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História Remendos -Fillie - Capítulo 34


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Notas do Autor


Boa leitura ❤️

Capítulo 34 - Capítulo 33


Desço do carro pronta para separar uma briga mas paro de andar assim que vejo Joseph sorrindo e apertando a mão de Finn em cumprimento, a estranheza do momento faz com que eu tenha que abrir os olhos com mais força para me convencer de que não é um delírio da minha cabeça.

-Que surpresa te ver por aqui cara. -Joseph diz, mantendo um sorriso cordeal.

Finn sorri também, mas não tem nenhum traço de cordialidade nele, apenas arrogância, embora ele pareça estranhamente calmo.

-Surpresa? Achou que eu nunca viria conhecer o lugar onde a minha namorada trabalha? -Ele responde, o braço se estica para mim e ele me pega pela cintura.

Minhas pernas duras caminham até ele mas não sinto os movimentos. Finn se aproxima e beija meu rosto de uma forma desnecessária e possessiva que me deixa ruborizada, sei bem o que ele está fazendo.

-Claro que sim. -Joseph ri. - A Millie é uma garota bem esforçada, é muito bom ter ela por perto, justo quando estamos precisando de uma mente tão brilhante como a dela. -Ele olha para mim.

O elogio exagerado me deixa zonza ao invés de feliz, Finn endurece o corpo e eu sei que está contendo o ciúmes, mesmo assim não quero que isso passe os limites.

- Joseph... Está saindo mais cedo? -Pergunto para diminuir a tensão que sobrecarrega o local.

Ele olha para o relógio no pulso depois volta para mim.

-Não, vou apenas ver um terreno novo que acabei de comprar. -Ele fala cheio de si. -Mas estarei de volta logo logo.

-Aposto que sim. -Finn resmunga baixo, mas todos ouvimos. Eu fico nervosa e envergonhada, minhas mãos suam, não acredito que ele vai estragar tudo.

-Você não quer entrar Finn? O prédio está aberto para visitantes. -Joseph rebate com um sorriso ainda maior vendo que conseguiu irrita-lo.

Finn olha por cima do ombro de Joseph para verificar o local e eu começo a rezar mentalmente para que ele não aceite. Ele ri com um leve que de indiferença, apontando para frente.

-Eu não chamaria isso de prédio, está mais pra um sobrado.

Meu queixo cai, fico completamente sem reação sem acreditar que ele disse isso mesmo, se eu pudesse me enfiaria no primeiro buraco no chão.

Para minha surpresa Jospeh ri também, parecendo nada afetado.

-Você não perdeu o senso de humor pelo visto. Bem, se quiser ver como é grande por dentro tenho certeza que a Millie vai gostar de te mostrar, especialmente o meu escritório.

Uma descarga de adrenalina me empurra para frente quando Finn me solta preparando os punhos para ataca-lo, é um movimento perigoso que quase me faz cair mas eu consigo ficar entre os dois a tempo, Finn grunhe atrás de mim furioso.

-Calma aí cara, eu não falei nesse sentido. -Joseph recua para trás mas não demonstra medo nenhum, é apenas provocação, por um momento eu o odeio, odeio os dois. -Melhor eu ir, está na minha hora.  

  Graças a Deus

Finn se mexe atrás de mim para se soltar mas eu não cedo, ganhando forças que não sei de onde vem para impedi-lo.

-Tchau. -consigo dizer quase rispidamente enquanto Joseph ri de novo e sai andando em direção ao carro.

Somente quando ele entra e da partida eu libero Finn, tombando para trás perdendo as forças nas pernas. Ele vê minha agonia e se aproxima de mim.

-Não! -Grito suficientemente alto para que as pessoas que passam na rua virem a cara na nossa direção. -Não chegue perto de mim! 

Finn me olha confuso, mas logo a fúria embaça seus olhos. Levo minha mão ao peito, sentindo a arritmia jogar meu coração de um lado para o outro.

-O que foi? Você não ouviu a merda que ele disse? Insinuando que você conhece o escritório dele? -Ele grita de volta, como se estivesse convencido de que está com a razão.

Olho para ele e meu sangue começar a ferver, minha cabeça está explodindo.

-Claro que eu conheço, eu trabalho aqui, ele é meu chefe merda! -Perco o pouco controle que tinha e o empurro contra a porta do carro, meus olhos pestanejam com o susto, mesmo estando furiosa não queria machuca-lo.

Finn se desencosta do carro depois de alguns segundos me olhando estarrecido respirando tão forte que o peito sobe e desce pesadamente, para meu alívio não parece ter doído, mas ele passa as mãos nos cabelos em total frustração.

-Eu vou ignorar isso. Venho pegar você quando sair. -Ele diz sem me encarar e faz que vai entrar no carro mas eu o impeço.

-Desculpa! Desculpa por favor. -Minha voz embarga quando puxo ele pelo braço para me ouvir, ainda estou com raiva mas meu arrependimento é maior. -Não queria te empurrar, não devia ter feito isso, me desculpa.

-Olha, está tudo bem, não doeu. -Ele responde com a voz mais suave verificando meu estado de completo horror, em seguida me abraça, meu corpo inicialmente quer recuar mas eu vou, encostando a cabeça no ombro dele apesar de me sentir relutante. -Só existe um jeito de você me machucar, e não é fazendo isso -Ele sussurra baixinho contra minha cabeça.

-Você não devia ter insistido em vir aqui. -Consigo dizer depois de engolir o enorme bolo na garganta, espero por um grito mas ele apenas respira pesadamente.

-Não, não devia.

Olho para ele sem acreditar que concordou comigo.

-Apesar de eu não ter planejado isso como você deve estar pensando, eu realmente não devia ter vindo. -Ele coloca uma mecha de cabelo para trás da minha orelha. -Desculpa.

A surpresa é ainda maior, em outra circunstância ele jamais pediria desculpas por um ataque de ciúmes e eu não entendo muito bem as razões de faze-lo agora. 

-Tudo bem, já está feito. -Balanço a cabeça resignada, embora confusa. -Melhor eu ir ver se ainda tenho um emprego.

Finn cápta minha ironia e acabamos rindo juntos.

-Eu duvido que ele vá te dispensar por causa disso.

-Eu espero que não mesmo. Agora vá embora. -Dou um breve aperto em sua mão para dispensa-lo.

Sei que deveria estar fumaçando de raiva pelo comportamento infantil dele mas depois do choque de empurra-lo contra o carro acho que minha racionalidade se focou apenas nisso, não consigo acreditar que cheguei a esse ponto. Ele me dá um beijo rápido nos lábios e volta para dentro do carro, sorrindo ao descer o vidro para me dar adeus.

Pelo menos o pior eu consegui evitar...ou não... Eu quis machuca-lo? Essa era minha intenção?

Depois de um tempo parada na calçada tentando me recompor subo até o escritório de Sally, bato na porta e Lexi vem até mim com um sorriso.

-Oi Millie! Tudo bem? -Ela me abraça, algo em sua abordagem me lembra Stacy e eu logo sinto culpa por ter que deixá-la também, mesmo com o pouco tempo consegui me afeiçoar a ela.

-Entra, a Sally saiu para ver uma obra, mas deve estar de volta daqui a pouco, você quer um café? -Lexi oferece enquanto entro na sala.

-Não, obrigada. Estou bem.

Verifico ao redor e vejo que uma mesa oval foi posta do outro lado da sala, onde antes ficava o quadro de informações, a mesa está equipada com um notebook novo, e várias pilhas de papéis enfileiradas.

-Ah, o Joseph mandou instalar essa mesa pra você, pode se sentar nela. -Lexi diz, indicando a mesa com a cabeça.

Fico um pouco impressionada, mas faço o que ela me pede, o computador está logado e eu sou o usuário, sob o teclado vejo um papel onde o login e senha do sistema estão escritos, um sentimento de felicidade de invade quando sinto que faço oficialmente parte da equipe. Lexi fica distraída em sua própria mesa quando o telefone toca e ela parece conversar com um cliente que deseja marcar um horário com Sally.

Aproveito a deixa para verificar meus e-mails, abrindo as quatro pastas de clientes que Sally me mandou ontem. Algumas partes mais técnicas me escapam mas fico orgulhosa quando consigo entender parcialmente o trabalho. Faço anotações no meu bloco de notas, escrevendo o nome dos clientes, suas preferências, a prioridade e prazo para entrega dos projetos. Uma mulher chamada Nora Maves me chama atenção, pois ela solicitou o design de um cinema particular em sua cobertura em um bairro chique de Portland, de todos os pedidos entre quartos, salas de jogos e deques esse é o único que tem registro em prioridade máxima então suponho que ela seja uma cliente importante.

Abro a pasta de identificação dela e vejo o perfil de Nora, ela é esposa de um marechal e o projeto é para a casa do filho mais velho deles que acabou de casar. Minha cabeça incrivelmente se enche de ideias e bisbilhotando um pouco mais vejo as preferências dela, cadeiras reclinadas de couro, chão aveludado, paredes de material sintético lido e claro o painel com medidas exorbitantes. Parece fácil, então abro o programa de desenho e começo fazendo um esboço da planta baixa, usando as referências deixadas pela equipe de engenharia.

Uma hora depois tenho o desenho completo do espaço e posso dizer com certa propriedade no assunto que não ficou tão ruim, as medidas ficaram perfeitas e acho que combinei bem as cores com os móveis internos, obviamente essa parte caberia a Sally e não a mim então não deve servir para ela.

Quando passo para o próximo cliente, -um jurista que pediu a sala de jogos- a porta do escritório se abre e Sally entra. Hoje ela está um tanto mais comportada, o tempo frio a obrigou a vestir uma calça grossa de pele e um casaco vermelho de lã, os respingos em sua roupa me dizem que está chovendo e eu nem percebera.

-Inferno de cidade. -Ela pragueja fechando a porta.

Lexi olha para mim e ri baixinho pelas costas de Sally, ela tira o casaco e não fico surpresa quando uma camisa fina de seda aparece por baixo, o tecido tão esticado pelos seios que quase consigo ouvir as fibras roçando em sua pele quando ela se move.

-Algo para mim Lexi? -Ela pergunta secamente depois de dar a volta e sentar na cadeira de sua mesa, ignorando mais uma vez minha presença. 

-Sim, Manfred ligou outra vez, ele quer encontrá-la essa semana para fechar o negócio do prédio dele. -Lexi levanta pegando uma folha empressa passando-a para Sally.

Ela olha com profundo desgosto por baixo dos óculos cromados, claramente insatisfeita com o pedido.

-Esse homem é louco, jamais vou conseguir entregar quatro quartos e uma adega nesse prazo. Ligue para ele e diga que estou superlotada de trabalho, se ele quiser vai ter que esperar pelo menos mais dois meses, se tiver sorte. -Ela devolve o papel para Lexi que confirma com a cabeça e sai com o rabinho entre as pernas.

-Eu posso ajudar, se quiser. -Não sei o que me deu para falar quando claramente ela não tinha pedido minha opinião mas as palavras me escapam. Se fosse possível eu chutaria minha própria perna por baixo da mesa.

Sally e Lexi me olham ao mesmo tempo e eu tenho que ficar movendo os olhos para decidir qual das duas encaro. Sally ganha a competição quando ela solta uma risada mansa.

-Acha que pode dar conta? É muito trabalho. -Ela mantém o sorriso no rosto, me desafiando.

Engulo em seco, mas não demonstro o pânico.

-Acho que posso ajudar. É pra isso que estou aqui. -Minha voz não treme, embora saia mais baixa que o normal.

Lexi fica parada, olhando para mim com a maior cara de "não se meta nisso", mas não tem mais volta, um dia eu teria que me impor, então que seja no início.

-Certo. -Sally tira os óculos, me olhando com os imensos olhos azuis. -Diga para Manfred que nossa nova estagiária vai entregar metade do projeto para ele dentro do prazo, eu me viro com o restante. -Ela ordena a Lexi, a voz cheia de empáfia.

As palmas das minhas mãos começam a suar...dependendo do prazo escolhido pelo cliente eu terei que me matar de trabalhar para conseguir entragar a tempo e algo me diz que é pra logo.

Lexi faz que sim com a cabeça obedientemente e volta para sua mesa em silêncio, mas faz um gesto negativo com a cabeça na minha direção.

 Mas que merda que eu fiz?

Nas duas horas seguintes Sally me repassa o caso, explicando as exigências de Manfred e revela o prazo crucial de um mês, um mês é pouquíssimo tempo, eu ainda tenho que me preocupar com meu trabalho da faculdade. Não digo nada a ela obviamente, já me meti nisso e não vou sair. Mostro a ela o esboço que fiz para o cinema de Nora e ela surpreendentemente aprova, claro que não antes de enfatizar meus erros e mostrar que ela faria muito melhor. Por um lado isso é bom, a arrogancia de Sally me faz querer me superar então levo como incentivo.

Depois que saio do escritório perto das cinco da tarde não encontro mais com Joseph para meu alívio, eu espero que ele não tenha ficado com raiva dos comentários absurdos de Finn, apesar de saber que ele se divertiu com aquilo.

Assim que ponho o pé na calçada o Jaguar para no meio fio e eu entro.

-Eai, você foi demitida? -Finn pergunta com ironia quando da partida no carro. Ele trocou de roupa, agora está usando uma camisa simples do Ramones e calças jeans.

-Não, mas não graças a você. -Respondo com ironia também e talvez até um pouco de raiva, ele olha para mim e ri.

-Eu disse garotinha... Então, pra onde a senhorita quer ir agora? Pra casa primeiro ou pro restaurante? -Ele usa um tom polido e forçado.

-Agora você virou meu motorista particular também?

Mais uma vez ele ri.

-Sim, gosto de levar você. -Ele me olha com carinho, a diversão sumiu de seu rosto o que mostra que está sendo sincero.

-Certo. Então me leve pra casa. Tenho que ir pro restaurante sozinha, e no meu carro inútil. -Apesar de parecer um pouco ríspida pego a mão dele no freio de mão e aliso as costas dela.

Ele assente com a cabeça, obviamente não vai ter coragem de insistir em me levar para o restaurante onde possivelmente veja Jacob também, já foi insuficiente a nossa discussão mais cedo.

Em pouco tempo chegamos em casa e com muito esforço o convenço a ir embora. Antes de tomar banho e me arrumar para sair, consigo abrir alguns arquivos no computador e faço breves anotações sobre os trabalhos com Manfred, mas a preocupação com minha demissão não sai da minha cabeça então deixo pela metade e tomo um banho. Quando estou me arrumando, recebo uma ligação de Paige, ela parece cansada e isso me deixa levemente preocupada, apesar de saber que minha irmã gosta da rotina no hospital, não me agrada que ela não tenha uma vida fora de lá.

-Eu estou bem Millie, não se preocupe, já falei com você sobre isso. Como foi no novo emprego? -Ela desvia do assunto. Deixo o celular no auto falante enquanto passo um pouco de pó no rosto.

-Foi bom, estou cheia de serviço e isso é bom pra mim, estou aprendendo rápido.

-Ah certo. -Ela assente levemente distante, o que mostra que algo está passando por sua cabeça mas ela não quer me contar.

-Eu sei que você já disse que está bem, mas por favor, me diga, algo está te preocupando?

Ela solta o ar em uma expiração derrotada.

-Claro que sim Millie, faz muitos meses que não vejo você e muita coisa está mudando. Eu temo, por você... Esse garoto..

-Pay... Já falamos sobre isso. - eu a enterrompo. 

É verdade, não tem um dia sequer que eu e ela conversamos mesmo que por mensagem, que eu não conte basicamente tudo sobre meu relacionamento, inclusive sobre o incidente com a bebida. Eu precisava conversar com alguém, e ela estando longe, me parecia ser a melhor opção.

-E se.. você estiver enganada? Se ele não mudou de verdade e sei lá.. acabar te magoando? -Ela soa realmente temerosa, eu entendo perfeitamente apesar dos meus esforços em sempre me mostrar bem para ela.

-Não vai acontecer nada. E se acontecer... Bem.. eu vou superar, não é como se eu fosse de papel, as pessoas se magoam o tempo todo e superam, eu não sou diferente. -Respondo com cautela, apesar de um leve medo surgir em mim ao pensar nisso.

-Tudo bem. Eu sei que você sabe se cuidar. Vou conseguir ir passar um tempo das férias com você no final do ano, e tenho certeza que ficarei mais tranquila quando puder conhecer esse garoto. -Ela diz, levemente aborrecida, incapaz de chamar Finn pelo nome.

Eu rio.

-Sim, ele quer conhecer você também. Estou ansiosa e com saudade.

-Eu também. Mal vejo a hora.

Depois que consigo terminar de me arrumar nos despedimos e eu saio do apartamento para o restaurante. Está calmo quando entro, talvez por que tenha chegado bons minutos antes do início do turno. Aproveito que não há ninguém fora os garçons e o pessoal da cozinha e faço meu melhor para limpar as mesas, ser simpática com Stacy e os outros garotos.

Depois de meia hora e depois de ter atendido dois clientes vejo Antony chegar com Jacob e os dois vão conversando distraidamente para o escritório. Espero tempo o suficiente aproveitando a ausência momentânea de afazeres e bato na porta.

-Millie, pode entrar. - A voz reconfortante do meu chefe soa atravéz da madeira e eu entro, sentindo o coração querendo acelerar de nervosismo.

Os dois estão sentados frente ao computador, no lado esquerdo da sala vejo pilhas de novos cardápios impressos, e também, várias máscaras e adereços decorativos de festa, imagino que sejam para o dia da celebração. No primeiro momento não consigo falar pois os dois começam a comentar sobre os preparativos de forma empolgada, me explicando sobre o feriado e como ele é importante para a cultura latina. 

Eu ouço com atenção e respondo com respostas monossilábicas, sem querer entrar muito no assunto. Depois de perceber minha reação meio evasiva Jacob me pergunta o que eu desejo e eu conto, primeiro agradeço por tudo, digo que eu gosto do restaurante e deles e que me custa muito sair de lá, explico sobre o estágio e como vai ser bom para meu currículo ter algo na minha área. Jacob fica com o rosto inexpressivo apenas me olhando enquanto falo, Antony parece interessado, me faz perguntas e sorri com gentileza.

-Oh, sim, querida é óbvio que entendemos. Você tem que ir atrás do que é melhor pra você, não se sinta mal por nos deixar, como havíamos combinado essa vaga seria temporária de toda forma, Rebeca já tave o filho e em pouco tempo estará de volta. -Ele diz, não há nenhum traço de arrogância nem nada ruim em sua voz, apenas compreensão, o que dissipa parte da minha tensão.

-Você não faz ideia do quanto fico mais tranquila, agradeço muito mesmo pela oportunidade, sentirei falta de tudo isso. -Digo sorrindo, não mais forçadamente, mas aliviada.

Antony vira e assina um cheque.

-Aqui está seu pagamento pelo tempo de serviço. Você será muito bem vinda aqui no dia da comemoração, venha nos fazer uma visita. -Ele levanta e estende a mão para mim, depositando o cheque nela.

-Eu venho, sempre que puder. Gosto muito daqui. -Pego o cheque sem olhar o valor.

-Você não vai acompanhar sua amiga até lá fora Jake? -Antony pergunta quando já estou na porta, não consigo evitar e olho para Jacob, a expressão impassivel continua em seu rosto, mas ele se levanta, quase que automaticamente depois de ouvir o pai falar.

No lado de fora, faço questão de me despedir dos garçons e do pessoal da cozinha, Stacy me abraça e me faz jurar aparecer lá mais vezes, eu digo que vou, apesar de não saber se disse a verdade. Jacob me acompanha até a saída, sem dizer nada.

-Então... É isso, nos vemos segunda na faculdade. -Eu quebro o silêncio, quando já estou em frente ao carro.

Ele me olha com precisão, eu entendo sua falta de expressão, apesar de saber que não tem a mínima chance comigo ele ainda continua com os sentimentos guardados e isso fica evidente a cada dia mais, como se ele não desistisse nunca. Gostaria de saber o que o levou a se apaixonar por mim dessa forma, nunca havíamos nos falado além de nos cumprimentamos na faculdade antes de termos que fazer o trabalho juntos, e só isso foi o suficiente para que ele sentisse alguma coisa. 

O que para mim não faz nenhum sentido, ele é bonito, de boa família e tem dinheiro, não devia faltar quem tivesse interesse e mesmo assim ele continuava apaixonado por mim, que nunca lhe dei nada em troca. Era algo que não tinha o menor cabimento, mas pensando bem, eu me apaixonara pela pessoa mais improvável do mundo, a pessoa que mais tive raiva e desprezo durante boa parte do ano então por um lado, entendi Jacob. Não escolhemos por quem nos apaixonamos.

-Você não me falou nada disso... -Ele finalmente diz, a voz dura feito aço, mas a mágoa é evidente nos seus olhos verdes. -Pensei que gostasse daqui.

-Eu gosto. Gosto muito, você ouviu minha conversa com seu pai... Só que surgiu uma oportunidade melhor e ...

-É eu sei. Assim como você gosta de mim mas surgiu uma oportunidade melhor com o Finn. -Ele me interrompe, a voz dura agora cheia de ressentimento o que o faz parecer uma criança birrenta.

Respiro fundo, tentando encontrar alguma coisa sensata a responder. Ele nunca mais havia implicado com meu namoro.

-O Finn não tem nada a ver com isso Jake, podemos deixa-lo de fora desse assunto por favor? -Uso o tom mais calmo que consigo.

-Sim, Millie, podemos, mas isso não muda o fato de que você sempre escolhe o duvidoso ao invés do certo. Aqui você estava segura, protegida e.. sei lá... Feliz.. esse novo emprego parece o certo a fazer agora mas depois, você vai ver que não é. -Não é do restaurante que ele está falando, e sim do meu namoro com o Finn, isso fica evidente pela linguagem corporal dele, desesperada e descompassada.

Um sentimento que só posso identificar como raiva sobe em minha cabeça e eu sinto todos os efeitos na minha respiração pesada. Ele sempre faz isso, usa a única coisa que eu tenho para me punir, sei lá o porque, me faz pensar que ele não gosta de mim de verdade, que me odeia, ou pior, que é obcecado por mim.

-Você não sabe de nada sobre mim. Acha que porque estudamos juntos e saímos algumas vezes foi o suficiente para me conhecer, para saber o que é ou não bom pra mim? Não queira me fazer me sentir mal por sair daqui, quando na verdade está desse jeito porque eu não escolhi ficar com você. -Eu digo num tom baixo, quase calmo, demorei muito para perceber isso mas por mais surreal que seja, não estou explodindo. -Mesmo que não fosse o Finn, eu nunca ficaria com você. Não é culpa minha se você é obcecado por mim.

Jacob fica sem expressão por um tempo, o rosto branco petrificado de surpresa pela minhas palavras duras, eu não me arrependo, na verdade, já devia ter dito isso antes. Dando um passo curto para trás ele mexe a cabeça de um lado para outro em negação.

-Era exatamente o que eu queria ouvir.

E sem dizer mais nada ele me dá as costas, voltando para o restaurante com passos longos e pesados sem olhar para trás. A raiva e o caos interno se dissipam, dando espaço para um enorme torpor, não tenho arrependimento, nem pena, nem nada. Só o vazio me preenche. Fico parada na frente do carro, esperando a sensação passar e voltar a sentir alguma coisa, meu celular toca na bolsa e eu atendo mecanicamente quando o nome de Finn brilha na tela.

-oi. -Minha voz é um surrurro quase inaudível. Minha garganta ficou seca.

-Oi. Está tudo bem? -Ele pergunta do outro lado, parecendo estranhar minha falta de animação.

-Sim, estou bem. -Balanço a cabeça para voltar a realidade e entro no carro. -Ja pedi demissão, estou indo para casa.

-Que bom.. você pode vir pra ca? Pra minha casa. -Ele pede com a voz suave que viaja pelos recôncavos da minha mente. -Fiz uma coisa, pra você.

Fico alguns segundos em silêncio, tentando não pensar muito.

-Sim, claro. Estou indo.

-Ok. Vou esperar, até mais, linda.

-Tchau.

Desligo o telefone e jogo no banco do passageiro, finalmente meu corpo volta ao normal e eu fico com dificuldade para respirar, ainda não me arrependo do que fiz mas não gosto de como as coisas acabaram, com todos os defeitos Jacob foi um bom amigo. Encosto a cabeça no volante do carro e tento voltar a respirar normal. Ligo o som do meu carro e Yesterday dos Beatles me acompanha em todo o caminho até o apartamento de Finn.

Quando entro no estacionamento me sinto levemente melhor, a tensão se defez e não sinto nada além de uma leve dor de cabeça. Subo pelo elevador e fico indecisa se devo ou não bater na porta quando chego no apartamento, prefiro bater. Demora apenas alguns segundos até que ela se abra e eu o vejo, ele está usando o mesmo smoking que usou no dia do show, a manga do blazer levemente esganiçada na lateral onde eu o puxara durante a briga com Joseph, as lembranças vêm na minha mente em cenas vívidas e eu tenho um leve arrepio estranho. 

Apesar disso ele continua lindo, os cabelos grandes foram penteados para trás e desconfio que ele usou até um pouco de gel para manter os cachos alinhados, apesar de ser uma visão perfeita minha vontade é de bagunçar e vê-lo com os cachinhos soltos que eu adoro.

-Nossa. -Digo quando paro de analisá-lo completamente, parando no par de sapatos sociais brilhantes. -Posso saber pra que tudo isso? -Pergunto quando volto a olhar para o rosto dele.

-Isso? -Ele sorri e olha a si mesmo com indiferença. -Foi a primeira roupa que encontrei.

Mordo o lábio para conter um risadinha, ele é perfeito.

-O que está inventando agora?

Ele pega minhas mãos e me puxa para dentro do apartamento depois de fechar a porta com o pé e me prender contra ela. Minha respiração muda de novo, mas dessa vez por uma outra razão.

Ele analisa meu rosto e usa o polegar para resvalar meu lábio inferior como se estivesse ansioso para sentir a textura, meu corpo fica tenso, e eu solto a respiração pelos lábios ao sentir seu toque. Ele sorri.

-Linda.

E me beija, um beijo calmo e doce, me envolvendo calmamente com a língua molhada e quente apesar do gosto refrescante, suas mãos se prendem em minha cintura mas não com força, com gentileza e cuidado, minhas mãos vão para o seu peito e eu me deleito com a sensação incrível de nossas bocas unidas. Depois do que parece uma eternidade ele me solta e eu volto a respirar.

-Uau. -Ele diz sem voz com os olhos ainda fechados. -Isso foi bom.

-Foi sim. -Eu esfrego meu nariz com o dele sorrindo. -Agora você pode me dizer o que isso significa?

Ele me olha de cima a baixo, depois me dá um sorriso quase tímido.

-Eu quis fazer uma coisa diferente. Você disse mais cedo que queria se distrair então...

-Ai você pensou em me distrair vestido desse jeito? -Pergunto ainda sorrindo.

Vejo que ele fica levemente desconfortável pelo meu comentário, mas acrescento.

-Eu gostei.

-Não é só a roupa, fiz um jantar pra gente. -Ele pega minha mão e me começa a andar em direção a cozinha.

Fico realmente surpresa.

-Abrir embalagens de comida comprada não é exatamente fazer um jantar. -Comento enquanto ele me leva, só depois percebo o quanto estou sendo desagradável.

-Eu sei, mas você bem que poderia me dar um crédito. -Ele diz, a voz não parece chateada embora eu saiba que está, eu não queria ser chata mas simplesmente não conseguia falar nada decente.

Quando chegamos na cozinha ele solta minha mão e eu vejo a mesa cheia de comida e taças grandes, cheira muito bem mas não me apetece nada, eu me sinto cansada e enjoada, mesmo assim me forço a sorrir.

-Acho que não estou vestida apropriadamente. -Olho para meu uniforme e vejo os olhos de Finn descerem junto com os meus.

-Pra mim você está perfeita, mesmo que estivesse envolta em um saco de lixo continuaria perfeita. -Ele sorri com o canto dos lábios enquanto me encara.

Eu engulo em seco, tento entrar no clima romântico que ele claramente se esforçou para criar mas tudo o que consigo fazer é dar um sorriso amarelo.

-Obrigada.

Me sento na cadeira, colocando o guardanapo nas pernas, desvio os olhos dele e volto a encarar a comida na minha frente, estou sem fome nenhuma.

Finn vem na minha direção e serve meu prato, fico olhando para suas mãos enquanto ele coloca salada e algumas tortilhas recheadas de algo que não consigo identificar, depois vai até a geladeira e enche minha taça de um liquido escuro que só posso supor que seja vinho. Eu já bebi antes, não consigo lembrar do gosto porque já faz muito tempo, mas não é algo que eu pretendia relembrar, e também tem o fato de que vinho continua sendo uma bebida alcoólica e eu não posso conter uma leve preocupação.

-Sei que você não bebe, mas pensei que poderia experimentar hoje, se não gostar tem suco na geladeira. -Ele diz suavemente, colocando a taça na minha frente.

Só quando ele enche a própria taça com o suco eu relaxo, ele não vai beber.

-Parece bom. O que é isso? -Pergunto mexendo na comida sem vontade.

-São tortilhas de batatas, o recheio é de provolone. -Ele explica depois de fazer o seu prato de macarronada. -Não tem nada de carne, não se preocupe.

-Obrigada. -Parece que é a única coisa que eu consigo dizer.

Ficamos em silêncio durante alguns minutos, coloco pequenos pedacinhos da comida na boca mas mastigo com dificuldade, como se estivesse comendo borracha velha.

-Como foi a conversa com seu chefe? -Ele me pergunta quebrando o silêncio.

-Foi boa, ele entendeu e me deu apoio... -Respondo aproveitando para deixar a comida um pouco de lado, de repente a briga com Jacob me vem a cabeça e eu esqueço de continuar a falar.

-Millie? O que foi? -Quado a voz de Finn sai quase num grito eu pestanejo e volto para a realidade. -Você está com raiva de mim não é? Pelo que aconteceu mais cedo com o Joseph? -Ele pergunta e eu balanço a cabeça.

-Não. Não é isso... -Mais uma vez dou uma resposta vaga, não sei o que está acontecendo comigo, só não quero falar nada, nem fazer nada. Minha cabeça está a mil, mas simplesmente não consigo formar nada nela.

-O que é então? -A voz dele fica um pouco mais grave, passando de preocupado a quase irritado.

-Não sei

Finn olha ao redor, por um momento tentando entender o que está acontecendo, só olha para mim novamente quando consegue chegar a uma conclusão.

-É isso não é. Tudo isso. -Ele gira a mão indicando todo o espaço ao nosso redor. -Eu exagerei e você odiou.

-Não! Não é nada disso! -Praticamente grito, mas fico cansada disso também e coloco a cabeça nas mãos. Não sei o que está acontecendo comigo mesma.

Ouço o barulho da cadeira se arrastar no chão e de repente ele está  ao meu lado, sustentado pelos joelhos, enquanto as mãos buscam as minhas.

-Fala pra mim o que houve. -Ele acaricia meus cabelos com gentileza.

Olho para ele, o rosto tão bonito que dói, seus olhos estão envoltos pela culpa que sei que está sentindo. Concentro-me e busco palavras para finalmente conseguir associar tudo na minha cabeça.

-Não estou com raiva de você. Só que.. hoje foi o dia estranho, nós brigamos e eu empurrei você... E agora... O Jacob... -Não consigo dizer mais nada, de repente minha respiração muda e eu perco o ar, meus olhos lacrimejam e eu paro de enxergar por um segundo antes das lágrimas se derramarem

-O Jacob? O que ele fez? -Apesar da voz calma sei que ele está fervendo de raiva por dentro e eu odeio isso.

Acho que é por isso que estou nesse estado, faz tempo que venho guardando algumas coisas, deixando pra lá, fingindo que não aconteceu nada, seguindo em frente, mas a verdade é que tudo só se acumulou dentro de mim e agora elas me transbordaram. 

A briga com o Joseph no dia que nos conhecemos.

A forma com que ele me fez prometer não ir atrás do estágio

A bebida

As mentiras

A falta de vontade em que eu conhecesse a família dele

As ameaças de Iris

As mensagens anônimas

As palavras duras

As brigas com Jacob

O ciúme incontrolável

Eu o empurrando contra o carro

 Aporcaria do anel

 A posse.

Tudo isso passa pela minha cabeça muito rápido e eu tenho um súbito acesso de choro, de exaustão, o ar me falta e a única coisa que eu consigo assimilar ao meu redor são as mãos que me tiram da cadeira e me abraçam, tenho a sensação de que estou sendo levada para algum lugar mas não posso dizer com certeza porque perdi a noção do que acontece ao meu redor.

Só depois que eu sou deitada na cama ainda me debatendo e que ele se coloca sobre mim forçando o peso contra o meu corpo eu consigo pouco a pouco voltar ao normal e parar de tremer, meus olhos focam e eu vejo o rosto dele próximo ao meu, os olhos grandes me olhando com medo, a boca dele se mexe e depois de alguns segundos finalmente consigo ouvir a sua voz.

-O que você tem? Pelo amor de deus me diz o que é. -Ele implora enquanto prende meus braços no lugar, é um aperto gentil, só o suficiente para controlar os espamos que tenho com os soluços.

Fico olhando para ele sem dizer nada, as lágrimas escorrem molhando meus ouvidos mas me sinto estranhamente melhor, enquanto a respiração se estabilza pouco a pouco, a constatação vem depois, não estou com raiva, estou apenas sobrecarregada e de certa forma chorar me livrou de um peso enorme.

-Desculpa. -Minha voz fica anasalada por conta do nariz entupido. -Você fez tudo isso pra mim e eu pareço uma idiota chorona.

Ele me olha franzindo o cenho sem entender, mas depois acaba sorrindo.

-Eu não entendo você. Juro que não entendo. -Ele limpa os requicios de lágrimas que ficam nas laterais do meu rosto. -Você quer me contar o que aconteceu?

-Não aconteceu nada, so... Pensei demais. Estou bem. -Digo com segurança, mexo um pouco as mãos e ele me solta no mesmo segundo.

-O que você falou do Jacob? Ele disse algo que você não gostou?- Finn pergunta quando me libera de seu peso, ficando de joelhos na cama, por trás de suas pernas vejo os sapatos manchando a colcha de cama de preto.

-Ele ficou esquisito quando eu disse que ia sair do restaurante, só isso. -Dou de ombros me sentando na cama também, não vou contar os detalhes da minha conversa com Jacob por que só quero tirar isso da minha cabeça. -Vem vamos voltar pra cozinha. -Me levanto da cama e e pego a mão dele.

-Tem certeza que você está bem? Você parecia muito triste. -Ele me puxa, me encaixando em seus braços, está sério e preocupado, claro que minha mudança repentina de humor o deixou confuso.

-Sim, tenho certeza. Não foi nada, só precisava colocar aquilo pra fora. Já passou. -Eu sorrio para mostrá-lo que estou sendo sincera, claro que não vou contar tudo o que veio na minha mente mas realmente me sinto melhor agora.

Ele me olha com desconfiança mas me acompanha até a cozinha sem reclamar. De volta ao meu lugar, olho para meu prato mal tocado e ponho mais comida na boca, agora que a tensão do meu corpo desapareceu consigo desfrutar do gosto forte do queijo apesar de permanecer sem fome, a comida enfim parece ter gosto e consigo comer algumas colheradas cheias.

-Você foi no Jack? -Eu pergunto depois de engolir, Finn ficou em silêncio, comendo lentamente, me olhando vez ou outra para ver minha expressão. Sei que o deixei preocupado atoa então me esforço para deixá-lo mais a vontade.

-Sim, nós passamos a tarde ensaiando algumas coisas, parece que o Show em Pearl vai ser grande, vamos abrir pra uma banda local conhecida. -Ele diz e eu vejo um lampejo passar por seus olhos, mostrando sua satisfação em falar sobre música.

-Nossa, parece incrível. -Sorrio e experimento um pouco do vinho. Não é horrível, mas também não é bom, o amargo desaparece quando engulo o líquido e esquenta meu estômago me deixando um pouco leve,  mas eu ainda preferia um suco, mesmo assim tomo com satisfação. -Os outros garotos também vão? O Malcom e a Ayla?

-Umhum. -Ele diz de boca cheia.

Algo surge na minha mente e eu pergunto sem pensar muito se é uma boa idéia.

-Agora que você saiu de vez da faculdade.. pretende falar pro seu pai da música?

Finn olha para mim e de repente começa a mastigar mais devagar, o peguei desprevenido com a pergunta.

-Talvez. Por falar nisso o Nick pediu pra gente ir amanhã pro jantar, a festa vai ser só no domingo mas ele falou que quer reunir a família no sábado. -Ele diz com leve desdém, depois engole muito suco, como se a comida não descesse sem ajuda.

Levanto uma sobrancelha, eu não esperava que ele ficasse tão calmo e nem que toparia ir logo amanhã para Hillsboro.

-Certo. Por mim tudo bem, só tenho que pensar no que vestir. -Digo quando me lembro que não tenho nada adequado para uma formatura e nem sei se uma das minhas roupas são boas o bastante para esse jantar, faz muito tempo que não faço compras.

-Podemos sair pra comprar amanhã de manhã, também não tenho nada e esse smoking já está velho. -Ele responde automaticamente, sem me olhar ainda focado na comida.

Penso em recusar mas percebo que não tenho outra opção imediata.

-Ok. Recebi um cheque do Antony, ele me pagou os dias que trabalhei, acho que deve dá. -Eu digo pensando no pequeno valor, é bom que ele não me leve em um lugar muito caro. 

Tomo mais alguns goles do vinho, acho que o álcool queimou um pouco das minhas papilas gustativas pois agora tudo o que sinto é o gosto leve e doce descendo pela minha garganta.

-Não precisa se preocupar com dinheiro, eu posso comprar pra você. Vai demorar até que você receba o salário do escritório. -Ele oferece de modo casual, tranquilo, moderando as palavras pois sabe muito bem que não aprovo esse tipo de coisa.

Mas depois do meu surto por causa do anel, decido relevar.

-Tudo bem, acho que tenho dinheiro  o suficiente, mas obrigada.

Ele me olha e dá de ombros, eu agradeço por não começar uma discussão, ja chega por hoje.

Depois que terminamos de comer, ele me leva para o quarto, o vinho me deixou um pouco mole então vejo tudo um pouco mais devagar e me sinto bem, a sensação na minha pele é engraçada quando ele me vira e começa a tirar minhas roupas, peça por peça, se embaralhando para tirar a meia calça das minhas pernas, depois que estou nua olho para meu uniforme dobrado e sinto uma sensação de alívio, como se finalmente tudo tivesse acabado e minha vida voltado para os eixos.

Vejo Finn tirar o smoking com a mesma delicadeza com que tirou minhas roupas, os cabelos que antes estavam alinhados, agora estão mais soltos tanto pelo esforço de tirar as roupas quanto pelo seu desespero ao me ver chorar. Ele me pega no colo quando já está despido na minha posição preferida onde posso repousar minha cabeça em seu ombro e então me leva para debaixo do chuveiro, ficamos agarrados sob a água que bate nas minhas costas, é uma sensação boa quase terapêutica me relaxando, me fazendo esquecer..

-Você vai me contar porque estava chorando? -Finn me rouba do meu momento com a pergunta. Ele me segura com um único braço enquanto a outra mão penteia meus cabelos molhados.

-Não é nada. Já passou. -Sussurro baixo, ainda sem tirar minha cabeça do seu ombro, minhas mãos ficam em volta do pescoço delgado e perfeito e eu aplico ligeira pressão vendo-o ceder ao meu toque.

-Você promete? Promete que não tenho com que me preocupar? Não posso nunca mais te ver daquele jeito Millie, não vou aguentar... -A voz cheia de horror dele me faz perder a traquilidade e meu corpo se enrijece.

-Eu prometo. Nada mudou pra mim, eu ainda gosto de você. -Uso o tom mais suave que consigo, esperando tranquiliza-lo mas tudo o que vejo é o oposto disso, não sei o que fiz de errado.

-Gosta de mim. -Ele repete -Você gosta de mim.. -Sua voz vira um sussurro rouco, na última palavra.

Ele me olha inexpressivo embora seus olhos estejam esmaecidos e sem vida, começo a me lembrar de quando falei que estava apaixonada por ele, e de como ele reagiu, dizendo que paixão era algo passageiro e como poderia mudar, e então percebi depois de tantos sinais o que ele realmente queria, era me ouvir dizer que o amava. A constatação me bateu com um peso no peito, ele queria ouvir aquilo, queria que eu dissesse, mas só de pensar naquilo meu coração começou a acelerar convulsivamente, como se estivesse se recusando a compreender. Me senti um pouco tonta, não sei se foi o vinho ou essa torrente de pensamentos que me deixou embriagada mas de repente senti vontade de sair dali, estava quente e meu corpo entrou em estado de letargia profunda.

Amor? Amor não! Não posso amar alguém tão rápido assim. Ele também não disse que me ama então porque eu tenho que dizer? 

Balancei a cabeça para dissipar a névoa densa que eram as perguntas na minha cabeça.

-Você pode me levar pra cama? Por favor? -Eu pedi, voltando a colocar a cabeça no ombro dele, sem olhar em seu rosto. O caos mental precisava de uma trégua.

-Você está bem? -Ele pergunta novamente quando desliga o chuveiro e sai do box.

Faço que sim com a cabeça, sem encontrar minha voz. Agradeço quando ele não insiste e me envolve com uma toalha grossa, mas não sai do banheiro, ele me senta no gabinete e me dá uma escova de dentes nova, recém tirada da embalagem, estava com tanta pressa para ir pra cama que me esqueci disso. Agradeci, depois me inclinei de lado na pia e escovei os dentes, minutos depois ele voltou do closet vestido com a calça de pijama, e estendeu uma camisa para mim, dessa vez uma das novas, preta e lisa.

Enquanto tirei a toalha e vesti a blusa ele ficou me olhando, as engrenagens girando na mente parecendo estar tão confuso quanto eu agora.

-Qual era o segredo?-Pergunto depois do longo momento de silêncio. -Aquele que você me diz enquanto durmo?

Algo em mim me diz que é apenas algum tipo de brincadeira, mas sei lá, eu fiquei com vontade de perguntar. Ele para de ficar absorto nos pensamentos e olha para mim com mais clareza.

-Você ainda não está pronta pra ouvir. -Ele exala o ar com calma. Eu fico tensa. -Não é nada do que você está pensando, quando descobrir vai ver que é bobagem.

- Está escondendo algo de mim? - A pergunta me deixa um pouco fria, mas ele ri, e parte do medo se vai.

-É bobagem.. vem, vamos. -Ele me puxa de novo para seus braços, me tirando do balcão.

Não insisto, ainda não acredito que seja algo sério pois se fosse ele nunca teria comentado, e então voltamos para a cama, ele me deita e me conforta com os lençóis, depois vai para a mesa perto da janela, fico olhando quando ele liga o computador e espera alguns minutos para apagar as luzes do quarto, quando ele vem para a cama carregando a luz da tela ligada eu pergunto.

-Vamos ver alguma coisa?

-Sim, vamos.

E então ele se deita, pousando o computador na barriga sobre um travesseiro, e me puxa para o seu ombro para que eu veja a tela. Meus olhos se enchem de brilho de empolgação quando ouço a triste trilha sonora clássica do meu filme preferido, o morro alto e escuro, a casa destruída onde Edward se esconde do resto do mundo, a neve caindo..

Me aconchego em Finn como uma bola, tirando proveito também do meu lugar preferido e assistimos tudo em silêncio, a mão dele me acariciando, apertando a minha quando tremo nas partes tensas e tristes.

 Não me dou conta mas acho que acabo dormindo antes do final do filme, pois a última coisa de que me lembro é de Kim chorando quando manda Edward ir embora, e eu acabo sonhando com isso, um sonho bom e ameno, onde na minha fantasia Edward não tinha as mãos de tesoura -e como só acontece nos sonhos-, ele nunca poderia machucar Kim, e os dois finalmente... poderiam ficar juntos.


Notas Finais


Até breve ❤️


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