História Relativity - Capítulo 1


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Categorias Rafael "CellBit" Lange
Personagens Personagens Originais, Rafael "CellBit" Lange
Tags Cellbit, Ciencia, Enigmas, Mistério, Policial, Rafael Lange
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Palavras 4.891
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Droubble, Famí­lia, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Mistério, Policial, Romance e Novela, Sci-Fi, Shoujo-Ai, Survival, Suspense
Avisos: Canibalismo, Drogas, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oi, pípous! Essa é uma longfic em que vim trabalhando nos últimos tempos, e tenho 87,5% de certeza de que está ficando legal. Talvez um pouquinho mais. Alguns avisos básicos:

- Os acontecimentos dessa história são fictícios e não têm qualquer apelo com a realidade.
- Todos os 'fatos' científicos e informações que porventura aparecerem nessa história não devem ser vistos como certos. Peço que tenham em mente que, por mais que eu goste de Física (ao menos a teoria básica), não tenho qualquer domínio sobre o assunto além do esperado de uma garota no último ano do Ensino Médio. Perdoem os erros, juro que estou tentando ao máximo embasar minhas afirmações em pesquisas sólidas.
- A personalidade do Rafael aqui retratada é uma invenção fantasiosa e não corresponde à realidade. Não tenho a intenção de ofender quem quer que seja.
- Plágio é crime e tal.

Boa leitura!

Capítulo 1 - Inglaterra, chá e possível risco de morte


Fanfic / Fanfiction Relativity - Capítulo 1 - Inglaterra, chá e possível risco de morte

Há uma espécie de divisor de águas na vida de todas as pessoas
O momento depois do qual nada segue como era esperado
E só nos resta entender e aceitar as mudanças

 

 

Meu dia não havia sido muito interessante, nas três horas que se passaram desde o momento em que eu acordara. Só o que conseguia fazer era me preocupar com a viagem iminente. Rumei para a cozinha, lavei a louça do dia anterior e limpei cada pedacinho visível do balcão. Guardei meus objetos de valor — que se resumiam à minha mesa digitalizadora e minha cafeteira — na lavanderia, verifiquei novamente minhas malas e procurei por todo o apartamento pelo meu passaporte (que, no fim das contas, estivera no meu bolso o tempo todo).

    Tudo em ordem.

    O Gato caminhou preguiçosamente até mim, arrastando suas patinhas obesas pelo chão. O Gato aparecera na nossa casa há alguns anos, quando eu morava com meus pais em Curitiba, e nunca mais saíra. Ele não tinha nome; nós o chamávamos, simplesmente, de “Gato”. Ele era gordo e velho, de uma cor terrosa meio listrada, indefinida.

    — O que foi, gatinho? — Esparramado em meu colo, o Gato ronronou com grande satisfação. Cocei suas orelhas, cheia de saudades por antecipação. — Quero que você se comporte na casa da dona Salete. Ela vai cuidar bem de você, mas tenho medo que você resolva tocar o terror. — Suspirei. — Não faça a dona Salete ficar brava comigo, tá legal?

Os grandes olhos amarelados do Gato me encaravam com atenção. Beijei o topo de sua cabeça, sentindo um aperto no peito e meu coração descompassar.

Calma, Laura. É só por duas semanas.

 

***

 

Charlie me mandara cinco mensagens no curto intervalo de tempo entre fazer o check-in e comprar um pão de queijo na área de embarque. Meu primo tinha sérios problemas de impaciência, ao passo em que eu mal me lembrava de verificar minhas mensagens uma vez por semana.

 

[20/03 09:32] Charlie: Laura

[20/03 09:35] Charlie: LAURA!

[20/03 09:41] Charlie: Responde, Laura

[20/03 09:41] Charlie: Você chegou no aeroporto?

[20/03 09:42] Charlie: … Morreu?

 

Revirei os olhos ao ler as mensagens, enquanto continha o riso. Charlie, sempre exagerado. Ele estava offline, então respondi as mensagens com um textão para me livrar logo dele.

 

[20/03 09:44] Laura: Oi, bestão. Sim, eu tô no aeroporto. Não, eu não morri (por pouco; meu coração se partiu quando deixei o Gato na vizinha). O avião vai sair no horário. Sei que os ingleses são chatos com isso, então sossega que eu não vou chegar atrasada — pra variar um pouco.

 

Para garantir que meu primo entenderia, tirei uma foto do painel de voos e sublinhei o meu horário. Charlie podia ser meio lerdo, às vezes, então achei melhor me prevenir. Enviei a foto e guardei o celular, concentrando-me no pão de queijo que eu comprara.

Charlie é meu primo-irmão; nossas mães são gêmeas, e tiveram filhos com poucos dias de diferença. Eu nasci no dia vinte e seis de julho, e Charlie, em quatro de agosto. Teríamos crescido juntos, não fosse o fato de que Charlie morava em Londres, a milhares de quilômetros da minha amada Curitiba. Eu só conheci meu primo pessoalmente aos dez anos, quando a tia Cecília voltou ao Brasil para morar conosco.

Os sete anos em que Charlie esteve no Brasil foram os melhores da minha vida; éramos uma dupla terrível. Charlie transformou-me em uma criança completamente louca, e me arrastava para todo tipo de brincadeiras de mau gosto.

No ano anterior, porém, as coisas mudaram um pouco. Ele voltara à Inglaterra, na casa de seu pai em Londres, para cursar Neurologia. Eu migrei para São Paulo, pois fui aprovada em Física, curso integral. Pela primeira vez em vários anos, nós estávamos nos separando. A saudade era tanta que ameaçava me esmagar a qualquer instante.

Agora, depois de longos doze meses longe de meu primo, eu finalmente estava embarcando em um avião que me levaria até ele. Charlie prometera que me levaria para conhecer cada pedacinho da Inglaterra, e eu acreditava. O modo como ele falava de sua terra natal era contagiante.

O avião sobrevoou cidades e mares, deixando-me sonolenta e meio enjoada. A viagem seria longa, então decidi me dopar com dois comprimidos de sonífero e tentar dormir um pouco.

 

***

 

Eu estava meio perdida quando cheguei ao aeroporto Heathrow, em Londres. Turistas de todas as partes do mundo aglomeravam-se ao meu redor, enchendo o ar com um burburinho indecifrável de vozes. Os funcionários do aeroporto falavam um inglês enrolado, típico dos britânicos.

Caminhei, indecisa, pela área de desembarque, procurando pelo rosto familiar de Charlie. Corri os olhos pela multidão e me detive em um rapaz alto, magro e esguio, com cabelos escuros que caíam sobre sua testa e cobriam levemente as sobrancelhas. Em seu rosto, um meio sorriso que minha avó dizia ser idêntico ao meu.

Charlie tinha um cartaz em mãos, com os dizeres, em vermelho:

 

“LÓ-RA”

 

Sorri, lembrando de como Charlie costumava me chamar quando éramos mais novos e ele não sabia pronunciar meu nome. “Ló-ra”. Corri em sua direção, largando as malas no chão e atirando-me em seus braços. Ele me levantou e girou comigo.

— Ah, Charlie… Eu estava morrendo de saudades!

Ouvi o riso em sua voz quando ele respondeu.

    — Eu também, Laura. — Ele me colocou novamente no chão e olhou demoradamente para mim. Suas mãos, uma em cada lado de meu rosto, viraram minha cara para todos os lados, como se ele estivesse analisando cuidadosamente cada poro de minha pele clara. Eu ri, ridiculamente feliz ao perceber que ele continuava besta como sempre. — Ei, você trocou de óculos?

    — Sim, os meus velhos já tavam muito… velhos.

    — Quem diria, não é mesmo? — Ele comentou, fingindo uma surpresa absurda. — Jamais imaginaria uma coisa dessas. Dá aqui, deixa eu ver isso.

    — Ei! — Reclamei, embora não tenha conseguido segurar o riso quando ele pousou meus óculos no rosto e piscou como uma coruja. Ele estreitou os olhos em minha direção e chacoalhou a cabeça, fazendo as madeixas escuras de seu cabelo balançarem sobre suas íris negras.

— Ôh louco, Laura! Eu sempre soube que você era meio cega, mas não imaginava que fosse tanto assim.

— Tá legal, me devolve logo. — Pedi, estendendo a mão. Ele me entregou os óculos, dizendo que, se continuasse a usá-los, teria sua visão seriamente prejudicada.

Pois é, o mesmo exagerado de sempre.

Ele ajudou-me com as malas (que não eram muitas), carregando a mais pesada, e indicou o caminho. Charlie tagarelava algo sobre todas as pessoas aparentemente super legais a quem ele me apresentaria, sobre sua coleção de EP’s, sobre a torre do Big Ben, sobre a neve…

— Charlie — chamei, puxando a manga de seu casaco para que ele me esperasse. — Sei que você tá bastante animado, eu também estou, mas vamos com calma. Eu cheguei há menos de vinte minutos!

— Desculpe. Acho que me empolguei um pouco. — Ele abriu um sorriso torto que costumava lhe tirar de praticamente qualquer confusão em que estivesse metido. Era dificílimo resistir ao seu encanto ingênuo e maroto — Vem cá. Uma das coisas que eu queria te mostrar tá logo ali fora — Charlie segurou minha mão e puxou-me junto dele, apontando para fora. Com os olhos semicerrados, vi aquelas coisinhas brancas caindo do céu. Com um sobressalto, percebi que era…

— Neve! — Gritei, animada, praticamente correndo pelo aeroporto (o que era uma grande burrice, uma vez que o chão estava escorregadio). A neve acumulada pelo chão não era branquinha e fofa como eu sempre imaginara; pelo contrário, o movimento intenso de carros e pedestres transformara tudo em um amontoado de lama congelada. Ainda assim, eu estava encantada com os flocos que caíam como chuva. Charlie logo me alcançou, rindo ao observar a minha reação.

— Olha, Laura, você pode até comer um ou outro floco — ele advertiu enquanto eu estendia a língua para tentar capturar um pouco de neve —, mas tenha cuidado. A atmosfera de Londres não é limpa o suficiente para que você saia por aí engolindo água congelada da camada de ozônio. Sabe como é que eles se formam? Geralmente, o núcleo é feito de poluição ou sujeira, isso quando não é algo pior...(1)

— Deixa de ser chato. — Fechei os olhos, saboreando o gosto de um floquinho que derretera na minha língua, e descobrindo, para minha decepção, que não tinha gosto de nada. — Sabe, por algum motivo, sempre imaginei que a neve era salgada.

— Nem imagino de onde você tirou isso.

Charlie fez sinal para um táxi — cab, como eram conhecidos na Inglaterra — e abriu a porta para que eu entrasse. Notei como eu sentira falta de seus modos cavalheirescos, que no Brasil eram vistos como uma excentricidade, mas que, para ele, eram completamente naturais. Ele deu as instruções ao motorista e passou o braço pelos meus ombros, permitindo que eu deitasse a cabeça nos seus. A viagem fora longa, e logo o cansaço venceu a curiosidade, por mais que eu quisesse continuar a observar a linda paisagem noturna de Londres. Quando abri novamente os olhos, estávamos diante de uma casa modesta, com dois andares e um portãozinho baixo em frente. Subi as escadas tropegamente, Charlie logo atrás de mim com as malas.

— Meu pai já deve estar dormindo, então temos que fazer silêncio. — Sussurrou ele. — Siga-me, seu quarto fica lá em cima.

Subimos escadas acarpetadas e passamos por um corredor estreito. Eu mal percebi os detalhes do quarto, e notei apenas a cama de solteiro aparentemente macia como o Paraíso. Abri um sorriso cansado, imaginando que Charlie teria exagerado na quantidade de cobertores, pois sabia como eu era friorenta. Ele deu um beijo em minha testa e fechou a porta. Sem ânimo para vestir o pijama naquele frio da madrugada, simplesmente deitei com as roupas do meu corpo.

Não notei quando adormeci.

 

***

 

Acordei completamente envolvida por um casulo macio e quentinho. Sinceramente, os ingleses sabiam como dormir. Estendi o braço e alcancei o celular na escrivaninha, encolhendo-me novamente sob os cobertores o mais rápido possível. Era quase Primavera na Inglaterra, mas a temperatura de menos cinco graus lá fora era o suficiente para congelar os ossos de uma brasileira desavisada como eu. Verifiquei as horas, surpreendendo-me ao notar que já passara de meio-dia; meu corpo estava acostumado com o fuso-horário do Brasil, e achava que ainda eram nove da manhã.

Dei uma olhada nas mensagens, lendo rapidamente as exigências e preocupações da minha mãe - ela começava me perguntando sobre o horário do voo, e terminava ameaçando chamar a Polícia caso eu não respondesse dentro de meia hora. Enviei algumas tranquilizações, afirmando que ligaria assim que tomasse café — ou melhor, almoço — e passei às mensagens seguintes. Ignorei as mensagens do grupo de RPG, da turma da faculdade e da tia Sílvia querendo saber por quê seu computador não ligava. Desliguei o celular e tomei coragem para sair do meio dos cobertores, respirando fundo para enfrentar meu destino.

Corri até minha mala e vesti o primeiro casaco pesado que encontrei. Juntei minhas coisas e rumei para o banheiro, notando o fato curioso de que a casa não tinha piso aparente, como no Brasil, e sim, carpetes. O banheiro era pequeno, mas aconchegante (especialmente pela presença de um aquecedor no canto). As únicas diferenças que notei foram a ausência de um cesto de lixo e a lâmpada sem interruptor. Tomei meu banho, sentindo-me renovada ao massagear os cabelos com xampu cheiroso e água morna.

Depois de me vestir e secar os cabelos, parei em frente ao espelho. Mesmo ainda úmidos, meus cabelos ondulavam e terminavam levemente em cachos. Eu não saberia dizer a cor exata dos meus fios — castanho-claros? Louros? Dourados? Algum tom entre essas cores. Já meus olhos eram mais fáceis de definir: cor de mel, brilhando por trás dos óculos. Meu rosto claro estava vermelho pelo contato com a água quente, faces coradas, assim como a ponta do nariz. A parte mais bonita do meu rosto certamente era o sorriso, tão parecido com o de Charlie.

Abri a porta e saí, achando interessante ver o vapor espiralando pelo ar frio como golfadas de fumaça. Caminhei pelo corredor estreito decorado com pinturas a óleo, muitas delas assinadas pelo próprio Charlie, e desci as escadas que terminavam na sala. Dobrei à esquerda e saí na cozinha, onde encontrei Charlie bebericando uma xícara de chá. Quando me viu, um sorriso torto apareceu em seu rosto. Ele pousou a xícara no pires e levantou-se.

— Laura! Nem mesmo o frio da Inglaterra te impede de tomar um banho, hein?

— Eu sei que os europeus não são muito chegados numa boa higiene — comentei, sentando-me na cadeira que Charlie elegantemente puxara —, mas não espere que isso tenha alguma influência sobre mim.

— Nem por sonho. — Ele riu. — Então, animada para experimentar o famigerado British Tea?(2)

Charlie pegou uma xícara  limpa e serviu um pouco de chá. O processo era simples, especialmente nas mãos hábeis e precisas do meu primo. Ele olhou bem para meu rosto antes de despejar a água quente, e algo o fez decidir que devia adicionar um pouco (só um pouco) de leite. Depois de mexer bem, estendeu a xícara. No Brasil, ele costumava tentar reproduzir o chá inglês com nossas folhas de chá verde, mas afirmava a quem quisesse ouvir que o chá brasileiro era horrível e devia ser banido das prateleiras dos supermercados. Funguei sobre o líquido escuro-avermelhado, sentindo o cheiro amargo e adstringente invadir minhas narinas. Parecia idêntico ao chá que Charlie fazia no Brasil. Temerosa, bebi um gole minúsculo e logo baixei a xícara, tentando conter uma careta.

— Ehr... tem um gosto... — contive minha língua antes de dizer 'péssimo' — ...diferente. Talvez se eu adoçar um pouco...

— NÃO SE ATREVA! — Charlie levantou-se abruptamente da mesa, como se eu tivesse afirmado que sairia sem roupas pela avenida Paulista. — Colocar açúcar no chá é um verdadeiro desrespeito para com a Coroa Britânica. Heresia!(3)

Ah, sim. Eu havia me esquecido da verdadeira aversão que Charlie tinha por açúcar, especialmente no quesito 'chá'. Ele dizia que apenas as pessoas mais rudes e mal-educadas cometiam tal blasfêmia e blábláblá.

Dai-me paciência, Senhor.

— Tá legal, Charlie. Juro que nunca mais como açúcar na minha vida. — Levei a xícara aos lábios outra vez, e lá veio mais uma careta. — Mas, olha, sendo sincera? Eu com certeza prefiro um café.

Charlie parecia pronto para recomeçar a discussão — dessa vez, com o auxílio de uma cadeira ou uma faca — quando meu celular começou a tocar, livrando-me de um possível traumatismo craniano. Antes mesmo de verificar a tela, eu já sabia quem era.

— É a minha mãe — disse a ele, atendendo ao mesmo tempo. — Alô, mãe?

— LAURA CAROLINA PINHEIRO! — Sua voz aguda ameaçou estourar meus tímpanos. — QUEM A SENHORITA PENSA QUE É PARA DEIXAR A  GENTE PREOCUPADO DESSE JEITO...

— Ehr... desculpa, mãe, eu ia ligar assim que terminasse...

— ...EU JÁ ESTAVA ACHANDO QUE TINHAM TE SEQUESTRADO...

— Mãe, tá tudo bem, eu já cheguei aqui...

— ...PORQUÊ SE EU SOFRO UM INFARTE, A SENHORITA NEM VAI SE IMPORTAR COMIGO...

— Pelo amor de Deus, mãe, não fala assim! A senhora sabe que...

— ...ME FEZ PASSAR VERGONHA NA FRENTE DA POLÍCIA...

— A senhora ligou pra Polícia?

Eu mal podia acreditar. Será que minha mãe tinha enlouquecido a esse ponto? Ela parou para tomar fôlego do outro lado da linha, e foi nesse momento que Charlie interveio (para a minha felicidade). Ele aproximou os lábios do bocal do telefone e afastou os ouvidos para não ouvir os gritos da minha mãe.

— Oi, tia Luíza! Como vai a senhora?

— Charlie! Que saudade, meu querido!

E pronto. Era só o meu primo aparecer que ela mudava da água para o vinho. Parecia até que o filho era ele, e não eu. Ele pegou o telefone das minhas mãos e tratou de acalmar a fera, já que ela jamais gritaria com ele como fazia comigo. Charlie explicou que eu chegara muito cansada e fui direto dormir na noite anterior, e que acordara há pouco. Ela mostrou-se super compreensiva, e chegou até a dizer 'coitadinha da minha filha'. Cruzei os braços e encostei-me na cadeira, observando o desenrolar do diálogo com uma pontada de ciúme.

— Então tá, tia Luíza. Manda um abraço pro tio. Beijos, tchau!

Charlie estendeu o celular para mim e piscou o olho, de um jeito tão convencido que parecia o vencedor de um concurso de Miss abraçando a segunda colocada. Abri um sorriso claramente falso e bufei.

— Algum dia você ainda vai se engasgar com esse seu veneno. — Charlie levou a mão à boca, como se estivesse limpando uma gota que escorreu. Tive que rir. — Tá legal, eu admito. Minha mãe não é exatamente minha fã número um, mas sei que ela me ama. For now, would you show me your beloved city, London boy?(4)

— It would be my pleasure, dear cousin.(5)

 

***

 

— Nunca imaginei que encontraria tantos famosos quadros iluministas, renascentistas, impressionistas… Sempre os via nos livros de História, mas estar tão pertinho deles me deixou meio emocionada.

Estávamos sentados em um banco em frente ao “Salome receives the Head of John the Baptist”, de Caravaggio(6). A técnica barroca era impressionante, usando o chamado método chiaroscuro. A imagem da cabeça  repousando numa bandeja contrastava de forma assombrosa com o fundo negro do quadro, trazendo-me calafrios sempre que eu levantava os olhos. A cena era hipnotizante.

Ao meu lado, meu primo bebia um gole d’água. Havíamos caminhado por cerca de trinta salas na National Gallery(7), gastando a manhã inteira no processo. As obras expostas eram muitas — cerca de 2500, distribuídas em 60 salas diferentes — e contavam milênios da história européia em pinturas. Eu poderia passar dias ali dentro sem observar todas elas. Charlie suspirou.

— O que foi? — Perguntei, desviando os olhos de João Batista para encontrar as íris negras de Charlie.

— É que você já está aqui há cinco dias, e vimos tão poucas coisas… — Ele afastou alguns fios que caíam sobre seus olhos — Queria te mostrar muito mais.

De certa maneira, ele tinha razão. Londres era enorme, e tinha milênios de cultura acumulados em infinitos pontos da cidade. Mesmo que passássemos décadas a visitá-los, não veríamos tudo o que havia a ser visto.

Os dias anteriores tinham sido uma loucura. Caminhamos feito condenados, passando por cada museu, teatro e biblioteca que houvesse em nosso caminho. Bebemos café e chá em cafeterias charmosas, paramos em pubs, dedicamos uma tarde inteira para a visita ao 221B, na Baker Street. Minha expressão suavizou.

— Charlie, relaxa. A gente não parou por um segundo sequer nesses últimos dias. Para fazer mais do que fizemos, eu teria que juntar matéria em um ponto superdenso, rasgar o tecido temporal, criar um buraco negro relativamente estável e, com sorte, a gente teria um buraco de minhoca que nos levasse ao ponto certo do Universo. Como eu sou preguiçosa e não tenho a intenção de passar por essa fadiga, — fiz uma careta para ilustrar bem meu sentimento — vamos ter que nos contentar.

Charlie sorriu.

— Além disso, — prossegui — teremos mais tempo quando eu vier passar uma temporada aqui.

— Mais tempo pra dar um rolê por Londres ou pra criar um wormhole?

— Uma coisa não exclui a outra.

Apesar de termos vasculhado apenas uma pequena parte da National Gallery, o avançado da hora não permitiu que terminássemos o tour. No dia seguinte, teria início o verdadeiro motivo da minha visita: a XII British Convention Of Science and Technology(8). A famosa, incrível e de proporções épicas BCST, que atraía gente de todos os cantos do globo para apreciar as palestras, exibições, aulas e encontros com os maiores cientistas do mundo. A universidade de Charlie entregara credenciais para alguns alunos — meu primo dentre eles. Eu gostaria de ter conseguido alguma espécie de bolsa ou incentivo financeiro, — qualquer coisa que financiasse minha viagem — mas o governo brasileiro, como de praxe, está cagando e andando pra Ciência e Desenvolvimento(9). Minha solução foi atacar a poupança e trabalhar do jeito que deu para cobrir os custos da viagem.

Pegamos nossas bicicletas de aluguel, que deixáramos estacionadas em frente à Galeria, e pedalamos em um ritmo constante. Andar de bicicleta por Londres era uma experiência maravilhosa, especialmente pelo respeito que as pessoas têm pelos ciclistas. Os carros dirigiam com cuidado ao lado das ciclovias, e sempre paravam para que pudéssemos atravessar com segurança. Não recebi qualquer olhar enviesado dos pedestres. Outros ciclistas pareciam tão tranquilos sobre suas bicicletas que me perguntei se, algum dia, eu conseguiria passear despreocupada daquela maneira no Brasil.

Esperava que sim.

Estávamos a meio caminho da casa de Charlie quando ouvi meu primo ofegar. Ele freou bruscamente a bicicleta, apontando um dedo hesitante para uma dupla de pessoas conversando numa pracinha vazia. Eu apertei os olhos, tentando identificar quem quer que fosse.

Meu queixo caiu.

Puta merda.

 

***

 

Eu estava tremendo. Minhas pernas pareciam ter a consistência de geleia de framboesa. Meus óculos balançavam precariamente na ponta do nariz, mas sequer pensei em empurrá-los.

Puta. Merda.

Charlie, com sua inabalável estabilidade emocional, tentava fazer-me voltar a respirar normalmente, embora parecesse impossível sob aquelas circunstâncias. Ele fez-me sentar num dos bancos da praça, assustado com meu rosto (que, eu tinha certeza, devia estar com uma cor esverdeada nada saudável).

— Tá legal. Tenta se acalmar, Laura. Respira fundo.

Mesmo sabendo que não mudaria nada, fiz o que ele disse. Porra, é claro que eu tava tentando me acalmar! Charlie estava tão tranquilo que nem parecia ter, há poucos minutos, encontrado…

Puta merda, puta merda, puta merda!

Em meu pescoço, havia uma echarpe azul-escura que não estava ali antes. Inspirei profundamente, inalando o cheiro levemente adocicado da colônia que impregnava o tecido. Levei alguns minutos para me acalmar, mas enfim consegui. Charlie, ao meu lado, girava nos dedos um anel prateado.

Havíamos acabado de encontrar duas das maiores celebridades de Hollywood passeando por uma pracinha. E não eram quaisquer celebridades, mas Benedict Cumberbatch e Robert Downey Junior! Charlie, o maior fã do Homem de Ferro que eu conheço, ganhou um anel de Robert, enquanto eu, a garota apaixonada pelos contos de Sherlock Holmes e pelo Doctor Strange, recebi um beijo no rosto e uma echarpe de Benedict.

— Eu nunca mais vou lavar o rosto — comentei, minha mão apertando a face direita. Charlie assentiu para o nada, encarando o horizonte.

— Isso não é algo que acontece todo dia — comentou numa afirmação retórica. — É uma pena que não tenhamos tido tempo para bater umas fotos.

— Temos relíquias infinitamente mais valiosas que meras fotos, Charlie.

— Tem razão.

Não dissemos mais nada por um tempo. Depois de cerca de meia hora, o vento gelado foi insistente o suficiente para nos empurrar em direção à casa. O pai de Charlie, Peter, estava na sala lendo um jornal e bebendo (mas que surpresa) uma xícara de chá. O filho pareceu fascinado pelo bule, como se fosse uma lâmpada mágica bem no meio da sala. Suspirei, não conseguindo deixar de achar graça em sua expressão satisfeita quando serviu uma generosa porção de chá. Ele remexeu o anel em seu dedo anular, pensativo, enquanto sentava-se na poltrona ao lado do pai. Charlie fez um sinal com a cabeça para que eu me juntasse a eles, mas recusei. Sabia que os momentos de silêncio e tranquilidade deviam ser respeitados naquela casa — o que significava praticamente o tempo todo, afinal, eram ingleses.

E eu realmente precisava contar a alguém o que tinha acontecido, senão acabaria surtando — de novo. Então, murmurei um ‘excuse me(10) apressado e subi para o quarto de hóspedes.

Eu gostava muito da dinâmica daquele povo, na realidade. Nada contra minha família brasileira, mas, poxa vida, quando se nasce numa família italiana clássica, nunca se conhece a privacidade. Na minha casa eu quase não podia usar o banheiro sossegada, e meu quarto parecia ponto de visitação turística. Quando fui morar sozinha em São Paulo, agradeci por cada centímetro quadrado daquele cubículo que chamava de apartamento. Era pequeno e desconfortável, mas ainda era meu. Havia silêncio, havia sossego, havia minha intimidade e minha identidade abertamente expostas, pois olhos alguns além dos meus — e os do Gato — veriam.

Encontrar um ambiente tão parecido com o meu ‘habitat natural’, a milhares de quilômetros da minha casa, era acolhedor. Mas, naquele momento, eu precisava de alguém. O primeiro pensamento óbvio eram Dalila e Gabriela, duas garotas do curso de Engenharia Civil que eu conhecera na Universidade. Elas eram minhas amigas mais próximas, à exceção de Charlie, que encontrava-se naquele mesmo instante bebericando uma xícara de chá no andar de baixo. Batuquei com os dedos na tela do meu celular, esperando que de alguma maneira isso fizesse a chamada de vídeo carregar mais depressa. Eram oito da noite na Inglaterra, o que significava que no Brasil já passava das onze, mas não me preocupei com isso. Se eu conhecia aquelas duas, o horário avançado nada significava.

Gabriela não atendeu à chamada, mas Dalila levou menos de cinco segundos para me encarar do outro lado da tela, seus cabelos escuros e lisos presos num coque malfeito no topo da cabeça.

— Laura! Como foi o...

Sorri, erguendo a mão para interrompê-la, meus lábios quase rasgando a cara num sorriso enorme. Eu tinha certeza de que devia estar parecida com um duende, com o nariz e as bochechas avermelhados pelo frio, meus olhos menores devido ao sorriso, e os cabelos revirados para todos os lados sob a touca forrada. Eu chacoalhei meu cachecol de lã azul-escura na câmera, perguntando “você sabe o que é isso? Você tem ideia do que é isso?”. Dalila fechou a cara, estragando seu semblante carrancudo com a ligeira nota de diversão na voz.

— É um elefante verde com bolinhas roxas.

— Lila, você não vai acreditar quando eu te contar quem me deu esse cachecol. Nem em mil anos poderia suspeitar, Lila, nem em mil anos!

— Agora atiçou minha curiosidade, Laura. De quem era?

Mordi o lábio inferior, antecipando sua euforia. Prolonguei os deliciosos segundos de suspense até sentir que ela explodiria em uma chuva de palavrões. Aproximei meu rosto da câmera, sussurrando alto como se lhe contasse um segredo.

— Benedict Cumberbatch.

    Ao fundo, ouvi o som de uma turbina de avião e suspirei, levemente irritada. Eu havia me esquecido que Dalila morava próximo a um aeroporto e que os aviões frequentemente voavam quase pela sua janela. O barulho alto a impediu de ouvir o que eu lhe disse. Dalila revirou os olhos.

— Quem? — Ela franziu a testa, parecendo se divertir.

— Benedict Cumberbatch — repeti, desta vez sem fazer um drama exagerado. Ela sorriu, revirando os olhos mais uma vez.

— É sério, Laura. De quem era?

— Mas eu tô falando sério, Dalila! — Ela ergueu uma sobrancelha escura perfeitamente delineada, que combinava com sua pele de café. — Dalila, eu encontrei o Benedict Cumberbatch numa praça. Conversando com o Robert Downey Junior. — Percebi pelo seu olhar que ela não estava nem um pouco convencida. — Se não acredita em mim, pergunte ao Charlie! Nós estávamos voltando pra casa quando vimos os dois parados numa pracinha, parecendo… sei lá, uma miragem, eu acho. Eu quase tive um treco lá, Dalila, sério, fiquei muda, com a maior cara de bunda. — Nós rimos juntas, enquanto eu recordava da cena.

— E vocês tiraram fotos? — Ela perguntou, animada, quase pulando de êxtase enquanto ouvia minha história. Parecia que eu a convencera, afinal. Balancei a cabeça, estragando um pouco sua animação.

— Não deu tempo, eles tavam com uma pressa dos infernos, mal deu pra dizer um ‘oi’. Acho que eles tiveram pena de me ver passando mal e resolveram compensar um pouco. O Charlie ganhou um anel do Robert e o Benedict me deu esse cachecol e um beijo.

— UM BEIJO?

Pelo brilho perigoso que havia em seus olhos, percebi que Dalila havia interpretado mal minhas palavras. Aquela garota era ninfomaníaca, e há doze meses tentava me converter em uma pervertida também. Foi minha vez de revirar os olhos.

— Não esse tipo de beijo, Lila. — Ela fez um muxoxo e eu ri. — Sabe como são os ingleses, certo? Nem foi um beijo, foi uma daquelas bochechadas estranhas que a gente costuma dar em outras pessoas quando as cumprimentamos. Mas o que importa é que eles foram muito atenciosos com a gente, e, CARA! Eu ganhei um cachecol do Benedict, Lila. Olha essa porra desse cachecol lindo do caralho!

Ah, bem, eu nunca conseguia extravasar minhas emoções sem fazer uso de uma ou duas palavras de baixo calão. Se me ouvisse falando daquele jeito, minha mãe arrancaria minhas orelhas com os dentes, mas eu estava na faculdade há tempo o suficiente para pegar os vícios de linguagem típicos de jovens universitários.

    — Sua vagabunda sortuda — Dalila sorriu. — Isso deve valer uma fortuna, ainda mais se for… — ela vacilou por um segundo e então seu sorriso ampliou-se assustadoramente — Laura, você acha que esse pode ser o cachecol que ele usou para gravar ‘Sherlock’?

    Revirei a peça entre os dedos, pensativa. Será? A cor condizia, mas por quê ele entregaria um cachecol tão valioso a uma fã aleatória? Decidi deixar essas questões de lado e me concentrar apenas no fato de ter encontrado dois de meus atores preferidos pessoalmente. Joguei conversa fora com Dalila até as dez da noite, quando Dalila reclamou que estava com sono (no Brasil passava das duas). Nos despedimos e desligamos. Depois de escovar os dentes e vestir meu pijama, enfiei-me debaixo das cobertas, pensando em todas as coisas que me aconteceram até ali. E no que me esperava no futuro.

    Adormeci sonhando com o som de um violino.


Notas Finais


(2) Tradução: Chá inglês.
(4) Tradução: Por enquanto, gostaria de me mostrar sua amada cidade, garoto de Londres?
(5) Tradução: Seria um imenso prazer, querida prima.
(10) Tradução: Com licença.

Beeem, aqui estamos. Esse capítulo foi uma pequena introdução aos personagens, dando uma ideia de como é a interação Charlie-Laura. O que estão achando até agora? Perdoem-me pela minha mania de ficar referenciando tudo. O caso é que eu gosto de compartilhar detalhes da história e easter eggs que podem passar despercebidos hehe
O glossário, com as informações que eu referenciei, está nesse jornal:
-> https://www.spiritfanfiction.com/jornais/relativity-13463740 <-
Agradeço de coração por ter lido até aqui, e não se acanhe para comentar algo, deixar um incentivo, uma xícara de café, um beijo... Tô aceitando todas as demonstrações de amor <3

Aliás, queria agradecer à @jubits por, indiretamente, me inspirar a (finalmente) escrever uma fanfic sobre o Rafael. Se não fosse pela história maravilhosa que é Bittersweet, essas ideias nem teriam sido escritas. Você arrasa, menina!


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