História Remember me - Yoonseok - Capítulo 1


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jung Hoseok (J-Hope), Min Yoongi (Suga)
Tags Angst, Jung Hoseok, Min Yoongi, Sope, Yoonseok
Visualizações 168
Palavras 4.771
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fluffy, Lemon, LGBT, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 1 - Único


 

Você lembraria-se de mim?

Quando tínhamos dezessete?

 

Todos os dias quando acordo, me lembro da primeira vez que coloquei meus olhos em você. É involuntário, você sabe. Você pode não recordar, mas sabe. Alguma coisa dentro de você sempre sabe, sempre sente e sempre fica.

Era terça feira e as férias de verão tinham me rendido um corte de cabelo mais curto e pequenas queimaduras por insolação. Jimin estava sentado na carteira anterior a minha, ele tagarelava sobre suas pequenas férias com os avôs e lixava as unhas curtas cobertas por uma base incolor. Ele sempre era tão vaidoso.

Foi quando entrou pela porta, conferia algo em um papel rabiscado entre os dedos trêmulos e todos ficaram quietos para encarar o garoto estranho, demorou cerca de dois minutos para que você notasse tanta atenção sobre si e então, você coçou a nuca e sorriu.

E você foi à coisa mais linda que eu já tinha visto, mesmo que pra mim tudo fosse tão tedioso e cinza, você brilhou naquele sorriso e eu desviei meu olhar, eu reagi como sempre reagia a tudo e todos: eu ignorei você.

Jung Hoseok, dezenove anos e havia se mudado de Gwangju para Daegu. Eu fiquei incomodado com o fato de você ter saído de uma cidade tão incrível para se enfiar em um buraco abafado e ultrapassado como Daegu, Jimin me contou que você veio cuidar de seu avô e eu te detestei um pouquinho mais, sabia?

Demorou exatamente duas semanas até trocarmos a primeira palavra, mas eu sei que eu te evitava. Você logo achou um lugar entre os outros, sempre sorrindo e sendo gentil, arrancando suspiros das garotas e de alguns caras, falando sobre a dança e música.

Você vinha pro colégio na caminhonete velha do teu avô mesmo sem ter licença, a pintura laranja descascava mais do lado direito e o motor fazia um barulho dos infernos, mas eu sempre ficava ansioso quando o ouvia batendo no final da rua. Isso queria dizer que você vinha e eu me sentia bem quando você vinha.

Choveu muito naquele outono e eu não acatei ao conselho do meu irmão mais velho e peguei um guarda-chuva – aliás, você tem noção do quanto Namjoon gosta de você? Bem, deve ter não é? – eu caminhava depressa pela principal, planejava virar a esquerda e atravessar o terreno baldio dos Jeons para cortar caminho até em casa. Meus tênis estavam ensopados, meu cabelo grudava na testa e eu estava com fome. O motor velho bateu mais alto que o barulho da chuva e eu parei quando a caminhonete freou ao meu lado, você abriu a porta do passageiro e sorriu.

Você sorria o tempo todo e eu ficava irritado! O seu sorriso sempre foi lindo, Hoseok.

— Teu nome é Yoongi, certo?

— É.

— Entra aí, cara! Você é maluco de andar nessa chuva? É igual ao pára-raios ambulante!

— Não, obrigado. – enfiei minhas mãos ensopadas em meus bolsos ensopados e continuei minha caminhada. Você sempre foi um maldito teimoso e por isso acelerou aquela lata velha um pouco, como se caminhasse no meu ritmo e eu bufei. – Já disse que não, obrigado.

— Você é do tipo que não gosta que te façam favores? – o seu tom de voz era rouco para idade, depois descobri que sempre foi assim. – A gente pode fazer um trato, ok? Te dou carona até em casa e você me ajuda com o trabalho de física, já percebi que você é um gênio.

— Não estou interessado e não tenho tempo.

Eu fui um cretino grosseiro, eu sempre era e isso me rendia à fama de rebelde sem causa. Talvez fosse os piercings, o corte de cabelo, as roupas sempre escuras e largas. Todos me tratavam como invisível e eu não me incomodava sobre isso.

Mas, você me notou, Hoseok. Você que em poucos dias tinha a atenção de tantos voltou seus olhos doces para mim e de repente eu me sentia confortável com ser visível para você.

— Pode ao menos pensar sobre isso? Eu preciso de ajuda e você também, aceite a carona sem compromissos.

Eu não conseguia pensar direito com toda a chuva que açoitava meu corpo e entrei na caminhonete batendo a porta depois disso. Você não reclamou. Meu corpo tremia de frio, meu queixo batia um pouco e você atirou uma manta surrada no meu colo sem dizer nada. Eu tampouco agradeci.

Fora daquela coisa com cheiro de óleo diesel, Daegu recebia a maior chuva em dez anos! Dentro dela nos ficamos em silêncio até que você perguntou meu endereço e pediu auxilio para achá-lo. Nunca vou confessar que foi sem querer, mas eu pude reparar mais em você naquele momento. O seu corte de cabelo combinava com sua pele levemente bronzeada, combinava com seus olhos brilhantes, combinava com seus lábios grossos que formavam um coração quando você sorria.

Eu até ali – e um pouco além – não sabia que era gay. Eu não sabia por que nada havia desperto em mim para me descobrir. Tudo era cinza, Hoseok. Eu mesmo não possuía cor nenhuma e você me coloriu.

— Você é bem quieto. Nunca tinha ouvido sua voz até agora pouco. – eu abracei mais forte a manta ao redor dos meus ombros e assenti. – Sua voz é bonita, deveria falar mais, Yoongi.

— Como sabe o meu nome?

— Jimin me disse, ele parece ter uma queda por você. – você riu um pouco e eu me ofendi.

— Por que acha isso engraçado? Sou esquisito demais para alguém se interessar?

— Estou rindo porque ele passa tanto tempo com você e não notou ainda que você goste mesmo de garotos

— C-Como?! – você me olhou de lado e deu de ombros. – Você não pode dizer algo que não sabe! Nem me conhece!

— Estou dizendo isso porque sou como você. Aquele papo de reconhecer deve ser verdade, né?

— Co-como eu?!

Você sorriu e me olhou.

Hoseok, eu nunca senti outra vez o que senti naquele momento. Era a primeira vez que o meu coração disparava e parecia bater na minha garganta e eu fiz a mesma coisa que eu estava habituado: eu ignorei isso. Eu só não fugi porque não podia me jogar para fora do carro.

— Acho que chegamos. Então, posso vir te buscar quando e que horas?

— Oi?

— Aulas de física, lembra? Já deu pra você pensar no caminho não é? Eu sou muito ansioso, desculpa. – você coçou a nuca outra vez.

— Pode ser aos sábados de manhã, eu ajudo meu irmão com a loja de tarde e domingo prefiro ficar em casa.

— Pode ser na minha casa? Eu venho de buscar, é que não posso deixar o velho sozinho mais do que já deixo.

— Pode ser.

— Certo. Obrigado, Yoongi.

Eu não dormi naquela noite por dois motivos: o resfriado e a lembrança do seu sorriso direcionado a mim.

No colégio tudo ainda era igual, mas eu era pego no flagra quando te encarava e você era pego também. Eu resmungava e fazia cara feia, você sorria e corava.

No primeiro sábado eu acordei muito mais cedo que o costume, Namjoon me observou quieto, bebericando seu café sem açúcar e rolando os olhos para minha falta de jeito em dizer o que eu queria dizer de uma vez.

— O que você tem, gatinho? Diz logo, já quebrou duas xícaras!

— Não me chama assim, droga! – eu servi mais café para ele e para mim. A velha cozinha precisava de uma reforma que adiávamos há anos! Nenhum de nós teve coragem de sequer mudar de lugar os imãs empoeirados da geladeira ou jogar fora o último bilhete que nossa mãe deixou preso ali: ela avisava que havia bolo de chocolate no forno. – Hyung, como você notou que gostava do Jin?

— Eu não sei dizer, eu amo Jin desde que me entendo por gente. – ele ergueu os ombros largos e ossudos para mim. – Por que a pergunta?

— Nada. – escondi meu rosto atrás da xícara de café quente.

— Você gosta de alguma garota, Yoongi? – neguei uma vez e abaixei meu rosto. – Gosta de um garoto?

— Não! Não é nada disso!

— É para casa desse garoto que você está indo agora, não é? O da caminhonete laranja que te trouxe pra casa no dia da tempestade?

— Hyung! Eu só te fiz uma pergunta! Pra que todo esse interrogatório?! – me levantei de mesa, estava tremendo de tão irritado.

— Hey, calma aí! Por que você fica sempre na defensiva?! Sou seu irmão e meu preocupo com você, Yoongi.

— Não tem motivo nenhum pra se preocupar!

— Ok! Não vou brigar contigo! Só tome cuidado, me ligue quando chegar lá e quando estiver voltando! Quero você antes das duas aqui em casa ou vou te buscar, entendeu?

— Hyung, eu não sou mais um garotinho...

— Ainda é menor de idade e fim. – uma buzina nos fez calar, ele ficou de pé e arrastou os pés calçados em botas marrons pelo piso da cozinha, se aproximou da janela  para avistou a caminhonete laranja, estreitou os olhos e depois me encarou. – Só tomo cuidado, ok? Ninguém pode te maltratar por ser como você é, Yoongi. Não deixe ninguém fazer isso.

— Tchau, hyung.

Sai de casa batendo a porta.

Hyung não poderia estar mais enganado, não é? Você me amou e ama exatamente como eu sou, você diz que se tirassem meus defeitos eu não seria do jeito que você prefere. Hoseok, você é uma idiota teimoso que insistiu em mim até que eu mesmo passasse a insistir.

Sua casa era maior que a minha, mas muito mais desarrumada. Seu avô era um homem engraçado e grande, ele não parecia estar perdendo a luta para um câncer no pâncreas. Seojun era gentil e falava mais obscenidades que Seokjin e Namjoon juntos. Mas, ele amava você. Eu sempre vou frisar isso para que você possa lembrar, parece ser um detalhe bobo, ele não estava mais entre nós quando tudo desmoronou, mas ele te amou da forma dele e você o amava ainda mais mesmo ele sendo como era. Acho que esse é o teu dom. Você nasceu para amar e ser amado, você sempre deixa marcas boas por onde passa, você brilha e compartilha tua luz com todos ao teu redor.

Mas, esse ainda não é o motivo de ter despertado o amor em mim.

Durante a primeira aula eu percebi que você não era péssimo em física e mentia muito mal. Errava coisas bobas e apreciava minhas explicações sérias como se eu estive te cedendo todo o conhecimento do mundo.

— Então, você só precisa somar a velocidade com...

— Você é muito bonito, sabia disso?

O meu rosto pareceu pegar fogo, eu o abaixei até a franja cobrir meus olhos e você riu baixinho. Ambos estávamos largados no chão do teu quarto. Um cômodo de infinita desorganização, uma confusão de roupas jogadas para todos os lados, livros e revistas pelo chão, pôsteres colados às paredes e pares de calçados amontoados em um canto.

Você é bagunceiro e mesmo que eu brigue sobre isso, não mude. Deixa-me continuar arrumando o que você bagunça para saber que você ainda é o mesmo e nada disso vai ser diferente, mesmo que tenha de ser.

— Você precisa somar e...

— Você deveria dizer que eu sou bonito também.

— E se eu não te achar bonito?

— Você não acha? – o pequeno bico em seus lábios me fez sorrir um pouco. – Uau! Garoto, você deveria sorrir mais... O seu sorriso é incrível.

— Cala a boca. – fechei o livro esquecido no meu colo e comecei a arrumar minhas coisas. – Acho que você não precisa tanto assim de ajuda com física.

— O que? Você vai embora? Não! – você ficou de pé e segurou minha mão dentro da sua. Era uma diferença agradável de temperatura. Tua pele sempre é quente e a minha nunca é. Isso também nunca precisa mudar. – Escute, eu menti ‘to confessando, mas foi o único jeito de conseguir falar contigo.

— Falar comigo?!

— Eu... Porra, vamos lá Hoseok, você consegue. – eu franzi meu cenho. No começo era estranho te ouvir falar sozinho, era mais estranho ainda quando você respondia suas próprias perguntas. – Eu quero te chamar pra sair.

— Sair?

— É. Um encontro.

— Nem pensar. – puxei minha mão, mas você a segurou. – Me solta.

— Você é muito arisco. Yoongi eu penso em você e sobre você desde que te vi no primeiro dia de aula. Você é diferente e...

— Estranho? Esquisito?

— Lindo. Você é o garoto mais bonito que eu já vi e eu queria ter a chance de te fazer gostar de mim também. Eu juro que não sou tão ruim quanto pareço.

— Então... Você... Você sabe... Gay?

— Você não é? Não me diga que eu estou tendo sonhos eróticos com um hétero?! – seus olhos estavam maiores do que nunca e isso me fez rir.

— Podemos ir ao cinema, amanhã depois das seis. – você assentiu e me presenteou com o sorriso mais lindo que poderia. – Eu pago a pipoca.

— Ótimo!

Demorei pra entender porque aceitei aquilo.

Nós vimos um filme ruim do Adam Sandler, mas você ria alto com as cenas saturadas de comédia e eu ria de você. Quase no fim da sessão, teu braço se esticou para sorrateiramente parar sobre meus ombros e um silêncio vergonhoso só era quebrado com os sons do filme. Eu mal me movia e outra vez meu coração parecia querer escapar para fora de mim! Mas, você se aproximou um pouco mais e tocou meu queixo com a outra mão.

Hoseok, aquele momento foi o mais emocionante da minha vida. Era clichê e ridículo, mas um milhão de mariposas levantou vôo dentro do meu estômago. Eu me sentia como uma garotinha ingênua e quis fugir de novo, abaixar meu rosto e sucumbir na minha falta de empatia com essas sensações, mas você me manteve perto, seus olhos sempre brilhavam mais com as luzes que vinham da tela grande e eu era um monte de nervosismo, desespero e medo.

— Posso te beijar, Yoongi?

— Eu não sei.

— Em uma porcentagem, o quanto tenho a favor?

— Essa é a pergunta mais idiota que já ouvi na minha vida. – você sorriu e encarou os meus lábios. – Oitenta por cento.

— É uma estatística boa.

Você me beijou ali, naquela sala abafada de um cinema quase vazio enquanto Adam Sandler encerrava o filme com uma lição de moral digna de comédia pastelão.

E eu não me permito esquecer como tudo em mim pareceu ser tão melhor quando eu estava nos seus braços.

Beijamo-nos mais duas vezes ali, mais quatro vezes no carro e uma em frente à porta da minha casa. Tornamo-nos dois viciados em beijos desde que fossem um com o outro. Três semanas depois você me pediu em namoro com um bilhete cafona dentro de um bombom de chocolate amargo com café.

Eu ainda detesto coisas doces.

Eu não disse que aceitava seu pedido, mas eu não recusei sua mão quando ela segurou a minha na frente de todo colégio, da cidade, do seu avô ou de Namjoon. Meu jeito reservado não te permitia demonstrar carinho em público, mas eu adorava e ainda adoro segurar tua mão. Quando você me abraçava e escondia o rosto contra meu pescoço e me deixava ficar em silêncio pelo tempo que fosse.

Um namoro que rendeu olhares tortos dos mais velhos, mas que era bem visto pelos amigos que você me fez ter também. O reverendo Kang proibiu seus seguidores de comprar ou dar lucros à loja de Namjoon, mas era a única livraria descente de Daegu, ele perdeu para o mau desenvolvimento e Seokjin superfaturou todos os clientes que falavam dos irmãos Min e seu declínio sexual.

Você nunca se abateu por isso. Você costumava dizer que a falta de amor era a culpa do preconceito. Lembra-se de quando vandalizaram os muros da minha casa? De como você ficou furioso e passou dois dias inteiros pintando tudo outra vez só para não me fazer ler aquelas palavras horríveis?

Namjoon nos pegou em uma situação constrangedora quando voltou para casa mais cedo em uma sexta feira e era para ser nossa primeira vez. Não aconteceu, você foi embora envergonhado com a calça aberta e descabelado, e no dia seguinte meu irmão havia deixado um pacote de camisinhas e lubrificante sobre o criado mudo do meu quarto.

Ele não falou nada sobre o flagra, mas você demorou um mês para conseguir olhar para ele.

— Eu não quero machucar você, Yoon.

— Para de falar e vai logo! Acho que você colocou lubrificante demais, idiota!

— Está bem melado aqui. – seus dedos ainda estavam dentro mim, indo e vindo numa caricia dolorosa, mas necessária. Era a terceira tentativa e seria a última! – Dói muito?

— É estranho. – nos olhamos e você beijou a ponta do meu nariz. – Tem de ficar bom em algum momento, Namjoon e Jin-hyung  gemem demais para ser algo ruim.

— Porra, Yoongi! Quer me broxar?! – sua careta me ajudou a relaxar mais, quando o senti pressionar um lugar maravilhoso, gemi e você arfou. – Aqui? – assenti. – Você fica tão gostoso gemendo, sabia?

— Isso já não está constrangedor o suficiente, não?!

Você afastou os dedos e eu te assisti vestir o preservativo com cheiro de framboesa. O seu corpo era menor do que é agora, mas igualmente lindo. Quando se debruçou sobre mim beijou minha testa e depois meus lábios.

A primeira vez doeu bastante, mas eu descobri o quão sublime era ter você dentro de mim ou estar dentro de você. Parecia impossível te amar mais do que eu já amava sem nem saber disso, mas eu amei.

Eu ainda amo, Hoseok.

Depois do segundo orgasmo de cada um, nós ficamos deitados na minha cama, nos encarando em silêncio. Suados e com respirações pesadas.

— Eu amo você, Yoongi. – você sussurrou para mim e era a primeira vez que um de nós confessava algo assim. – Eu vou ficar com você para sempre, ou até quando você me quiser.

— Para sempre, então. – eu acariciei seu rosto. – Sempre.

E houve brigas, muitas delas. Eu era ciumento demais e você não conseguia ver a maldade de algumas pessoas ao seu redor. A maior briga foi por causa de Kang Naeun, a doce filha mais velha de Dahko – o reverendo da cidade. Naeun era apaixonada por você desde que você chegou à cidade, mas ela era contida demais para se confessar e nunca o fez. Mas, durante os preparativos para a formatura ela te enviou uma carta de amor, uma carta longa e profunda sobre as incertezas que a garota guardava dentro de si. Eu a odiei, mas você é altruísta demais para não ter ficado tocado com toda a situação da menina.

Eu te proibi de se aproximar dela, mas você presenciou uma discussão calorosa e a defendeu do pai, comprando mais briga com o fanático religioso que nos perseguia.

Gritei, quebrei algumas coisas e te mandei me esquecer.

Eu nunca soube lidar com o meu ciúme e tudo que você fez fora ficar calado, me escutando dizer coisas horríveis. Você ficou no mesmo lugar quando o deixei batendo a porta da caminhonete velha. Eu estava mais que disposto a te esquecer, o meu orgulho me ajudaria.

Então, na noite do baile, Seojun perdeu a luta contra o câncer.

Namjoon foi me buscar e me tirou do ginásio arrastado.

— Porra, o que você está fazendo?! Me solta, caralho!

— Onde está o seu telefone? Por que não atende, Yoongi?!

— No carro do Jimin! Dá pra parar de me puxar feito um boneco?!

— Entra no carro.

— Por quê? É o meu baile?! Eu passei anos estudando nessa droga de escola sem ter um amigo, agora eu os tenho e vou comemorar com eles!

— Você tem amigos graças a quem?!

— Puta merda, nem começa a me dar sermão por causa daquele idiota do Hoseok...

— Seojun-ssi morreu, Yoongi. – ele bateu as duas mãos na lataria do carro. – ELE MORREU NOS BRAÇOS DO HOSEOK E ELE ME LIGOU DESESPERADO, ELE PRECISA DE VOCÊ!

Te peço desculpas por não lembrar tantos detalhes assim, mas só consigo me recordar de chegar a tua casa e te ver sentado na varanda, na velha cadeira de balanço que seu avô passava muito tempo lendo.

Eu usava um belo terno alugado, você uma camisa surrada e bermuda azul. Havia pessoas dentro da casa, uma ambulância e um carro funerário estavam estacionados lado a lado.

Eu me aproximei e você me olhou.

— Yoongi... Yoongi eu sinto muito... Eu nunca quis magoar você, eu amo você... Por favor, eu não quero ficar sozinho... Por favor, não quero fazer isso sozinho...

Seu avô estava morto na sala de estar, a televisão ainda estava ligada e você se desculpava por alguma coisa que nem era mais importante. Você estava diante de mim com o rosto lavado em lágrimas, com as mãos tremendo e transbordando um medo que me transbordou também.

— Estou aqui. Não vou te deixar sozinho. Nunca mais.

Sentei eu seu colo e você se agarrou a mim, chorou alto contra meu peito e eu chorei em silêncio beijando o seu cabelo suado.

— Eu amo você, Hoseok. Sempre.

— Pra sempre, então.

Foram dias mórbidos. Seus pais vieram e ficaram até depois do enterro. Foi necessário um mês inteiro para que eu te visse sorri de novo. Fomos para a mesma faculdade em Seul, você conseguiu uma bolsa para educação física e eu para administração.

Foram dois anos de descobertas, dividindo o mesmo teto e a mesma cama.

Casamo-nos em uma cerimônia pequena, você me fez usar um terno branco e segurar um buquê de rosas amarelas. O seu buquê era de rosas vermelhas. Jimin pegou ambos os buquês e se engraçou com um primo teu chamado Jungkook.

Nossa breve lua de mel foi em Jeju.

Até que tudo desmoronou.

Começou devagar, era tão comum que nenhum de nós se importava. Não era agressivo, não era preocupante.

"Yoongi viu onde coloquei minhas chaves?"

"Yoon, qual é mesmo o endereço daqui?"

"Amor, qual a placa do meu carro?"

"Alô, boa noite, poderia falar com Min-Jung Yoongi-ssi? Ah, é que a um rapaz aqui conosco e ele diz estar perdido, a única coisa que ele se recorda é seu nome senhor... Não, ele não sabe o próprio nome."

Você tinha vinte e sete anos quando de diagnosticaram com um leve Alzheimer esporádico desenvolvido por fatores que a medicina ainda não sabia explicar.

Perda de memória recente, confusão momentânea.

Você esquecia-se de quem era.

Seus pais financiaram tratamentos caros, nos mudamos para o exterior por quase um ano, mas não funcionava bem. Hoseok, você ainda sorria o tempo todo, mas eu sentia a tristeza que vinha de dentro de você.

Eram datas, números, nomes, fisionomias, lugares, gostos.

Nada parecia ficar tempo o suficiente gravado na sua memória e eu sabia que quando seus olhos me encaravam com medo, você havia esquecido outra vez e não queria que ninguém mais soubesse sobre isso. Fomos a diversos médicos, pedimos opiniões de todos que podíamos, mas você continuava esquecendo. Você se tornou quieto e introspectivo, mas eu ainda era egoísta ao ponto de achar que conseguiria segurar tudo aquilo sozinho.

Eu preferia brincar de felicidade para nunca assumir que estava com medo de te perder para o esquecimento.

No dia do nosso aniversário de casamento nós brigamos você esqueceu e ficou furioso por que não ter ficado furioso com isso. Você disse que eu deveria exigir mais, que eu merecia mais, que eu deveria ser feliz.

— Eu sou feliz com você, não preciso de mais nada.

— Você precisa de alguém que não seja um doente! Eu não sou e nem posso ser responsável por mim mesmo! Eu prefiro definhar sozinho...

— Eu nunca vou te deixar, Hoseok. Eu não me importo que esqueça a droga de uma data se você ainda estiver comigo para passar por ela...

— Não! Por favor, não se...

E você se calou. Te olhar sobre mim se perdeu, ficou opaco. Seu corpo perdeu a postura irritada e seus ombros relaxaram completamente. Milhões de sirenes soaram dentro da minha mente, o meu castelo de areia estava sendo demolido tão fácil.

— Hoseok-ah?

Você continuou quieto até estreitar o olhar e sorrir largo.

— Onde estão as tintas?

— As tintas?!

— É! Eu vou pintar os muros lá fora, não quero que você leia nada daquilo!

Demoraram três anos até que sua doença me alcançasse assim. Você nunca esquecia uma briga, nunca esquecia quando fazíamos amor, nunca esquecia meu nome.

Mas, estávamos propícios a isso agora.

— Tudo bem, vamos deixar isso pra depois.

— Mas, Yoongie, eu não quero que você fique triste por causa daquilo. – eu me aproximei de você e te abracei forte, eu fui tomado por um medo grotesco de te perder. – Você está chorando? Meu amor, não chora. Eu não vou deixar ninguém insultar você.

— Hoseok-ah, você me ama? – agarrei sua camisa com toda a força que eu podia.

— Mais do que qualquer outra pessoa. Pra sempre.. – você afagou minhas costas e beijou meu cabelo.

— Sempre.

Eu parei de procurar formas de reverter o seu problema e comecei a procurar formas de lidar com ele sem fingir que ele não existia. Aos trinta anos você esqueceu que seu pai havia falecido seis meses antes e eu tive de te dar a noticia outra vez. Você chorou tanto quanto da primeira vez. Passei a trabalhar em casa para estar com você e durante um ano inteiro você esteve lúcido diariamente, eu ainda te olhava dormir porque tinha medo de que tudo fosse um sonho.

Durou até Minji chegar as nossas vidas. Ela era doce e te amou primeiro do que me amou. Ela tinha três anos quando a adotamos, a briga por causa de sua condição foi facilmente ganha com a influência de Jimin. Ela ainda é conhecida como o pequeno furação por seus colegas advogados. Minji não tem nada meu ou teu fisicamente, você lembra?

Você a apelidou de pimentinha por causa do cabelo vermelho e as sardas pintadas em seu rosto.

Minjie foi quem notou quando você recaiu.

— Appa Yoon? – tirei minha atenção do notebook para olhá-la. Ela já usava seu pijama de unicórnio e segurava uma boneca. – Appa Hobi não abre a porta.

— Porta?

— Sim. Eu fui pedir que ele me contasse uma história e ele perguntou meu nome, depois se trancou no closet e não sai mais.

— Minjie-ah, fique aqui ok! Pode ver desenho na TV, mas fique aqui.

Beijei seu rostinho sonolento e fui até o quarto.

Consegui ouvir seus soluços antes de chegar perto da porta, Hoseok. Eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo outra vez, eu não podia crer que a nossa felicidade pudesse ser tão curta.

— Hoseok, abra a porta.

O trinco se fez ouvir e eu entrei no closet para te encontrar encolhido em um canto, abraçando os próprios joelhos e soluçando alto. Eu já havia te visto assim uma vez, mas você era um menino. O meu marido, pai da minha filha, meu melhor amigo, meu amante... Um homem de trinta e cinco anos completamente desesperado e perdido.

— Yoongi... Eu não consigo lembrar!

— Está tudo bem... – me sentei na sua frente e te trouxe para os meus braços.

— Não está, Yoongi. Ela me chamou de pai, mas eu não consigo lembrar-me dela! Yoongi, eu não aguento mais... Por que isso está acontecendo comigo?

— Nós vamos resolver isso, você não pode desistir.

— Nem isso eu posso escolher! Eu não posso escolher o que esqueço ou quando... É como se eu não soubesse mais contar a minha própria história.

— Eu conto pra você, eu te juro nunca deixar passar nenhum detalhe.

E agora você deve estar menos confuso que quando acordou, não é? Olhe ao redor, está no seu quarto. A porta a direita é o closet é a esquerda é a saída. Sua escova de dente é a laranja. Hoje é cinco de agosto de dois mil e dezoito, nós moramos em Daegu outra vez. O seu nome é Jung Hoseok, você tem quarenta anos. A tatuagem em sua costela esquerda é a data do nosso casamento, a esquerda é o nome de nossa filha Minji. Tem uma aliança no seu dedo e o meu nome está gravado nela.

Hoseok, você foi diagnosticado com Alzheimer aos vinte e sete anos, uma forma menos agressiva que te causa perda de memória recente durante crises.

Mas, você não precisa se preocupar, eu sempre vou te contar sua história.

Todos os dias se for preciso e não pense que isso é difícil, eu aprendi a amar mais cada vez que eu a conto.

Eu sou Yoongi. O seu Yoongi.

Eu sou seu marido, seu melhor amigo e seu amante.

Agora eu quero que você desligue esse vídeo e venha até a cozinha, me abrace e beije minha nuca demoradamente.

Não precisa dizer muita coisa, mas diga que é pra sempre, então.

E eu sempre vou te fazer lembrar.



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