e seu rosto se fecha, assim como sua boca. Viro-me e vejo Lorenzo parado no meio do corredor, o que faz meu sangue gelar.

                Venho evitando falar sobre o casamento esse tempo todo e ele me acha, sozinha, no corredor com um cara que ele sabe que sinto algo. Que situação agradável, não é mesmo?

                -Oi- digo sem graça e me afastando um pouco de Charles..

                Lorenzo se aproxima.

                -Oi- ele para ao meu lado, olhando de Charles para mim.- Tudo bem por aqui?

                Charles bufa e revira os olhos.

                Explico rapidamente tudo o que aconteceu no quarto e o porquê de eu estar falando com Charles, excluindo os últimos dois minutos da conversa. Quando acabo, Lorenzo chuta a parede ao meu lado.

                -Temos que tirá-los de lá. E tem que ser agora- diz ele.

                Assinto, concordando com ele.

                -Mas eu não posso sair. Lorde Bolena vai achar estranho a dama de honra da filha dele não estar no chá de bebê.

                -E Henry vai desconfiar se eu não estiver nas comemorações- diz Charles, passando as mãos no rosto.

                Lorenzo me puxa de lado e sussurra:

                -Fale com ela.

                Franzo o cenho, sem entender.

                -O que?

                Ele bufa, irritado.

                -Quantas vezes eu tenho que te dizer que não sou burro?- ele revira os olhos.- Se você falar com a rainha Ana, sei que ela vai entender sua ausência.

                Meu rosto fica rubro por perceber que Enzo sabe sobre Ana e eu. Mas por quanto tempo? É tão obvio assim ou ele é realmente observador? Fico mal por notar que ele não transparece nada por saber disso. Ele poderia ao menos ficar bravo por sua noiva gostar de outras pessoas.

                Suspiro e fecho os olhos por um momento.

                -Certo. Vou tentar- pego em sua como um pedido de desculpas.- Me espero nos estábulos junto com Pedro, ele deve estar no fim de seu turno a essas horas. Encontrarei vocês em dez minutos.

                Lorenzo saí caminhando de forma rápida pelo corredor. Charles parece completamente perdido.

                -E você- digo apontando para ele.- Mantenha Lorde Bolena longe do rei Henry e prenda a atenção dele.

                Começo a caminhar, deixando-o sozinho, mas me viro no fim do corredor.

                -Tente não fazer besteira

                Viro-me antes de poder sua expressão, continuando minha jornada até o quarto de Ana.

 

(...)

               

                Chegando ao quarto, posso ouvir a conversa alta vindo do cômodo. Abro a porta, sem esperar que guarda nenhum me anuncia e vou até Ana, que está recostada na cama.

                -Vossa Majestade- faço uma reverência.- Será que posso falar com Vossa Senhoria?

                Os olhares se viram para mim e Ana parece surpresa com tanta formalidade, mas se levanta no mesmo instante, um pouco cambaleante, e vem até mim. Ela estende a mão para que eu possa ajudá-la a andar até o outro cômodo.

                Ela pede licença e vamos até o outro cômodo.

                -E então?- diz ela debochada- O que Vossa Senhoria deseja de mim?

                Tenho vontade de tomá-la nos meus braços no mesmo momento.

                -Bom, vou precisar que me dispense pelo resto dia- ela torce o nariz.- É uma emergência, por favor. Prometo que vou pagar em dobro, só me deixe ir.

                Uma sobra de malicia passa pelos seus olhos.

                -Certo. Vá. Você é tão para mim que nunca iria te negar nada- ela toma minhas mãos e beija meus dedos.- Apenas volte.

                Assinto e dou um leve beijo em sua bochecha, me apressando para sair do quarto. Virando a corredor, começo a correr desesperadamente até o estábulo, rezando para que eles estejam bem e que eu chegue a tempo.

                Quando estou prestes a sair do palácio, vejo Charles na saída de empregados.

                Bufo alto e ando até ele batendo os pés no chão.

                -O que você ta fazendo aqui? Era para você estar enrolando Henry!

                Ele pega minha mão e me puxa em direção aos estábulos. Consigo ver Lorenzo e Pedro arrumando os cavalos.

                -Acontece que Henry sumiu e Lorde Bolena também. Não consigo achá-los em lugar nenhum- ele segura meus ombros e ficamos cara a cara.- Não vou deixar você se arriscar sozinha.

                -Ela não está sozinha- diz Lorenzo, agora do meu lado. Seu rosto está sério.- Vamos, não podemos mais enrolar.

                Enzo me monta no cavalo, sem dizer nada, montando atrás de mim em seguida.

                Pedro saí pelos portões primeiro, tivemos sorte de ser dia de entrega então está aberto. Nós saímos depois e Charles vem atrás de nós, se apressando para nós alcançar.

                Lorenzo não fala dirige a palavra à mim durante todo trajeto e o silêncio me corta em pedaços. Daria tudo e qualquer coisa para saber o que ele está pensando. Tiro uma mão da rédea do cavalo e coloco por cima da sua, que está em minha cintura. Ele me aperta e sinto sua respiração em meu pescoço, o que me acalma um pouco.

               

(...)

 

                Já é fim de tarde quando chegamos à vila e tudo parece normal. O som típico de pessoas conversando na rua, os cavalos relinchando e o som de baladas saindo das tavernas. Mas não pareço ser a única a notar que algo está diferente quando paramos algumas quadras antes da casa de Pedro.

                -Tem alguma coisa errada- diz ele, correndo logo em seguida.

                Nós três tentamos impedi-lo, mas não adianta. Charles dispara atrás dele dentro da casa, o que me surpreende.

                Lorenzo tem um olhar confuso no rosto.

                -Fique aqui- sussurra ele e corre para dentro da casa.

                -Ah merda- digo e chuto a terra aos meus pés.

                Vou de fininho até a casa e me ajoelho ao lado de uma janela que fica longe da porta. Espiando, posso ver  Charles e Lorenzo discutindo, mas não vejo Pedro.

                -Você nem deveria ter vindo em primeiro lugar, então pare de ditar regras- diz Enzo, dando as costas a ele.- Pedro você as achou?

                Silêncio.

                -Quem você acha que é para dizer o que eu devo ou não fazer?

                Lorenzo respira fundo e se vira.

                -Sei exatamente o que você está tentando fazer. Pare. Anna é uma garota incrível assim como Catarina, e eu não deveria te lembrar disso. Por que você não dá um pouco de paz a ela? Acabou de perder o pai e ainda tem que agüentar seus joguinhos.- ele vai até o pé da escada.- Merda, Pedro cadê você?

                Charles abre a boca para dizer algo, mas se ouve um estrondo do andar de cima e Pedro desce a escada rolando. Levo um susto tão grande que quase caio para trás.

                Alguém desce a escada e, no mesmo momento, a porta dos fundos se abre e quatro guardas passam por ela. Seguro um gritos. Eles estão cercados.

                -Boa noite, rapazes. Posso dizer que esperava uma dama essa noite, não vocês dois.

                Reconheço a voz, mesmo que baixa. Lorde Bolena. Ele estava me aguardando, era para eu estar encurralada, não eles. Preciso tirá-los dali

                Lorenzo e Charles se entreolham. Mais alguém desce a escada. Henry aparece no cômodo, segurando Talia pelos cabelos e Daisy está em seu colo, o rosto escondido. Arregalo os olhos e tampo a boca.

                Não. Isso não está acontecendo.

                Lorenzo e Charles estão pálidos.

                -Henry... não faça isso. Essa garotinha é sua filha, ela...

                Henry grunhe e Charles se cala.

                -Eu sei de tudo isso, seu idiota. Mas eu já tenho uma filha e está pirralha aqui vai ser mandada para longe. Um lugar aonde nenhum de vocês vai jamais ouvir dela- ele semicerra os olhos.- Mas vão pagar por terem escondido ela de mim por todo esse tempo.

                -Com todo respeito, Vossa Majestade, nós apenas estávamos protegendo-a...

                -CALE A BOCA!- grita Henry.- Só não mato você agora mesmo porque preciso do apoio da França e você é muito valioso para ele.

                Seu olhar passa para Charles.

                -Esperava mais de você. Depois de tudo o que você me fez passar com a minha irmã, não aprendeu nada?

                Henry parece realmente magoado e Charles abaixa a cabeça. Lorenzo se mantém firme. Pedro olha para Talia desesperado, agora com uma faca no pescoço pelas mãos de um dos guardas. Talia chora em silêncio, a cabeça puxada para cima graças a Henry.

                Meu coração bate cada vez mais rápido. Preciso pensar em alguma coisa e rápido.

                -Se me permite falar agora, Charles foi envolvido acidentalmente, Vossa Majestade e não seria bom puni-lo quando a esposa dele está prestes a dar á luz. Imagino que não seja do Vosso interesse que uma criança inocente fosse afetada por um mal entendido- diz Lorenzo.

                Charles olha, agradecido, e incrédulo para Enzo. Estavam discutindo a menos de cinco minutos atrás e agora ele está o protegendo.

                -Sorte sua que tem jeito com as palavras, italiano- ele se vira para Bolena.- Vamos acabar logo com isso.

                Henry joga Talia para um dos guardas e sai da casa com Daisy no colo. Lorenzo olha na direção da onde estou e seus lábios se movem.

                Não saia daí. Não se mexa.

                Mas nem se eu quisesse me mexer eu poderia, por mais que quisesse tirar Daisy dos braços daquele canalha e fugir com ela. O que aconteceu a seguir foi demais para mim.

                Talia e Pedro são jogados um na frente do outro, ele se arrasta até ela e a abraça, tocando seu rosto para ver se está tudo bem. Ela chora desesperada.

                -Eu tentei fugir, e-eu juro que tentei- diz ela entre soluços.

                Pedro tenta limpar suas lágrimas, mas não consegue conter as deles de caírem.

                -Está tudo bem, vai ficar tudo bem.

                Lorenzo e Charles têm as mãos puxadas para trás das costas e começam a se debater. Talia é puxada dos braços de Pedro e um guarda puxa sua cabeça para trás, apontando uma navalha para seu pescoço, olha para Lorde Bolena em busca de ordens. O homem assente.

                Mordo as costas da mão para conter meu soluço.

                A navalha corta a pele macia do pescoço e o sangue jorra. Talia engasga e cai no chão, se debatendo, quando o guarda solta sua cabeça.

                Pedro solta um grito esganiçado e tenta chegar até o corpo de Talia que, os poucos, para de se debater e uma poça vermelha se forma a sua volta. O guarda que antes a segurava chuta Pedro no nariz, fazendo-o cair para trás.

                Lorenzo está gritando agora e Charles se debate. Meu rosto está encharcado de lágrimas e minha mão está sangrando. Não consigo me mexer.

                O guarda sobe em cima de Pedro e começa a rezar enquanto limpa a navalha na roupa. Pedro se debate e grita, socando a cabeça no chão.

                A lâmina desce até sua garganta e a corta como um folha de papel, o sangue brotando feito tinta. Ele, assim como Talia engasga com o sangue, mas cospe na cara do guarda.

                Seu corpo para de se mover também e seus olhos, seus lindos olhos verdes se esvaem de vida, ficando pétreos e nublados.

                Lorde Bolena observa a cena com nojo, mas se aproxima de Lorenzo e Charles.

                -Não sei onde aquela putinha está, mas sei muito bem que ela estava envolvida nisso tudo. Só digam à ela que, dá próxima vez que tentar me delatar, vai ser o sangue dela lavando o chão- ele ri.- Em conjunto com o de vocês se continuarem  segui-la fito animais. Tenham uma boa noite.

                Ele está prestes a passar pela porta quando olha para o balcão da cozinha e pega uma escultura, feita de gravetos. Sempre esteve ali, mas nunca perguntei a Talia e Pedro o que era. Ele pega em mãos e faz cara de deboche.

                -Além de traidores, são hereges- ele aponta para os guardas que seguram Enzo e Charles.- Soltem esses dois e anunciem na vila que hereges vivem nessa casa. Queimem tudo e incitem o povo para queimem a casa também.

                Ele sai da casa, seguido pelos guardas, que o seguem como cachorros.

                Pulo a janela no exato momento em que os guardas começam a chamar multidão. Aproximo-me dos corpos dos meus amigos, meus únicos amigos da vida toda, que me acompanharam de Winchester até aqui para morrerem tão novos. Ambos tinham um futuro promissor e seriam ótimos pais para Daisy.

                O cabelo castanho-avermelhado de Talia cai sobre seu rosto e está encharcado de sangue. Puxo-a até meu colo, fazendo sua cabeça repousar em minhas pernas e acaricio seus cabelos, não contendo os soluços. Meu peito doi e arde pelo esforço de respirar.

                -Deveria ter sido eu, Deus. Por que eles, Deus? Por quê?

                Seus olhos cor de mel estão enevoados, assim como os de Pedro. Respiro fundo e fecho-os, dando um leve beijo em sua testa, já fria e sem a cor dourada de antes. Olho em volta e vejo flores silvestres em cima da mesa. Deito a cabeça de Talia, com toda a delicadeza, no chão e pego as flores, derrubando tudo que estava na mesa por falta de equilíbrio.

                Levo as mãos frias dela até seu abdômen, dispondo-as uma em cima da outra e colocando as flores entre elas. Arrumo seus cabelos e seu vestido da melhor forma possível, deixando marcas de lágrima no tecido fino.

                Quando termino, dou um leve beijo em sua bochecha e digo algumas palavras em seu ouvido. Me fasto e limpo as lágrimas em seu rosto.

                Vou até Pedro e puxo seu corpo, frio e pesado, da melhor forma possível com minha visão embaçada, para perto do corpo de Talia. Fecho seus olhos e limpo o sangue de seu rosto com a barra do meu vestido.

                Levanto a cabeça e vejo que Lorenzo e Charles observam a cena em silêncio.

                -Me dêem uma espada- peço, tentando manter minha voz regular.

                Charles me olha estranho, mas Lorenzo retira a sua da bainha na mesma hora e estende-a com o cabo virado para mim. Pego o objeto em mãos, quase caindo para trás pelo peso, mas coloco-a recostada no peito de Pedro e suas duas mãos repousando no cabo de metal.

                Os dois parecem ter saído de uma cena de poesia trágica. O casal desafortunado aos olhos de Deus e do destino.

                Mas isso não é um livro. Isso é real e eles estão mortos por minha culpa.

            O silencio se quebra com uma gritaria lá fora e sinto Lorenzo me pegar nos braços.

                -Nos temos que ir.- diz ele ao pé do meu ouvido.

                Não sinto nada. Não me movo.

Depois disso, só vejo chamas e muitos gritos

Lembro-me de ter lido em algum lugar, que os hereges eram queimados depois de sua morte, como uma forma de sua alma poder ascender aos céus em forma de chamas divinas. Eles tiveram um funeral descente.

Pelo menos isso.

 

(...)

 

                Quando volto a ter consciência, estou em meu quarto, na banheira. Lorenzo está passando sabão em meus braços.

                -Eu não tive chance de me despedir.

                Minha voz saiu rouca e baixa.

                Lorenzo se assusta com a minha fala repentina, mas beija a palma da minha mão.

                -Eu sei-diz ele, calmo e compreensivo.

                Enzo abaixa meu braço para retirar o sabão.

                -Nem da minha mãe, nem do meu pai, nem de Daisy...- fungo, mas nenhuma lágrima cai. Acho que às esgotei por hoje.- Não consigo me despedir de ninguém.

                Lorenzo para à minha frente, ao lado da banheira e pega meu rosto entre as mãos.

                -Não é culpa sua, espero que saiba disso- diz ele, acariciando meu rosto molhado do banho.- Circunstâncias fora do seu alcance levaram essas coisas a acontecer.

                -Mas...

                -Mas nada. Você passou por muitas coisas nesse ultimo ano e tem que entender que não culpa sua- ele sorri.- Eu estou aqui, Ana está aqui. Nem tudo está perdido.

                Vou até a borda da banheira e dou beijo sua boca.

                Afasto-me e encosto minha testa na dele, os olhos fechados.

                -Eu não mereço você. Não mesmo.

                Enzo olha no fundo dos meus olhos.

                -Não se ponha para baixo. Você merece tudo o que é bom.

                Dou um sorriso forçado e saio da banheira. Lorenzo me dá a toalha.

                Viro-me de costas para ele e me seco, indo até a cama e colocando minha roupa de dormir. Escovo meus cabelos e me viro para ele novamente.

                -Então, o que acha de começarmos a planejar o casamento?- pergunto para ele de forma descontraída.

                Lorenzo arregala os olhos e senta na poltrona.

                -Não sei se é um bom momento, Anna, acho que você precisa...

                Subo em seu colo e ele se cala.

                -Eu quero isso. Quero mesmo. Não estou sendo forçada a nada. Tudo bem?

                Enzo respira fundo e sorri.

                -Ahn... certo. Claro. Se é isso que você quer- ele me beija e eu retribuo.

                Não vai ser uma má idéia me distrair. Além do mais, ele me faz feliz. É muito mais do que eu pedi. Mas não posso evitar pensar em Charles. O olhar em seu rosto quando Daisy se foi...

                Daisy. Eu preciso achá-la. Custe o que custar.

 

 


Notas Finais


-Trailer: https://youtu.be/fQBEdOJf2Y4
*se estiver vendo pelo celular, clique no link duas ou três vezes, mas se for pelo computador, o link vai direto. Não sei o que aconteceu e estou tentando arrumar, perdão!

Obrigada por ler e até o próximo capitúlo!


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