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História Remix de Gelo e Fogo (Repostada) - Capítulo 72


Escrita por: RaynaldWesterling

Capítulo 72 - Desabafo - Sansa, Jon, Rhaenys e Dacey


Anteriormente:

Euron Greyjoy foi acusado de assassinar Rickard Stark e Steffon Bratheon. Raynald e Rhaenys têm um passado juntos e saíram magoados dessa situação, e Jeyne Westerling fica sabendo. Podrick e Jeyne Poole se encontram na festa, e ela decide que ele deve beber. Robb pede para conversar com Sansa assim que chegam na festa de Aegon. Jon é chamado por Rhaenys para que ele ligue para Ygritte para falar que está em um novo relacionamento, com Daenerys.

 

Sansa

 

Sábado, 1º de outubro de 2016, 20:42

Pedra do Dragão, Westeros

 

Sansa e Robb esperaram Jon e Gendry se afastarem, enquanto um olhava para o rosto do outro. Ambos já sabiam exatamente qual seria o teor daquela conversa.

A ruiva apertou o pequeno presente contra seu corpo.

– Olha, Sansa... – Robb tentou iniciar a conversa, mas sua irmã logo o interrompeu.

– Nem tenta, Robb. Eu sei exatamente o que você vai dizer, e isso não vai me impedir. – Ela falou com convicção na voz.

O rapaz bufou de frustração. Respirou fundo, e então fixou seus olhos no rosto da irmã.

– Sansa, você realmente vai insistir nessa história do Aegon? – Ele perguntou.

– Sim.

– Olha... Só toma cuidado, ok? Esse Aegon por quem você se apaixonou, ele só existe na sua cabeça. Só não quero que você se iluda, ou se decepcione.

– Não sou mais criança, Robb. – Sansa alegou.

– Eu sei que não. – Ele se aproximou da irmã e tocou no braço dela. – Mas isso não significa que me preocupe menos com você agora que cresceu.

– Eu sei que se preocupa, mas... – Ela tentou falar, mas seu irmão rapidamente a interrompeu.

– Olha, eu só não quero que você se magoe.

– Robb... Chega. – Ela pediu. – Sempre é você, o Jon, ou nossos pais ou nossos tios. Todo mundo sempre tenta me proteger como se eu não conseguisse... – Ela pensou em como completar aquela frase. – Vocês precisam me deixar viver. Eu quero sair dessa gaiola.

Robb não respondeu, apenas ficou olhando para Sansa com uma expressão indecifrável no rosto. Os dois ficaram se encarando em silêncio por alguns segundos, até que o rapaz olhasse para o lado, suspirasse fundo, e então voltasse a cruzar olhares com a irmã.

– Entendi. – Ele disse, por fim.

– Hã? – A menina estranhou o que ele acabou de dizer. – Como assim?

– Boa sorte em tentar conquistar o Aegon. – Explicou.

Sansa abriu a boca, mas não conseguiu reproduzir nenhum som durante alguns segundos.

– Você... – Ela ainda estava incrédula. – Você está me apoiando nisso?

– Não. Apoiando não. Eu ainda acho que vai dar incrivelmente errado. Mas se é isso que você quer, e se está tão... – Ele pareceu pensar em qual palavra dizer a seguir. – Determinada a seguir com isso, não vou te impedir e nem te atrapalhar.

– Sério?

– É. – Robb disse de maneira curta. – Qualquer coisa que acontecer pode ligar pra mim.

O rapaz deu as costas para Sansa, mas antes que ele pudesse dar mais de um passo, ela se aproximou dele.

– Pera, é isso? – Sansa perguntou.

– É... – Robb virou o rosto pra ela. – Não sei mais o que dizer além disso.

– Mas você é amigo do Aegon agora... – Sansa lançou um olhar de súplica para ele. – Talvez possa me ajudar, ou me dar algum conselho.

– Eu já dei. – Robb respondeu. – Mas você não quer ouvir.

E então o rapaz começou a andar em meio às pessoas.

Robb não parecia gostar daquele assunto. Aparentemente a ideia da irmã dele tendo alguma coisa com Aegon Targaryen não era muito agradável aos ouvidos do rapaz. Mas Sansa não conseguia entender o porquê.

Ela sempre sonhou que Aegon se apaixonasse por ela, que os dois começariam a namorar e então ele e seu irmão magicamente colocariam as diferenças de lado.

Mas não foi isso que aconteceu. Quer dizer, basicamente foi aquilo, mas com atores diferentes.

Robb e Aegon não começaram a se entender por causa do relacionamento que Sansa teria. Os dois começaram a se entender por causa do relacionamento entre Daenerys e Jon.

E aquilo irritava Sansa profundamente.

Não porque ela queria ser o motivo para o início da amizade entre Robb e Aegon. Nada disso. Irritava-a porque Robb estava disposto a tentar ser amigo de Aegon por causa de Jon, mas não estava disposto de fazer o mesmo pela própria irmã.

Quando Robb soube que Jon estava apaixonado por Daenerys, ele o incentivou e o ajudou. Quando ele soube que Sansa estava apaixonada por Aegon, ele brigou com o Targaryen no dia seguinte na escola. E era aquilo que estava preso em sua garganta há um tempo. Por Jon, Robb estava disposto a fazer o que fosse pela paixão dele. Por Sansa, ele não conseguia colocar os sentimentos da irmã acima dos dele.

Ela tentou pensar em muitos motivos para a diferença de tratamento de Robb, mas em quase todos que ela pensava, ela conseguia resumir em uma frase: Robb não confiava que Sansa estava pronta para tomar suas próprias decisões.

E aquilo a frustrava profundamente.

Decidiu começar a se mover por entre as pessoas da ilha. Precisava encontrar Aegon logo. Quanto antes conseguisse falar com ele, melhor.

 

Jon

 

Sábado, 1º de outubro de 2016, 20:50

Pedra do Dragão, Westeros

 

– Eu vou ligar. – Jon decidiu.

Rhaenys sorriu, claramente aprovando a decisão do Stark.

– Mas só vou ligar daqui a 10 minutos. – Ele ressaltou. – Enquanto isso, você pode explicar porque fez isso tudo só pra que eu ligasse pra minha ex.

A Targaryen se aproximou do muro baixo novamente, mas dessa vez apenas encostou seu quadril nele.

– A Daenerys está disposta a brigar com o meu pai e basicamente com toda a nossa família pra conseguir ficar com você. Eu queria ver se você também está disposto a fazer isso. – Ela explicou.

– Eu estou disposto.

– Eu queria me certificar disso. – Ela se justificou. – Não é só porque você diz que está disposto que realmente está. Se você resolvesse não ficar com Daenerys com medo do que a sua ex-namorada fosse pensar disso, realmente iria levar ela para sua casa? Eu sei que talvez fui um pouco... Como posso dizer? Intensa demais nisso, mas eu me preocupo com a Daenerys.

O rapaz ficou apenas olhando para Rhaenys, sem responder nada. As duas situações eram totalmente distintas. Ele não queria magoar Ygritte, mas aquilo não tinha nada a ver com a sua família. Ele não iria magoar seu pai, eram sentimentos diferentes, os motivos para ele não querer que Ygritte saiba são totalmente diferentes dele ter escondido seu relacionamento da família todo esse tempo.

Mas será mesmo? Será que se ele não tivesse coragem para ligar para a ex-namorada, ele também não teria coragem para assumir seu relacionamento pra sua família?

Não, ele teria. Teria sim. Sabia que teria.

– Eu não vou fugir disso. Vou assumir meu relacionamento com a Dany, e minha família vai ter que aceitar isso. – Ele disse da maneira mais confiante que conseguia falar.

Rhaenys deu um fraco sorriso. Ela estava pálida demais.

– Espero que esteja pronto pra pular de cabeça nisso. Sem hesitação. Sem dúvidas. A Dany precisa de certezas e precisa confiar em você nisso.

Ele fitou Rhaenys por alguns segundos e respondeu:

– Não vou hesitar, não se preocupe. – Decidiu. – Sabe, você podia ter conversado comigo sobre isso, não precisava ter feito esse circo todo.

– Precisava. Homem é um bicho burro, e muito sonso.

– Não é tanto assim.

– Acredite, é sim. – Ela falou. – Seu primo levou quanto tempo pra perceber que a Jeyne Westerling gostava dele?

Jon gargalhou.

– É, você tem um ponto. – Ele riu mais um pouco, mas parou ao notar algo. – Pera, como você sabe do Robb e da Jeyne?

– Jeyne é minha amiga.

– Amiga? – Por aquilo ele não esperava. – Como você consegue ser amiga dela sendo que você e o irmão dela... Bem, eu não sei muito bem o que você e o Ray...

– Por favor, pare. – Ela pediu, interrompendo-o antes que ele pudesse falar o nome do irmão de Jeyne.

Jon não esperava por aquilo também. A moça abaixou o olhar, parou de fazer contato visual com ele, e cruzou os braços. Lembrou-se que Raynald não falava sobre Rhaenys. Aquele era um assunto proibido para o rapaz, e Jon nunca entendeu muito bem o porquê. Achava que a menina devia fazer bullying pesado com Raynald, afinal, quando Jon entrou na escola, Rhaenys era capitã das líderes de torcida e Raynald era... Bem, o Raynald. O rapaz que ficava na biblioteca sozinho.

Se eles vivessem em um filme adolescente, Raynald não gostaria de Rhaenys por motivos óbvios.

Mas Jon nunca imaginou ver Rhaenys agir da mesma maneira que o rapaz. Raynald também era um assunto proibido para ela. Ou seja, o que quer que tivesse acontecido entre os dois no passado magoou tanto Rhaenys quanto magoou Raynald.

Não era bullying. Não era porque ele era o nerd e ela era a popular.

E Jon só conseguia pensar em um motivo para dois jovens que tiveram um passado juntos terem ficado tão magoados um com o outro.

– Vocês dois eram apaixonados um pelo outro. – Jon afirmou.

A loira perdeu a cor momentaneamente, ficando mais pálida do que o normal – e o normal dos Targaryen já era anormal –, sua respiração acelerou e sua voz falhou.

Qualquer pessoa normal pensaria que eles namoraram e o término foi ruim. Mas não Jon. Ele, de todas as pessoas, conseguia entender que um sentimento reprimido poderia provocar mágoas tão terríveis quanto um término ruim.

Sabia que Raynald gostava de Wyna Manderly porque Jeyne uma vez soltou aquilo sem querer, mas nada impedia do rapaz ter tido algum passado com Rhaenys antes daquilo.

– Não viaja. – Rhaenys respondeu depois que sua voz voltou.

– Por que? Você é boa demais pra se apaixonar por ele? – Ele perguntou de maneira sarcástica.

– Nada a ver. – Foi a única coisa que ela conseguiu responder.

– Então eu não vejo porque isso seria tão impossível.

Rhaenys deu uma risadinha irônica e falou:

– Já passou pela sua cabeça que talvez eu que não fui boa demais pra ele se apaixonar por mim? 

Não, aquilo nunca – em hipótese alguma – tinha passado pela sua cabeça.

– Pera, o quê? – Ele estava incrédulo.

– Deixa. – Rhaenys deixou os braços caírem. – Só não decepciona a Daenerys. O relacionamento de vocês tem futuro se vocês dois estiverem dispostos a isso.

– Pera, Rhaenys. – Jon pediu.

Mas ela apenas o ignorou. Virou-se para um lado e começou a caminhar, com passos rápidos.

Como se estivesse fugindo.

– Rhaenys! – Jon a chamou, dessa vez mais alto.

Mas mais uma vez, foi ignorado pela Targaryen.

Não a seguiu. Ele não tinha intimidade nenhuma com Rhaenys para conversar com ela sobre aquele assunto. Sentia que ela só tinha puxado ele para aquele teor da conversa por causa de Daenerys e nada mais. Ele nada tinha a ver com a história de Rhaenys e Raynald.

Mas ele definitivamente não esperava por aquilo.

E o pior é que Rhaenys parecia esquisita naquela noite. Parecia com a Daenerys na festa de Margaery. Como se estivesse ali porque ela precisava estar, e não porque ela queria.

Jon suspirou.

Ele tinha seu próprio assunto para resolver no momento. Depois iria procurar Daenerys e comentaria com ela do que aconteceu. Dany era a pessoa mais indicada de seu círculo de amigos para ter aquela conversa com Rhaenys.

 

Sansa

 

Sábado, 1º de outubro de 2016, 20:50

Pedra do Dragão, Westeros

 

Transitou por entre os convidados da festa, evitando de esbarrar nas pessoas. Passou por um grupo de amigos que conversava animadamente, um trisal que estava tentando fazer um esquisito beijo em trio, e uma dupla de amigas que cantavam tão mal, mas tão mal, que ela nem conseguia reconhecer qual música cantavam.

Evitou a rua asfaltada, que estava com mais pessoas, e preferiu andar pela grama da ilha, que estava relativamente mais vazia. Andou por mais alguns grupo até que finalmente alguém pôs a mão no ombro dela.

– SANSA! – Ela ouviu Jeyne Poole gritar.

A Stark virou-se e finalmente se encontrou com a sua melhor amiga.

– Jeyne! – A ruiva disse, olhando para a melhor amiga.

Ela estava bem maquiada e muito bonita, com um drink na mão direita.

– Minha nossa, eu tava te chamando há um tempão. – Jeyne falou alto para que Sansa pudesse ouvir. – Vim te seguindo porque você não me escutou.

– Não tava conseguindo escutar nada. – Sansa explicou.

– Não é fácil andar por essa ilha com esse salto. – Jeyne apontou para seus pés.

Sansa acompanhou com o olhar, mas logo falou:

– Por que veio de salto? Eu disse que era uma ideia ruim andar nessa ilha com salto.

– Eu sei que você falou, mas eu sou cabeça-dura. – Jeyne admitiu. – Eu queria ficar bonita hoje, porque eu vou falar com o Jon que estou afim dele.

– O quê? – Sansa reagiu mais rápido do que conseguiu pensar.

– É! Me inspirei na sua ideia de ir atrás do Aegon e vou finalmente atrás do Jon. Já deu tempo pra ele se recuperar do término, não acha?

Jeyne sorriu, mas Sansa estava longe de sorrir. Sabia que o primo assumiria para todos os amigos o seu relacionamento com Daenerys, e aquilo incluía Jeyne Poole.

Sansa não sabia o que fazer.

Como Jonerys seria revelado naquela noite, talvez não teria problema de falar com Jeyne sobre aquilo. Assim, a menina não teria que passar por aquele constrangimento de sofrer uma rejeição de Jon, ou então de ter a amarga surpresa de ver Jon com Daenerys.

Mas e se algo acontecesse e Jon e Daenerys decidissem não se assumir naquela noite? Ela estaria contando algo que não deveria para Jeyne, e é difícil de saber o que uma menina de coração partido pode fazer.

Ela ficou naquele dilema, de honrar a promessa que fez a Jon, e ser leal a Jeyne. Resolveu ir pelo caminho mais seguro.

– Olha, Jeyne, eu não vou conversar com o Aegon agora. – Sansa esclareceu. – Eu só vou pedir pra ele pra nos encontrarmos durante a semana para conversarmos. Ele vai estar focado demais na festa pra termos alguma conversa produtiva, não acho que seria uma boa ideia.

– É, eu sei. – Jeyne respondeu. Elas já tinham conversado sobre aquilo antes da festa.

– Por isso eu não acho que seja uma boa ideia você falar com o Jon agora. Espera por um outro dia.

– Não, Sansa. Já esperei demais. E outra, Aegon vai estar ocupado porque a festa é dele, mas Jon não tem responsabilidade aqui.

– Aegon meio que espera que Robb e Jon ajudem ele.

– Tudo bem, Sansa. Mas não importa. – Jeyne parecia decidida. – Eu vou falar com ele hoje.

Sansa olhou com pena para a amiga. Não queria que ela fosse rejeitada.

– Onde estão as pessoas? As meninas da equipe... Talla, Merry, Podrick?

– Nem vamos falar desse último. – Jeyne fez uma expressão de raiva na hora.

– O que aconteceu? – Sansa arqueou uma sobrancelha – Vocês já se encontraram hoje?

– Já.

– Brigaram?

– Antes fosse. – Jeyne deu um gole de sua bebida. – Eu pedi um monte de coisa pro bartender, pra ver se ele gostava de alguma bebida, ele recusou tudo, e então falou que ia no banheiro e já voltava.

– E então... – Pediu para a morena continuar.

– E eu tô esperando. – Jeyne disse. – Até agora. Ele sumiu, me deixou sozinha, me abandonou. Mandei mensagem perguntando o que aconteceu, ele não respondeu, fui até onde estão os banheiros e nada dele.

– Caramba... – Soltou.

Aquilo era algo que ela nunca imaginaria que Podrick faria. Ele era educado e gentil, não é do tipo que mentiria pra deixar alguém sozinho.

– Jeyne, você não acha isso estranho? – Sansa perguntou.

– O Podrick sumir?

– É. Eu não consigo imaginar ele fazendo isso.

– Eu não fiz nada demais, juro.

Sansa soltou o ar pelo nariz e rolou os olhos.

– Não tô dizendo que você fez algo. Estou dizendo que algo pode ter acontecido com ele.

Jeyne largou a expressão de raiva e passou a expressar preocupação.

– Ah, meu Deus. – Ela falou. – Você acha que ele tá passando mal? Ou que alguém fez algo com ele?

– Não sei, mas ele não é do tipo de pessoa que iria te deixar sozinha.

– Você tem razão. – Jeyne passou a mão na cabeça, parecendo estar meio nervosa com a ideia de que algo poderia ter acontecido com Podrick. – Nossa, é claro que ele não me deixaria sozinha. Ele é tão legal comigo, me trata como se... – Jeyne deixou a frase no ar. Olhou preocupada para Sansa. – Ramsay não veio, né?

– Não, claro que não. – Ela rapidamente espantou a ideia da cabeça da amiga. – Acha mesmo que Aegon convidaria?

– Talvez não ele. Mas ele não é o único que pegava no pé do Podrick.

– Podrick tá no time agora, Jeyne. Quase ninguém ainda implica com ele.

– Ele tá no time agora... Mas a turma da Asha Greyjoy tá toda aqui na festa. E se foi alguém que formou no ano passado?

Sansa não respondeu. Ela não estava pensando naquilo, estava pensando mais em... Talvez ele e Aegon terem se encontrado e começarem a conversar, ou ele e Visenya. Ou então ele se perdeu de Jeyne.

Mas a melhor amiga da ruiva já estava pensando em coisas que beiravam a sequestro.

Jeyne pegou o celular e olhou para a tela rapidamente.

– Ele ainda não respondeu minha mensagem... – Jeyne falou mais para si mesma do que para Sansa. – Ele sempre responde rápido as minhas mensagens.

– Você e ele trocam muita mensagem? – Sansa ficou curiosa.

– A gente conversa bastante. – Jeyne respondeu. – Por que? Vocês dois não trocam mensagens?

Bem... Não.

Sansa e Podrick se falavam bastante pessoalmente, mas não tanto por mensagem. Vez ou outra eles viam algo interessante na internet e mandam um pro outro e conversam sobre aquilo, mas assim que o assunto acabava, não puxavam novo assunto.

Saber que seus amigos eram tão próximos assim fez Sansa sentir algo terrível, algo que ela não podia evitar.

Ciúme.

Ciúme de Jeyne e ciúme de Podrick.

Ela sabia que aquele era um sentimento horrível. Os dois eram amigos dela, não havia competição naquilo, não é?

Era ótimo que os dois estavam se dando tão bem, não é?

Eles definitivamente não tinham uma amizade especial e não estavam deixando Sansa de fora de nada, não é?

– Trocamos, mas não tanto assim. – Sansa forçou um sorriso.

– Então... – Jeyne olhou em volta. – Você vai falar com o Aegon e eu vou sair pra procurar o Podrick.

– O quê? Não, eu também vou procurar o Podrick. – Sansa rebateu.

– Ué.

– Eu não vou falar com Aegon sendo que o Podrick pode estar precisando da nossa ajuda. – Sansa esclareceu. – Vamos nos dividir, assim vamos achar ele mais rápido.

– Ok, eu cubro o leste da ilha, e você o oeste. – Jeyne sugeriu. – Vamos trocando mensagem.

– Combinado.

Jeyne fez um aceno afirmativo com a cabeça, e então virou-se de costas e começou a andar para trás. Sansa imediatamente a puxou pelo braço.

– O que está fazendo? O leste é pro outro lado. – A ruiva disse.

– Hã? – Jeyne parecia não ter entendido.

– Oeste é na direção de Porto Real. Leste é o contrário.

– Ah, é. – Jeyne respondeu.

– Você realmente não sabia? – Sansa ficou decepcionada.

– Eu sabia, só me confundi. – Jeyne rapidamente falou. – Eu não sou burra, sou esperta.

– Às vezes eu tenho minhas dúvidas. – Sansa gargalhou.

– Vai se ferrar, Sansa. – Jeyne também riu.

 

Rhaenys

 

Sábado, 1º de outubro de 2016, 21:12

Pedra do Dragão, Westeros

 

Rhaenys estava em um canto isolado da ilha, evitando qualquer contato desnecessário com as pessoas. Estava sem saco naquele dia para ter que lidar com conversa fiada e dramas de jovens ricos. Já até podia imaginar Jayne Ladybright a puxando para um canto dizendo que queria pegar Lucion Lannister.

Sinceramente, Rhaenys só queria que ela desse logo praquele cara pra ela para de encher o saco. Mas, no fundo, ela sabia que não podia reclamar. Foi ela própria quem criou aquela imagem de que poderia resolver qualquer problema, seja do mais grave ao mais trivial.

E o que as pessoas mais tinham eram problemas triviais.

As pessoas que estavam naquela ilha naquela noite não tinham problemas como a maioria. Ninguém ali estava realmente preocupado com o futuro, salvo algumas exceções. Ninguém estava preocupado com a polícia. Ninguém estava preocupado com dinheiro da faculdade.

Aquelas eram preocupações de pessoas normais, e não de pessoas de classe alta como eles. A maioria ali estava preocupada com problemas triviais, e aquela noite para muitos era a noite em que eles tentariam resolver seus problemas triviais. Ou criar novos.

Por outro lado, Rhaenys aquela noite iria tentar resolver um problema de verdade e aquilo seria o suficiente para suavizar seu humor.

Mas... Apesar de ter um propósito aquela noite, ela não estava de bom humor. Pelo contrário.

Por isso estava se isolando naquele canto da ilha. Estava do lado contrário da ponte, da entrada, sentada na grama, olhando para as luzes de Pentos ao longe. Esperava que ninguém fosse até lá para falar com ela. Mas, é claro, nada aconteceu como ela esperava.

Nada naquela noite aconteceria como ela esperava.

Aquela seria, de longe, a noite mais surpreendente da vida de Rhaenys até então. 

Sentiu alguém se aproximando até parar próximo dela. Olhou por cima do ombro e viu que se tratava de Jeyne Westerling, em um vestido amarelo e bem maquiada. Ela estava bem bonita.

– Ei, Rhaenys. – A menina sorriu. – Posso me sentar aqui com você um pouco?

Rhaenys não sorriu e nem disse “oi”. Apenas falou:

– Não sei se seria uma boa ideia. Não estou de bom humor hoje, Jeyne. Não serei uma companhia agradável.

– Aegon me falou. – Jeyne ficou ao lado de Rhaenys e também se sentou na grama, com uma certa delicadeza.

– Aegon sempre fala demais.

– Ele me disse que você está estranha desde que pegou um cara no Festival de Outono.

Rhaenys olhou para a menina incrédula.

– Não acredito que o Aegon falou isso!

– Ele não falou. – Jeyne sorriu. – Só queria ver se você ia negar. E não negou.

Rhaenys arqueou a sobrancelha.

– Me enganou? – A loira perguntou. – Você tá andando muito com a Margaery, garota.

Jeyne gargalhou.

– Eu imaginei que você estaria assim por causa dele. – A morena falou.

– Dele?

– Ele também está estranho desde o Festival de Outono, Rhaenys.

Rhaenys apenas ficou encarando os olhos castanhos da garota, sem falar mais nenhuma palavra. Pela lógica, aquilo só podia dizer que Jeyne sabia que ela ficou com Raynald. Mas será que a Westerling sabia mais alguma coisa dos dois além daquilo?

– E o seu ponto é... – Rhaenys queria que ela continuasse.

– Ele me contou a história de vocês, depois de muita insistência.

Rhaenys encarou Jeyne por alguns segundos, mas logo deu uma risada sarcástica.

– Aposto que na versão dele eu fui a megera sem coração enquanto ele foi o coitado incompreendido. – A loira falou.

– Na verdade, na versão dele, ele foi um lerdo e estúpido.

– Uhm. – Rhaenys resmungou. – Acho que não tem como seu irmão mudar tanto a história pra ele não ser um lerdo idiota.

– E você foi uma apaixonada bobona. – Jeyne completou.

A Targaryen apenas lançou um olhar significativo pra Jeyne.

– E você veio aqui pra quê? Pra dizer que eu fui uma otária?

– O quê? Não! – Ela realmente não esperava que Rhaenys fosse reagir daquela maneira. – Eu só queria falar com você. Queria entender. – A Westerling disse. – Porque vocês dois nunca conversaram sobre o que aconteceu depois daquilo?

– O que eu e ele temos pra conversar?

– O quê? Sério? – Jeyne parecia não estar acreditando no que estava ouvindo. – É sério que você acha que vocês dois não têm o que conversar?

– Não, é passado.

– Se é passado, então porque isso ainda mexe tanto com você?

Rhaenys abriu a boca pra responder, mas nenhuma fala foi emitida. Ela não sabia bem o que falar. Não sabia o que responder.

Ela sabia porque aquele assunto ainda mexia tanto com ela.

Só não queria admitir aquilo.

– Foda-se! – Rhaenys falou. – Passou, não importa mais.

– Bem, de qualquer maneira, ele está em Pedra do Dragão.

Rhaenys gemeu de frustração. Ela sabia que aquilo poderia acontecer, mas sinceramente tinha suas dúvidas se o Westerling teria coragem de aparecer ali.

Mas, bem... Raynald Westerling era a pessoa mais corajosa de Westeros. Aquela noite não deixaria dúvidas quanto àquilo.

– O que ele está fazendo aqui? – Rhaenys perguntou.

– Ele veio aqui pra conversar com você. – Jeyne respondeu. – E ele disse que não volta pra casa até conseguir isso.

– Eu espero que ele arranje outro lugar pra morar logo. – Respondeu. – Quem estou querendo enganar? Adoraria ver ele sofrendo, tendo que dormir na rua, no frio.

Jeyne riu. A loira achou inusitado a menina rir com a ideia do irmão mais velho sofrendo.

– Quer ver seu irmão na rua? – Rhaenys perguntou, sorrindo.

– Não é isso. – Jeyne gargalhou mais uma vez. – É que você é sempre tão madura, mas quando se trata dele, você age como uma criança. – O sorriso de Rhaenys morreu. – É engraçado, eu finalmente estou vendo a Rhaenys que ele me descreveu.

– Jeyne, um conselho. – Rhaenys falou para a menina, tentando transmitir frieza na voz. – Se você for ficar muito perto de mim, cuidado com o que vai falar. Eu estou me segurando muito pra não te jogar no rio agora.

A morena gargalhou ainda mais alto.

– Você não faria isso. – Disse com segurança na voz.

– Você parece muito confiante de que consegue prever o que eu posso ou não fazer pra alguém que acabou de descobrir tanta coisa nova sobre mim.

Jeyne parou de rir na hora.

– Desculpa, não estava querendo zombar de você. – Ela falou.

– Tudo bem...

– Por que você não quer conversar com ele?

– Porque ele demorou muito. – Rhaenys respondeu. – Já esperei demais por ele. Eu estava realmente esperando que ele fosse fazer alguma coisa, mas depois do baile de formatura, eu perdi todas as esperanças.

– O que aconteceu no baile de formatura?

– Nada. Ele não fez nada. Eu fiquei esperando que ele fosse me convidar... – Rhaenys pensou melhor no que acabou de falar. – Eu devo realmente ser muito idiota, né? Por que eu achei que ele fosse me convidar depois do que aconteceu? – Suspirou. – Mas eu fiquei esperando, e nada. Depois, fiquei esperando que ele ficasse com ciúmes se eu fosse com outro cara, mas meu plano não deu muito certo. Nossa, como eu era otária. – Lamentou. – Eu realmente achei que isso daria certo?

– Ele ficou com ciúme? – Jeyne perguntou.

– Acho que não. Eu fui com o Loras, e naquele ponto todo mundo já sabia que ele era gay.

– Por que foi com o Loras?

– Porque eu enchi o saco pra ele ir comigo. Loras é um excelente amigo.

– Não, não foi isso que eu quis perguntar. Por que não foi com outro cara?

Rhaenys olhou para Jeyne.

– Que outro cara? – A Targaryen perguntou.

– Outro cara que te chamou. – Ela respondeu.

– Jeyne... Ninguém me chamou pra ir ao baile de formatura.

– O quê? – A Westerling estava perplexa. – Pera... O quê? Como não? Você era a capitã das líderes de torcida. Você é linda e inteligente. Você é Rhaenys Targaryen. Você é a melhor. Como ninguém te chamou?

– É, eu sou Rhaenys Targaryen. Sou a melhor. Eu estou em um pedestal. – Olhou para as luzes de Pentos e respirou fundo. – Eu fui abençoada com muitas qualidades, e estou cercada de elogios e admiração. Mas quando você fica em um pedestal por tanto tempo, você acaba ficando separada das pessoas.

Jeyne não disse nada. Rhaenys apenas continuou:

– Todo mundo automaticamente acha que eu sou boa demais, que eu estou em um nível que ninguém mais pode alcançar. Então ninguém realmente tenta. Quando eu fui coroada rainha do baile, eu estava ali, naquele palco, acima de todos. Seu irmão não estava ali, ele nem chegou a ir ao baile. Todos aplaudiram, uma coroa foi colocada na minha cabeça, e eu me senti mais sozinha do que nunca.

Suspirou.

– Eu odiei aquilo. É claro que eu sorri, como uma princesa de verdade deve fazer. Mas por dentro eu estava péssima. Eu só queria que alguém me tirasse dali de cima. Nos meus sonhos mais loucos, é o seu irmão que faz isso.

– Por que ele?

– Porque... Eu não sei bem. – Ela confessou. – Quando eu conheci seu irmão... Eu o conheci porque eu falhei. Foi talvez a única pessoa que eu me aproximei porque eu falhei. Foi uma das poucas pessoas que eu tive que implorar para que me ajudasse. O contexto do início do nosso relacionamento... – Rhaenys não sabia bem como falar aquilo. – Ele era superior a mim. Eu que precisava algo dele. E não o contrário. Aquilo foi tão diferente... E então eu nunca enxerguei seu irmão de cima de um pedestal, e apesar de às vezes ele se inferiorizar um pouco, eu e ele sempre nos enxergamos como iguais.

– Caramba... – Jeyne falou bem fraquinho.

– Ele era alguém igual a mim. – Rhaenys resumiu. – Mas parece que ele se esqueceu disso.

As duas ficaram caladas por um tempo.

– Por que você nunca sentou com ele e falou isso tudo que você me disse?

Rhaenys pensou um pouco antes de responder, mas não chegou em resposta alguma:

– Não sei. Acho que é difícil falar essas coisas. E quando eu o vejo, eu fico com raiva, e tudo começa a ficar confuso, e eu não penso direito e então... – Rhaenys estava falando bem rapidamente, mas foi interrompida antes que pudesse terminar a frase.

– Rhaenys! – Elas ouviram alguém chamar a loira pelas costas.

Aquela voz... Rhaenys sentiu um arrepio subir pelo seu corpo. Ela e Jeyne olharam para trás, lentamente, e então viram ele.

– Finalmente te encontrei. – Raynald Westerling falou.

Ele estava a alguns metros de distância das duas. Rhaenys rapidamente se levantou, e Jeyne seguiu seu exemplo. A menina olhou de Rhaenys para Raynald e então falou enquanto ia embora:

– Boa sorte.

A Targaryen não sabia muito bem para quem ela tinha direcionado aquela fala, mas não disse mais nada. Quem precisava de mais sorte ali? Ela ou ele?

Mas Jeyne não estava desejando sorte a nenhum dos dois.

Apenas viu a menina do cabelo castanho se afastar deles. Os três sabiam que aquilo agora era entre Rhaenys Targaryen e Raynald Westerling. 

A moça olhou para o rapaz. Ele estava com o cabelo bagunçado, barba por fazer, usando calça jeans, uma camisa cinza sem estampa, e um casaco preto. Inicialmente Rhaenys pensou que ele estava com um casaco ali na festa por conta dos fortes ventos que estavam atingindo Westeros por causa do ciclone extratropical que estava no Pacífico.

Mas então ela entendeu.

Reconheceu o casaco. É o casaco que ele supostamente comprou no Canadá. O casaco que ele comprou no mesmo dia que comprou a Rey.

Supostamente.

Os dois ficaram se encarando por um bom tempo. Rhaenys não sabia se foram segundos ou minutos, mas nenhum dos dois ousou dizer uma única palavra por um bom tempo.

– Eu devia imaginar que você estaria aqui. – Raynald finalmente quebrou o silêncio.

– Por que devia imaginar?

– Porque é isolado, longe das pessoas. E você é antissocial, é igual a mim.

Ela sentiu o coração dar uma acelerada momentaneamente, e involuntariamente sorriu ao ouvir aquelas palavras. Como não sorriria diante daquelas palavras?

– Você sorriu! – Ele disse.

– Não sorri! – Rhaenys afirmou enquanto perdia o sorriso.

– Tá querendo enganar quem? Eu sei o que vi.

– Vai se foder!

Raynald riu quando ela xingou.

– Eu não sorri porque gostei do que você falou, eu sorri de ódio. – Ela se justificou da maneira mais patética possível

– De ódio?

– É! Quando se trata de você, é só o ódio que me move.

Ele riu com mais vontade depois de ouvir a afirmação dela. Rhaenys sentiu raiva ferver dentro de si.

– Você me irrita! – Ela esbravejou. – O que diabos você quer? – Finalmente perguntou. – Veio aqui só pra me infernizar?

Raynald ficou sério novamente e então falou:

– Eu vim aqui hoje atrás de você.

– Veio terminar o que nós começamos no Festival de Outono? – Rhaenys pensou em dar um sorriso sugestivo, mas não queria mais sorrir pra ele. – Hoje não é um bom dia. Eu tenho algo muito importante pra fazer essa noite.

Rhaenys começou a caminhar na direção dele.

– Não vim por causa do Festival de Outono. – Raynald respondeu quando eles estavam bem próximos.

– Uma pena. – Ela respondeu. Quando passou pelo rapaz, murmurou: – Esse é o único assunto que temos pra finalizar.

Aquilo era Rhaenys fazendo o que fazia de melhor: fugir. Fugiu de sua casa quando os irmãos queriam saber de Raynald. E também fugiu de Jon quando ele perguntou daquele assunto.

Mas ela não viraria as costas e fugiria, como estava fazendo o dia todo.

Não com ele.

Com ele, ela precisava fazer melhor do que aquilo. Não queria deixar transparecer que aquele assunto significava para ela algo além do que deixava transparecer.

O que era uma total perda de tempo, visto que ela acabou de desabafar para a irmã de Raynald. Mas Jeyne tinha razão. Ela não conseguia evitar de fazer aquilo com o rapaz. Algo nela a fazia agir daquela maneira sem que sequer raciocinasse.

E não é como se ela precisasse de muito para conseguir fugir dele. Estava cansada de ir embora, e então Raynald não move um músculo sequer para tentar impedir. Ele nunca fez com ela aquilo que ela fez com ele. Ele nunca fechou a porta de uma sala e implorou para que ela não fosse embora.

Como ela conseguiu se humilhar tanto por causa de uma pessoa?

Passou pelo rapaz encarando aqueles olhos dourados, mas antes que conseguisse reagir, algo a surpreendeu totalmente.

Raynald Westerling segurou seu braço.

– Quê isso? – Rhaenys rapidamente reagiu. – Me solta!

– Não. – Raynald pediu. – Por favor, não vá embora.

Rhaenys arregalou seus olhos violetas. Ela definitivamente não esperava por aquilo.

– Eu juro pra você, eu só atravesso aquela ponte quando nós tivermos conversados tudo que precisamos conversar. – Ele falou com uma determinação que ela nunca ouviu em sua voz.

Os olhos dourados de Raynald transmitiam algo diferente naquela noite. Ele estava com convicção, determinado. Ele estava com um brilho no olhar... Um brilho que ela só lembra de ter visto naqueles olhos quando Raynald enfrentou Tywin Lannister por ela.

Ele parecia realmente disposto a ficar ali enquanto não resolvesse aquilo com Rhaenys. 

– Bem, você precisa atravessar aquela ponte em algum momento. Deus me livre ter você aqui na minha ilha pra sempre. – Rhaenys falou. – Estou ouvindo, mas não garanto que essa conversa vá terminar bem.

Raynald sorriu, aliviado.

– É só disso que eu preciso. – Ele garantiu.

Ela não estava ouvindo apenas pra se livrar dele. Era aquilo que ela queria dele mesmo. Mas ela estava querendo aquilo fazia tempo. Muito tempo. Tempo demais. Não sabia se aquela conversa levaria a um bom resultado.

 

Dacey

 

Sábado, 1º de outubro de 2016, 21:28

Cidade de Sempre Inverno

 

Dacey estava olhando atentamente para cada pessoa que passava perto de sua mesa. Cada garçom que passava com taças de champanhe era um pulo do seu coração. Ela realmente não achou que Willas iria pedir ela em casamento naquele ano. Afinal, ele ainda estava penando pra manter as contas do apartamento e da clínica dele equilibradas.

Aquele era um dos motivos pra ela hesitar tanto em contar que estava grávida dele. Aquilo iria mudar tudo na vida deles, provavelmente eles teriam que pedir ajuda aos pais, e Willas tinha um orgulho danado de ser independente da família Tyrell.

Ela ainda estava pensando na melhor maneira de falar aquilo. Aquele filho iria acabar com aquela independência. Eles teriam outra prioridade na vida. Por isso ela ficava ainda em dúvida se ele iria mesmo pedi-la em casamento naquela noite.

Mas caramba...

Era na Cidade de Sempre Inverno. Naquela cidade foi onde eles dançaram juntos pela primeira vez, foi onde se beijaram pela primeira vez, foi onde os dois tiveram um momento fofo e marcante pela primeira vez.

Aquilo tudo era meio simbólico para o relacionamento dos dois. Por isso ela pensou que poderia ser aquela noite.

– Falou com sua família hoje? – Dacey perguntou, tentando puxar algum assunto para distrair a cabeça.

– Liguei pra eles. – Willas respondeu brevemente.

– Sabe, é horrível que eu tenha que ficar te cobrando pra ligar pra sua própria família. – Ela criticou.

– Mas nem sempre eu tenho o que falar. – Ele tentou se justificar. – Vou ficar ligando pra falar nada? Quando eu tenho o que falar eu ligo.

– Então você nunca vai falar com eles mais, você guarda as coisas pra você, não conversa nem comigo. – Reclamou. – Eu odeio quando você vira pra mim, depois de todos esses anos e fala: “Sabe, tem algo que eu nunca te contei”.

Willas deu um fraco sorriso.

– Tem ainda muita coisa que você nunca me contou, Willas? – Ela cobrou.

– Por que isso agora? – Ele perguntou, parecendo meio nervoso com o assunto.

– É que temos quase 10 anos de relacionamento e parece que todo ano você me vem com uma revelação nova da sua vida que deveria ter me contado há muito tempo. – Ela tomou um gole do seu suco de uva. – Essa é sua característica que mais me deixa estressada.

– Não é um desafio te deixar estressada, né? – Willas retrucou.

Dacey só lançou um olhar mortal para o namorado, que apenas gargalhou diante da morte certa.

– Olha só! – Ela ouviu a voz grossa de um homem vindo do lado direito. – Senhorita Mormont.

Dacey olhou para o lado e viu a fonte da voz. Era um homem alto e gordo, vestido com um smoking que mais o fazia parecer um pinguim. Ele tinha cabelo amarelado, e a barba grande. Usava vários anéis em seus dedos, cada um de uma pedra diferente.

Ao seu lado estava uma mulher baixa – mais baixa que Dacey –, com curto cabelo loiro-platinado e grandes olhos azuis. Ela era magra, e seu rosto acusava que ela já fez plásticas.

O casal aparentava ter chegado ao restaurante naquele momento. Era difícil determinar quem era a mulher, mas o homem ela já conhecia. Era Illyrio Mopatis, um homem muito rico que ela conheceu por conta de seu trabalho como assessora da promotora Lyanna Stark.

– Senhor Mopatis. – Dacey o cumprimentou. – E senhora...

– Essa é Serra, minha esposa. – Illyrio falou com um orgulho quase palpável na voz.

– Boa noite. – A mulher disse com uma voz tímida, enquanto o rosto ficava avermelhado.

Ela automaticamente abraçou a bolsa preta que carregava contra seu vestido verde-escuro.

– O senhor Mopatis falou bastante da senhora. – Dacey comentou.

– Ele sempre fala muito de mim. – Ela reclamou.

– É bonitinho. – A Mormont sorriu.

Ela viu que o olhar de Illyrio Mopatis passou dela para Willas.

– Willas Tyrell. – Illyrio falou. – Você se parece demais com seu avô.

– E o senhor é... – Willas falou.

– Esse é Illyrio Mopatis, Will. – A Mormont o apresentou.

– É um prazer, senhor Mopatis. – Willas sorriu enquanto apertava a mão do homem, cumprimentando-o. – E o senhor conhecia meu avô?

– Não muito, mas o seu rosto e o dele passaram muito no noticiário naquela época. – Illyrio falou. – Quando a mídia ficou em dúvida de qual de vocês dois presenciou o crime de Euron Greyjoy.

Ela olhou para o namorado brevemente. Aquele era um assunto delicadíssimo para Willas. Era algo que ele próprio nunca conversou com ela ou com um de seus amigos até onde ela sabia.

Há quase 18 anos atrás, quando eles eram crianças, aconteceu o assassinato de Rickard Stark e Steffon Baratheon. Nos jornais só se falava da morte dos dois, e o que teria acontecido, quem seria o responsável ou as circunstâncias dos crimes. Depois, alguma testemunha sigilosa foi ouvida na polícia, que levou à prisão de Euron Greyjoy.

Alguns dias depois, teve um vazamento na polícia, e um jornalista divulgou na mídia que a tal testemunha sigilosa era na verdade uma criança que estava no navio naquela noite: Willas Tyrell.

Foram alguns dias com a mídia querendo uma entrevista com a família Tyrell. E então, logo depois, o Corvo de Três Olhos informou que na verdade a identidade da testemunha sigilosa era o avô de Willas, Luthor Tyrell.

Portanto, ficou uma dúvida em Westeros de qual dos dois Tyrell presenciou a cena. Até o próprio Luthor Tyrell dizer publicamente que ele era a testemunha sigilosa.

– E depois o acidente na ponte das Ilhas de Ferro. – Illyrio completou.

Willas abaixou o olhar.

– Senhor Mopatis, o que o senhor está fazendo aqui? – Dacey perguntou tentando mudar de assunto.

Rodrik Greyjoy era o assunto mais delicado de todos para eles.

– Eu e Serra estamos tentando sair um pouco de Pentos. – Ele respondeu. – Aemon e Aegon deram um sossego em casa, pararam de arrumar problema, então estamos tentando respirar um pouco.

– Entendi. – Dacey falou.

– Então aproveitem a noite. – Willas disse num tom para encerrar a conversa.

Illyrio pareceu entender o recado. Se despediu do jovem casal e se afastou, indo em direção a uma mesa vazia do outro lado do restaurante.

– Não acho que ele queria te deixar desconfortável. – Ela disse ao namorado assim que ficaram sozinhos.

Mas Willas aparentemente não acreditou muito naquilo. Ele apenas perguntou:

– Desde quando você conversa com ele?

– Sei lá. Ele passa na Promotoria de vez em quando pra conversar com Varys, o assessor do Tyrion.

– Ele é amigo do Varys?

– Melhores amigos, BFF’s.

Ela pôde notar os olhos de Willas se movendo para um lado. Depois de alguns segundos, para outro. Conhecia-o muito bem. Ele estava pensando. Ela quase conseguia ouvir as engrenagens da cabeça de Willas se movendo. Ele arregalou os olhos momentaneamente.

– Ele mexe com energia, né? – Willas perguntou para Dacey. – É da indústria de energia.

– Pelo que sei, ele não tinha nada, até entrar na indústria de petróleo. Hoje é um dos homens mais ricos do Estado.

Willas voltou a movimentar os olhos de um lado para o outro, lentamente.

– De todos os meus irmãos, Garlan é o mais próximo de mim. – Willas comentou. – E você... – O Tyrell murmurou. – E Tyrion Lannist... – Ele parou de falar, deixando o sobrenome do homem incompleto.

Mais uma vez, ele arregalou os olhos, mas demorou a falar novamente. Abaixou a cabeça momentaneamente, apoiando o queixo em sua mão. Ele fechou os olhos e respirou fundo.

Dacey o conhecia muito bem para saber que ele fazia aquilo quando tinha uma teoria louca, e estava agora pensando se a sua teoria fazia sentido ou não.

– Dacey... – Willas começou.

– Fala.

– Eu tive um insight muito louco aqui agora.

– Que nível de loucura?

– Do nível que muda tudo. Tudo que nós achávamos que sabíamos que aconteceu em Westeros desde 1998 até agora.

Ela arqueou a sobrancelha. O homem abriu seus olhos amarelados e fixou nos dela.

– Não tenho provas, mas a ideia em si tem uma certa lógica. – Ele deixou claro.

– Fala logo! – Ela não era uma pessoa paciente.

– Não, eu não posso falar aqui. Tem que ser em casa.

– Então vamos pedir a conta. – Ela naquele momento esqueceu sobre o possível pedido de casamento. O tom que o namorado usou e as expressões que ele fez... Willas parece ter pensado em algo importante. E Willas dificilmente estava errado. – Eu não vou aguentar a curiosidade. Pede a comida que estão fazendo pra viagem.

– Não podemos sair agora. Não assim.

– Por que não?

– Não podemos sair bem um com o outro. Temos que sair brigando.

– Por que?

– Só confia, Dacey. Eu faço tudo com um bom motivo.

Ela bufou. Sabia que Willas fazia tudo muito bem pensado, às vezes até demais, mas ela se irritava quando ficava sem saber do que estava acontecendo. É como se ela fosse uma peça que ele estava movendo contra outro jogador.

E ela detestava aquela sensação.

– Então a gente precisa brigar? Por que a gente brigaria?

– Porque... Eu preciso contar algo pra você. Vou contar muita coisa pra vocês quatro essa noite. – Ele começou.

– Eu conheço esse tom. – Recordou. – É o tom de “eu tenho algo há anos guardado, mas nunca confiei em você o suficiente pra contar”.

– Não se trata de confiança. – Ele rebateu.

– O que é que você precisa me contar, Willas Tyrell?

– Não posso contar aqui. Lá em casa eu conto.

– Eu preciso de alguma coisa. – Dacey pediu. – Depois você me explica melhor.

Willas suspirou. Olhou em volta para se certificar de que ninguém estaria próximo e ouvindo.

– Você se lembra quando Euron Greyjoy foi transferido da penitenciária na Virgínia pra Meereen? – Ele falou da maneira mais baixa possível, sem mover muito os lábios.

– Lembro.

– Lembra daquele dia que eu sumi e vocês me acharam no túmulo do Rodrik no final do dia?

– Como eu esqueceria? Seu celular só dava fora de área e...

E então Dacey entendeu.

– Não... Por que você foi falar com o Greyjoy? Por que, Willas? Isso tudo por causa do cofre dele? Agora eu entendo porque você tem tanto medo da ideia de ele sair da cadeia. Ele te ameaçou só porque você foi conversar com ele na prisão? E por que você não nos contou sobre isso?

– Não foi por causa disso! – Willas fechou os olhos com força, abaixou a cabeça, abriu os olhos e fitou o próprio colo. – Euron Greyjoy não me ameaçou por conta do cofre. Ele me ameaçou por causa do que o Illyrio disse.

Ela se recordou rapidamente do que o homem falou.

– Ele acha que você foi a testemunha que colocou ele na cadeia? Mas seu avô disse na imprensa que foi ele. A polícia confirmou, Doran Martell também, e até o Corvo de Três Olhos falou isso.

– Quem assumiu foi o meu avô. A polícia era meu tio, Gerold Hightower. E o juiz do caso era o tio da minha melhor amiga. – Willas falou, e voltou a olhar nos olhos dela. Seus olhos estavam marejados. Dacey sentiu o coração apertar. Ela finalmente entendeu.

Certa vez, ela perguntou porque Willas era tão obcecado em conseguir abrir o cofre de Euron Greyjoy. E então ele disse várias coisas, mas uma delas ficou marcada em sua memória.

Ele disse: “Eu preciso terminar o que eu comecei”.

Dacey achou que ele estava falando da noite que Rodrik morreu. Da noite que eles fugiram dos homens que estavam atrás do cofre de Euron. Aquilo ainda não parecia muito certo, afinal, Willas e Rodrik não estavam lá naquela noite atrás do cofre, eles só deram o azar de chegarem naquela casa na hora errada.

Mas naquele momento, naquela noite, Dacey estava tendo uma interpretação diferente daquela frase.

Willas não precisava terminar o que começou porque se envolveu na história do cofre há quase 10 anos atrás.

– Quando o Baelish noticiou que era eu... Eu... Eu... – Sua voz falhou, mas logo ele se recuperou, e ele começou uma nova frase. – Eu não sei quem é o Corvo de Três Olhos e nem porque ele fez aquilo, mas ele disse na imprensa que era meu avô, que também estava lá naquele navio. Meu avô tinha uma doença terminal, ele tinha poucos meses de vida. Ninguém de fora da família sabia, nem nós, as crianças, sabíamos. Mas de alguma maneira o Corvo devia saber, porque assim que o Corvo falou pra todos quem supostamente era a testemunha, meu avô entendeu. De alguma maneira, o Corvo estava dizendo que era melhor meu avô ser um alvo do que eu.

Willas respirou fundo, e então continuou:

– Por isso eu sou a primeira pessoa que Euron Greyjoy iria atrás. Ele sabe que não foi meu avô. Somente uma criança conseguiria se esgueirar por aquele navio sem ser notada. Eu estava brincando de esconde-esconde com o Renly quando... – Willas sequer conseguiu terminar aquela frase.

Dacey viu como aquele assunto era difícil pra ele somente pela expressão que o homem fazia.

– Eu fui a testemunha. Eu vi o pai do Renly ser morto. Por minha causa, Euron Greyjoy foi preso. As manifestações de Robert, a internação de Aerys, tudo o que aconteceu em Westeros depois... Foi tudo por minha causa, Dacey.

Ela nunca tinha entendido. Willas Tyrell realmente estava envolvido naquilo tudo porque estava no lugar errado na hora errada. Mas o lugar e a hora que ela pensava não eram os corretos. Não era a casa de Euron Greyjoy, na noite que Rodrik morreu. Era o navio de Euron Greyjoy, na noite que Rickard Stark e Steffon Baratheon morreram. Willas estava envolvido naquela cruzada antes mesmo de Jon ou Robb Stark nascerem. E ele sentia que tinha que terminar o que começou.



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