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História Relicário de Memórias - Capítulo 13


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Notas do Autor


Olá, meu amores!
Agradeço a espera de vocês e aos comentários no último capítulo.
Vamos ler?

Capítulo 13 - No céu o amor vem primeiro


Ele repetia a todo momento que seus heróis morreram de overdose. Eu sabia que era uma frase tirada de algum lugar, já que ele nunca mencionava quais heróis eram esses. Fosse talvez o simbolismo das palavras ou a sensação de ter os próprios ideais perdidos em crenças tão viciadas. Eu não sabia, mas o amava como o pai que nunca tive apesar de só lembrar de seu rosto de vez em quando. Talvez fosse esse sentimento confuso e quase imperceptível que chamavam de amor paterno.

            Eu não compreendia sua figura distante mesmo que seu olhar longínquo e sua insistência em não se envolver — em não se aproximar — fosse também uma forma de dizer que estaria ali se houvesse escuro e eu sentisse medo. Ele parecia ocupar um lugar designado a ele e performava o papel que era esperado, mas eu sentia que seus olhos escuros e cansados eram a porta de entrada para abismos de confusões e necessidades que nunca seriam atendidas.

            Quando ele se foi, eu não senti nada, mas passava horas tentando decifrar a sua figura indistinta que me acompanhou até os dezenove anos de idade como um cavalheiro de segurança que nunca falava ou esboçava qualquer tipo de reação. Eu havia me silenciado e posto meus pensamentos em uma caixa onde só havia a sua pessoa e as minhas inúmeras tentativas de tentar compreender sua existência. Falhei em tudo. E foi essa falha que me fez sentir sua morte como um pedaço de mim que também havia apodrecido.

            Ele se foi pouco tempo depois que eu e Jungkook decidimos morar juntos. Jovens e obcecados com os conceitos infundados que tínhamos sobre liberdade e independência, eu nem pude me despedir. E não digo uma despedida de filme, com aquele olhar triste e vazio nos olhos, aquele beijo na testa de adeus e nem nada disso. Era só estar.

            Com todo o meu egoísmo, também pensei que não haveria momento mais importuno que aquele para que fosse embora. Eu não sabia que seu corpo já falhava com a alma e já não respondia aos anseios subjetivos que carregamos para sempre, mas são maltratados pelo tempo — e talvez também pela idade. A morte nunca pareceu algo próximo demais a mim e, por tudo o que eu imaginava, só se sofria a morte de alguém quando havia amor sobre-humano e insano. Mas amor também era quando ele ouvia Belinda Carlisle e cantarolava com sua voz grossa “oh, baby, do you know what that's worth? Oh heaven is a place on Earth!”. Eu detestava. Depois, sua voz soava com frequência na minha mente e eu me perguntava por que eu não cantava junto.

            Não era uma mágoa. Eu não carregava essa dor porque na primeira vez que eu chorei, duas semanas depois que vovô se foi, Jungkook me abraçou como se fosse ficar para sempre, embora também estivesse partindo. Mesmo assim, todo aquele acolhimento, o aconchego quente de sua pele na minha e seu olhar já um pouco apagado me faziam entender que, apesar de tudo, eu não estaria sozinha enquanto ele estivesse ali para por curativos nos meus arranhões antes de me quebrar.

            Eu começava a olhar para Kim Seokjin da mesma forma. Seu sorriso saltitante juntos com os olhos pequenos e caramelizados de brilho me confidenciavam segredos íntimos. Eu tentava me movimentar entre eles buscando ternura, mas ao mesmo tempo começava a entender que jamais poderia fazer dele outro lugar para morar enquanto meu próprio lar estivesse vazio. E ainda sim, eu não conseguia não sorrir na sua presença cada dia mais cotidiana.

            Comecei a pensar sobre as figuras masculinas, tão desassociadas umas das outras; tão diferentes entre si e na forma como me tornaram dependente de algo que, no fundo, eu sabia que não precisava. Eu me apegava a elas de forma tão visceral que esquecia do porquê. Eu me alimentava de mim mesma pelo o que esperava que aqueles homens significassem para mim, mesmo que fossem nada. Só me dei conta do aviso de pare diante dos meus olhos quando dei uma chance à minha própria consciência. E eu precisei perder Jungkook para isso.

Jungkook.

Jeon Jungkook.

            A materialização da sua alma e a sua passagem avassaladora pela minha vida ainda eram conceitos, nunca concretudes. Às vezes eu sentia que ele havia sido uma alucinação. Efeito colateral de algum coma induzido. Às vezes eu sentia que sua realidade era tanta que só de pensar em pronunciar seu nome eu me feria. Mesmo quando matéria, ele era neblina — e agora se dissipava. Eu podia ver as estrelas e elas possuíam outro sorriso.

Mesmo assim!

            Demorou para que eu encarasse aquelas cinco ligações. A minha negligência fora tanta que a sexta chamada precisou chegar para que eu encarasse o aparelho nas minhas mãos no final daquela noite de estrelas cintilantes e atendesse trêmula sem saber se eu realmente queria ouvir o que o outro lado tinha a dizer.



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