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História Rendição (Jikook) - Capítulo 88


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Capítulo 88 - Capítulo 13


Anos antes...

—Suk – Um dos amigos lhe tocou no braço –, toma. – Estendeu a ele um cigarro artesanal.

O ator famoso encarou o outro. Seus olhos avermelhados, sua respiração irregular, seus dedos já um tanto escuros. A atmosfera amortecida das drogas invadindo sua alma e roubando-lhe o direito a própria independência.

— Quantas merdas dessas você já fumou hoje, Henry?

O outro riu, voltando a levar a droga recusada aos lábios.

— Relaxe, mon ami. Você está na França, está na faculdade, é jovem, podre de rico, é bonitão – bateu-lhe nos ombros. – Aproveite o que a vida lhe deu numa bandeja – sugeriu.

O rapaz suspirou alto.

Nowaki Suk era realmente muito rico e, igualmente, famoso. A vida sempre lhe sorriu, conseguiu personagens importantes desde jovem, e tinha tudo para se tornar uma referência no cinema mundial. Mas, faltava algo. E foi assim que ele chegou à França. Havia convencido os empresários que precisava se preparar mais. No fundo, buscava uma fuga da vida fútil que vivia. Contudo, ao contrário do que esperava, não encontrou pessoas ambicionando crescimento, e sim gente vivendo como na antiga Babilônia. A universidade Parisiense estava repleta de drogas, orgias, e todo tipo de vício imoral. Quase sem perceber, ele começou a usar maconha e a participar das festas promovidas pelos bon vivant .

— Como foi a festa ontem? – Henry lhe balançou os ombros. – Fale, conte-me! – gargalhou.

Nowaki desviou o olhar do amigo e encarou as tulipas do enorme jardim que adornava o campus. Ambos estavam sentados no chão, sobre a grama bem cortada, o vento calmo balançando seus cabelos.

— Não sei responder – Nowaki sussurrou.

— Como? Pierre me disse que você foi para o quarto com cinco! – O rapaz loiro ergueu as mãos e mostrou os dedos. Nowaki sentiu-se mal vendo as digitais salientes do outro. – Cara, cinco deusas putas deliciosas – abusou da grosseria. – Seu desgraçado! Queria ter a sua sorte!

— Minha sorte? – Nowaki arqueou as sobrancelhas. – Sorte ou dinheiro? Ou talvez o status?

— Pare de reclamar! – Henry ralhou. – Sabe quantos caras queriam estar no seu lugar?

— Eu pelo menos não queria – Nowaki retrucou.

Henry começou a gargalhar, mas logo mudou o foco do seu assunto para a próxima festa que ocorreria no final de semana. Naquele momento, Nowaki girou o rosto, observando os transeuntes do campus.

O mundo todo era igual. Um mundo imundo, torpe e escroto. Não havia motivos para viver, e ele provavelmente entraria para a lista daqueles artistas que se suicidariam ainda jovens, na louca fuga de um mundo tão grotesco.

— Você realmente não quer? – Henry lhe empurrou novamente o cigarro de maconha.

Negou.

Não queria mais nada. Não queria mais festas, nem bebidas, nem mulheres, nem drogas. Queria apenas ter um bom motivo para viver. Algo puro, que valesse a pena.

...Mas isso não existia na vida real.

***

— Nowaki – Henry balançou seu ombro. – Acorde, cara!

Estava acordado. Não só naquele momento, mas durante todo o dia. E à noite, também. Tinha insônia, passava as madrugadas jogando no computador, e bebendo tudo que encontrava. Estava se tornando, aos vinte e poucos anos, um bêbado viciado sem a menor perspectiva de nada.

— Não enche meu saco – murmurou para o outro.

Estavam em sala de aula. Sentavam juntos, amigos inseparáveis desde que se conheceram no primeiro dia de aula. Henry era filho de boêmios, queria ser diretor teatral, e odiava cinema. Assim, não conhecia a fama do outro, e por isso não tentou se aproximar por interesse. Aquilo agradou ao coreano, e ele fez questão de manter aquela amizade.

— Trabalho em grupo – o amigo resmungou. – O professor nos colocou com aquela doida da Audrey Morgan e o veado do Jean Eunbi.

Nowaki ergueu o rosto da mesa estudantil.

Audrey? Sim, se lembrava dela. Era estranha, não ia às festas que todos costumavam frequentar. Uma CDF de primeira, a queridinha dos professores. Nowaki achava que ela havia escolhido a profissão errada, pois ninguém podia ser muito puritano naquele ambiente.

— E daí? –indagou. – Que sorte! Porque está na cara que ela vai fazer todo o trabalho sozinha, e a gente pode aproveitar o tempo...

Um estalo a sua frente fê-lo ficar ereto na cadeira.

— Engano seu – a voz feminina era firme. – Se não fizer a sua parte, eu retiro seu nome da apresentação.

Ergueu o rosto e a encarou. Morgan não costumava falar muito, ao menos não com ele. Não fazia, óbvio, seu tipo. Jamais se oferecia, nunca usava roupas que pudessem lhe dar a impressão que estava à disposição sexual de um homem. Não rebolava diante dele, ou piscava os cílios com charme. Tampouco olhava na sua cara.

No entanto, ele sabia que a americana bolsista adorava a Coreia. Afinal, ela vivia grudada com um mestiço coreano, ambos carregando revistas da Coreia e fofocando sobre artistas. Céus, já era uma mulher, mas agia como uma menininha tola.

Suspirou.

Bom, em todos os lugares havia as mulheres estranhas, não? Mesmo que ela não fosse feia o suficiente para ser considerada uma excluída da coletividade do campus, ainda assim era irritantemente desprovida de qualquer senso social.

E por que diabos ela não suspirava por ele? Todas as mulheres o faziam!

Com o canto dos olhos a viu sentando-se ao lado de Jean. O rapaz ergueu uma revista apontando um grupo pop coreano. Pela primeira vez desde que entrara naquela turma há dois meses, ele a viu sorrindo.

E a visão era encantadora...

***

— Dramaturgia moderna... – Morgan murmurou. – a década de vinte...

— Audrey! – Nowaki a interrompeu. – Você não percebeu ainda? Henry já foi embora, Jean está dormindo no sofá, são duas e meia da manhã, estou cansado e você ainda insiste em terminar esse trabalho hoje! Pelo amor de Deus, ainda temos uma semana de prazo!

A mulher ergueu o rosto, parecendo só então notar o horário. Seus olhos passearam pela pequena sala do apartamento de Jean, e então ela viu o mestiço dormindo encolhido. Henry realmente havia sumido, e só Nowaki ainda se encontrava ali, ela nem entendia o porquê.

— Preciso terminar minha parte hoje – explicou a ele. – Você pode ir embora, que eu farei...

— Por quê? – questionou. – Por que precisa terminar hoje? Amanhã à noite podemos escrever mais um pouco, e...

— Que horas são agora? – ela o interrompeu, parecendo pela primeira vez consciente do momento.

O ator ficou curioso.

— Duas e meia...

Repentinamente, a americana se ergueu. A mão voou até a bolsa.

— Desculpe, eu realmente preciso ir.

E saiu correndo.

***

— Ei, acorda – Nowaki balançou Jean.

Jean murmurou alguns resmungos, e então encarou o outro.

— Que merda! – reclamou. – Por que me acordou?

— Audrey saiu correndo – Suk explicou. – Estou sem reação... O que deu nela?

Esperava que o único amigo da americana tivesse respostas. Contudo, ao mesmo tempo, por que estava interessado? Estava trabalhando ao seu lado numa pesquisa sobre dramaturgia moderna já fazia uma semana. Desde então, acostumara-se ao seu humor genioso, ao seu sarcasmo ímpar, e ao sorriso que, às vezes, surgia do nada, parecendo levá-lo do inferno ao céu em segundos.

— Hoje fazem dezesseis anos – Jean disse, parecendo que aquilo explicava muita coisa.

— O quê?

— Dezesseis anos que Stephen morreu – o coreano contou, os olhos ainda fechados. – Todo ano, de madrugada, Morgan vai ao cemitério mais próximo e se posta em frente a qualquer cruz, para conversar com ele. Acho que é porque ela não sabe onde o enterraram.

— Stephen?

Porém, Jean já havia adormecido novamente.

***

O lugar era macabro. Um cemitério, à madrugada, definitivamente não atraia ninguém em seu estado normal. Realmente, não havia lugar mais aterrorizante.

Nowaki esfregou os braços, espantando o frio que o tomava. Adentrou o lugar, olhando para os lados. Estava deserto, a não ser por uma ou outra coruja que emitia seus sons costumeiros sentada sobre uma árvore.

A lua no céu brilhava intensamente, deixando com que sua luminosidade ajudasse a andar por entre os túmulos. Ele evitou encarar aqueles amontoados de concreto, evitando igualmente os rostos em fotos velhas.

Por que estava fazendo aquilo?

Aliás, era quinta-feira. Dia de festa. Bom, todos os dias eram dias de festa, e ele estava sendo esperado na casa de uma linda loira que havia lhe convidado para um evento muito especial, regado a exctase e som alternativo.

Contudo, nada parecia ter tanta importância desde que vira Morgan sair correndo do apartamento, como se estivesse em pânico.

Por quê?

Por que de todas as muitas pessoas que já haviam cruzado seu caminho, era aquela menina sem qualquer atrativo especial que o fazia sair correndo pela madrugada e entrar em um cemitério deserto?

Quando as dúvidas lhe causaram dor na fronte, ele enfim a avistou. Sentada no chão, o rosto focado sobre um pequeno túmulo – provavelmente o de uma criança – e o olhar perdido.

Perdido no quê? Quanta dor havia no passado daquela mulher para torná-la tão antissocial? Quanta amargura trazia consigo? Quanta mágoa a atormentava?

— Audrey... – chamou-a devagar, temendo assustá-la.

Ela sequer se mexeu. Porém, deixou claro que o percebeu. Por alguns segundos ela ergueu a mão, mantendo-o afastado. Só então seu rosto voltou-se para ele, e o coreano viu-lhe as lágrimas espessas, a boca apertada, segurando os soluços que provavelmente ela soltaria caso se permitisse.

— Ele tinha seis anos – ela apontou o túmulo. – Diz aqui: "Meu querido filho, a quem muito amei"... – leu, tapando a boca e curvando-se sobre o concreto, cercando aquele pilar como se estivesse abraçando a criança que lá dormia eternamente.

Nowaki ficou comovido e espantado ao mesmo tempo. Ela era sempre tão fria, tão calculista, como se medisse cada palavra e cada ato. Mas, agora, parecia completamente entregue, sofrida, sem nada a não ser a dor transparecendo em seu semblante.

— Quem foi Stephen? – perguntou, sentando-se ao seu lado.

Queria tocar nela. Acariciar seus ombros e dizer que tudo ficaria bem. Mas, havia tanto agonia em seus olhos castanhos esverdeados que ele mal conseguia se mexer.

— Stephen nunca terá nada escrito em seu túmulo. – Ela tocou as letras pintadas sobre o jazigo. – Sequer sei onde o enterraram. Levaram-no para longe de mim e me colocaram num orfanato. As freiras me mandaram esquecê-lo, recomeçar... Mas, como eu poderia? – Audrey encarou Nowaki. – Penso se meu irmão teve um enterro decente... Se teve, quem esteve lá? Ou será que foi enterrado como indigente? Onde o enterraram? Será que escreveram alguma coisa em seu túmulo?

Então Stephen era o irmão dela?

— E sua mãe? E seu pai?

— Minha mãe morreu antes de Stephen – ela contou. – Meu pai? – seu semblante transparecia dúvida. – Não sei... – confessou. – Não tenho ideia de quem tenha sido. Provavelmente, foi algum cliente de minha mãe...

Vagarosamente, ele ergueu a mão e a pousou sobre o ombro dela. Por um leve segundo, Audrey se retraiu, mas logo pareceu se acalmar.

— Eu realmente lamento muito – foi sincero.

Subitamente, o rosto dela ficou sério. Pareceu voltar ao seu estado normal.

— O que faz aqui?

Nowaki sentiu-se inseguro.

— Você saiu correndo... Eu fiquei preocupado.

Os olhos femininos arregalaram-se. Num pulo, a mulher postou-se de pé, aparentemente incomodada com a situação.

— Agradeço sua preocupação.

E então correu em direção ao portão.

***

A música estava tão alta que o jovem coreano sentiu que a mesma podia danificar seus tímpanos. Mas, não reclamou. Era uma festa, afinal de contas. Uma festa na república, a maioria dos futuros mais promissores artistas estavam ali. A turma da dramaturgia e cinema, os alunos das artes plásticas, os de literatura... Enfim, era um lugar recheado de gente bonita, inteligente e talentosa.

Uma mão no seu ventre o fez desviar o rosto da porta. Encarou uma linda ruiva que lhe mostrou uma camisinha entre os dedos.

— Hoje não posso... – sussurrou para ela.

A garota pareceu ficar triste, mas assentiu.

— Acha mesmo que aquela maluca vai aparecer – a ruiva acomodou-se ao seu lado, segurando uma lata de cerveja.

— Ela não sabe que é uma festa, Marcele – Nowaki comentou. – Acha que vamos apenas trabalhar na nossa apresentação sobre dramaturgia moderna.

— Homens – a ruiva riu, ridicularizando-o. – Ela vai ficar furiosa quando perceber que foi chamada para uma festa – avisou. – Nunca conheci alguém como Audrey Morgan. Ela simplesmente abomina contato pessoal.

— Talvez ela não gostasse de participar porque ainda não tinha amigos – Suk se afastou da jovem francesa com um sorriso nos lábios. – Mas, agora Audrey tem a mim.

Marcele riu.

— Isso me soa paixão – disse.

— Talvez – Nowaki não negou.

Pouco depois ele já estava ao lado da porta. Onde estava Audrey? Devia ter chegado há pelo menos vinte minutos? Abriu a entrada e observou a rua. Só então a percebeu, sentada no vão da calçada, falando ao celular. Correu até ela.

— Por que não entrou? – indagou antes mesmo de cumprimentá-la.

Audrey desligou o celular e se ergueu. Seu rosto estava rubro.

— Achei que fôssemos estudar! – reclamou. – Você armou para mim! – ela acusou, logo em seguida. – Me fez vir até aqui para participar dessa festa repleta de gente da mais baixa laia.

Sim, ela estava furiosa. Céus, de que mundo havia saído alguém como Audrey Morgan? Muitas pessoas do campus dariam a vida para participarem de uma festa promovida por Henry. Por que ela precisava ser tão diferente?

— Só queria que se divertisse um pouco – se defendeu.

— Não tenho tempo para me divertir! – a garota rebateu. – Eu preciso me formar, ganhar dinheiro, ir para a Coreia! – suas mãos tremiam. – Sei que você e seus amiguinhos playboys não entenderiam isso, mas eu não tenho a grana de vocês para esbanjar, e sangue frio o suficiente para agir com tanta falta de pudor e amor próprio.

— Audrey...

— Escuta aqui, seu atorzinho de bosta! – ela apontou o dedo em riste para ele, aproximando-se perigosamente. – Da próxima vez que você aprontar para mim, tentando me obrigar a participar de uma festa vulgar e fútil, repleta de gente da sua espécie, eu juro que vai ter troco.

Aquela agressividade era uma faceta que o coreano não conhecia. Sentiu ímpetos de voar até ela e calar aquela boca suja com beijos.

... De onde vieram aqueles pensamentos?

Antes, entretanto, de conseguir ajeitar as ideias, um carro popular surgiu no horizonte. Era Jean. Logo o afeminado estacionava próximo deles, e Morgan foi até o amigo.

— Espere... – Nowaki tentou impedi-la, sem sucesso.

Quando ela desapareceu no horizonte, ele sentiu-se tão vazio como nunca até então.

***

— Não fale com essa cadela! – Henry ralhou. – Ela gritou com você, te ofendeu, e ainda por cima saiu se achando a certa da situação – expôs seu pensamento. – É humilhante para um homem se rebaixar assim.

Nowaki escondeu o rosto entre as mãos. O jardim do campus nunca pareceu tão negro e seus pensamentos tão turvos.

— Hoje à noite temos mais uma festa...

— Não vou! – negou, a voz elevada. – Céus, não quero mais saber de nada, entendeu? Deixe-me em paz!

Henry pareceu solidário a sua dor. Contudo, que dor? Nunca teve nada com aquela garota, nem sequer uma amizade!

— Mas, você sabe que existem trilhões de garotas melhores por aqui, não? – o amigo fez uma ultima tentativa.

— Melhores no quê? Na cama? – Nowaki reagiu, irritado. Não lhe agradava que falassem mal de Morgan. – Audrey é uma órfã, sem a menor estrutura, que conseguiu uma bolsa de estudos graças a seu próprio empenho e hoje é uma das melhores alunas do instituto! – apontou. – Me diga apenas um nome de qualquer outra mulher que tenha chegado a tanto?

Henry riu.

— Você está apaixonado – constatou. – Como diabos conseguiu se apaixonar pela maior CDF doida e antissocial do campus?

Nowaki suspirou.

— Não sei.

Realmente, não havia um só motivo para amar Audrey Morgan. A cada dia que se passava ele reconhecia isso ainda mais. Mesmo assim, era por ela que o coração dele batia como nunca havia batido antes.

***

Três da manhã.

Três horas da manhã! Aquele era o horário do ápice das festas, onde a maioria já havia bebido o suficiente para cometer as maiores loucuras e a leve culpa moral que podia assalta-los estava esquecida pelo torpor do álcool.

Um homem normal, pensou Nowaki, naquele instante estava beijando uma linda loira de corpo escultural, dançando sobre o som de alguma balada romântica.

E Nowaki era um cara normal... até Audrey Morgan!

Sim, por que o que explicaria estar ele sob a friagem da madrugada, sentado à frente do prédio dela, numa área de periferia onde ele jamais colocaria os pés por qualquer outro motivo?

Era realmente um idiota. Devia reunir o resto de dignidade que lhe restava e voltar para a América. Haviam lhe oferecido um excelente papel em um romance policial. Por que não aproveitava a chance para esquecer os olhos cor de mar?

— Ei, Nowaki! – o rosto de Morgan surgiu na janela do segundo andar, fazendo-o erguer a face em sua direção. – Vai passar a noite toda parado à frente do meu edifício? Não tem mais o que fazer?

Ele a olhou, culpado.

— Sobe – ela convidou.

***

Jean estava sentado no sofá ao lado do computador. Então o mestiço passava as noites no apartamento dela?

— Nesse horário tem um programa do BTS – ela explicou, parecendo adivinhar seus pensamentos. – É dia na Coreia – explicou, como se ele não soubesse.

— BTS?

Morgan apontou a parede. E então Nowaki viu uma série de pôsteres de um rapaz bastante jovem, olhar infantil e doce. Mas, acima de tudo, gay.

— Esse bichinha é BTS? – Caçoou.

— Jimin não é gay! – Morgan rugiu como um leão. – Ele faz parte de uma banda chamada BTS, e também atua. Ele é um ator tão impressionante... – os olhos dela brilharam.

Logo depois ela foi em direção ao quarto. Nowaki achou de bom tom não segui-la, e apenas sentou-se ao lado de Jean, que estava entretido assistindo ao programa daquele grupo.

— Audrey é mesmo fã desse Jimin, não? – puxou assunto. – Ela deve amar muito o BTS.

— Ela odeia o BTS! – Touga sussurrou, ainda com os olhos fixos na tela. – Ela acha que eles colocam tendências homossexuais a Jimin.

— Sério? – se interessou.

Morgan não conseguia ver que o ídolo era gay? Era realmente impressionante! Afinal, a mulher era bastante observadora, dona de um senso incomum de ler personalidades. Como ela podia ser tão iludida em relação à Jimin?

— Jimin — usou o apelido do astro — é namorado desse cara aqui – Jean apontou um homem baixo, e ar maduro. – Jeon Jeongguk.

— Como você sabe?

— Porque eu não sou cego – ele riu. – Os caras se olham como se o mundo envolta deles não existisse. Está na cara que estão apaixonados.

— E Audrey não aceita isso?

— Quer liberar um leão? É só dizer que ambos são namoradinhos. Ela pira! – riu.

O foco do programa mudou para um par de homens altos, uniformizados com um macacão verde. Pareciam prestes a fazer algum experimento.

— Você é fã do BTS? – perguntou a Jean.

— Eu amo esse aqui – apontou Jung. – Ele ainda não sabe, mas nós vamos ficar juntos.

Nowaki arqueou as sobrancelhas, espantado.

— O quê?

— Morgan vai conseguir um jeito, acredite! – parecia seguro. – Eu sei que ela vai conseguir se formar e ir para a Coreia. Eu posso arranjar facilmente um visto para trabalhar, e nós dois, formados em cinema, podemos tentar arrumar uma forma de nos aproximar deles.

Era o plano mais idiota que ele já tinha ouvido.

— Ei – Morgan voltou do quarto. Nas mãos um cobertor. – Você pode dormir no sofá, se quiser.

— Mesmo? Não tem medo que eu te ataque? – ele brincou, provocando-a.

O semblante dela permaneceu estático.

— Só se você fosse corajoso o suficiente para tentar... – devolveu, e voltou para o próprio quarto.

Havia dois sofás na sala. Um deles já estava com travesseiro e cobertor. Pelo jeito, Jean passaria a noite lá também.

— Você e Audrey são bons amigos, não? – Suk questionou.

Não podia evitar! Mesmo percebendo que Jean era homossexual, ele sentia um absurdo ciúme do outro.

— Audrey e eu nos detestamos – Jean foi absolutamente sincero.

— Vocês estão sempre juntos!

— Temos os mesmos objetivos, somente isso.

Como se estivesse encerrando qualquer assunto, o menor virou-se de costas e dormiu.

***

— O quê?

— Minha mãe – Suk lhe entregou um copo de suco. – Quero que conheça minha mãe.

Estavam na lanchonete. Aliás, no último mês ela não mais se esquivava da presença dele. Passavam horas juntos, estudando ou conversando. Francamente, Nowaki não se sentia mal em fingir que estava interessado na cor favorita de Jimin Park ou no seu último solo do CD. Para ele bastava ouvir o som da voz de Audrey, e já que Jimin era o que mais a entusiasmava para falar, ele aceitava sem problemas.

— Onde ela está? – a garota perguntou.

— Na América.

Morgan arregalou os olhos.

— Você quer que eu vá para a América para conhecer sua mãe?

— É só um final de semana. – ele disse. – Um final de semana em família. Minha mãe vai adorar você.

— Nowaki, eu não tenho dinheiro nem pra pegar um táxi, quiçá um avião!

O rapaz sorriu sedutor.

— É impressionante como você se esquece de que seu namorado é um astro famoso dono de uma fortuna.

Introduzir o assunto sempre lhe causava apreensão. Por mais que Morgan tivesse aceitado sua presença, ela não parecia ansiosa por seus sentimentos.

— Escute... – ela começou.

Porém foi interrompida por um leve beijo. Audrey não correspondeu, porém, tampouco, o afastou.

— Eu sinto muito – ela sussurrou, assim que as bocas se desgrudaram.

Rapidamente ele ergueu as mãos, pousando dois dedos sobre os lábios cheios. Não queria ouvir porque já conhecia o discurso: "Eram apenas amigos".

— O que eu preciso fazer para ter alguma chance, Audrey? Diga-me apenas isso.

A mulher baixou a fronte.

— Gosto muito de você, Nowaki – ela murmurou. – Mas, eu não sou capaz de amar.

— Você é capaz de amar Jimin... – rebateu, magoado.

— Jimin me devolveu tudo, inclusive a vida. Ele não sabe disso ainda...

— Ele é só alguém que você idealiza, Audrey! Nem sabe que você existe!

— Mas vai saber!

— Não é tão fácil assim conseguir uma vaga para trabalhar ao lado de alguém famoso. Por que não esquece essa obsessão e viva uma realidade ao meu lado?

Ela o encarou, parecia desconfortável. Nowaki não sabia, mas Morgan não admitia pressão.

— Desculpe – ela sussurrou, novamente. – Eu preciso te contar algo...

— Cinco meses! – ele sugeriu, a voz alta. – Me dê cinco meses para fazê-la feliz. Quando terminar esse prazo, você dirá se aceita se casar comigo ou não.

— Isso é loucura...

— Eu te amo desde a primeira vez que você gritou comigo na sala de aula – riu. – Não acha que mereço uma oportunidade?

***

Audrey Morgan não aceitou viajar com Nowaki para os Estados Unidos naquela semana. Porém, ele não se incomodou. Ainda teria a chance de levá-la para ver sua mãe, assim que ambos se casassem. Porque, tinha certeza, ela era a mulher certa para ele. A mulher que sempre sonhou, mas que jamais esperou que realmente fosse cruzar seu caminho.

Quando se encerrou o tempo de visita, pegou o primeiro avião e chegou ao final da tarde em Paris. Antes mesmo de ir até seu luxuoso apartamento próximo à Capela Sorbonne, cruzou por uma floricultura e comprou as rosas vermelhas mais belas que já havia visto. Pouco depois o táxi parava em frente ao prédio de Morgan.

Subiu correndo as escadas de madeira, e logo estava em frente à sua porta. Bateu com força, um sorriso otimista nos lábios. Porém, quem o atendeu foi Jean.

— Audrey? – ele indagou ao outro.

O mestiço parecia surpreso.

— Ela não te contou?

— Contou o quê?

— Morgan estava tentando há um mês uma vaga num filme. E, graças à indicação dos professores, ela conseguiu o trabalho. Ontem ela viajou para os EUA para se reunir com a equipe de filmagem de Latter Love.

***

Atualmente...

— O que faz aqui?

Nowaki ignorou a pergunta.

— Cortou o cabelo – ele constatou, erguendo a mão e tocando as madeixas negras. – Tirando isso, continua exatamente igual à mulher que me abandonou.

Morgan negou com a face.

— Nunca o abandonei.

— Você foi embora sem sequer se despedir! – disse, ríspido. – Me fez acreditar que me daria cinco meses, me fez crer que eu poderia conquistá-la.

Audrey baixou a face.

— Você foi a primeira pessoa que tive como amigo, Nowaki – confessou. – Se te feri, peço desculpas.

Nowaki sorriu. Aquele ar frágil que ela tinha continuava lá. Mesmo ele sabendo a fortaleza que a mulher era, a mesma permanecia tão delicada quanto uma porcelana.

— Achei que fosse me procurar quando soubesse que estou trabalhando com Jimin Park – ele confessou.

— Está trabalhando com Jimin?

Sua surpresa era evidente.

— Não sabia?

— Estou com tantos problemas, sequer me inteirei dos últimos trabalhos...

— Uau! – ele gargalhou. – Isso eu não esperava. Achei que Park fosse à coisa mais importante de sua vida.

— E ele é! – afirmou, cruel.

Nowaki mordeu o lábio inferior.

— Como você sabia onde eu estava? – a mulher inquiriu.

—Já tem alguns anos que tenho uma pessoa seguindo você – assumiu, sem medo.

Morgan abriu a boca, em espanto. Então... a pessoa que ela sentia vigiando-a...? Mas, por que só notou a presença há poucas semanas?

— Você tentou me matar? – estava furiosa.

— Não! – ele quase gritou. – Por Deus, eu amo você! – disse.

Era quase um delírio. Tantos anos depois, e Nowaki continuava com o mesmo discurso.

— Um carro tentou me atropelar – ela contou. – E tem vários dias que sinto que estou sendo seguida.

— A pessoa que eu contratei me mandou um e-mail comunicando que notou alguém atrás de você. Disse que me traria fotos e marcamos um encontro. Contudo, ele não apareceu. Faz semanas que estou tentando entrar em contato, e hoje pedi para um dos meus assessores avisar a polícia de seu sumiço.

Morgan baixou a fronte, assentindo.

— Por que colocou alguém pra me vigiar?

— Porque precisava saber se ficaria bem – assumiu. – Tinha medo que se machucasse...

— Por descobrir que Jimin é gay? – ela riu.

— Achei que quando compreendesse você fosse me procurar, mas nunca o fez.

— Eu não quero te machucar, Nowaki.

Subitamente os braços fortes a envolveram num abraço saudoso. Audrey não se moveu. Por mais que desejasse demonstrar aquele homem a importância que teve em sua vida, não podia alimentar nele falsas esperanças.

Nesse ínterim de dúvidas, um rosnado fez ambos olharem para o lado. Separaram-se, como se estivessem sido pegos em um pecado mortal.

— Namjoon? – A sobrancelha delineada erguida em indagação, diante do olhar colérico do melhor amigo.

— Nunca mais... – a voz masculina e forte saiu alta – toque no que é meu – ele avisou a Nowaki.

E, antes que qualquer um deles pudesse esboçar qualquer comentário, Morgan sentiu-se sendo puxada pelo braço. Em segundos, desaparecia pelo saguão.

Suk não tentou detê-los. Respeitou aquele casal, por mais que o mesmo destroçava sua mente e arruinava seu coração.

— Então a vida continuou para ela... – sussurrou para si mesmo.

Era estranho, já que ele ainda continuava com o pensamento no mesmo lugar, há sete anos, na imagem da pessoa que havia roubado seu coração.

 

Tradução:

- Meu amigo, em francês.

 

Bon Vivant é uma expressão francesa que quer dizer, numa tradução simples, playboy.

 

Tipo de droga sintética comum em festas. Produz efeito psíquico e causa dependência física.

 



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